Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

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@ Percy Jackson 

 

 

 

 

 

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Deuses

 

 

 

 

Em igreja desafectada num lugarejo da Beira profunda, pedindo-se a vizinha chave para a abrir, amigos dos Pais descobriram estatueta magnífica de S. Sebastião do século XVII. Um ano depois, estando por perto, pediram outra vez à vizinha para lhes abrir a igreja – e não viram o S. Sebastião. Perguntaram se alguém o teria levado (passava-se isto há uns 80 anos e começara já a compra por dez reis de mel coado de obras de arte achadas na província portuguesa por citadinos astutos - pilhagem comparável às das Invasões Francesas do começo do século XIX, com a vantagem de as obras assim preservadas terem ficado em Portugal) mas nada da igreja fora entretanto vendido. De entrada, a vizinha nem percebia bem de que é que eles estavam a falar até, de repente, se fazer luz no seu espírito: “A gente capemo-lo e fizemos uma Santa Teresinha!”

 

O catolicismo cultivou os Santos e as Santas, alguns plasmados de anteriores figuras pagãs, amortecendo assim o choque brutal do monoteísmo - a invenção mais traumática e funesta da humanidade - na vida de cada um (e cada uma) de nós que com ele tivesse de lidar. Santos e Santas são cortesãos celestes, com acesso directo a Deus menos ou mais facilitado, desde Santos e Santas modernas sem cultos enraizados nas mentes dos fiéis às hipóstases mais celebradas da Senhora sua Mãe. Beatas (e beatos) estabelecem as suas intimidades. Uma de Reguengos, a quem mãe aflita com doença de filho viera pedir intervenção de Nossa Senhora de Fátima (de que a beata possuía imagem a que rezava), respondeu-lhe: “Deixa estar filha que eu, em chegando a casa, caio-me lá com a minha Periquita!”. Às vezes, como entre humanos, as coisas dão para o torto: o meu amigo Fernando viu numa igreja de Luanda mulher de pé em cima de um banco insultando em kiluanda imagem de Nossa Senhora do Carmo, por esta não ter cumprido a sua parte de um acordo.

 

As coisas passavam-se assim com Deuses e Deusas quando toda a gente tinha vários. Era o caso - para escolher sociedade evoluída - da civilização romana com quem os cristãos tiveram problemas, não por terem Deus diferente, tal não aquecia nem arrefecia os romanos, mas por não admitirem existência de Deuses dos outros. A intolerância não foi inventada pelos monoteístas mas foi dotada por eles de superioridade moral. Desde as origens no Próximo Oriente as chacinas não pararam. Mas salvo em casos especiais – judeus ortodoxos, Tea Partiers americanos, waabistas - as três grandes religiões reveladas parecem hoje menos viradas para o proselitismo, mormente a Hebraica quiçá por ter sido mais maltratada do que as outras duas. A Cristã chega a roçar o agnosticismo. Mais novo, o Islão dá fiéis cheios de sangue na guelra. Se algum dos seus entusiastas, fanático do chamado Estado Islâmico, nos perguntar o que fizemos do Deus a quem chamam Alá, em cujo nome matam e esfolam, devemos responder que o capámos e fizemos um Nosso Senhor Jesus Cristo, user-friendly para crentes e descrentes.

 

 

 

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Quarta-feira, 30 de Março de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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 Aeroporto de Zaventem, Bruxelas, 2016

 

 

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Avé Marias e pelouros

 

 

 

“E com muitas Avé Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num Credo” conta Fernão Mendes Pinto do combate da sua nau contra o junco do pirata Cimilau, no mar da China. Embora o homem da Peregrinação tivesse veia mitómana à Luis Stau Monteiro – chamavam-lhe mesmo Fernão, mentes? Minto! – esta tem pinta verídica (com os nossos que lá ficaram convencidos de que iriam dali para o Céu).

 

Convicções semelhantes nutre rapaziada (e, em muito menor número - mas não querem valer menos que os homens - raparigada) que ultimamente, ao grito de Alá é grande!, se faz explodir, a si própria e a muita gente à sua volta, em vários lugares da Europa: o último tendo sido Bruxelas. Europa onde quase todos eles (e elas) nasceram, e em cujos reformatórios e prisões, a que delitos comuns mais ou menos violentos os haviam levado, foram convertidos ao Islão radical. São a carne de canhão do Estado Islâmico, mandados para o matadouro por teólogos e por tecnocratas que, esses, não se suicidam para ganharem atalho directo ao Paraíso.

 

Em suma, estão em guerra contra nós. Não só contra nós: o Estado Islâmico é, primeiro que tudo, um ariete sunita contra chitas e outros hereges muçulmanos, a seguir contra judeus mas, por variadas razões, a sua sanha contra europeus e norte americanos tomou posição de proa. Havia 15 sauditas entre os 19 kamikazes do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque e em Washington; agora a primeira explosão na aerogare de Bruxelas foi na bicha da American Airlines, a segunda, logo a seguir, num Starbucks a 50 metros. Estados Unidos e União Europeia - aquilo a que se costumava chamar o Ocidente – são alvo predilecto dessa guerra. E aí temos um problema.

 

Entendidos falarão logo de guerras assimétricas: nisso, terroristas calham pior ainda do que guerrilheiros; a OTAN, joia da nossa coroa, foi inventada para nos proteger de ataque convencional da Rússia, a começar na Alemanha. Tal investida nunca chegou: ganhámos a Guerra Fria sem ninguém dar um tiro; houve quem quisesse acabar com a OTAN nessa altura, o bom senso prevaleceu, depressa precisámos dela para peacekeeping robusto (na Bósnia e no Kosovo), está bem preparada para meter o devido respeito à Rússia belicosa de Putin. Os Aliados que a integram sabem que têm também de acudir aos perigos do Sul e estão a meter mãos à obra.

 

O problema é outro. Quanto a armas químicas, o Presidente dos Estados Unidos traçou uma linha vermelha para além da qual o governo sírio não poderia passar. Este passou mesmo e não lhe aconteceu nada. Os aliados dos Estados Unidos estremeceram, Putin rejubilou e Obama insiste em dizer que assim é que deve ser. A ministra dos negócios estrangeiros da Europa - em tudo menos em título - durante uma visita oficial a Amã, quando soube das atrocidades de Bruxelas desatou a chorar diante de jornalistas. “Um fraco rei faz fraca a forte gente” escreveu o Vate que sabia destas coisas e perdera um olho a guerrear contra os mouros.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Giovanni Francesco Rustici (ca. 1495)

 

 

 

 

 

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Civilização

 

 

 

André Malraux, escroque francês de génio que se distinguiu nas letras (L’Espoir, La Métamorphose des Dieux), na guerra contra o fascismo (Brigada Internacional em Espanha), na guerra contra o nazismo (Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial) e na política (ministro da cultura de De Gaulle que, quando o amigo François Mauriac, prémio Nobel da literatura, lhe perguntou como conseguia aturá-lo, respondeu: “Malraux c’est mon vice”), escreveu: “Nós somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem.”

 

Era bom, era. O “nós” de Malraux referia-se a um grupo de pessoas muitíssimo mais pequeno do que aquelas que a nossa “civilização” abrange. Apesar de nas escolas actualizadas dos países mais desenvolvidos se aprender que o Big Bang, origem de nós e de tudo o resto, se deu há 13,8 biliões de anos, nada se sabendo do nada que houvesse antes, a vasta maioria da gente – sem chegar aos excessos de literalismo bíblico dos evangélicos americanos (ou, noutra variante de monoteísmo, igualmente candidata a civilização, ao literalismo corânico dos salafistas sauditas) – conforta-se com mitos de criação e redenção que – tal como água de Fátima desde que seja fervida – não fazem mal a ninguém, a não ser se, como acontece agora entre os salafistas, exijam a matança dos infiéis. (Há uns séculos também éramos assim: “E com muitas Ave Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num credo” conta Fernão Mendes Pinto, com o desembaraço de um tempo em que não havia ONG dedicadas aos direitos do homem nem governos empenhados na salvaguarda do estado de direito).

 

No século XX os europeus (e os chineses) foram apanhados em cheio por novo mito, na aparência tão radicalmente diferente das restantes fés – também vinha curar os nossos males mas tudo se passaria neste mundo - que podia ser tomado por outra coisa. Raymond Aron chamou-lhe o ópio dos intelectuais. O estardalhaço foi enorme mas o paraíso não se instalou na Terra. Gato por lebre, dirão alguns, mas o problema é que a lebre, ou melhor, as lebres também não dão conta do recado. Ao mesmo tempo que ser marxista passou a opção privada (assim como ser vegetariano ou filatelista), fés mais antigas - duradouras por nunca terem caído na esparrela de se considerarem ciência - reapareceram no esplendor da sua intolerância. E no mundo globalizado de hoje podem chegar a toda a parte. Na Birmânia, maioria budista maltrata sem dó nem piedade minoria muçulmana. 1.300 anos de cizania sangrenta entre sunitas e xiitas levaram o mês passado à matança de Paris, inspirada, planificada e executada por salafistas.

 

A Europa, adubada pelo Iluminismo, separou a igreja do estado: não matamos nem morremos por mitos religiosos. Considerá-la fortaleza cristã é disparate nocivo. A sua força vem da tolerância. É para defesa desta contra intolerâncias (budista, sunita, xiita, calvinista, católica romana, marxista, o que for) que precisamos de nos armar até aos dentes.

 

 

 

 

 

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Sábado, 14 de Novembro de 2015

Le cogito du nihiliste

 

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 Une victime des terroristes à l'extérieur du Bataclan à Paris, le 13 novembre 2015.

(AP Photo/Jerome Delay)

 

 

 

 

Entre le tortionnaire et le corps qu'il déchire, la dissy­métrie est extrême. Le premier s'affirme délié de tout inter­dit. Le second doit se retrouver lié de partout. « Celui qui a, même une seule fois, exercé un pouvoir illimité sur le corps, le sang et l'âme de son semblable... celui-là devient incapable de maîtriser ses sensations. La tyrannie est une habitude douée d'extension... Le meilleur des hommes peut, grâce à l'habi­tude, s'endurcir jusqu'à devenir une bête féroce», écrit Dos­toïevski. La torture recèle in nuce, à l'état réduit et concentré, encore fruste et élémentaire, un style de rapport humain que seule la littérature russe ose scruter avec patience, avec sang-froid sous l'étiquette «nihiliste». Comme tous les articles en vogue sur le marché des biens et des idées, le mot eut tôt fait de se dévaluer. Ainsi crut-on démonétiser l'idée et exorciser cet inquiétant horizon de la modernité. Peine perdue. Dou­blement. D'une part, la réalité est têtue. Et Dostoïevski au retour de la maison des morts, Tchékhov visitant le bagne de Sakhaline, Soljénitsyne et Chalamov rescapés du goulag s'en­tendent à rappeler l'inhumanité de notre humanité. Par ailleurs, la littérature russe est obstinée et n'a de cesse qu'elle n'examine, tourne, retourne l'unique objet de sa méditation, une barbarie qu'elle a toujours refusé, depuis Pouchkine, d’ensevelir dans les lointains antérieurs des sociétés dites primitives ou des caractères taxés incultes. Et Dostoïevski d’insister: «D’où sont sortis les nihilistes ? mais de nulle part, ils ont toujours été avec nous, en nous, à nos côtés».

 

 

André Glucksmann

in Dostoïevski à Manhattan [4. Le cogito du nihiliste]  p. 125-126

© Éditions Robert Laffont,S.A., Paris 2002

 

 

 

 

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Quarta-feira, 7 de Outubro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Não há de ser nada…

 

 

 

Melhor: talvez até possa ser tudo. A crise da imigração, encarada ao gosto de cada um, de Helsínquia a Bucareste, de Londres a Paris, pelos políticos mais demagógicos das nossas praças – a Hungria que arrancara arame farpado cortante da sua fronteira para pessoas poderem fugir dela para o Ocidente em 1989, repô-lo agora para impedir outras pessoas de entrarem nela a caminho da Alemanha, que as quer acolher – estimula políticos que agitam espantalhos julgados de efeito seguro junto de eleitores assustados. A Europa é cristã, dizem eles, a mourama está à porta e, se a deixarmos entrar, o Estado Islâmico vai, pelo menos, encher isto tudo de terroristas, ou talvez até tomar conta do governo de um ou outro dos nossos países (como o escritor francês Michel Houllebecq imaginou para a França num romance de ficção histórica de sucesso). No Médio Oriente há quem sonhe com tais triunfos: em 1992 o Chico Quevedo, nosso embaixador em Ancara, viu numa manifestação de apoio aos muçulmanos dos Balcãs cartaz que rezava: “Não deixaremos que a Bósnia se transforme numa segunda Andaluzia”.

 

Mas o sonho não passa disso, do sonho de escassos entusiastas, e a ideia de que se poderão ressuscitar guerras religiosas na Europa - espantalho plantado por muitos desses demagogos - é profundamente disparatada. O que caracteriza a Europa – a União Europeia e os seus Estados Membros – não é ser cristã, embora o tenha sido durante séculos, a sua cultura esteja impregnada de cristianismo e parte considerável dos seus habitantes pertençam a igrejas cristãs: católicas, ortodoxas, protestantes. O que caracteriza a Europa é ninguém nela poder ser preso ou perseguido em justiça devido às suas crenças ou práticas religiosas. A separação entre estado e igreja é radical – mesmo quando haja uma igreja oficial e o chefe do estado seja também o chefe dessa igreja como acontece em Inglaterra (conhecida, além disso, por ser considerada o berço da democracia e nos ter dado a Magna Carta). Quem poderá ter problemas aqui não serão os europeus mas alguns dos recém vindos do Islão que abracem variedades deste intolerantes de outras crenças: esses, se não se adaptarem, terão de se ir embora. Guerras religiosas já as corremos do nosso seio há muito tempo.

 

Quanto à questão de fundo: os imigrantes precisam da Europa e a Europa precisa dos imigrantes. Para manter o equilíbrio de hoje entre população activa e o resto, a Alemanha necessita 500.000 migrantes por ano até 2050. Há demografias menos atrapalhadas mas, com diferenças de grau, o problema é de todos. Cabe aos políticos encaminharem as coisas de maneiras que nos convenham e, guiando-me pelo passado, julgo que tal acontecerá. Por duas razões: 1 Na Europa, quando as coisas vão bater no fundo aparecem chefes à altura (Churchill; De Gaulle; Soares em 1975). 2 Desde o começo, a construção europeia progrediu de zaragata em zaragata - e a crise da imigração vai obrigá-la a dimensão política que lhe tem faltado.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Setembro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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O bom e o bonito

 

 

 

Amigo entendido em política e em Europa mandou-me dizer que, sem desculpar o egoísmo de alguns governos europeus, “convém lembrar as declarações xenófobas e racistas do leader das sondagens do partido republicano na grande democracia norte americana (o “nosso” Orban nunca disse dos refugiados ou dos ciganos o que aquele palhaço diz dos mexicanos…) ou as valas comuns para onde na Malásia foram atirados e escondidos os imigrantes ilegais que ao chegarem a terra firme foram sumariamente assassinados. Como diria o outro: as coisas são o que são. Mas isso não é desculpa para que não tentemos mudá-las”.

 

De acordo mas, antes de lá voltar, a Malásia lembrou-me a Birmânia (agora Myanmar onde resiste, hoje em liberdade, a Senhora Aung San Suu Kyi, comparada a Mandela como símbolo de resistência democrática) onde a maioria budista atormenta pequena minoria muçulmana, maltratada e impedida de emigrar, vítima de constantes sevícias, infligidas por gente que nos habituamos de pequenos a ouvir descrever como pacífica e serena, numa espécie de superioridade espiritual que o budismo daria. Para aprenderem a ser bons, hippies europeus e americanos iam passar temporadas por essas bandas. Tempo foi. Vinte e cinco anos depois do fim da Guerra Fria, talvez tenhamos percebido que, logo a seguir ao bom senso, a maldade é a coisa mais bem partilhada do mundo.

 

Na Europa, há sobressalto geral perante, por um lado, a fotografia do menino curdo morto que deu à costa na Turquia, publicada nas primeiras páginas da imprensa europeia (mas em França, entre os grandes jornais, só em Le Monde – a maioria dos franceses acha que os refugiados não precisam de mais ajuda) e a decisão de Angela Merkel de exercer a chefia que se lhe pedia, com coração e cabeça melhores do que muitos julgavam que ela tivesse – e, por outro lado, o escandaloso tratamento dado aos refugiados na Hungria, onde, entre outras gentilezas, o governo de Vitor Orban os impede de apanhar comboios para a Alemanha. Alguns políticos europeus querem ostracizar a Hungria; outros não.

 

Europeus e norte-americanos têm enorme culpa desta desgraça. O grosso da tragédia vem da Síria onde o Ocidente, há anos incapaz quer de derrubar Assad quer de negociar com ele, deixou o Estado Islâmico medrar, prometeu ajudas e faltou, deu o dito por não dito, perdeu a face, suspendeu ajuda humanitária. Antes, com pretexto mentiroso que enganara muita gente e execução de incompetência abissal, lançara desordem mortífera no Iraque cujas consequências duram. E atacou a Líbia que, sem Khadafi, se transformou num entreposto de emigração clandestina.

 

Há quem se assuste por o Estado Islâmico ir metendo gente na Europa. O problema é mais grave. Sunismo salafita promovido e apoiado pela Arábia Saudita torna entendimento entre muçulmanos e o resto muito difícil em estados laicos como os nossos que ofendem intolerância islâmica. (Até na monarquia britânica, onde a Rainha é também chefe da Igreja Anglicana). 

 

 

   

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Quarta-feira, 26 de Agosto de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Fés

 

 

 

Foi no século XX que se descobriu que o Bispo Pedro de Santa Maria, um dos mais zelosos inquisidores espanhóis, tinha nascido judeu, chegara a rabino em família de rabinos, e só aos trinta anos virara católico. Quem se espante, não devia. No mundo de twitters, Facebook, selfies, ponha os olhos nos rapazes e nas meninas que em Bordéus, Manchester, Santa Comba Dão – poderá acontecer lá também - troquem confortos multiculturais do estado social europeu pela certeza sangrenta que oferece o Estado Islâmico do Iraque e da Síria. (Alexandre O’Neill sabia que a sociedade de consumo iria dar para o torto: Sonetos garantidos por dois anos./E é muito já leitor, que mos compraste/Para encontrar a alma que trocaste/Por rádios, frigoríficos, enganos…)

 

Poderemos mais pacatamente lembrar-nos dos neocons americanos que desencaminharam George W. Bush ou de alguns liberais europeus apologistas da austeridade. Viveram, uns e outros, juventudes embebidas nas extrema-esquerdas dos respectivos países. Muito inteligentes e lidos, na minha experiência do seu convívio partilham uma pecha. Sem folga entre certezas ideológicas da juventude que repudiaram e certezas ideológicas da idade madura que abraçaram, são incapazes de perceber que as vidas das pessoas não se regem nem por umas nem por outras. Quase dão razão ao alentejano orgulhoso, baixo com cara de homem alto, que um dia me perguntou: “O que é que vem nos livros que um homem da minha idade não saiba?”

 

Geralmente são incorruptíveis - o que no Portugal de hoje os torna bentinhos – mas não confundir alhos com bugalhos. Não esquecer que incorruptíveis também foram Robespierre, em França; Salazar, em Portugal; o Mullah Omar, no Afeganistão. Vão fazendo muito mal ao mundo porque a sua paranoia doce os leva, num passe de mágica, de premissas incontestáveis a conclusões dementes.

 

Florescem muito bem em tempos de crise. Em Les Dieux ont Soif (Os Deuses têm Sede), romance de Anatole France passado na Revolução Francesa durante o Terror, Évariste Gamelin, pintor, membro do Comité de Salvação Pública, jacobino apaniguado de Robespierre, cruza-se num jardim de Paris com mãe burguesa nova e bonita acompanhada por filho pequeno brincando com uma bola que rola até aos pés do pintor. Este devolve-a, recebe sorriso contente e grato da burguesa e a seguir pensa, com tristeza resignada, que para que aquela criança viesse a ser feliz em crescida, talvez fosse preciso guilhotinar a mãe.

 

A jantar com liberal iluminado – marxista duro nos seus verdes anos - e católico reflectido, daqueles a quem o Dr. Mário Soares chamava “a direita inteligente”, tornei a confirmar o meu preconceito. Não há mais erudito, racional (e bem educado) do que o liberal mas, fosse ele a mandar, galoparíamos para a chamada luta de classes com vigor inédito desde a guerra de Espanha. O católico constante sabia que, embora o Bem esteja sempre longe, muito mal pode ser evitado usando de bom senso, decência e - lembrai-vos? - amor do próximo.

 

 

 

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Quarta-feira, 11 de Março de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

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 Bentiu, UNMISS camp

 

 

 

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Em terras do Preste João

 

 

Sexta-feira passada, em Adis Abeba, sede da União Africana, capital da Etiópia (onde há muitos séculos reinou Preste João, rei cristão que os nossos navegadores esperaram em vão encontrar) conversações de paz entre governo e rebeldes do Sudão do Sul, o mais jovem país independente do mundo, acabaram sem acordo, apesar de terem sido prorrogadas de um dia – declarou num comunicado o primeiro-ministro etíope, Hailemariam Desalegn, lamentando não ter sido possível tirar as duas partes do desentendimento onde se tinham metido quanto a: justiça durante a transição, partilha do poder e segurança. Três dias antes, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adoptara por unanimidade resolução impondo sanções a qualquer das partes que prejudicasse esforços de restauração da paz no Sudão do Sul mas não fora ao ponto de proibir compra de armas pelas facções em guerra: a tribo Dinka, leal ao presidente Salva Kir e a tribo Nuer, fiel ao antigo vice-presidente Riek Machar, que juntas fazem mais de 50% da população do país. (Percebe-se que o Conselho de Segurança não tenha tocado no comércio de armas: os seus cinco membros permanentes – China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia – são grandes exportadores de armamento e já têm razões de sobra para se desentenderem).

 

Muito antes das achegas tecnológicas e cosmopolitas – armas automáticas; assento na Assembleia Geral das Nações Unidas – Dinkas e Nuers, andavam nus, não sabiam ler, pastoreavam bois e batiam-se muitas vezes uns contra aos outros à lançada. Assim os encontraram os ingleses que trouxeram administradores, negociantes, missionários e mais espingardas (as primeiras tinham chegado com os árabes); continuaram a bater-se sob governo de Cartum no Sudão independente e agora, que o feitiço do petróleo e teimosia metafísica cristã ou animista levaram o sul à independência, depois de mais de 20 anos de guerra civil – o Sudão “do norte” é muçulmano – à bulha permanecem. Até agora colonização e globalização não tocaram muito em valores e crenças (a religião Nuer, de resto, não fica atrás dos Evangelhos e dos doutores da Igreja em profundidade e sofisticação) mas morre muito mais gente dum lado e doutro. E há milhares e milhares refugiados.

 

O Sudão do Sul é longe da Europa mas pelo meio não há muitos oásis de paz. Não é só porque da paz não veem notícias. Se se pintarem num mapa lugares de conflito aberto ver-se-á como estes abundam e persistem ou, quando acabam, deixam chagas ruins de sarar (para eles não há, como houve para a Europa ocidental a seguir a 1945, nem Plano Marshall nem OTAN, a seguir a resultado indiscutível).

 

Alguns são perto demais para ficarmos no nosso conforto irresponsável (Ucrânia malferida por Putin; atrocidades do Califado no Médio Oriente). Os europeus têm de passar a gastar mais em defesa, de se reforçar na OTAN e, até terem uma política de defesa comum, de reestabelecerem, todos eles, serviço militar obrigatório. Para começar.

 

 

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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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 Foto Sonda Cassini

 

 

 

 

 

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Agora e na hora da nossa morte

 

 

António Alçada Baptista travou-me o braço e disse-me enquanto atravessávamos o foyer do teatro Maria Matos onde nessa tarde havia uma recepção: “Estou a escrever um livro porreirinho sobre Deus”. Eu chegara de Oxford uma hora antes para meia dúzia de dias na Pátria, não nos víamos há meses e assim recebi anúncio da Peregrinação Interior. Da boca do cavalo, dir-se-ia em inglês.

 

Tempo mais simples do que o nosso de hoje. Três séculos intensos de zaragatas europeias tinham acabado em muitos lugares por separar a Igreja do Estado; blasfémia era pecado mas deixara de ser crime. A fé de cada um - como os gostos de cada um - não se discutia. O nazismo fora derrotado e destruído; o comunismo estava cantonado até que o seu próprio peso o fizesse desmoronar. Na Europa Ocidental vingavam decência entre governantes e governados e comedimento na partilha do latifúndio, inéditos na história.

 

O Portugal de O Tempo e o Modo esperava pelo 25 de Abril e o Deus do António era o Deus hebraico de Abraão, Isaac e Jacob, mais tarde também de Jesus Cristo e, mais tarde ainda, de Abu Al Cassem Ben Abdalá Ben Al Mutalibe (Maomé significaria O Glorificado). Os estragos feitos ao longo da história pelo monoteísmo começavam a ser esquecidos em ambiente que André Malraux apreendera bem: “Somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem”.

 

Éramos. Talvez ainda se escrevam livros porreirinhos sobre Deus, nos quais a leitora encontre apreciação da vida, benevolência e tolerância, longe de polémicas teológicas – longe, na aparência, de qualquer teologia. Mas onde hoje mais ouvimos falar de Deus, é nos feitos do Estado Islâmico do Iraque e da Síria ou de Boko Haram na Nigéria, um Deus antropomórfico, primitivo, cruel, sangrento, cujos fiéis oferecem à outra gente conversão ou morte – ou começam matando, se mais jeito der. Nova Iorque, Washington, Londres, Madrid, Paris, Copenhague – a procissão ainda vai no adro. E, em partes da cristandade – por exemplo, na Rússia – igrejas opressivas recuperam poder temporal.

 

Entretanto, a ciência vai mudando o conhecimento do mundo de maneiras tão inesperadas e com tal rapidez que o presente – e não apenas o passado – às vezes é como se fosse país estrangeiro, com língua e hábitos diferentes dos nossos. Mudanças de paradigma sucedem-se em cascata. E a passagem de novas teorias, intuições, palpites, de mentes científicas para entusiasmos leigos faz-se num momento e sem filtro, devido à panóplia de meios de comunicação hoje ao dispor de cada um.

 

Nesta mistura adúltera de tudo, diz-me amigo entendido em coisas americanas, lá quase todos os movimentos feministas debatem o género da divindade, ao ponto de usarem o feminino nas orações. E que Deus seja um robot, nem macho nem fêmea, dados os progressos em inteligência artificial, etc., será decerto sugerido um dia destes. Separando de uma penada o físico do moral; o que é do que deveria ser. Até à guinada seguinte…

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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© Philippe Geluck

 

 

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Allons enfants de la Patrie

 

 

Qual foi a consequência principal da Revolução Francesa? Há meio século, Chu En Lai respondeu que era cedo demais para se saber. Talvez na semana passada a resposta tenha vindo, mesmo que outros sábios chineses objectem (Voltaire nunca teve fãs para as bandas de Pequim).

 

Começando no massacre de quarta-feira de manhã na redacção de Charlie Hebdo por dois jiadistas franceses e acabando na multidão afirmativa – eu sou Charlie, eu sou chui, eu sou judeu – marchando pelas ruas de Paris e de muitas outras cidades francesas no domingo à tarde, passando pelo assassinato de polícias e de quatro judeus, reféns numa loja de comida judia de terceiro jiadista francês, um enorme sobressalto sacudiu a França.

 

Tirou-a do torpor triste, desencantado e quezilento em que há anos a pouco e pouco se afundava (embora os franceses continuassem a fazer mais filhos por casal do que quaisquer outros europeus) recusando adaptar-se às exigências do mundo globalizado e digital. Desde 1995 fora assim: governo anunciava reformas, sindicatos opunham-se; Assembleia Nacional passava leis, povo saía à rua; após curto braço de ferro, o governo desistia. E em pano de fundo, apesar das iniquidades de Vichy, há em França mais judeus e, apesar de descolonização argelina calamitosa, mais árabes, do que em qualquer outro país da Europa – embora com milhares de uns a emigrarem para Israel e milhares dos outros a rumarem à jiad. No domingo à tarde era como se um sopro de liberdade tivesse levantado toda a gente do chão e a houvesse feito levitar.

 

Charlie Hebdo, que imprimira as caricaturas dinamarquesas de Maomé e publicara número “editado pelo Profeta”, vira a redacção incendiada e recebera ameaças (a protecção policial do director morreria com ele). As suas sátiras da extrema direita e dos monoteísmos eram, para muitos, de ferocidade ofensiva e de mau gosto. As vendas vinham a baixar. Mas a brutalidade dirigida da destruição – “Matámos Charlie Hebdo”; “Vingámos o Profeta” gritaram os assassinos – acordou os valores adormecidos da República. No peito de cada francês bateu de novo a liberdade contra os inimigos da revolução de 1789; a liberdade escrita por Éluard em toda a parte – Sur mes cahiers d’écolier Sur mon pupitre et les arbres Sur le sable sur la neige – contra a ocupação nazi de 1940-44.

 

A procissão só vai no adro (Charlie Hebdo troçaria da imagem): mais de 50 pequenos atentados de vizinhança antimuçulmanos foram praticados desde o dia 7 em França; em Dresden a manifestação semanal contra “a islamização da Europa” foi segunda-feira a mais concorrida de todas. Para profilaxia e tratamento da barbárie que tenta instalar-se é preciso mexer em muitas coisas, dos liceus às casernas. Mandar com cabeça fria, coração quente e pulso firme. Por muito tempo.

 

Entretanto, eu sou Charlie. Prefiro ser de um lugar onde cada um possa pensar o que queira e o possa dizer – a ser de um lugar onde seja obrigatório acreditar num Deus. É essa a escolha.

 

 

 

publicado por VF às 10:50
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