Quarta-feira, 16 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Balthus - La partie de cartes, 1948- 1950, Thyssen

 Balthus, 1948/50

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A nudez forte da verdade

 

 

                 A verdade, Zé, é uma água muito quente onde eu de vez em quando meto um dedo para ver se ainda queima – e ainda!                                               Luís de Sttau Monteiro, em conversa, circa 1960.

 

« Conhecemos bem esse Portugal dos favores, cunhas e notas por debaixo da mesa. Era prática ‘institucional’ que todos condenavam indignadamente mas a que todos recorriam alegremente. Mudar o statu quo de uma penada está a ser dificil » escreve-me sobre o Bloco da semana passada leitora fiel e avisada que usa o pretérito para as malfeitorias e o presente para o começo da mudança.

 

Oxalá tenha razão nos tempos dos verbos. Que neste ano da Graça de 2018 haja começado outro Grande Salto em Frente lusitano, mais de meio milénio depois do primeiro calar tudo o que a musa antiga cantava. Oxalá - mas não estou seguro. Costumes antigos, como burros velhos, não aprendem línguas. E algures entre o roteiro de Álvaro Velho relatando a viagem de Vasco da Gama à Índia (1498) e a carta de Fradique Mendes à madrinha relatando chegada a Lisboa, a Santa Apolónia e de lá para o Hotel Bragança, numa noite de temporal (1885), dera-se grande mudança. Com o criado inglês e a bagagem já no hotel, Fradique confronta o cocheiro que, debaixo de chuva torrencial e sem outro fiacre à vista, antes de começar a corrida impusera preço exorbitante.

 

« Com que então são três mil reis ?’

‘Eu disse aquilo por dizer. Não tinha conhecido o Senhor D. Fradique. Para o Senhor D. Fradique é o que o Senhor D. Fradique quiser.’

Dei uma libra àquele bandido. »

 

A indignação contra a corrupção que borbulha agora é circunstancial e raramente vem do fundo da alma. A retórica das manifestações de desagravo é oportunista. Sem protestantes e sem judeus desde o Concílio de Trento, nós, portugueses, não temos medo essencial de Deus (não o confrontamos directamente; contamos com os Santos que são os Senhores Doutores do Céu  para nos defenderem), temos medo acessório da polícia – e os mais ginasticados viram a casaca enquanto o Diabo esfrega um olho. A seguir à convenção de Évora-Monte, a Câmara de Monsaraz, miguelista durante toda a guerra civil, escreveu a D. Maria II protestando amor e fidelidade « que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fiéis». Vamos ver agora muito disso.

 

Vão ser tempos difíceis. Ou desistimos de morigerar o país, rapaziada esperta passará a desembaraçar-se como no sul de Itália ou na Córsega, controle e riqueza serão partilhados à força com bandidos mafiosos e não haverá turismo ou Europa que nos salve dessas servidões, o que seria uma pena. Ou apesar de tudo como Camus talvez tivesse razão e haja no homem mais de bom do que de mau, insistiremos em querer passar pela porta estreita, seguir pela via direita, portarmo-nos como gente de bem e antes de chegarmos à decência colectiva viveremos tempos dolorosos. A nudez forte da verdade ficará às vezes coberta de nódoas negras.

                                                              

 

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

corruption 2

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

« Onde é que é o guichet da corrupção ? »

 

 

Assim costumava perguntar há muitos anos, tio da Vera indignado por não ter tido ainda direito a nenhuma. Era uma reacção moderada e divertida, bem diferente da indignação tonitruante que viceja agora, abafando a reprovação genuína de alguma gente de bem e disfarçando a inveja (cruzes, canhoto!) que medra no peito fiel de muito patriota.

 

Nesta matéria, às vezes, há casos bicudos. Quando eu vivia em Princeton, New Jersey, soube pelo jornal diário o seguinte. Figura importante de Wall Street fora apanhada por investigação oficial num caso de informação priveligiada, levada a tribunal e condenada a alguns anos de cadeia. Beneficiado com a informação indevidamente transmitida contava-se seu próprio pai, médico reformado (se bem me lembro, nefrologista) com mais de oitenta anos que pudera vender as acções da sua poupança antes destas se desvalorizarem abruptamente - e fora também condenado. Eram judeus, tinham laços de família muito fortes (tal como acontece quase sempre em Portugal) e ocorreu-me na altura que o corretor haveria de ter sentido o que sentiria português trabalhando na Bolsa de Lisboa, apanhado em circunstâncias semelhantes. «Então uma moral universalista, que coloca à mesma distância de mim o último dos estranhos e o primeiro dos próximos, vai-me obrigar a deixar na miséria o meu pai? E numa idade em que já nem poderia tentar sair dela? Qual é o dever de um filho: cumprir lei cega perante valores milenários e deixar o pai pelas ruas da amargura? Ou arriscar-se a ignorar essa lei e cumprir as obrigações da tribo?» Palpita-me que a escolha do hipotético corretor alfacinha seria a mesma da do homem de Wall Street.

 

Impôr de repente leis gerais universalistas a gente regida  por usos e costumes tradicionais que poem a família no coração do mundo, é sempre o cabo dos trabalhos. Todas as potências coloniais descobriram isso. Também o descobriram os liberais portugueses a seguir a 1834, quando, de Lisboa, quiseram fazer chegar o país novo, inventado por Mouzinho da Silveira, a sombrias boticas de Trás-os-Montes, a barbeiros palreiros do Algarve. (Mouzinho escrevera cercado na Cidade Invicta, e já se demitira do governo quando os liberais ganharam a guerra aos miguelistas e se meteram a mudar Portugal).

 

Quase século e meio depois, os laços entre centro e periferia - entre Estado e povo - tinham cristalizado. Quanto ao que chamamos corrupção (termo que não era usado) em Câmara Municipal alentejana que conheci bem as coisas passavam-se assim. Quando camponês, pequeno comerciante ou artífice tinha de lá ir, se o assunto fosse tratado a nível baixo a gorgeta era 25 tostões; a nível alto, 5 mil reis. Dentro do funcionalismo porque presidente e vereadores, todos da mó de cima, não constavam da tabela. Trocavam favores.

 

Havia muito menos negócios, muito menos dinheiro a circular, os ricos nasciam ricos, os pobres morriam pobres. Ao comércio e à indústria o Dr. Salazar preferia a agricultura.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 25 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

terilene

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O teor de terilene

 

 

Quando eu andava na escola, o 25 de Abril era a 28 de Maio. Na escola e por aí fora, quase até aos meus quarenta anos; depois mudou. Cada regime celebra o golpe militar que levaria à sua instalação: o Estado Novo festejava a revolta de Braga em 1926, chefiada pelo Marechal Gomes da Costa, que pouco tempo durou na chefia; a Democracia festeja a revolução dos cravos, com o General António de Spínola como figura de proa que também depressa se foi. Dos quatro regimes que tivemos no Século XX  - dez anos de Monarquia, dezasseis de primeira República, quarenta e oito de Estado Novo e agora a Democracia, toda foleira pelo Século XXI a dentro, deverá vir a ser esta a mais duradoura, quiçá mesmo muito mais duradoura, se o país vier a juntar mais uns mil anos àqueles que já viveu, quase todos com Rei (ou Rainha) absoluto ou constitucional.

 

«Os portugueses hão-de ser sempre os mesmos porque não há outros» dizia o primeiro Duque de Palmela, segundo me contou há anos o Vasco Pulido Valente, e gosto de o lembrar aqui porque eu não sou historiador e, quanto ao passado, prefiro fiar-me no que eles me digam a pôr-me a armar em carapau de corrida ou a armar ao pingarelho (o sargento-criptógrafo Pina dizia que não era bem a mesma coisa, eu acho, pelo contrário, que é exactamente a mesma coisa e o meu chorado Vasco Graça Moura, Deus lhe tenha a alma em descanço, dava-me razão e considerava o sargento – que ainda por cima era a favor do novo acordo ortográfico – um imbecil: o Vasco não tinha papas na língua). Mas se somos os mesmos há-de ser por genética e imitação de que nem sequer nos demos conta, que geração após geração, repetem-se  momentos – «A beber capilé, fica igual ao bisavô que eu ainda conheci» - e a propósito de capilé vem-me à ideia outro morto. Eduardo Calvet de Magalhães, que Deus tenha, irmão do pedagogo e do diplomata, tão esperto quanto os ilustres manos mas mais divertidos, inventou a publicidade moderna em Portugal e, numa altura em que Salazar não deixava entrar cá a Coca Cola, dizia ter inventado também o refrigerante português ideal – capilé gazeificado – tendo já slogan para ele:«A bebida que lhe corre nas veias».

 

Talvez haja em todos nós um ar de Sul da Europa, de Norte de África sem turbantes. Quando vivia em Princeton, vim a Coimbra, convidado ainda pelo Professor Ferrer Correia, a seminário sobre a Europa. Passava-se num antigo convento ao pé do rio; quando chegou a minha vez, passei para a mesa e me voltei para o público, poucos estudantes com capas, mas muita gente nova, e também velhas e velhos, achei-me de repente no Kosovo, onde eu ia muito nessa altura pelas Nações Unidas: as peles, os cabelos, as roupas, as expressões de espectativa resignada, os olhares. Senti-me quase em Pristina, sabendo que estava em Coimbra.

 

Contei isto dias depois a amigo da idade do meu filho, muito viajado e homem de bom conselho que me disse, meio espantado com o meu espanto:

«É o teor de terilene, Senhor Embaixador.»

 

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Quarta-feira, 4 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

bíblia

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Falar com Deus

 

 

Julgo haver sido Oliver Sacks – neurologista anglo-americano autor, famosamente, de “O homem que julgou que a mulher era um chapéu” (The Man who Mistook his Wife for a Hat”, de outros ensaios da sua arte e também membro de gang de motociclistas californianos barbudos e tatuados – a afirmar: “Quando as pessoas dizem que falam com Deus, a gente acha que elas estão a rezar; quando dizem que Deus fala com elas, a gente acha que elas estão malucas”.

 

A gente que assim acha, de que Sacks fala - ou melhor, falava: o bom doutor já morreu – não é tanta quanto ela própria julga. Nos últimos cinco séculos, à medida que a ciência, malgrado as violências do Santo Ofício, inexoravelmente progredia, gente assim espalhou-se pela Europa, pelas duas costas dos Estados Unidos e por outras partes ocidentalizadas da Terra. Não é, já se vê, o que se entende em muitas outras partes do mundo. Por exemplo, no Estado de Alabama, ao Sul dos Estados Unidos da América, onde a Bíblia é interpretada literalmente (o Universo foi criado por Deus quando o Livro da Génese diz que Ele o criou, isto é, há cerca de seis mil anos, com a Terra no seu centro e o que se aprenda agora: milhares de milhões de anos de existência do Universo, a partir do nada e começando num enorme estrondo, buracos negros entre nebulosas onde energia entrada nunca mais sai – ou talvez saia, o que harmonizaria teoria da gravidade e física quântica – quiçá universos paralelos, sendo o espaço infinito mas o tempo não, e não sendo nunca preciso um Deus), no Estado do Alabama, digo eu, Deus fala todos os dias com muita gente em seu perfeito juízo. E também em muitos outros lugares do globo, com muito mais habitantes do que aqueles que se contem na espuma agnóstica dos nossos dias esclarecidos a Oeste.

 

A conversa vai puxada, leitora. Fiquemo-nos pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacob, na versão retida pelo cristianismo ocidental e depois dividida pela Igreja de Roma, a Sul, e pelas Igrejas Reformadas, mormente as de Calvino e Lutero, a Norte. Lembrei-me disto fustigado pela quantidade de aldrabices de políticos, de homens de negócios, de banqueiros, de comerciantes, de doutores e para-doutores, pais e mães de família, estudantes e professores, compatriotas todos, que a imprensa cada dia mais nos revela. Protestantismo, capitalismo, catolicismo é conversa vasta e exigente; vou ficar-me por dois aspectos. Os protestantes têm de ler a Bíblia; os católicos contentam-se com o que os curas lhes digam dela, sem precisarem de aprender a ler. Os protestantes rezam a Deus; os católicos rezam também aos Santos, incluindo a Virgem Maria.

 

Ora, não só gente letrada se defende melhor da vida do que gente analfabeta, mas também a Deus não se mente - enquanto, com os Santos, tal tratamento é corrente e tolerado, em qualquer fase da transacção, mesmo no pagamento de promessas (isto é, quando o Santo cumpriu).

 

Mesmo longe de fés e liturgias, Portugal é um cabaz de Natal de falcatruas e pantominices.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 camilo_castelo_brancoEça de Queiroz

Camilo e Eça

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Polémicas do burgo

 

 

 

A Vera gostou muito do artigo do Henrique Raposo sobre o Vasco Pulido Valente no Expresso, “duro mas certeiro”; disse-me que eu próprio saí “muito bem na fotografia” e perguntou-me o que achava. Respondo-lhe neste seu blog “Retrovisor”, onde há mais de quatro anos me dá asilo político.

 

A primeira coisa que me ocorre é dar parabéns ao Vasco. A nossa relação para-fraternal - sendo ele irmão mais novo que de vez em quando se zanga, sem eu perceber porquê – vem muito detrás e logo no começo Vasco ganhou em mim crédito tal que, passadas mais de seis décadas, não se esgotou ainda. Aos catorze anos e baixinho – deitou corpo logo a seguir – levantou os olhos para o pai, engenheiro erudito (explicou-me que os romanos faziam a barba com sílex muito afiado) e disse-lhe: “Á pai, se eu tivesse a tua idade sabendo o que eu sei…” Toda a sua vida tem sido uma luta para estar á altura dessa espécie de promessa. Acho alguns dos muitíssimos artigos bons que publicou e, pelo menos, um dos seus livros, “O Poder e o Povo” (sobre a revolução republicana), peças de antologia. Que ensaísta competente e brilhante lhe dê tanta importância mesmo discordando, central e convincentemente, da sua maneira de olhar para nós, portugueses, faz jus ao trabalho de uma vida.

 

E, por fim, assunto mais pessoal, devo-lhe ter encontrado A.B. Kotter. Quando se preparava o diário “A Tarde”, Vasco disse a Victor Cunha Rego que se eu lá escrevesse, ele não escreveria e o Victor recebeu de braços abertos o inglês da Várzea de Colares.

 

A segunda coisa que me ocorre é dar parabéns ao Henrique Raposo. Também gostei muito do ensaio e lembrei-me da resposta intrigada de Mário Soares, recém-eleito Presidente, quando lhe perguntei como era Cavaco Silva, que eu não conhecia. “Não sei. Não pertence à burguesia urbana, como nós. Vai à televisão dizer que não mente!”. Por também não vir da burguesia urbana - nem do Alentejo da mó-de-cima - o olhar de Henrique Raposo vê diferente e foi diferentemente educado, até pelo próprio e pelas suas escolhas filosóficas (sem a mitologia do PC, não houve Santa Catarina Eufémia que o desencaminhasse). Sente melhor do que outros a diferença entre os doutores e o povo mas também o que todos têm em comum. (No fim dos anos 40 do século XX menina inglesa de 12 anos que viera visitar primas por essa idade filhas de lavrador rico de Reguengos, desatou a chorar numa aldeia do concelho porque nunca tinha visto gente tão pobre). A falta metódica de paciência de Henrique Raposo para o que chama o snobismo do Vasco, tratando os seus por indígenas, ajuda a perceber o país que somos. E acerta em cheio no papel de Eça de Queiroz no amolecimento das nossas elites. O velho Carlos Martins Pereira, também de Reguengos e também rico, preferia Camilo e dizia que Eça era “um janota do Porto”. Terá porventura tido razão.

 

Quanto a A. B. Kotter, tinha aprendido muito sobre Portugal em conversas com Jorge Dias. (Falavam sempre em alemão um com o outro).

 

 

 

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Sábado, 23 de Dezembro de 2017

Bom Natal

 

 

Presépio Marva 2

 

Cartão de Boas Festas (1965)

desenhado por Vasco Luís Futscher Pereira (1922-1984) e vendido nas Papelarias Progresso e da Moda.

 

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Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

rodrigues-migueis-g-ciup-704x350

 José Rodrigues Miguéis

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Bananas e sacanas

 

 

 

José Rodrigues Miguéis (1901 - 1980), autor de romances aborrecidos e de uma novela genial (Páscoa feliz), homem de esquerda, militando na oposição ao regime dirigido minuciosamente pelo Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar (que, nos primeiros anos, quando queria reorganizar o Estado, chegava a decidir ele próprio processos de acumulação de funções de pequenos funcionários públicos), viveu muito tempo em Nova Iorque e dizia que Portugal era um país de bananas governado por sacanas. Na minha juventude, quando as estupidezes e as maldades do governo do dia me lesavam e me indispunham cada vez mais com o ditador e os seus cúmplices – e quando não tinha percebido ainda que o Dr. Salazar, mais do que ser causa dos nossos males era, sobretudo, consequência deles – eu achava a formulação de Rodrigues Miguéis admirável e justa. (Só mais tarde me apercebi que qualquer nova-iorquino acharia qualquer português um banana, antes, durante ou depois do Estado Novo. Exemplo: em compêndios de clínica médica norte-americanos, entre os sinais gerais de doença – fadiga, falta de apetite, febre, etc. – figura, para sobrolho franzido de qualquer português bem-formado da minha geração, “falta de ambição”).

 

Com a longevidade da Democracia a aproximar-se da longevidade do Estado Novo - e tendo deixado muito para trás a República que, coitada, nem à maioridade chegou - passei por fase em que me apeteceu virar a formulação de pernas para o ar e dizer que Portugal era um país de sacanas governado por bananas, porque muitos dos nossos políticos vinham ainda da oposição ao regime anterior, e viviam na ilusão de estarem a libertar a bondade do chamado povo, enquanto o chamado povo, por seu lado, não estava tão desenvolto como entretanto ficou e não se tinha apercebido ainda de que ser livre não era passar a sentir o que os doutores do reviralho achavam que ele devia sentir mas sim sentir o que lhe desse na real gana, doesse aos doutores a quem doesse. (Digo o “chamado povo” e não o povo, com vénia ao meu amigo João Carlos Espada que prefere dizer “população” em vez de “povo”. Não sou cientista dessas coisas mas percebi porque é que ele o faz ao lembrar-me de conversa sobre democracia directa com Maria de Lourdes Pintasilgo - Deus lhe tenha a alma em descanso - então primeiro-ministro, em que ela me perguntou o que é que eu achava que o povo pensava. “Oh Maria de Lourdes, o povo sou eu” respondi-lhe. Para “povo” não vejo outra volta a dar-lhe, desde a abolição dos três estados. Para “população”, vá estatísticas).

 

A democracia destapou os portugueses e pôs tudo bem à vista. Temos sacanas e bananas sortidos entre quem governa e entre quem é governado. Sem ditadura o baralho baralha-se mais. Escândalos recentes mostram torpezas tão más na mó de baixo como na mó de cima. Vai custar muito pôr tudo no são. Mas, para país de fundo católico, sobretudo no Norte, e de costumes mouros, sobretudo no Sul, podia ser pior.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

D Pedro

 Infante D. Pedro

 

 

 

José Cutileiro

 

 

De burro para cavalo?

 

 

 

Em tempo normal (se tal se puder ainda dizer nos nossos dias, vendo os filhos desobedecerem aos pais, as mulheres aos maridos, os novos aos velhos, os pobres aos ricos, os pretos aos brancos, os malcriados aos bem educados – tudo coisas que não eram costume quando eu era pequeno neste país que tão generosamente viria a acolher no seu seio o meu chorado amigo Freddy; as poucas que aconteciam, aconteciam à socapa - e quase toda a gente a achar bem que assim seja ou então a achar que não tem nada a ver com isso e a querer que a deixem em paz, o que é diferente - contrário mesmo - a querer que haja paz) o lema que não existia, nem existe, da diplomacia portuguesa que eu conheci por dentro, a do Estado depois do 25 de Abril, isto é, depois do fim da Ilusão Colonial e antes do Tratado de Lisboa, isto é, do renascer aqui e além da Ilusão Federal - mas deixando pela primeira vez porta de saída que Londres, sem gosto pelo contorcionismo comunitário, está agora desajeitadamente a abrir - deveria ter sido as palavras de despedida ao fim do dia de trabalho, que ouvi uma tarde e nunca mais esqueci, a mulher-a-dias da minha Mãe: “Adeus, parabéns, obrigado e desculpe”. A visão do saguão e o instinto da porta de serviço, por um lado e, por outro lado, o reflexo contrário ao do Infante Dom Pedro a finar-se em Alfarrobeira: “Fartai, vilanagem!” (Avec ses quatre dromadaires/ Don Pedro d’Alfarrobeira/Couru le monde et l’admira./Il a fait ce que je voudrais faire/Si j’avais quatre dromadaires escreveu Wilhelm Kostrovicki, conhecido por Guillaume Apollinaire, que sobreviveu á Grande Guerra – Ah que la guerre est jolie/Avec ses canons et ses cris! – mas foi levado logo a seguir pela Gripe Espanhola, aos 39 anos. Como é que o polaco terá sabido do português?) Mas, desde que nos sentamos à mesa dos crescidos, tem sido um vê se te avias. Qualquer dia há de estranhar-se o Papa não ser português.

 

Releio as linhas acima e desagrada-me a propensão para parágrafos quase tão compridos quanto os do divino asmático mas enquanto este enchia os seus de palavras tão bem escolhidas que a gente chegava ao fim de cada uma dessas ladainhas com a alma consolada e com água na boca para a ladainha seguinte, eu só recebo de volta irritações das leitoras, apostadas às vezes em descobrir erros de concordância, ou predicados sem complemento directo, ou indicativos onde deveriam perfilar-se conjuntivos – que a portuguesa poderá ter muitos defeitos e insuficiências mas, tal como o português, tem um mérito certo: deitar ao desprezo quem julgue esteja a armar ao pingarelho, ou esteja a armar em carapau de corrida, expressões que o Senhor J. Fonseca me disse um dia serem quase mas não serem bem a mesma coisa, sem conseguir explicar-me a diferença de maneira que eu a entendesse. No Negage a gente topava, acrescentou.

 

Infelizmente palpita-me que a minha mania de escrever parágrafos muito compridos seja vista como uma dessas armações por muito boa leitora.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

tambor barcelos

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Já mesmo na mó de baixo? Ou só a querer chegar lá?

 

 

 

“Isto está preto. E não chove.” Assim amiga muito querida se associou à minha indignação pela incúria com que Presidente, governo, parlamento, jornais, televisões, telefonias, Facebook & quejandos, parecem nem dar pelo estado das nossas defesa e segurança. Incúria antiga, que seria injusto atribuir à “geringonça” ou até, indo mais atrás, à Democracia que vigora desde 1976, ou ao Estado Novo chegado em 1926 ou à Primeira República instalada em1910. Ou sequer à Monarquia Liberal.

 

Algures na história da Europa, entre um Pacheco fortíssimo e os temidos Almeidas por quem sempre o Tejo chora, Albuquerque terríbil, Castro forte e outros em quem poder não teve a morte, e a fuga de D. João VI e da corte para o Brasil, deixando os marechais do corso a tomar conta da gente e a roubar-nos património, aquela mayonnaise firme de vontade, de coragem e de lucidez que nos fizera passar ainda além da Taprobana, talhou dentro das nossa almas e nunca mais fomos os mesmos. Tal mayonnaise talhada - caruncho, osteoporose, reumatismo - foi-nos esfarelando por dentro. A pouco e pouco, fomos perdendo o hábito de ganhar e fomos ganhando o hábito de perder. Em tudo, de todas as maneiras, de forma explícita ou implícita, de entrada talvez com algum incómodo, depois quase já sem nos apoquentarmos com isso e, por fim, como se tal pertencesse à ordem natural e inquestionável das coisas.

 

Quando eu era pequeno ouvia-se cantiga muito espalhada que não sei quando, nem onde, nem por quem fora composta, presumo que já no século XX mas talvez antes e talvez também, na direcção oposta, tendo deitado até ao tempo da leitora que porventura se lembrará dela. Começava assim:

 

Lá em cima está o tiro-liro-liro,                                                                                              

Cá em baixo está o tiro-liro-ló.

 

Anos a fio, de vez em quando a ouvi, de vez em quando a cantarolei, sem nada achar de esquisito. Até que um dia me ocorreu, de repente, como uma revelação, que não poderia ter sido cantada por um inglês ou por um chinês, ou por alguém que, viesse donde viesse, tivesse gosto e orgulho em ser de lá. Quem quer que fosse senhor do seu nariz, que fosse de um só parecer, um só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer, cantaria outra cantiga que pareceria quase igual à primeira mas seria, na realidade, o oposto dela:

 

Cá em cima está o tiro-liro-liro,                                                                                              

Lá em baixo está o tiro-liro-ló.

 

Porque não lhe passaria pela cabeça dizer o contrário. Porque não traria consigo a visão do saguão e o instinto da porta de serviço que parecem terem passado a ser apanágio de nós todos.

 

Assim vamos vivendo do lado de cá do Atlântico, longe da inteligência artificial dos engenhocas de Silicone Valley, onde robots vão mandar na gente, e da estupidez natural da cintura bíblica do Alabama, onde o Mundo começa circa 5.500 a.C.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 15 de Novembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

soldado-na-bandeira-da-união-europeia

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Incompetência a mais

 

 

 

23 dos 27 países que constituirão a União Europeia depois da saída do Reino Unido lançaram no dia 13 uma Cooperação Estruturada Permanente em Defesa. Esta iniciativa crucial, em estudo há vários meses, abre novas formas de os europeus reforçarem a sua segurança. Todas as capitais europeias sabem que num mundo muito perigoso, com inimigos a Leste (a Rússia de Putin) e a Sul (o terrorismo islâmico) e com aliado a Oeste que parece ter deixado de ser incondicional (os Estados Unidos de Trump), a nossa segurança poderá não ser garantida apenas pelos meios de que dispomos hoje, nomeadamente as forças de cada um e as capacidades da OTAN a que 22 de nós pertencemos. A Irlanda, no mesmo dia, anunciou ir em breve juntar-se aos outros.

 

Ficaram de fora, como já se esperava, a Dinamarca que, quando aderira às Comunidades Europeias em 1973 declarara que nunca participaria em iniciativas militares no quadro desta (a ideia, nessa altura, era não se associar a qualquer eventual enfraquecimento da OTAN, risco que já há anos deixou de existir) e Malta que não é membro da OTAN e é signatária de documentos do seu tempo de país “não-alinhado”. Surpreendentemente, por decisão nossa, ficou também de fora Portugal, signatário em 1949 do Tratado do Atlântico Norte de Washington e, por isso, membro fundador da Organização deste, vulgo NATO.

 

Quando na segunda-feira a notícia me chegou pelo écran do meu computador, dei – literalmente – um salto na cadeira. A leitora que não entenda a vivacidade dessa reacção, conto porquê. Pertencer à NATO é a trave mestra da defesa nacional, isto é, da segurança do nosso país, desde muito antes do 25 de Abril. Embora só depois de passarmos a ser uma democracia, em 1976, tenhamos sido admitidos como candidatos às Comunidades Europeias (hoje, União Europeia), às quais aderimos, ao mesmo tempo que a Espanha, em 1986, necessidades estratégicas nossas e do Ocidente em geral fizeram pôr de parte esse requisito quanto a defesa e segurança, no nosso caso. (A Espanha só pôde entrar na NATO depois de ser uma democracia).

 

Apesar de ocasionais expressões francesas de antiamericanismo o primado da NATO nunca foi posto em causa. Depois do fim da Guerra Fria, porém, certas coisas mudaram. Por um lado, a reunificação alemã fez a França perceber que precisava mais dos Estados Unidos do que julgava; por outro lado, a passagem da Rússia de potência mundial a potência regional levou os Estados Unidos a entenderem que os europeus deveriam pagar mais pela sua própria defesa (pagamos escandalosamente pouco). E aqui entra a necessidade urgente e vital de desenvolver as capacidades potenciais de defesa da União Europeia.

 

Que Portugal não se meta nisso, logo à cabeça, é muito mau sinal. Dada a matéria, precisar do apoio comunista deixa o governo em apneia patriótica mas atacar Costa nesta altura faz a oposição parecer desmiolada e pouco patriótica também. Já não há 5 de Outubro, 28 de Maio ou 25 de Abril. Como ganhar ânimo?

 

O autor foi Secretário-Geral da União da Europa Ocidental, à época a única organização europeia de defesa, de 1994 a 1999.

 

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