Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

All Souls College.jpg

 All Souls College, Oxford

 

 

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Ao correr da pena

 

 

 

E.P., que se pronunciava I Pi porque estávamos em Inglaterra e o homem era inglês, Edward Evan Evans-Pritchard no passaporte (os ingleses são anti-jacobinos saudáveis e nem cartões de identidade admitem), Professor de Antropologia Social e Fellow de All Souls na Universidade de Oxford, nesse tempo o mais conceituado oficial do seu ofício em todo o país, baptizado na fé dos pais, dos avós, dos bisavós e por aí acima até ao reinado de Henrique VIII que mandara Roma às urtigas e fundara a igreja anglicana, convertera-se ao catolicismo contra a maré, já homem crescido. Eu vinha de país católico, fora recomendado ao Instituto de Antropologia de Oxford por Ruy Cinatti (que, ao mesmo tempo, me persuadira a mim a ir para Oxford, pois eu ia matricular-me em University College, Londres. Deste fixei regulamento se se faltasse a exame: apresentar atestado de doença ou when appropriate certidão de óbito; o caso mais extremo de insolência funcionária de que me lembre), o Ruy era católico exigente, quase jansenista - “Eu com o Antigo Testamento entendia-me; depois veio aquele gajo, glú-glú, fló-fló, estragou tudo!” – enquanto eu me dizia agnóstico mas, quem sabe, talvez fosse mesmo ateu. Pérolas a porco. Sem nunca termos falado dessas coisas, I Pi sabia.

 

Um dia, no pub, a tomar half-a-bitter, disse-me: “Sabe, para se ser católico (to be a Roman catholic) é preciso ser-se muito estúpido ou então muito inteligente”. Deixando-me na ‘no man’s land’ intermédia que me cabia, pediu-me para o ajudar com livro de memórias que lhe mandara pelo correio Hortense Powdermaker, antropóloga americana do seu tempo, que também fora aluna de Malinowski (Malinowski era polaco, de nacionalidade alemã em 1914, fazia trabalho de campo em ilhas no Pacífico do Império Britânico, e fora lá internado durante os quatro anos da guerra, depois ensinara na London School of Economics, deixando-nos uma obra prima “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. Conhecia a sua arte de alto a baixo: “A antropologia ensina o administrador a tirar terra ao indígena seguindo os costumes do indígena”.) I Pi ia ser operado às cataratas. “O que é que quer que eu veja?” “Procure-me no índice”. Encontrei várias entradas, li-lhas, gostou do que ouviu, disse que Hortense era boa rapariga e acrescentou pormenores salazes da relação dela com Malinowski. Em coscuvilhice, intriga, ofensas e maledicência, pior do que um departamento universitário nem as cúpulas de um partido político (“enquanto há morte há esperança”) nem as/os prima-donas de uma companhia de ópera. Henry Kissinger acha que essa intensidade desmedida é devida à pequenez do que está em jogo.

 

À leitora que tenha chegado aqui acrescento: se de médico e de louco todos temos um pouco, agora de comentador também. Somos mais do que as coisas a comentar e declaro uma trégua. A Inglaterra sai ou entra? Qual dos Costas tem razão? Obama é mesmo um banana? Deixo palpites para outro dia e fico-me pelas caturrices de I Pi.

 

 

 

publicado por VF às 10:20
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Domingo, 25 de Outubro de 2015

Cadernos de Poesia

Cadernos_de_Poesia.jpg

 

 

A primeira série dos “Cadernos” (1940-42) foi organizada pelos três poetas referidos e engloba cinco números antológicos; a segunda (1951) foi concretizada por Jorge de Sena, Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal e José-Augusto França com sete fascículos. A terceira teve três números (1952-53).

 

 

 

publicado por VF às 22:28
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Domingo, 13 de Setembro de 2015

Tomaz Kim (1915-1967)

 

Tomaz Kim 1961.jpg

  Tomaz Kim / Joaquim Monteiro-Grillo

 

 

Nascido há cem anos, em 1915, e desaparecido em 1967, foi poeta*, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, ensaísta, tradutor. Deu a conhecer ao público português muitos escritores da literatura inglesa e americana.

 

É justamente recordado este mês no Jornal de Letras num extenso artigo ilustrado com uma fotografia que aqui publiquei em 2009. Foi aliás a fotografia que me conduziu à descoberta do excelente texto de Fernando J. B. Martinho, de que reproduzo este pequeno excerto, a acompanhar uma tradução de Tomaz Kim que encontrei junto de recordações dele que os meus pais guardaram, neste caso uma simples folha de bom papel, bem impressa em frente e verso.

 

*  

 

Os dois volumes do que consideramos ser a segunda fase da sua obra situam-se num período em que a carreira académica do poeta iniciada em 1947 alcança justíssimo reconhecimento institucional, que a morte precoce, em 24 de Janeiro de 1967, pouco antes de atingir os 52 anos, veio, lamentavelmente, interromper. É este um período em que o poeta, fiel continuador do que há já de uma sólida tradição modernista em termos nacionais e internacionais, faz acompanhar a sua prática poética da tradução de poetas ingleses e americanos (com maior incidência na 2ª metade dos anos 40, no Diário Popular), e de textos de doutrina crítica, de Shelley e T.S. Eliot, e de ampla produção crítica e ensaística própria, que assina com o seu nome civil, Joaquim Monteiro-Grillo ou J. Monteiro-Grillo.

[Fernando J. B. Martinho in "Tomaz Kim Um poeta de tempos dramáticos" - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Número 1172 – 2-15 Setembro de 2015] 

 

 

 

Minster Lovell tradução Tomaz Kim.jpeg

Minster Lovell, de David Wright, tradução de Tomaz Kim

 

 

 

 

 

MINSTER LOVELL 

 

 

Now I a ghost ascend a broken stair

where no more the cold fingers of the rain

comb, or the winds caress my long brown hair;

I move among the populous passages

peopled with brown leaves and the sluggish weed,

and the wind's mutterings and memories

of sere wolds and the dark Atlantic seas.

 

 

Remembering now the dancing. O my lover

break down the cold embraces of the grave:

murder the time, recover

the lost words, the lost glances.

 

 

Remembering now the dancing. I remember

voice of the harp, the tender

not of the flute, the tremble

of the low-toned clavichord;

the whisper of the dresses

as the dancers turned and parted

as the music paused and started.

The dancers are departed.

 

 

 

Now I a virgin ghost, under the cold

and lunatic moon, forsaken. Whom these walls

already have forgotten. Whom they hold

in the dark rain of spring, in the cascade

of the clear pool that will not wet my feet.

 

 

 

O find me whom I fled

before the leaden pressure of the lid

weighs down the thin white arms and bended head.

Who only hears the voices on the stair

who cannot hear the dry grate of the lock.

 

 

 

I am bound in with darkness. In the iron

strong womb of time. The lover

clasped by a stronger, more enduring arm;

in a more proud embrace.

 

 

 

O find me. Find, recover.

Break down the cold embraces of the grave:

shatter these hasps, and scatter

eternal walls, and batter

with a white leap of light the night. Discover

the bright horizons.

 

 

 

I heard a footstep on an outer stair:

I heard a voice call once, and call my name.

I blinded in the tangle of my hair,

pressed in with darkness. Who will not recapture

the sunlight or the crocus, who will wander

in the moon's error and the winds, forgotten.

Virgin of the spring rains, among these walls.

 

 

 

Now I the ghost of a delighted bride

brought to a dark unrobing, and a bed

celibate, to surrender

a living virginity for a dead;

O this my pride to tender

to the malicious worm my slender head.

Brown hair and white limbs, who will not remember?

 

 

 

I not await him. I await no lover;

who overtakes the still feet of the years?

And I have mouldered in the dust too long,

too long my being in the. darkness fed.

Under the sallow moon I must await,

tenant of hollow winds and bitter rain,

the new birth of the crocus. Non deliver.

 

 

 

And none return. The constellations wheel

westward; and westward the reluctant moon.

None shall burst down the indurate barriers;

none open wide the doors: and none return.

Westward the moon. Inhabitant of the springs,

the short grass and the broken palaces,

I meditate the winds and the cold rain.

 

DAVID WRIGHT *

 

 

 

 

 

MINSTER LOVELL (tradução de TOMAZ KIM)

 

 

Ora, eu, um espírito, ascendo a escada carcomida

Onde não mais os álgidos dedos da chuva penteiam,

Ou o vento acaricia, a minha longa cabeleira fulva.

Caminho por entre populosas veredas

Povoadas de folhas secas e erva daninha inerme

E murmúrios do vento

E lembrança

De tantos plainos e sombrios mares atlânticos.

 

 

 

Lembro, agora, a dança... Ó, meu amado!

Desenlaça o gélido abraço da tumba:

Assassina o tempo,

Retoma as palavras perdidas, o perdido olhar...

 

 

 

Lembro, agora, a dança.,.

Lembro a voz da harpa,

O terno trinar da flauta,

O trémulo grave do clavicórdio,

O sussurro das vestes,

enquanto os bailarinos rodopiam e se separam,

Quando a música se detém e recomeça.

 

 

 

Foram-se os bailarinos.

 

 

 

Ora, eu , espírito de uma virgem,

Abandonada sob a lua fria e tonta,

A quem estes muros já esqueceram,

A quem eles retêm na chuva escura da Primavera,

Na cascata da límpida lagoa que não molhará meus pés...

 

 

 

Oh, encontra-me, a mim, de quem eu fugi,

Antes que o plúmbeo peso da tampa

Comprima os alvos braços esguios e a cabeça tombada,

Aquela que ouve apenas as vozes na escada

Aquela que não pode ouvir do ferrolho o áspero arranhar.

 

 

 

Envolta estou em treva

No fero útero férreo do tempo.

O amado,

Enlaçado por um braço mais firme e duradouro

Num mais soberbo abraço.

 

 

 

Oh, encontra-me,a mim. Busca, retoma.

Desenlaça o gélido abraço da tumba,

Despedaça estas ferragens

E dispersa os muros eternos

E desfaz a noite com um alvo arranco de luz.

Descobre os rútilos horizontes ...

 

 

 

Ouvi passos numa escada, lá fora,

Ouvi uma voz a chamar uma vez, a chamar pelo meu nome.

Eu fiquei cega no emaranhado do meu cabelo,

Confundida com a escuridão,

Eu, aquela

Que não virá acolher a luz do sol ou a flor do açafrão,

Aquela que vagueará, esquecida,

Nos enganos da lua e do vento,

Virgem das chuvas da primavera,

Entre estes muros...

 

 

 

Ora, eu, espírito de uma noiva deslumbrada,

Levada a um tenebroso desvelar

E a um leito solitário

Para render

Uma virgindade viva a uma virgindade morta...

Oh, este, o meu orgulho:

Ofertar ao verme malévolo a minha cabeça donairosa!

Cabeleira fulva e alvos membros, Quem os não lembrará?

 

 

 

Não espero por ele. Não espero nenhum amante;

Quem ultrapassará as quietas passadas dos anos?

E eu me desfiz em pó, no pó, há muito, já...

Há muito, já, meu ser das trevas se alimentou.

 

 

 

Hóspede do vento cavo e amarga chuva,

Sob a lívida lua, eu tenho de aguardar

O novo natal da flor de açafrão.

 

 

 

Ninguém o fará.

 

 

 

E ninguém regressará.

As constelações rodam para ocidente

E para ocidente, a lua relutante.

Ninguém derrubará as barreiras firmes,

Ninguém escancarará as portas

E ninguém regressará.

Para ocidente, a lua.

 

 

 

Habitante das fontes,

Da erva núbil e dos palácios em ruínas,

Eu pondero os ventos e a chuva fria!

 

 

 

 

*

 

 

Notas: 

 

Obra Poética de Tomaz Kim aqui

 

Cadernos de Poesia aqui

 

Fundada por Tomaz Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti, a revista “Cadernos de Poesia” teve publicação intermitente, em três séries e quinze números, nos anos 1940-42, 1951 e 1952-53, revelando alguns dos poetas portugueses mais marcantes da segunda metade do século XX: além dos fundadores, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade.

 

 

David Wright aqui 

 

 

 

Veja também neste blog os posts:

 

 

Exercícios Temporais

 

Tempo de Amor

 

Amigos (1950)

  

Cozinha do mundo português

 

 

 

 

 

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Segunda-feira, 9 de Dezembro de 2013

Bloco-Notas

 

 

Ultimamente tenho abrandado o ritmo de posts, às vezes por falta de tempo para dedicar ao blog e outras vezes por falta de material e de inspiração. Gostaria de ter chegado aos 500 nestes cinco anos mas o meu espólio familiar tem naturalmente limites e, de momento, não tenho novas colecções em mãos. As minhas leituras também se têm prestado menos, nos últimos tempos, à composição de vinhetas politico-literarias.

 

Serendipity:

 

Estava eu nesta dificuldade quando José Cutileiro me telefona a propor — muito cerimoniosamente, o que ainda me faz sorrir — alojar a sua crónica “Bloco-Notas” no Retrovisor. Nesta blogosfera recheada de espaços tão apetecíveis, anuncia-me que, of all places, gostava de estrear-se neste cantinho. Terá sido o chamamento de gente como Cinatti, O’Neill, Nemésio ou Garrett?

 

Preciso de explicar que José Cutileiro é o meu Perfect Reader, o leitor ideal, o leitor a que aspira todo aquele que escreve, o leitor exigente que leu o que escrevemos de fio a pavio, percebeu tudo e gostou do que viu. Neste caso, não só gostou como se deu ao trabalho de redigir e publicar na revista do MNE uma resenha elogiosa de Retrovisor, um Álbum de Família, ultrapassando largamente tudo o que eu poderia esperar em termos de reconhecimento de um trabalho tão circunscrito. Nem sequer nos conhecíamos pessoalmente em 2009, foi o meu irmão que lhe deu o livro.

 

Desta feita, o meu leitor ideal dá-me a enorme alegria de vir arejar este "cabinet de curiosités", que andava muito precisado, e abrir-lhe as portas a novos leitores, a quem dou desde já as boas vindas. 

 

 

Stay tuned, o Bloco-Notas de José Cutileiro começa a 11 de Dezembro. Sai à quarta-feira.

 

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Domingo, 15 de Setembro de 2013

Timor, páginas de um diário poético (2)

 

Nas praias solitárias da ilha de Timor as frondes e as palmas sacodem já uns vagos restos de neblinas. Vale de Lahane acima vão fugindo esgarçadas pelos fustes mais altos; alcandoram-se, por fim, ameaçadoras, nas ramagens sombrias da verde floresta de eucaliptos. As linhas de cumiada cobrem-se de uma vegetação estranha. As árvo­res são as mesmas, os eucaliptos de tronco rugoso e escuro, mas em vez de folhas pegam-se aos ramos e raminhos os farrapos de musgo, cor do nevoeiro. Estranha paisagem, repito, como a de um país do Norte, onde a voz se escoa em surdina e o olhar descobre formas deambulantes e translúcidas, por entre a profusão de fetos arborescentes, polipódios, «ninhos de ave» e outras plantas que recordam os primei­ros tempos da Terra. Verdadeiramente, uma paisagem de sonho onde a solidão cami­nha a nosso lado e se insinua connosco nas profundidades inenarráveis do mistério. Quando, porém, o sol devassa aquela penumbra esverdeada e evapora de todo os nevoeiros, é ainda a solidão que nos espera, mas uma solidão alheia aos secretos apelos da vida. A natureza remoça, temporariamente, mas sem a omnipresença das seivas criadoras. E o mistério perdeu-se.

Era o tempo de abrir a alma aos quatro ventos, subir para as alturas e aspirar o ar fino e frio; de me sentir o senhor da Terra, «Rainai» de Timor, absorto... Das grandes alturas a vista imensa abarca montes e montes, serranias cruzadas, dois a três mil metros rolando, como as vagas de um mar fortemente encapelado. A ilha sente ainda a proximidade do anel de fogo que nas Flores e em Lomblem ascende em majestosos vulcões; do Tata-Mai-Lau posso abranger em dias claros de Setembro o maior comprimento, e de ambos os lados o mar sem fim, limitado ao Norte pelos maciços das restantes ilhas do grande arquipélago: Alor, Ataúro, Liran, Wetter, Kissar...

Mas ensimesmado pelo sortilégio vegetal da minha ilha havia de descer aos vales umbrosos onde me esperam tantas surpresas e deslumbramentos. Para que lado me dirigir? A costa norte é já sobejamente conhecida desde Maubara a Lautem. Com pequenas variantes, acidentes de rocha, sobretudo, a charneca doirada onde os eucaliptos de tronco estrangulado e alvadio, como de róseo marfim, os coqueiros da beira-mar, os «akadiros» e as palapas, — figuras extáticas do classicismo dos trópicos —, se misturam às acácias de para-sol, às casuarinas das margens dos ribeiros e ainda às manchas viridentes, contrastadas, dos bosques marítimos. Viria, passados tempos, a descobrir-lhe as surpreendentes belezas, quando, saciado dos vergéis e selvas misteriosas da costa sul, viesse repousar na sombra acariciante dos parques de tamarindo e jujubeiras? E ao ouvir o cristalino acento de um regato perdido na solidão ardente, saberia então olhar os elementos de que era feita a paisagem desprezada? E aprenderia a amar as grandes linhas sóbrias de uma praia solitária, de uma escarpa descida verticalmente no mar, de uma encosta onde a erosão abria profundas feridas, ...as colinas ondulantes e, sobretudo, a pureza luminosa que se filtrava na tarde calma pela folhagem clara da floresta aberta do Eucaliptus alba?



 

 

Timor, Páginas de um Diário Poético

Ruy Cinatti

"Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo"

Números 36 e 37, ano de 1948

 

Foto: Ruy Cinatti (1947)

 

 


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Sexta-feira, 13 de Setembro de 2013

Timor (flora)

 


 

A vegetação de Timor, ao contrário do que se imagina, não é composta, exclusivamente, por agrupamentos de natureza tropical, nem oprime o espírito ao ponto de nos considerarmos irremediavelmente à mercê do poder dos elementos da selva. A oito graus de latitude sul, a ilha oferece-nos o espectáculo incomparável de uma vegetaçãoo cintilante e vária que, conforme as regiões, se sintetiza em paisagens dos mais diferentes países do mundo. As florestas do «Eucalyptus obliqua»  transportam-nos à Nova Gales do Sul e à Tasmania, já perto do círculo antártico; os parques de «Tamarindus» e de «Ziziphus» a certos espaços do nosso Alentejo; os planaltos de Fuiloro lembram os campos e os bosques do norte da Europa, a verdura luminosa dos condados ingleses; e, na estação seca, as florestas de paus-rosa», dir-se-iam imitar os maciços arbóreos do Buçaco ou Gerez. A par disso é um prolongamento de Samatra, Java e outras ilhas de vegetação genesiaca, mas harmoniosamente equilibrada. Não admira que o espírito sensível de Alberto Osório de Castro fosse levado a confessar: «A flora de Timor, misteriosa e fremente, em mim, produz, por vezes o mesmo « grand songe terrestre», igual vertigem e ardente ebriedade pânica à que me dão certos poemas... » (Ruy Cinatti)



 

 

«Troncos colossais, majestosos, encordoados, de quatro a cinco metros de circunferência, raízes poderosas que se torcem sobre o pavimento da rua...» (Armando Pinto Correia)



«Os palavões brancos (Eucalyptus alba) das encostas xistosas do litoral, diziam-me já a soledade adusta do “Bush” australiano, não distante.» (Alberto Osório de Castro)


 

 

Timor, Páginas de um Diário Poético

Ruy Cinatti

"Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo"

Números 36 e 37, ano de 1948


Fotos: Ruy Cinatti

 



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Sábado, 7 de Setembro de 2013

Timor (guerreiro)

 

 

 

 

«O timor que usa «taiss» ou «lipa», largo pano de algodão às riscas, colorido de azul ou de encarnado, e chegando da cinta aos joelhos, cabaia ou curta jaleca branca de botões apresilhados, lenço atado no alto da cabeça à moda javanesa..., vai porém para a guerra de «lipa» negra, cabaia encarnada, lenço com penas de galo erectas ao topo e, principalmente quando já «Açuaim», ou guerreiro de fama, de manilhas, colares de «mútissalas», «luas» de prata ou de oiro, e de cinta ou faixa branca... » (Alberto Osório de Castro)




 

«Debaixo do braço ou posto ao colo, não falta o galo de combate, nem no saquitel a lâmina acerada que no começo dos torneios, se lhe ata a uma das patas, apetrechando-o para uma peleja renhida, em volta da qual se há de comprimir o povoleu e ferverão as apostas a dinheiro.» (Armando Pinto Correia)

 

 



Testemunhas de antigas lutas, as tranqueiras e outros vestígios das arquitectura militar de Filomeno da Câmara, são hoje representações históricas que surpreendem o visitante recém-chegado a alguns postos administrativos do interior. (Ruy Cinatti)

 




Timor, Páginas de um Diário Poético

Ruy Cinatti

Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo

Números 36 e 37, ano de 1948


Fotos: Ruy Cinatti (1947)

 



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Quinta-feira, 5 de Setembro de 2013

Timor (timorenses)

 


« De qualquer forma por que as populações timoresas se estudem..., o caos surge desnorteante e quase impenetrável, revelando-se a disparidade de raças que na ilha e fora dela se cruzaram para produzir os tipos e os dialectos que naquele país se encontram. Dir-se-ia que da mais ocidental das terras sundanesas até às Filipinas e destas para o sul, e deste até Timor e às Fidji, todos os povos se mestiçaram e emigraram de forma a criar a Babel de elementos somatológicos que é a ilha de Timor. » (Leite de Magalhães)




 

«As raparigas de Oékussi, de uma tez de âmbar gris claro, feições delicadas, lembram sundanesas ou burmesas de distantes origens indús.» (Alberto Osório de Castro)




Timor, Páginas de um Diário Poético

Ruy Cinatti

"Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo"

Números 36 e 37, ano de 1948

 

Fotos: Ruy Cinatti (1947)



O Timor de Ruy Cinatti  de Peter Stilwell | PDF in Revista Camões nº14  aqui


História-Antropologia TIMOR LESTE  aqui 

 



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Quarta-feira, 4 de Setembro de 2013

Timor (mani-meta)

 

 

 

 


































«Mani-meta são os edifícios cujo pau de fileira se ornamenta, com pontas de búfalo, conchas marinhas e paus trabalhados em forma de pássaros. Assentam, como as construções sagradas, em oito prumos, os quatro primeiros cravados no terreno e segurando um tabuleiro, espécie de terraço sem paredes, onde se recebem visitas, as mulheres tecem panos e às vezes se cozinha.» (Armando Pinto Correia)



 


































«Julguei que, sendo aquela a mais distante e a menos conhecida das terras do nosso Império, todos os que por lá andaram, e porventura a sentiram e amaram como eu, se não podiam furtar ao dever nacional de contar à Metrópole um pouco do que sabem a respeito de Timor.» (Armando Pinto Correia)


Fotos: Ruy Cinatti (1947)



Timor, Páginas de um Diário Poético

Ruy Cinatti

in "Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo"

Números 36 e 37, ano de 1948


 


 

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Domingo, 1 de Setembro de 2013

Timor, páginas de um diário poético (1948)


... São quatro e meia da tarde. A chuva deve durar mais hora e meia. Não há nada a fazer. Sinto-me feliz, contente... Supor que me encontro tão longe de tudo!... Longe das complicações humanas, da vaidade dos cargos, da estupidez consagrada em frases de estereotipo... Para me sentir feliz, basta-me esta choupana desconjuntada e a companhia silenciosa dos indígenas. Encontro-me em perfeita comunicação com o ambiente, numa exaltação sossegada e plena. Encostado ao batente da porta, vou entretecendo ideias vagabundas, sempre à beira do sonho ou da sensação. A Natureza pensa e o homem segue os instintos de uma reminiscência obscura. Os indígenas conseguiram acender uma fogueira. Não posso dominar a comoção que me obriga a envolver os companheiros num olhar de profunda simpatia. Ei-los, acocorados, silenciosos, prontos a obedecer ao mais pequeno sinal. Não dizem nada, mas pensam decerto no «malaio» que os manda ao alto cimo das árvores para colher folhas e flores. Um deles pôs-se de joelhos e, de olhos dilatados, vai soprando a fogueira hesitante. Outro, dobra nos dedos adestrados a folha de begónia, dá-lhe a forma de um copo e estende o braço para a goteira aberta no telhado de capim. Como lhes estou agradecido!... Inteligentes, profundamente psicólogos, incapazes de esquecer, de uma dedicação sem limites. Pensar que estes desgraçados timorenses sofriam resignadamente a incompreensão de quase todos, tinham passado por uma guerra sem quartel... — E agora?!... Exceptuados os missionários, quem se importa com a alma do indígena?! Onde clamam as vozes de Afonso de Castro, de Celestino da Silva, de Armando Pinto Correia... de tantos outros, nobres e humildes que à terra de Timor deram a inteligência e o coração português? Existia uma certeza: mais cedo ou mais tarde a Verdade havia de vencer nas almas; a pureza, a justiça e outros poderes mais transcendentes ainda, seriam coroados pela realidade magnífica de um Timor novo. E a força dos jovens não temia os obstáculos, nem a lógica cerrada dos raciocínios interessados. Quem não sabia defender-se e muito menos atacar, só podia ter uma linha de conduta: seguir em frente, fiel a si próprio e às gerações inúmeras... «talent de bien faire»... «désir»...


 

Ruy Cinatti em Timor

 

A chuva diminui; o céu clareia um pouco. Desanuviam-se os pensamentos e baixa-se à realidade rítmica da vida. Os companheiros estão prontos. Vamos partir dentro de alguns instantes. Fragmentos de poesia afloram no meu espírito: «Ilha perdida de mistérios densa...» Vamos partir. Como sucedeu a Alberto Osório de Castro: «pelas cinco horas da tarde, sob um miúdo aguaceiro que se desfaz no radioso entardecer de nácar — róseo, flavo, verde de água, lilás».

 

E a conversa prossegue... o diálogo silencioso, por vezes iluminado, como em noites secas de Setembro, de fantásticas visões: o céu e o horizonte do mar fulgurando por detraz da fímbria em fogo das nuvens, som que o rolar do trovão seja mais que um surdo murmúrio distante. Diálogo traduzido em movimentos incompreensíveis, como os de um enamorado ainda hesitante, suspenso, não fosse com uma certeza mais fácil quebrar o encanto que a presença amada não teme. O descobrimento da árvore revelada nos sonhos, o Podocarpus imbricata, nos cimos da Mate-Bian, a montanha da alma dos mortos, depois de dois dias de procura estéril, em que o desejo foi mais forte que a vontade. A esperança segura, inabalável, de lá voltar um dia, para que na sombra esverdeada dos fetos arborescentes e junto da fonte glácida onde as colocásias molham os limbos lustrosos, possa reencontrar-me e jurar os votos de uma vocação definida: a de uma existência serena e silenciosa como a da floresta de paus-rosas, em Citrana, onde caminháramos durante horas seguidas. Onde, também, sem dar por isso, me tinha entregado à mais activa das missões: a de um homem para quem o florir da Natureza simboliza o resultado heroico de uma meditação e o trabalho fecundo ao fluir longo de um período de maravilhoso silêncio.

 

E posso ainda julgar descer à rua, para colher nos dedos transfigurados o véu de luar azul? Ou sequer as finas hastes de certas orquídeas de cachos estrelados, quando o cavalo teimoso me levava por sob a penumbra cinérea das casuarinas ? ... A neve perfumada dos cafésais em flor de Fatú-Bessi, a Sintra de Timor, de ravinas sombreadas pela «madre del cacao»... Quantas e quantas recordações se não levantam! É tocar ao de leve nas águas da memória, para que, sobrepostas e logo separadas em ondulações suavíssimas, ressurjam as imagens e a doce comoção que a saudade imensa reergue das brumas da ilha perdida.


Ruy Cinatti

in Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo

Números 36 e 37 , 1948



Notas:


Imagem em Timor-Leste History Anthropology  aqui

Espólio de Ruy Cinatti na Biblioteca Universitária João Paulo II, Universidade Católica Portuguesa

 

 

Leia também O Timor de Ruy Cinatti  de Peter Stilwell | PDF in Revista Camões nº14/ 2001 aqui






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