Quarta-feira, 3 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Jnicholson6

Harold Nicolson e Vita Sackville West em 1932

 

 

 

José Cutileiro

 

  Pérfida Albion II

                          

The worst kind of diplomatists are missionaries, fanatics and lawyers

                                                             Harold Nicolson, Diplomacy, OUP, London, 1939

 

 

Quando a primeira edição do supra citado livro de Sir Harold Nicolson foi publicada não havia, depois do fiasco da Sociedade das Nações, organizações publicas internacionais como há agora e menos ainda qualquer coisa parecida com a União Europeia. Na realidade, foram precisos seis anos de guerra brutal como nenhuma outra antes e, a seguir a esta, a tenacidade e a visão de meia dúzia de europeus, (entre os quais um francês, Jean Monnet, exportador de cognac que não se formara em Normale Sup e aconselhara o Presidente Franklin Roosevelt), bem como boa vontade, apoio militar e ajuda financeira dos Estados Unidos da América para pôr de pé o projecto que levou à União, cuja trave mestra é invenção recente, a amizade franco-alemã, e está a atravessar o momento mais difícil da sua existência devido a incapacidade aparente do Reino Unido, de um lado, e dos seus vinte e sete parceiros, do outro, de encontrarem maneira aceitável para todos do Reino Unido sair dela a bem.

 

Essa incapacidade assumiu recentemente, do lado do Reino Unido, facetas mais de opera buffa do que de negociação internacional, exercitando as melhores cabeças do jornalismo e da academia na busca de uma saída que fosse aceitável para a Câmara dos Comuns em Londres. Entre a quantidade de descrições interpretativas do que aconteceu até agora e do beco – ou becos – a que se chegou, muitas tendem a culpar a maneira como a negociação fora conduzida desde o princípio por Theresa May, escolhida para Primeiro Ministro pelo partido conservador  depois do chefe anterior deste, David Cameron – responsável pelo referendo em que os britânicos deviam escolher entre permanecer na União Europeia ou sair dela - se demitir. Deixo tudo isso de lado mas não sem recordar que parte do problema reside no facto dos ingleses levarem o seu parlamento muito mais a sério do que os continentais (o que é sinal de saúde política e não sintoma de doença).

 

No Verão passado, historiador expatriado meu amigo, falando do Brexit, perguntou-me « Eles, lá em Bruxelas,  estão conscientes da tragédia que isto é tudo ? » Infelizmente, com raríssimas excepções, julgo que não estivessem nem estejam. Há imensa gente a saber tudo sobre todas as árvores e quase ninguém capaz de ver a floresta. Ora Brexit, se não for tratado com muito cuidado, precipitará mudança tectónica indesejável no equilíbrio do Ocidente. E quer o fado que, à falta de grande estadista que agarrasse este gato pela pele do pescoço, se junte muito do pessoal que Nicolson mais receava. Do lado do Continente, de várias cores políticas, abundam os federalistas – e não há mais missionário; do lado das Ilhas, metendo medo ao governo, vociferam os Brexiters de base – e não há mais fanático. Dum lado e doutro, o terreno está polvilhado de assessores jurídicos, isto é, de advogados.

 

Azar dos Távoras.

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

fernandopeyroteo

Fernando Peyroteo

 

José Cutileiro

 

Todo o mundo é composto de mudança

 

Ou assim Camões disse, talvez por palavras parecidas: estou a citar de memória que é mais traiçoeira ainda do que a pior das mulheres vítimas de violência doméstica aos olhos dos que lhes batem e, às vezes, de quem julga estes nos raros casos que são denunciados à polícia. Os modernos – nós, agora – estão a pôr de pernas para o ar costumes seculares. Miguel de Unamuno que, velho e alquebrado, na universidade de Salamanca replicou ao grito de Muera la intelectualidad traidora! Viva la muerte! do general franquista Millan Astray levantando-se e proclamando Este es el templo de la inteligencia y yo soy su sumo sacerdote!, anos antes, válido e em tempo de paz, teria gracejado – contaram-me, não vi escrito, mas se não era verdade era verosímil – que um homem devia todos os dias dar uma sova à mulher porque mesmo que ele não soubesse porquê ela sabia. De resto, não há sistema simbólico tradicional no mundo de que se tenha notícia (e são muitíssimos) em que a mulher não esteja do lado do mal, enquanto o homem fica sempre com o bem. Como se diria agora, há fake news que vêm de muito longe - entre os cristãos, com abundância, até da Bíblia.

 

Passar a tratar as mulheres de igual para igual é mudança nova e tanto quanto se saiba única. (Em sociedades matrilineais, por engano ditas matriarcais, o filho não herda do pai mas do irmão da mãe; quem quer, pode e manda continua a ser o homem). Quem diz mulher diz judeu. Estão a aumentar muito os casos de antissemitismo na Europa, hoje criminalizáveis. Essa mudança legal vai contra a tradição cristã que, durante quase dois milénios, maltratou os judeus, desde os pogroms da Europa oriental, percursores da solução final nazi, passando pelas conversões forçadas, até chegar à exclusão de clubes e outras descriminações raciais brandas que ainda duram. A pesar do peso dessa tradição, e de racismo generalizado (incluindo hebreu) no Médio Oriente, tratamento igual a judeus e goyim parece ter chegado à Europa para ficar. Outra mudança nova.

 

A mudança de que falava Camões é a mudança das estações, quatro vezes por ano voltando tudo ao mesmo, salvo no homem que a partir de certa idade chama à mudança envelhecimento seja qual for a estação em que entre. Quando, da mudança cíclica, se chega à mudança cada vez para pior da senectude, abre-se ainda mais um capítulo que pode às vezes fazer outros levantarem o sobrolho. Casal amigo de Frau Tichbein, mãe de Emílio (o dos detectives), achava que no tempo deles «o céu era mais azul e a cabeça dos bois era maior».

 

Levantar o sobrolho aos outros e ao próprio. Dei por mim a achar que os políticos de hoje, comparados com os do meu tempo (a que verdadeira política chegou em 1974, antes havia presos que éramos nós e carcereiros que eram eles) pareciam toscos e rascas. Depois fui mais atrás: aos 10 anos achava que o Presidente da República devia ser Fernando Peyroteo, avançado-centro do Sporting e da selecção nacional. A gente vai mudando.

 

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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

idosos3

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O que é que vem nos livros que um homem da minha idade não saiba ?

 

 

Assim me explicou pequeno proprietário alentejano o facto de não ir buscar livros à biblioteca itinerante da Gulbenkian que nesse dia visitava a vila, enquanto a filha fora lá direita como fazia sempre. Ele, e tantos outros alentejanos da sua idade e do seu tempo, era um céptico; ela, mais do que outras raparigas da JIC feminina da região que eu tenha conhecido nessa altura, era uma entusiasta. Estava-lhe na massa do sangue, de criança pequena à senhora de idade que agora é, fosse para onde fosse que o intelecto a puxasse. Na JIC era praticante exaltada e intolerante; depois, com a Pátria, metera-se a outras crenças e nos tempos animados da reforma agrária alentejana tornara-se comunista convicta. A última vez que estive com ela - muitos anos depois do PREC e há outros tantos já – era ecologista vibrante, escrupulosa e prosélita como sempre. Não sei se nalguma das suas três fases converteu alguém à fé que tinha na altura; sei, pelo contrário, que havia gente que fugia dela quando a via aproximar-se. Talvez o entusiasmo assustasse as pessoas ; in meso stat virtus diziam os romanos . É extraodinário o número de coisas que gregos e romanos diziam com que nós estamos de acordo – e eles nem pela primeira revolução industrial tinham passado. (Alguém que já tenha tido dores de dentes terá de admitir que aspirina é progresso, o resto…).

 

Ele ficou também como era. Tinha cara que me lembrava caras de fidalgos castelhanos pintados por El Greco no enterro do Conde de Orgaz, de uma tristeza da Europa do Sul que atinge o nadir em partes da Calábria. E, embora não chegando a estatura meã, tinha cara de homem alto. Continuou a arruinar-se lentamente até morrer; o filho há muito casara e deixara a vila, a filha ficou solteira na casa de família. A obstinação do pai estava longe de ser atípica: outro senhor da terra, em princípio com mais obrigações por ser bacharel formado em direito, sentado em esplanada de café vendo passar muito devagar maquinaria rebocada por tractor a caminho de uma curva do Guadiana onde se instalava fábrica de cartão (anos depois submersa graças à barragem de Alqueva)  disse, em parte para mim e em parte urbi et orbi, «Como se eu acreditasse que esta merda serve para fazer papel!».

 

Voltando ao progresso: talvez tenha havido. Há poucos anos, juíza na Malásia, incapaz de averiguar seguramente qual de dois gémeos univitelinos matara um homem, mandou os dois em paz. Exactamente o contrário do que fizera fidalgo francês católico que, no século XIII, derrotara os albigenses, pois uns eram heréticos cátaros e os que o não eram negavam-se a denunciar parentes e vizinhos. O fidalgo foi lapidar: «Matai-os a todos, Deus reconhecerá os seus.» A juíza da Malásia também o foi mas em sentido contrário, mais de acordo com os nossos gostos de agora: na dúvida preferiu poupar um inocente a sacrificá-lo mesmo que assim fazendo tenha poupado um culpado ao castigo devido.

 

 

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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

foto Inês GonçalvesRapariga católica em Panjim © Inês Gonçalves

 

José Cutileiro

 

Só arrelias

 

 

Leio na primeira página do jornal: «Acusação de violação divide a Índia». A Índia é enorme (a maior democracia do mundo, nunca esquecer) e lá não direi que as violações sejam mais que as mães, mas são quase. Esta haveria de ter que ver, para chegar à capa de um diário internacional e fiquei curioso. Até porque gosto da Índia, sinto-me lá bem, falo sem esforço como Peter Sellers em The Party (ou Luis Amorim de Sousa quando lhe dá para isso) e a imitação não é troça, é homenagem, pedido de inclusão, vontade da companhia. Entendo-os bem, desde os jovens contabilistas a jantarem no hotel em Mogadiscio com olhinho triste de punheta e juros compostos  (nos tempos pacíficos do ditador Siad Barre, antes da canalha islamista se meter a purificar o país) até à brasa a quem perguntei numa festa em Londres «Are you from Sweden?», me respondeu «Is that an opening gambit?» e acabámos os dois na minha cama em Oxford. E a memória de fertilidade sem fim, vista do avião de Bombaim com o seu aeroporto de Santa Cruz  até Nova Deli, em grandes manchas vermelhas e verdes de paisagem. Países houve onde me senti de fora assim que lá entrei. Na Índia, em viagens separadas por 60 anos, uma espécie de líquido amniótico virtual protegeu-me dos males do mundo.

 

Curioso, fui ver. Em letras menores que as do título mas maiores que as do texto que introduziam e na legenda de fotografia de eclesiástico saído de um carro e ladeado por dois polícias, aprendi que freira dizia que bispo abusara dela (treze vezes) e que a hierarquia católica urgira que ela se calasse. Senti-me ainda mais em casa. Filho e neto de alentejanos republicanos anticlericais (o Pai vivera crise mística aos 17 anos, casara pela igreja, mas quando eu nasci passara-lhe e não fui baptizado) os malefícios, verificados ou supostos, da Santa Madre Igreja eram pitéu da conversa quotidiana (como no Sul de Espanha: Un cura es un señor a quien todos llaman padre menos los hijos que le llamam tio), lembro-me de folheto ainda do tempo da monarquia que esclarecia na primeira página «A palavra padre é aqui empregue no seu sentido o mais pejorativo» - e depois havia padres anafados e contentes que discretamete tinham amigas.

 

Que até na India a Igreja Católica se veja metida em sarilhos de sexo preocupa-me. Nos Estados Unidos – e alhures – parecem nunca mais acabar os casos de pederastia, prática hoje condenada embora nem sempre tenha sido assim. Espartanos, atenienses, romanos, militares e civis, revigoravam-se com ela. E, de Marrocos ao Afeganistão, ainda hoje faz parte dos costumes.

 

Desprestígio da Igreja de Roma preocupa-me por ela ser parte importante do cristianismo que trouxe à história valorização única do homem. Tu es immortel et irremplaçable diz o capelão ao condenado à morte num filme de Cayatte. Imortal julgo que não mas insubstituível sim – o que em tempo de inteligência artificial, mira constante do lucro e imperador Xi na China poderá escapar demais a quem tenha agarrado o poder.

 

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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

brexit cartoon

 

José Cutileiro

 

Pouca paciência

 

                                                                                         

A ministra dos negócios estrangeiros sueca disse não desculpar aos ingleses terem-nos metido a todos numa broncalina do camandro – ou numa Bernardette do caboz, poderia preferir dizer pedante de linguajares alfacinhas mas afinal é o mesmo, salvo para tais pedantes. Cada um tem os seus gostos.

 

E a mulher tem carradas de razão. Os ingleses nunca se habituaram a terem deixado de ser os patrões do mundo, embora tal tivesse acontecido há um século com a Paz de Versailles (oportunamente confirmado em 1945, quando os patrões do mundo passaram a ser os Estados Unidos da América, com a Rússia, durante 70 anos, a tentar roubar-lhes o poleiro) e, de maneira característica, meteram-se a partir de então a sentirem-se ofendidos por não o serem. Partilhar poder custa-lhes mais do que a outros – a «indirect rule» colonial era estratagema hábil: os sobas mandavam nos seus e os ingleses mandavam nos sobas, o que lhes garantia o poder, mantendo os outros com algumas plumas – e na União Europeia nunca perceberam bem o essencial: que, com a Alemanha desarmada e depois pouco armada, eles eram os mais fortes, ofenderam-se com ninharias e, por fim, sobretudoToriesmas também muitosLabour, julgaram que « a Europa» era o que os impedia de serem grandes como antes, em vez de perceberem que era, pelo contrário, o que lhes permitia conservarem parte dessa grandeza. Acompanhado tal estado de espírito permanente por erupções patrioteiras muitas vezes ridículas, a incompetência dos políticos fez o resto.

 

Os políticos são como os vinhos: há anos bons e anos maus. Na Europa, a seguir ao colapso da União Soviética, as colheitas não têm sido das melhores, com gente na sua maioria medíocre no que era dantes a Europa Ocidental e gente hábil na conquista do poder mas fiel às tradições fascistoides do lugar no que era dantes a Europa Oriental, tradições vindas dos anos 20 e 30 do século passado, exemplificadas pelo húngaro Orban e o gémeo polaco sobrevivente. Em Inglaterra, passadas  grandeza de Churchill, nervo de Thatcher e a ‘terceira via’ de Blair (arte de cortar pensões a velhinhas, com boa consciência) vieram pequenezes a coincidirem com o grande debate nacional – e da Magna Carta passou-se a desordem inédita. Salvo nos horrores próprios aos nacionalismos, costumavam-se encontrar nos ingleses mais decência e bom senso do que de costume. Foi chão que deu uvas.

 

Há quem julgue que longos períodos de paz impedem a aparição de grandes homens de Estado mas a ciência política (slow journalism, chamava-lhe o meu amigo Herb) não dá para certezas assim e poucas generalizações que não sejam triviais se poderão fazer a partir dela. É o que temos por agora, depois se verá – e, seja como fôr, «dos Lloyd Georges da Babilónia/Não reza a história nada» lembrou o Poeta, pondo pontos nos is.

 

Voltando aos ingleses. Só conheci um português como eles, juiz que vinha às vezes a Estrasburgo: «Não domino idiomas estrangeiros e sinto-me mal fora do território nacional».

 

 

 

 

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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

lx antes 1755

Maquete de Lisboa antes do terramoto de 1755

 

 

José Cutileiro

 

Escolaridades

 

 

No Inverno de 1968 o Professor Chimen Abramsky vinha às quintas-feiras à tarde de Londres a St. Antony’s College, Oxford, dar seminário sobre Marx, num rés-do-chão-cave, victoriano e lúgubre, aquecido por calorífero a gás, onde escolares do colégio e de alhures vinham ouvi-lo; não muitos e nem sempre os mesmos.

 

Eu fui uma vez e nesse dia o homem - que sabia tudo sobre Marx, sobre Engels e sobre a correspondência entre Marx e Engels – disse que Marx tinha compreendido imediatamente a importância da Comuna Francesa «as such» para a história da Europa. Engels, acrescentou, fora mais lento: «It took him about a fortnight!».

 

Este momento de formação oxoniana talvez tenha sido decisivo para o resto da minha vida profissional. Seguia-se a outros dois, vindos de formação lisboeta. Numa reunião semanal do serviço de psiquiatria dirigido pelo Professor Barahona Fernandes, um doente era interrogado por ele que depois pedia opiniões aos circunstantes – assistentes, outros médicos, estagiários, sentados à roda - e, no fim, fazia o sumário do caso. Quando chegou a minha vez, respondi-lhe que não tinha teoria ou experiência suficientes, nem sequer  era ainda formado e a minha opinião de pouco valeria. «Não, não. Diga.» respondeu Barahona. «Nestas coisas, às vezes, quem está de fora vê melhor».

 

O primeiro dos momentos  decisivos passara-se cinco anos antes, ia eu fazer exame de anatomia descritiva daí a dias com o Professor Soeiro, erudito amigo de amigos meus, os dois lado a lado num urinol da Faculdade. «Sabe que o Flaubert fez uma viagem ao Egito com o Cloquet do gânglio?» perguntei eu. (Há no braço um gânglio com esse nome). «Se era o do gânglio ou não…», respondeu ele, dubitativo. «Havia dois irmãos: o Hyppolite Cloquet e o Jules Cloquet». «O Hippolyte» atirei ao acaso, para acabar a conversa. «Estamos na mesma!» retorquiu o Professor. «Um chamava-se Hippolyte Cloquet e o outro Hyppolite-Jules Cloquet».

 

Estes momentos articulava-os eu para ilustrar a minha falta de paciência para erudição pedante a mais. Durante uns anos, sobretudo nos Estados Unidos,  houve tanto dinheiro disponível para subsidiar a academia que se passaram a dedicar centenas de páginas a temas de cada vez menos importância, a políticos ou artistas bem esquecidos – e troça cínica de gente como eu. Mas bons tempos, os daqueles disparates simpáticos quando comparados com o elogio gabarola da estupidez, da ignorância crassa, da imoralidade que agora campeiam da Casa Branca ao Palácio da Alvorada, para falar só das Américas. Com consequências desastrosas para a gente presente e futura que se vêem já ou que cientistas mais ou menos eruditos já preveêm (Deus os proteja a todos, roguem os crentes).

 

E dou por mim voltado para bemaventuranças da erudiçao. Como o fim de tarde de verão em que o José-Augusto França contou à minha mulher como era Lisboa  antes do terramoto de 1755 desde a porta da nossa casa no alto da D. Pedro V até ao ainda chamado Terreiro do Paço.

 

NB Quanto aos factos: os do Pofessor Abramsky e do José-Augusto França estavam certos; os do Professor Soeiro, errados e os do Professor Barahona vá lá saber-se.

 

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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

marc blochMarc Bloch

1886-1944

 

 

José Cutileiro

 

De uma esperança a outra

 

Lembro-me do Pai voltar de Madrid em 1939, logo a seguir ao fim da Guerra de Espanha, com fotografias de casas em ruínas. O país estava de rastos: durante muitos anos o contrabando passou a fazer-se de cá para lá, com nós a aldrabá-los a eles. No Passapoga da noite madrilena, uma mulher valia menos que no 3º andar do100 da rua do Mundo, em Lisboa. O escudo valia o dobro da peseta.

 

Portugal estava dividido: em casa do Nuno Bragança celebraram a última Cruzada; na minha sofreu-se porque a democracia tinha sido derrotada. Mau sinal para a segunda Grande Guerra? Não tanto: confiança inabalável na vitória das democracias foi premiada em 1945. Poucos dias depois de Salazar ter posto a nossa bandeira a meia-haste nos edifícios públicos e ter mandado pêsames ao governo alemão pela morte de Hitler, a seguir à rendição incondicional da Alemanha, houve grande manifestação em Lisboa, atrás da bandeira inglesa, da bandeira americana e, entre as duas, de mastro sem bandeira hasteada. (A seguir à invasão da URSS por Hitler, os comunistas tinham defendido a causa aliada). O Estado Novo aguentou ainda 29 anos mas a oposição era mais forte do que equívoco em que assentava. Este parecia ter ficado resolvido em 1975, quando Mário Soares e o MFA puseram partidos contra as Comunidades Europeias e a OTAN fora do alcance do arco governativo.

 

Voltando à esperança. 1974 e 1991 foram anos bons, sobretudo para aqueles que tinham entendido que comunismo, marxismo-leninismo, trotskismo facção Lambert, todas as variedades conhecidas dessa visão, estavam fundamentalmente erradas e não era por aí que o gato iria às filhoses. Mas, entretanto, tudo se complicou outra vez. Progresso técnico a ritmo inédito e vontade de enriquecer de intensidade rara desde Nova Iorque a Shangai, passando por todo o resto do mundo, juntaram-se os dois à esquina. Até agora não se lhes consegue deitar a mão e a maldade de cada humano, com um computador à frente, pinta a manta como quer – não só nos Estados Unidos onde o espalhar de mentiras foi glorificado por Presidente que usou e encorajou o método para chegar ao poleiro mas também na França de hoje onde a extrema-direita de Marine Le Pen e Steve Bannon , desonesta até à medula, quer que o povo veja no acordo sobre o clima de Marraquexe uma conspiração contra os estados-nação europeus e os seus valores. A 10 de Dezembro de 1948, a Declaração Universal dos direitos humanos nasceu em Paris. Desde então, melhorámos. Em 1948, a África do Sul não a assinou porque os pretos valiam menos do que os brancos; os países árabes porque as mulheres valiam menos do que os homens; a União Soviética (e satélites) porque os povos valiam menos do que partidos e governos.

 

Até a maldade humana ser desunhada outra vez vai passar tempo: talvez venha a ser precisa guerra grande e à antiga. Em 1944 Marc Bloch, que os alemães iam fuzilar, escreveu: “Nous sommes les vaincus provisoires d’un injuste destin”. É a nossa esperança.

 

 

 

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Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

FRANCE-SOCIAL-POLITICS-ENVIRONMENT-OIL-DEMO

Foto: Lucas Barioulet@AFP

 

 

 

José Cutileiro

 

Zangas

 

A França, um dos países do mundo onde se vive melhor quer se seja rico quer pobre, está em pé de guerra. Contra o aquecimento global, Macron resolveu aumentar o preço dos combustíveis. Movimento popular espontâneo - como se insiste em dizer apesar de Facebook&Companhia - os ‘coletes amarelos’, resolveu protestar nas ruas e nas estradas. Rapaziada e algum mulherio de extrema direita e de extrema esquerda poz colete amarelo sobre a roupa negra do costume e passou barreiras policiais juntando-se aos manifestantes de boa fé, antes de meter capucho e máscara e começar a partir tudo à sua roda, fazendo estragos consideráveis até no monumento ao Soldado Desconhecido do Arco do Triunfo.

 

A França, lembram sempre os franceses, não é país de reformas mas país de revoluções. A seguir a De Gaulle, os predecessores de Macron na Quinta República (salvo Giscard d’Estaing) reformaram muito pouco ou muito mal mas safaram-se sem que revolução os beliscasse, assim como os habitantes de Lisboa não tornaram a apanhar com terramoto parecido com o de 1755. Mas a natureza sísmica do sistema francês não perdoa e calhou a Macron estar no Eliseu a tentar meter as coisas na ordem mais do que nenhum dos seus predecessores fizera quando os tremores começaram.

 

Não houve Estados Gerais nem Trotsky a assaltar o correio. Em 1911, durante a primeira greve geral de trabalhadores rurais alentejanos, influenciados pelo que se passava na Andaluzia e esperançados no governo republicano de Lisboa, quando o grito ‘Vem aí a greve !’ foi dado numa pequena vila do distrito de Évora, as pessoas trancaram portas e janelas por estarem convencidas de que a greve era um bicho. Ignorância assim quanto a revoluções não existe em França, muito pelo contrário. Dos Pirinéus às Ardenas e mormente em Paris, toda a gente está convencida de que sabe tudo mas, na realidade, como historiadores sábios não se cansam de lembrar, sabe-se muito pouco e menos ainda quando a coisa esteja em curso e se quiser apostar no vencedor. É preciso estar à hora certa no lugar certo, passada essa primeira selecção, há quem tenha unhas para tocar aquela guitarra (muito poucos) e quem julgue que as tenha, sem as ter (muitos). E, como com os melões, só depois de encetado é que se sabe.

 

E  das duas uma. Ou Macron tem de facto o que alguns entusiastas entendidos viram nele – a capacidade de agarrar e usar o poder com génio comparável, na história de França, ao de Napoleão Bonaparte – e consegue sair da crise por cima, a França está salva por mais umas décadas (até à próxima pulsão revolucionária animada a Facebook ou ao que se tiver inventado entretanto) e a Europa provavelmente também ou então Macron afinal não dá para as encomendas, Marine Le Pen chega ao poder, anima e é animada por almas gémeas noutros países europeus e, mais ano menos ano, estaremos todos outra vez à bulha uns com os outros.

 

Para gáudio de Putin, Trump e o Príncipe Herdeiro da Arábia Saudita, paladinos de valores mais antigos.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

cravos

 

 

José Cutileiro

 

E agora José ?

 

George Orwell lembrou algures que as pessoas às vezes precisam de mal, querem o mal. Parece estar a acontecer agora.

 

Depois de sinais em sentido contrário – vitória aliada na guerra de 1939–1945, descolonizações, colapso eutanásico da União Soviética em 1991 – e a seguir a, de Nova Iorque a Pequim, em todas as praças financeiras, capitalistas cheios de sangue na guelra se entusiasmarem tanto com o fim do comunismo que tomaram o freio nos dentes e perderam a vergonha, começaram a brotar expressões do mal consequente, escondido e insuspeitado até então como alguns cancros a que especialistas chamam neoplasias profundas. De entrada de bom modo – ‘não’ nos referendos holandês e francês de 2005 sobre ‘mais Europa’: os povos afinal queriam menos – e ultimamente com acinte: a tragédia do Brexit; a delinquência de Trump; proto-fascismos no Leste da Europa; Bolsonaro e o seu governo-circo. (Cito Carlos Drummond de Andrade no título da nota para lembrar à leitora a existência de brasileiros com coração e cabeça nos lugares certos - apesar de tantos milhões de votos dados a uma espécie de General Tapioca em pior e quase tantos outros milhões dados a cleptocratas convencidos de que ser de esquerda lhes lava os pecados. Se eu fosse brasileiro, teria feito como Fernando Henrique Cardoso e ficado em casa no dia do voto).

 

O comunismo - nunca é demais repeti-lo - não é doença extinta, foi remédio que falhou, que antes disso enchera milhões de pessoas de esperança nas cinco partes do Mundo mas continuara a ser usado cegamente nalgumas delas depois de se saber que fazia pior do que a doença. Lavrada a certidão de óbito, porém, com urgências e enfermarias fechadas, o fosso entre ricos e pobres cavou-se tanto – entre poucos ricos, cada vez mais ricos, e muitos pobres, cada vez mais pobres – que se não se encontrar rapidamente maneira de começar a colmatar essa brecha, as pessoas vão ficar ainda mais zangadas umas com as outras do que o que já estão, agarrando-se desesperadamente a crenças que desvirtuam (patriotismo é amor aos seus; nacionalismo é ódio aos outros – assim Roman Gary expôs lapidarmente o engano) e seguindo demagogos que, no poder, farão ainda  muito mais mal (exemplos recentes são Hitler e Mussolini; exemplo actual é a administração Trump na protecção do ambiente).

 

Portugal tem escapado ao pior do turbilhão, confirmando bom senso colectivo revelado em sucessivas eleições nacionais desde Abril de 1976. Todavia, todo cuidado é pouco, a começar pelos muitos esforços deliberados de baralhar verdade e erros que de Washington a Moscovo se utilizam hoje para manter ou ganhar poder. Esforços que passam muitas vezes a ser recebidos com um encolher de ombros, como se a legitimação da aldrabice fosse factual e moralmente aceitável. Não o é e convém lembrar que em cirurgia torácica, por exemplo, ou construção de pontes, chegaria a resultados catastróficos e à comissão de crimes.

 

Em política também mas leva mais tempo a explicar.

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

arc de triomphe Paris

Arco do Triunfo, Paris

 

 

José Cutileiro

 

Eterno retorno

 

 

Fim de semana chuvoso, no conforto de casa, com a televisão a mostrar comemorações em vários lugares, mormente no Paris que Haussman arquitectou para glória do Estado e controle de turbas operárias descontentes. Arco do Triunfo no centro da Estrela, debaixo do chão da qual jaz o soldado desconhecido (ou conhecido de Deus – Known unto God– segundo lápides funerárias em cemitérios militares britânicos, graças a Rudyard Kipling, prémio Nobel da literatura, que perdera um filho na guerra cujo fim, há cem anos, foi celebrado este Domingo). França, a mais monárquica das Repúblicas - cada francês ou francesa entrança em si um ci-devante um sans culotte  - tem jeito para comemorações destas, a coreografia foi excelente, os muitos chefes de estado presentes, abrigados da chuva por elegante construção temporária transparente, portaram-se bem e Macron disse bem discurso bem escrito. A Sarabanda da 5ª suite para violoncelo solo de João Sebastião Bach - que Rostropovich tocara em 1989 diante de Muro de Berlim deitado a baixo – ouviu-se desta vez pelas mãos de Yo Yo Ma. (Mesmo três Fems que conseguiram manifestar-se e a polícia agarrou logo não destoaram: mamas ao léu fazem parte gloriosa da Grande Revolução Francesa).

 

Tudo como deve ser mas Álvaro de Campos veio-me logo à cabeça.

 

Dos Lloyd Georges da Babilónia                                                                                             

Não reza a história nada.                                                                                    

Dos Briands da Assíria ou do Egipto,                                                                                  

Dos Trotskys de qualquer colónia                                                                                            

Grega ou romana já passada                                                                                                     

O nome é morto, inda que escrito.

 

 

 

Só o parvo de um poeta, ou um louco                                                                                                                                           

Que fazia filosofia                                                                                                                        

Ou um geómetra maduro                                                                                                               

Sobrevive a esse tanto pouco                                                                                                                                                                                                                                  Que está lá para trás no escuro                                                                                                   

E nem a história já historia.

 

 

Ó grandes homens do Momento!                                                                                                              

Ó grandes glórias a ferver                                                                                                                        

De quem a obscuridade foge!                                                                                                                

Aproveitai sem pensamento,                                                                                                                           

Tratai da fama e do comer,                                                                                                                                                                         

Que o amanhã é dos loucos de hoje.

 

 

Em modo menos anarquista, lembrei-me da estreia de ‘A Tragédia do Rei Lear’, posta em cena em sueco por Ingmar Bergman em Janeiro de 1984, na véspera da abertura da Conferência de Paz de Estocolmo, entre países da OTAN, países do Pacto de Varsóvia e países neutros e não-alinhados, que começou num dos momentos mais tensos da Guerra Fria. O 'Rei ‘Lear’ é uma zaragata de faca e alguidar em que muita gente mata e morre, incluindo o Rei e as três filhas. Na última cena, alguns sobreviventes lambem as feridas e preparam-se para retomar a vida, acabrunhados. Na mise en scénede Bergman, o pano cai – e levanta-se num ápice com os personagens de espada em riste já prontos para outra, antes de cair de vez.

 

Será o que nos espera? Angela Merkel esmagou o Sul da Europa, não quis tocar no superavit alemão, despertou o fascismo latente do Leste da Europa ao prometer-lhes gente de todas as fés e cores e vai-se embora. Os ingleses perderam a tramontana. Varsóvia, Budapeste, Viena, até Roma, deixaram de procurar entrar pela porta estreita e animam o pior dentro de cada um de nós. Macron quer as coisas certas mas tem pouca companhia. E de um lado e do outro, sem fé nem lei, Trump e Putin fazem troça.

 

Uma broncalina do camandro ou, se a leitora preferir, uma Bernardette do caboz.

 

 

publicado por VF às 09:00
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