Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Linha de montagem de automóveis em Tianjin

 

José Cutileiro

 

 

 

Aquecimento global

 

 

Há dilemas antigos. Por exemplo: dar-se a gente prazer agora ou resistir à tentação imediata para se poder oferecer prazer maior no futuro? Poupar ou esbanjar? E há a história do menino burro, único que gostava de óleo de fígado de bacalhau na classe porque a mãe lhe dava dez tostões por cada colherada bebida. E que fazia ele com o dinheiro? Quando havia tostões suficientes a mãe comprava outra garrafa de óleo de fígado de bacalhau.

 

Saúde e frugalidade. O amigo do Michael que desde os vinte anos só gastava metade do ordenado que ganhava por mês para poder pôr a outra metade a render: Quando o Michael me falou dele já tinha quase quarenta, começava a perder cabelo e estava ainda longe de ser rico mas persistia. Os herdeiros desapontados que verberavam o Senhor Pires por ter esbanjado a fortuna com amigas e outra más companhias mas nunca tinham tido nada a dizer da agiotagem implacável por ele praticada para fazer fortuna. Os que abrem contas em bancos em nome dos filhos assim que os filhos nascem e os que os fazem logo sócios do Sporting ou do Benfica. Filhos e, no nosso tempo, com certeza também filhas – o futuro já não é o que era escreveu há mais ou menos um século Paul Valéry. Videntes há poucos - e alguns são vigaristas – mas quase toda gente espera andar por cá ainda um bocadinho ou pelo menos ter quem por cá ande por ela ou por ele. Bisneto é gancho de alpinista cravado mais acima na parede de rocha da montanha.

 

Por tudo isto, o estado em que as coisas estão quanto a aquecimento global assusta-me. Não tenho credenciais de ecologista nem sou vegetariano ou veganista e falha-me o lado de moda deste género de coisas. Conheci no Alentejo menina, depois senhora, hoje senhora velha, sempre entusiasta e prosélita, de entrada na JIC (juventude independente católica) para fazer bem aos pobres a seguir no Partido Comunista Português – foram os anos gloriosos da reforma agrária - e, por fim, ecologista convicta, arauto de catástrofe se não mudarmos de rumo. Desta vez tem por ela gente mais abalizada que os poucos curas do país de missão alentejano e os muitos controleiros marxista-leninistas. E o facto da minha alentejana continuar prosélita pode tornar a sua posição barulhenta mas não lhe tira razão.

 

Sabemos que, se nada se fizer para que a temperatura suba menos, muitas partes da Terra serão inabitáveis e as habitáveis serão inóspitas no fim deste século. O inquilino ignorante da Casa Branca acha que aquecimento global é fake news chinês para tentar prejudicar a economia americana e não faz nada. Os seus homólogos europeus louvam-se nos pareceres da ciência mas nada fazem tampouco. Seria preciso fazer sacrifícios hoje para garantir futuro viável mas quem sacrificar agora já não estará depois cá para receber o prémio. Ninguém parece disposto a acautelar as vidas de netas e de netos.

 

Je ne connais pas l’âme des criminels mais je connais celle des gens honnêtes et quelle horreur, escreveu o bom François Mauriac.   

 

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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

weber-ill-520x485Max Weber

Ilustração de Ragni Svensson 

 

José Cutileiro

 

 

Corrupção, família, crimes

 

 

Quando eu vivia na costa oriental dos Estados Unidos, jornais de Nova Iorque deram notícia da condenação a penas de prisão de personagem importante de Wall Street - e do pai dele. O C.E.O. de um hedge fund cometera delito de iniciados, salvando com este pequena fortuna, dentro da grande que já tinha feito. O pai, cirurgião reformado, evitara a ruína, pois havia posto quase toda a sua poupança nas acções que, avisado a tempo pelo filho, oportunamente vendera.

 

Moral da história em Nova Iorque ou em Londres: procuradores diligentes e íntegros tinham devidamente feito punir dois velhacos que se tinham criminosamente servido de informação privilegiada. Moral da história em Braga ou em Évora: banqueiro pusera amor filial acima de obrigações descoroçoadas impostas pelas manigâncias da bolsa e evitara justamente a ruína do velho.

 

Há mais de um século – ou melhor dito, desde que professor alemão chamado Max Weber publicou um livro chamado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - que historiadores do dinheiro e das ideias procuram lidar com tais contrastes (incluindo os que acham essa tese um disparate pegado e recordam a fulgurância de banqueiros e homens de negócios do Norte de Itália, católicos apostólicos romanos, desde o fim da Idade Média) e que o público leitor em geral e políticos desonestos em particular – o mais notável dentre estes, na última década, sendo Angela Merkel – às vezes se aprazam em proclamar moral a gente do Norte da Europa e imoral a gente do Sul da Europa; mais ao sul passam a ser morais outra vez, se o comportamento ético da Chanceler alemã servir de padrão (de standard, em português contemporâneo). Com efeito, por um lado, a Senhora tratou a insolvência grega como se pecado de todo um povo se tratasse, exigindo castigo até ao pagamento total da dívida (e fazendo indemnizar bancos alemães, parceiros em negócios falhados, com dinheiro destinado a aliviar os gregos) enquanto, por outro lado, considerou centenas de milhares de candidatos a asilo político africanos e asiáticos vítimas de infortúnio exigindo ajuda incondicional.

 

É claro que coisas assim nunca são simples. Por exemplo, a primeira vez que lidei com corrupção, sem lhe dar nome nem conhecer o conceito (e como ‘corruptor’, não como ‘corrompido’) tinha 8 anos. Por razões longas de enumerar fiz a quarta classe de casa do avô em Évora enquanto os pais ficaram em Lisboa. Da Rua da Mouraria, onde vivíamos, à escolinha da D. Maria Prego na Travessa da Capelinha era preciso atravessar a cidade; o avô contratou criado antigo (o Velho Madeira) para me acompanhar. A vergonha que tive perante outros meninos e meninas foi tal que, logo no segundo dia, propus pagar da minha semanada ao Velho Madeira para ele me deixar a meio caminho, na Praça do Geraldo. Ele aceitou logo e assim fizemos, à ida e à vinda, durante todo o ano lectivo.

 

Corrupção ou não? Conheci protestantes entendidos na matéria; nunca me lembrei de lhes perguntar.

 

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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Zé Povinho

"Zé Povinho" de Rafael Bordalo Pinheiro

 

 

José Cutileiro

 

 

Portugal, 10ª democracia do mundo

 

  

Vinda de iniciativa séria e respeitada, a notícia enriquece pela variedade a lista habitual de triunfos pátrios. Não tenho nada contra o futebol ou qualquer outro desporto/espectáculo de sucesso (há muitos anos Bernard Shaw escreveu que a maioria dos seus compatriotas – ingleses - estaria de acordo em considerar que o Arcebispo de Cantuária tinha mais valor do que um campeão do mundo de boxe; a dificuldade estava na quantificação: quantos campeões de boxe valia um arcebispo? Ou, adaptando ao Portugal de hoje, quantos pontas-direitas vale um cardeal? O problema é que quem decide nestas coisas – já decidia no tempo de Shaw mas sem tanta desenvoltura - é o mercado e nele as contas são ao contrário: quantos cardeais seriam precisos para pagar um ponta direita? Aí é que está o busílis e está também a razão pela qual os Estados Unidos da América – com uma única hierarquia, a do dinheiro - não poderão nunca ser modelo do mundo por muito que se goste de Coca-Cola, de Ella Fitzgerald ou de Frank Lloyd Wright, entende amigo sagaz que viveu lá muito mais tempo do que eu).

 

Felizmente a questão não se põe quanto à distinção de ser classificado a 10ª democracia do mundo porque esta abrange todos nós, incluindo a leitora e incluindo-me a mim (Porquê Mário? Porquê Cesariny? Porquê, ó meu Deus, de Vasconcelos?– vem-me à cabeça nesta altura). O que a distinção traz, isso sim, é a obrigação de melhorarmos ainda mais. Por muito que continue a pesar a alguns dos nossos pedagogos, a concorrência não é pecado e faz bem a quem se mete nela. Sendo mais importante de tudo a level playing field, isto é, para ricos e pobres, altos e baixos, espertos e burros, as mesmas condições à partida, sem cunhas (Portugal); Old boys net (Grã Bretanha); Guanxi (China).Há excepções de resistência: lembro-me, era eu miúdo, em concurso de carreira hospitalar, o Zana Mello e Castro retirar candidatura quando a PIDE impediu colega esquerdista de concorrer. Já não há PIDE, continua a haver gente honrada mas excepções à prática má continuam a ser poucas.

 

E deveriam passar a ser muitas porque, escreve-me leitora, a corrupção é um dos piores males do mundo: “Primeiro pelo mal directo que causa, ao fomentar os outros males todos, segundo porque é praticamente impossível de eliminar em tempo útil, terceiro porque desencoraja e tira a esperança às pessoas de que seja possível fazer as coisas de outra maneira sem ter de se arrancar o sistema pela raiz.

 

‘Eles (políticos, governantes) são todos iguais’ deve ser um dos poucos sentimentos verdadeiramente comuns a toda a humanidade”.

 

Tarefa hercúlea? Talvez mas rombos nos privilégios de ricos e afins perante o poder político, impensáveis há 10 anos, ajudaram a chegar ao 10º lugar; a renomeação de Joana Marques Vidal talvez ajude a guindar-nos ao 9º - brinca brincando, felizmente bem longe da definição de República atribuída ao monárquico Voltaire: “Le malheur de chacun pour le bonheur du tout”.    

 

    

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Sexta-feira, 13 de Julho de 2018

Escultura de Manuel Rosa

 

MR calcário 88 cortesia Giefarte

Na Sociedade Nacional de Belas Artes até 21 de Julho de 2018

 

 

 

Clareira (1984-2018) marca o aguardado regresso da escultura de Manuel Rosa à visibilidade pública. A exposição, de cariz antológico, cobre todo o percurso do artista, integrando, ainda, peças novas, produzidas especificamente para a ocasião. Clareira constitui-se, assim, como o mais extenso panorama do trabalho de um dos mais singulares e originais escultores surgidos na década de 1980 em Portugal, cujo percurso foi perdendo gradualmente intensidade em benefício do importante trabalho que há décadas desenvolve enquanto editor.

 

O vocabulário de Manuel Rosa é amplo em termos formais, temáticos e materiais. É um trabalho que, entre referências à escultura primitiva e pré-clássica, à Arte Povera e à geração de escultores britânicos surgida nos anos 80 do século passado, se destacou pela forma como construiu um forte sentimento de intemporalidade, por um lado, e uma intensa ligação à terra e aos materiais do lugar, por outro. 

 

A exposição, organizada pela SNBA e a Fundação Carmona e Costa, com curadoria de Manuel Costa Cabral e Nuno Faria, estará patente no Salão da SNBA  até 21 de Julho de 2018 e poderá ser visitada de segunda a sexta-feira, das 12h00 às 19h00 e aos sábados das 14h00 às 20h00.

 

 

 

 MR s:título 1998

 

 Mais sobre Manuel Rosa aqui

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Quarta-feira, 11 de Julho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

laura-codruta-kovesi-prima-reactie-dupa-revocare-nu-voi-mai-lucra-in-dna-voi-ramane-procuror-539058

Laura Codruta Kovesi
 
 

José Cutileiro

 

 

Dissabores romenos

 

 

 

No começo ou no fim de um daqueles filmes pequenos que o autor de Citizen Kanee de The Magnificent Ambersons produzia e realizava nos últimos anos da vida, que não foi longa – mas começou depressa: tinha 26 anos quando fez Citizen Kane - para ir ganhando algum dinheiro, já não me lembro qual deles, Orson Welles pergunta-nos retoricamente do écran, com o jeito e o charme que nele abundavam, se nós sabíamos como era a receita de omelete de um cozinheiro romeno. No filme ele diz chef, nós agora também dizemos chefe, mas quando o filme foi feito nós dizíamos cozinheiro. Chefe é modernice, assim como estrelas do Michelin e – salvo no Porto, que já era cidade de província da Europa enquanto Lisboa ainda não era nada – servir primeiro as senhoras. E responde ele próprio à pergunta: “First, you steal an egg” – “Primeiro, rouba-se um ovo”. A este propósito, há conselho balcânico, encontrado em várias línguas da vizinhança mas não em romeno que, traduzido para português, rezaria assim: “Depois de apertares a mão a um romeno, conta os dedos.”

 

Lembrei-me disto hoje, por ter lido o que li no New York Times on line (eu, facebook e outros indutores de infantilização dispenso: sentir-me-ia como criança esquecida de que a mãe lhe tinha dito para não falar a estranhos nem responder se eles lhe falassem a ela, mas Google acho utilíssimo porque me poupa tempo e corrige a memória, a qual, diria o meu chorado Raul Miguel, mente ainda mais do que as mulheres). A Roménia, há alguns anos, elegeu presidente da república Klauss Iohannis, chefe de pequeno partido da oposição, membro da sua minoria alemã que, de tão pequena, não assusta ninguém – a minoria incómoda é a húngara, sobretudo quando dá jeito ao populista Orban aliciá-la da sua ponte de comando em Budapeste – e o homem, luterano, sério, organizado até à medula dos ossos, resolveu tentar meter o país na ordem e, para um alemão, a ordem, desde 1945, com demão a Leste em 1989, é democrática. Para isso tem-se apoiado muito na procuradora da república (como nós diríamos) Laura Codruta Kovesi, encarregada de combater a corrupção e fazendo-o com grande sucesso desde a sua nomeação em 2013, animando o povo e a União Europeia mas agastando governo e grandes partidos. Ora a constituição romena dá mais poder ao governo do que ao presidente e, em Fevereiro, o ministro da justiça recomendou ao presidente que a Drª Laura fosse demitida porque excedera o seu mandato e – cereja do costume nestes bolos – estragava a imagem da Roménia no estrangeiro. Durante meses, o presidente disse que não o faria; agora, apertado por artimanha constitucional, fê-lo mesmo, mas a luta continua: vai nomear alguém do mesmo jaez e a Drª, do posto para onde vai, continuará a mandar farpas.

 

Conto isto não por animar sabermos que há pior que nós na U.E. mas sim porque a diferença não é assim tão grande e se não nos pusermos a pau resvalaremos para buraco donde não haverá 25 de Abril (ou 28 de Maio) que nos tire.

 

 

 

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Quarta-feira, 4 de Julho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

cova da Moura

Associação Cultural Moinho da Juventude, Cova da Moura

© Rui Palha 2014

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A Amadora é um PALOP

 

 

 

A minha sobrinha predilecta, que fala alemão e russo, andou por essa Europa com Erasmo de Roterdão e, após tese de direito brilhante, é advogada em Lisboa, está indignada por haver tanta gente com “interesse eleitoral em berrar que querem pôr na rua os imigrantes todos já”. Sobretudo em países que não têm imigrantes e até mandam eles próprios emigrantes para partes menos intolerantes do Continente.

 

O que há agora é mau e anima em cada um de nós sentimentos que podem facilmente passar da indignação para a ira - e a ira é má conselheira, se não se quiser fazer mal. ‘A dor humana busca amplos horizontes / E tem marés de fel como um sinistro mar’, escreveu Cesário Verde e hoje à roda dá-se pelas ditas marés, embora me pareça não serem desta vez causadas por dor mas por raiva. Que há mal dentro de cada um de nós toda a gente sabe; que se batam tambores para o fazer sair à rua a dar ares da sua graça, não acontece sempre e na Europa, desde as convulsões que acompanharam o fim da Segunda Guerra Mundial – na Alemanha e á volta dela expulsaram-se milhões de pessoas, último sobressalto da grande matança – tínhamos perdido o hábito e o gosto disso, salvo em lugares precisos – o País Basco espanhol; a Irlanda do Norte – especializados em horror macabro. (Estrada à saída de Belfast, tanta chuva que os cantoneiros se abrigam numa tenda. A lona abre-se, homem encapuçado, a metralhadora engatilhada, pergunta: “Católicos ou protestantes?” Aconteceu).

 

Ódios fraternos adormecidos, partiu-se para o que os franceses gostam de chamar o ódio ao outro – e nada parece abater agora. Comovemo-nos, há três anos, com cadáver de menino turco na praia? Mas pouco ou nada fazemos para impedir que homens, mulheres e crianças continuem a morrer no Mediterrâneo. Na Alemanha, a maré de fel quer dar cabo do  extraordinário exemplo de recuperação cívica e moral de um povo (o dos alemães ocidentais). Nos ‘países de Visogrado’ – Polónia, Hungria, Eslováquia, República Checa – o ódio ao outro, brutal (e ridículo, porque não há ‘outro’), torpedeia tentativa de instalação de democracia e decência. Ninguém quer o comunismo de volta mas a solidariedade humana, maltratada durante décadas, não recupera. Quanto ao nazismo: ao ver a Baviera, rica e sem imigrantes, querer tanto mal ao ‘outro’ fica um homem perplexo.

 

Volto à minha sobrinha, na Amadora. “Tenho contactado muito com questões de imigração no trabalho. E tenho um respeito enorme pela maioria destas pessoas. Ser imigrante legal não é fácil e envolve mais papelada e meses de espera com a vida pendurada do que qualquer ser humano merece (…) Ser imigrante ilegal é não existir. Tentar passar a legal depois de ter começado como ilegal é um calvário (…) Enfim também não digo que temos de aceitar toda a gente só porque temos de aceitar mas esta ‘nova’ Europa não é coisa em que me reveja.

 

Se calhar é porque, como me dizia no outro dia um taxista ‘a Amadora é um PALOP’ e eu afinal nunca vivi na Europa”.

 

 

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Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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 S. Francisco de Assis - El Greco

 

 

José Cutileiro

 

 

A parte colérica da alma

 

 

Partido de extrema-direita ganhou as eleições na Eslovénia e irá juntar o país a outros do Centro e do Leste da Europa – Hungria, Polónia, República Checa, Áustria - e talvez em breve também do Oeste – Itália - que dizem não a emigrantes vindos de África e de Ásia (terras viciosas que há cinco séculos os portugueses andaram devastando, cantara Luís, zarolho de génio de cuja data de morte fizemos dia nacional, celebrado no Domingo).

 

Setenta e três anos passaram sobre a afirmação universal do Bem, quando em 1945 o Terceiro Reich se rendeu incondicionalmente aos aliados; afirmação confirmada, para os que ainda tivessem dúvidas, quarenta e quatro anos depois, quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo e os aliados bons derrotaram por fim os aliados maus; com demão suplementar da dita confirmação aplicada zelosamente entre Janeiro de 2009 e Janeiro de 2017 por Barack Obama, então inquilino da Casa Branca, convencido de que a sua passagem por lá iria melhorar o mundo (Razão, irmã do amor e da justiça mais uma vez escuta a minha prece, rogara também Antero, o suicida do jardim público em Ponta Delgada).

 

A parte colérica da alma está a voltar em força e a fomentar ódio ao estrangeiro em corações que nos últimos decénios andavam distraídos por outras coisas. Praticam-se crueldades que, julgávamos nós, tinham passado a ser inadmissíveis. Na fonteira entre o México e os Estados Unidos, famílias latino-americanas que para estes queiram emigrar legalmente vêm os filhos separados dos pais até à conclusão do processo, isto é, sine die, sem nada saberem uns dos outros. Tal enormidade Trumpiana (ele diz que a lei vem dos Democratas mas é mentira), condenada até por alguns senadores norte-americanos, continua de vento em popa. De desmandos de Putin, Orban, Erdogan, do faraónico Sisi e outros mandachuvas africanos, do grande chefe chinês que se fez declarar perpétuo pelo Partido, sabemos todas as noites no telejornal (se Sócrates, Pinho, EDP, Sporting, eutanásia e dentro de dias campeonato do mundo de futebol deixarem tempo…) e cada um já não nos incomoda mais que escassos segundos.

 

Achamos outra vez natural que os humanos sejam maus como as cobras uns para os outros, o que sempre aconteceu e muitas vezes por razões consideradas boas (quando retomou Goa em 1510, Albuquerque terríbil encheu um bote com orelhas e narizes de muçulmanos locais, castigados por o terem traído; no seu tempo de Vice-Rei, em barco cheio de muçulmanos apresado no alto mar, homens, mulheres e crianças eram sempre passados a fio de espada que a segurança do Império dispensava mais mourama).

 

A demanda do Bem, a convicção de que a felicidade passara a ser possível não levaram só ao Gulag ou a Pol Pot. Na decência tenaz de algumas  democracias burguesas pareceu  à vezes que certas maldades tinham acabado (como a varíola, no mundo natural). Grande engano. Como um sábio lembrou, a guerra é tão antiga quanto a humanidade; a paz é uma invenção recente.

 

 

 

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Quarta-feira, 16 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Balthus - La partie de cartes, 1948- 1950, Thyssen

 Balthus, 1948/50

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A nudez forte da verdade

 

 

                 A verdade, Zé, é uma água muito quente onde eu de vez em quando meto um dedo para ver se ainda queima – e ainda!                                               Luís de Sttau Monteiro, em conversa, circa 1960.

 

« Conhecemos bem esse Portugal dos favores, cunhas e notas por debaixo da mesa. Era prática ‘institucional’ que todos condenavam indignadamente mas a que todos recorriam alegremente. Mudar o statu quo de uma penada está a ser dificil » escreve-me sobre o Bloco da semana passada leitora fiel e avisada que usa o pretérito para as malfeitorias e o presente para o começo da mudança.

 

Oxalá tenha razão nos tempos dos verbos. Que neste ano da Graça de 2018 haja começado outro Grande Salto em Frente lusitano, mais de meio milénio depois do primeiro calar tudo o que a musa antiga cantava. Oxalá - mas não estou seguro. Costumes antigos, como burros velhos, não aprendem línguas. E algures entre o roteiro de Álvaro Velho relatando a viagem de Vasco da Gama à Índia (1498) e a carta de Fradique Mendes à madrinha relatando chegada a Lisboa, a Santa Apolónia e de lá para o Hotel Bragança, numa noite de temporal (1885), dera-se grande mudança. Com o criado inglês e a bagagem já no hotel, Fradique confronta o cocheiro que, debaixo de chuva torrencial e sem outro fiacre à vista, antes de começar a corrida impusera preço exorbitante.

 

« Com que então são três mil reis ?’

‘Eu disse aquilo por dizer. Não tinha conhecido o Senhor D. Fradique. Para o Senhor D. Fradique é o que o Senhor D. Fradique quiser.’

Dei uma libra àquele bandido. »

 

A indignação contra a corrupção que borbulha agora é circunstancial e raramente vem do fundo da alma. A retórica das manifestações de desagravo é oportunista. Sem protestantes e sem judeus desde o Concílio de Trento, nós, portugueses, não temos medo essencial de Deus (não o confrontamos directamente; contamos com os Santos que são os Senhores Doutores do Céu  para nos defenderem), temos medo acessório da polícia – e os mais ginasticados viram a casaca enquanto o Diabo esfrega um olho. A seguir à convenção de Évora-Monte, a Câmara de Monsaraz, miguelista durante toda a guerra civil, escreveu a D. Maria II protestando amor e fidelidade « que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fiéis». Vamos ver agora muito disso.

 

Vão ser tempos difíceis. Ou desistimos de morigerar o país, rapaziada esperta passará a desembaraçar-se como no sul de Itália ou na Córsega, controle e riqueza serão partilhados à força com bandidos mafiosos e não haverá turismo ou Europa que nos salve dessas servidões, o que seria uma pena. Ou apesar de tudo como Camus talvez tivesse razão e haja no homem mais de bom do que de mau, insistiremos em querer passar pela porta estreita, seguir pela via direita, portarmo-nos como gente de bem e antes de chegarmos à decência colectiva viveremos tempos dolorosos. A nudez forte da verdade ficará às vezes coberta de nódoas negras.

                                                              

 

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

corruption 2

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

« Onde é que é o guichet da corrupção ? »

 

 

Assim costumava perguntar há muitos anos, tio da Vera indignado por não ter tido ainda direito a nenhuma. Era uma reacção moderada e divertida, bem diferente da indignação tonitruante que viceja agora, abafando a reprovação genuína de alguma gente de bem e disfarçando a inveja (cruzes, canhoto!) que medra no peito fiel de muito patriota.

 

Nesta matéria, às vezes, há casos bicudos. Quando eu vivia em Princeton, New Jersey, soube pelo jornal diário o seguinte. Figura importante de Wall Street fora apanhada por investigação oficial num caso de informação priveligiada, levada a tribunal e condenada a alguns anos de cadeia. Beneficiado com a informação indevidamente transmitida contava-se seu próprio pai, médico reformado (se bem me lembro, nefrologista) com mais de oitenta anos que pudera vender as acções da sua poupança antes destas se desvalorizarem abruptamente - e fora também condenado. Eram judeus, tinham laços de família muito fortes (tal como acontece quase sempre em Portugal) e ocorreu-me na altura que o corretor haveria de ter sentido o que sentiria português trabalhando na Bolsa de Lisboa, apanhado em circunstâncias semelhantes. «Então uma moral universalista, que coloca à mesma distância de mim o último dos estranhos e o primeiro dos próximos, vai-me obrigar a deixar na miséria o meu pai? E numa idade em que já nem poderia tentar sair dela? Qual é o dever de um filho: cumprir lei cega perante valores milenários e deixar o pai pelas ruas da amargura? Ou arriscar-se a ignorar essa lei e cumprir as obrigações da tribo?» Palpita-me que a escolha do hipotético corretor alfacinha seria a mesma da do homem de Wall Street.

 

Impôr de repente leis gerais universalistas a gente regida  por usos e costumes tradicionais que poem a família no coração do mundo, é sempre o cabo dos trabalhos. Todas as potências coloniais descobriram isso. Também o descobriram os liberais portugueses a seguir a 1834, quando, de Lisboa, quiseram fazer chegar o país novo, inventado por Mouzinho da Silveira, a sombrias boticas de Trás-os-Montes, a barbeiros palreiros do Algarve. (Mouzinho escrevera cercado na Cidade Invicta, e já se demitira do governo quando os liberais ganharam a guerra aos miguelistas e se meteram a mudar Portugal).

 

Quase século e meio depois, os laços entre centro e periferia - entre Estado e povo - tinham cristalizado. Quanto ao que chamamos corrupção (termo que não era usado) em Câmara Municipal alentejana que conheci bem as coisas passavam-se assim. Quando camponês, pequeno comerciante ou artífice tinha de lá ir, se o assunto fosse tratado a nível baixo a gorgeta era 25 tostões; a nível alto, 5 mil reis. Dentro do funcionalismo porque presidente e vereadores, todos da mó de cima, não constavam da tabela. Trocavam favores.

 

Havia muito menos negócios, muito menos dinheiro a circular, os ricos nasciam ricos, os pobres morriam pobres. Ao comércio e à indústria o Dr. Salazar preferia a agricultura.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 25 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

terilene

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O teor de terilene

 

 

Quando eu andava na escola, o 25 de Abril era a 28 de Maio. Na escola e por aí fora, quase até aos meus quarenta anos; depois mudou. Cada regime celebra o golpe militar que levaria à sua instalação: o Estado Novo festejava a revolta de Braga em 1926, chefiada pelo Marechal Gomes da Costa, que pouco tempo durou na chefia; a Democracia festeja a revolução dos cravos, com o General António de Spínola como figura de proa que também depressa se foi. Dos quatro regimes que tivemos no Século XX  - dez anos de Monarquia, dezasseis de primeira República, quarenta e oito de Estado Novo e agora a Democracia, toda foleira pelo Século XXI a dentro, deverá vir a ser esta a mais duradoura, quiçá mesmo muito mais duradoura, se o país vier a juntar mais uns mil anos àqueles que já viveu, quase todos com Rei (ou Rainha) absoluto ou constitucional.

 

«Os portugueses hão-de ser sempre os mesmos porque não há outros» dizia o primeiro Duque de Palmela, segundo me contou há anos o Vasco Pulido Valente, e gosto de o lembrar aqui porque eu não sou historiador e, quanto ao passado, prefiro fiar-me no que eles me digam a pôr-me a armar em carapau de corrida ou a armar ao pingarelho (o sargento-criptógrafo Pina dizia que não era bem a mesma coisa, eu acho, pelo contrário, que é exactamente a mesma coisa e o meu chorado Vasco Graça Moura, Deus lhe tenha a alma em descanço, dava-me razão e considerava o sargento – que ainda por cima era a favor do novo acordo ortográfico – um imbecil: o Vasco não tinha papas na língua). Mas se somos os mesmos há-de ser por genética e imitação de que nem sequer nos demos conta, que geração após geração, repetem-se  momentos – «A beber capilé, fica igual ao bisavô que eu ainda conheci» - e a propósito de capilé vem-me à ideia outro morto. Eduardo Calvet de Magalhães, que Deus tenha, irmão do pedagogo e do diplomata, tão esperto quanto os ilustres manos mas mais divertidos, inventou a publicidade moderna em Portugal e, numa altura em que Salazar não deixava entrar cá a Coca Cola, dizia ter inventado também o refrigerante português ideal – capilé gazeificado – tendo já slogan para ele:«A bebida que lhe corre nas veias».

 

Talvez haja em todos nós um ar de Sul da Europa, de Norte de África sem turbantes. Quando vivia em Princeton, vim a Coimbra, convidado ainda pelo Professor Ferrer Correia, a seminário sobre a Europa. Passava-se num antigo convento ao pé do rio; quando chegou a minha vez, passei para a mesa e me voltei para o público, poucos estudantes com capas, mas muita gente nova, e também velhas e velhos, achei-me de repente no Kosovo, onde eu ia muito nessa altura pelas Nações Unidas: as peles, os cabelos, as roupas, as expressões de espectativa resignada, os olhares. Senti-me quase em Pristina, sabendo que estava em Coimbra.

 

Contei isto dias depois a amigo da idade do meu filho, muito viajado e homem de bom conselho que me disse, meio espantado com o meu espanto:

«É o teor de terilene, Senhor Embaixador.»

 

publicado por VF às 11:51
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