Sábado, 3 de Março de 2012

Garrett liberal, romântico, escritor, homem de espírito, pesquisador, homem de acção...

 

 

 

 

Ninguém (a partir de Frei Luís de Sousa)*

Teatro da Trindade, Lisboa 1978-79

 

Foto (Detalhe): António Lagarto 

 

 

De onde vem o meu interesse por Garrett? Sempre foi, em primeiro lugar, literário. As coisas não começaram bem. A primeira recordação que tenho é a de ter lido o Frei Luís de Sousa no liceu. Sou do tempo dos liceus. Nessa altura, tive um professor de português que me disse que o FLS era uma «lufada de ar fresco no teatro português». A peça não era uma novidade, já tinha visto várias produções televisivas que, nessa época, eram ciclicamente transmitidas. Umas melhores, outras piores, eram geralmente medíocres. Do alto da minha insolência adolescente decidi que o FLS era exactamente o contrário: uma coisa doentia.

 

O tempo que mediou entre esse momento e a descoberta de que o tal professor estava coberto de razão constituiu verdadeiramente o meu percurso de descoberta de Garrett. O meu deslumbramento seria total.

 

O teatro português é pobre e só tem dois autores grandes (perdoe-se-me o radicalismo): Gil Vicente e Garrett. O resto são inexistências, miudezas, tentativas, ou obras avulsas. Apesar de muito conhecida, não se tem sublinhado suficientemente a natureza da concepção trágica enunciada por Garrett na Memória ao Conservatório Real. Talvez um dia possamos abordar isso aqui. Além do mais, o FLS podia ter dado, se tivéssemos tradição musical, uma grande ópera. A grande ópera portuguesa.

 

Nesse caminho de descoberta e conversão, as Viagens constituem um momento fundamental. Primeiro, em leitura desconcertada. Mais tarde, ajustadas as peças do puzzle, penetrei o seu mundo e amei-as até hoje. Elas permitiram a descoberta de toda uma família literária e espiritual, a que julgo, modestamente, pertencer.

 

Para ler as Viagens (percebi-o ainda mais perfeitamente quando as ensinei) é preciso – toda a leitura é assim – «acertar» primeiro com o tom em que devem ser lidas. Depois, é preciso saber mover-se na infinidade de referências de que é feita. Isso é também parte da sua modernidade.

 

É preciso ter aprendido a ler uma página de um livro apenas pelo prazer da sua leitura. É preciso também ter passado por muitos outros autores e muitos outros livros. É preciso descobrir a sua desenvoltura e compreender a sua novidade.

 

Por tudo isso, as Viagens acumularam gerações de equívocos e inimizades feitas na escola: é uma obra que precisa de um certo grau de maturidade para ser bem lida. Para ser saboreada. Eis outro tema que, por si só, mereceria reflexão.

 

Um outro momento fulcral foi o texto admirável de David Mourão-Ferreira (que falta faz David) sobre As Folhas Caídas (primeiro publicado num opúsculo da Seara Nova, depois incluído na colectânea Hospital das Letras). Por aí se podem descobrir proximidades e distâncias entre a vida vivida e a vida escrita, entre o impulso confessional e os caminhos do engenho, entre os sobressaltos reais e o artifício literário.

 

Fui também descobrindo, como é evidente, outras coisas sobre o homem e as suas circunstâncias, as suas contradições, os seus dilemas.

 

Garrett: o soldado liberal capaz de apontar os vícios do liberalismo. O romântico (como hoje o entendemos) que, romanticamente, recusava o romantismo (como então se entendia). O escritor cuja glória literária não fez apagar o drama pessoal. O homem de espírito. O pesquisador das raízes do nosso imaginário poético. O autor cujo nacionalismo não era provinciano e tinha, sem paradoxo, um cunho europeu. E também o realizador, o homem de acção. O congregador de vontades. O político, o orador. O crítico impiedoso da negligência portuguesa. E também o civilizado, o mundano, o autor de O Toucador, jornal para damas, o dandy, o elegante cheio de souci de soi, o sedutor. O visconde.

 

E, claro, de novo o infinito sabor da sua prosa, o donaire, para usar a expressão de outro tempo, tão deliciosa, que o meu querido amigo João Bigotte Chorão gosta de usar a propósito da escrita garrettiana (cf. o prefácio à edição das Viagens da Lello).

 

Porque a admiração pela obra também se faz da descoberta dos outros admiradores de Garrett, o escritor que tantos escritores bem diferentes admiraram sem reservas, desde logo Camilo e Eça. E ainda há uma pequena mas sólida «confraria» garrettiana que reúne gente muito diferente entre si, irmanada nessa admiração.

 

Jorge Colaço

in blog o divino** , 9 Janeiro de 2005

 

Jorge Colaço escreve aqui 

 

 

 

 

 aqui

 

 

 

 

 

 

 

* Ninguém (Frei Luís de Sousa):

Encenação de Ricardo Pais

Texto de Almeida Garrett, Maria Velho da Costa, Alexandre O'Neill

Música de Carlos Zíngaro

veja o cartaz do espectáculo aqui

 

** O blog garrettiano o divino foi recentemente desactivado no blogs.sapo.pt

 

 

publicado por VF às 00:04
link do post | comentar | favorito
Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

OM



 

 

 Na estreia da peça O Fidalgo Aprendiz de D. Francisco Manuel de Melo,

encenada por Osório Mateus (ao centro)

Sarau dos Finalistas do Liceu de Viseu (66/67), 21 de Janeiro de 1967  

aqui


 

 

Osório Mateus (1940-1996), investigador, homem de teatro e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi uma personalidade marcante pelos métodos inovadores que usou em todos os domínios da sua actividade. Aliou sempre a investigação académica e o trabalho desenvolvido com os seus alunos à prática teatral, fundando companhias — Os Cómicos (1974) e Produções Teatrais (1978) — e encenando espectáculos — O Fatalista de Diderot (1978), Tragédia Infantil (1979), Garrettismos (1984), entre outros — a par da construção de um importante corpus teórico sobre a prática e o estudo do teatro, e a investigação da história do teatro. Os Cadernos Vicente que dirigiu (1988-1993), definindo-os como "programa de análise monográfica da produção artística do autor dos autos", revelam o seu método de trabalho de edição: revisão exaustiva dos textos por autor e leitores.

Osório Mateus doou à Faculdade de Letras um dos maiores acervos bibliográficos e iconográficos de Teatro e Artes do Espectáculo do país, que integra actualmente outros espólios doados pelos seus proprietários, além de ofertas de autores, editores e companhias. O tratamento do fundo documental e bibliográfico tem sido feito pelo Centro de Estudos de Teatro, responsável pela organização do livro de teatro e outras escritas apresentado aqui, bem como exposições (Papéis de Teatro, 2000, Vicentina, 2002) e leituras encenadas. 

 


  

Centro de Estudos de Teatro aqui 

 

Espólio Osório Mateus aqui 

 

Cadernos Vicente aqui 

 

Outro post dedicado a Osório Mateus aqui 

publicado por VF às 01:06
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Garrett leitor de Vicente (2)

 

Em 1838, Almeida Garrett escreve, ensaia e produz Um Auto de Gil Vicente, drama histórico em torno da partida da infanta e da representação de Cortes de Júpiter, o auto a que o título se refere. O drama foi escrito entre 11 de Junho e 10 de Julho.

estreado 15.08.1838.

Edição romântica de Hamburgo. Por ela, em 1838, Garrett faz Um Auto de Gil Vicente.

 

A estreia, no Teatro da Rua dos Condes na noite de 15 de Agosto, num espectáculo ensaiado por Emile Doux, com cenários de Palluci, é o primeiro acto público do romantismo em Portugal. [...] 

É a primeira vez, depois de séculos de interrupção, que palavras compostas por Gil Vicente são ditas no teatro. O projecto de fazer de novo representar Gil Vicente só tem continuidade sessenta anos depois (1898), final do século XIX, à aproximação do IV Centenário (1902).

 

Grande parte dos versos de Cortes de Júpiter é incluída no texto de Um Auto de Gil Vicente, com novos recortes e nova montagem, muito diferentes da sequência original. Garrett parece intuir que fazer ressurgir Vicente não é trabalho fácil, que não pode haver a veleidade mecanicista de querer representar tal e qual aqueles autos, como se fossem peças de repertório.

 

 

A ficção de Garrett implica mostrar o auto a ser ensaiado (Actos I e II) e a fazer-se (Acto II).

A representação é acidentada e incompleta: Bernardim Ribeiro, apaixonado infeliz da infanta, que tem de o abandonar pelas razões de estado e partir, executa, sem ensaio, a figura da moura Tais, para se aproximar de Beatriz, dizer outros versos e lhe meter no dedo um anel devolvido. Gil Vicente e sua filha Paula representam Júpiter e a Providência.

 

eu não quis só fazer um drama, sim um drama de outro drama, e ressuscitar Gil Vicente a ver se ressuscitava o teatro 


Representar representação é um jeito que Almeida Garrett já tinha ensaiado em 1821 n'O Impromptu de Sintra. Nos anos 30, o teatro no teatro é modernidade romântica.


 

Osório Mateus

in de teatro e outras escritas * 

“Garrett leitor de Vicente / Garrett e Vicente” [3] pp.271-272

© José Camões e Quimera Editores 

 

 

 

 

 aqui


 

 

* da Nota Editorial:

[de teatro e outras escritas] reúne uma centena de textos escritos e quase todos publicados entre 1971 e 1995. [...] Gil Vicente é objecto de eleição e, sem dúvida, a contribuição mais fértil do trabalho crítico de Osório Mateus. Os estudos sobre os autos são hoje incontornáveis e realizam, na segunda metade do século XX, uma proposta de restauro das condições primeiras da sua existência teatral. Esta perspectiva preside, aliás, desde cedo ao modo de entender o estudo dos textos a que chamamos dramáticos, e muitos dos ensaios apresentam-se hoje como lugar de teorização sobre o teatro nas suas múltiplas formas. [...] A seu modo, cada um deles consegue ser um certeiro gesto para uma história do teatro por fazer, tornando visíveis lugares-comuns ou inexac­tidões que importa identificar, abrindo outros lugares de interrogação, convocando os instrumentos adequados para o trabalho imenso que espe­ra por ser feito.



 

 

 

 

publicado por VF às 17:31
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Garrett leitor de Vicente



Almeida Garrett, a figura mais avançada de entre os artistas românticos de raiz burguesa e liberal, é dos primeiros leitores modernos de Gil Vicente. Aos 23 anos, em O Toucador (periódico sem política, dedicado às senhoras portuguesas, 1822), apresenta um resumo e fragmentos de Mofina Mendes. Em 1822, em Portugal, Gil Vicente é um autor caído no esquecimento, ou conhecido de muito poucos. As duas últimas edições completas dos textos datam do século XVI (1562 e 1586) e já não há muitos exemplares de nenhuma delas.[...]

 

1826, no prefácio do Parnaso Lusitano, Garrett escreve: 

O próprio Gil Vicente não deixa de ter seu cómico sal, e entre muita extravagância muita coisa boa; Bouterwek e Sismondi parece que escolheram o pior para citar; muito melhores coisas tem, particularmente nos autos, superiores sem comparação às comédias. A soltura da frase e a falta de gosto são os defeitos do século: o engenho que daí transparece é do homem grande e de todas as épocas. Em nota, acrescenta: Reservo-me para uma edição que pretendo publicar do nosso Plauto, fruto de longo e penoso trabalho, para examinar melhor este ponto e demonstrar o que aqui enuncio. Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa

Paris: Aillaud (VII-XVI:XIII).


Não realizou o seu projecto, mas é possível que seja ele o instigador da edição de Hamburgo.

A edição romântica que inaugura a época moderna de Gil Vicente e o torna o primeiro autor clássico do século de ouro.

 

 

Osório Mateus

in de teatro e outras escritas

“Garrett leitor de Vicente / Garrett e Vicente” (1 e 2) pp.269-270

© José Camões e Quimera Editores

 


 

 

 


publicado por VF às 11:12
link do post | comentar | favorito
Domingo, 12 de Abril de 2009

Garrett inédito

 

 

 

 

"Barca Nova"

manuscrito autógrafo de Almeida Garrett

 

 

 

 

BARCA NOVA

 

 

Quem quer ver a barca nova

Que se vai deitar ao mar ?

San João é marinheiro

Os anjinhos a remar

 

Por bandeira as Cinco Chagas

São o estandarte real;

Dentro vai Nossa Senhora,

Agulha de marear.

 

As três Marias à proa

Sentadas vão a cantar,

Seus manteos pela cabeça

A gemer e a chorar:

 

- “Oh vós todos que passais

Pela terra e pelo mar,

Vinde ver a minha dor

Se há dor que a possa igualar !”

 

Ali vai Nosso Senhor

Ali vai a enterrar,

Nos braços da Virgem Santa

Que o está a amortalhar

 

Vai José e Nicodemus

Para o  ungir e imbalsemar;

Chegou ao Santo Sepulchro

Lá o vão depositar.

 

Venham guardas e soldados

Este sepulchro a guardar !
Mas no cabo de  três dias

Vê-lo hão ressuscitar

 

À mão direita do Padre

Na glória se há de ir sentar;

E no cabo desta vida

Ele vos virá julgar

 

Pecadores, pecadores

Não vos deixais afogar:

Acolher à barca nova

Os que se querem salvar

 

 

 

 

manuscrito autógrafo de Almeida Garrett

Introdução a "Barca Nova"

 

 

 

Nestas trovas — que não sei se lhes chame romance, lenda, loa ou o quê — há um ar de semelhança tão visível com a “Barca dos Anjos” de Gil Vicente, há um sabor tão forte àquela alusão poética e apaixonada da meia-idade, que me não fica a mínima dúvida de que nasceu por esses tempos. Daí se viria traduzindo, pela tradição oral que a conservou, até ao presente estado em que se acha.

 

Hoje, Quinta-feira santa de Abril de 1843, a copiei do que estava ensinando a minha filha Maria Adelaide, a nossa cozinheira Joaquina, mulher de cinquenta anos à volta, natural de Torres Vedras.

 

Já notei noutra parte que este nome de Barca significava dantes o que quer que fosse de representações musicais misturando o canto na declamação.

 

Seria isto composto para alguma procissão do enterro do Senhor que noutro tempo, especialmente nas províncias do Norte, era uma espécie de auto ou representação daquele último passo da paixão do cristo ?

 

É também para notar — e nem é imprópria a ocasião — quanto os portugueses nação marítima e marinheira, gostavam de dar à última viagem que se faz no féretro todo o aparelho de uma viagem de mar. “Esquife” que em muitas línguas, e também na nossa, significa uma pequena embarcação – em português igualmente quer dizer a tumba em que se leva os mortos a enterrar.

 

Lembro-me de ver, em pequeno, na Igreja que fora dos jesuítas, em Angra, um esquife com a forma e jeito de barco, que servia para levarem na procissão do enterro em Sexta-feira Santa a imagem do Senhor morto.

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

conheça a história dos manuscritos aqui (blog "O Divino", post de 7-12- 2004)

publicado por VF às 11:42
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

pesquisar

mais sobre mim

posts recentes

Garrett liberal, romântic...

OM

Garrett leitor de Vicente...

Garrett leitor de Vicente...

Garrett inédito

tags

todas as tags

links

arquivos

Creative Commons License
This work by //retrovisor.blogs.sapo.pt is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Blogs Portugal

blogs SAPO

subscrever feeds