Quarta-feira, 4 de Maio de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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 o avião de Henri Guillaumet

 

 

 

 

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Mar Morto e cavalinhos

 

 

 

Começo a escrever ao meio-dia da Quinta-Feira 28 de Abril. Quando a leitora me ler, a Vera, minha senhoria e decoradora de interiores na net (com o bloco aninhado no seu blog, as ilustrações são propostas por ela), terá saído da Portela na madrugada de Sábado para estar ao fim do dia na Jordânia, mais precisamente numa margem do Mar Morto, a interpretar em conferência de ONG dedicada a crianças e famílias, ficando por lá até ao próximo Sábado. Poderia, mesmo assim, ter posto o bloco no blog no começo da semana mas havia preferido que eu lhe mandasse o texto antes de partir porque, technologically challenged fora de casa, só com a malinha dos pertences, talvez não conseguisse encontrar boneco apropriado. Respondi-lhe que sem horas de fecho estritas me era muito mais difícil escrever para qualquer publicação, que o desafio me agradava e que ela poderia contar comigo.

 

Pensei na tarefa e prefigurei a táctica. Decidi antecipar trabalho no morto a publicar no Expresso de Sábado e, com efeito, acabei de o escrever ontem e mandei-o esta manhã (28) com mais de 24 horas de avanço sobre a deadline afim de ficar à vontade ao redigir o bloco. Lembrei-me de Guillaumet, aviador colega e amigo de Saint-Exupéry, cujo avião-correio caíra nos Andes deixando-o ileso mas sozinho na neve, sem comunicações. Cá em baixo deram-no por perdido mas três dias depois encontrou gente e foi salvo, para grande alegria de todos, exausto mas feliz. “Ce que j’ai fait, je te le dis, jamais aucune bête ne l’aurait fait!” declarou. Sabia que se parasse para descansar se deixaria dormir na neve e nunca mais acordaria; por isso não parara de andar. Era homem novo, os pilotos têm treino físico muito exigente mas, francês de nascimento e formação, fora o que entendia ser um triunfo do espírito sobre a matéria que lhe deslumbrara a mente. N’est pas français qui veut. Sendo o homosapiens o único animal com capacidade cerebral para o cálculo que Guillaumet fizera no cimo dos Andes, tinha provavelmente razão. Como eu tive ao avançar esta semana para Quarta-Feira a escrita do In Memoriam.

 

Un soneto me manda hacer Violante começou famosamente Lope de Vega, enfiando considerações sobre a arte do soneto em geral e o método da feitura daquele soneto em particular para rematar no 14º verso: contad si son catorce, y está hecho! mas eu estou ainda em 2.310 batidas – com espaços - faltando-me por isso 690 e não me parece que seja por aqui que o gato irá às filhoses. Mas uns versos puxam por outros e com o estado em que a Europa se apresenta agora, a rebolar para o fascismo, vem-me à cabeça Manuel Bandeira, no Jockey Club do Rio de Janeiro, em 1936:

 

Os cavalinhos correndo,                                                                                                          

E nós, cavalões, comendo.                                                                                                        

A Itália falando grosso,                                                                                                          

A Europa se avacalhando.

 

Cavalinhos, cavalões, o refrão vai-se repetindo, a beleza de Esmeralda faz esquecer Mussolini e outros males do mundo, enlouquecendo o poeta, tudo como deve ser, porque Manuel Bandeira sofria daquilo que o António Alçada achava ser também maleita minha: a mania de viver em epopeia amorosa.

 

Por razões técnicas longas de explicar a contagem de batidas neste texto não é evidente mas palpita-me estar pelas 3.000. Até Quarta-Feira que vem.

 

 

 

 

publicado por VF às 08:00
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Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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 O busto devolvido de Winston Churchill

©afp/getty

 

 

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Dia Santo na loja?

 

 

 

 

O poeta mexicano Octávio Paz escreveu, famosamente: “Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”.

 

Vivi em Maputo entre 1981 e 1983, anos de grande penúria e muita gente a passar fome. Logo a seguir à independência, quase todos os portugueses tinham tido de se ir embora ficando a economia em muito mau estado e a autoridade dos chefes tradicionais era desrespeitada pelo triunfalismo dos quadros da Frelimo. A retórica do poder, anti-ocidental, anti-americana e disparatada proclamava que, guiado pelo marxismo, o país sairia do sub-desenvolvimento em quinze anos. Nas lojas faltava quase tudo. Num grande supermercado da Baixa da cidade com todas as prateleiras vazias salvo uma no meio da sala, cheia de pensos higiénicos para senhoras, lembrei-me de Octávio Paz. “Pobre Moçambique” ocorreu-me. “Tão longe de Deus e tão longe dos Estados Unidos”.

 

Passando para a Europa agora. Acabado o perigo que a União Soviética representava para os Estados Unidos, estes distraíram-se – haverá ainda quem se lembre do “fim da História”? – e, cereja em cima do bolo, em Janeiro de 2009 tomou posse em Washington presidente filho de pai queniano preto e mãe americana branca, nascido no Havai, jurista eloquente cujo hobby era a organização comunitária, avesso a guerras (o seu predecessor metera a América em duas, estúpidas e caras), que devolveu logo ao governo de Sua Majestade Britânica busto de Churchill oferecido a Bush filho (que o pusera na Sala Oval) e, para a celebração dos vinte anos da queda do muro, em vez de ir pessoalmente a Berlim mandou vídeo com discurso seu.

 

O afastamento da Europa não foi só obra sua: houve sempre em Washington políticos isolacionistas e desconfiados dos europeus mas a mistura desses sentimentos antigos com alheamento à Europa inédito em inquilino da Casa Branca não ajuda europeus (e americanos) convictos de que primazia norte americana no mundo, em entendimento forte com a Europa, seria a melhor garantia de paz, liberdade e decência pública imaginável no nosso tempo.

 

Ainda por cima, numa espécie de acerto de contas depois da derrota na Guerra Fria, Putin parece chegar e sobrar para Obama: está a ganhar perigosamente no tabuleiro da Síria devido à inépcia do outro. (Disse-se de Franklin Roosevelt que tinha uma inteligência de segunda mas um temperamento de primeira. Com Obama é o contrário).

 

Os Estados Unidos não se darem ao respeito é muito mau para a Europa. A União Europeia e, antes, a OTAN construíram-se porque Estaline nos aterrorizava e porque os Estados Unidos queriam barbacãs. Putin incomoda os europeus mas não os aterroriza e hoje os americanos não precisam de muralhas dessas – até dos Açores se livram. Ora, sem os americanos, os europeus não se saberão defender de quem os atacar - e mesmo sem ataques não sabem pôr-se na bicha quando é preciso fazê-lo (como se está desgraçadamente a ver quanto aos refugiados). O patrão está fora mas na loja o dia não é Santo – é maldito.

 

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Execução de Giordano Bruno 

 

 

 

 

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Velhice do velho continente

 

 

 

Nunca houve tanta gente quanta a que há agora. Somos hoje mais do que a soma de todos os homens e mulheres que viveram e morreram no planeta, desde que o Homo sapiens apareceu até ao fim do século XIX.

 

A maioria da população da Terra é gente nova mas, quando se vai por continentes há uma excepção: a nossa. Há hoje na Europa mais gente velha do que gente nova; diz quem percebe destas coisas que a tendência vai reforçar-se no futuro previsível. A nossa gente nova sobrevive, às aranhas, desanimada, eviscerada por desemprego altíssimo (embora haja casos a contrapelo, até em Portugal: conta The Economist da semana passada, num estudo especial sobre a juventude no mundo, que cá vive e trabalha uma rapariga, génio da informática, que criou empresa inovadora sua e tem clientes por toda a parte do mundo). A Europa, cujos dirigentes políticos passaram gerações a dá-la como exemplo de maneira de viver às outras nações, esquecendo que o milagre europeu assentava, por um lado, em medo salutar de Estaline e dos seus sucessores enquanto a União Soviética durou, medo que aconselhava as pessoas a terem juizinho em casa não fosse o caldo entornar-se (quem se lembre ou conte com quem lho saiba contar, traga à mente três datas emblemáticas lusitanas do século XX - 25 de Abril, 11de Março, 25 de Novembro - e medite sobre o bom-senso) e assentava também, por outro lado, na apólice do seguro de vida garantido pela aliança militar com os Estados Unidos chamada vulgarmente NATO, contra eventuais agressores exteriores, isto é, a dita União Soviética, seguro que dissuadiu o Kremlin de tais maus pensamentos, sendo a Guerra Fria ganha sem ter de se dar um tiro.

 

Tudo isso já lá vai. Em 2008 a doença financeira trouxe para tratamento a austeridade. Emenda pior do que o soneto mas é pior ainda quando xicos-espertos, animados pelo grego da moto, bancam num jeitinho a dar que eles saberão explicar aos alemães. Dessa, nós por cá ainda não estamos livres.

 

Entretanto inépcia do poder americano e cobardia dos confortos europeus deixaram à solta a atrocidade síria cujos fugitivos estão a escavacar pretensões morais europeias, acordando o pior em muitos corações: da brutalidade da Hungria à hipocrisia da Dinamarca. Quando Angela Merkel abriu a porta aos infelizes que não se tivessem afogado pelo caminho, esqueceu-se que a alma das pessoas de bem é um horror.

 

Há pior, por toda a parte. A grande ilusão comunista foi remédio que falhou. A julgar pelos feitos do Estado Islâmico, pelos budistas a irem ao pelo aos muçulmanos na Birmânia, pelo apoio dos evangélicos americanos a Donald Trump, a fé religiosa não nos tirará de apuros.

 

Montesquieu, Voltaire, a razão? Tem-se tentado, sem ela não teríamos chegado a separar a igreja do estado, ingrediente sine qua non de decência de vida. Está a ser agora muito atacada (exactamente por causa disso). Talvez gente nova, europeia ou outra, entre robots e inteligência artificial, encontre outra vez rumo.

 

 

 

publicado por VF às 07:19
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Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Trudeau aeroporto.jpgO Primeiro Ministro Justin Trudeau acolhe os primeiros refugiados sírios no aeroporto de Toronto

 

 

 

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Sem anestesia

 

 

 

A feminista marroquina Fatima Mernissi, dada a aforismos e com jeito para os inventar, escreveu um dia que o pessimismo era o luxo dos poderosos. Lembrei-me deste aforismo dela – mulher bonita que envelheceu bem, ao contrário de tantas velhas e velhos que ninguém atura a não ser a literatura e outros velhos (Alexandre O’Neill dixit) – neste tempo em que os europeus, por um lado, estão a acabar de perder o poder que dantes tinham no mundo, sendo os últimos talhes da amputação sofridos sem anestesia e, provavelmente por isso mesmo, por outro lado, são pessimistas quanto ao futuro, isto é, acharia a grande dama marroquina, alardeiam – alardeamos – ainda por cima dessa maneira manias de grandeza acima das nossas posses.

 

Li que sondagens mostram haver hoje muitas mulheres e homens convencidos de que as suas filhas e os seus filhos pequenos terão em crescidos vidas piores do que aquelas que eles próprios tiveram e estão agora a deixar de ter. Por piores presumo que se queira dizer mais pobres e não com teores mais baixos no sangue de substâncias geradas pelo nosso próprio organismo que nos façam sentir felizes, quer chova ou quer bata o sol. Porque, embora a Sabedoria das Nações apregoe que o dinheiro não dá felicidade (e muitos o recordem logo, acenando que sim com a cabeça, sempre que alguém o lembre quando se saiba de rico apanhado na tenra idade pela Grande Ceifeira), outra máquina eficaz de criar aforismos, George Bernard Shaw, ensinou-nos que o dinheiro não dá felicidade mas dá uma coisa tão parecida que só um perito é que é capaz de distinguir. (Há mais ou menos três quartos de século, romancista italiano medíocre, Pittigrili, popular em Portugal e no Brasil – ou pelo menos os exemplares dos seus livros que os meus tios maternos tinham eram naquele impressos e publicados - criara fórmula menos subtil do que a de Shaw mas perfeitamente satisfatória para as necessidades estilísticas de leitores nos Aquém e Além Mar de Gago Coutinho e Sacadura Cabral: “O dinheiro não dá felicidade, principalmente quando é pouco”.

 

Austeridade – teimosia em aplicar às nossas economias receita de alemães, por alemães e para alemães não nos deixa passar da cepa torta. Refugiados – incapacidade de entender que a Europa precisa de muito mais mão-de-obra ainda do que aquela que as guerras na Síria, no Afeganistão e alhures lhe estão a meter pelas portas dentro envenena tudo (os nossos primeiros ministros deveriam ter feito como o canadiano Justin Trudeau que foi esperar os primeiros refugiados que lhe couberam ao aeroporto de chegada). Terrorismo – desleixo de décadas em defesa e segurança e agora incitações populistas à xenofobia por chefes de governo ou de oposição fazem muito mal, especialmente a prevenção e combate ao terrorismo. (Uma política externa digna desse nome também teria ajudado – mas seria pedir muito).

 

Teimosia, incapacidade, desleixo. Sem progresso neste tripé não haverá Europa nem – ipso facto – Portugal que se segure.

 

 

 

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Quarta-feira, 30 de Setembro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

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Retornados

foto de Rui Ochôa

 

 

 

 

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O fim ou o começo?

 

 

 

Valha-nos o Papa Francisco com manto de bondade universal que não tinha ombros a sustentá-lo desde a morte de Nelson Mandela. Muito de vez em quando, há homens e mulheres assim, Estrelas do Norte que levam tempo a iluminar – Principal dos jesuítas na Argentina dos Generais; comunista a britar pedra na Africa do Sul do Apartheid – mas que, depois de firmada a luz, nada e ninguém apaga.

 

Bem precisamos deles agora. Não só por causa do detestável Victor Orban e demagogos quejandos, vindos do lado de lá da Cortina de Ferro, deitada a baixo há 26 anos mas cujo mal levará muito mais tempo a desfazer do que se imaginou: gerações em que filhos desconfiaram de pais, pais desconfiaram de filhos, vizinhos de vizinhos, polícia dos outros cidadãos e os outros cidadãos da polícia, fizeram sumir a confiança e, como dizia a cantiga: sem confiança, não pode haver felicidade. Mas também por causa de demagogos do lado de cá, sobretudo em França que se arrisca a eleger Marine Le Pen presidente da república daqui a dois anos. Muitos franceses e amigos da França, criados nos mitos de “la Republique” e da resistência antinazi, acham impossível mas receio que se enganem. Não se deram conta de que a França de François Hollande é muito mais parecida com a França do Marechal Pétain do que a Alemanha de Angela Merkel é parecida com a Alemanha de Adolf Hitler, Volkswagen e tudo. Na União Europeia, a Alemanha é hoje o bastião mais sólido contra tentações ditatoriais e tentativas de abuso dos direitos civis e políticos das pessoas. (A virtuosos profissionais como os suecos e, em certa medida, os ingleses, falta o travão brutal e salutar que a memória histórica faz disparar nos alemães sempre que poem o pé em ramo verde).

 

A Europa Comunitária, inventada a seguir à guerra de 39-45 por Jean Monet & Cia., na esteira de muitos visionários, não herdou tradições de Império. Pelo contrário: entalada entre o Comintern e o excepcionalismo americano tentou desfazer-se das que alguns estados membros albergavam. Defendida do papão Estaline pelo arsenal militar americano e adubada por dólares do Plano Marshall, cresceu até ser União Europeia, espécie de gigantesca ONG que, entre nostalgia, culpa, cobardia e inveja, não encontrou ainda o seu lugar no mundo.

 

A catadupa de refugiados de hoje poderia acordá-la dessa espécie de sonambulismo mas, em quase todos os nossos países, políticos e comentadores ponderam as boas razões de Orban - disfarçadas de neofascismo, explicam, por ele querer, democraticamente, agradar aos eleitores - e escandalizam-se com excessos do Bem, esquecidos de que o Bem é sempre escandaloso. Assim não iremos lá.

 

Os factos são simples: a Europa precisa de imigrantes como de pão para a boca, e eles querem vir. Para os aproveitar os europeus têm de se organizar e coordenar. Parece evidente mas não o é e o tempo foge. Se nos enlearmos no medo dos mouros dos demagogos, o futuro ir-nos-á apanhando cada vez mais enfraquecidos e divididos.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Setembro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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O bom e o bonito

 

 

 

Amigo entendido em política e em Europa mandou-me dizer que, sem desculpar o egoísmo de alguns governos europeus, “convém lembrar as declarações xenófobas e racistas do leader das sondagens do partido republicano na grande democracia norte americana (o “nosso” Orban nunca disse dos refugiados ou dos ciganos o que aquele palhaço diz dos mexicanos…) ou as valas comuns para onde na Malásia foram atirados e escondidos os imigrantes ilegais que ao chegarem a terra firme foram sumariamente assassinados. Como diria o outro: as coisas são o que são. Mas isso não é desculpa para que não tentemos mudá-las”.

 

De acordo mas, antes de lá voltar, a Malásia lembrou-me a Birmânia (agora Myanmar onde resiste, hoje em liberdade, a Senhora Aung San Suu Kyi, comparada a Mandela como símbolo de resistência democrática) onde a maioria budista atormenta pequena minoria muçulmana, maltratada e impedida de emigrar, vítima de constantes sevícias, infligidas por gente que nos habituamos de pequenos a ouvir descrever como pacífica e serena, numa espécie de superioridade espiritual que o budismo daria. Para aprenderem a ser bons, hippies europeus e americanos iam passar temporadas por essas bandas. Tempo foi. Vinte e cinco anos depois do fim da Guerra Fria, talvez tenhamos percebido que, logo a seguir ao bom senso, a maldade é a coisa mais bem partilhada do mundo.

 

Na Europa, há sobressalto geral perante, por um lado, a fotografia do menino curdo morto que deu à costa na Turquia, publicada nas primeiras páginas da imprensa europeia (mas em França, entre os grandes jornais, só em Le Monde – a maioria dos franceses acha que os refugiados não precisam de mais ajuda) e a decisão de Angela Merkel de exercer a chefia que se lhe pedia, com coração e cabeça melhores do que muitos julgavam que ela tivesse – e, por outro lado, o escandaloso tratamento dado aos refugiados na Hungria, onde, entre outras gentilezas, o governo de Vitor Orban os impede de apanhar comboios para a Alemanha. Alguns políticos europeus querem ostracizar a Hungria; outros não.

 

Europeus e norte-americanos têm enorme culpa desta desgraça. O grosso da tragédia vem da Síria onde o Ocidente, há anos incapaz quer de derrubar Assad quer de negociar com ele, deixou o Estado Islâmico medrar, prometeu ajudas e faltou, deu o dito por não dito, perdeu a face, suspendeu ajuda humanitária. Antes, com pretexto mentiroso que enganara muita gente e execução de incompetência abissal, lançara desordem mortífera no Iraque cujas consequências duram. E atacou a Líbia que, sem Khadafi, se transformou num entreposto de emigração clandestina.

 

Há quem se assuste por o Estado Islâmico ir metendo gente na Europa. O problema é mais grave. Sunismo salafita promovido e apoiado pela Arábia Saudita torna entendimento entre muçulmanos e o resto muito difícil em estados laicos como os nossos que ofendem intolerância islâmica. (Até na monarquia britânica, onde a Rainha é também chefe da Igreja Anglicana). 

 

 

   

publicado por VF às 10:09
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Quarta-feira, 2 de Setembro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Angela Merkel (Getty)

 

 

 

 

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Deutschland über Alles (a bem)

 

  

 

Na Islândia - país com pouco mais de 300.000 habitantes que já quis candidatar-se à União Europeia e depois mudou de ideias - o governo anunciara estar pronto a receber 50 migrantes, dos milhares que este verão demandam a Europa, mas onda de indignação generosa organizou o povo on line enquanto o Diabo esfrega um olho e há lá agora 10.000 ofertas de acolhimento. Há também muitas da Noruega e, dentro da União, a Suécia, apesar de renitência vistosa da sua nova direita, vem logo a seguir à Alemanha em disponibilidade – a grande distância, devido à escala: a Alemanha é o país mais populoso da Europa; os suecos são menos do que os portugueses.

 

No fundo da tabela da solidariedade estão alguns dos países dantes do lado da lá da Cortina de Ferro, dando a Hungria, proverbialmente xenófoba, mais nas vistas do que os outros por ter erguido muro de arame farpado na fronteira com a Sérvia e ter vedado nos últimos dias o acesso à estação central de caminho de ferro de Budapeste. Um mar de migrantes, famílias inteiras que, uma vez na Hungria, se preparavam para apanhar comboio para a Alemanha, pronta a receber quase um milhão e a não os devolver ao país pelo qual tenham entrado na União Europeia, confrontou a polícia na praça em frente da estação. Quando escrevo (terça-feira) por lá estão ainda. Imagens fortes nas televisões de todo o mundo, espelhando o egoísmo escandaloso dos europeus (Mauriac, mais uma vez: “Não conheço a alma dos criminosos mas conheço a das pessoas sérias e é um horror”), egoísmo confortado pelos que sustentam, pimpões, que os europeus não têm obrigação de tratar de todos os males do mundo. (Creio que o primeiro a dizê-lo foi Michel Rocard). Também acho que não mas o problema não é esse. O problema é que a União Europeia não é, nem deveria ser, uma O.N.G. caritativa – é, ou deveria ser, um poder político.

 

Entretanto, o silêncio de Angela Merkel começava a ser ensurdecedor (pediam-lhe que mandasse na Europa mas como mandar, a seguir ao castigo da Grécia, sem evocar passo de ganso, cruzes gamadas, saudação nazi? Como ser Führer sem ser Hitler? Pediam-lhe também que mandasse nos seus mas era preciso sentir muito bem o vento para saber navegar com ele ou bolinar). Finalmente a Senhora decidiu-se, com bom coração e com boa cabeça - para além do que pareceria possível, deu à Europa a noção de que havia nesta um chefe. À evocação dos valores europeus - que explicita ou implicitamente incluem estado de direito, direitos do homem, decência cívica, solidariedade – juntou lembrança dos benefícios materiais trazidos pelos imigrantes aos países onde chegam (no caso do Velho Continente, mão de obra jovem que permita pagar pensões aos reformados).

 

É projecto político sine qua non para a Europa prosperar no mundo globalizado, meter respeito à Rússia, derrotar o Estado Islâmico e a sua insidiosa quinta coluna.

 

E para tornar a meter Montesquieu na calha. Ou Antero: “Razão, irmã do amor e da justiça”.

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 15 de Julho de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 George Frost Kennan

Desenho de Mary Bundy

 

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Isto do Sul

 

 

«Porque é que Vocês gostavam tanto de Salazar?»

 

«Porque ele não era corrupto» respondeu-me Kennan que começara a transaccionar com o Presidente do Conselho de Ministros português a cedência das Lajes aos americanos durante a guerra de 39/45, quando era encarregado de negócios da embaixada americana em Lisboa entre dois embaixadores (e também algumas vezes ainda sob o primeiro, homem de negócios bonacheirão que achava Salazar esperto demais para ele e arranjava desculpas que justificassem mandar Kennan em seu lugar).

 

«Robespierre também não», quase me saiu da boca mas contive-me. Acabava de conhecer George F. Kennan, 97 anos, monumento vivo da diplomacia e da história diplomática americanas que me recebia em casa dele em Princeton, fora eu convidado para me candidatar à cátedra que leva o seu nome no Institute for Advanced Study, onde estive de 2001 a 2004. Começara por me dizer quanto tinha gostado de Portugal.

 

Ainda bem que me contive porque, primeiro, Kennan não tinha vestígio do zelo escuteiro que tantas vezes torna ridículos (ou, excepcionalmente, admiráveis) compatriotas seus do corpo diplomático e porque, segundo, a ausência de corrupção faz um chefe ser respeitado por aqueles em quem mande, mesmo que tenha a mão pesada.

 

Está a acontecer agora no Califado, ou Estado Islâmico. É constituido por cidades e campos de que se apossou na Síria e no Iraque, países inventados a seguir à guerra de 14/18, talhados no que fora o Império Otomano pela França e o Reino Unido, e corruptos desde a sua criação. É propósito das relações públicas do Califado aterrorizar toda a gente, a começar pela sua. Inimigos são massacrados com crueldade. Espectadores distantes, como os europeus, são mimoseados na televisão com execuções atrozes que deixámos de praticar entre nós de há algum tempo a esta parte. No Califado, porém, é diferente: a lei é dura mas é a lei. Infieis e apóstatas são decapitados; ladrões, cortam-lhes a mão; adúlteras e adúlteros lapidam-nos (apedrejam-nos até à morte) – mas, dizem-me entendidos, a corrupção acabou: já não é preciso dar dinheiro indevido a toda a gente ligada ao estado, para tudo e por toda a parte. Passados excessos da conquista, quem acate as leis e cumpra as regras é menos incomodado pelo poder do que no tempo do Iraque e da Síria.

 

Se for sunita e dos bons. Gente doutras crenças ou com fantasias do género as mulheres devem saber ler terá de se pôr ao fresco se quiser salvar a pele. E o Rolex do Califa Al Baghdadi sugere luxos escondidos. A Utopia não foi desta mas para o camponês, o pequeno comerciante, o mestre d’obras de aldeia, está-se melhor do que sob as prepotências anteriores. Comer e calar.

 

Salazar era incorrupto mas a pobreza ajudava. O país antigo tinha esmoído as modernices do liberalismo. Por 1960 começou a haver mais dinheiro e as coisas mudaram. O 25 de Abril trouxe liberdade; a União Europeia despejou dinheiro fresco a rodos; o euro foi o fim da picada. Muito sizo temos nós tido.

 

 

 

Imagem aqui

 

 

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Quarta-feira, 24 de Junho de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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A asneira da austeridade

 

 

Em tempo de vacas gordas, haver ricos conforta os pobres e vive tudo na paz do Senhor. Em tempo de vacas magras, o Diabo põe-se à coca e faz das suas. De entrada, a esperança teima: para o ano vai ser melhor, pensam muitos (e depois pensam poucos). Quando anos passam e quase nada melhora, o azedume rói as almas. O mau viver instala-se a pouco-e-pouco; cava-se um fosso entre o mundo cada vez mais pequeno dos ricos e o mundo cada vez mais vasto dos pobres e acaba por se estragar tudo — mesmo em lugar tão cordato e tão pouco dado a excessos quanto Portugal.

 

Estamos a chegar aí – tal como vários outros países europeus – graças a política de austeridade que de há quase cinco anos a esta parte os países que têm o euro como moeda resolveram adoptar. Em lugares do Sul animados por tradições de guerra civil, como a Espanha e a Grécia, a violência formiga à flor da pele. Mais acima no Continente, os países decisores ou por falta de visão (tais aqueles jogadores de futebol que olham para a bola em vez de olharem para o campo) ou por ignorância de história (a qual lhes diria que, em 1953, a Alemanha Ocidental ter um superavid primário foi crucial para a decisão de lhe reduzir drasticamente a dívida) estão a minar a segurança e o bem-estar dos europeus. É certo que em 1953 os europeus ocidentais tinham pavor salutar da URSS. Mas hoje a Europa inteira deveria ter medo geral profilático: da Rússia; da concorrência desregrada dos outros BRICS; do descalabro sanguinário do Próximo Oriente. Somos uma jangada de paz e decência em mar alto onde borbulham monstros.

 

E nem é hoje a Alemanha que nos empurra para o abismo. Finlândia, Holanda, Eslováquia, Eslovénia falam mais grosso ainda. Mas com chefe à altura de Adenauer, que puxou os seus do fundo do opróbio; ou de Churchill que salvou a Democracia das garras de Hitler e Estaline; ou de De Gaulle que, em 1945, fez da França vencida França vencedora – tudo iria ao sítio. Mesmo sem eles, talvez vá se Angela Merkel tiver unhas para essa guitarra. Talvez as tenha.

 

Escrevo da Nova Iorque dos pobres, onde houve festa da música no Solstício de Verão. No bistrot da esquina, com mesas cá fora, quarteto francês de jazz (The Blues Syndicate, amadores cinquentões) veio dar acompanhamento ao aperitivo e, depois de jantar, ao serão. “Perdemos Waterloo mas ganhámos os blues” disse o guitarrista entre duas peças. Quinta-Feira, à reconstituição comemorativa dos 200 anos da batalha tinham vindo o Rei dos Belgas, o Príncipe Carlos, descendentes de Napoleão, de Wellington, de Blücher, outros estadistas europeus. Os franceses têm mau perder e mandaram só o embaixador em Bruxelas. Os alemães fizeram o mesmo mas porque, desde a atrocidade nazi, ganhar dá-lhes amargos de boca — por muito antigo que o ganho haja sido.

 

Isso deveríamos todos aprender com eles. Na minha experiência, a Alemanha era o único grande país europeu que se portava decentemente com os pequenos e dizem-me que continua a sê-lo.

 

 

 

Imagem: aqui

 

 

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Quarta-feira, 22 de Abril de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Oh Senhor, é bom ser burro mas não tanto…

 

 

Assim desabafava, antes de nos dar zero, o major David dos Santos que tinha feito a Guerra de 14 na Flandres e nos ensinava matemática na Valsassina quando um de nós, chamado ao quadro, era incapaz de resolver o problema posto.

 

Gostava de ser um major David dos Santos gigante que tivesse por alunos os chefes políticos europeus de hoje e os chamasse ao quadro. Os problemas por resolver começam a ser demais e é incómodo em democracia que, como somos nós a escolher ou não quem manda em nós, ao fim de anos de mais do mesmo, a culpa é nossa também.

 

Deixo para o fim os naufragados do Mediterrâneo e começo pelo menos desculpável dos desmandos da turma de irresponsáveis: a austeridade, aplicada aos povos do sul da Europa (e aos irlandeses, sulistas deshonorários) depois da crise financeira de 2008. No clima de desregulação herdado de Reagan e de Thatcher, ganância financeira - desculpabilizada de vez pelo fim de medo da União Soviética - fez estalar a crise nos Estados Unidos, causando lá estragos inéditos desde 1929 pelo nome de crise das subprimes, e passou depois à Europa cujos governos, sob égide incontestada da Alemanha, a trataram com inépcia tal que passou a ser crise de dívidas soberanas. Inspirados por estudos entretanto desqualificados, contra teoria económica e bom-senso político elementar, julgaram que cortar salários e aumentar impostos iria estimular a economia. A história dessa austeridade é nossa conhecida: dívida maior agora do que antes do tratamento, crescimento nulo ou mínimo, desemprego desmoralizante, fim provável do projecto de União que reforçaria prosperidade e segurança europeias (foi bilhete de ida e volta…). Os Estados Unidos reagiram ao contrário e saíram da crise, nós persistimos no erro, com o ministro das finanças alemão a reger a banda, como se vivêssemos no melhor dos mundos possíveis sem ninguém dizer que o rei vai nu, enquanto demónios antigos regressam a galope - os do Sul não trabalham; os alemães são nazis; estrangeiros é má gente que nos rouba empregos e nos viola as filhas. (Certo: o paraíso não é deste mundo – por exemplo, nas últimas semanas moçambicanos foram assassinados na África do Sul, só por não serem de lá. Mas, para quem se pretende modelo social e pilar da protecção dos direitos humanos, é duro).

 

Como se não bastasse, a Europa, embora com força para pôr Google em tribunal (o que não tem qualquer dos estados que a constituem) não seria capaz de se defender sem ajuda dos Estados Unidos de quem a atacasse militarmente e não tem, até hoje, política externa que metesse respeito ao mundo e tornasse tal ataque menos provável.

 

E os mortos no Mediterrâneo – agora à razão de centenas por dia? Khadafi tinha-nos prevenido: sem ele a Líbia seria o caos - mas Sarkozy e Cameron quiseram dar uma de homem e deixaram-no linchar. E agora? Abrir os portos europeus a toda a gente? Invadir a Líbia e fechar os portos?

 

Há de vir o Diabo e de escolher.

 

publicado por VF às 09:46
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