Quarta-feira, 17 de Julho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Samora Machel

Samora Machel     -  foto aqui

 

 

José Cutileiro

 

Correcção política

 

1982. Recepção do Presidente da República ao corpo diplomático em Maputo. À entrada, Samora Machel saúda os embaixadores e outros chefes de missão que o vão cumprimentando. Chega a minha vez:

«Senhor Presidente… »                                                                                                         

«Olá, patrão» e, olhando pedagogicamente para a cara atónita do embaixador da Alemanha Federal, logo atrás de mim na bicha – nessa altura havia duas Alemanhas, a Federal com capital em Bona, membro da OTAN, expiando convicta a pena dos seus crimes de guerra e a Democrática, com capital em Berlim, membro do Pacto de Varsóvia, convencida de que a conversão ao comunismo a limpara dos ditos crimes (e, de caminho, dirigindo e executando toda a intelligence da República Popular de Moçambique, incluindo as escutas a nossas casas) - social-democrata dedicado à cooperação com o Terceiro Mundo, acrescentou: «Ele era o meu patrão…»

 

E Samora Machel era assim. Disse-me um dia, a propósito dos cooperantes que agora vinham da URSS, dos países de Leste, da Escandinávia, dos Estados Unidos: «Vocês tratavam-nos como pretos. Estes gajos tratam-nos como macacos». E, doutra vez, que Agostinho Neto, então presidente de Angola, não era um preto – era um branco pintado de preto, porque não sabia rir-se. Eu conhecera, anos antes e muito ao de leve, o Dr. Agostinho Neto à saída do Hospital de Santa Marta em Lisboa, onde ele trabalhava salvo erro com o Dr. Carlos George: de paletó e colete, camisa branca e gravata às listas, parecia de facto doutor tão sizudo quanto os outros. O Natas, de sua graça António Vaz Pereira, meu predecessor em Maputo, falou-me de outro momento memorável que lhe fora contado por Chissano, então ministro dos negócios estrangeiros, que a ele assistira. Samora, fardado de camuflado, como nessa altura fazia sempre em tais ocasiões, ia receber as cartas credenciais do embaixador do Lesoto. Quando ao fundo da sala a cortina foi corrida e o embaixador, gordo e baixo, de casaca preta coberta de condecorações, apareceu e começou a caminhar na direcção de Machel, este, sem qualquer expressão no rosto, sem mexer a cabeça nem olhar para ele, disse a Chissano, perfilado a seu lado: «Ai o preto…»

 

Lembrei-me hoje de Machel porque, ouvido nessa altura, já era muitas vezes uma lufada de ar fresco, e recordado agora, o é ainda mais nestes tempos de correcção política – tão excessiva que até leva a absurdos contrários como quando Antonio Tabucchi, em Princeton, perguntou a minha opinião sobre assinar papel que lhe fora passado por Susan Sontag a pedir desculpa aos pretos americanos pela escravatura que trouxera de África os seus antepassados e eu lhe respondi que talvez fizessem melhor em pedir desculpa aos pretos da África ocidental por os seus antepassados não terem sido trazidos também.

 

NB Nada a ver com a Dra Fátima Bonifácio que, embora culta e informada, esquece pelo menos o Preste João e Desmond Tutu.

 

 

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Quarta-feira, 26 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

míssil hipersónico USAmíssil hipersónico norte-americano

 

José Cutileiro

Guerras

 

Leio no jornal que americanos, russos e chineses trabalham em mísseis hipersónicos capazes de viajar a mais de 15 vezes a velocidade do som, de atingir num quarto de hora alvos russos ou chineses se forem americanos (ou americanos se forem russos ou chineses), levando cargas explosivas e podendo perfurar as paredes mais resistentes de abrigos atómicos subterrâneos ou as couraças de porta-aviões americanos. Leio também que, ao contrário do que acontecera a partir de certa altura durante a guerra fria, não há conversas entre os protagonistas para criar regras de protecção mútua que ajudassem a lidar com acidentes ou mal-entendidos. Nesse como em qualquer género de  armamento, os americanos de Trump não estão interessados em nada que cheire a prevenção e os outros tampouco insistem.

 

«Messieurs les anglais tirez les premiers» disse o tenente Conde de Auteroche na manhã de 11 de Maio de 1745, durante a guerra da sucessão da Áustria quando franceses e ingleses, com aliados vários, (ao todo 47.000 homens de um lado e 51.000 do outro) apoiavam pretendentes diferentes, assim dando começo à batalha de Fontenoy, no que eram então os Países Baixos austríacos e é hoje a Valónia, na Bélgica.  Nessa altura e até à Revolução Francesa (e, a seguir, à explosão dos nacionalismos) as guerras eram o grande desporto da fidalguia. Auteroche convidou os ingleses a atirarem primeiro como quem, num jogo de ténis entre amadores, convide a bolar primeiro quem o defronte do outro lado da rede. Escrevendo poucas décadas depois, o Príncipe de Ligne diz que o seu maior desgosto fora a morte do filho, decapitado por tiro de canhão do exército revolucionário francês. Conta da relação estreitada por terem combatido juntos, de como chegara a pensar que seria bom serem feridos ao mesmo tempo. Já no começo do fim desse mundo, Napoleão Bonaparte lembrou que a coragem (física) é a única virtude que não se pode imitar. As ruas das cidades europeias estão cheias de nomes de batalhas ganhas - e de quem as ganhou – para não as deixar sair da memória colectiva.

 

A guerra é tão antiga quanto a humanidade (recente, e não sei se duradoura, é a paz); houve, na Europa e alhures, além da fidalga e da nuclear, outras maneiras de a fazer, e haverá mais no futuro sob formas que talvez nem imaginemos. Vivemos, seja como for, em tempo muito especial: toda a gente fala da brecha aberta entre as elites e o resto. Salvo em páginas de Madame de Staël que deu por divórcio assim em Paris, no começo da Revolução Francesa, não há memória de coisa parecida na história que conhecemos. Talvez a razão seja a mesma: explosões gigantescas de liberdade, a exigirem outros costumes. (Em 1917 na Rússia não chegou a haver liberdade: Os lagartos mudam de pele/Para salvar o coração./Nós mudamos de coração/Para salvar a pele escreveu poeta local coevo, prontamente executado).

 

Dito isto: 1 Não há nada mais parecido com a França de Versailles do que a França do Eliseu. 2 E os mísseis hipersónicos?

 

 

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Quarta-feira, 19 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

bussola

 

José Cutileiro

 

A visão do saguão e o instinto da porta de serviço

 

Quando era diplomata, lembro-me de ter achado de vez em quando que quem mandava em nós - os nossos chefes políticos - abundava nesses atributos pelintras porventura impostos pela miséria da pátria (várias bancarrotas desde o liberalismo monárquico até à república de Abril, sempre vistas como pecaminosas por protestantes do Norte). A visão do saguão e o instinto da porta de serviço não são manhas de pobre – essas também por cá as temos – são, por assim dizer, coordenadas cartesianas do modo subalterno de viver. Vêm juntas com a desconfiança do dinheiro de muitos católicos – por exemplo, do Papa Francisco – e também de muitos comunistas, como aquele, à época secreto no Portugal de Salazar, que me louvava, contristado, comadre sua comerciante, diligente e cada vez menos pobre: «É boa rapariga a Antónia; só tem aquela coisa do lucro…».

 

O contrário absoluto desses atributos também existe e o encontrei: por exemplo, em Pedro Pires de Miranda ao dizer-me, radiante, um dia quando eu entrava no seu gabinete nas Necessidades: «A política externa é óptima: só se têm inimigos !». Mas realidade assim ou sequer tendência no mesmo sentido são raras, o que eu acho estranho porque há na língua, no português que há vários séculos e ainda hoje falamos, pelo menos um sinal forte do contrário. Enquanto em francês se diz garde de corpse em inglês bodyguard, em português diz-se guarda-costas, o que implica que só se for atacado pelas costas um português precisará de outro homem para o ajudar a defender-se. Se o ataque for de frente, bastará ele próprio. Sinal inequívoco do papel constituinte da honra na definição de qualquer português, é curioso que coabite nalguns dos nossos chefes políticos contemporâneos com preocupações maníacas de segurança pessoal. (Mas ao considerar matérias assim, correríamos o risco de resvalar do mundo simples dos valores medievais, com o Bem e o Mal cada um em seu sítio e o Marquês de Sade na Bastilha, antes de esta, assaltada por bandidos armados, ter passado a dia nacional francês e mascote de todos os revolucionários do mundo ao mundo complicado dos nossos dias, cheio de teoremas sem prova, de puzzles a que faltam peças, de chineses que acham ser ainda cedo para avaliar as consequências da Revolução Francesa e daqueles que acham que foi com essa que o caldo se entornou e evitam passar por Paris que continua a celebrá-la sem vergonha).

 

O entre-parêntesis foi longo sem nos levar longe. Que acontece aqui? Florença tem séculos de turistas, milhões desde a segunda guerra mundial, mas não perdeu um átomo de identidade – quem venha de fora que se ajeite. Aqui é confuso: admitem-se imigrantes pobres fazendo seu pé de meia de gorgetas de imigrantes ricos ou não tão pobres quanto eles, e os indígenas mudam maneiras de cozinhar ou de rasgar portas e janelas para inglês (ou francês, ou alemão) ver (e comprar e alugar). ‘Cadê Portugal ?’ perguntaria Balsonaro. É esse o perigo.

 

 

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Quarta-feira, 29 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

torre de Belém

 

 

José Cutileiro

 

Português e vivo

 

Português e vivo/É diminutivo./Só fazemos bem/Torres de Belém.

 

Esta quadra popular de Carlos Queiroz, a quem ficámos a dever algumas magníficas, não é das melhores que ele escreveu. Nos dois últimos versos dá ideia de não ter percebido a visão e a força precisas para construir a Torre de Belém quanto mais várias. Tomáramos nós!

 

Antes dessa tontice, porém, os dois primeiros versos exprimem aquilo que desde que me lembre – e desde pelo menos Os vencidos da vida– os portugueses que pensavam e julgavam conhecer o seu país achavam e diziam. Assim Oliveira Martins – um dos vencidos– a propósito de Os Lusíadas: « Há países para quem a epopeia é, ao mesmo tempo, o epitáfio» - ou palavras no mesmo sentido; cito de memória conversa ouvida em casa dos meus pais, quando era pequeno. Salvo em propósitos de propaganda, na monarquia liberal, na primeira república, no estado novo, no Portugal democrático, era o que se ouvia – e a culpa caía sempre nos inimigos políticos de estimação de quem estivesse a falar: os Braganças, a República, Salazar, os comunistas, a reacção; ultimamente (desde que ao Beato Obama sucedeu o Mafarrico Trump), até a América, isto é, os Estados Unidos. No começo do século XX, até ao arrumo do jacobinismo oficial em 1926, a igreja católica foi o bombo da festa. Em 1911, folheto anticlerical esclarecia na primeira página: A palavra padre é aqui empregue no seu sentido o mais pejorativo.A seguir ao 25 de Abril não houve nada disso. Os católicos progressistas – «pessoas que tinham a coragem de dizer aquilo que já não era preciso ter coragem para dizer» na formulação de Luis Sttau Monteiro – eram bem acolhidos pela oposição histórica ao regime; anticomunismo popular veemente no Norte de Portugal foi apoiadíssimo pelos curas locais; o Dr. Mário Soares, que tinha mais jeito para a política do qualquer dos seus compatriotas contemporâneos, fez gala em aparecer a almoçar e jantar com bispos nas televisões e em fotografias de capas de jornais. (O estado novo dizia mal de democracia e de comunismo, metendo-os no mesmo saco, o que facilitou a tarefa da oposição mas foi preciso esclarecer depois do 25 de Abril).

E os portugueses continuavam tristes. Pobres e tristes: Les portugueux sont toujours gueux, escreveu Alexandre O’Neill. Tenho experiência de voltar a Portugal desde 1952, umas centenas de vezes; falei com muitos estrangeiros que cá vieram. Havia, como dizem agora, um consenso: os portugueses eram tristes.

Uso o pretérito porque parecem ter deixado de o ser. Neste último regresso, desde a tripulação da TAP a encontros em lojas e transportes, às pessoas que lidam profissionalmente comigo, é como se toda a gente se tivesse livrado de fardo que levara às costas. E estão alegres (!). Não sei por quanto tempo mas julgo saber porquê. António Costa (cuja maneira de chegar a PM muito me irritou na altura) nasceu com talento redondo para o que está a fazer e dá aos portugueses conforto de que nós precisávamos.

 

 

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Quarta-feira, 22 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

-letter-f-from-soccer-football-balls

© Getty Images

 

 

José Cutileiro

 

The F words

 

Em inglês, as ‘F words’ são várias, têm significado sexual e, quase sempre em tom de imprecação, soam brutas e violentas. No português de Portugal não se passa nada disso. Alhures, em São Salvador da Baía, Quelimane, Cabinda, Medina do Bué, Príncipe, gueto de Macau, vilas antigas da Malásia, Timor-Leste, ladinos turcos, que sei eu, não faço a menor ideia.

 

No Continente e Ilhas Adjacentes – suponho que ainda se possa dizer assim – as F words são três e caiem como gotas de mel na maioria dos ouvidos que as sintam vibrar ou dos olhos que entendam o seu recorte escrito: Fátima, Fado e Futebol, as três com maiúscula. Era assim quando eu era pequenino, acabado de nascer, e daí até agora nem o sobressalto breve causado pelo golpe militar de 25 de Abril de 1974 – quando os nossos compatriotas fardados para morrer pela Pátria passaram de tropa a forças armadas (porque a verdade, leitora, é que o Estado Novo viveu apoiado no poder militar e caiu quando este se virou contra ele) – lhes fez mossa que durasse. Estou a passar uns dias em Portugal e ouvi relatos emocionados do Marquês de Pombal – e do resto do sul do país em festa quando no fim de semana o Benfica ganhou o campeonato. A leitora que ache que foram festejos demais – ou de menos – lembrarei a inauguração do Estádio Nacional em 1942, estava a Europa em guerra, com um jogo de futebol Portugal-Espanha (que acabara há dois anos a sua própria guerra civil), empatado 2 a 2. Antes do jogo, avionete espalhara milhares de panfletos. De um lado, as equipas com seus lugares marcados no terreno. Do outro, texto político com o título: O QUE NÓS QUEREMOS É FUTEBOL! A Europa estava em guerra aberta mas nós, fora desta graças à sabedoria do governo, vivíamos a nossa vida, trabalhávamos, descansávamos, comíamos e dormíamos sem tais preocupações. Hoje, não já não há guerra na Europa nem sequer fria mas o que parecemos continuar a querer é futebol.

 

O fado triunfa. Dizem-me que do clero, da nobreza e do povo, por um lado, do povo unido, por outro, continuam a surgir vocações. Ao seu público conhecedor junta-se agora outra gente atroando os lugares da noite com férreas sapatorras de turistas. E mesmo que os lusíadas se fartassem dele, lá fora não o esquecem. Desde que me lembre, dos dois único portugueses a quem The Economist dedicou obituários, uma foi Amália Rodrigues. (O outro, Ernesto Melo Antunes).

 

Fátima é mais complicado. Fé é o que não falta por aí mas assaltada por novas igrejas evangélicas, contrabandistas do além, diz indignado católico meu amigo. O Papa Francisco irrita mais os ricos do que convence os pobres. E haverá ainda velhos como Francisco Gião (deu-me o meu primeiro charuto tinha eu 14 anos) que sendo ateu mandava sempre pôr colchas às janelas em dias de procissão e não o fez quando passou a primeira de Nossa Senhora de Fátima. «Em tudo deve haver sempre um bocadinho de respeito» explicou aos filhos «e vistas bem as coisas essa Senhora é muito mais nova do que eu».

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 15 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Vaclav-Havel-001Vaclav Havel em 1989 - foto Hulton Archive @ The Guardian

 

 

José Cutileiro

 

O Povo é quem mais ordena…

 

…ou Deus, Pátria, família que é dizer o mesmo, julga amigo meu que quase toda a gente considera reaccionário mas insiste em achar que não o é: tem é bom senso que muitas vezes falta aos outros. O cabrão do povo é quem mais ordena, seria variante vernacular para exprimir a sua desilusão com algumas consequências do 25 de Abril mas o meu amigo acha a fórmula grosseira e recusa-se a ser malcriado.

 

Tal como com quase tudo agora, estas coisas vão sobretudo por modas que se espalham pelo mundo como fogo de mato – ou de floresta californiana - a velocidade inédita na História, o que faz velhos eruditos sentirem-se novos analfabetos. E por causa das redes sociais – acho que se diz assim – o povo fala directamente com o povo, sem os filtros colocados entre uns e outros por várias camadas de doutores. Directores de jornais, de rádios, de televisões, leitores que trabalham para editores, e alguma outra gente no sacerdócio ou laica, em encruzilhadas importantes das vidas de agora, agindo esses mais como agulheiros do que como censores, ajudavam a manter coerência e compatibilidade nos discursos de uns e de outros e agiam com grande eficácia no que dissesse respeito a fake news. Nem todas. Tem sido até agora privilégio das religiões, escaparem a exigências do senso comum e da ciência, e proclamarem, urbi et orbi, fake newstão evidentes como a Imaculada Conceição ou a Ressurreição, bookends, por assim dizer, da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo tal como ela é contada no Novo Testamento. Isto para falar apenas de uma das três grandes religiões reveladas, monoteístas, e aquela que quase todos os europeus conhecem melhor. Além destas, pululam muitas mais por esse mundo fora e beneficiam todas da mesma licença. (Salvo da parte de ateus mais ou menos filosóficos: a força da convicção destes pode ser tão rígida e arreigada como a de muitos crentes e, comentava jesuíta meu conhecido, sofrem de orgulho humanista. No meu caso, por exemplo, só aí aos dezasseis anos me dei conta de que havia católicos muito mais inteligentes do que eu).

 

Fora das fés, porém, não há razão que justifique dar cidadania a fake news. (Dentro das fés também não mas os costumes são arreigados demais para serem desaconselhados a bem. Na União Soviética aparatchiques faziam baptizar filhos e filhas às escondidas; não sei o que se passe na China com isto de fé em Deus – palpita-me que nada de bom).

 

Sem agulheiros e censores fiáveis, a conversa dos povos que depois de unidos jamais serão vencidos é um desastre permanente, parecido com o que está a acontecer com o cristianismo. Em Portugal, por exemplo, enquanto as igrejas católicas estão vazias, brotam todos os dias novas igrejas evangélicas, No geral, Deus, pátria, família, libertados da propaganda estreita e beata do Estado Novo e dos rigores da Cúria romana, ganham viço novo e impõem-se cada vez mais à razão, irmã do amor e da justiça. Cada dia se vê melhor o túnel ao fundo da luz, diria Vaclav Havel.

 

 

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Quarta-feira, 24 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Notre Dame após incêndioCatedral de Notre Dame após o incêndio © Bloomberg/Getty Images

 

José Cutileiro

 

Notre-Dame e o resto

 

O Presidente Macron fez o que  pôde  para trazer o Papa Francisco a Paris no rescaldo do incêndio de Notre Dame mas o Papa que não só não é italiano mas tampouco é europeu, não se deixou convencer. Se tivesse vindo ajudaria talvez também a fazer esquecer em peitos fieis franceses as suas manifestações de amizade por Cardeal francês, compincha de longa data que muito o ajudou a subir ao trono pontifício, condenado há pouco em primeira instância em tribunal francês por ter protegido padre pedófilo, que Francisco recebeu em Roma recusando-se a aceitar a sua demissão (há apelo e há presunção de inocência, sublinhou o Vaticano). Macron, que precisará de legitimidade quase divina para conquistar de novo legitimidade eleitoral, há de ter ficado desapontado (decidira fazer-se baptizar aos 12 anos contra a opinião de pai livre-pensador; ultimamente diz-se que pende para o agnosticismo mas o ponto evidentemente não é esse – é a política: trazer o Papa a Paris teria aumentado a sua cota na França profunda e na outra).

 

Victor Hugo tem sido muito citado, com o corcunda Quasimodo e a cigana Esmeralda em primeira linha; a história de França relembrada desde o século XII, com as provações da catedral postas em relevo, mormente durante o Terror na Revolução Francesa de 1789 em que pensaram deitá-la abaixo e serviu de armazém. Rompendo com tradição da monarquia foi lá que Napoleão se coroou Imperador. E têm-se enumerado os tesouros perdidos no fogo bem como os tesouros salvos dele (entre estes últimos, discretamente, às vezes de maneira quase envergonhada, a mais notável das relíquias lá guardadas: a coroa de espinhos, que só os mais beatos entre os beatos acreditam ser a original – e que para espírito como o meu evoca sobretudo a visita a Jerusalém do Raposão, anticlerical e desavergonhado d’ A Relíquiade Eça de Queiroz e não o Calvário, com Cristo entre os dois ladrões).

 

Que as religiões – incluindo o catolicismo apostólico romano bem como suas Cruzadas e Inquisição – tenham sido dos maiores criadores de sofrimento no mundo é convenientemente esquecido nesta altura até porque também criaram, e continuam a criar, felicidades e êxtases sem paralelo e porque o catolicismo está a perder fieis, não tanto para o judaísmo e o islão mas para religiões protestantes evangélicas. E isso nota-se todos os dias: em França as igrejas católicas estão vazias nos dias e às horas de culto e as mesquitas estão cheias. Pior ainda, igrejas protestantes carismáticas, muito populares há décadas em África e na América Latina, estão agora pela primeira vez a entrar em força no Hexágono. E, ainda por cima, nenhum destes outros cultos (nem as igrejas protestantes tradicionais) está marcado pela mancha da pedofilia que a igreja de Roma começou por procurar esconder e negar. Tempos difíceis.

 

NB Vítimas têm-se queixado, passados anos. Ainda não soube de ninguém agradecer ao padre que o seduzira havê-lo colocado na via da sua própria natureza.

 

 

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Quarta-feira, 3 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Jnicholson6

Harold Nicolson e Vita Sackville West em 1932

 

 

 

José Cutileiro

 

  Pérfida Albion II

                          

The worst kind of diplomatists are missionaries, fanatics and lawyers

                                                             Harold Nicolson, Diplomacy, OUP, London, 1939

 

 

Quando a primeira edição do supra citado livro de Sir Harold Nicolson foi publicada não havia, depois do fiasco da Sociedade das Nações, organizações publicas internacionais como há agora e menos ainda qualquer coisa parecida com a União Europeia. Na realidade, foram precisos seis anos de guerra brutal como nenhuma outra antes e, a seguir a esta, a tenacidade e a visão de meia dúzia de europeus, (entre os quais um francês, Jean Monnet, exportador de cognac que não se formara em Normale Sup e aconselhara o Presidente Franklin Roosevelt), bem como boa vontade, apoio militar e ajuda financeira dos Estados Unidos da América para pôr de pé o projecto que levou à União, cuja trave mestra é invenção recente, a amizade franco-alemã, e está a atravessar o momento mais difícil da sua existência devido a incapacidade aparente do Reino Unido, de um lado, e dos seus vinte e sete parceiros, do outro, de encontrarem maneira aceitável para todos do Reino Unido sair dela a bem.

 

Essa incapacidade assumiu recentemente, do lado do Reino Unido, facetas mais de opera buffa do que de negociação internacional, exercitando as melhores cabeças do jornalismo e da academia na busca de uma saída que fosse aceitável para a Câmara dos Comuns em Londres. Entre a quantidade de descrições interpretativas do que aconteceu até agora e do beco – ou becos – a que se chegou, muitas tendem a culpar a maneira como a negociação fora conduzida desde o princípio por Theresa May, escolhida para Primeiro Ministro pelo partido conservador  depois do chefe anterior deste, David Cameron – responsável pelo referendo em que os britânicos deviam escolher entre permanecer na União Europeia ou sair dela - se demitir. Deixo tudo isso de lado mas não sem recordar que parte do problema reside no facto dos ingleses levarem o seu parlamento muito mais a sério do que os continentais (o que é sinal de saúde política e não sintoma de doença).

 

No Verão passado, historiador expatriado meu amigo, falando do Brexit, perguntou-me « Eles, lá em Bruxelas,  estão conscientes da tragédia que isto é tudo ? » Infelizmente, com raríssimas excepções, julgo que não estivessem nem estejam. Há imensa gente a saber tudo sobre todas as árvores e quase ninguém capaz de ver a floresta. Ora Brexit, se não for tratado com muito cuidado, precipitará mudança tectónica indesejável no equilíbrio do Ocidente. E quer o fado que, à falta de grande estadista que agarrasse este gato pela pele do pescoço, se junte muito do pessoal que Nicolson mais receava. Do lado do Continente, de várias cores políticas, abundam os federalistas – e não há mais missionário; do lado das Ilhas, metendo medo ao governo, vociferam os Brexiters de base – e não há mais fanático. Dum lado e doutro, o terreno está polvilhado de assessores jurídicos, isto é, de advogados.

 

Azar dos Távoras.

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

fernandopeyroteo

Fernando Peyroteo

 

José Cutileiro

 

Todo o mundo é composto de mudança

 

Ou assim Camões disse, talvez por palavras parecidas: estou a citar de memória que é mais traiçoeira ainda do que a pior das mulheres vítimas de violência doméstica aos olhos dos que lhes batem e, às vezes, de quem julga estes nos raros casos que são denunciados à polícia. Os modernos – nós, agora – estão a pôr de pernas para o ar costumes seculares. Miguel de Unamuno que, velho e alquebrado, na universidade de Salamanca replicou ao grito de Muera la intelectualidad traidora! Viva la muerte! do general franquista Millan Astray levantando-se e proclamando Este es el templo de la inteligencia y yo soy su sumo sacerdote!, anos antes, válido e em tempo de paz, teria gracejado – contaram-me, não vi escrito, mas se não era verdade era verosímil – que um homem devia todos os dias dar uma sova à mulher porque mesmo que ele não soubesse porquê ela sabia. De resto, não há sistema simbólico tradicional no mundo de que se tenha notícia (e são muitíssimos) em que a mulher não esteja do lado do mal, enquanto o homem fica sempre com o bem. Como se diria agora, há fake news que vêm de muito longe - entre os cristãos, com abundância, até da Bíblia.

 

Passar a tratar as mulheres de igual para igual é mudança nova e tanto quanto se saiba única. (Em sociedades matrilineais, por engano ditas matriarcais, o filho não herda do pai mas do irmão da mãe; quem quer, pode e manda continua a ser o homem). Quem diz mulher diz judeu. Estão a aumentar muito os casos de antissemitismo na Europa, hoje criminalizáveis. Essa mudança legal vai contra a tradição cristã que, durante quase dois milénios, maltratou os judeus, desde os pogroms da Europa oriental, percursores da solução final nazi, passando pelas conversões forçadas, até chegar à exclusão de clubes e outras descriminações raciais brandas que ainda duram. A pesar do peso dessa tradição, e de racismo generalizado (incluindo hebreu) no Médio Oriente, tratamento igual a judeus e goyim parece ter chegado à Europa para ficar. Outra mudança nova.

 

A mudança de que falava Camões é a mudança das estações, quatro vezes por ano voltando tudo ao mesmo, salvo no homem que a partir de certa idade chama à mudança envelhecimento seja qual for a estação em que entre. Quando, da mudança cíclica, se chega à mudança cada vez para pior da senectude, abre-se ainda mais um capítulo que pode às vezes fazer outros levantarem o sobrolho. Casal amigo de Frau Tichbein, mãe de Emílio (o dos detectives), achava que no tempo deles «o céu era mais azul e a cabeça dos bois era maior».

 

Levantar o sobrolho aos outros e ao próprio. Dei por mim a achar que os políticos de hoje, comparados com os do meu tempo (a que verdadeira política chegou em 1974, antes havia presos que éramos nós e carcereiros que eram eles) pareciam toscos e rascas. Depois fui mais atrás: aos 10 anos achava que o Presidente da República devia ser Fernando Peyroteo, avançado-centro do Sporting e da selecção nacional. A gente vai mudando.

 

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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

idosos3

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O que é que vem nos livros que um homem da minha idade não saiba ?

 

 

Assim me explicou pequeno proprietário alentejano o facto de não ir buscar livros à biblioteca itinerante da Gulbenkian que nesse dia visitava a vila, enquanto a filha fora lá direita como fazia sempre. Ele, e tantos outros alentejanos da sua idade e do seu tempo, era um céptico; ela, mais do que outras raparigas da JIC feminina da região que eu tenha conhecido nessa altura, era uma entusiasta. Estava-lhe na massa do sangue, de criança pequena à senhora de idade que agora é, fosse para onde fosse que o intelecto a puxasse. Na JIC era praticante exaltada e intolerante; depois, com a Pátria, metera-se a outras crenças e nos tempos animados da reforma agrária alentejana tornara-se comunista convicta. A última vez que estive com ela - muitos anos depois do PREC e há outros tantos já – era ecologista vibrante, escrupulosa e prosélita como sempre. Não sei se nalguma das suas três fases converteu alguém à fé que tinha na altura; sei, pelo contrário, que havia gente que fugia dela quando a via aproximar-se. Talvez o entusiasmo assustasse as pessoas ; in meso stat virtus diziam os romanos . É extraodinário o número de coisas que gregos e romanos diziam com que nós estamos de acordo – e eles nem pela primeira revolução industrial tinham passado. (Alguém que já tenha tido dores de dentes terá de admitir que aspirina é progresso, o resto…).

 

Ele ficou também como era. Tinha cara que me lembrava caras de fidalgos castelhanos pintados por El Greco no enterro do Conde de Orgaz, de uma tristeza da Europa do Sul que atinge o nadir em partes da Calábria. E, embora não chegando a estatura meã, tinha cara de homem alto. Continuou a arruinar-se lentamente até morrer; o filho há muito casara e deixara a vila, a filha ficou solteira na casa de família. A obstinação do pai estava longe de ser atípica: outro senhor da terra, em princípio com mais obrigações por ser bacharel formado em direito, sentado em esplanada de café vendo passar muito devagar maquinaria rebocada por tractor a caminho de uma curva do Guadiana onde se instalava fábrica de cartão (anos depois submersa graças à barragem de Alqueva)  disse, em parte para mim e em parte urbi et orbi, «Como se eu acreditasse que esta merda serve para fazer papel!».

 

Voltando ao progresso: talvez tenha havido. Há poucos anos, juíza na Malásia, incapaz de averiguar seguramente qual de dois gémeos univitelinos matara um homem, mandou os dois em paz. Exactamente o contrário do que fizera fidalgo francês católico que, no século XIII, derrotara os albigenses, pois uns eram heréticos cátaros e os que o não eram negavam-se a denunciar parentes e vizinhos. O fidalgo foi lapidar: «Matai-os a todos, Deus reconhecerá os seus.» A juíza da Malásia também o foi mas em sentido contrário, mais de acordo com os nossos gostos de agora: na dúvida preferiu poupar um inocente a sacrificá-lo mesmo que assim fazendo tenha poupado um culpado ao castigo devido.

 

 

publicado por VF às 09:00
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