Quarta-feira, 8 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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cuecas de Marks & Spencer

 

 

José Cutileiro

 

 

 

O Macho da espécie

 

 

 

O homem, isto é, o macho da espécie, sejam quais forem a côr da sua pele, o desenho dos seus olhos, a sua estatura grande, meã ou pequena, as suas inclinações metafísicas e religiosas – judias, cristãs, mussulmanas, de outros monoteísmos, dos incontáveis animismos que vigoram até em recantos esquecidos do Planeta, alguns tão pequenos que quando alguém mais morrer acabou uma outra eternidade, de afirmações de ateísmo tenazes mesmo neste tempo em que tantos de nós cling to their guns and to their Gods, na expressão feliz do então presidente Barack Obama (ao falar em privado de brancos pobres americanos mas estava lá microfone que não fôra desligado e a privança acabou-se) -, sejam quais forem também as suas preferências sexuais, o seu feitio bom ou mau, é sempre ser inseguro de si, desconfiado de que outros machos da espécie, piores mas mais astutos do que ele, o queiram fazer passar por parvo ou pior ainda, susceptível como primadona e bruto como arruaceiro de claque clubista, convencido contra abundância de evidência que a ele serve também, como fato feito por medida pelo falecido Mendonça da extinta Piccadilly ou em Saville Row, o nome que Isabel a Católica deu ao nosso Rei D. João Segundo: El Hombre.

 

Mas talvez eu esteja a exagerar. Antes de escrever o parágrafo acima tinha-me lembrado do Marks & Spencer de quando eu chegara a Londres há quase meio século (já Marks fora nobilitado e tomara nos Lords partido pelos trabalhistas), comerciantes sábios que fidelizavam a clientela e na secção de roupas de homem tinham cuecas de três tamanhos. Em ordem decrescente: Large, Medium e Average. Small não havia – e nessa altura não ocorreu a ninguém processar a companhia por descriminação; nem nessa altura nem desde essa altura, com tantas feministas à solta que por aí há. Em 1963, o Império já fora abandonado e muita gente vinda dele e de alhures pegava-se a Londres como moscas a papel para apanhar moscas mas de outras partes do mundo vinha muito menos gente do que agora. Nesse tempo, por exemplo, quase ninguém conseguia saír da U.R.S.S. e dos países do Leste da Europa; por toda a parte, excepto em bizarrias folclóricas tais como o País Basco espanhol e a Irlanda do Norte, a Guerra Fria impedia ou matava no berço zaragatas menores de vizinhos ou fanáticos, evitando assim, inter alia, as múltiplas e desgraçadas migrações a que assistimos agora, algumas das quais transformaram o Mediterrâneo num cemitério marinho, desta vez verdadeiro. Londres tem gente de muitos lugares mas talvez não de todos os conhecidos e, por isso, a minha generalização foi indevida: em vez de ‘sempre’ eu deveria ter dito ‘se for cliente ou potencial cliente das lojas Marks & Spencer de Londres’.

 

De resto, para lá do caso presente, a mania das generalizações ou, como dizia Wittgenstein em inglês, sua língua profissional, ‘the craving for generalizations’, faz muito mal ao hábito de pensar, criando problemas onde não os haveria e erros escusados.

 

 

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Quarta-feira, 30 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 Caravaggio (1595)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Os cotovelos da Europa

 

 

… eram a Inglaterra e a Itália, decidiu o nosso Fernando Pessoa no começo do seu único livro de versos publicado em vida, « Mensagem », que apresentou a concurso organizado pelo Secretariado de Propaganda Nacional do governo do Dr. Salazar onde lhe deram menção honrosa (o 1° Prémio foi para « Romaria », do padre Vasco - do apelido esqueci-me - de quem toda a gente se esqueceu também). Um dos cotovelos era a Inglaterra, o outro era a Itália. Com tais cotovelos no estado em que estão hoje a Europa arriscar-se-ia a cair de caras o que seria mau para nós porque para o compincha de Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e mais rapaziada (não havia meninas) o rosto da Europa era Portugal.

 

A Inglaterra foi sempre pedra no sapato da Europa e o Brexit, quando veio, não espantou ninguém. Por outro lado, como a prosperidade dos ilhéus depende de relações mutuamente vantajosas com o resto da União, há cada vez mais gente a querer que, por fim, não haja saída ou que haja saída tão parecida com não a ter havido que ninguém dê por isso (que não se sinta diferença no tinir dos dobrões no bolso, diria o meu amigo Henrique). Se Putin continuar, sempre, a meter medo e Trump continuar a meter, às vezes, medo maior ainda, talvez a prudência leve a resultado que nos enriqueça a todos em vez de nos empobrecer.

 

O susto agora não vem desse cotovelo. Vem do outro, do italiano. A Itália, um dos seis países fundadores do que é agora a União Europeia (mas o único cujos chefes não podiam voltar de automóvel para dormirem em casa depois de jantarem todos em Bruxelas, por ser longe de mais), país rico com manhas de país pobre onde a vergonha é opcional, tem a maioria dos eleitores contra a Europa pela primeira vez desde as Comunidades Europeias. A leitora saberá de peripécias recentes: eleições puseram no topo A Liga, partido de direita dura, racista, xenófoba, nostálgica de Mussolini e o 5 Estrelas, partido meio virado para o infinito meio virado para bardamerda, ramalhete de fantasias irresponsáveis italianas que recebeu ainda mais votos do que o outro. Nada os une salvo ódio à Europa, ao euro, às elites políticas tradicionais do país, de Berlusconi a Renzi, e à estrangeirada – pretos e alemães à cabeça. O Presidente da República encarregou de formar governo nulidade aldrabona por eles indicada mas recusou-se a aceitar para ministro das finanças economista que advogara saída do euro. Impasse: a nulidade retirou-se, os dois partidos bateram a porta, o Presidente encarregou tecnocrata (tão amigo da austeridade que lhe chamam O Tesouras) para formar governo de gestão e daqui a poucos meses haverá novas eleições.

 

Bruxelas suspirou de alívio; Macron saudou a coragem do Presidente. Eu tenho dúvidas. No governo, a coligação depressa daria ditos por não ditos, exporia sua incompetência e se desfaria. Assim ganhou capital de queixa populista e será mais difícil de combater no futuro.

 

“Ai esta Europa, esta Europa…” diria a Avó Berta.

 

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Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Cópia de Exílio da Família Real

D. Manuel II a embarcar para o exílio na Ericeira (1910) 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Presidente a vida inteira

 

 

O Presidente Joseph Kabila, filho e herdeiro do presidente Laurent-Désiré Kabila, inimigo figadal de Mobutu e, depois da deposição deste último, mandachuva um ror de anos do Congo – que antes de se chamar Congo outra vez, como no tempo da administração belga, fora o exemplo mais brutal, mais egoísta e mais deletério dos colonialismos europeus em África (exemplo seguido a seguir à independência, mutatis mutandis, que uma colónia é uma colónia, um estado soberano é um estado soberano e agora se chamava Zaire, pelo ex-sargento Mobutu – os belgas não tinham formado um só oficial congolês - tratando os seus tão mal quanto o colonizador), o Presidente Kabila filho, dizia eu, que tendo ascendido ao poder dez dias depois do assassinato do pai, acabou o seu segundo e constitucionalmente último mandato há um ano mas insiste em não se ir embora enquanto o país desliza para mais uma guerra civil, esperando contra a esperança que lhe deem terceiro mandato, deve ter tido estes dias uma alegria inesperada quando lhe chegou notícia, talvez pela televisão, talvez por algum conselheiro solícito, talvez – muito improvavelmente mas nunca se sabe – pelo embaixador chinês em Kinshasa, frisando que o fazia a título pessoal, que as autoridades chinesas resolveram não dar só dois mandatos ao Presidente Xi Jinping como acontecera a todos os seus predecessores desde a morte de Mao, mas deixarem-no ficar no poder até vir a mulher da fava, dito por outras palavras, passar a ser Presidente perpétuo como é o Presidente da Academia Francesa e como era dantes o Papa em Roma.

 

Não há nada de estranho nem pouco habitual no chefe de um povo, de um país, de um Estado, ser perpétuo e hereditário, isto é que tenha herdado o título e o passe por herança a quem de direito (com sorte, filho ou filha; com menos sorte, parente mais distante). Temo todos, habitantes do globo terrestre - a maioria de nós, desde que nascemos -, exemplo vivo no mundo de hoje: a Rainha Elizabeth do Reino Unido da Grã Bretanha e da Irlanda do Norte (Dona Isabel Segunda, chamar-lhe-íamos nós). Em sociedades da nossa civilização que, num pequeno canto da Eurásia, fizeram transição sábia do feudalismo para a democracia, as monarquias subsistem. “Aquelas criaturinhas pouco ou nada fazem mas têm o condão de manter o povinho unido”, dizia há 50 anos a D. Adelaide, da nossa embaixada em Oslo, Deus lhe tenha a alma em descanso.

 

Fora desse ramalhete feliz e de poucos outros casos, porém, as monarquias deram par o torto e perderam o pé. A decapitação de Luís XVI em 1793 criou moda que ficou. Hoje há sobretudo repúblicas e, com elas, pese aos Orbans, Erdogans e Kabilas deste mundo, há limites aos mandatos de poder. Quando o maior país, a segunda economia e o arauto convencido do seu papel de mentor do futuro, quer voltar a ter chefe perpétuo, prega um grande susto às democracias. E, de Havana a Moscovo, de Ancara a Caracas, de Damasco a Kinshasa, dá alma nova à sacanagem.

 

 

 

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Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Toile de Jouy

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A Ordem Natural

 

 

 

“Venha aqui falar a este Senhor que era muito amigo do seu bisavô!” A menina obedeceu à mãe e parou a trotinete ao pé de nós, virando de repente o guiador de maneira que quase a fez cair e espalhou terra do jardim à volta.

 

É bom ir pondo as crianças diante daquilo que a gente entenda ser a Ordem Natural do Mundo com parentes, amigos e inimigos devidamente colocados no espaço e no tempo, às distâncias certas, para elas não desaguarem na vida real, directas de Facebook e quejandos. E é bom porque, para além de fantasias modernas entretidas que tiram horas sem fim às vinte e quatro que cada dia tem, petizes e petizas levam agora mais tempo a perceberem como as coisas são do que levávamos quando era a nossa vez de sermos pequenos. Não sou filósofo mas oiço muitas vezes telefonia no carro e, uma manhã, voz de mulher parisiense encheu o habitáculo assim que carreguei no botão: “Comme disait Lacan, le réel c’est quand on se cogne!”. Antes de figurar o ‘maître à penser’, por uma única vez, pareceu-me a mim, autor de verdade como um punho, que tanta influência teve – e tem – em gerações seguidas de intelectuais e candidatos a intelectuais do país de Edith Piaf e Marcel Cerdan (e tão pouca marca deixa se se tenta traduzi-lo: quando o meu amigo David Callagher trabalhava para o Times Literary Supplement quiseram dedicar um número à vida intelectual francesa da época e pediram artigos a autores na moda – Lévi-Strauss, Derrida, Leroy Gouraind, Merleau-Ponty, etc., incluindo Lacan – os artigos chegaram, foram traduzidos, tirando o de Lacan que o staff do TLS não conseguiu verter para inglês e foi posto a circular pelos melhores departamentos de francês das universidades britânicas mas sem resultado tangível, enquanto Lacan telefonava insistentemente a David - “Alors, Monsieur Callagher: mon article?” – as repostas sucediam-se, idênticas, implacáveis: It doesn’t make sense in English), antes pois de Lacan figurar no meu espírito, veio François Villon, cinco séculos mais velho, a louvar a fala das parisienses do seu tempo: “Il n’est bom bec que de Paris!” A galanteria francesa arranja sempre maneira de se sobrepor nos nossos espíritos a aspectos menos agradáveis dos costumes e do temperamento gauleses. Os jornais – ou melhor, o que no nosso tempo tecnológico por eles passa na net – informam que Catherine Deneuve e mais noventa e nove mulheres vieram manifestar-se contra o que acham excessos de puritanismo anglo-saxónico do movimento “me.too”. Violação é violação, mas insistência, mesmo desajeitada, em sedução não o é; o que se tem passado e está a passar-se nos Estados Unidos (e noutros recantos protestantes do mundo) nestas matérias e matérias afins, é patético e perigoso. (Cínicos provocadores talvez publiquem Grab my pussy the French way; mas, no geral, Deneuve & Co trazem bom senso e bom gosto a estados de alma que perderam ambos).

 

Velhice é outra questão. Ser muito amigo do seu bisavô põe pontos pesados demais nos is.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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José Cutileiro

 

 

 

Voltas do Mundo

 

 

 

Na segunda-feira de manhã, a telefonia do carro lembrou-me que fazia 50 anos desde a morte de Che Guevara. 50 anos, dantes, eram um ror de tempo, mais do que a vida de muita gente (o meu Pai, por exemplo, morreu com 44, tinha eu 21); hoje os números são outros: casa-se bem mais tarde, muitas mulheres dão à luz pela primeira, e geralmente última vez por volta dos 40. Foi a pílula – a pastilha, dizia amiga minha, também aí há 50 anos, mas nunca ouvi mais ninguém usar a palavra com esse significado, de maneira que não figurará em dicionários de sinónimos: a excentricidade morreu com quem a inventou.

 

No começo de Outubro de 1967 eu vivia em St. Antony’s College, Oxford, e dava-me com economista francês, Jean-Marc Fontaine, chegado há pouco de Sciences-Po. Carregado de todos os preconceitos anti-ingleses que qualquer francês que se prezasse, fosse ele sans-culotte, ci-devant ou mistura dos dois, trazia consigo desde as batalhas de Azincourt, de Waterloo, teve todavia de ir reconhecendo, com relutância, os grandes méritos do que lhe davam agora a ler na pérfida Albion (embora a maneira de pensar fosse tão diferente da sua que lhe acontecia chegar ao fim do primeiro capítulo de um livro com a sensação de ter chegado ao fim do livro). Só na Páscoa seguinte, depois de discussão épica no correio de North Parade, ao virar da nossa rua, julgou entender. “Pourquoi ces types sont, d’une façon générale, si stupides mais leurs intellectuels sont, quand-même, assez astucieux? C’est que, pour eux, penser ce n’est pas naturel. It’s a job. You either do it well or you don’t do it at all”.

 

Jean-Marc era um romântico e quando a notícia chegou pela televisão, e a seguir nas capas de jornais, a preto e branco, com o Che deitado de costas morto, nu da cintura para cima, lembrando Cristo famoso pintado por Mantegna na Renascença, e soldados bolivianos armados em pano de fundo, que geralmente as redacções tiravam da fotografia, achou que era preciso mandar pêsames à embaixada de Cuba em Londres. Ele ia mandá-los, não era comunista mas o Che era figura impar que merecia homenagem e eu deveria mandá-los também. Eu tampouco era comunista; nem sequer tinha a simpatia por Cuba revolucionária que muitos lhe estendiam só por serem anti-americanos – eu não o era – mas também não chegava aos rigores dos que falam dos comunistas como de peste bubónica. O comunismo não foi uma doença; foi um remédio que falhou; o manifesto dos dois alemães (como o Sermão da Montanha do nazareno) não queria dar cabo do mundo, queria endireitá-lo. Deu para o torto; a emenda foi pior do que o soneto - mas o Che morreu convencido do contrário. Mandei os pêsames – e não parei de me arrepender. Passei a receber em quantidade e com regularidade exasperantes toda a espécie de propaganda impressa daquela ditadura de ilhéus, crassa e mentirosa, enquanto estive em Oxford. Três anos depois, quando mudei para Londres, o Colégio passou a devolver tudo e perderam-me o rasto.

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Greta Garbo em Ninotchka

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Elogio dos coca-bichinhos

 

 

 

Num fim de tarde sombrio do fim do Outono de 1967, em sala aquecida a gás da cave victoriana de Saint Antony’s College, Oxford, assistia eu a uma das cinco palestras sobre Marx dadas pelo Professor Chemin Abramsky, sumidade que vinha às quintas-feiras de Londres iluminar os nossos espíritos, quando ele declarou que Marx se dera imediatamente conta da importância para a história da Europa da Comuna Francesa como tal. “Engels”, acrescentou, “foi mais lento. Levou-lhe cerca de quinze dias”. (Talmúdico e germânico, Abramsky lera, inter alia, toda a correspondência entre os dois).

 

Percebi nesse instante que a vida académica onde há três anos me metera não era para mim mas passariam ainda mais sete – e revolta vitoriosa, por fartura das guerras coloniais, de maioria esmagadora de oficiais milicianos e do quadro das forças armadas portuguesas – até a deixar. Sem o espírito coca-bichinhos porém, não haveria ciência e sem ciência não teríamos, por exemplo, nem aspirina, nem aviões, nem o numérico. Outro exemplo: sem inclinação coca-bichinhos a meter ombros à sua visão, o frade de Brno não teria aguentado oito anos de registo da fecundação cruzada de ervilhas de cheiro - e não haveria genética moderna. Nada é simples. Quando Vasco Pulido Valente era candidato a Saint Antony’s, Raymond Carr, director do colégio perguntou-me se o meu amigo era realmente bom. “É um homem muito inteligente” respondi. “Com certeza. Mas porque é que um homem muito inteligente haveria de fazer investigação pormenorizada?”

 

Até hoje nunca ninguém soube o futuro e continuamos a não o saber. Mas, graças aos progressos da ciência (incluindo nesses progressos a liberdade de estudar o que se quiser e de publicar livremente os resultados desses estudos) tampouco agora temos sobre o passado as certezas que tínhamos. Por um lado, mais uma vez, a liberdade de levantar dúvidas – “If you think your mother loves you, check it”, dizia o chefe da redacção ao estagiário nos grandes anos da imprensa escrita americana – por outro lado, cada vez mais coca-bichinhos auferem tempo e dinheiro para satisfazer a sua curiosidade diligente.

 

Para a vasta maioria de nós todos incluindo, presumo, a leitora, o colapso da União Soviética e o fim dos regimes comunistas da Europa Oriental foram um alívio para quem lá vivia e um sossego para nós também. Salvo – e, machista, a nossa opinião em geral não reparou nisso – quanto à satisfação sexual das mulheres. Em 1917, mesmo antes do Bolchevismo, tiveram o voto na Rússia; na URSS e satélites depressa ganharam direitos e liberdades económicas e sociais que as libertaram de muitas dependências e jugos do homem. Estaline fez marcha atrás; mas embora menos na URSS, na Albânia e na Roménia onde também houve retrocessos, a situação feminina europeia do lado de lá era muito melhor do que do lado de cá – para mais fruição e prazer das próprias, também sexual. Tudo medido e avaliado agora por coca-bichinhos e coca-bichinhas.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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José Cutileiro

 

 

Democracias

 

 

 

No ano passado, a democracia mais antiga e mais prestigiada do mundo (o Reino Unido de Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) e a democracia mais rica e poderosa do mundo (os Estados Unidos da América), utilizando os seus respeitados mecanismos constitucionais, deram a si próprias duas bordoadas de cujos maus efeitos não recuperarão tão cedo.

 

A bordoada britânica foi resultado de referendo a perguntar aos cidadãos (melhor dito, aos súbditos de Sua Majestade Britânica) se queriam sair da União Europeia ou permanecer nela – uma maioria disse que queria sair. A bordoada americana foi eleger Donald Trump Presidente dos Estados Unidos. No primeiro caso a procissão nem sequer vai no adro: só há poucos dias se encetaram conversas formais em Bruxelas mas, antes das negociações começarem, já se tinha percebido que o Reino Unido ia perder muito com o negócio, a todos os níveis. Durante a campanha que precedeu o referendo os partidários da saída mentiram escandalosamente sobre o dinheiro que os britânicos poupariam se saíssem, sem que os partidários na permanência na União tivessem denunciado essa mentira com vigor comparável; além disso a população da Inglaterra e da Irlanda do Norte, é uma das mais ignorantes e menos educadas dos 35 países da OCDE. Por exemplo, em lugares dependentes para sua sobrevivência da exportação de automóveis para o resto da União Europeia, a percentagem de votantes que quiseram deixá-la foi das mais altas do país. 44% das exportações britânicas e mais de metade das importações são com o resto da União Europeia; saindo do Mercado Único tudo isso lhes ficará muito mais caro mas, para nele ficarem mesmo saindo da União, teriam de admitir imigrantes de lá vindos e isso, até agora, é impensável. Digo até agora porque a indústria em geral começou a dar-se conta de que, sem estrangeiros, a economia levará grande e duradouro rombo. Para não falar da City. Os serviços de finança e negócios de Londres perfazem um terço do PIB britânico porque têm clientes pela Europa toda – que os vão deixar se saírem da União. A Confederação da Industria Britânica estima que em 2020 o PIB britânico será de 3,5% a 5% menor do que se o Reino tivesse continuado na União. Haverá 2° referendo? Exit tão soft que não se dê por ele? Ou insistirão no masoquismo da ruína voluntária?

 

Nos Estados Unidos as coisas vão de mal a pior porque Trump não dá para Presidente – a maioria dos eleitores já o sabia – e, em vez do hábito fazer o monge, neste caso o monge está a esfarrapar o hábito. A personalidade de Trump - o seu narcisismo, a sua mesquinhez, a sua maldade, a sua ignorância – está a abandalhar a Presidência. Sendo a Constituição como é não se vê saída fácil – mas quanto mais demorar, pior será para a América e para o mundo.

 

Acha a leitora que irá tudo ao sítio? Escrevo em Montemor-o-Novo onde, a passar na cidade antiga, li este nome: Rua da Paz, e, por baixo, antiga rua da Mancebia. Enquanto há vida há esperança.

 

 

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Quarta-feira, 19 de Julho de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 Lord Carrington numa cerimónia da Ordem da Jarreteira, de que é Grão-Mestre

foto Philip Allfrey

 

José Cutileiro

 

 

 

Lembrança da Guerra das Falklands

 

 

 

 

Lord Carrington foi o primeiro ministro dos negócios estrangeiros - Foreign Secretary - de Margaret Thatcher. Na altura da formação do governo, ele tinha-lhe discretamente mandado dizer que não lhe admitiria más criações, o aviso fora acatado, e deram-se os dois como Deus com os anjos até ao fim da vida dela (Carrington fez 98 anos em Junho e está em forma). Mas a relação institucional fora abruptamente interrompida. Em 1982 a Argentina invadiu as Ilhas Falklands e no dia seguinte Carrigton demitiu-se. Entendia que o ministério dos negócios estrangeiros britânico se deveria ter apercebido do que os argentinos estavam a preparar e, como responsável político, entregava a pasta.

 

O seu sucessor foi logo nomeado e Carrington passou a backbencher (membro da Câmara dos Comuns ou da Câmara dos Lords, que não faz parte do governo nem das chefias da oposição) depois de muitos anos de responsabilidade política. Militar de formação – após Eton fizera a academia militar de Sandhurst em vez de Oxford ou Cambridge – condecorado durante a Segunda Guerra Mundial, saiu de cena com a sua honra não só intacta mas reforçada.

 

A Inglaterra ganhou a guerra e recuperou as ilhas (que os argentinos chamam Malvinas); a junta militar que a começara e governara criminosamente a Argentina foi deposta e vários dos seus membros presos e condenados por tratamento atroz de centenas de oposicionistas incluindo muitos assassinatos. A democracia foi restaurada no país.

 

Entretanto, poucos anos depois de se demitir do Foreign Office, Lord Carrington foi convidado a voltar à cena política, desta vez como Secretário-Geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte, vulgo NATO, (ou, em momentos pedantes de aficionados da nossa língua – às vezes também os tenho – OTAN). O mandato do Secretário-Geral da NATO é por cinco anos, pode ser renovado mas Carrington não o quis. Assisti, por acaso, ao último Conselho a que presidiu. No último ponto da agenda, leu o comunicado do Conselho quase até ao fim e antes do último parágrafo que fazia o seu elogio e anunciava o seu sucessor, passou assim a leitura para o MNE do Luxemburgo, presidente protocolar : « And now Jacques you come over here and shoot me ».

 

Foi presidir Christie’s, os leiloeiros de arte, e o seu prestígio era tanto que em 1991 foi convidado a presidir a Conferência de Paz sobre a ex-Jugoslávia, o que fez durante um ano do seu gabinete no Christie’s.

 

Um homem de honra leva vida bonita e tem sempre futuro. Infelizmente, nestas matérias, o sul da Europa não goza de grande fama. No prefácio da sua célébre história da luta pelo poder na Europa no século XIX, AJP Taylor conta que, nessa época, os embaixadores eram ou grandes fidalgos ou grandes figuras intelectuais; num caso ou noutro, sempre homens de honra. Nota de pé de página : « Excepto os italianos. Como seria enfadonho estar sempre a repetir esta advertência, fica aqui para o livro todo ».

 

Portugueses são italianos tristes.  

 

 

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Quarta-feira, 5 de Abril de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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José Cutileiro

 

 

 

Primavera

 

 

 

Só me dei verdadeiramente conta da Primavera quando ela irrompeu em Oxford, no meu primeiro ano lá. Em Portugal havia uma estação cinzenta, chuvosa e fria de meio de Outubro a meio de Março e uma estação luminosa, quente e seca do fim de Março ao começo de Outubro. (E a Primavera de Cabul, em 1952, entrara e saíra também sem eu dar por ela). Com muitas árvores de folhagem permanente e pouquíssimas de folhagem caduca (ou, em Cabul, quase sem árvores), a natureza não parece morrer e ressuscitar todos os anos como acontece em partes mais temperadas da crosta terrestre do que a Lisboa e o Cabul dos meus liceus, francês em Cabul, Lycée français de Kaboul chamado da Independência, fundado em 1922, destruído pelos talibãs e reaberto em 2002; traduzido do francês em Lisboa, Escola Valsassina seguida de ano lectivo no Pedro Nunes. Nessa altura, o nosso curso dos liceus estava para o curso dos liceus em França como o Dicionário Prático Ilustrado da Lello está para o Petit Larousse: só mudava o vernáculo (e acrescentavam-se pessoas, lugares e feitos da nossa geografia e da nossa história).

 

A Primavera de Oxford foi um triunfo da vida sobre a morte para este meridional. Era ano particularmente trabalhoso para mim, a ler ou a escrever (com caneta) sentado em maples, raramente à mesa, sozinho no meu quarto de estudante de manhã à noite e pela noite fora ou ensimesmado no refeitório do colégio. De repente, a redoma estilhaçou: chegara a Primavera. As cidades portuguesas onde eu vivera tinham raízes árabes e depois da cabra o árabe é o mais implacável fazedor de desertos do mundo; intramuros, casas brancas apinhavam-se em ruas estreitas – da minha janela à tua vai o salto de uma cobra – fora de portas o baldio começava. Oxford, pelo contrário, mistura constantemente a cidade e o campo, no espaço de cada um e nos espaços de todos. Sem que eu me tivesse dado conta do que estivera a germinar, ao levantar um dia os olhos da leitura, tudo tinha mudado. Havia sol entre os ramos das árvores, entre as árvores e os telhados, nos papéis da minha mesa. As árvores, de todas as quais todas as inglesas e ingleses sabiam os nomes e que eu tratava por igual (franceses e italianos são também de ignorância penosa na matéria) tinham outra vez todas folhas e muitas das que se viam perto das casas davam também flores, brancas, encarnadas, amarelas, azuis. Do ar do dia ao sol nascente milhares de pássaros cantavam, namorando. Na minha rua, velhas que o frio escuro do Inverno guardara em casa, singravam de bicicleta a frescura da manhã, vestidas de algodões mais coloridos do que as flores das árvores - que naquela terra a viuvez não era negra.

 

Tudo isto já lá vai há mais de meio século. Entretanto Lisboa, Évora e Oxford mudaram como nunca tinham mudado em qualquer meio século anterior. E, mau agoiro, o clima está a pregar-nos cada vez mais partidas. Vou para a semana a Portugal. Dizem-me que vai chover enquanto no Brabante Valão se espera que faça Sol.

 

 

 

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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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 França, 1794

 

 

 

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Mudam-se os tempos

 

 

Escrevo a 21 de Novembro, dia dos anos do Vasco Pulido Valente. De manhã lembrei-me dele quando tinha 14 anos ter dito ao pai, burguês de bem, inteligente, culto e informado (explicou-me como é que os romanos faziam a barba), engenheiro, opositor corajoso e coerente do regime salazarista, muito mais alto do que o filho que só deitou corpo no fim da adolescência. “Ah Pai, se eu tivesse a tua idade sabendo o que eu sei…” Na altura em que isto me vinha à cabeça, voz saída da telefonia do carro anunciou-me que era o dia dos anos de Voltaire.

 

O Vasco e Voltaire ao começo da semana – nada mau para antídoto de tanta patetice ignorante nos tempos que correm, disse com os meus botões. Devo-me ter distraído anos a fio e, pelas conversas que agora tenho tido e pelos jornais que agora tenho lido e pelos programas de televisão por que tenho saltitado, devemos ter andado (quase) todos distraídos porque recebemos com surpresa desagradável notícias sobre coisas acontecidas entre nós ou muito perto de nós de que (quase) ninguém estava à espera - nem bandarilheiros, nem apoderados, nem curiosos na tourada da política.

 

Vai-se um homem deitar à noite convencido de que os ingleses querem ficar na União Europeia e acorda de manhã para saber que afinal querem sair. Vai-se uma mulher deitar convencida de que o 45º Presidente dos Estados Unidos vai ser finalmente, à segunda tentativa, uma mulher sabichona e teimosa chamada Hillary Clinton, e acorda de manhã para saber que afinal quem ganhou foi um aldrabão inculto, novato em política e malcriado que entendia muito melhor os eleitores americanos do que a sua experiente rival e, ao contrário dela, lhes sabia falar ao coração – de tal maneira que eram capazes de esperar por ele 3 horas para um comício, ao frio, até à uma da manhã, sem arredarem pé. Ontem, na véspera dos anos do Vasco e do Voltaire, franceses da direita e do centro, à procura de alguém que pudesse bater Marine Le Pen, protofascista da Frente Nacional, na segunda volta da eleição presidencial do ano que vem – que ela irá à segunda volta é convicção geral – numa primária aberta da direita e do centro escolheram antigo PM de Sarkozy que as sondagens punham em terceiro lugar, beato metediço na vida dos outros, liberal à la Thatcher em economia (coisa rara no sentimento francês, cujo primeiro reflexo à vista de criança descalça na rua é achar que a culpa é dos Rothschild, em vez de achar, como Thatcher, que a culpa é da criança), com um fraco por - e muitas visitas à - Rússia de Putin. Se o propósito é encontrar quem junte o resto da França para derrotar a extrema-direita (como Jacques Chirac derrotou Jean-Marie, pai de Marine, noutra segunda volta, em 2002) parece-me má ideia: Alain Juppé teria sido melhor escolha mas é claro que há ainda, no Domingo, a segunda volta da final da primária.

 

Em cada francês vivem, enlaçados em coluna salomónica, um ci-devant et um sans culottes. Têm de pensar em tudo pelo menos duas vezes.

 

 

publicado por VF às 16:22
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