Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

arc de triomphe Paris

Arco do Triunfo, Paris

 

 

José Cutileiro

 

Eterno retorno

 

 

Fim de semana chuvoso, no conforto de casa, com a televisão a mostrar comemorações em vários lugares, mormente no Paris que Haussman arquitectou para glória do Estado e controle de turbas operárias descontentes. Arco do Triunfo no centro da Estrela, debaixo do chão da qual jaz o soldado desconhecido (ou conhecido de Deus – Known unto God– segundo lápides funerárias em cemitérios militares britânicos, graças a Rudyard Kipling, prémio Nobel da literatura, que perdera um filho na guerra cujo fim, há cem anos, foi celebrado este Domingo). França, a mais monárquica das Repúblicas - cada francês ou francesa entrança em si um ci-devante um sans culotte  - tem jeito para comemorações destas, a coreografia foi excelente, os muitos chefes de estado presentes, abrigados da chuva por elegante construção temporária transparente, portaram-se bem e Macron disse bem discurso bem escrito. A Sarabanda da 5ª suite para violoncelo solo de João Sebastião Bach - que Rostropovich tocara em 1989 diante de Muro de Berlim deitado a baixo – ouviu-se desta vez pelas mãos de Yo Yo Ma. (Mesmo três Fems que conseguiram manifestar-se e a polícia agarrou logo não destoaram: mamas ao léu fazem parte gloriosa da Grande Revolução Francesa).

 

Tudo como deve ser mas Álvaro de Campos veio-me logo à cabeça.

 

Dos Lloyd Georges da Babilónia                                                                                             

Não reza a história nada.                                                                                    

Dos Briands da Assíria ou do Egipto,                                                                                  

Dos Trotskys de qualquer colónia                                                                                            

Grega ou romana já passada                                                                                                     

O nome é morto, inda que escrito.

 

 

 

Só o parvo de um poeta, ou um louco                                                                                                                                           

Que fazia filosofia                                                                                                                        

Ou um geómetra maduro                                                                                                               

Sobrevive a esse tanto pouco                                                                                                                                                                                                                                  Que está lá para trás no escuro                                                                                                   

E nem a história já historia.

 

 

Ó grandes homens do Momento!                                                                                                              

Ó grandes glórias a ferver                                                                                                                        

De quem a obscuridade foge!                                                                                                                

Aproveitai sem pensamento,                                                                                                                           

Tratai da fama e do comer,                                                                                                                                                                         

Que o amanhã é dos loucos de hoje.

 

 

Em modo menos anarquista, lembrei-me da estreia de ‘A Tragédia do Rei Lear’, posta em cena em sueco por Ingmar Bergman em Janeiro de 1984, na véspera da abertura da Conferência de Paz de Estocolmo, entre países da OTAN, países do Pacto de Varsóvia e países neutros e não-alinhados, que começou num dos momentos mais tensos da Guerra Fria. O 'Rei ‘Lear’ é uma zaragata de faca e alguidar em que muita gente mata e morre, incluindo o Rei e as três filhas. Na última cena, alguns sobreviventes lambem as feridas e preparam-se para retomar a vida, acabrunhados. Na mise en scénede Bergman, o pano cai – e levanta-se num ápice com os personagens de espada em riste já prontos para outra, antes de cair de vez.

 

Será o que nos espera? Angela Merkel esmagou o Sul da Europa, não quis tocar no superavit alemão, despertou o fascismo latente do Leste da Europa ao prometer-lhes gente de todas as fés e cores e vai-se embora. Os ingleses perderam a tramontana. Varsóvia, Budapeste, Viena, até Roma, deixaram de procurar entrar pela porta estreita e animam o pior dentro de cada um de nós. Macron quer as coisas certas mas tem pouca companhia. E de um lado e do outro, sem fé nem lei, Trump e Putin fazem troça.

 

Uma broncalina do camandro ou, se a leitora preferir, uma Bernardette do caboz.

 

 

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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Winnie 2

 Winnie Mandela

 

José Cutileiro

 

 

 

Nelson e Winnie

 

 

 

Escrevo no aeroporto Humberto Delgado, sentado numa cadeira de rodas, à espera do avião para Bruxelas, atrasado uma hora. Lembro-me de sessão de propaganda eleitoral de Delgado em Lisboa, em 1958, a que fui com o João Monjardino e o Pedro, seu pai. À saída, Guarda Republicana a cavalo batia nas pessoas a torto e a direito. Poucos anos depois, a PIDE armou cilada ao general, assassinou-o barbaramente e à amante brasileira e enterrou-os mal num descampado espanhol perto de Villa Nueva del Fresno. Hoje, Delgado dá o nome ao aeroporto internacional de Lisboa (e Pedro Monjardino dá o seu a rotunda à beira mar na estrada de Cascais para o Guincho). Há dias em que a gente acredita no progresso moral da História.

 

Amiga que assistira terça-feira a palestra minha sobre Nelson Mandela mandou-me dizer por email: “Faltou a Winnie – por trás de um grande homem há sempre um grande mulher ou há um grande homem apesar da mulher?” Winnie, em cuja modesta casa no Soweto Mandela se instalou vindo da prisão na Província do Cabo para Joanesburgo, merecia palestra ela própria. Quando a conheci, depois de 27 anos com o homem preso, tinha charme e sex-appeal a rodos (tal a Greco de Prévert, ela était faite comme ça. Depois de começo triunfal, a vida não lhe fizera favores. Estudara até onde pudera ir sob a pata asfixiante do apartheid, roubara Mandela à primeira mulher (tiveram duas filhas), militava com tanto entusiasmo quanto ele contra o regime, mas o advogado brilhante, chefe do braço armado do ANC e boxeur amador exímio foi preso, condenado a prisão perpétua por terrorismo e mandado britar pedra para Robben Island.

 

Cá fora ela continuara a luta sem uma fraqueza, sem uma transigência, mais extrema nas suas posições do que o marido como sempre fora e continuaria a ser, mesmo depois do ANC tomar o poder. Prisão, residências fixas, desterros, humilhações impostas pelas limitações cruéis e mesquinhas da legislação racial mirabolante do apartheid. Entretanto ganhara nome, fieis, também oposição no partido – Cyril Ramaphosa  detestava-a e era recíproco – e até uma espécie de milícia de futebolistas amadores que marcava terrenos e matou um miúdo de escola, o que deu processo crime e escândalo grande. E os amantes, que foram muitos (est-ce ma faute à moi?). Mandela disse sempre que fora ele o chefe que abandonara a família, mas as diferenças entre os dois eram incompatíveis e divorciaram-se. Morreu depois dele, com quem mantinha relação pública de amizade e ganhou o seu lugar na História. O lado democrático do ANC que procura construir uma África do Sul decente depois da inépcia de Thabo Mbeki e da corrupção teratológica de Jacob Zuma continua a abominar a sua memória. O lado revolucionário do ANC que quer a expropriação dos brancos e política social ruinosa continua a adorá-la.

 

Quanto a Nelson, teve outras mulheres; o casamento tardio com Graça Machel pareceu trazer-lhe mais felicidade do que qualquer outro. Nestas coisas não há regras.

 

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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

seven pillars

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Sete Pilares de Sabedoria: a honra da Arábia

 

 

 

Na passada sexta-feira a Arábia Saudita declarou que o jornalista Jamal Khashoggi tinha morrido agredido em luta corpo a corpo no gabinete do consul da Arábia Saudita em Instanbul  – depois de semanas passadas a afirmar que ele saíra livremente do consulado onde por seu pé entrara horas antes. À parte o presidente Trump que achou a declaração credível e um bom começo de esclarecimento, toda a gente continuou indignada pela falta de explicação satisfatória para o crime bizarro e hediondo praticado pelos Sauditas. Alimentados por escutas, diplomaticamente ilegais mas tecnicamente satisfatórias, feitas pelos serviços secretos turcos (porventura já partilhadas com autoridades americanas), jornais de Ankara e Istambul têm vindo a contar o que se passou.

 

Por proposta do consul, Khashoggi fora ao consulado receber documento que pedira provando o seu divórcio. Quando entrou no gabinete foi atacado por vários compatriotas chegados nessa manhã da Arábia que, em sete minutos, o  torturaram e mataram (cortaram-lhe alguns dedos não se percebendo bem na gravação se antes se depois de morto). A seguir, médico legista que trouxera a malinha dos pertences, desmembrou-o para o corpo poder ser transportado em caixas, dizendo aos outros para porem auscultadores com música a fim de atenuar o incómodo do momento. Ouve-se o consul pedir « Não façam isto aqui » e voz reponder-lhe que se quer ir depois viver na Arábia é melhor calar-se. Passadas duas horas, visitantes e morto ao bocados deixaram o consulado e foram apanhar o avião que os esperava para o regresso.

 

Khashoggi não era terrorista nem dissidente: dizia a verdade ao poder. Jornalista conceituado, antigo conselheiro de governantes e diplomatas sauditas, oposto à governação do príncipe Mohamed Ben Salman (MBS) - que é quem manda no país - decidira viver nos EUA, escrevendo duas colunas de opinião por semana no Washington Post. Não era um democrata, Westminsteriano ou Capitoliano; era um islamista moderado, perto dos Irmãos Muçulmanos, querendo sociedade que talvez achássemos tolerável mas onde não gostaríamos de viver. Escrevia bem, tinha público, o turco Erdogan era seu amigo. MBS odiava-o e, de temperamento violento e comportamento desiquilibrado, muita gente pensa que o tenha mandado matar.

 

Em 1922, o arqueólogo e militar inglês T.E. Lawrence publicou Seven Pillars of Wisdom, autobiografia que é joia da literatura inglesa e conta da sua guerra no deserto, ajudando principes árabes a libertarem-se do Império Otomano. Homens de honra, coragem e virtude, as histórias destes contribuiram muito para boa reputação árabe na Europa e nos Estados Unidos. Se o Rei Zalman a quiser recuperar deverá fazer julgar MBS e, se este for condenado à morte, deixá-lo decapitar como têm sido tantos dos seus súbditos. Politicamente incorrecto? Certamente. Mas talvez a Arábia Saudita começasse a ser respeitada de novo e pudesse enfim abordar reformas constitucionais.

 

 

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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Corinne-ou-l-Italie

Mme de Staël 

 

 

José Cutileiro

 

Guanxi

 

 

O homem da Chicago que, quando a União Soviética se eutanasiou levando consigo o comunismo, julgou que a história tinha acabado – a democracia capitalista viera para ficar per omnia saecula saeculurum– acha agora que a ruptura quase geral entre elites e bases (seria elitista chamar-lhes ralés) que faz parte do dia-a-dia político europeu e norte-americano de há uns dez anos para cá (ninguém vivo se lembra de nada assim e, na história, talvez só Madame de Staël se tenha apercebido de coisa parecida em Paris, no começo da Revolução Francesa) vem das bases se terem zangado por se acharem deitadas ao desprezo. Respeito é do que muita gente sente a falta nas nossas sociedades, julga o homem da Chicago.

 

Respeito é também o que querem mafiosos e ditadores; por isso é capaz mesmo de ser isso que faz falta às bases. Quando brancos pobres desempregados de alguns Estados americanos souberam - microfone ligado por engano - de Barack Obama perceber compungido que eles se agarrassem a Deus ou às espingardas (‘they cling to guns or religion’) e a antipatia por gente diferente, ofenderam-se com essa simpatia condescendente e, nas eleições de 2016, votaram em Trump que acharam parecido com eles na fala e, ao contrário dos doutores do costume, disposto a meter a mão na massa. (Estilos: no começo desta semana quer Obama quer Trump afirmaram ser mais responsável do que o outro pelo baixíssimo grau de desemprego no país). Mutatis mutandis, no Leste da Europa onde décadas de comunismo tinham abafado gosto pelo fascismo herdado dos anos 30, está a passar-se coisa parecida, com chefes políticos a reanimarem nas almas paixões que alguns julgavam extintas, incluindo por Hitler – e na Itália (que voltara a ser do lado de cá), apesar de mais de meio século de Democracia Cristã e de Eurocomunismo, por Mussolini.

 

O bom e o bonito, sobretudo para europeus e americanos convencidos (antes de Lenine querer reservar isso para os seus) de sermos a vanguarda do mundo. A reflexão grega, a moral de Cristo – cada um de nós é infinito e insubstituível – e a experimentação deram-nos aspirina e Estado de direito, isto é, melhor vida que em qualquer outra parte do planeta que já não leva P grande, perdido na Via Láctea, uma de muitos milhares de nebulosas. (“Porque é que a gaja se lembrou de dar uma dentada na maçã? Perdão, Deus seja louvado” – rosnará por ventura algum José Régio de hoje).

 

Porque éramos os melhores. Até Portugal, agora décima democracia do mundo, a querer afastar-se de privilégios injustos, de cunhas e favores que afundam os pobres na pobreza - e medram em sentido contrário ao da liberdade. Existem em todo o mundo, desde Cosa Nostra e seus juízes mortos à bomba até ao Guanxi chinês, a maior rede informal de pressões e favores do nosso tempo que consolida poder de governantes, tolhe iniciativa de governados e impede que a China algum dia se transforme numa democracia. Como a Sicília - mas a China é a maior economia do mundo e quer mandar nele.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Edmund Burke retratado por Joshua Reynolds
via Wikimedia Commons

 

 

 

 

José Cutileiro

 

O primeiro pecado é ser pobre

 

 

Assim declarava o anglo-irlandês Bernard Shaw (1856-1950) e acrescentava: Quando alguém me diz sou inculto mas é porque sou pobre, está a desculpar um mal com outro pior; é como se me dissesse: sou coxo mas é da sífilis. Shaw morreu velho demais para a altura – partira o colo do fémur e respondera a jornalistas à entrada do hospital: se eu escapar desta é porque sou imortal – mas não era e lá ficou. Isto há quase três quartos de século mas, há pouco tempo, tão pouco que lhe escrevi IN MEMORIAM no Expresso, morreu quase tão velho quanto Bernard Shaw mas sem ninguém estranhar isso (hoje, morrer com mais de noventa anos é banal) o francês Claude Lanzmann (1925-2018), autor do filme de dez horas «Shoah», monumento cinematográfico e ariete da condenação do antissemitismo (e único amante de Simone de Beauvoir  autorizado a viver debaixo do mesmo teto que ela), várias décadas antes de morrer declarara: Falhei a vida – J’ai raté ma vie – porque não nasci rico.

 

Sentimentos assim são raramente expressos com essa clareza cirúrgica mas muita gente os alberga, sobretudo em alturas em que o futuro vislumbrado pareça ser menos  agradável do que o presente; em que se pense que os filhos vão ter pior vida do que os pais, como está a acontecer agora na Europa e nos Estados Unidos da América (salvo entre aqueles que os espanhois chamam los ricos-ricos) e não acontecia desde o fim da Segunda Guerra Mundial, décadas em que a gente, de um e do outro lado do Atlântico, até já se esquecera de que tal poderia acontecer. E quando, ao contrário do que se passa agora, cada um sabia ir ganhar mais para o ano, como neste ano ganhara mais do que no ano passado; quando a minha mulher a dias, sabendo que trocaria vantajosamente o seu Toyota em segunda mão, tanto se lhe dava quanto se lhe desse que eu tivesse um ou dois BMWs ou que banqueiros milionários fotografados em revistas a cores coleccionassem Bentleys ou Ferraris. Tout allait pour le mieux dans le meilleur des mondes possibles.

 

Chão que deu uvas e, entretanto, tudo se complica: sem benevolência cúmplice do pobre para o rico, o fel de tribunos enraivados enche as almas do povo que os aplaude. (Os Burke* têm quase sempre razão mas os participantes quase nunca lha a dão a tempo – L’on immole à l’être abstrait les êtres réels et l’on offre au peuple en masse l’holocauste du peuple en détail observou Benjamin Constant sobre o chamado Terror da Revolução Francesa, ninharia por padrões contemporâneos mas marco de infâmia na história europeia). Tal se passa agora nos Estados Unidos: a energia de Trump assegura preferência e apoio inabaláveis de brancos pobres, que metem medo aos parlamentares do Partido Republicano os quais por isso não se opoem a medidas calamitosas, prometidas em campanha pelo Presidente. Por detrás do espectáculo acumulam-se dolos e prejuízos crescentes – materiais e morais – para os Estados Unidos e riscos de mais incómodos, alguns fatais, para toda a gente.

 

 

*Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France, Londres, 1790

 

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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 Napoleão Bonaparte em Santa Helena

 Benjamin Robert Hayden

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

O Bem, o Mal e o Outro

 

 

Napoleão nasceu na Córsega, Estaline na Geórgia e Hitler na Áustria. Não há muitos franceses a detestar Napoleão que, do Panteão à Legião de Honra domina a paisagem (cada francês é coluna salomónica de um Ci-devante um Sans Culottee Napoleão ampara os dois). Quanto a Estaline, os pareceres estão divididos e pulhas como Putin hão de querer sempre puxá-lo para cima e esquecer as atrocidades. No que diz respeito a Hitler, circunstâncias garantiram que por mais de meio século a enormidade do Mal continuasse bem presente mas a canalha saudosista e os seus herdeiros começam a criar espaço, não só na Alemanha, para conversa ambígua que, ao longo da História, acabou sempre em anti-semitismo.

 

É a natureza humana. A escala modesta: quando eu era pequeno, em aldeias do Alentejo onde só houvesse uma loja que vendia de tudo, o dono tinha quase sempre vindo de fora (é mais fácil não fiar a estranhos do que a amigos e parentes que no dia do enterro segurarão borlas ou maçanetas). E as lealdades da tribo não aguentam sempre. No Reino de Aragão da Idade Média, em zaragata de feira, homem acossado gritava o seu nome e quem fosse da família saltava para o pé dele já de espada desembainhada ou de punhal na mão. O estado moderno, mais complexo, não instila fraternidades tão intensas. Quando, em 1994, fui escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental (na altura, a única organização de defesa europeia) houvera outros candidatos, entre eles Enrique Baron Crespo, que fora ministro de Felipe Gonzalez e Presidente do Parlamento Europeu. Passado mais de um mês recebi de amigo espanhol do meu tempo de Oxford carta manuscrita em inglês, datada em Darkest Périgord que começava assim: Dear José, The joy of seeing Enrique Baron lose the job, almost made me forget to congratulate you on getting it.

 

É por estas e por outras que os povos desconfiam das elites e nos têm mimoseado nos últimos tempos com criaturas mais ao gosto deles: Trump nos Estados Unidos (isto é, por toda a parte), Orban na Hungria, Erdogan na Turquia, o gémeo sobrevivente na Polónia e outros, às vezes ainda mais ou menos contidos pelo pendor democrático das instituições, como o jovem Chanceler austríaco. Na Alemanha a extrema-direita entrou pela primeira vez no Bundestag. E, por fim, a maior barbaridade de todas: o resultado do referendo britânico em que a maioria do povo quis sair da União Europeia, sem saber de todo o que isso significaria nem tampouco como o fazer. O espectáculo em Londres tem sido penoso e, do lado europeu, há também quem esconda mal a alegria de se ver finalmente livre da grande achega de decência e bom senso que o Reino Unido nos continuava a dar a todos.

 

Voltando ao começo: faz sempre jeito ter um bode expiatório para levar com a ira de Deus (ou, mais modestamente, com as sanções terrenas do inimigo vencedor). Mas my country right or wrong foi chão que deu uvas: as piores guerras são as civis. Quand je tue je sais qui je tue.

 

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Quarta-feira, 25 de Julho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Ouroboros @ wikipedia

 

 

José Cutileiro

 

 

Versões do Mito do Eterno Retorno

 

 

 

Federico Garcia Lorca achava que no Verão o calor em Granada era tão grande que era impossível fazer fosse o que fosse. E exemplificava: no Verão, em Granada, dois e dois nunca chegam a ser quatro. Quedan siempre y solamente dos y dos.

 

O poeta de ‘Romancero Gitano’ e dramaturgo de ‘La Casa de Bernarda Alba’, mesmo que, um serão no começo da guerra civil em Espanha (1936-1939), não tivesse sido levado à força por voluntários franquistas de casa de amigos em Granada com quem insistira em ir passar uns dias em vez de aceitar convite da actriz Margarita Xirgu e ir com ela para Buenos Aires, e morto a tiro e enterrado sem cerimónia em vala comum andaluza, certamente por ser esquerdista e homossexual, não teria quase de certeza chegado aos nossos dias porque, até hoje, nunca homem, mulher ou transgender chegou a fazer 120 anos. Senão teria visto os costumes mudarem no seu país ao ponto das pessoas se poderem casar umas com as outras, independentemente do sexo que tenham, e tal ser considerado progresso por muitos. 

 

Mas, se deitasse até aos 140 (agora estarei a futurar demais) seria capaz de assistir a retrocesso nos costumes e nas leis e encontrar a populaça nativa contente com tais recuos. E, apesar disso, olhando desta ponta da Europa e comparando-a com o resto do mundo, sentir-se-ia perigosamente só na sua vida, na sua liberdade, e na sua busca da felicidade, como náufrago em jangada no mar alto.

 

A história é um vaivém ou pelo menos assim parece agora, por um lado porque a grande aventura imaginada com princípio, meio e fim a caminho do Paraíso na Terra que tomou conta de metade do mundo durante bem mais de meio século e oferecia Criação e Juízo Final sem Deus a cortar as voltas, era afinal uma aldrabice enfeitada com crimes. E que, por outro lado as mudanças são agora cada vez mais rápidas do que costumavam ser. Até à revolução industrial, criar uma criança era ajudar a fazer com que ela se parecesse com o pai em crescida, se fosse menino ou com a mãe, se fosse  menina. Em Portugal, onde o que o pouco que houve de revolução industrial chegou mais tarde do que a outros países e onde o grosso da grei continuou graniticamente analfabeta quando tal já não acontecia em quase toda a Europa ocidental, o bonheur de vivre de que falava Talleyrand durou quase até ao tempo da minha escola primária.

 

Onde isso já vai tudo – tão longe que pode dar a volta. O que se fazia em várias gerações não leva hoje metade da vida de um homem a fazer. Lorca teria visto o progresso tornar os seus sonhos reais – mas se continuasse a sobreviver arriscar-se-ia a que nova realidade se instalasse e os tornasse irreais outra vez. Trump, Duterte, Erdogan, Orban, Bolsonaro - uma espécie de Trump tropical - outros ainda e candidatos a sê-lo. Para não falar do Império do Meio que, ao contrário do que a gente julgava desde Den Xiao Ping, acha que os nossos valores não são universais e acabou de instaurar a sua Monarquia Absoluta.

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Mon. Grande Guerra-

Monumento aos mortos da Grande Guerra em Lisboa

 

 

José Cutileiro

 

 

A caminho dos anos 40

 

 

                                        (…) isto lembra cada vez mais a transição dos 20 para os 30. Ainda há pouco tal pareceria impensável mas agora esperemos que não dê nos 40, escreveu-me o Fernando que esteve em muitos lugares, conheceu muita gente e tem a cabeça mais bem organizada que conheço fora do mundo académico (dentro tampouco há muitas capazes de lhe pedir meças). Não posso estar mais de acordo com ele.

 

Cada dia acrescenta sinais percursores. Por exemplo: governo austríaco, coligando direita dirigida por primeiro-ministro de 31 anos e extrema-direita mais idosa, fechou algumas mesquitas e expulsou imanes turcos. Por ter dado muito mais guardas de campos de concentração nazis per capitado que a própria Alemanha, a Áustria lembra-me o proverbial canário da mina (posto lá porque anidrido carbónico mata primeiro um canário do que um homem, dando tempo a este de fugir se houver fuga de gás).

 

Preocupante também, de outra maneira: nos Estados Unidos, 87% dos membros do Partido Republicano – homens e mulheres – aprovam sem reservas o desempenho do Presidente Trump. Na realidade, o partido deveria ter passado a chamar-se Partido de Trump. O Partido Republicano a que estávamos habituados, o de Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt, Ronald Reagan, foi de férias não se sabe para onde nem se algum dia voltará (ou pelo menos assim disse há dias John Boehner, um dos seus mais activos dirigentes nos tempos de Obama e Bush).

 

Trump fez campanha sem disfarçar quem era: mentiu a torto e a direito, recusou-se a revelar rendimentos, foi machista, racista, brutal e ordinário, insultou aleijados e inválidos de guerra, heróis ou não, exibiu ignorância, incompetência, xenofobia e desprezo por minorias e elites, tudo espetacularmente e ganhando a pouco e pouco cada vez mais adeptos. No voto popular ficou três milhões atrás de Hillary, mas em três Estados chave onde brancos pobres tinham votado Obama em 2008 e 2012 (e, portanto, derrotado Hillary nas primárias para 2008) desta vez votaram Trump, deram-lhe a eleição e acreditam nele como num salvador. Com oportunismo e curteza de vistas tradicionais, congressistas e senadores do partido por um lado, e homens de negócios por outro, atentos à voz do povo, decidiram pôr-se também do lado de Trump. Cálculo comparável mutatis mutandis ao de alguns apoiantes táticos do começo de Hitler (como o político Von Papen, absolvido em Nuremberg ou o industrial Krupp, condenado a dez anos) convencidos de que o domesticariam.

 

A época, o lugar, as pessoas são outras mas o que mudou foi que agora vai tudo mais depressa. O comunismo que ajudou a derrotar o fascismo era remédio falso – como remédio falso fora o fascismo – e a doença está assanhada outra vez. Por toda a parte há ricos, poucos, cada vez mais ricos e pobres, muitos, cada vez mais pobres. Não dá.

 

Coitado do meu neto? Talvez mas, vendo mais longe, talvez bisneto venha a festejar vitórias da Democracia e quedas de outros Muros de Berlim.

 

 

 

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Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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 S. Francisco de Assis - El Greco

 

 

José Cutileiro

 

 

A parte colérica da alma

 

 

Partido de extrema-direita ganhou as eleições na Eslovénia e irá juntar o país a outros do Centro e do Leste da Europa – Hungria, Polónia, República Checa, Áustria - e talvez em breve também do Oeste – Itália - que dizem não a emigrantes vindos de África e de Ásia (terras viciosas que há cinco séculos os portugueses andaram devastando, cantara Luís, zarolho de génio de cuja data de morte fizemos dia nacional, celebrado no Domingo).

 

Setenta e três anos passaram sobre a afirmação universal do Bem, quando em 1945 o Terceiro Reich se rendeu incondicionalmente aos aliados; afirmação confirmada, para os que ainda tivessem dúvidas, quarenta e quatro anos depois, quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo e os aliados bons derrotaram por fim os aliados maus; com demão suplementar da dita confirmação aplicada zelosamente entre Janeiro de 2009 e Janeiro de 2017 por Barack Obama, então inquilino da Casa Branca, convencido de que a sua passagem por lá iria melhorar o mundo (Razão, irmã do amor e da justiça mais uma vez escuta a minha prece, rogara também Antero, o suicida do jardim público em Ponta Delgada).

 

A parte colérica da alma está a voltar em força e a fomentar ódio ao estrangeiro em corações que nos últimos decénios andavam distraídos por outras coisas. Praticam-se crueldades que, julgávamos nós, tinham passado a ser inadmissíveis. Na fonteira entre o México e os Estados Unidos, famílias latino-americanas que para estes queiram emigrar legalmente vêm os filhos separados dos pais até à conclusão do processo, isto é, sine die, sem nada saberem uns dos outros. Tal enormidade Trumpiana (ele diz que a lei vem dos Democratas mas é mentira), condenada até por alguns senadores norte-americanos, continua de vento em popa. De desmandos de Putin, Orban, Erdogan, do faraónico Sisi e outros mandachuvas africanos, do grande chefe chinês que se fez declarar perpétuo pelo Partido, sabemos todas as noites no telejornal (se Sócrates, Pinho, EDP, Sporting, eutanásia e dentro de dias campeonato do mundo de futebol deixarem tempo…) e cada um já não nos incomoda mais que escassos segundos.

 

Achamos outra vez natural que os humanos sejam maus como as cobras uns para os outros, o que sempre aconteceu e muitas vezes por razões consideradas boas (quando retomou Goa em 1510, Albuquerque terríbil encheu um bote com orelhas e narizes de muçulmanos locais, castigados por o terem traído; no seu tempo de Vice-Rei, em barco cheio de muçulmanos apresado no alto mar, homens, mulheres e crianças eram sempre passados a fio de espada que a segurança do Império dispensava mais mourama).

 

A demanda do Bem, a convicção de que a felicidade passara a ser possível não levaram só ao Gulag ou a Pol Pot. Na decência tenaz de algumas  democracias burguesas pareceu  à vezes que certas maldades tinham acabado (como a varíola, no mundo natural). Grande engano. Como um sábio lembrou, a guerra é tão antiga quanto a humanidade; a paz é uma invenção recente.

 

 

 

publicado por VF às 12:32
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Quarta-feira, 9 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

corruption 2

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

« Onde é que é o guichet da corrupção ? »

 

 

Assim costumava perguntar há muitos anos, tio da Vera indignado por não ter tido ainda direito a nenhuma. Era uma reacção moderada e divertida, bem diferente da indignação tonitruante que viceja agora, abafando a reprovação genuína de alguma gente de bem e disfarçando a inveja (cruzes, canhoto!) que medra no peito fiel de muito patriota.

 

Nesta matéria, às vezes, há casos bicudos. Quando eu vivia em Princeton, New Jersey, soube pelo jornal diário o seguinte. Figura importante de Wall Street fora apanhada por investigação oficial num caso de informação priveligiada, levada a tribunal e condenada a alguns anos de cadeia. Beneficiado com a informação indevidamente transmitida contava-se seu próprio pai, médico reformado (se bem me lembro, nefrologista) com mais de oitenta anos que pudera vender as acções da sua poupança antes destas se desvalorizarem abruptamente - e fora também condenado. Eram judeus, tinham laços de família muito fortes (tal como acontece quase sempre em Portugal) e ocorreu-me na altura que o corretor haveria de ter sentido o que sentiria português trabalhando na Bolsa de Lisboa, apanhado em circunstâncias semelhantes. «Então uma moral universalista, que coloca à mesma distância de mim o último dos estranhos e o primeiro dos próximos, vai-me obrigar a deixar na miséria o meu pai? E numa idade em que já nem poderia tentar sair dela? Qual é o dever de um filho: cumprir lei cega perante valores milenários e deixar o pai pelas ruas da amargura? Ou arriscar-se a ignorar essa lei e cumprir as obrigações da tribo?» Palpita-me que a escolha do hipotético corretor alfacinha seria a mesma da do homem de Wall Street.

 

Impôr de repente leis gerais universalistas a gente regida  por usos e costumes tradicionais que poem a família no coração do mundo, é sempre o cabo dos trabalhos. Todas as potências coloniais descobriram isso. Também o descobriram os liberais portugueses a seguir a 1834, quando, de Lisboa, quiseram fazer chegar o país novo, inventado por Mouzinho da Silveira, a sombrias boticas de Trás-os-Montes, a barbeiros palreiros do Algarve. (Mouzinho escrevera cercado na Cidade Invicta, e já se demitira do governo quando os liberais ganharam a guerra aos miguelistas e se meteram a mudar Portugal).

 

Quase século e meio depois, os laços entre centro e periferia - entre Estado e povo - tinham cristalizado. Quanto ao que chamamos corrupção (termo que não era usado) em Câmara Municipal alentejana que conheci bem as coisas passavam-se assim. Quando camponês, pequeno comerciante ou artífice tinha de lá ir, se o assunto fosse tratado a nível baixo a gorgeta era 25 tostões; a nível alto, 5 mil reis. Dentro do funcionalismo porque presidente e vereadores, todos da mó de cima, não constavam da tabela. Trocavam favores.

 

Havia muito menos negócios, muito menos dinheiro a circular, os ricos nasciam ricos, os pobres morriam pobres. Ao comércio e à indústria o Dr. Salazar preferia a agricultura.

 

 

 

 

publicado por VF às 20:14
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