Quarta-feira, 13 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Mon. Grande Guerra-

Monumento aos mortos da Grande Guerra em Lisboa

 

 

José Cutileiro

 

 

A caminho dos anos 40

 

 

                                        (…) isto lembra cada vez mais a transição dos 20 para os 30. Ainda há pouco tal pareceria impensável mas agora esperemos que não dê nos 40, escreveu-me o Fernando que esteve em muitos lugares, conheceu muita gente e tem a cabeça mais bem organizada que conheço fora do mundo académico (dentro tampouco há muitas capazes de lhe pedir meças). Não posso estar mais de acordo com ele.

 

Cada dia acrescenta sinais percursores. Por exemplo: governo austríaco, coligando direita dirigida por primeiro-ministro de 31 anos e extrema-direita mais idosa, fechou algumas mesquitas e expulsou imanes turcos. Por ter dado muito mais guardas de campos de concentração nazis per capitado que a própria Alemanha, a Áustria lembra-me o proverbial canário da mina (posto lá porque anidrido carbónico mata primeiro um canário do que um homem, dando tempo a este de fugir se houver fuga de gás).

 

Preocupante também, de outra maneira: nos Estados Unidos, 87% dos membros do Partido Republicano – homens e mulheres – aprovam sem reservas o desempenho do Presidente Trump. Na realidade, o partido deveria ter passado a chamar-se Partido de Trump. O Partido Republicano a que estávamos habituados, o de Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt, Ronald Reagan, foi de férias não se sabe para onde nem se algum dia voltará (ou pelo menos assim disse há dias John Boehner, um dos seus mais activos dirigentes nos tempos de Obama e Bush).

 

Trump fez campanha sem disfarçar quem era: mentiu a torto e a direito, recusou-se a revelar rendimentos, foi machista, racista, brutal e ordinário, insultou aleijados e inválidos de guerra, heróis ou não, exibiu ignorância, incompetência, xenofobia e desprezo por minorias e elites, tudo espetacularmente e ganhando a pouco e pouco cada vez mais adeptos. No voto popular ficou três milhões atrás de Hillary, mas em três Estados chave onde brancos pobres tinham votado Obama em 2008 e 2012 (e, portanto, derrotado Hillary nas primárias para 2008) desta vez votaram Trump, deram-lhe a eleição e acreditam nele como num salvador. Com oportunismo e curteza de vistas tradicionais, congressistas e senadores do partido por um lado, e homens de negócios por outro, atentos à voz do povo, decidiram pôr-se também do lado de Trump. Cálculo comparável mutatis mutandis ao de alguns apoiantes táticos do começo de Hitler (como o político Von Papen, absolvido em Nuremberg ou o industrial Krupp, condenado a dez anos) convencidos de que o domesticariam.

 

A época, o lugar, as pessoas são outras mas o que mudou foi que agora vai tudo mais depressa. O comunismo que ajudou a derrotar o fascismo era remédio falso – como remédio falso fora o fascismo – e a doença está assanhada outra vez. Por toda a parte há ricos, poucos, cada vez mais ricos e pobres, muitos, cada vez mais pobres. Não dá.

 

Coitado do meu neto? Talvez mas, vendo mais longe, talvez bisneto venha a festejar vitórias da Democracia e quedas de outros Muros de Berlim.

 

 

 

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Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

el greco

 S. Francisco de Assis - El Greco

 

 

José Cutileiro

 

 

A parte colérica da alma

 

 

Partido de extrema-direita ganhou as eleições na Eslovénia e irá juntar o país a outros do Centro e do Leste da Europa – Hungria, Polónia, República Checa, Áustria - e talvez em breve também do Oeste – Itália - que dizem não a emigrantes vindos de África e de Ásia (terras viciosas que há cinco séculos os portugueses andaram devastando, cantara Luís, zarolho de génio de cuja data de morte fizemos dia nacional, celebrado no Domingo).

 

Setenta e três anos passaram sobre a afirmação universal do Bem, quando em 1945 o Terceiro Reich se rendeu incondicionalmente aos aliados; afirmação confirmada, para os que ainda tivessem dúvidas, quarenta e quatro anos depois, quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo e os aliados bons derrotaram por fim os aliados maus; com demão suplementar da dita confirmação aplicada zelosamente entre Janeiro de 2009 e Janeiro de 2017 por Barack Obama, então inquilino da Casa Branca, convencido de que a sua passagem por lá iria melhorar o mundo (Razão, irmã do amor e da justiça mais uma vez escuta a minha prece, rogara também Antero, o suicida do jardim público em Ponta Delgada).

 

A parte colérica da alma está a voltar em força e a fomentar ódio ao estrangeiro em corações que nos últimos decénios andavam distraídos por outras coisas. Praticam-se crueldades que, julgávamos nós, tinham passado a ser inadmissíveis. Na fonteira entre o México e os Estados Unidos, famílias latino-americanas que para estes queiram emigrar legalmente vêm os filhos separados dos pais até à conclusão do processo, isto é, sine die, sem nada saberem uns dos outros. Tal enormidade Trumpiana (ele diz que a lei vem dos Democratas mas é mentira), condenada até por alguns senadores norte-americanos, continua de vento em popa. De desmandos de Putin, Orban, Erdogan, do faraónico Sisi e outros mandachuvas africanos, do grande chefe chinês que se fez declarar perpétuo pelo Partido, sabemos todas as noites no telejornal (se Sócrates, Pinho, EDP, Sporting, eutanásia e dentro de dias campeonato do mundo de futebol deixarem tempo…) e cada um já não nos incomoda mais que escassos segundos.

 

Achamos outra vez natural que os humanos sejam maus como as cobras uns para os outros, o que sempre aconteceu e muitas vezes por razões consideradas boas (quando retomou Goa em 1510, Albuquerque terríbil encheu um bote com orelhas e narizes de muçulmanos locais, castigados por o terem traído; no seu tempo de Vice-Rei, em barco cheio de muçulmanos apresado no alto mar, homens, mulheres e crianças eram sempre passados a fio de espada que a segurança do Império dispensava mais mourama).

 

A demanda do Bem, a convicção de que a felicidade passara a ser possível não levaram só ao Gulag ou a Pol Pot. Na decência tenaz de algumas  democracias burguesas pareceu  à vezes que certas maldades tinham acabado (como a varíola, no mundo natural). Grande engano. Como um sábio lembrou, a guerra é tão antiga quanto a humanidade; a paz é uma invenção recente.

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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José Cutileiro

 

 

 

« Onde é que é o guichet da corrupção ? »

 

 

Assim costumava perguntar há muitos anos, tio da Vera indignado por não ter tido ainda direito a nenhuma. Era uma reacção moderada e divertida, bem diferente da indignação tonitruante que viceja agora, abafando a reprovação genuína de alguma gente de bem e disfarçando a inveja (cruzes, canhoto!) que medra no peito fiel de muito patriota.

 

Nesta matéria, às vezes, há casos bicudos. Quando eu vivia em Princeton, New Jersey, soube pelo jornal diário o seguinte. Figura importante de Wall Street fora apanhada por investigação oficial num caso de informação priveligiada, levada a tribunal e condenada a alguns anos de cadeia. Beneficiado com a informação indevidamente transmitida contava-se seu próprio pai, médico reformado (se bem me lembro, nefrologista) com mais de oitenta anos que pudera vender as acções da sua poupança antes destas se desvalorizarem abruptamente - e fora também condenado. Eram judeus, tinham laços de família muito fortes (tal como acontece quase sempre em Portugal) e ocorreu-me na altura que o corretor haveria de ter sentido o que sentiria português trabalhando na Bolsa de Lisboa, apanhado em circunstâncias semelhantes. «Então uma moral universalista, que coloca à mesma distância de mim o último dos estranhos e o primeiro dos próximos, vai-me obrigar a deixar na miséria o meu pai? E numa idade em que já nem poderia tentar sair dela? Qual é o dever de um filho: cumprir lei cega perante valores milenários e deixar o pai pelas ruas da amargura? Ou arriscar-se a ignorar essa lei e cumprir as obrigações da tribo?» Palpita-me que a escolha do hipotético corretor alfacinha seria a mesma da do homem de Wall Street.

 

Impôr de repente leis gerais universalistas a gente regida  por usos e costumes tradicionais que poem a família no coração do mundo, é sempre o cabo dos trabalhos. Todas as potências coloniais descobriram isso. Também o descobriram os liberais portugueses a seguir a 1834, quando, de Lisboa, quiseram fazer chegar o país novo, inventado por Mouzinho da Silveira, a sombrias boticas de Trás-os-Montes, a barbeiros palreiros do Algarve. (Mouzinho escrevera cercado na Cidade Invicta, e já se demitira do governo quando os liberais ganharam a guerra aos miguelistas e se meteram a mudar Portugal).

 

Quase século e meio depois, os laços entre centro e periferia - entre Estado e povo - tinham cristalizado. Quanto ao que chamamos corrupção (termo que não era usado) em Câmara Municipal alentejana que conheci bem as coisas passavam-se assim. Quando camponês, pequeno comerciante ou artífice tinha de lá ir, se o assunto fosse tratado a nível baixo a gorgeta era 25 tostões; a nível alto, 5 mil reis. Dentro do funcionalismo porque presidente e vereadores, todos da mó de cima, não constavam da tabela. Trocavam favores.

 

Havia muito menos negócios, muito menos dinheiro a circular, os ricos nasciam ricos, os pobres morriam pobres. Ao comércio e à indústria o Dr. Salazar preferia a agricultura.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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bola de cristal

 

 

José Cutileiro

 

À procura do futuro?

 

 

 

Dois factos

 

Primeiro: Entre 2007 e 2017, os proventos dos administradores das cem maiores companhias do Reino Unido foram multiplicados por quatro, isto é, passaram em média de um milhão para quatro milhões de libras esterlinas por ano. Durante a mesma década, os proventos do geral das pessoas empregues por conta de outrem no Reino Unido aumentaram de 10%, isto é de 1% por ano.

 

Segundo: Também no Reino Unido, à pergunta, corrente em inquéritos de sociedade, ‘Acha que os seus filhos vão ter vida melhor do que a sua?’ as respostas, até 2007, tinham sido quase sempre sim – e, a partir de 2008, passaram a ser quase sempre não.

 

Uma preocupação.

 

Em toda a Europa Ocidental, comentadores nos jornais, nas telefonias, nas televisões alarmam-nos de há alguns anos a esta parte com o crescimento do chamado populismo. Referendo no Reino Unido a escolher saída da União Europeia; eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos; eleição – e reeleição recente e reforçada – de Vitor Orban para primeiro ministro da Hungria; popularidade mantida pelo actual governo liberticida polaco; subida nas sondagens da Frente Nacional em França e – mais ainda – do movimento Cinco Estrelas na Itália, são dados como exemplos, entre outros, desse crescimento. Aos jornalistas juntam-se os cientistas políticos (a final de contas, uma espécie de jornalistas lentos e  possuídos por ‘the craving for generalizations’ que tanto irritava Wittgenstein) os quais tentam definir populismo, classificar variedades, comparar os seus aproveitamentos por demagogos de direita e de esquerda . Uns e outros, os rápidos e os lentos, preocupados por verem a Democracia mirrar dia a dia diante dos seus olhos, espécie de bambu ao contrário.

 

Um lembrete.

 

Ao contrário do que muito boa gente parece pensar, o fim do comunismo – o colapso da União Soviética; o mandarinato marxista-leninista de Beijing – não foi a extinção de uma doença. Foi o falhanço de um remédio e a sua desacreditação. O comunismo perdeu a Guerra Fria porque era pior do que o capitalismo mas a maneira como as coisas têm corrido desde então está a dar ao capitalismo uma vitória pírrica. Prosseguindo na metáfora médica: a doença continua e, esgotadas todas as variedades da mezinha experimentada primeiro em 1917 – de Pol Pot às democracias sociais nórdicas – parece urgente descobrir outro tratamento.

 

Um palpite.

 

Estaline disse a Churchill em Yalta que o embaixador que ele lhe mandara para Moscovo durante a guerra, trabalhista fabiano, era de primeira água mas tinha mania curiosa: querer explicar-lhe a ele, Estaline, o que era o socialismo. Quase 80 anos depois, se os povos fossem gatos, não seria por nenhuma dessas duas vias que iriam às filhoses. Nem pela da Rerum novarum.Inventar-se-ão misturas mais sensatas do que as ortodoxias vigentes. Se os Estados Unidos correrem com o maluco a tempo, mesmo que já não possam ser donos do jardim zoológico talvez ainda possam servir de polícia de trânsito.

  

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Stephen Hawking (1942-2018)

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Escala nossa

 

 

 

Treze milhões e setecentos mil milhões de anos é um ror de tempo. Só a muitíssimo poucos de entre nós é dado imaginá-los e esses usam estratagemas algébricos ou geométricos que tornam os raciocínios sustentáveis e plausíveis. Porque os sábios destas coisas dos nossos dias estão convencidos de que foi nessa altura (há quase quatorze mil milhões de anos) que o universo começou, a partir do Big Bang inicial. Isto é, o tempo começou aí e acabará um dia; o espaço é outra história: porventura infinito, ou haverá mesmo uma infinidade de universos paralelos ao nosso.

 

Faz espécie que assim seja – mas faz mais espécie ainda que se saiba que assim é. Pondo de parte as tentativas dos poderes que houvesse de abafar conhecimentos novos – nesta matéria, o caso mais conhecido e melhor documentado de obscurantismo é o do processo e julgamento de Galileu há pouco mais de trezentos anos – que são epifenómenos menores, o que realmente nos pode deixar estupefactos (ou, pelo menos, me deixa estupefacto a mim) é olhar para céu de noite, limpo e sem luar, ver os milhares de astros que o cravejam e saber que a todos foi dado um nome, de todos se sabe o tamanho e a posição relativa, a distância da Terra de cada um deles e as distâncias entre eles de uns para os outros; das estrelas as quantidades de luz que emitem e, dos planetas, que reflectem; dos cometas, as respectivas periodicidades.

 

É, por assim dizer, uma estupefacção compensatória. Passados alguns séculos inebriados a seguir à consolidação do poder cristão e consequente arrumo nosso no centro do Universo (que, em lugares sem televisão e sem alfabetização, poderá durar ainda, porventura juntamente com a crença de que o mundo é plano) vieram Copérnico, Tico Brae, Galileu, pôr-nos em rota inexorável para uma periferia qualquer e, passando do cósmico ao terrestre,veio depois Charles Darwin que, cheio de escrúpulos e de descobertas contrárias às suas convicções de infância (era filho de um pastor da Igreja Anglicana), nos deixou muito mais longe dos anjos e muito mais perto dos símios do que estávamos antes.

 

Mas esta passagem de cavalo para burro, de camarote à boca de cena para banco no galinheiro, foi mais aparente do que real porque a ciência, retomando o fio de meada que passara pela Grécia nela se reforçando e juntando-lhe catadupas de experiência aumentou de maneira incalculável o conhecimento do mundo e de nós próprios. De maneira que, se é verdade que muitos de nós deixaram de crer ser feitos à imagem e semelhança de Deus e que todos nós (salvo talvez no Alabama profundo) deixámos de estar no centro geográfico do universo, sabemos muito mais de nós e do mundo do que os nossos antepassados e os nossos netos saberão muito mais ainda do que nós.

 

O tempo histórico é diferente do cósmico. Quando era pequeno, conheci Senhora muito velha que, quando era pequena, conhecera Senhora muito velha que, quando era pequena, vira entrar em Lisboa os soldados de Junot de que se lembrava ainda.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Fake news

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Et nunc et semper

 

 

Há agora grande animação a propósito de fake-news e de aldrabices quejandas que fervilham desde que os americanos escolheram para Presidente um mentiroso compulsivo (mas - ao contrário dos mitómanos que ás vezes se prejudicam com as mentiras que inventam – este está sempre a ver se leva água ao seu moinho e, quando não o consegue, foi por limitação de inteligência, de cultura ou de informação como acontece tantas vezes a chicos espertos e não por reconhecimento de a razão estar do outro lado. Há quem diga nessas alturas que o Presidente é sobretudo narcisista, como se tal fosse grande pecado, mas eu não estou convencido: Oscar Wilde contava que as águas do lago, quando lhes perguntaram se Narciso era realmente belo, responderam que não sabiam porque, quando Narciso vinha ver-se nelas, não olhavam para ele - olhavam para si próprias nas meninas dos olhos dele. Atirar a primeira pedra…

 

Felizmente, pelo menos por enquanto, a algazarra passa-se sobretudo nas chamadas redes sociais, uma gigantesca bolha, porventura ela própria dentro de uma outra bolha - e por aí fora - onde vivem deusas e deuses, homens e mulheres, onde se mata, se morre, se ama, se odeia, se acaba e se recomeça, como se se a vida fosse uma fantasia impune de ricos e, enquanto assim for, não virá daí mais mal ao mundo do que aquele que já tinha vindo ao longo de milénios, por mor de quezílias semelhantes, explodindo em amores e ódios, dividindo famílias, nações e fés, pelo menos desde Abel e Caim (para leitora que prefira ou esteja mais calhada com a mitologia cristã). Se fake news e fantasias acopladas tomassem conta dos livros texto, da experimentação e dos debates em cirurgia torácica, por exemplo, ou na construção de pontes sobre rios ou na pilotagem automática de automóveis e de aviões ou na análise, selecção e engarrafamento da Água do Luso – aí haveria razão para grande susto. De algoritmos a física quântica, muita coisa hoje nos organiza as vidas, cujo entendimento escapa a muitos de nós mas cujo estatuto científico e técnico não é minado pela tagarelice cacofónica zumbindo constantemente ao nosso alcance visual e auditivo nas redes sociais. O que é minado, esse sim, é o chamado conhecimento comum, já de si vago, incoerente, gabarola, e há eras sem fim, constantemente posto à prova pelas religiões do mundo, sobretudo pelas religiões reveladas e, destas, pelas três maiores: Cristianismo, Islamismo e Judaísmo.

 

O que mudou, quase desapareceu, são os guardas florestais e mais arranjos destinados a prevenir fogos incontroláveis no Pinhal de Leiria que é o espírito. O aparelho científico e, pelo menos por enquanto, a máquina judiciária estão seguros, olhando pelos conhecimentos lógico e empírico, por um lado, e pela aplicação das leis, por outro. No resto dos espaços públicos e privados, a razão arrisca-se a perder crédito; a autoridade e o acaso a constituírem-se soberanos – mas isso já o temia o Cavaleiro de Oliveira (1702-1783). Não há de ser nada.

 

 

 

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Quarta-feira, 7 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

BreakerBoys Lewis Hine

 "Breaker Boys" (1910)

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Matar o tempo

 

 

 

John Lennon dizia que era capaz de se levantar de manhã da cama e começar logo a não fazer nada. Nessa época, que talvez esteja a acabar em Portugal, em que quem não fosse um camponês era um senhor e vivia numa espécie de férias grandes com “room service” incluído, eu gostava de gente assim e ainda hoje embirro com quem nos deseje «Bom trabalho!» de manhã, quer de viva voz quer por écran de computador intermédio.

 

Parece estar agora muito na moda em Portugal fazer exortações moralistas que não passariam pela cabeça de protestantes do Norte da Europa, os quais, desde que, já lá vai meio milénio, tiveram de aprender a ler para tratarem com Deus – era preciso cada um e cada uma ler a Bíblia, enquanto cá pelo Sul continuou a bastar que o cura lesse a vulgata, ficando o resto da malta (diria o malogrado Zeca Afonso) analfabeta – fazem o que têm a fazer, tal como deve ser feito, sem que isso dê direito a prémio ou distinção. Lá, o trabalho é uma obrigação nobre - pais e mães ensinavam a filhos e filhas que perder tempo é pecado - cá, o trabalho « é bom pró preto » ou pelo menos assim ouvi dizer muitas vezes; agora talvez seja diferente como o é muita coisa que espanta qualquer Ulisses local que regresse a esta Ítaca, a começar por descobrir que os velhos são mais velhos, os novos são mais altos e as pequenas vão todas prá cama antes de casarem.

 

Chegado a meio deste Bloco-Notas tenho que firmar o rumo, resistindo à tentação tradicional dos anciães de acharem tudo pior agora – como aquele casal amigo da Senhora Tichbein, mãe do Emílio de Emílio e os Detectives na Berlim dos anos 30 do século XX, com saudades do tempo deles, quando o céu era mais azul e as cabeças dos bois eram maiores. Tais perspectivas, por consoladoras que sejam para egoísmos de fim de vida, convencidos de lhes ter cabido melhor do que à rapaziada e à raparigada que agora lhes poluem o ambiente, são falsas.

 

Em termos simples: malgrado a horrível guerra na Síria e outras guerras indecentes (convém a leitora não esquecer que houve guerras decentes e podem ser precisas outra vez), o lamentável Presidente Trump e outros mandachuvas desanimadores - Putin, Erdogan, Orban, Duterte , Xi (o Chinês perpétuo), Maduro, tantos mais - o mundo nunca foi melhor para as pessoas do que é agora. Quem julgue o contrário é ignorante e, se insistir depois de advertido, além de ignorante será teimoso para lá do razoável. O mundo em geral está muito melhor do que estava, por exemplo, no começo da Grande Guerra em 1914. As pessoas são muito mais saudáveis e inteligentes do que eram nesse tempo e muito menos religiosas (59% no mundo inteiro quando, nessa altura, rondavam 100%). Em consequência, usam mais a razão do que fézadas irracionais para resolver problemas e tudo vai claramente melhor que dantes.

 

Vale a pena ler Enlightenment Now: The Case for Science, Humanism and Progress por Steven Pinker, para argumentação fundamentada e convincente. Pelo menos convenceu-me a mim.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Davos, Suíça

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Ricos e pobres no mundo inteiro

 

 

 

Quando eu era antropologista praticante publiquei um livro em inglês, sisudo como o título sugeria: A Portuguese Rural Society. Estávamos em 1971 e eu pensara poder inventar nome menos aborrecido para lhe chamar mas quando já havia provas revistas, as fotografias do Mano João e do meu chorado Gérard tinham sido escolhidas, tudo pronto para a feitura física dos volumes da edição, eu não encontrara ainda nome que armasse ao pingarelho quantum satis. No meu gabinete, nos escritórios da Oxford University Press, na oficina da tipografia escolhida para a impressão, o nome continuava a ser o da tese de doutoramento na qual o livro se baseara.

 

A certa altura ocorrera-me chamar-lhe Before the Revolution (explicando no prefácio que, apesar do ambiente e das condições de vida daquelas aldeias tal poder sugerir a algumas cabeças jovens e entusiásticas da burguesia urbana, não iria haver revolução nenhuma) mas desisti por me parecer pretensioso (três anos depois teria ajudado às vendas, mas fosse lá alguém saber). Em última tentativa, passei um dia inteiro numa pequena biblioteca da Universidade com uma “Concordance” de Shakespeare, a ver se havia qualquer verso, dito, frase do Bardo que incluísse as palavras peasant ou peasants e me desse de bandeja o título de que eu precisava. Qual o quê: no tempo de Shakespeare, bem antes de ilusões sobre as virtudes e belezas dos camponeses terem animado almas românticas (e, mais tarde, de pungências sobre o seu sofrimento terem animado almas neo-realistas – No impressionismo, pinta-se o que se vê; no expressionismo pinta-se o que se sente; no neo-realismo pinta-se o que se ouve contou-me o Luís de Sousa que já não sei que professor ensinava por essa altura numa das universidades de Londres), não se escrevia nada de simpático sobre peasants, gente rude, sem maneiras nem conversa, mais própria para se roçar por bestas do que para convívios humanos. Vão tal esforço derradeiro, foi A Portuguese Rural Society que apareceu nas livrarias.

 

Depois da Revolução, que afinal sempre viera, podia por fim aparecer edição portuguesa que a Sá da Costa me propôs e a questão do título levantou-se de novo. Não me lembro se por sugestão minha, ou do João Sá da Costa ou da mulher dele, Ricos e Pobres no Alentejo foi escolhido e (salvo o Iá, Deus lhe tenha a alma em descanso, que com sentido moral exigente me disse, contristado, achar o título demagógico) toda a gente achou bem: o Alentejo tinha fama de grandes diferenças – lavrador abastado dissera um dia de trabalhador despedido que lhe queimara a seara: “Custou-lhe mais o fósforo do que a mim o trigo”.

 

Eram outros tempos e temos a mania das grandezas. Números divulgados este mês mostram que 82% da riqueza mundial gerada o ano passado couberam a 1% dos habitantes, enquanto os 50% mais pobres - 3,6 mil milhões de pessoas - não viram qualquer melhoria. As fortunas de 8 homens somam o mesmo que a totalidade dos bens desses 3,6 mil milhões.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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José Cutileiro

 

 

Decência e Bom Senso

 

 

 

O bom senso era a coisa mais bem partilhada no mundo em que Descartes vivia ou pelo menos o bom filósofo estava convencido disso. Olhando à roda no mundo em que vivemos hoje, seja o seu centro Nova Iorque, Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, Évora ou Ponte da Barca, não se fica com a certeza de que ainda seja assim mas talvez nos enganemos. Debaixo da espuma insensata dos dias vigora porventura bom senso resistente – quem aguentou desde o organismo monocelular original até ao Homo Deus do sábio professor israelita, aguenta tudo. Forte do seu passado, esse bom senso dá garantias ao futuro. E, de caminho, vai corrigindo contradições, imprecisões e a arrogância de certezas falsas próprias do senso comum que tanto mal nos têm feito. (Quando o senso comum derrota o bom senso e a malta gosta, convencida de que a verdade derrotou o erro, está o caldo entornado. Exemplo: o ensino do criacionismo como alternativa plausível à teoria da evolução nalgumas universidades americanas).

 

O outro cão de cerâmica policromada de Staffordshire, assente sobre os quartos traseiros no lintel da nossa lareira, chama-se decência e é garantia, juntamente com o bom senso, de não querermos entregar o mundo a quem vier depois em pior estado do que aquele em que nos foi entregue a nós. Bom senso e decência constituem par precioso, sempre em risco de que um - ou os dois - seja partido, risco que tem variado ao longo da História e atravessa agora passagem perigosa. Políticos, burocratas, intelectuais, clérigos, banqueiros, industriais, bilionários, comentadores, donas de casa que ainda haja, eleitores de qualquer idade ou sexo – todos nós – assistem agora a coisas muito parecidas com aquelas que, entre as duas guerras mundiais do século XX, levaram ao florescimento brutal do fascismo e do nazismo na Europa. (Na Rússia e na China foi pior). As predileções e fobias de alguns tribunos de hoje - e também daqueles e daquelas que neles sentem o chefe que lhes falta - mostram semelhanças inquietantes com as dos cultos de personalidade fomentados e praticados na Europa no intervalo entre as duas Grandes Guerras. Apesar de vidas cada vez mais longas permitidas pelo progresso da ciência cada vez menos pessoas se lembram desse tempo mas o progresso trouxe também fotografia e cinema. Pode ver-se, ler-se, saber-se muito do que se passou. Ao engano só vai quem quer.

 

Se o bom senso corrige o senso comum, a decência assiste as leis e a aplicação delas. Como no juramento hipocrático, a sua preocupação é não fazer mal. Dos casos maiores aos mais pequenos respeita a pessoa que há em cada um de nós, esperando que esta respeite também as que há nos outros. É moderada em tudo salvo na exigência de moderação. Procura que justiça seja feita com rigor mas sem pieguice nem sanha: mais vale ter dez culpados à solta do que um inocente preso. Viceja quando governantes e governados têm confiança uns nos outros.

 

Nada disto é utópico. Existe nalguns lugares do mundo.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

D Pedro

 Infante D. Pedro

 

 

 

José Cutileiro

 

 

De burro para cavalo?

 

 

 

Em tempo normal (se tal se puder ainda dizer nos nossos dias, vendo os filhos desobedecerem aos pais, as mulheres aos maridos, os novos aos velhos, os pobres aos ricos, os pretos aos brancos, os malcriados aos bem educados – tudo coisas que não eram costume quando eu era pequeno neste país que tão generosamente viria a acolher no seu seio o meu chorado amigo Freddy; as poucas que aconteciam, aconteciam à socapa - e quase toda a gente a achar bem que assim seja ou então a achar que não tem nada a ver com isso e a querer que a deixem em paz, o que é diferente - contrário mesmo - a querer que haja paz) o lema que não existia, nem existe, da diplomacia portuguesa que eu conheci por dentro, a do Estado depois do 25 de Abril, isto é, depois do fim da Ilusão Colonial e antes do Tratado de Lisboa, isto é, do renascer aqui e além da Ilusão Federal - mas deixando pela primeira vez porta de saída que Londres, sem gosto pelo contorcionismo comunitário, está agora desajeitadamente a abrir - deveria ter sido as palavras de despedida ao fim do dia de trabalho, que ouvi uma tarde e nunca mais esqueci, a mulher-a-dias da minha Mãe: “Adeus, parabéns, obrigado e desculpe”. A visão do saguão e o instinto da porta de serviço, por um lado e, por outro lado, o reflexo contrário ao do Infante Dom Pedro a finar-se em Alfarrobeira: “Fartai, vilanagem!” (Avec ses quatre dromadaires/ Don Pedro d’Alfarrobeira/Couru le monde et l’admira./Il a fait ce que je voudrais faire/Si j’avais quatre dromadaires escreveu Wilhelm Kostrovicki, conhecido por Guillaume Apollinaire, que sobreviveu á Grande Guerra – Ah que la guerre est jolie/Avec ses canons et ses cris! – mas foi levado logo a seguir pela Gripe Espanhola, aos 39 anos. Como é que o polaco terá sabido do português?) Mas, desde que nos sentamos à mesa dos crescidos, tem sido um vê se te avias. Qualquer dia há de estranhar-se o Papa não ser português.

 

Releio as linhas acima e desagrada-me a propensão para parágrafos quase tão compridos quanto os do divino asmático mas enquanto este enchia os seus de palavras tão bem escolhidas que a gente chegava ao fim de cada uma dessas ladainhas com a alma consolada e com água na boca para a ladainha seguinte, eu só recebo de volta irritações das leitoras, apostadas às vezes em descobrir erros de concordância, ou predicados sem complemento directo, ou indicativos onde deveriam perfilar-se conjuntivos – que a portuguesa poderá ter muitos defeitos e insuficiências mas, tal como o português, tem um mérito certo: deitar ao desprezo quem julgue esteja a armar ao pingarelho, ou esteja a armar em carapau de corrida, expressões que o Senhor J. Fonseca me disse um dia serem quase mas não serem bem a mesma coisa, sem conseguir explicar-me a diferença de maneira que eu a entendesse. No Negage a gente topava, acrescentou.

 

Infelizmente palpita-me que a minha mania de escrever parágrafos muito compridos seja vista como uma dessas armações por muito boa leitora.

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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