Quarta-feira, 1 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Napoleon_Bonaparte_by_Benjamin_Robert_Haydon

 Napoleão Bonaparte em Santa Helena

 Benjamin Robert Hayden

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

O Bem, o Mal e o Outro

 

 

Napoleão nasceu na Córsega, Estaline na Geórgia e Hitler na Áustria. Não há muitos franceses a detestar Napoleão que, do Panteão à Legião de Honra domina a paisagem (cada francês é coluna salomónica de um Ci-devante um Sans Culottee Napoleão ampara os dois). Quanto a Estaline, os pareceres estão divididos e pulhas como Putin hão de querer sempre puxá-lo para cima e esquecer as atrocidades. No que diz respeito a Hitler, circunstâncias garantiram que por mais de meio século a enormidade do Mal continuasse bem presente mas a canalha saudosista e os seus herdeiros começam a criar espaço, não só na Alemanha, para conversa ambígua que, ao longo da História, acabou sempre em anti-semitismo.

 

É a natureza humana. A escala modesta: quando eu era pequeno, em aldeias do Alentejo onde só houvesse uma loja que vendia de tudo, o dono tinha quase sempre vindo de fora (é mais fácil não fiar a estranhos do que a amigos e parentes que no dia do enterro segurarão borlas ou maçanetas). E as lealdades da tribo não aguentam sempre. No Reino de Aragão da Idade Média, em zaragata de feira, homem acossado gritava o seu nome e quem fosse da família saltava para o pé dele já de espada desembainhada ou de punhal na mão. O estado moderno, mais complexo, não instila fraternidades tão intensas. Quando, em 1994, fui escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental (na altura, a única organização de defesa europeia) houvera outros candidatos, entre eles Enrique Baron Crespo, que fora ministro de Felipe Gonzalez e Presidente do Parlamento Europeu. Passado mais de um mês recebi de amigo espanhol do meu tempo de Oxford carta manuscrita em inglês, datada em Darkest Périgord que começava assim: Dear José, The joy of seeing Enrique Baron lose the job, almost made me forget to congratulate you on getting it.

 

É por estas e por outras que os povos desconfiam das elites e nos têm mimoseado nos últimos tempos com criaturas mais ao gosto deles: Trump nos Estados Unidos (isto é, por toda a parte), Orban na Hungria, Erdogan na Turquia, o gémeo sobrevivente na Polónia e outros, às vezes ainda mais ou menos contidos pelo pendor democrático das instituições, como o jovem Chanceler austríaco. Na Alemanha a extrema-direita entrou pela primeira vez no Bundestag. E, por fim, a maior barbaridade de todas: o resultado do referendo britânico em que a maioria do povo quis sair da União Europeia, sem saber de todo o que isso significaria nem tampouco como o fazer. O espectáculo em Londres tem sido penoso e, do lado europeu, há também quem esconda mal a alegria de se ver finalmente livre da grande achega de decência e bom senso que o Reino Unido nos continuava a dar a todos.

 

Voltando ao começo: faz sempre jeito ter um bode expiatório para levar com a ira de Deus (ou, mais modestamente, com as sanções terrenas do inimigo vencedor). Mas my country right or wrong foi chão que deu uvas: as piores guerras são as civis. Quand je tue je sais qui je tue.

 

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Sexta-feira, 20 de Julho de 2018

Evora-Africa

Até 25 de Agosto de 2018 em Évora

O programa completo pode ser consultado em http://evorafrica.pt/

 

 Chéri Samba

Chéri Samba

© http://www.magnin-a.com

 

A exposição de arte contemporânea "African Passions", no Palácio Cadaval, com curadoria de André Magnin e Philippe Boutté - a primeira que realiza em Portugal - inclui obras de artistas plásticos e fotógrafos do Congo, Costa do Marfim, Moçambique, Mali, Senegal, Benim, África do Sul e Madagáscar.

 

O festival "Evora Africa", que se prolonga até 25 de Agosto, apresenta um diversificado programa de exposições, concertos, performances, conferências e DJ'S e reúne trinta artistas plásticos contemporâneos, músicos e performers africanos. 

 

 

omar-victor-diop-design-indaba-designboom-06

Omar Victor Diop, Série Diáspora

© http://www.magnin-a.com

 

Para além do Palácio Cadaval, o Templo Romano, o Cromeleque dos Almendres e a Biblioteca Pública de Évora serão palco de espetáculos da Orquestra Ballaké Sissoko, Costa Neto, Irmãos Makossa, Rita Só, Johnny Cooltrane, Mbye Ebrime, DJ Rycardo, Companhia Xindiro e os jovens dançarinos, Celeste Mariposa, Bambaram, Bassekou Kouyate, Selma Uamusse, Bubacar Djabaté, Áfrika Aki, The Zaouli de Manfla, Miroca Paris, DJ Ibaaku, Sara Tavares, Congo Stars de Vibration, Dj Lucky, Lady G Brown.

 

 

Malick Sidibé | Courtesy Galerie MAGNIN-A, Paris

 Malick Sidibé, Nuit de Noël (Happy Club), 1963

© http://www.magnin-a.com

 

 

 

Centro de Arte Quetzal, Vidigueira

 

No contexto do festival, o Centro de Arte Quetzal apresenta uma selecção de trabalhos dos artistas sul-africanos Marlene Dumas, Moshekwa Langa e William Kentridge, incluindo a série de curtas-metragens de animação (Dez desenhos para projecção 1989-2011), e um mural tipográfico da artista egípcia e libanesa Bahia Shebab, com o título Mil Vezes Não.

 

W Kentrridge

William Kentridge Levitation 1996

 

 

 

Marlene Dumas

Marlene Dumas Cain+Abel (Twins) 1989

 

 

 

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Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

el greco

 S. Francisco de Assis - El Greco

 

 

José Cutileiro

 

 

A parte colérica da alma

 

 

Partido de extrema-direita ganhou as eleições na Eslovénia e irá juntar o país a outros do Centro e do Leste da Europa – Hungria, Polónia, República Checa, Áustria - e talvez em breve também do Oeste – Itália - que dizem não a emigrantes vindos de África e de Ásia (terras viciosas que há cinco séculos os portugueses andaram devastando, cantara Luís, zarolho de génio de cuja data de morte fizemos dia nacional, celebrado no Domingo).

 

Setenta e três anos passaram sobre a afirmação universal do Bem, quando em 1945 o Terceiro Reich se rendeu incondicionalmente aos aliados; afirmação confirmada, para os que ainda tivessem dúvidas, quarenta e quatro anos depois, quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo e os aliados bons derrotaram por fim os aliados maus; com demão suplementar da dita confirmação aplicada zelosamente entre Janeiro de 2009 e Janeiro de 2017 por Barack Obama, então inquilino da Casa Branca, convencido de que a sua passagem por lá iria melhorar o mundo (Razão, irmã do amor e da justiça mais uma vez escuta a minha prece, rogara também Antero, o suicida do jardim público em Ponta Delgada).

 

A parte colérica da alma está a voltar em força e a fomentar ódio ao estrangeiro em corações que nos últimos decénios andavam distraídos por outras coisas. Praticam-se crueldades que, julgávamos nós, tinham passado a ser inadmissíveis. Na fonteira entre o México e os Estados Unidos, famílias latino-americanas que para estes queiram emigrar legalmente vêm os filhos separados dos pais até à conclusão do processo, isto é, sine die, sem nada saberem uns dos outros. Tal enormidade Trumpiana (ele diz que a lei vem dos Democratas mas é mentira), condenada até por alguns senadores norte-americanos, continua de vento em popa. De desmandos de Putin, Orban, Erdogan, do faraónico Sisi e outros mandachuvas africanos, do grande chefe chinês que se fez declarar perpétuo pelo Partido, sabemos todas as noites no telejornal (se Sócrates, Pinho, EDP, Sporting, eutanásia e dentro de dias campeonato do mundo de futebol deixarem tempo…) e cada um já não nos incomoda mais que escassos segundos.

 

Achamos outra vez natural que os humanos sejam maus como as cobras uns para os outros, o que sempre aconteceu e muitas vezes por razões consideradas boas (quando retomou Goa em 1510, Albuquerque terríbil encheu um bote com orelhas e narizes de muçulmanos locais, castigados por o terem traído; no seu tempo de Vice-Rei, em barco cheio de muçulmanos apresado no alto mar, homens, mulheres e crianças eram sempre passados a fio de espada que a segurança do Império dispensava mais mourama).

 

A demanda do Bem, a convicção de que a felicidade passara a ser possível não levaram só ao Gulag ou a Pol Pot. Na decência tenaz de algumas  democracias burguesas pareceu  à vezes que certas maldades tinham acabado (como a varíola, no mundo natural). Grande engano. Como um sábio lembrou, a guerra é tão antiga quanto a humanidade; a paz é uma invenção recente.

 

 

 

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Quarta-feira, 30 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

os-batoteiros-caravaggio-1595

 Caravaggio (1595)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Os cotovelos da Europa

 

 

… eram a Inglaterra e a Itália, decidiu o nosso Fernando Pessoa no começo do seu único livro de versos publicado em vida, « Mensagem », que apresentou a concurso organizado pelo Secretariado de Propaganda Nacional do governo do Dr. Salazar onde lhe deram menção honrosa (o 1° Prémio foi para « Romaria », do padre Vasco - do apelido esqueci-me - de quem toda a gente se esqueceu também). Um dos cotovelos era a Inglaterra, o outro era a Itália. Com tais cotovelos no estado em que estão hoje a Europa arriscar-se-ia a cair de caras o que seria mau para nós porque para o compincha de Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e mais rapaziada (não havia meninas) o rosto da Europa era Portugal.

 

A Inglaterra foi sempre pedra no sapato da Europa e o Brexit, quando veio, não espantou ninguém. Por outro lado, como a prosperidade dos ilhéus depende de relações mutuamente vantajosas com o resto da União, há cada vez mais gente a querer que, por fim, não haja saída ou que haja saída tão parecida com não a ter havido que ninguém dê por isso (que não se sinta diferença no tinir dos dobrões no bolso, diria o meu amigo Henrique). Se Putin continuar, sempre, a meter medo e Trump continuar a meter, às vezes, medo maior ainda, talvez a prudência leve a resultado que nos enriqueça a todos em vez de nos empobrecer.

 

O susto agora não vem desse cotovelo. Vem do outro, do italiano. A Itália, um dos seis países fundadores do que é agora a União Europeia (mas o único cujos chefes não podiam voltar de automóvel para dormirem em casa depois de jantarem todos em Bruxelas, por ser longe de mais), país rico com manhas de país pobre onde a vergonha é opcional, tem a maioria dos eleitores contra a Europa pela primeira vez desde as Comunidades Europeias. A leitora saberá de peripécias recentes: eleições puseram no topo A Liga, partido de direita dura, racista, xenófoba, nostálgica de Mussolini e o 5 Estrelas, partido meio virado para o infinito meio virado para bardamerda, ramalhete de fantasias irresponsáveis italianas que recebeu ainda mais votos do que o outro. Nada os une salvo ódio à Europa, ao euro, às elites políticas tradicionais do país, de Berlusconi a Renzi, e à estrangeirada – pretos e alemães à cabeça. O Presidente da República encarregou de formar governo nulidade aldrabona por eles indicada mas recusou-se a aceitar para ministro das finanças economista que advogara saída do euro. Impasse: a nulidade retirou-se, os dois partidos bateram a porta, o Presidente encarregou tecnocrata (tão amigo da austeridade que lhe chamam O Tesouras) para formar governo de gestão e daqui a poucos meses haverá novas eleições.

 

Bruxelas suspirou de alívio; Macron saudou a coragem do Presidente. Eu tenho dúvidas. No governo, a coligação depressa daria ditos por não ditos, exporia sua incompetência e se desfaria. Assim ganhou capital de queixa populista e será mais difícil de combater no futuro.

 

“Ai esta Europa, esta Europa…” diria a Avó Berta.

 

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Quarta-feira, 16 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Balthus - La partie de cartes, 1948- 1950, Thyssen

 Balthus, 1948/50

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A nudez forte da verdade

 

 

                 A verdade, Zé, é uma água muito quente onde eu de vez em quando meto um dedo para ver se ainda queima – e ainda!                                               Luís de Sttau Monteiro, em conversa, circa 1960.

 

« Conhecemos bem esse Portugal dos favores, cunhas e notas por debaixo da mesa. Era prática ‘institucional’ que todos condenavam indignadamente mas a que todos recorriam alegremente. Mudar o statu quo de uma penada está a ser dificil » escreve-me sobre o Bloco da semana passada leitora fiel e avisada que usa o pretérito para as malfeitorias e o presente para o começo da mudança.

 

Oxalá tenha razão nos tempos dos verbos. Que neste ano da Graça de 2018 haja começado outro Grande Salto em Frente lusitano, mais de meio milénio depois do primeiro calar tudo o que a musa antiga cantava. Oxalá - mas não estou seguro. Costumes antigos, como burros velhos, não aprendem línguas. E algures entre o roteiro de Álvaro Velho relatando a viagem de Vasco da Gama à Índia (1498) e a carta de Fradique Mendes à madrinha relatando chegada a Lisboa, a Santa Apolónia e de lá para o Hotel Bragança, numa noite de temporal (1885), dera-se grande mudança. Com o criado inglês e a bagagem já no hotel, Fradique confronta o cocheiro que, debaixo de chuva torrencial e sem outro fiacre à vista, antes de começar a corrida impusera preço exorbitante.

 

« Com que então são três mil reis ?’

‘Eu disse aquilo por dizer. Não tinha conhecido o Senhor D. Fradique. Para o Senhor D. Fradique é o que o Senhor D. Fradique quiser.’

Dei uma libra àquele bandido. »

 

A indignação contra a corrupção que borbulha agora é circunstancial e raramente vem do fundo da alma. A retórica das manifestações de desagravo é oportunista. Sem protestantes e sem judeus desde o Concílio de Trento, nós, portugueses, não temos medo essencial de Deus (não o confrontamos directamente; contamos com os Santos que são os Senhores Doutores do Céu  para nos defenderem), temos medo acessório da polícia – e os mais ginasticados viram a casaca enquanto o Diabo esfrega um olho. A seguir à convenção de Évora-Monte, a Câmara de Monsaraz, miguelista durante toda a guerra civil, escreveu a D. Maria II protestando amor e fidelidade « que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fiéis». Vamos ver agora muito disso.

 

Vão ser tempos difíceis. Ou desistimos de morigerar o país, rapaziada esperta passará a desembaraçar-se como no sul de Itália ou na Córsega, controle e riqueza serão partilhados à força com bandidos mafiosos e não haverá turismo ou Europa que nos salve dessas servidões, o que seria uma pena. Ou apesar de tudo como Camus talvez tivesse razão e haja no homem mais de bom do que de mau, insistiremos em querer passar pela porta estreita, seguir pela via direita, portarmo-nos como gente de bem e antes de chegarmos à decência colectiva viveremos tempos dolorosos. A nudez forte da verdade ficará às vezes coberta de nódoas negras.

                                                              

 

 

 

 

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Quarta-feira, 2 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

matsys

Quentin Metsys - O Cambista e a sua mulher (1519)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Deutschland, Deutschland über alles

 

 

 

Quem é o maior inimigo da União Europeia? O Reino Unido, de saída no comboio fantasma do Brexit? Itália, onde maioria dos eleitores votaram este ano em partidos que não a querem? Polónia, a submeter o poder judicial ao poder executivo? A Hungria autoritária e xenófoba de Vitor Orban?

 

Ou estará o inimigo fora de portas? Os Estados Unidos de Donald Trump com o seu ataque sistemático ao ambiente e a sua guerra comercial contra mundo? A cleptocracia de Vladimir Putin, incapaz de diversificar economia de gás e petróleo, com 110 pessoas donas de 35% da riqueza russa, a mão de ferro do Kremlin a dominar jornais, telefonias e televisões, controlando a opinião interna, e ordena piratagem informática (e um assassinato ou outro), para tentar destabilizar potências estrangeiras, grandes ou pequenas? Ou será a China, planeando a longo prazo (que já não é o que era: Keynes escreveu que a longo prazo já teremos morrido todos mas agora, a longo prazo, ainda alguns de nós por cá andarão)?

 

Ou, para espíritos seduzidos pela teoria conspirativa da história, todos estes, mancomunados uns com os outros?

 

Nada disso, leitora. O maior inimigo da União Europeia é afinal a Alemanha, que é também o mais populoso e o mais rico dos seus Estados Membros bem como, até há poucos anos, o era a Alemanha Federal – antes da reunificação havia duas Alemanhas - o único a encontrar na Europa um Ersatz de Pátria . Em 1996, em Bruxelas, coronel alemão que trabalhava comigo na UEO e fora no dia 9 de Maio a espectáculo na Grand Place para celebrar o Dia da Europa, contou-me, indignado, que só ele, a mulher e os filhos se tinham levantado quando fora tocado o Hino da Europa (4º andamento da nona sinfonia de Beethoven, sobre a Ode á Alegria de Schiller).

 

Em 1945, os europeus beligerantes estavam de rastos e a Alemanha, além disso, com quatro patas em cima (USA, URSS, Reino Unido e França) para só se levantar devagar e desarmada. Mas em 1957 já assinou o Tratado de Roma (a Itália também); laboriosa e disciplinada fora pagando a sua conta, pagamento muito facilitado porque se precisava dela forte, perante a União Soviética. Com os anos foi recuperando muitas das características de uma grande potência (e uma rara nestas: era o único dos “grandes” a esforçar-se por tratar bem os “pequenos”). Antes de se dissolver, a União Soviética consentiu na sua reunificação. Aí as coisas mudaram.

 

A “construção europeia” fora inventada na esperança de se poder viver em paz com a Alemanha depois das duas tragédias da primeira metade do século XX. Funcionou enquanto a Alemanha era devedora e estava dividida. Cofre pagador e reunificada, opõe-se a qualquer forma de mutualização da dívida. Acredita que o Norte protestante da Europa é bom e o Sul católico e ortodoxo é mau. Dívidas são pecados. Conservadores, liberais, verdes e democratas sociais acham “que a Europa está como está porque não se foi suficientemente duro com os países do Sul”. Nada bom à vista.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 27 de Setembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

E. Munch.winter

 Edvard Munch, 1899

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Winter is coming

 

 

 

Toulouse-Lautrec adorava o Outono, que para ele era a Primavera do Inverno, e embora esta semana Bruxelas esteja banhada no que os ingleses imperiais apodaram de Verão Indiano, o Inverno avizinha-se como monstro em pesadelo que exigiria almas ainda mais torturadas do que a do fidalgo-pintor – há mais de meio século, em cantiga portuguesa traduzidota de filme a cores de Hollywood, “…por mais que fizesse/Vivia a lembrá-la/E bebia absinto/Pelo cabo da bengala” – para apetecerem a estação das trevas e sofrerem por ela levar quase um ano antes de nos tornar a visitar (no Hemisfério Norte. Não sei como a correcção política dá conta do recado sem ofender as/os do Hemisfério Sul).

 

Para mim, como em todos os sistemas simbólicos que o bicho homem foi inventando durante milhares de anos para tentar viver com a noite e o dia, o mal e o bem, a força e a fraqueza, a mulher e o homem, a vida e a morte, o Inverno é coisa péssima (ao contrário do que achava o aleijadinho genial, que “ia ao Moulin Rouge/Enfrascar-se no vinho”) - e o de 2017-2018 vai ser “très very péssimo” como diria chauffeur de táxi poliglota que me levou o ano passado de casa ao aeroporto, onde ainda decorriam trabalhos de reconstrução, consequentes de terrorismo bombista.

 

No verão de 1914, ministro britânico ganhou nota de pé de página no grão livro dos viventes por ter dito que por toda a Europa as luzes se estavam a apagar. Para os europeus, a primeira metade do século XX foi uma Bernardette do caboz e, para muitos – incluindo, leitora, este seu criado – a segunda foi work in progress até ao colapso da União Soviética. Mas o mundo é mais complicado do que cada um de nós julga. Um bem que hoje se alcança/Amanhã já o não vejo/Assim nos traz a mudança/De esperança em esperança/E de desejo em desejo - ou, olhando para o ano que se aproxima e tomando outra inspiração clássica, de Bernardette do caboz em broncalina do camandro. Na América, Trump – e quanto melhor se percebe no que deram quer o partido Republicano quer o partido Democrático menos a gente se espanta. Na Europa, da Polónia ao Reino Unido, da Hungria à Catalunha, poucos dizem coisa com coisa; Macron procura, em vão, que os franceses se portem como alemães e Frau Merkel descobre com alarme que quem quer cada vez mais portar-se como os alemães são os alemães eles próprios. Très very péssimo.

 

O mal vem de longe. Durante a Guerra Fria, para encostar a URSS à parede, armámo-nos em defensores dos direitos do homem, levantando a fasquia bem acima das nossas posses – mas, como os soviéticos podiam muito menos ainda do que nós, passámos por virtuosos (assim um bocadinho como a filha do general birmanês). Ainda por cima, financeiros e economistas acham mais graça a tornar os ricos mais ricos do que os pobres menos pobres e o mau viver está a espalha-se por toda a parte. Por um tempo, sabedoria e bondade foram valores seguros. Se deixarem de o ser, acabou o meio milénio de intervalo lúcido a que tivemos direito.

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Schubert

 Franz Schubert, aguarela de Wilhelm August Rieder, 1825.

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O quinteto em dó maior, D 956, de Schubert

 

 

 

O mano Jorge, que morreu com dez anos e tinha menos nove do que eu, era o único dos três filhos com jeito para música. O piano que fora da Mãe veio de Évora para nossa casa em Lisboa e a Professora Mariana que dera lições ao Babalhú, à Luzinha e à Nucha, filhos de João Cid dos Santos e de sua mulher Nazaré Vilhena, amigos lá de casa – o Pai era padrinho da Nucha – começou a dar lições ao Jorge quando ele tinha seis anos.

 

O Pai cantara em novo cantigas alentejanas (lembro-me da confusão que me fizera ouvi-lo nos Olhos da Marianita em casa do avô quando eu sabia estar ele em Lisboa: era um disco gravado quando era estudante e posto na telefonia naquela manhã pelo Radio Clube Português ou a Emissora Nacional) mas quer o João quer eu pouco ou nada herdámos dessa inclinação; o João, nada mesmo: se fosse inglês poderia dizer como Winston Churchill que só conhecia duas músicas – uma era o God Save the King e a outra não era; eu saíra um bocadinho menos duro de orelha, distinguindo alguns compositores de outros e sentindo preferências fortes por alguns deles.

 

Nunca saberemos o que o Jorge teria dado. Na geração seguinte, a inclinação reapareceu. O meu filho toca há muitos anos em dois grupos pop holandeses que têm conhecido algum sucesso em Groningen e outras cidades do Norte dos Países Baixos. E o meu sobrinho Tiago, que agora vive em Berlim, é compositor, inter alia, de uma ópera, de música orquestral e de música de câmara, tendo também sido professor de composição. Para entender melhor estes saltos de gerações é útil saber que não são à toa. Existe toda uma ciência destas coisas a partir das experiências de um monge agostinho de Brno, hoje na República Checa, chamado Mendel que, passou oito anos a cruzar ervilhas de cheiro e descobriu as leis segundo as quais, em cada espécie, os caracteres hereditários passam de geração em geração, fazendo comunicação científica em que explicou tudo isso, incluindo a existência de pares do que hoje chamamos genes, em 1865. Ficou esquecido meio século, depois inspirou investigações que ainda hoje continuam: é um gigante da biologia, ombreando com Darwin. Ver-se-á o que darão o meu neto e os netos (e o bisneto) do mano João.

 

Tudo isto porque na telefonia do carro ouvi hoje mais uma vez o quinteto em dó maior de Schubert D 956 quase todo, tocado não sei por quem. De há um século para cá ouve-se música que nos chega assim, por acaso ou de propósito, em discos e em maneiras mais modernas ainda de a reproduzir sem ter de haver músicos a tocá-la diante de nós ou nessa altura. Ouvi-o pela primeira vez em casa do Ruy Cinatti e, na minha ignorância musical, tocou-me muito e veio-me à cabeça linha de Eliot “ an infinitely gentle, infinitely suffering thing”. Volta sempre que o oiço (a última vez o ano passado, ao vivo). Quando estou em sala, dá-me para achar que não devia haver discos. Depois caio em mim: sem discos, teria ouvido muito pouca música, quase toda má.

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 12 de Julho de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Bataille de Waterloo

 Batalha de Waterloo  /  Clément-Auguste ANDRIEUX (1829 - 1880)

 

 

José Cutileiro

 

 

Fabrício em Waterloo

 

 

 

 

Ou “Fabrice à Waterloo” como os franceses gostam de dizer, não por serem senhores do seu nariz e terem sempre nariz maior que o do Cyrano (há quarenta anos, quando em Estrasburgo convivi com eles pela primeira vez, percebi que eram portugueses réussis, isto é, tinham todos os nossos defeitos sem terem a qualidade simpática que às vezes nos bafeja de reconhecermos que nem sempre temos razão) mas por ter sido romancista francês quem pôs personagem de romance seu, chamado Fabrice, tão atarantado durante a batalha de Waterloo em que participava como voluntário do lado dos franceses de Napoleão, que perdera o fio à meada, não entendia o que se estava a passar nem percebia sequer quem estava a ganhar e quem estava a perder. A passagem está tão bem escrita que a expressão “Fabrice à Waterloo” entrou na conversa das francesas e dos franceses cultos para referir atrapalhações desse género nos campos mais variados onde a vida nos solte ou prenda – assim como em Portugal a gente recorre ao velho do Restelo, que Camões pôs nos Lusíadas a achar que Vasco da Gama não deitava até à Índia, para falarmos de botas de elástico com raiva ao futuro que só se sentem bem no que julguem já conhecer por dentro e por fora.

 

Nos últimos tempos tenho encontrado alguns assim – mas, desta vez, gente nova e desempoeirada - em questão que eu julgava estar resolvida desde das trente glorieuses, anos de crescimento económico benfazejo do capitalismo europeu centrados entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o fim da Guerra Fria - e definitivamente arrumada desde o colapso voluntário da União Soviética, que se deitou abaixo a ela própria, como grandes industriais japoneses faziam hara-kiri se a empresa falisse. Salvo em cús de Judas exóticos – Cuba; Coreia do Norte – estava a dar-se por toda a parte grande mudança para melhor. Tínhamos esquecido sentença sábia de antigo governador do Banco de Inglaterra, do tempo da Senhora Thatcher, com quem acabou por se dar muito mal e cujo nome me escapa agora: “Mudança é sempre mau. Sobretudo mudança para melhor”.

 

Há dias, amigo, muito mais novo do que eu, ponderava - entre curioso e apreensivo, como se contemplasse fendas abertas em terreno onde pensara construir casa – o enxotar dos doutores a que assistimos agora, o festival de contra-verdades triunfantes em redes sociais, o elogio da ignorância e a exortação à intolerância por populistas de fala grossa a começar pelo 45º Presidente dos Estados Unidos da América. Lembrei-lhe que tudo não vai assim tão mal quanto isso, que os diferentes Estados da América conseguem corrigir muitos disparates do Presidente, que em França, na Holanda, na Áustria os democratas ganharam e a maré mudou. Que a razão tem filhos robustos a combater por ela.

 

Mas que, antes de mais, será preciso refrear a ganância dos mercados. Para voltar ao começo: prefiro estuários a deltas e carabinas a caçadeiras; o Rouge à Chartreuse (ou, 30 anos depois, a Bovary à Educação Sentimental).

 

 

 

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Sábado, 24 de Junho de 2017

Papelaria da Moda / Parker

 

 

Montras c. 1960 

Montra-1

O tesouro!... 

 

Montra 3

A mensagem 

 

Montra 2

Páscoa Feliz

 

 

 

montra 4

 

Para onde for leve sempre consigo a sua PARKER

 

 

 

Papelaria da Moda papel

 

Mais sobre as Papelarias Progresso e da Moda AQUI  e AQUI 

 

 

 

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