Quarta-feira, 17 de Julho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Samora Machel

Samora Machel     -  foto aqui

 

 

José Cutileiro

 

Correcção política

 

1982. Recepção do Presidente da República ao corpo diplomático em Maputo. À entrada, Samora Machel saúda os embaixadores e outros chefes de missão que o vão cumprimentando. Chega a minha vez:

«Senhor Presidente… »                                                                                                         

«Olá, patrão» e, olhando pedagogicamente para a cara atónita do embaixador da Alemanha Federal, logo atrás de mim na bicha – nessa altura havia duas Alemanhas, a Federal com capital em Bona, membro da OTAN, expiando convicta a pena dos seus crimes de guerra e a Democrática, com capital em Berlim, membro do Pacto de Varsóvia, convencida de que a conversão ao comunismo a limpara dos ditos crimes (e, de caminho, dirigindo e executando toda a intelligence da República Popular de Moçambique, incluindo as escutas a nossas casas) - social-democrata dedicado à cooperação com o Terceiro Mundo, acrescentou: «Ele era o meu patrão…»

 

E Samora Machel era assim. Disse-me um dia, a propósito dos cooperantes que agora vinham da URSS, dos países de Leste, da Escandinávia, dos Estados Unidos: «Vocês tratavam-nos como pretos. Estes gajos tratam-nos como macacos». E, doutra vez, que Agostinho Neto, então presidente de Angola, não era um preto – era um branco pintado de preto, porque não sabia rir-se. Eu conhecera, anos antes e muito ao de leve, o Dr. Agostinho Neto à saída do Hospital de Santa Marta em Lisboa, onde ele trabalhava salvo erro com o Dr. Carlos George: de paletó e colete, camisa branca e gravata às listas, parecia de facto doutor tão sizudo quanto os outros. O Natas, de sua graça António Vaz Pereira, meu predecessor em Maputo, falou-me de outro momento memorável que lhe fora contado por Chissano, então ministro dos negócios estrangeiros, que a ele assistira. Samora, fardado de camuflado, como nessa altura fazia sempre em tais ocasiões, ia receber as cartas credenciais do embaixador do Lesoto. Quando ao fundo da sala a cortina foi corrida e o embaixador, gordo e baixo, de casaca preta coberta de condecorações, apareceu e começou a caminhar na direcção de Machel, este, sem qualquer expressão no rosto, sem mexer a cabeça nem olhar para ele, disse a Chissano, perfilado a seu lado: «Ai o preto…»

 

Lembrei-me hoje de Machel porque, ouvido nessa altura, já era muitas vezes uma lufada de ar fresco, e recordado agora, o é ainda mais nestes tempos de correcção política – tão excessiva que até leva a absurdos contrários como quando Antonio Tabucchi, em Princeton, perguntou a minha opinião sobre assinar papel que lhe fora passado por Susan Sontag a pedir desculpa aos pretos americanos pela escravatura que trouxera de África os seus antepassados e eu lhe respondi que talvez fizessem melhor em pedir desculpa aos pretos da África ocidental por os seus antepassados não terem sido trazidos também.

 

NB Nada a ver com a Dra Fátima Bonifácio que, embora culta e informada, esquece pelo menos o Preste João e Desmond Tutu.

 

 

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Quarta-feira, 10 de Julho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

pastéisPastéis de Belém, Lisboa. foto: alamy

 

José Cutileiro

 

Antes do grande sobressalto

 

 

O Deutsche Bank vai despedir 20.000 pessoas, sobretudo em Wall Street e Londres. O responsável pela política de investimentos, mal orientada e mal executada, causa principal dos desaires recentes, deixa também o banco, mas com 11 milhões de dólares de gratificação - li eu aqui em Bruxelas na primeira página do último FT Weekend. Se a gente juntar esta informação ao facto de na crise começada em 2008, parte importante do dinheiro emprestado à Grécia pelo FMI serviu prioritáriamente para pagar a bancos alemães, cúmplices da extravagância meridional, e também ao facto de nenhum responsável de banco ou outra instituição financeira privada europeus ter ido parar à cadeia por causa da dita crise, (um ou outro matou-se: ainda há homens de honra mas já não há moral pública) não espantará que alguns de nós suspeitem que as coisas vão ter de mudar. E como ‘patrician reformers’ dedicados a mudá-las a bem e de cima para baixo, parecem ter desaparecido (enquanto a filosofia dos actors principais do poder actual pode ser encapsulada no lema assustador atribuido a outra estrela do Deutsche, morto em desastre de avião em 2.000 : «Se não tens $100  milhões de dólares aos 40 anos és um falhado»), outros, menos bem educados e crentes convictos no valor curativo das revoluções, tentarão fazer a mudança a mal e a contrapelo. Não digo debaixo para cima porque o bom povo, antes de se meter ao barulho e marcado pela Comuna de Paris de 1871, pelos bolcheviques russos de 1917, e por desmandos ainda piores na Ásia e nas Américas esperará para ver qual dos lados o tratará menos mal antes de tomar partido. Acredite a leitora que vem aí uma broncalina do camandro ou uma Bernardette do caboz e que seja qual delas for a escolha não será sua.

 

«É muito grave deixar a Europa» diz o riquíssimo Jacinto ao seu amigo José Fernandes quando o comboio saído de Paris que os levava a Lisboa ia a passar os Pireneus. Hoje já há pouca gente que pense assim: Espanha e Portugal são refúgios quase bucólicos e os franceses em particular são gulosos deste recanto onde a terra se acaba e o mar começa que tão generosamente os acolhe no seu seio como de croissants ou baguettes ao pequeno almoço mas sem nunca esquecerem que a França é o centro do mundo. Apesar de avanços da extrema direita (em Portugal não a há, em parte porque o 25 de Abril deitou abaixo 48 anos dela e em parte porque, ao conquistar a sua primeira maioria absoluta Cavaco Silva foi mata-borrão que absorveu toda a direita, da mais centrista à mais extrema) grande maioria deles é a favor da União Europeia mas não à nossa maneira. Portugal quer estar na União para ficar mais europeu; a França que estar na União para que esta fique mais francesa. Vivi em França de 1977 a 1980 e achei que os franceses eram portugueses bem sucedidos e, portanto, mais arrogantes e menos simpáticos do que nós. Só vão ao sítio se tratados mal, o que será incompatível com regras básicas de turismo. A ver vamos.

 

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Quarta-feira, 3 de Julho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

nuno bragançaNuno Bragança (foto aqui )

 

 

José Cutileiro

 

Coisas de cá e lá fora

 

Não vi o Expresso de há duas semanas mas li o Vasco Pulido Valente segunda-feira no Público e encontrei lá o Nuno Bragança. Ao contrário do Vasco eu gostava do Nuno e do que ele escrevia; acho que a primeira linha de A Noite e o Riso– « Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me desembaracei na arte de estender os braços.» – ficará pequenina pérola da nossa literatura. E achei bons esse seu primeiro romance e o terceiro, Square Tolstoi; o do meio tinha tanto em directo, chamava-se Directa,da vida do Nuno (e da Leonor) que decidi a certa altura parar de o ler e não sei avaliá-lo.

 

As graças dele divertiam-me, embora conceda que eram de humor especial, o qual nem sempre agradava aos ouvintes ou sequer era por estes entendido como humor. Recebi um dia em Oxford postal dele da antiga Jugoslávia – técnico salvo erro do ministério das corporações o Nuno fazia muitas viagens de trabalho – datado de Liubliana, que rezava assim: «Vi ontem à noite numa taberna de Liubliana um bêbado igual ao Vasco Pulido Valente que fazia o elogio de Estaline. E fiquei a saber quem é o Vasco: um bêbado numa taverna de Liubliana fazendo o elogio de Estaline».

 

Uma quinzena em Londres falámos várias vezes. Ele viera pelo ministério para estágio onde não ia, e as suas ajudas de custo davam só para quarto de hotel incómodo e exíguo. Eu viera de Oxford ler na British Library e ficava num dos quartos simpáticos que a Gulbenkian punha à disposição de bolseiros na província que tivessem de vir a Londres. Quando eu saía de manhã o Nuno entrava para escrever o que viria a ser A Noite e o Riso na mesa do meu quarto. Jantamos várias vezes juntos e na véspera de ele voltar a Lisboa perguntei-lhe o que achara de Londres. (Era a sua primeira visita a Inglaterra mas havia toque especial: ele tivera uma nanny em pequeno e falava inglês como um nativo). Respondeu-me assim: « Sei que levaria muito tempo a adaptar-me a viver aqui. Mas sei também que em Portugal não me vou adaptar nunca». Viveu mais de vinte anos depois dessa conversa mas acabou por se matar numa casa de saúde para maluquinhos, perto de Lisboa.

 

Lá fora. Escrevo terça-feira na Marinha de Cascais e à hora de aqui deixar estas linhas não há ainda resultado de reunião do Conselho Europeu começada ontem para escolher os mandachuvas da União para os próximos 5 anos: o dito Conselho, a Comissão Europeia, o pseudo ministério dos Negócios Estrangeiros europeu e o nosso Banco Central. Há dias que as discussões prosseguem (entre 27 países) e o que se vai sabendo das conversas não é edificante mas não é isso que me agasta: Bismark dizia que nunca se deve visitar uma fábrica de salsichas. O que zanga é, por um lado, ver Merkel ser agora maltratada por anões políticos e, por outro, ver Timmermans, defensor activo dos valores europeus ser posto de parte para satisfazer exactamente os chefes nacionais – húngaro, polaco - que mais desrespeitam esses valores. Casos destes enchem a gente de fé.

 

 

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Quarta-feira, 26 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

míssil hipersónico USAmíssil hipersónico norte-americano

 

José Cutileiro

Guerras

 

Leio no jornal que americanos, russos e chineses trabalham em mísseis hipersónicos capazes de viajar a mais de 15 vezes a velocidade do som, de atingir num quarto de hora alvos russos ou chineses se forem americanos (ou americanos se forem russos ou chineses), levando cargas explosivas e podendo perfurar as paredes mais resistentes de abrigos atómicos subterrâneos ou as couraças de porta-aviões americanos. Leio também que, ao contrário do que acontecera a partir de certa altura durante a guerra fria, não há conversas entre os protagonistas para criar regras de protecção mútua que ajudassem a lidar com acidentes ou mal-entendidos. Nesse como em qualquer género de  armamento, os americanos de Trump não estão interessados em nada que cheire a prevenção e os outros tampouco insistem.

 

«Messieurs les anglais tirez les premiers» disse o tenente Conde de Auteroche na manhã de 11 de Maio de 1745, durante a guerra da sucessão da Áustria quando franceses e ingleses, com aliados vários, (ao todo 47.000 homens de um lado e 51.000 do outro) apoiavam pretendentes diferentes, assim dando começo à batalha de Fontenoy, no que eram então os Países Baixos austríacos e é hoje a Valónia, na Bélgica.  Nessa altura e até à Revolução Francesa (e, a seguir, à explosão dos nacionalismos) as guerras eram o grande desporto da fidalguia. Auteroche convidou os ingleses a atirarem primeiro como quem, num jogo de ténis entre amadores, convide a bolar primeiro quem o defronte do outro lado da rede. Escrevendo poucas décadas depois, o Príncipe de Ligne diz que o seu maior desgosto fora a morte do filho, decapitado por tiro de canhão do exército revolucionário francês. Conta da relação estreitada por terem combatido juntos, de como chegara a pensar que seria bom serem feridos ao mesmo tempo. Já no começo do fim desse mundo, Napoleão Bonaparte lembrou que a coragem (física) é a única virtude que não se pode imitar. As ruas das cidades europeias estão cheias de nomes de batalhas ganhas - e de quem as ganhou – para não as deixar sair da memória colectiva.

 

A guerra é tão antiga quanto a humanidade (recente, e não sei se duradoura, é a paz); houve, na Europa e alhures, além da fidalga e da nuclear, outras maneiras de a fazer, e haverá mais no futuro sob formas que talvez nem imaginemos. Vivemos, seja como for, em tempo muito especial: toda a gente fala da brecha aberta entre as elites e o resto. Salvo em páginas de Madame de Staël que deu por divórcio assim em Paris, no começo da Revolução Francesa, não há memória de coisa parecida na história que conhecemos. Talvez a razão seja a mesma: explosões gigantescas de liberdade, a exigirem outros costumes. (Em 1917 na Rússia não chegou a haver liberdade: Os lagartos mudam de pele/Para salvar o coração./Nós mudamos de coração/Para salvar a pele escreveu poeta local coevo, prontamente executado).

 

Dito isto: 1 Não há nada mais parecido com a França de Versailles do que a França do Eliseu. 2 E os mísseis hipersónicos?

 

 

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Quarta-feira, 19 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

bussola

 

José Cutileiro

 

A visão do saguão e o instinto da porta de serviço

 

Quando era diplomata, lembro-me de ter achado de vez em quando que quem mandava em nós - os nossos chefes políticos - abundava nesses atributos pelintras porventura impostos pela miséria da pátria (várias bancarrotas desde o liberalismo monárquico até à república de Abril, sempre vistas como pecaminosas por protestantes do Norte). A visão do saguão e o instinto da porta de serviço não são manhas de pobre – essas também por cá as temos – são, por assim dizer, coordenadas cartesianas do modo subalterno de viver. Vêm juntas com a desconfiança do dinheiro de muitos católicos – por exemplo, do Papa Francisco – e também de muitos comunistas, como aquele, à época secreto no Portugal de Salazar, que me louvava, contristado, comadre sua comerciante, diligente e cada vez menos pobre: «É boa rapariga a Antónia; só tem aquela coisa do lucro…».

 

O contrário absoluto desses atributos também existe e o encontrei: por exemplo, em Pedro Pires de Miranda ao dizer-me, radiante, um dia quando eu entrava no seu gabinete nas Necessidades: «A política externa é óptima: só se têm inimigos !». Mas realidade assim ou sequer tendência no mesmo sentido são raras, o que eu acho estranho porque há na língua, no português que há vários séculos e ainda hoje falamos, pelo menos um sinal forte do contrário. Enquanto em francês se diz garde de corpse em inglês bodyguard, em português diz-se guarda-costas, o que implica que só se for atacado pelas costas um português precisará de outro homem para o ajudar a defender-se. Se o ataque for de frente, bastará ele próprio. Sinal inequívoco do papel constituinte da honra na definição de qualquer português, é curioso que coabite nalguns dos nossos chefes políticos contemporâneos com preocupações maníacas de segurança pessoal. (Mas ao considerar matérias assim, correríamos o risco de resvalar do mundo simples dos valores medievais, com o Bem e o Mal cada um em seu sítio e o Marquês de Sade na Bastilha, antes de esta, assaltada por bandidos armados, ter passado a dia nacional francês e mascote de todos os revolucionários do mundo ao mundo complicado dos nossos dias, cheio de teoremas sem prova, de puzzles a que faltam peças, de chineses que acham ser ainda cedo para avaliar as consequências da Revolução Francesa e daqueles que acham que foi com essa que o caldo se entornou e evitam passar por Paris que continua a celebrá-la sem vergonha).

 

O entre-parêntesis foi longo sem nos levar longe. Que acontece aqui? Florença tem séculos de turistas, milhões desde a segunda guerra mundial, mas não perdeu um átomo de identidade – quem venha de fora que se ajeite. Aqui é confuso: admitem-se imigrantes pobres fazendo seu pé de meia de gorgetas de imigrantes ricos ou não tão pobres quanto eles, e os indígenas mudam maneiras de cozinhar ou de rasgar portas e janelas para inglês (ou francês, ou alemão) ver (e comprar e alugar). ‘Cadê Portugal ?’ perguntaria Balsonaro. É esse o perigo.

 

 

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Quarta-feira, 12 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

palavrao

 © drante/iStock

 

José Cutileiro

 

Calão

 

Dizem-me que a gente nova fala com constantes palavrões os quais no meu tempo (e mesmo no tempo do meu filho) seriam impensáveis em tal profusão salvo em pequenas bolsas de proletariado marginal, criminoso e embriagado, ou em meia dúzia de excêntricos e excêntricas bem nascidos para quem a ordinarice no falar era uma maneira de sublinhar superioridade impune. Lembro-me da Madalena Machado Macedo que fazia gala em praguejar como o proverbial carroceiro, no aeroporto de Lisboa de há sessenta anos, a querer entrar para a alfândega, que se via do hall através de grande vidro, para lá esperar o Manuel Eugénio. Guarda-fiscal parou-a dizendo-lhe que era proibido passar. «Porquê ?» «São ordens do Senhor Director.» «Diga ao Senhor Director que eu me chamo Madalena Espírito Santo Mello e passo sempre» respondeu ela e assim o fez. O calão dela, usado sobretudo em conversa com gente da sua roda, era chocante (e divertido) por ser usado por uma mulher, configurando transgressão muito mais severa do que a de um homem. O português, sobretudo o português escrito, língua franca de curas, tabeliões e academias é tão hostil ao calão quanto uma tia solteirona beata. Nesse português, palavrões ou falas sexuais são agressões postas de lado ou mandadas para trás como pedras no arroz ou vinho bouchonné. Talvez de resto se deva a essas restrições a necessidade e o gosto de exagero e espampanância no calão dos jovens. (Definição operacional de jovem: Criatura entre os 12 e os 35 anos, de qualquer dos sexos disponíveis, que se recusa a obedecer ao pai).

 

E é pena porque há histórias, exemplos dir-se-ia dantes, nessas falas interditas e, se a Vera me deixar, ousarei contar duas aqui, ligadas ao atelier do meu chorado Frederico George. Antes dos computadores, ateliers de arquitecto estavam cheios de desenhadores temperamentais e volúveis, entre artesão e artista).

 

No dia de 1968 em que Marcelo Caetano falou pela primeira vez como Presidente do Conselho à Assembleia Nacional eu tinha ido trabalhar com o Frederico para o Palácio Fronteira, onde ele vivia com a mulher, mãe do então Marquês. Para verem Marcelo na televisão, juntaram-se-nos a Maria João Mangualde e dois colegas com quem ela estudava medicina. No fim, depois deles saírem, Frederico perguntou-me: «Você já viu isto ?» «Isto o quê, Mestre?» «Você é doutor por Oxford, e estes estudantecos trataram-no por você!» «Nem reparei, Mestre, e não tem importância nenhuma.» «Ah tem, tem» concluiu o Frederico. «Eu, estas coisas tu cá, tu lá, pontapé na cona, não gosto!» Desenhador seu apaixonara-se por puta de um bordel e vivera lá mais de um mês a procurar tirá-la da vida. Sem sucesso - mas aprendendo, entretanto, novas maneiras eloquentes de dizer coisas.

 

Segundo exemplo. Uma tarde, armara-se no atelier discussão gabarola e animadíssima, sobre comprimentos de pénis. Ao fim de uma hora, Frederico George interveio a arrumar o assunto: «Essas coisas querem-se pequeninas. São para senhoras.»

 

Outros tempos.

 

 

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Quarta-feira, 5 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Vicentes CarnavalCandeeiros (Os dias dos nossos carnavais) - Museu Vicentes, Madeira

 

 

 

José Cutileiro

 

Gemeinschaftzinho

 

 

«Vossas Excelências não têm nada a declarar? Não há malinhas de mão ?»

 

Assim pergunta de cais de estação de caminho de ferro florida, numa manhã cheia de sol, ‘fardeta agaloada’ e, dentro da carruagem, Zé Fernandes que acompanha o seu amigo Jacinto na primeira visita à terra dos antepassados deste, percebe que, havendo deixado para trás a rudeza da noite castelhana, tinham acordado em Portugal.

 

Malinhas, não malas, disse a fardeta na raia seca. «Já acabei de limpar a metralhadorazinha» diria algures em Angola, quase setenta anos depois, soldado raso a tenente miliciano do exército português. Este outro caso fora contado pelo miliciano em questão, depois de regressado à metrópole e desmobilizado, ao Gérard Castello Lopes que o contara ao Antonio Tabucchi que mo contara a mim. Gérard tinha uma teoria sobre o uso português dos diminutivos, não sei se verdadeira se falsa, mas que acho valer a pena expor à leitora. Segundo ela, nós usamos diminutivos para mostrarmos ser bem educados e darmos primazia ao nosso interlocutor. Da mesma maneira que em muitas pinturas medievais em que se vejam várias pessoas o tamanho de cada uma delas não varia segundo regras de perspectiva (quanto mais longe mais pequenas) mas segundo regras de hierarquia social (quanto mais importantes maiores) assim nas nossas trocas de palavras. Ao usarmos diminutivos, colocamo-nos em posição respeitosa perante a pessoa com quem falamos. Tal fizera, com efeito, a fardeta agaloada ao chamar malinhas de mão à bagagem dos viajantes sem sequer a ter visto. De caminho vinha sugestão de hospitalidade e bonomia, de rejeição de hostilidade, mais importantes ainda numa fronteira do que longe dela. (Mesmo antes de alguns horrores fronteiriços norte-americanos e europeus recentes devidos a questões de emigração terem chocado muita gente, fronteiras eram amiúde lugares onde a viajante – ou o viajante - se sentia insegura e indefesa. Lembro-me de malas abertas e roupa espalhada na alfandega paquistanesa em Lahore, lidando com passageiros vindos de avião de Nova Deli, cinco anos após as independências da Índia e do Paquistão a partir da Índia colonial governada por Vice-Rei mandado de Londres - os ingleses, neste caso, não dividiram para reinar; dividiram para se irem embora).

 

Talvez o Gérard tivesse razão – mas tal não explica a exuberância e a frequência actual de diminutivos, a torto e a direito – além do clássico um beijinho grande, o pezinho, o bracinho, o enfartezinho (do miocárdio), a escadinha (Magirus); presumo que por correcção política deixei de ouvir dois, correntes na minha infância: pretinho e pobrezinho. Numa espécie de primavera que se apossou ultimamente dos portugueses, talvez toda a gente queira estar bem com toda a gente e atiremos diminutivos uns aos outros como dantes, no Carnaval, se atiravam serpentinas.

 

Gérard, António – só me vem à cabeça o medievo Villon a lembrar-se de amigos idos: Repos aïent au Paradis/Et Dieu garde les demeurants.

 

 

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Quarta-feira, 29 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

torre de Belém

 

 

José Cutileiro

 

Português e vivo

 

Português e vivo/É diminutivo./Só fazemos bem/Torres de Belém.

 

Esta quadra popular de Carlos Queiroz, a quem ficámos a dever algumas magníficas, não é das melhores que ele escreveu. Nos dois últimos versos dá ideia de não ter percebido a visão e a força precisas para construir a Torre de Belém quanto mais várias. Tomáramos nós!

 

Antes dessa tontice, porém, os dois primeiros versos exprimem aquilo que desde que me lembre – e desde pelo menos Os vencidos da vida– os portugueses que pensavam e julgavam conhecer o seu país achavam e diziam. Assim Oliveira Martins – um dos vencidos– a propósito de Os Lusíadas: « Há países para quem a epopeia é, ao mesmo tempo, o epitáfio» - ou palavras no mesmo sentido; cito de memória conversa ouvida em casa dos meus pais, quando era pequeno. Salvo em propósitos de propaganda, na monarquia liberal, na primeira república, no estado novo, no Portugal democrático, era o que se ouvia – e a culpa caía sempre nos inimigos políticos de estimação de quem estivesse a falar: os Braganças, a República, Salazar, os comunistas, a reacção; ultimamente (desde que ao Beato Obama sucedeu o Mafarrico Trump), até a América, isto é, os Estados Unidos. No começo do século XX, até ao arrumo do jacobinismo oficial em 1926, a igreja católica foi o bombo da festa. Em 1911, folheto anticlerical esclarecia na primeira página: A palavra padre é aqui empregue no seu sentido o mais pejorativo.A seguir ao 25 de Abril não houve nada disso. Os católicos progressistas – «pessoas que tinham a coragem de dizer aquilo que já não era preciso ter coragem para dizer» na formulação de Luis Sttau Monteiro – eram bem acolhidos pela oposição histórica ao regime; anticomunismo popular veemente no Norte de Portugal foi apoiadíssimo pelos curas locais; o Dr. Mário Soares, que tinha mais jeito para a política do qualquer dos seus compatriotas contemporâneos, fez gala em aparecer a almoçar e jantar com bispos nas televisões e em fotografias de capas de jornais. (O estado novo dizia mal de democracia e de comunismo, metendo-os no mesmo saco, o que facilitou a tarefa da oposição mas foi preciso esclarecer depois do 25 de Abril).

E os portugueses continuavam tristes. Pobres e tristes: Les portugueux sont toujours gueux, escreveu Alexandre O’Neill. Tenho experiência de voltar a Portugal desde 1952, umas centenas de vezes; falei com muitos estrangeiros que cá vieram. Havia, como dizem agora, um consenso: os portugueses eram tristes.

Uso o pretérito porque parecem ter deixado de o ser. Neste último regresso, desde a tripulação da TAP a encontros em lojas e transportes, às pessoas que lidam profissionalmente comigo, é como se toda a gente se tivesse livrado de fardo que levara às costas. E estão alegres (!). Não sei por quanto tempo mas julgo saber porquê. António Costa (cuja maneira de chegar a PM muito me irritou na altura) nasceu com talento redondo para o que está a fazer e dá aos portugueses conforto de que nós precisávamos.

 

 

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Quarta-feira, 22 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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© Getty Images

 

 

José Cutileiro

 

The F words

 

Em inglês, as ‘F words’ são várias, têm significado sexual e, quase sempre em tom de imprecação, soam brutas e violentas. No português de Portugal não se passa nada disso. Alhures, em São Salvador da Baía, Quelimane, Cabinda, Medina do Bué, Príncipe, gueto de Macau, vilas antigas da Malásia, Timor-Leste, ladinos turcos, que sei eu, não faço a menor ideia.

 

No Continente e Ilhas Adjacentes – suponho que ainda se possa dizer assim – as F words são três e caiem como gotas de mel na maioria dos ouvidos que as sintam vibrar ou dos olhos que entendam o seu recorte escrito: Fátima, Fado e Futebol, as três com maiúscula. Era assim quando eu era pequenino, acabado de nascer, e daí até agora nem o sobressalto breve causado pelo golpe militar de 25 de Abril de 1974 – quando os nossos compatriotas fardados para morrer pela Pátria passaram de tropa a forças armadas (porque a verdade, leitora, é que o Estado Novo viveu apoiado no poder militar e caiu quando este se virou contra ele) – lhes fez mossa que durasse. Estou a passar uns dias em Portugal e ouvi relatos emocionados do Marquês de Pombal – e do resto do sul do país em festa quando no fim de semana o Benfica ganhou o campeonato. A leitora que ache que foram festejos demais – ou de menos – lembrarei a inauguração do Estádio Nacional em 1942, estava a Europa em guerra, com um jogo de futebol Portugal-Espanha (que acabara há dois anos a sua própria guerra civil), empatado 2 a 2. Antes do jogo, avionete espalhara milhares de panfletos. De um lado, as equipas com seus lugares marcados no terreno. Do outro, texto político com o título: O QUE NÓS QUEREMOS É FUTEBOL! A Europa estava em guerra aberta mas nós, fora desta graças à sabedoria do governo, vivíamos a nossa vida, trabalhávamos, descansávamos, comíamos e dormíamos sem tais preocupações. Hoje, não já não há guerra na Europa nem sequer fria mas o que parecemos continuar a querer é futebol.

 

O fado triunfa. Dizem-me que do clero, da nobreza e do povo, por um lado, do povo unido, por outro, continuam a surgir vocações. Ao seu público conhecedor junta-se agora outra gente atroando os lugares da noite com férreas sapatorras de turistas. E mesmo que os lusíadas se fartassem dele, lá fora não o esquecem. Desde que me lembre, dos dois único portugueses a quem The Economist dedicou obituários, uma foi Amália Rodrigues. (O outro, Ernesto Melo Antunes).

 

Fátima é mais complicado. Fé é o que não falta por aí mas assaltada por novas igrejas evangélicas, contrabandistas do além, diz indignado católico meu amigo. O Papa Francisco irrita mais os ricos do que convence os pobres. E haverá ainda velhos como Francisco Gião (deu-me o meu primeiro charuto tinha eu 14 anos) que sendo ateu mandava sempre pôr colchas às janelas em dias de procissão e não o fez quando passou a primeira de Nossa Senhora de Fátima. «Em tudo deve haver sempre um bocadinho de respeito» explicou aos filhos «e vistas bem as coisas essa Senhora é muito mais nova do que eu».

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 15 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Vaclav-Havel-001Vaclav Havel em 1989 - foto Hulton Archive @ The Guardian

 

 

José Cutileiro

 

O Povo é quem mais ordena…

 

…ou Deus, Pátria, família que é dizer o mesmo, julga amigo meu que quase toda a gente considera reaccionário mas insiste em achar que não o é: tem é bom senso que muitas vezes falta aos outros. O cabrão do povo é quem mais ordena, seria variante vernacular para exprimir a sua desilusão com algumas consequências do 25 de Abril mas o meu amigo acha a fórmula grosseira e recusa-se a ser malcriado.

 

Tal como com quase tudo agora, estas coisas vão sobretudo por modas que se espalham pelo mundo como fogo de mato – ou de floresta californiana - a velocidade inédita na História, o que faz velhos eruditos sentirem-se novos analfabetos. E por causa das redes sociais – acho que se diz assim – o povo fala directamente com o povo, sem os filtros colocados entre uns e outros por várias camadas de doutores. Directores de jornais, de rádios, de televisões, leitores que trabalham para editores, e alguma outra gente no sacerdócio ou laica, em encruzilhadas importantes das vidas de agora, agindo esses mais como agulheiros do que como censores, ajudavam a manter coerência e compatibilidade nos discursos de uns e de outros e agiam com grande eficácia no que dissesse respeito a fake news. Nem todas. Tem sido até agora privilégio das religiões, escaparem a exigências do senso comum e da ciência, e proclamarem, urbi et orbi, fake newstão evidentes como a Imaculada Conceição ou a Ressurreição, bookends, por assim dizer, da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo tal como ela é contada no Novo Testamento. Isto para falar apenas de uma das três grandes religiões reveladas, monoteístas, e aquela que quase todos os europeus conhecem melhor. Além destas, pululam muitas mais por esse mundo fora e beneficiam todas da mesma licença. (Salvo da parte de ateus mais ou menos filosóficos: a força da convicção destes pode ser tão rígida e arreigada como a de muitos crentes e, comentava jesuíta meu conhecido, sofrem de orgulho humanista. No meu caso, por exemplo, só aí aos dezasseis anos me dei conta de que havia católicos muito mais inteligentes do que eu).

 

Fora das fés, porém, não há razão que justifique dar cidadania a fake news. (Dentro das fés também não mas os costumes são arreigados demais para serem desaconselhados a bem. Na União Soviética aparatchiques faziam baptizar filhos e filhas às escondidas; não sei o que se passe na China com isto de fé em Deus – palpita-me que nada de bom).

 

Sem agulheiros e censores fiáveis, a conversa dos povos que depois de unidos jamais serão vencidos é um desastre permanente, parecido com o que está a acontecer com o cristianismo. Em Portugal, por exemplo, enquanto as igrejas católicas estão vazias, brotam todos os dias novas igrejas evangélicas, No geral, Deus, pátria, família, libertados da propaganda estreita e beata do Estado Novo e dos rigores da Cúria romana, ganham viço novo e impõem-se cada vez mais à razão, irmã do amor e da justiça. Cada dia se vê melhor o túnel ao fundo da luz, diria Vaclav Havel.

 

 

publicado por VF às 19:35
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