Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

foto Inês GonçalvesRapariga católica em Panjim © Inês Gonçalves

 

José Cutileiro

 

Só arrelias

 

 

Leio na primeira página do jornal: «Acusação de violação divide a Índia». A Índia é enorme (a maior democracia do mundo, nunca esquecer) e lá não direi que as violações sejam mais que as mães, mas são quase. Esta haveria de ter que ver, para chegar à capa de um diário internacional e fiquei curioso. Até porque gosto da Índia, sinto-me lá bem, falo sem esforço como Peter Sellers em The Party (ou Luis Amorim de Sousa quando lhe dá para isso) e a imitação não é troça, é homenagem, pedido de inclusão, vontade da companhia. Entendo-os bem, desde os jovens contabilistas a jantarem no hotel em Mogadiscio com olhinho triste de punheta e juros compostos  (nos tempos pacíficos do ditador Siad Barre, antes da canalha islamista se meter a purificar o país) até à brasa a quem perguntei numa festa em Londres «Are you from Sweden?», me respondeu «Is that an opening gambit?» e acabámos os dois na minha cama em Oxford. E a memória de fertilidade sem fim, vista do avião de Bombaim com o seu aeroporto de Santa Cruz  até Nova Deli, em grandes manchas vermelhas e verdes de paisagem. Países houve onde me senti de fora assim que lá entrei. Na Índia, em viagens separadas por 60 anos, uma espécie de líquido amniótico virtual protegeu-me dos males do mundo.

 

Curioso, fui ver. Em letras menores que as do título mas maiores que as do texto que introduziam e na legenda de fotografia de eclesiástico saído de um carro e ladeado por dois polícias, aprendi que freira dizia que bispo abusara dela (treze vezes) e que a hierarquia católica urgira que ela se calasse. Senti-me ainda mais em casa. Filho e neto de alentejanos republicanos anticlericais (o Pai vivera crise mística aos 17 anos, casara pela igreja, mas quando eu nasci passara-lhe e não fui baptizado) os malefícios, verificados ou supostos, da Santa Madre Igreja eram pitéu da conversa quotidiana (como no Sul de Espanha: Un cura es un señor a quien todos llaman padre menos los hijos que le llamam tio), lembro-me de folheto ainda do tempo da monarquia que esclarecia na primeira página «A palavra padre é aqui empregue no seu sentido o mais pejorativo» - e depois havia padres anafados e contentes que discretamete tinham amigas.

 

Que até na India a Igreja Católica se veja metida em sarilhos de sexo preocupa-me. Nos Estados Unidos – e alhures – parecem nunca mais acabar os casos de pederastia, prática hoje condenada embora nem sempre tenha sido assim. Espartanos, atenienses, romanos, militares e civis, revigoravam-se com ela. E, de Marrocos ao Afeganistão, ainda hoje faz parte dos costumes.

 

Desprestígio da Igreja de Roma preocupa-me por ela ser parte importante do cristianismo que trouxe à história valorização única do homem. Tu es immortel et irremplaçable diz o capelão ao condenado à morte num filme de Cayatte. Imortal julgo que não mas insubstituível sim – o que em tempo de inteligência artificial, mira constante do lucro e imperador Xi na China poderá escapar demais a quem tenha agarrado o poder.

 

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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

brexit cartoon

 

José Cutileiro

 

Pouca paciência

 

                                                                                         

A ministra dos negócios estrangeiros sueca disse não desculpar aos ingleses terem-nos metido a todos numa broncalina do camandro – ou numa Bernardette do caboz, poderia preferir dizer pedante de linguajares alfacinhas mas afinal é o mesmo, salvo para tais pedantes. Cada um tem os seus gostos.

 

E a mulher tem carradas de razão. Os ingleses nunca se habituaram a terem deixado de ser os patrões do mundo, embora tal tivesse acontecido há um século com a Paz de Versailles (oportunamente confirmado em 1945, quando os patrões do mundo passaram a ser os Estados Unidos da América, com a Rússia, durante 70 anos, a tentar roubar-lhes o poleiro) e, de maneira característica, meteram-se a partir de então a sentirem-se ofendidos por não o serem. Partilhar poder custa-lhes mais do que a outros – a «indirect rule» colonial era estratagema hábil: os sobas mandavam nos seus e os ingleses mandavam nos sobas, o que lhes garantia o poder, mantendo os outros com algumas plumas – e na União Europeia nunca perceberam bem o essencial: que, com a Alemanha desarmada e depois pouco armada, eles eram os mais fortes, ofenderam-se com ninharias e, por fim, sobretudoToriesmas também muitosLabour, julgaram que « a Europa» era o que os impedia de serem grandes como antes, em vez de perceberem que era, pelo contrário, o que lhes permitia conservarem parte dessa grandeza. Acompanhado tal estado de espírito permanente por erupções patrioteiras muitas vezes ridículas, a incompetência dos políticos fez o resto.

 

Os políticos são como os vinhos: há anos bons e anos maus. Na Europa, a seguir ao colapso da União Soviética, as colheitas não têm sido das melhores, com gente na sua maioria medíocre no que era dantes a Europa Ocidental e gente hábil na conquista do poder mas fiel às tradições fascistoides do lugar no que era dantes a Europa Oriental, tradições vindas dos anos 20 e 30 do século passado, exemplificadas pelo húngaro Orban e o gémeo polaco sobrevivente. Em Inglaterra, passadas  grandeza de Churchill, nervo de Thatcher e a ‘terceira via’ de Blair (arte de cortar pensões a velhinhas, com boa consciência) vieram pequenezes a coincidirem com o grande debate nacional – e da Magna Carta passou-se a desordem inédita. Salvo nos horrores próprios aos nacionalismos, costumavam-se encontrar nos ingleses mais decência e bom senso do que de costume. Foi chão que deu uvas.

 

Há quem julgue que longos períodos de paz impedem a aparição de grandes homens de Estado mas a ciência política (slow journalism, chamava-lhe o meu amigo Herb) não dá para certezas assim e poucas generalizações que não sejam triviais se poderão fazer a partir dela. É o que temos por agora, depois se verá – e, seja como fôr, «dos Lloyd Georges da Babilónia/Não reza a história nada» lembrou o Poeta, pondo pontos nos is.

 

Voltando aos ingleses. Só conheci um português como eles, juiz que vinha às vezes a Estrasburgo: «Não domino idiomas estrangeiros e sinto-me mal fora do território nacional».

 

 

 

 

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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

lx antes 1755

Maquete de Lisboa antes do terramoto de 1755

 

 

José Cutileiro

 

Escolaridades

 

 

No Inverno de 1968 o Professor Chimen Abramsky vinha às quintas-feiras à tarde de Londres a St. Antony’s College, Oxford, dar seminário sobre Marx, num rés-do-chão-cave, victoriano e lúgubre, aquecido por calorífero a gás, onde escolares do colégio e de alhures vinham ouvi-lo; não muitos e nem sempre os mesmos.

 

Eu fui uma vez e nesse dia o homem - que sabia tudo sobre Marx, sobre Engels e sobre a correspondência entre Marx e Engels – disse que Marx tinha compreendido imediatamente a importância da Comuna Francesa «as such» para a história da Europa. Engels, acrescentou, fora mais lento: «It took him about a fortnight!».

 

Este momento de formação oxoniana talvez tenha sido decisivo para o resto da minha vida profissional. Seguia-se a outros dois, vindos de formação lisboeta. Numa reunião semanal do serviço de psiquiatria dirigido pelo Professor Barahona Fernandes, um doente era interrogado por ele que depois pedia opiniões aos circunstantes – assistentes, outros médicos, estagiários, sentados à roda - e, no fim, fazia o sumário do caso. Quando chegou a minha vez, respondi-lhe que não tinha teoria ou experiência suficientes, nem sequer  era ainda formado e a minha opinião de pouco valeria. «Não, não. Diga.» respondeu Barahona. «Nestas coisas, às vezes, quem está de fora vê melhor».

 

O primeiro dos momentos  decisivos passara-se cinco anos antes, ia eu fazer exame de anatomia descritiva daí a dias com o Professor Soeiro, erudito amigo de amigos meus, os dois lado a lado num urinol da Faculdade. «Sabe que o Flaubert fez uma viagem ao Egito com o Cloquet do gânglio?» perguntei eu. (Há no braço um gânglio com esse nome). «Se era o do gânglio ou não…», respondeu ele, dubitativo. «Havia dois irmãos: o Hyppolite Cloquet e o Jules Cloquet». «O Hippolyte» atirei ao acaso, para acabar a conversa. «Estamos na mesma!» retorquiu o Professor. «Um chamava-se Hippolyte Cloquet e o outro Hyppolite-Jules Cloquet».

 

Estes momentos articulava-os eu para ilustrar a minha falta de paciência para erudição pedante a mais. Durante uns anos, sobretudo nos Estados Unidos,  houve tanto dinheiro disponível para subsidiar a academia que se passaram a dedicar centenas de páginas a temas de cada vez menos importância, a políticos ou artistas bem esquecidos – e troça cínica de gente como eu. Mas bons tempos, os daqueles disparates simpáticos quando comparados com o elogio gabarola da estupidez, da ignorância crassa, da imoralidade que agora campeiam da Casa Branca ao Palácio da Alvorada, para falar só das Américas. Com consequências desastrosas para a gente presente e futura que se vêem já ou que cientistas mais ou menos eruditos já preveêm (Deus os proteja a todos, roguem os crentes).

 

E dou por mim voltado para bemaventuranças da erudiçao. Como o fim de tarde de verão em que o José-Augusto França contou à minha mulher como era Lisboa  antes do terramoto de 1755 desde a porta da nossa casa no alto da D. Pedro V até ao ainda chamado Terreiro do Paço.

 

NB Quanto aos factos: os do Pofessor Abramsky e do José-Augusto França estavam certos; os do Professor Soeiro, errados e os do Professor Barahona vá lá saber-se.

 

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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

marc blochMarc Bloch

1886-1944

 

 

José Cutileiro

 

De uma esperança a outra

 

Lembro-me do Pai voltar de Madrid em 1939, logo a seguir ao fim da Guerra de Espanha, com fotografias de casas em ruínas. O país estava de rastos: durante muitos anos o contrabando passou a fazer-se de cá para lá, com nós a aldrabá-los a eles. No Passapoga da noite madrilena, uma mulher valia menos que no 3º andar do100 da rua do Mundo, em Lisboa. O escudo valia o dobro da peseta.

 

Portugal estava dividido: em casa do Nuno Bragança celebraram a última Cruzada; na minha sofreu-se porque a democracia tinha sido derrotada. Mau sinal para a segunda Grande Guerra? Não tanto: confiança inabalável na vitória das democracias foi premiada em 1945. Poucos dias depois de Salazar ter posto a nossa bandeira a meia-haste nos edifícios públicos e ter mandado pêsames ao governo alemão pela morte de Hitler, a seguir à rendição incondicional da Alemanha, houve grande manifestação em Lisboa, atrás da bandeira inglesa, da bandeira americana e, entre as duas, de mastro sem bandeira hasteada. (A seguir à invasão da URSS por Hitler, os comunistas tinham defendido a causa aliada). O Estado Novo aguentou ainda 29 anos mas a oposição era mais forte do que equívoco em que assentava. Este parecia ter ficado resolvido em 1975, quando Mário Soares e o MFA puseram partidos contra as Comunidades Europeias e a OTAN fora do alcance do arco governativo.

 

Voltando à esperança. 1974 e 1991 foram anos bons, sobretudo para aqueles que tinham entendido que comunismo, marxismo-leninismo, trotskismo facção Lambert, todas as variedades conhecidas dessa visão, estavam fundamentalmente erradas e não era por aí que o gato iria às filhoses. Mas, entretanto, tudo se complicou outra vez. Progresso técnico a ritmo inédito e vontade de enriquecer de intensidade rara desde Nova Iorque a Shangai, passando por todo o resto do mundo, juntaram-se os dois à esquina. Até agora não se lhes consegue deitar a mão e a maldade de cada humano, com um computador à frente, pinta a manta como quer – não só nos Estados Unidos onde o espalhar de mentiras foi glorificado por Presidente que usou e encorajou o método para chegar ao poleiro mas também na França de hoje onde a extrema-direita de Marine Le Pen e Steve Bannon , desonesta até à medula, quer que o povo veja no acordo sobre o clima de Marraquexe uma conspiração contra os estados-nação europeus e os seus valores. A 10 de Dezembro de 1948, a Declaração Universal dos direitos humanos nasceu em Paris. Desde então, melhorámos. Em 1948, a África do Sul não a assinou porque os pretos valiam menos do que os brancos; os países árabes porque as mulheres valiam menos do que os homens; a União Soviética (e satélites) porque os povos valiam menos do que partidos e governos.

 

Até a maldade humana ser desunhada outra vez vai passar tempo: talvez venha a ser precisa guerra grande e à antiga. Em 1944 Marc Bloch, que os alemães iam fuzilar, escreveu: “Nous sommes les vaincus provisoires d’un injuste destin”. É a nossa esperança.

 

 

 

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Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

FRANCE-SOCIAL-POLITICS-ENVIRONMENT-OIL-DEMO

Foto: Lucas Barioulet@AFP

 

 

 

José Cutileiro

 

Zangas

 

A França, um dos países do mundo onde se vive melhor quer se seja rico quer pobre, está em pé de guerra. Contra o aquecimento global, Macron resolveu aumentar o preço dos combustíveis. Movimento popular espontâneo - como se insiste em dizer apesar de Facebook&Companhia - os ‘coletes amarelos’, resolveu protestar nas ruas e nas estradas. Rapaziada e algum mulherio de extrema direita e de extrema esquerda poz colete amarelo sobre a roupa negra do costume e passou barreiras policiais juntando-se aos manifestantes de boa fé, antes de meter capucho e máscara e começar a partir tudo à sua roda, fazendo estragos consideráveis até no monumento ao Soldado Desconhecido do Arco do Triunfo.

 

A França, lembram sempre os franceses, não é país de reformas mas país de revoluções. A seguir a De Gaulle, os predecessores de Macron na Quinta República (salvo Giscard d’Estaing) reformaram muito pouco ou muito mal mas safaram-se sem que revolução os beliscasse, assim como os habitantes de Lisboa não tornaram a apanhar com terramoto parecido com o de 1755. Mas a natureza sísmica do sistema francês não perdoa e calhou a Macron estar no Eliseu a tentar meter as coisas na ordem mais do que nenhum dos seus predecessores fizera quando os tremores começaram.

 

Não houve Estados Gerais nem Trotsky a assaltar o correio. Em 1911, durante a primeira greve geral de trabalhadores rurais alentejanos, influenciados pelo que se passava na Andaluzia e esperançados no governo republicano de Lisboa, quando o grito ‘Vem aí a greve !’ foi dado numa pequena vila do distrito de Évora, as pessoas trancaram portas e janelas por estarem convencidas de que a greve era um bicho. Ignorância assim quanto a revoluções não existe em França, muito pelo contrário. Dos Pirinéus às Ardenas e mormente em Paris, toda a gente está convencida de que sabe tudo mas, na realidade, como historiadores sábios não se cansam de lembrar, sabe-se muito pouco e menos ainda quando a coisa esteja em curso e se quiser apostar no vencedor. É preciso estar à hora certa no lugar certo, passada essa primeira selecção, há quem tenha unhas para tocar aquela guitarra (muito poucos) e quem julgue que as tenha, sem as ter (muitos). E, como com os melões, só depois de encetado é que se sabe.

 

E  das duas uma. Ou Macron tem de facto o que alguns entusiastas entendidos viram nele – a capacidade de agarrar e usar o poder com génio comparável, na história de França, ao de Napoleão Bonaparte – e consegue sair da crise por cima, a França está salva por mais umas décadas (até à próxima pulsão revolucionária animada a Facebook ou ao que se tiver inventado entretanto) e a Europa provavelmente também ou então Macron afinal não dá para as encomendas, Marine Le Pen chega ao poder, anima e é animada por almas gémeas noutros países europeus e, mais ano menos ano, estaremos todos outra vez à bulha uns com os outros.

 

Para gáudio de Putin, Trump e o Príncipe Herdeiro da Arábia Saudita, paladinos de valores mais antigos.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

cravos

 

 

José Cutileiro

 

E agora José ?

 

George Orwell lembrou algures que as pessoas às vezes precisam de mal, querem o mal. Parece estar a acontecer agora.

 

Depois de sinais em sentido contrário – vitória aliada na guerra de 1939–1945, descolonizações, colapso eutanásico da União Soviética em 1991 – e a seguir a, de Nova Iorque a Pequim, em todas as praças financeiras, capitalistas cheios de sangue na guelra se entusiasmarem tanto com o fim do comunismo que tomaram o freio nos dentes e perderam a vergonha, começaram a brotar expressões do mal consequente, escondido e insuspeitado até então como alguns cancros a que especialistas chamam neoplasias profundas. De entrada de bom modo – ‘não’ nos referendos holandês e francês de 2005 sobre ‘mais Europa’: os povos afinal queriam menos – e ultimamente com acinte: a tragédia do Brexit; a delinquência de Trump; proto-fascismos no Leste da Europa; Bolsonaro e o seu governo-circo. (Cito Carlos Drummond de Andrade no título da nota para lembrar à leitora a existência de brasileiros com coração e cabeça nos lugares certos - apesar de tantos milhões de votos dados a uma espécie de General Tapioca em pior e quase tantos outros milhões dados a cleptocratas convencidos de que ser de esquerda lhes lava os pecados. Se eu fosse brasileiro, teria feito como Fernando Henrique Cardoso e ficado em casa no dia do voto).

 

O comunismo - nunca é demais repeti-lo - não é doença extinta, foi remédio que falhou, que antes disso enchera milhões de pessoas de esperança nas cinco partes do Mundo mas continuara a ser usado cegamente nalgumas delas depois de se saber que fazia pior do que a doença. Lavrada a certidão de óbito, porém, com urgências e enfermarias fechadas, o fosso entre ricos e pobres cavou-se tanto – entre poucos ricos, cada vez mais ricos, e muitos pobres, cada vez mais pobres – que se não se encontrar rapidamente maneira de começar a colmatar essa brecha, as pessoas vão ficar ainda mais zangadas umas com as outras do que o que já estão, agarrando-se desesperadamente a crenças que desvirtuam (patriotismo é amor aos seus; nacionalismo é ódio aos outros – assim Roman Gary expôs lapidarmente o engano) e seguindo demagogos que, no poder, farão ainda  muito mais mal (exemplos recentes são Hitler e Mussolini; exemplo actual é a administração Trump na protecção do ambiente).

 

Portugal tem escapado ao pior do turbilhão, confirmando bom senso colectivo revelado em sucessivas eleições nacionais desde Abril de 1976. Todavia, todo cuidado é pouco, a começar pelos muitos esforços deliberados de baralhar verdade e erros que de Washington a Moscovo se utilizam hoje para manter ou ganhar poder. Esforços que passam muitas vezes a ser recebidos com um encolher de ombros, como se a legitimação da aldrabice fosse factual e moralmente aceitável. Não o é e convém lembrar que em cirurgia torácica, por exemplo, ou construção de pontes, chegaria a resultados catastróficos e à comissão de crimes.

 

Em política também mas leva mais tempo a explicar.

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

arc de triomphe Paris

Arco do Triunfo, Paris

 

 

José Cutileiro

 

Eterno retorno

 

 

Fim de semana chuvoso, no conforto de casa, com a televisão a mostrar comemorações em vários lugares, mormente no Paris que Haussman arquitectou para glória do Estado e controle de turbas operárias descontentes. Arco do Triunfo no centro da Estrela, debaixo do chão da qual jaz o soldado desconhecido (ou conhecido de Deus – Known unto God– segundo lápides funerárias em cemitérios militares britânicos, graças a Rudyard Kipling, prémio Nobel da literatura, que perdera um filho na guerra cujo fim, há cem anos, foi celebrado este Domingo). França, a mais monárquica das Repúblicas - cada francês ou francesa entrança em si um ci-devante um sans culotte  - tem jeito para comemorações destas, a coreografia foi excelente, os muitos chefes de estado presentes, abrigados da chuva por elegante construção temporária transparente, portaram-se bem e Macron disse bem discurso bem escrito. A Sarabanda da 5ª suite para violoncelo solo de João Sebastião Bach - que Rostropovich tocara em 1989 diante de Muro de Berlim deitado a baixo – ouviu-se desta vez pelas mãos de Yo Yo Ma. (Mesmo três Fems que conseguiram manifestar-se e a polícia agarrou logo não destoaram: mamas ao léu fazem parte gloriosa da Grande Revolução Francesa).

 

Tudo como deve ser mas Álvaro de Campos veio-me logo à cabeça.

 

Dos Lloyd Georges da Babilónia                                                                                             

Não reza a história nada.                                                                                    

Dos Briands da Assíria ou do Egipto,                                                                                  

Dos Trotskys de qualquer colónia                                                                                            

Grega ou romana já passada                                                                                                     

O nome é morto, inda que escrito.

 

 

 

Só o parvo de um poeta, ou um louco                                                                                                                                           

Que fazia filosofia                                                                                                                        

Ou um geómetra maduro                                                                                                               

Sobrevive a esse tanto pouco                                                                                                                                                                                                                                  Que está lá para trás no escuro                                                                                                   

E nem a história já historia.

 

 

Ó grandes homens do Momento!                                                                                                              

Ó grandes glórias a ferver                                                                                                                        

De quem a obscuridade foge!                                                                                                                

Aproveitai sem pensamento,                                                                                                                           

Tratai da fama e do comer,                                                                                                                                                                         

Que o amanhã é dos loucos de hoje.

 

 

Em modo menos anarquista, lembrei-me da estreia de ‘A Tragédia do Rei Lear’, posta em cena em sueco por Ingmar Bergman em Janeiro de 1984, na véspera da abertura da Conferência de Paz de Estocolmo, entre países da OTAN, países do Pacto de Varsóvia e países neutros e não-alinhados, que começou num dos momentos mais tensos da Guerra Fria. O 'Rei ‘Lear’ é uma zaragata de faca e alguidar em que muita gente mata e morre, incluindo o Rei e as três filhas. Na última cena, alguns sobreviventes lambem as feridas e preparam-se para retomar a vida, acabrunhados. Na mise en scénede Bergman, o pano cai – e levanta-se num ápice com os personagens de espada em riste já prontos para outra, antes de cair de vez.

 

Será o que nos espera? Angela Merkel esmagou o Sul da Europa, não quis tocar no superavit alemão, despertou o fascismo latente do Leste da Europa ao prometer-lhes gente de todas as fés e cores e vai-se embora. Os ingleses perderam a tramontana. Varsóvia, Budapeste, Viena, até Roma, deixaram de procurar entrar pela porta estreita e animam o pior dentro de cada um de nós. Macron quer as coisas certas mas tem pouca companhia. E de um lado e do outro, sem fé nem lei, Trump e Putin fazem troça.

 

Uma broncalina do camandro ou, se a leitora preferir, uma Bernardette do caboz.

 

 

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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Winnie 2

 Winnie Mandela

 

José Cutileiro

 

 

 

Nelson e Winnie

 

 

 

Escrevo no aeroporto Humberto Delgado, sentado numa cadeira de rodas, à espera do avião para Bruxelas, atrasado uma hora. Lembro-me de sessão de propaganda eleitoral de Delgado em Lisboa, em 1958, a que fui com o João Monjardino e o Pedro, seu pai. À saída, Guarda Republicana a cavalo batia nas pessoas a torto e a direito. Poucos anos depois, a PIDE armou cilada ao general, assassinou-o barbaramente e à amante brasileira e enterrou-os mal num descampado espanhol perto de Villa Nueva del Fresno. Hoje, Delgado dá o nome ao aeroporto internacional de Lisboa (e Pedro Monjardino dá o seu a rotunda à beira mar na estrada de Cascais para o Guincho). Há dias em que a gente acredita no progresso moral da História.

 

Amiga que assistira terça-feira a palestra minha sobre Nelson Mandela mandou-me dizer por email: “Faltou a Winnie – por trás de um grande homem há sempre um grande mulher ou há um grande homem apesar da mulher?” Winnie, em cuja modesta casa no Soweto Mandela se instalou vindo da prisão na Província do Cabo para Joanesburgo, merecia palestra ela própria. Quando a conheci, depois de 27 anos com o homem preso, tinha charme e sex-appeal a rodos (tal a Greco de Prévert, ela était faite comme ça. Depois de começo triunfal, a vida não lhe fizera favores. Estudara até onde pudera ir sob a pata asfixiante do apartheid, roubara Mandela à primeira mulher (tiveram duas filhas), militava com tanto entusiasmo quanto ele contra o regime, mas o advogado brilhante, chefe do braço armado do ANC e boxeur amador exímio foi preso, condenado a prisão perpétua por terrorismo e mandado britar pedra para Robben Island.

 

Cá fora ela continuara a luta sem uma fraqueza, sem uma transigência, mais extrema nas suas posições do que o marido como sempre fora e continuaria a ser, mesmo depois do ANC tomar o poder. Prisão, residências fixas, desterros, humilhações impostas pelas limitações cruéis e mesquinhas da legislação racial mirabolante do apartheid. Entretanto ganhara nome, fieis, também oposição no partido – Cyril Ramaphosa  detestava-a e era recíproco – e até uma espécie de milícia de futebolistas amadores que marcava terrenos e matou um miúdo de escola, o que deu processo crime e escândalo grande. E os amantes, que foram muitos (est-ce ma faute à moi?). Mandela disse sempre que fora ele o chefe que abandonara a família, mas as diferenças entre os dois eram incompatíveis e divorciaram-se. Morreu depois dele, com quem mantinha relação pública de amizade e ganhou o seu lugar na História. O lado democrático do ANC que procura construir uma África do Sul decente depois da inépcia de Thabo Mbeki e da corrupção teratológica de Jacob Zuma continua a abominar a sua memória. O lado revolucionário do ANC que quer a expropriação dos brancos e política social ruinosa continua a adorá-la.

 

Quanto a Nelson, teve outras mulheres; o casamento tardio com Graça Machel pareceu trazer-lhe mais felicidade do que qualquer outro. Nestas coisas não há regras.

 

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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

seven pillars

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Sete Pilares de Sabedoria: a honra da Arábia

 

 

 

Na passada sexta-feira a Arábia Saudita declarou que o jornalista Jamal Khashoggi tinha morrido agredido em luta corpo a corpo no gabinete do consul da Arábia Saudita em Instanbul  – depois de semanas passadas a afirmar que ele saíra livremente do consulado onde por seu pé entrara horas antes. À parte o presidente Trump que achou a declaração credível e um bom começo de esclarecimento, toda a gente continuou indignada pela falta de explicação satisfatória para o crime bizarro e hediondo praticado pelos Sauditas. Alimentados por escutas, diplomaticamente ilegais mas tecnicamente satisfatórias, feitas pelos serviços secretos turcos (porventura já partilhadas com autoridades americanas), jornais de Ankara e Istambul têm vindo a contar o que se passou.

 

Por proposta do consul, Khashoggi fora ao consulado receber documento que pedira provando o seu divórcio. Quando entrou no gabinete foi atacado por vários compatriotas chegados nessa manhã da Arábia que, em sete minutos, o  torturaram e mataram (cortaram-lhe alguns dedos não se percebendo bem na gravação se antes se depois de morto). A seguir, médico legista que trouxera a malinha dos pertences, desmembrou-o para o corpo poder ser transportado em caixas, dizendo aos outros para porem auscultadores com música a fim de atenuar o incómodo do momento. Ouve-se o consul pedir « Não façam isto aqui » e voz reponder-lhe que se quer ir depois viver na Arábia é melhor calar-se. Passadas duas horas, visitantes e morto ao bocados deixaram o consulado e foram apanhar o avião que os esperava para o regresso.

 

Khashoggi não era terrorista nem dissidente: dizia a verdade ao poder. Jornalista conceituado, antigo conselheiro de governantes e diplomatas sauditas, oposto à governação do príncipe Mohamed Ben Salman (MBS) - que é quem manda no país - decidira viver nos EUA, escrevendo duas colunas de opinião por semana no Washington Post. Não era um democrata, Westminsteriano ou Capitoliano; era um islamista moderado, perto dos Irmãos Muçulmanos, querendo sociedade que talvez achássemos tolerável mas onde não gostaríamos de viver. Escrevia bem, tinha público, o turco Erdogan era seu amigo. MBS odiava-o e, de temperamento violento e comportamento desiquilibrado, muita gente pensa que o tenha mandado matar.

 

Em 1922, o arqueólogo e militar inglês T.E. Lawrence publicou Seven Pillars of Wisdom, autobiografia que é joia da literatura inglesa e conta da sua guerra no deserto, ajudando principes árabes a libertarem-se do Império Otomano. Homens de honra, coragem e virtude, as histórias destes contribuiram muito para boa reputação árabe na Europa e nos Estados Unidos. Se o Rei Zalman a quiser recuperar deverá fazer julgar MBS e, se este for condenado à morte, deixá-lo decapitar como têm sido tantos dos seus súbditos. Politicamente incorrecto? Certamente. Mas talvez a Arábia Saudita começasse a ser respeitada de novo e pudesse enfim abordar reformas constitucionais.

 

 

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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Corinne-ou-l-Italie

Mme de Staël 

 

 

José Cutileiro

 

Guanxi

 

 

O homem da Chicago que, quando a União Soviética se eutanasiou levando consigo o comunismo, julgou que a história tinha acabado – a democracia capitalista viera para ficar per omnia saecula saeculurum– acha agora que a ruptura quase geral entre elites e bases (seria elitista chamar-lhes ralés) que faz parte do dia-a-dia político europeu e norte-americano de há uns dez anos para cá (ninguém vivo se lembra de nada assim e, na história, talvez só Madame de Staël se tenha apercebido de coisa parecida em Paris, no começo da Revolução Francesa) vem das bases se terem zangado por se acharem deitadas ao desprezo. Respeito é do que muita gente sente a falta nas nossas sociedades, julga o homem da Chicago.

 

Respeito é também o que querem mafiosos e ditadores; por isso é capaz mesmo de ser isso que faz falta às bases. Quando brancos pobres desempregados de alguns Estados americanos souberam - microfone ligado por engano - de Barack Obama perceber compungido que eles se agarrassem a Deus ou às espingardas (‘they cling to guns or religion’) e a antipatia por gente diferente, ofenderam-se com essa simpatia condescendente e, nas eleições de 2016, votaram em Trump que acharam parecido com eles na fala e, ao contrário dos doutores do costume, disposto a meter a mão na massa. (Estilos: no começo desta semana quer Obama quer Trump afirmaram ser mais responsável do que o outro pelo baixíssimo grau de desemprego no país). Mutatis mutandis, no Leste da Europa onde décadas de comunismo tinham abafado gosto pelo fascismo herdado dos anos 30, está a passar-se coisa parecida, com chefes políticos a reanimarem nas almas paixões que alguns julgavam extintas, incluindo por Hitler – e na Itália (que voltara a ser do lado de cá), apesar de mais de meio século de Democracia Cristã e de Eurocomunismo, por Mussolini.

 

O bom e o bonito, sobretudo para europeus e americanos convencidos (antes de Lenine querer reservar isso para os seus) de sermos a vanguarda do mundo. A reflexão grega, a moral de Cristo – cada um de nós é infinito e insubstituível – e a experimentação deram-nos aspirina e Estado de direito, isto é, melhor vida que em qualquer outra parte do planeta que já não leva P grande, perdido na Via Láctea, uma de muitos milhares de nebulosas. (“Porque é que a gaja se lembrou de dar uma dentada na maçã? Perdão, Deus seja louvado” – rosnará por ventura algum José Régio de hoje).

 

Porque éramos os melhores. Até Portugal, agora décima democracia do mundo, a querer afastar-se de privilégios injustos, de cunhas e favores que afundam os pobres na pobreza - e medram em sentido contrário ao da liberdade. Existem em todo o mundo, desde Cosa Nostra e seus juízes mortos à bomba até ao Guanxi chinês, a maior rede informal de pressões e favores do nosso tempo que consolida poder de governantes, tolhe iniciativa de governados e impede que a China algum dia se transforme numa democracia. Como a Sicília - mas a China é a maior economia do mundo e quer mandar nele.

 

 

 

 

 

publicado por VF às 11:33
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