Quarta-feira, 18 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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bola de cristal

 

 

José Cutileiro

 

À procura do futuro?

 

 

 

Dois factos

 

Primeiro: Entre 2007 e 2017, os proventos dos administradores das cem maiores companhias do Reino Unido foram multiplicados por quatro, isto é, passaram em média de um milhão para quatro milhões de libras esterlinas por ano. Durante a mesma década, os proventos do geral das pessoas empregues por conta de outrem no Reino Unido aumentaram de 10%, isto é de 1% por ano.

 

Segundo: Também no Reino Unido, à pergunta, corrente em inquéritos de sociedade, ‘Acha que os seus filhos vão ter vida melhor do que a sua?’ as respostas, até 2007, tinham sido quase sempre sim – e, a partir de 2008, passaram a ser quase sempre não.

 

Uma preocupação.

 

Em toda a Europa Ocidental, comentadores nos jornais, nas telefonias, nas televisões alarmam-nos de há alguns anos a esta parte com o crescimento do chamado populismo. Referendo no Reino Unido a escolher saída da União Europeia; eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos; eleição – e reeleição recente e reforçada – de Vitor Orban para primeiro ministro da Hungria; popularidade mantida pelo actual governo liberticida polaco; subida nas sondagens da Frente Nacional em França e – mais ainda – do movimento Cinco Estrelas na Itália, são dados como exemplos, entre outros, desse crescimento. Aos jornalistas juntam-se os cientistas políticos (a final de contas, uma espécie de jornalistas lentos e  possuídos por ‘the craving for generalizations’ que tanto irritava Wittgenstein) os quais tentam definir populismo, classificar variedades, comparar os seus aproveitamentos por demagogos de direita e de esquerda . Uns e outros, os rápidos e os lentos, preocupados por verem a Democracia mirrar dia a dia diante dos seus olhos, espécie de bambu ao contrário.

 

Um lembrete.

 

Ao contrário do que muito boa gente parece pensar, o fim do comunismo – o colapso da União Soviética; o mandarinato marxista-leninista de Beijing – não foi a extinção de uma doença. Foi o falhanço de um remédio e a sua desacreditação. O comunismo perdeu a Guerra Fria porque era pior do que o capitalismo mas a maneira como as coisas têm corrido desde então está a dar ao capitalismo uma vitória pírrica. Prosseguindo na metáfora médica: a doença continua e, esgotadas todas as variedades da mezinha experimentada primeiro em 1917 – de Pol Pot às democracias sociais nórdicas – parece urgente descobrir outro tratamento.

 

Um palpite.

 

Estaline disse a Churchill em Yalta que o embaixador que ele lhe mandara para Moscovo durante a guerra, trabalhista fabiano, era de primeira água mas tinha mania curiosa: querer explicar-lhe a ele, Estaline, o que era o socialismo. Quase 80 anos depois, se os povos fossem gatos, não seria por nenhuma dessas duas vias que iriam às filhoses. Nem pela da Rerum novarum.Inventar-se-ão misturas mais sensatas do que as ortodoxias vigentes. Se os Estados Unidos correrem com o maluco a tempo, mesmo que já não possam ser donos do jardim zoológico talvez ainda possam servir de polícia de trânsito.

  

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 11 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Hungria,2018

fronteira húngara

 

 

José Cutileiro

 

 

Fronteiras

 

 

 

Tinha quatorze anos a primeira vez que pisei uma fronteira. Foi numa tarde quente de verão em S. Leonardo-Fronteira, entre Mourão e Villa Nueva del Fresno, muito antes do burgo espanhol ficar conhecido por a PIDE ter assassinado brutalmente o general Humberto Delgado e a sua amante brasileira e os ter mal enterrado num campo próximo. (A segunda, três anos depois, foi numa manhã nevada de inverno, no passe do Kyberg, marcado por lápides de regimentos coloniais ingleses do fim do século XIX e começo do século XX – Churchill, a cavalo, andou à bulha por lá - em caminho montanhoso entre Peshawar, no Paquistão, e Jellalabad no Afeganistão onde iamos pernoitar mas isso é outra história e ficará para outro dia).

 

Nesse tempo, a Espanha era mais pobre do que Portugal e a fronteira, que atravessava a estrada numa linha oblíqua, marcava a diferença. Do nosso lado o piso era alcatrão, do lado espanhol, terra batida. Tínhamos ido de Reguengos até lá de passeio, no carro do Dr. José Pires Gonçalves, médico e medievalista amador competente (em Portugal, cada homem, além de ser o que é é outra coisa, e essa outra coisa é o que ele gostaria de ser, escreveu Ramalho Ortigão) com o Dr. José Sereto, Secretário do Tribunal e poeta satírico de mérito (em Portugal, cada homem …) que de pé, diante do alcatrão e da terra batida, recitou « Fronteira » de Miguel Torga, que eu não conhecia.

 

De um lado terra, doutro lado terra;                                                                                                                  

De um lado gente, doutro lado gente;                                                                                            

Lados e filhos desta mesma serra,                                                                                           

O mesmo céu os olha e os consente.

 

O mesmo beijo aqui; o mesmo beijo além;                                                                                

Uivos iguais de lobo ou de alcateia                                                                                             

E a mesma lua lírica que vem                                                                                                       

Corar meadas duma nova teia.

 

Mas uma força que não tem razão,

Que não tem olhos, que não tem sentido,                                                                                             

Passa e reparte o coração                                                                                                                

Do mais pequeno tojo adormecido.

 

 

Fiquei maravilhado. Desde esse dia e durante muito tempo as fronteiras para mim foram isso. Fronteiras políticas entre estados. Portugal e Espanha, Espanha e França, França e Bélgica, Bélgica e Holanda, Holanda e Alemanha, separações que a União Europeia, dentro dos seus limites, estava a conseguir apagar deixando-nos passar de um estado para outro quase sem dar por isso.

 

Há poucos anos, quando grandes imigrações inesperadas começaram a dar mau viver, o quadro mudou de cores. A ‘força’ que Torga verbera nos seus versos, a repartir o coração do mais pequeno tojo adormecido, tem afinal razão, olhos e sentido. Quem não os tinha era Torga e tantas almas mais ou menos poéticas, como a minha, embevecidas com o génio lírico do transmontano e distraidas do que se passava diante dos nossos olhos.

 

 

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Quarta-feira, 4 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

bíblia

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Falar com Deus

 

 

Julgo haver sido Oliver Sacks – neurologista anglo-americano autor, famosamente, de “O homem que julgou que a mulher era um chapéu” (The Man who Mistook his Wife for a Hat”, de outros ensaios da sua arte e também membro de gang de motociclistas californianos barbudos e tatuados – a afirmar: “Quando as pessoas dizem que falam com Deus, a gente acha que elas estão a rezar; quando dizem que Deus fala com elas, a gente acha que elas estão malucas”.

 

A gente que assim acha, de que Sacks fala - ou melhor, falava: o bom doutor já morreu – não é tanta quanto ela própria julga. Nos últimos cinco séculos, à medida que a ciência, malgrado as violências do Santo Ofício, inexoravelmente progredia, gente assim espalhou-se pela Europa, pelas duas costas dos Estados Unidos e por outras partes ocidentalizadas da Terra. Não é, já se vê, o que se entende em muitas outras partes do mundo. Por exemplo, no Estado de Alabama, ao Sul dos Estados Unidos da América, onde a Bíblia é interpretada literalmente (o Universo foi criado por Deus quando o Livro da Génese diz que Ele o criou, isto é, há cerca de seis mil anos, com a Terra no seu centro e o que se aprenda agora: milhares de milhões de anos de existência do Universo, a partir do nada e começando num enorme estrondo, buracos negros entre nebulosas onde energia entrada nunca mais sai – ou talvez saia, o que harmonizaria teoria da gravidade e física quântica – quiçá universos paralelos, sendo o espaço infinito mas o tempo não, e não sendo nunca preciso um Deus), no Estado do Alabama, digo eu, Deus fala todos os dias com muita gente em seu perfeito juízo. E também em muitos outros lugares do globo, com muito mais habitantes do que aqueles que se contem na espuma agnóstica dos nossos dias esclarecidos a Oeste.

 

A conversa vai puxada, leitora. Fiquemo-nos pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacob, na versão retida pelo cristianismo ocidental e depois dividida pela Igreja de Roma, a Sul, e pelas Igrejas Reformadas, mormente as de Calvino e Lutero, a Norte. Lembrei-me disto fustigado pela quantidade de aldrabices de políticos, de homens de negócios, de banqueiros, de comerciantes, de doutores e para-doutores, pais e mães de família, estudantes e professores, compatriotas todos, que a imprensa cada dia mais nos revela. Protestantismo, capitalismo, catolicismo é conversa vasta e exigente; vou ficar-me por dois aspectos. Os protestantes têm de ler a Bíblia; os católicos contentam-se com o que os curas lhes digam dela, sem precisarem de aprender a ler. Os protestantes rezam a Deus; os católicos rezam também aos Santos, incluindo a Virgem Maria.

 

Ora, não só gente letrada se defende melhor da vida do que gente analfabeta, mas também a Deus não se mente - enquanto, com os Santos, tal tratamento é corrente e tolerado, em qualquer fase da transacção, mesmo no pagamento de promessas (isto é, quando o Santo cumpriu).

 

Mesmo longe de fés e liturgias, Portugal é um cabaz de Natal de falcatruas e pantominices.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 28 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

pain_au_chocolat

pain au chocolat

 

José Cutileiro

 

 

Nova Iorque dos Pobres e Espírito de Contradição

 

 

 I

Há muitos anos chamei a Bruxelas a Nova Iorque dos pobres e dá sempre gosto ao inventor verificar que a coisa inventada existe. (Tem riscos, como tudo quanto seja levado ao excesso; Camões lembrou-o cruelmente: Torna-se o amador na coisa amada/Por virtude de muito imaginar).

 

Hoje, em minúscula clínica dessas que há agora onde a gente se sente muito melhor do que num hospital, de tal maneira que os anestesistas para nos porem a dormir precisam só da quarta parte do líquido que nos injectam nos ditos hospitais, fizeram-me pequena intervenção. O cirurgião era grego, a anestesista polaca, a enfermeira uruguaia, eu português (a minha mulher, cujo telefone lhes dei, é francesa). Belga, só talvez a recepcionista que, nos cinco minutos que passei na sala espera, desembaraçava-se em francês e no holandês que se fala aqui – 60% no país,12% em Bruxelas. Na meia hora de chá preto e pain au chocolat que passei entre acordar e ir-me embora, a conversa terá sido mais variada e divertida do que teria sido na Mãe Pátria sobre mexeriquices de colegas, amigos, parentes e os altos e baixos do Desporto Rei. À uruguaia lembrei embaixador reformado inglês encontrado em Londres na casa de amigos ingleses, há mais de meio século, que em Montevideo fora raptado pelos «Tupamaros», terroristas urbanos, todos de boas famílias e educadíssimos que o trataram sempres bem e foi libertado incólume, aprendendo, todavia uma lição: nunca acreditar em quem prometa paraíso futuro onde só se possa chegar através de inferno intermédio (foi a enfermeira que me lembrou o nome dos guerrilheiros). A anestesista, que tem vergonha do actual governo polaco, fez-me pensar em Geremek, o grande medievalista e ministro dos negócios estrangeiros polaco da Solidarnosc, a contar-me, em Varsóvia, cena entre Walesa e Ieltsin,os dois bêbados, com o russo a garantir ao polaco que deixava a Polónia juntar-se à OTAN enquanto os seus colaboradores lhe repetiam que não podia ser, e o electricista de Gdansk perguntava, do outro lado: «Quem é que manda na Rússia ? És tu ou são eles ?». E ao cirurgião, que trouxera ele mesmo o pain au chocolat e me explicara não haver razões para preocupação, disse que ele conseguira criar, no coração de Bruxelas, uma espécie de Atenas sem corrupção. (Grego nosso conhecido impressionara-nos há dias com a aventura de conseguir internar e tratar bem a sua velha e lúcida mãe num hospital privado de Antenas: só mediante gorjetas e subornos tais que me indignaram, e eu sou d’Évora, não de Oslo nem de Helsinquia. No Peloponeso, assim se vive e se acha natural viver. Viva a Nova Iorque dos pobres!

 

II

John Bolton, como Conselheiro Nacional de Segurança de Trump, poderá ser benéfico. Um defeito de Trump é o espírito de contradição e desconfia tanto dos conselheiros que talvez agora, para mostrar que não depende de Bolton, passe a usar de bom senso. (Estariam ambos melhor em Rilhafolhes mas não se pode ter tudo…)

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Stephen Hawking (1942-2018)

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Escala nossa

 

 

 

Treze milhões e setecentos mil milhões de anos é um ror de tempo. Só a muitíssimo poucos de entre nós é dado imaginá-los e esses usam estratagemas algébricos ou geométricos que tornam os raciocínios sustentáveis e plausíveis. Porque os sábios destas coisas dos nossos dias estão convencidos de que foi nessa altura (há quase quatorze mil milhões de anos) que o universo começou, a partir do Big Bang inicial. Isto é, o tempo começou aí e acabará um dia; o espaço é outra história: porventura infinito, ou haverá mesmo uma infinidade de universos paralelos ao nosso.

 

Faz espécie que assim seja – mas faz mais espécie ainda que se saiba que assim é. Pondo de parte as tentativas dos poderes que houvesse de abafar conhecimentos novos – nesta matéria, o caso mais conhecido e melhor documentado de obscurantismo é o do processo e julgamento de Galileu há pouco mais de trezentos anos – que são epifenómenos menores, o que realmente nos pode deixar estupefactos (ou, pelo menos, me deixa estupefacto a mim) é olhar para céu de noite, limpo e sem luar, ver os milhares de astros que o cravejam e saber que a todos foi dado um nome, de todos se sabe o tamanho e a posição relativa, a distância da Terra de cada um deles e as distâncias entre eles de uns para os outros; das estrelas as quantidades de luz que emitem e, dos planetas, que reflectem; dos cometas, as respectivas periodicidades.

 

É, por assim dizer, uma estupefacção compensatória. Passados alguns séculos inebriados a seguir à consolidação do poder cristão e consequente arrumo nosso no centro do Universo (que, em lugares sem televisão e sem alfabetização, poderá durar ainda, porventura juntamente com a crença de que o mundo é plano) vieram Copérnico, Tico Brae, Galileu, pôr-nos em rota inexorável para uma periferia qualquer e, passando do cósmico ao terrestre,veio depois Charles Darwin que, cheio de escrúpulos e de descobertas contrárias às suas convicções de infância (era filho de um pastor da Igreja Anglicana), nos deixou muito mais longe dos anjos e muito mais perto dos símios do que estávamos antes.

 

Mas esta passagem de cavalo para burro, de camarote à boca de cena para banco no galinheiro, foi mais aparente do que real porque a ciência, retomando o fio de meada que passara pela Grécia nela se reforçando e juntando-lhe catadupas de experiência aumentou de maneira incalculável o conhecimento do mundo e de nós próprios. De maneira que, se é verdade que muitos de nós deixaram de crer ser feitos à imagem e semelhança de Deus e que todos nós (salvo talvez no Alabama profundo) deixámos de estar no centro geográfico do universo, sabemos muito mais de nós e do mundo do que os nossos antepassados e os nossos netos saberão muito mais ainda do que nós.

 

O tempo histórico é diferente do cósmico. Quando era pequeno, conheci Senhora muito velha que, quando era pequena, conhecera Senhora muito velha que, quando era pequena, vira entrar em Lisboa os soldados de Junot de que se lembrava ainda.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Fake news

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Et nunc et semper

 

 

Há agora grande animação a propósito de fake-news e de aldrabices quejandas que fervilham desde que os americanos escolheram para Presidente um mentiroso compulsivo (mas - ao contrário dos mitómanos que ás vezes se prejudicam com as mentiras que inventam – este está sempre a ver se leva água ao seu moinho e, quando não o consegue, foi por limitação de inteligência, de cultura ou de informação como acontece tantas vezes a chicos espertos e não por reconhecimento de a razão estar do outro lado. Há quem diga nessas alturas que o Presidente é sobretudo narcisista, como se tal fosse grande pecado, mas eu não estou convencido: Oscar Wilde contava que as águas do lago, quando lhes perguntaram se Narciso era realmente belo, responderam que não sabiam porque, quando Narciso vinha ver-se nelas, não olhavam para ele - olhavam para si próprias nas meninas dos olhos dele. Atirar a primeira pedra…

 

Felizmente, pelo menos por enquanto, a algazarra passa-se sobretudo nas chamadas redes sociais, uma gigantesca bolha, porventura ela própria dentro de uma outra bolha - e por aí fora - onde vivem deusas e deuses, homens e mulheres, onde se mata, se morre, se ama, se odeia, se acaba e se recomeça, como se se a vida fosse uma fantasia impune de ricos e, enquanto assim for, não virá daí mais mal ao mundo do que aquele que já tinha vindo ao longo de milénios, por mor de quezílias semelhantes, explodindo em amores e ódios, dividindo famílias, nações e fés, pelo menos desde Abel e Caim (para leitora que prefira ou esteja mais calhada com a mitologia cristã). Se fake news e fantasias acopladas tomassem conta dos livros texto, da experimentação e dos debates em cirurgia torácica, por exemplo, ou na construção de pontes sobre rios ou na pilotagem automática de automóveis e de aviões ou na análise, selecção e engarrafamento da Água do Luso – aí haveria razão para grande susto. De algoritmos a física quântica, muita coisa hoje nos organiza as vidas, cujo entendimento escapa a muitos de nós mas cujo estatuto científico e técnico não é minado pela tagarelice cacofónica zumbindo constantemente ao nosso alcance visual e auditivo nas redes sociais. O que é minado, esse sim, é o chamado conhecimento comum, já de si vago, incoerente, gabarola, e há eras sem fim, constantemente posto à prova pelas religiões do mundo, sobretudo pelas religiões reveladas e, destas, pelas três maiores: Cristianismo, Islamismo e Judaísmo.

 

O que mudou, quase desapareceu, são os guardas florestais e mais arranjos destinados a prevenir fogos incontroláveis no Pinhal de Leiria que é o espírito. O aparelho científico e, pelo menos por enquanto, a máquina judiciária estão seguros, olhando pelos conhecimentos lógico e empírico, por um lado, e pela aplicação das leis, por outro. No resto dos espaços públicos e privados, a razão arrisca-se a perder crédito; a autoridade e o acaso a constituírem-se soberanos – mas isso já o temia o Cavaleiro de Oliveira (1702-1783). Não há de ser nada.

 

 

 

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Quarta-feira, 7 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

BreakerBoys Lewis Hine

 "Breaker Boys" (1910)

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Matar o tempo

 

 

 

John Lennon dizia que era capaz de se levantar de manhã da cama e começar logo a não fazer nada. Nessa época, que talvez esteja a acabar em Portugal, em que quem não fosse um camponês era um senhor e vivia numa espécie de férias grandes com “room service” incluído, eu gostava de gente assim e ainda hoje embirro com quem nos deseje «Bom trabalho!» de manhã, quer de viva voz quer por écran de computador intermédio.

 

Parece estar agora muito na moda em Portugal fazer exortações moralistas que não passariam pela cabeça de protestantes do Norte da Europa, os quais, desde que, já lá vai meio milénio, tiveram de aprender a ler para tratarem com Deus – era preciso cada um e cada uma ler a Bíblia, enquanto cá pelo Sul continuou a bastar que o cura lesse a vulgata, ficando o resto da malta (diria o malogrado Zeca Afonso) analfabeta – fazem o que têm a fazer, tal como deve ser feito, sem que isso dê direito a prémio ou distinção. Lá, o trabalho é uma obrigação nobre - pais e mães ensinavam a filhos e filhas que perder tempo é pecado - cá, o trabalho « é bom pró preto » ou pelo menos assim ouvi dizer muitas vezes; agora talvez seja diferente como o é muita coisa que espanta qualquer Ulisses local que regresse a esta Ítaca, a começar por descobrir que os velhos são mais velhos, os novos são mais altos e as pequenas vão todas prá cama antes de casarem.

 

Chegado a meio deste Bloco-Notas tenho que firmar o rumo, resistindo à tentação tradicional dos anciães de acharem tudo pior agora – como aquele casal amigo da Senhora Tichbein, mãe do Emílio de Emílio e os Detectives na Berlim dos anos 30 do século XX, com saudades do tempo deles, quando o céu era mais azul e as cabeças dos bois eram maiores. Tais perspectivas, por consoladoras que sejam para egoísmos de fim de vida, convencidos de lhes ter cabido melhor do que à rapaziada e à raparigada que agora lhes poluem o ambiente, são falsas.

 

Em termos simples: malgrado a horrível guerra na Síria e outras guerras indecentes (convém a leitora não esquecer que houve guerras decentes e podem ser precisas outra vez), o lamentável Presidente Trump e outros mandachuvas desanimadores - Putin, Erdogan, Orban, Duterte , Xi (o Chinês perpétuo), Maduro, tantos mais - o mundo nunca foi melhor para as pessoas do que é agora. Quem julgue o contrário é ignorante e, se insistir depois de advertido, além de ignorante será teimoso para lá do razoável. O mundo em geral está muito melhor do que estava, por exemplo, no começo da Grande Guerra em 1914. As pessoas são muito mais saudáveis e inteligentes do que eram nesse tempo e muito menos religiosas (59% no mundo inteiro quando, nessa altura, rondavam 100%). Em consequência, usam mais a razão do que fézadas irracionais para resolver problemas e tudo vai claramente melhor que dantes.

 

Vale a pena ler Enlightenment Now: The Case for Science, Humanism and Progress por Steven Pinker, para argumentação fundamentada e convincente. Pelo menos convenceu-me a mim.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Cópia de Exílio da Família Real

D. Manuel II a embarcar para o exílio na Ericeira (1910) 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Presidente a vida inteira

 

 

O Presidente Joseph Kabila, filho e herdeiro do presidente Laurent-Désiré Kabila, inimigo figadal de Mobutu e, depois da deposição deste último, mandachuva um ror de anos do Congo – que antes de se chamar Congo outra vez, como no tempo da administração belga, fora o exemplo mais brutal, mais egoísta e mais deletério dos colonialismos europeus em África (exemplo seguido a seguir à independência, mutatis mutandis, que uma colónia é uma colónia, um estado soberano é um estado soberano e agora se chamava Zaire, pelo ex-sargento Mobutu – os belgas não tinham formado um só oficial congolês - tratando os seus tão mal quanto o colonizador), o Presidente Kabila filho, dizia eu, que tendo ascendido ao poder dez dias depois do assassinato do pai, acabou o seu segundo e constitucionalmente último mandato há um ano mas insiste em não se ir embora enquanto o país desliza para mais uma guerra civil, esperando contra a esperança que lhe deem terceiro mandato, deve ter tido estes dias uma alegria inesperada quando lhe chegou notícia, talvez pela televisão, talvez por algum conselheiro solícito, talvez – muito improvavelmente mas nunca se sabe – pelo embaixador chinês em Kinshasa, frisando que o fazia a título pessoal, que as autoridades chinesas resolveram não dar só dois mandatos ao Presidente Xi Jinping como acontecera a todos os seus predecessores desde a morte de Mao, mas deixarem-no ficar no poder até vir a mulher da fava, dito por outras palavras, passar a ser Presidente perpétuo como é o Presidente da Academia Francesa e como era dantes o Papa em Roma.

 

Não há nada de estranho nem pouco habitual no chefe de um povo, de um país, de um Estado, ser perpétuo e hereditário, isto é que tenha herdado o título e o passe por herança a quem de direito (com sorte, filho ou filha; com menos sorte, parente mais distante). Temo todos, habitantes do globo terrestre - a maioria de nós, desde que nascemos -, exemplo vivo no mundo de hoje: a Rainha Elizabeth do Reino Unido da Grã Bretanha e da Irlanda do Norte (Dona Isabel Segunda, chamar-lhe-íamos nós). Em sociedades da nossa civilização que, num pequeno canto da Eurásia, fizeram transição sábia do feudalismo para a democracia, as monarquias subsistem. “Aquelas criaturinhas pouco ou nada fazem mas têm o condão de manter o povinho unido”, dizia há 50 anos a D. Adelaide, da nossa embaixada em Oslo, Deus lhe tenha a alma em descanso.

 

Fora desse ramalhete feliz e de poucos outros casos, porém, as monarquias deram par o torto e perderam o pé. A decapitação de Luís XVI em 1793 criou moda que ficou. Hoje há sobretudo repúblicas e, com elas, pese aos Orbans, Erdogans e Kabilas deste mundo, há limites aos mandatos de poder. Quando o maior país, a segunda economia e o arauto convencido do seu papel de mentor do futuro, quer voltar a ter chefe perpétuo, prega um grande susto às democracias. E, de Havana a Moscovo, de Ancara a Caracas, de Damasco a Kinshasa, dá alma nova à sacanagem.

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 camilo_castelo_brancoEça de Queiroz

Camilo e Eça

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Polémicas do burgo

 

 

 

A Vera gostou muito do artigo do Henrique Raposo sobre o Vasco Pulido Valente no Expresso, “duro mas certeiro”; disse-me que eu próprio saí “muito bem na fotografia” e perguntou-me o que achava. Respondo-lhe neste seu blog “Retrovisor”, onde há mais de quatro anos me dá asilo político.

 

A primeira coisa que me ocorre é dar parabéns ao Vasco. A nossa relação para-fraternal - sendo ele irmão mais novo que de vez em quando se zanga, sem eu perceber porquê – vem muito detrás e logo no começo Vasco ganhou em mim crédito tal que, passadas mais de seis décadas, não se esgotou ainda. Aos catorze anos e baixinho – deitou corpo logo a seguir – levantou os olhos para o pai, engenheiro erudito (explicou-me que os romanos faziam a barba com sílex muito afiado) e disse-lhe: “Á pai, se eu tivesse a tua idade sabendo o que eu sei…” Toda a sua vida tem sido uma luta para estar á altura dessa espécie de promessa. Acho alguns dos muitíssimos artigos bons que publicou e, pelo menos, um dos seus livros, “O Poder e o Povo” (sobre a revolução republicana), peças de antologia. Que ensaísta competente e brilhante lhe dê tanta importância mesmo discordando, central e convincentemente, da sua maneira de olhar para nós, portugueses, faz jus ao trabalho de uma vida.

 

E, por fim, assunto mais pessoal, devo-lhe ter encontrado A.B. Kotter. Quando se preparava o diário “A Tarde”, Vasco disse a Victor Cunha Rego que se eu lá escrevesse, ele não escreveria e o Victor recebeu de braços abertos o inglês da Várzea de Colares.

 

A segunda coisa que me ocorre é dar parabéns ao Henrique Raposo. Também gostei muito do ensaio e lembrei-me da resposta intrigada de Mário Soares, recém-eleito Presidente, quando lhe perguntei como era Cavaco Silva, que eu não conhecia. “Não sei. Não pertence à burguesia urbana, como nós. Vai à televisão dizer que não mente!”. Por também não vir da burguesia urbana - nem do Alentejo da mó-de-cima - o olhar de Henrique Raposo vê diferente e foi diferentemente educado, até pelo próprio e pelas suas escolhas filosóficas (sem a mitologia do PC, não houve Santa Catarina Eufémia que o desencaminhasse). Sente melhor do que outros a diferença entre os doutores e o povo mas também o que todos têm em comum. (No fim dos anos 40 do século XX menina inglesa de 12 anos que viera visitar primas por essa idade filhas de lavrador rico de Reguengos, desatou a chorar numa aldeia do concelho porque nunca tinha visto gente tão pobre). A falta metódica de paciência de Henrique Raposo para o que chama o snobismo do Vasco, tratando os seus por indígenas, ajuda a perceber o país que somos. E acerta em cheio no papel de Eça de Queiroz no amolecimento das nossas elites. O velho Carlos Martins Pereira, também de Reguengos e também rico, preferia Camilo e dizia que Eça era “um janota do Porto”. Terá porventura tido razão.

 

Quanto a A. B. Kotter, tinha aprendido muito sobre Portugal em conversas com Jorge Dias. (Falavam sempre em alemão um com o outro).

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Capa de La Codorniz celebrando a nova lei de imprensa conhecida como “ley Fraga” (1965)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Mundo Novo

 

 

Assino há muito tempo a New York Review of Books e, desde que vivi em Princeton, professor no Institute for Advanced Study, de 2001 a 2004 passei a assinar o New Yorker que, costumava eu dizer a toda a gente, é o melhor semanário do mundo – ou pelo menos o melhor semanário publicado em língua que eu saiba ler. Veio ocupar o lugar deixado vago há décadas por La Codorniz – “La revista más audaz para el lector más inteligente!”, trazia impresso numa tarja que atravessava a capa – impressa em castanho e cor-de-rosa, publicada em Madrid no tempo de Franco, suspensa de vez em quando pelo Poder (uma vez por causa de boletim meteorológico: “Mañana, como en igual fecha en años anteriores, se sentirá en toda la peninsula um fresco general del Noroeste”; outra, por pôr na capa de um número o desenho de um ovo enorme com a legenda “El huevo de Colón” e, na capa do número seguinte, novamente um ovo enorme com a legenda “El outro huevo de Colón”) e sempre implacável: grande fotografia do próprio com a legenda seguinte: “D. Jose Ortega y Gasset, Primero filósofo de España y Decimoquinto de Alemania”. Quando Franco acabou e veio a liberdade, acabou a Codorniz. 

 

Acontece-me agora uma coisa bizarra. Desde que Trump chegou à Casa Branca, depois de quase dois anos de campanha, com primárias republicanas e democratas primeiro e face-a-face Trump-Clinton depois, em eleições livres e limpas, tirante uma ou outra intervenção secreta e indevida do Kremlin para fazer Clinton perder votos, nunca saberemos quantos (a palavra tirante chegou-me agora directa de Camilo no começo da novela de Cenas da Foz, A Sorte em Preto, quando diz que a fidalguia do pai da heroína – cito de cor – vinha desde os godos em linha pura e varonil, “tirante um ou outro capelão atravessado”) e não se irão impugnar as eleições por causa disso, seja qual for o resultado do inquérito em curso; desde a chegada de Trump ao Escritório Oval dizia eu, perdi a paciência para os dois pontificadores nova-iorquinos – a New York Review; o New Yorker – e deixei praticamente de os ler. Continuam a vir pelo correio, de vez em quando tiro-lhes a cingida bolsa de plástico fino e transparente dentro da qual chegam a minha casa e ponho-os nas pilhas respectivas mas li por junto um artigo do New Yorker porque amigo insistiu. Estou de nojo; é estado que passa com o tempo e não cancelei assinaturas. Mas, por enquanto, raramente lhes toco – porque me sinto enganado. Afinal, eles que julgavam saber tudo mas não tinham percebido nada, deixaram multidões fartas de serem descuradas pela arrogância da mó de cima escolher gente ignorante, mal formada e viciosa para governar o país.

 

Também não tenho desculpa. Cheguei ao Instituto em Princeton logo a seguir ao 11 de Setembro com a América em estado de choque. Poucos dias depois carpinteiro da casa explicou-me como se distinguiam os automóveis do pessoal menor dos dos professores: “A gente cola a bandeira nas janelas dos nossos carros e eles não”.

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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