Quarta-feira, 12 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Mme de Staël 

 

 

José Cutileiro

 

Guanxi

 

 

O homem da Chicago que, quando a União Soviética se eutanasiou levando consigo o comunismo, julgou que a história tinha acabado – a democracia capitalista viera para ficar per omnia saecula saeculurum– acha agora que a ruptura quase geral entre elites e bases (seria elitista chamar-lhes ralés) que faz parte do dia-a-dia político europeu e norte-americano de há uns dez anos para cá (ninguém vivo se lembra de nada assim e, na história, talvez só Madame de Staël se tenha apercebido de coisa parecida em Paris, no começo da Revolução Francesa) vem das bases se terem zangado por se acharem deitadas ao desprezo. Respeito é do que muita gente sente a falta nas nossas sociedades, julga o homem da Chicago.

 

Respeito é também o que querem mafiosos e ditadores; por isso é capaz mesmo de ser isso que faz falta às bases. Quando brancos pobres desempregados de alguns Estados americanos souberam - microfone ligado por engano - de Barack Obama perceber compungido que eles se agarrassem a Deus ou às espingardas (‘they cling to guns or religion’) e a antipatia por gente diferente, ofenderam-se com essa simpatia condescendente e, nas eleições de 2016, votaram em Trump que acharam parecido com eles na fala e, ao contrário dos doutores do costume, disposto a meter a mão na massa. (Estilos: no começo desta semana quer Obama quer Trump afirmaram ser mais responsável do que o outro pelo baixíssimo grau de desemprego no país). Mutatis mutandis, no Leste da Europa onde décadas de comunismo tinham abafado gosto pelo fascismo herdado dos anos 30, está a passar-se coisa parecida, com chefes políticos a reanimarem nas almas paixões que alguns julgavam extintas, incluindo por Hitler – e na Itália (que voltara a ser do lado de cá), apesar de mais de meio século de Democracia Cristã e de Eurocomunismo, por Mussolini.

 

O bom e o bonito, sobretudo para europeus e americanos convencidos (antes de Lenine querer reservar isso para os seus) de sermos a vanguarda do mundo. A reflexão grega, a moral de Cristo – cada um de nós é infinito e insubstituível – e a experimentação deram-nos aspirina e Estado de direito, isto é, melhor vida que em qualquer outra parte do planeta que já não leva P grande, perdido na Via Láctea, uma de muitos milhares de nebulosas. (“Porque é que a gaja se lembrou de dar uma dentada na maçã? Perdão, Deus seja louvado” – rosnará por ventura algum José Régio de hoje).

 

Porque éramos os melhores. Até Portugal, agora décima democracia do mundo, a querer afastar-se de privilégios injustos, de cunhas e favores que afundam os pobres na pobreza - e medram em sentido contrário ao da liberdade. Existem em todo o mundo, desde Cosa Nostra e seus juízes mortos à bomba até ao Guanxi chinês, a maior rede informal de pressões e favores do nosso tempo que consolida poder de governantes, tolhe iniciativa de governados e impede que a China algum dia se transforme numa democracia. Como a Sicília - mas a China é a maior economia do mundo e quer mandar nele.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Edmund Burke retratado por Joshua Reynolds
via Wikimedia Commons

 

 

 

 

José Cutileiro

 

O primeiro pecado é ser pobre

 

 

Assim declarava o anglo-irlandês Bernard Shaw (1856-1950) e acrescentava: Quando alguém me diz sou inculto mas é porque sou pobre, está a desculpar um mal com outro pior; é como se me dissesse: sou coxo mas é da sífilis. Shaw morreu velho demais para a altura – partira o colo do fémur e respondera a jornalistas à entrada do hospital: se eu escapar desta é porque sou imortal – mas não era e lá ficou. Isto há quase três quartos de século mas, há pouco tempo, tão pouco que lhe escrevi IN MEMORIAM no Expresso, morreu quase tão velho quanto Bernard Shaw mas sem ninguém estranhar isso (hoje, morrer com mais de noventa anos é banal) o francês Claude Lanzmann (1925-2018), autor do filme de dez horas «Shoah», monumento cinematográfico e ariete da condenação do antissemitismo (e único amante de Simone de Beauvoir  autorizado a viver debaixo do mesmo teto que ela), várias décadas antes de morrer declarara: Falhei a vida – J’ai raté ma vie – porque não nasci rico.

 

Sentimentos assim são raramente expressos com essa clareza cirúrgica mas muita gente os alberga, sobretudo em alturas em que o futuro vislumbrado pareça ser menos  agradável do que o presente; em que se pense que os filhos vão ter pior vida do que os pais, como está a acontecer agora na Europa e nos Estados Unidos da América (salvo entre aqueles que os espanhois chamam los ricos-ricos) e não acontecia desde o fim da Segunda Guerra Mundial, décadas em que a gente, de um e do outro lado do Atlântico, até já se esquecera de que tal poderia acontecer. E quando, ao contrário do que se passa agora, cada um sabia ir ganhar mais para o ano, como neste ano ganhara mais do que no ano passado; quando a minha mulher a dias, sabendo que trocaria vantajosamente o seu Toyota em segunda mão, tanto se lhe dava quanto se lhe desse que eu tivesse um ou dois BMWs ou que banqueiros milionários fotografados em revistas a cores coleccionassem Bentleys ou Ferraris. Tout allait pour le mieux dans le meilleur des mondes possibles.

 

Chão que deu uvas e, entretanto, tudo se complica: sem benevolência cúmplice do pobre para o rico, o fel de tribunos enraivados enche as almas do povo que os aplaude. (Os Burke* têm quase sempre razão mas os participantes quase nunca lha a dão a tempo – L’on immole à l’être abstrait les êtres réels et l’on offre au peuple en masse l’holocauste du peuple en détail observou Benjamin Constant sobre o chamado Terror da Revolução Francesa, ninharia por padrões contemporâneos mas marco de infâmia na história europeia). Tal se passa agora nos Estados Unidos: a energia de Trump assegura preferência e apoio inabaláveis de brancos pobres, que metem medo aos parlamentares do Partido Republicano os quais por isso não se opoem a medidas calamitosas, prometidas em campanha pelo Presidente. Por detrás do espectáculo acumulam-se dolos e prejuízos crescentes – materiais e morais – para os Estados Unidos e riscos de mais incómodos, alguns fatais, para toda a gente.

 

 

*Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France, Londres, 1790

 

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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 Napoleão Bonaparte em Santa Helena

 Benjamin Robert Hayden

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

O Bem, o Mal e o Outro

 

 

Napoleão nasceu na Córsega, Estaline na Geórgia e Hitler na Áustria. Não há muitos franceses a detestar Napoleão que, do Panteão à Legião de Honra domina a paisagem (cada francês é coluna salomónica de um Ci-devante um Sans Culottee Napoleão ampara os dois). Quanto a Estaline, os pareceres estão divididos e pulhas como Putin hão de querer sempre puxá-lo para cima e esquecer as atrocidades. No que diz respeito a Hitler, circunstâncias garantiram que por mais de meio século a enormidade do Mal continuasse bem presente mas a canalha saudosista e os seus herdeiros começam a criar espaço, não só na Alemanha, para conversa ambígua que, ao longo da História, acabou sempre em anti-semitismo.

 

É a natureza humana. A escala modesta: quando eu era pequeno, em aldeias do Alentejo onde só houvesse uma loja que vendia de tudo, o dono tinha quase sempre vindo de fora (é mais fácil não fiar a estranhos do que a amigos e parentes que no dia do enterro segurarão borlas ou maçanetas). E as lealdades da tribo não aguentam sempre. No Reino de Aragão da Idade Média, em zaragata de feira, homem acossado gritava o seu nome e quem fosse da família saltava para o pé dele já de espada desembainhada ou de punhal na mão. O estado moderno, mais complexo, não instila fraternidades tão intensas. Quando, em 1994, fui escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental (na altura, a única organização de defesa europeia) houvera outros candidatos, entre eles Enrique Baron Crespo, que fora ministro de Felipe Gonzalez e Presidente do Parlamento Europeu. Passado mais de um mês recebi de amigo espanhol do meu tempo de Oxford carta manuscrita em inglês, datada em Darkest Périgord que começava assim: Dear José, The joy of seeing Enrique Baron lose the job, almost made me forget to congratulate you on getting it.

 

É por estas e por outras que os povos desconfiam das elites e nos têm mimoseado nos últimos tempos com criaturas mais ao gosto deles: Trump nos Estados Unidos (isto é, por toda a parte), Orban na Hungria, Erdogan na Turquia, o gémeo sobrevivente na Polónia e outros, às vezes ainda mais ou menos contidos pelo pendor democrático das instituições, como o jovem Chanceler austríaco. Na Alemanha a extrema-direita entrou pela primeira vez no Bundestag. E, por fim, a maior barbaridade de todas: o resultado do referendo britânico em que a maioria do povo quis sair da União Europeia, sem saber de todo o que isso significaria nem tampouco como o fazer. O espectáculo em Londres tem sido penoso e, do lado europeu, há também quem esconda mal a alegria de se ver finalmente livre da grande achega de decência e bom senso que o Reino Unido nos continuava a dar a todos.

 

Voltando ao começo: faz sempre jeito ter um bode expiatório para levar com a ira de Deus (ou, mais modestamente, com as sanções terrenas do inimigo vencedor). Mas my country right or wrong foi chão que deu uvas: as piores guerras são as civis. Quand je tue je sais qui je tue.

 

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Quarta-feira, 25 de Julho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Ouroboros @ wikipedia

 

 

José Cutileiro

 

 

Versões do Mito do Eterno Retorno

 

 

 

Federico Garcia Lorca achava que no Verão o calor em Granada era tão grande que era impossível fazer fosse o que fosse. E exemplificava: no Verão, em Granada, dois e dois nunca chegam a ser quatro. Quedan siempre y solamente dos y dos.

 

O poeta de ‘Romancero Gitano’ e dramaturgo de ‘La Casa de Bernarda Alba’, mesmo que, um serão no começo da guerra civil em Espanha (1936-1939), não tivesse sido levado à força por voluntários franquistas de casa de amigos em Granada com quem insistira em ir passar uns dias em vez de aceitar convite da actriz Margarita Xirgu e ir com ela para Buenos Aires, e morto a tiro e enterrado sem cerimónia em vala comum andaluza, certamente por ser esquerdista e homossexual, não teria quase de certeza chegado aos nossos dias porque, até hoje, nunca homem, mulher ou transgender chegou a fazer 120 anos. Senão teria visto os costumes mudarem no seu país ao ponto das pessoas se poderem casar umas com as outras, independentemente do sexo que tenham, e tal ser considerado progresso por muitos. 

 

Mas, se deitasse até aos 140 (agora estarei a futurar demais) seria capaz de assistir a retrocesso nos costumes e nas leis e encontrar a populaça nativa contente com tais recuos. E, apesar disso, olhando desta ponta da Europa e comparando-a com o resto do mundo, sentir-se-ia perigosamente só na sua vida, na sua liberdade, e na sua busca da felicidade, como náufrago em jangada no mar alto.

 

A história é um vaivém ou pelo menos assim parece agora, por um lado porque a grande aventura imaginada com princípio, meio e fim a caminho do Paraíso na Terra que tomou conta de metade do mundo durante bem mais de meio século e oferecia Criação e Juízo Final sem Deus a cortar as voltas, era afinal uma aldrabice enfeitada com crimes. E que, por outro lado as mudanças são agora cada vez mais rápidas do que costumavam ser. Até à revolução industrial, criar uma criança era ajudar a fazer com que ela se parecesse com o pai em crescida, se fosse menino ou com a mãe, se fosse  menina. Em Portugal, onde o que o pouco que houve de revolução industrial chegou mais tarde do que a outros países e onde o grosso da grei continuou graniticamente analfabeta quando tal já não acontecia em quase toda a Europa ocidental, o bonheur de vivre de que falava Talleyrand durou quase até ao tempo da minha escola primária.

 

Onde isso já vai tudo – tão longe que pode dar a volta. O que se fazia em várias gerações não leva hoje metade da vida de um homem a fazer. Lorca teria visto o progresso tornar os seus sonhos reais – mas se continuasse a sobreviver arriscar-se-ia a que nova realidade se instalasse e os tornasse irreais outra vez. Trump, Duterte, Erdogan, Orban, Bolsonaro - uma espécie de Trump tropical - outros ainda e candidatos a sê-lo. Para não falar do Império do Meio que, ao contrário do que a gente julgava desde Den Xiao Ping, acha que os nossos valores não são universais e acabou de instaurar a sua Monarquia Absoluta.

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Monumento aos mortos da Grande Guerra em Lisboa

 

 

José Cutileiro

 

 

A caminho dos anos 40

 

 

                                        (…) isto lembra cada vez mais a transição dos 20 para os 30. Ainda há pouco tal pareceria impensável mas agora esperemos que não dê nos 40, escreveu-me o Fernando que esteve em muitos lugares, conheceu muita gente e tem a cabeça mais bem organizada que conheço fora do mundo académico (dentro tampouco há muitas capazes de lhe pedir meças). Não posso estar mais de acordo com ele.

 

Cada dia acrescenta sinais percursores. Por exemplo: governo austríaco, coligando direita dirigida por primeiro-ministro de 31 anos e extrema-direita mais idosa, fechou algumas mesquitas e expulsou imanes turcos. Por ter dado muito mais guardas de campos de concentração nazis per capitado que a própria Alemanha, a Áustria lembra-me o proverbial canário da mina (posto lá porque anidrido carbónico mata primeiro um canário do que um homem, dando tempo a este de fugir se houver fuga de gás).

 

Preocupante também, de outra maneira: nos Estados Unidos, 87% dos membros do Partido Republicano – homens e mulheres – aprovam sem reservas o desempenho do Presidente Trump. Na realidade, o partido deveria ter passado a chamar-se Partido de Trump. O Partido Republicano a que estávamos habituados, o de Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt, Ronald Reagan, foi de férias não se sabe para onde nem se algum dia voltará (ou pelo menos assim disse há dias John Boehner, um dos seus mais activos dirigentes nos tempos de Obama e Bush).

 

Trump fez campanha sem disfarçar quem era: mentiu a torto e a direito, recusou-se a revelar rendimentos, foi machista, racista, brutal e ordinário, insultou aleijados e inválidos de guerra, heróis ou não, exibiu ignorância, incompetência, xenofobia e desprezo por minorias e elites, tudo espetacularmente e ganhando a pouco e pouco cada vez mais adeptos. No voto popular ficou três milhões atrás de Hillary, mas em três Estados chave onde brancos pobres tinham votado Obama em 2008 e 2012 (e, portanto, derrotado Hillary nas primárias para 2008) desta vez votaram Trump, deram-lhe a eleição e acreditam nele como num salvador. Com oportunismo e curteza de vistas tradicionais, congressistas e senadores do partido por um lado, e homens de negócios por outro, atentos à voz do povo, decidiram pôr-se também do lado de Trump. Cálculo comparável mutatis mutandis ao de alguns apoiantes táticos do começo de Hitler (como o político Von Papen, absolvido em Nuremberg ou o industrial Krupp, condenado a dez anos) convencidos de que o domesticariam.

 

A época, o lugar, as pessoas são outras mas o que mudou foi que agora vai tudo mais depressa. O comunismo que ajudou a derrotar o fascismo era remédio falso – como remédio falso fora o fascismo – e a doença está assanhada outra vez. Por toda a parte há ricos, poucos, cada vez mais ricos e pobres, muitos, cada vez mais pobres. Não dá.

 

Coitado do meu neto? Talvez mas, vendo mais longe, talvez bisneto venha a festejar vitórias da Democracia e quedas de outros Muros de Berlim.

 

 

 

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Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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 S. Francisco de Assis - El Greco

 

 

José Cutileiro

 

 

A parte colérica da alma

 

 

Partido de extrema-direita ganhou as eleições na Eslovénia e irá juntar o país a outros do Centro e do Leste da Europa – Hungria, Polónia, República Checa, Áustria - e talvez em breve também do Oeste – Itália - que dizem não a emigrantes vindos de África e de Ásia (terras viciosas que há cinco séculos os portugueses andaram devastando, cantara Luís, zarolho de génio de cuja data de morte fizemos dia nacional, celebrado no Domingo).

 

Setenta e três anos passaram sobre a afirmação universal do Bem, quando em 1945 o Terceiro Reich se rendeu incondicionalmente aos aliados; afirmação confirmada, para os que ainda tivessem dúvidas, quarenta e quatro anos depois, quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo e os aliados bons derrotaram por fim os aliados maus; com demão suplementar da dita confirmação aplicada zelosamente entre Janeiro de 2009 e Janeiro de 2017 por Barack Obama, então inquilino da Casa Branca, convencido de que a sua passagem por lá iria melhorar o mundo (Razão, irmã do amor e da justiça mais uma vez escuta a minha prece, rogara também Antero, o suicida do jardim público em Ponta Delgada).

 

A parte colérica da alma está a voltar em força e a fomentar ódio ao estrangeiro em corações que nos últimos decénios andavam distraídos por outras coisas. Praticam-se crueldades que, julgávamos nós, tinham passado a ser inadmissíveis. Na fonteira entre o México e os Estados Unidos, famílias latino-americanas que para estes queiram emigrar legalmente vêm os filhos separados dos pais até à conclusão do processo, isto é, sine die, sem nada saberem uns dos outros. Tal enormidade Trumpiana (ele diz que a lei vem dos Democratas mas é mentira), condenada até por alguns senadores norte-americanos, continua de vento em popa. De desmandos de Putin, Orban, Erdogan, do faraónico Sisi e outros mandachuvas africanos, do grande chefe chinês que se fez declarar perpétuo pelo Partido, sabemos todas as noites no telejornal (se Sócrates, Pinho, EDP, Sporting, eutanásia e dentro de dias campeonato do mundo de futebol deixarem tempo…) e cada um já não nos incomoda mais que escassos segundos.

 

Achamos outra vez natural que os humanos sejam maus como as cobras uns para os outros, o que sempre aconteceu e muitas vezes por razões consideradas boas (quando retomou Goa em 1510, Albuquerque terríbil encheu um bote com orelhas e narizes de muçulmanos locais, castigados por o terem traído; no seu tempo de Vice-Rei, em barco cheio de muçulmanos apresado no alto mar, homens, mulheres e crianças eram sempre passados a fio de espada que a segurança do Império dispensava mais mourama).

 

A demanda do Bem, a convicção de que a felicidade passara a ser possível não levaram só ao Gulag ou a Pol Pot. Na decência tenaz de algumas  democracias burguesas pareceu  à vezes que certas maldades tinham acabado (como a varíola, no mundo natural). Grande engano. Como um sábio lembrou, a guerra é tão antiga quanto a humanidade; a paz é uma invenção recente.

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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José Cutileiro

 

 

 

« Onde é que é o guichet da corrupção ? »

 

 

Assim costumava perguntar há muitos anos, tio da Vera indignado por não ter tido ainda direito a nenhuma. Era uma reacção moderada e divertida, bem diferente da indignação tonitruante que viceja agora, abafando a reprovação genuína de alguma gente de bem e disfarçando a inveja (cruzes, canhoto!) que medra no peito fiel de muito patriota.

 

Nesta matéria, às vezes, há casos bicudos. Quando eu vivia em Princeton, New Jersey, soube pelo jornal diário o seguinte. Figura importante de Wall Street fora apanhada por investigação oficial num caso de informação priveligiada, levada a tribunal e condenada a alguns anos de cadeia. Beneficiado com a informação indevidamente transmitida contava-se seu próprio pai, médico reformado (se bem me lembro, nefrologista) com mais de oitenta anos que pudera vender as acções da sua poupança antes destas se desvalorizarem abruptamente - e fora também condenado. Eram judeus, tinham laços de família muito fortes (tal como acontece quase sempre em Portugal) e ocorreu-me na altura que o corretor haveria de ter sentido o que sentiria português trabalhando na Bolsa de Lisboa, apanhado em circunstâncias semelhantes. «Então uma moral universalista, que coloca à mesma distância de mim o último dos estranhos e o primeiro dos próximos, vai-me obrigar a deixar na miséria o meu pai? E numa idade em que já nem poderia tentar sair dela? Qual é o dever de um filho: cumprir lei cega perante valores milenários e deixar o pai pelas ruas da amargura? Ou arriscar-se a ignorar essa lei e cumprir as obrigações da tribo?» Palpita-me que a escolha do hipotético corretor alfacinha seria a mesma da do homem de Wall Street.

 

Impôr de repente leis gerais universalistas a gente regida  por usos e costumes tradicionais que poem a família no coração do mundo, é sempre o cabo dos trabalhos. Todas as potências coloniais descobriram isso. Também o descobriram os liberais portugueses a seguir a 1834, quando, de Lisboa, quiseram fazer chegar o país novo, inventado por Mouzinho da Silveira, a sombrias boticas de Trás-os-Montes, a barbeiros palreiros do Algarve. (Mouzinho escrevera cercado na Cidade Invicta, e já se demitira do governo quando os liberais ganharam a guerra aos miguelistas e se meteram a mudar Portugal).

 

Quase século e meio depois, os laços entre centro e periferia - entre Estado e povo - tinham cristalizado. Quanto ao que chamamos corrupção (termo que não era usado) em Câmara Municipal alentejana que conheci bem as coisas passavam-se assim. Quando camponês, pequeno comerciante ou artífice tinha de lá ir, se o assunto fosse tratado a nível baixo a gorgeta era 25 tostões; a nível alto, 5 mil reis. Dentro do funcionalismo porque presidente e vereadores, todos da mó de cima, não constavam da tabela. Trocavam favores.

 

Havia muito menos negócios, muito menos dinheiro a circular, os ricos nasciam ricos, os pobres morriam pobres. Ao comércio e à indústria o Dr. Salazar preferia a agricultura.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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bola de cristal

 

 

José Cutileiro

 

À procura do futuro?

 

 

 

Dois factos

 

Primeiro: Entre 2007 e 2017, os proventos dos administradores das cem maiores companhias do Reino Unido foram multiplicados por quatro, isto é, passaram em média de um milhão para quatro milhões de libras esterlinas por ano. Durante a mesma década, os proventos do geral das pessoas empregues por conta de outrem no Reino Unido aumentaram de 10%, isto é de 1% por ano.

 

Segundo: Também no Reino Unido, à pergunta, corrente em inquéritos de sociedade, ‘Acha que os seus filhos vão ter vida melhor do que a sua?’ as respostas, até 2007, tinham sido quase sempre sim – e, a partir de 2008, passaram a ser quase sempre não.

 

Uma preocupação.

 

Em toda a Europa Ocidental, comentadores nos jornais, nas telefonias, nas televisões alarmam-nos de há alguns anos a esta parte com o crescimento do chamado populismo. Referendo no Reino Unido a escolher saída da União Europeia; eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos; eleição – e reeleição recente e reforçada – de Vitor Orban para primeiro ministro da Hungria; popularidade mantida pelo actual governo liberticida polaco; subida nas sondagens da Frente Nacional em França e – mais ainda – do movimento Cinco Estrelas na Itália, são dados como exemplos, entre outros, desse crescimento. Aos jornalistas juntam-se os cientistas políticos (a final de contas, uma espécie de jornalistas lentos e  possuídos por ‘the craving for generalizations’ que tanto irritava Wittgenstein) os quais tentam definir populismo, classificar variedades, comparar os seus aproveitamentos por demagogos de direita e de esquerda . Uns e outros, os rápidos e os lentos, preocupados por verem a Democracia mirrar dia a dia diante dos seus olhos, espécie de bambu ao contrário.

 

Um lembrete.

 

Ao contrário do que muito boa gente parece pensar, o fim do comunismo – o colapso da União Soviética; o mandarinato marxista-leninista de Beijing – não foi a extinção de uma doença. Foi o falhanço de um remédio e a sua desacreditação. O comunismo perdeu a Guerra Fria porque era pior do que o capitalismo mas a maneira como as coisas têm corrido desde então está a dar ao capitalismo uma vitória pírrica. Prosseguindo na metáfora médica: a doença continua e, esgotadas todas as variedades da mezinha experimentada primeiro em 1917 – de Pol Pot às democracias sociais nórdicas – parece urgente descobrir outro tratamento.

 

Um palpite.

 

Estaline disse a Churchill em Yalta que o embaixador que ele lhe mandara para Moscovo durante a guerra, trabalhista fabiano, era de primeira água mas tinha mania curiosa: querer explicar-lhe a ele, Estaline, o que era o socialismo. Quase 80 anos depois, se os povos fossem gatos, não seria por nenhuma dessas duas vias que iriam às filhoses. Nem pela da Rerum novarum.Inventar-se-ão misturas mais sensatas do que as ortodoxias vigentes. Se os Estados Unidos correrem com o maluco a tempo, mesmo que já não possam ser donos do jardim zoológico talvez ainda possam servir de polícia de trânsito.

  

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Stephen Hawking (1942-2018)

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Escala nossa

 

 

 

Treze milhões e setecentos mil milhões de anos é um ror de tempo. Só a muitíssimo poucos de entre nós é dado imaginá-los e esses usam estratagemas algébricos ou geométricos que tornam os raciocínios sustentáveis e plausíveis. Porque os sábios destas coisas dos nossos dias estão convencidos de que foi nessa altura (há quase quatorze mil milhões de anos) que o universo começou, a partir do Big Bang inicial. Isto é, o tempo começou aí e acabará um dia; o espaço é outra história: porventura infinito, ou haverá mesmo uma infinidade de universos paralelos ao nosso.

 

Faz espécie que assim seja – mas faz mais espécie ainda que se saiba que assim é. Pondo de parte as tentativas dos poderes que houvesse de abafar conhecimentos novos – nesta matéria, o caso mais conhecido e melhor documentado de obscurantismo é o do processo e julgamento de Galileu há pouco mais de trezentos anos – que são epifenómenos menores, o que realmente nos pode deixar estupefactos (ou, pelo menos, me deixa estupefacto a mim) é olhar para céu de noite, limpo e sem luar, ver os milhares de astros que o cravejam e saber que a todos foi dado um nome, de todos se sabe o tamanho e a posição relativa, a distância da Terra de cada um deles e as distâncias entre eles de uns para os outros; das estrelas as quantidades de luz que emitem e, dos planetas, que reflectem; dos cometas, as respectivas periodicidades.

 

É, por assim dizer, uma estupefacção compensatória. Passados alguns séculos inebriados a seguir à consolidação do poder cristão e consequente arrumo nosso no centro do Universo (que, em lugares sem televisão e sem alfabetização, poderá durar ainda, porventura juntamente com a crença de que o mundo é plano) vieram Copérnico, Tico Brae, Galileu, pôr-nos em rota inexorável para uma periferia qualquer e, passando do cósmico ao terrestre,veio depois Charles Darwin que, cheio de escrúpulos e de descobertas contrárias às suas convicções de infância (era filho de um pastor da Igreja Anglicana), nos deixou muito mais longe dos anjos e muito mais perto dos símios do que estávamos antes.

 

Mas esta passagem de cavalo para burro, de camarote à boca de cena para banco no galinheiro, foi mais aparente do que real porque a ciência, retomando o fio de meada que passara pela Grécia nela se reforçando e juntando-lhe catadupas de experiência aumentou de maneira incalculável o conhecimento do mundo e de nós próprios. De maneira que, se é verdade que muitos de nós deixaram de crer ser feitos à imagem e semelhança de Deus e que todos nós (salvo talvez no Alabama profundo) deixámos de estar no centro geográfico do universo, sabemos muito mais de nós e do mundo do que os nossos antepassados e os nossos netos saberão muito mais ainda do que nós.

 

O tempo histórico é diferente do cósmico. Quando era pequeno, conheci Senhora muito velha que, quando era pequena, conhecera Senhora muito velha que, quando era pequena, vira entrar em Lisboa os soldados de Junot de que se lembrava ainda.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Fake news

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Et nunc et semper

 

 

Há agora grande animação a propósito de fake-news e de aldrabices quejandas que fervilham desde que os americanos escolheram para Presidente um mentiroso compulsivo (mas - ao contrário dos mitómanos que ás vezes se prejudicam com as mentiras que inventam – este está sempre a ver se leva água ao seu moinho e, quando não o consegue, foi por limitação de inteligência, de cultura ou de informação como acontece tantas vezes a chicos espertos e não por reconhecimento de a razão estar do outro lado. Há quem diga nessas alturas que o Presidente é sobretudo narcisista, como se tal fosse grande pecado, mas eu não estou convencido: Oscar Wilde contava que as águas do lago, quando lhes perguntaram se Narciso era realmente belo, responderam que não sabiam porque, quando Narciso vinha ver-se nelas, não olhavam para ele - olhavam para si próprias nas meninas dos olhos dele. Atirar a primeira pedra…

 

Felizmente, pelo menos por enquanto, a algazarra passa-se sobretudo nas chamadas redes sociais, uma gigantesca bolha, porventura ela própria dentro de uma outra bolha - e por aí fora - onde vivem deusas e deuses, homens e mulheres, onde se mata, se morre, se ama, se odeia, se acaba e se recomeça, como se se a vida fosse uma fantasia impune de ricos e, enquanto assim for, não virá daí mais mal ao mundo do que aquele que já tinha vindo ao longo de milénios, por mor de quezílias semelhantes, explodindo em amores e ódios, dividindo famílias, nações e fés, pelo menos desde Abel e Caim (para leitora que prefira ou esteja mais calhada com a mitologia cristã). Se fake news e fantasias acopladas tomassem conta dos livros texto, da experimentação e dos debates em cirurgia torácica, por exemplo, ou na construção de pontes sobre rios ou na pilotagem automática de automóveis e de aviões ou na análise, selecção e engarrafamento da Água do Luso – aí haveria razão para grande susto. De algoritmos a física quântica, muita coisa hoje nos organiza as vidas, cujo entendimento escapa a muitos de nós mas cujo estatuto científico e técnico não é minado pela tagarelice cacofónica zumbindo constantemente ao nosso alcance visual e auditivo nas redes sociais. O que é minado, esse sim, é o chamado conhecimento comum, já de si vago, incoerente, gabarola, e há eras sem fim, constantemente posto à prova pelas religiões do mundo, sobretudo pelas religiões reveladas e, destas, pelas três maiores: Cristianismo, Islamismo e Judaísmo.

 

O que mudou, quase desapareceu, são os guardas florestais e mais arranjos destinados a prevenir fogos incontroláveis no Pinhal de Leiria que é o espírito. O aparelho científico e, pelo menos por enquanto, a máquina judiciária estão seguros, olhando pelos conhecimentos lógico e empírico, por um lado, e pela aplicação das leis, por outro. No resto dos espaços públicos e privados, a razão arrisca-se a perder crédito; a autoridade e o acaso a constituírem-se soberanos – mas isso já o temia o Cavaleiro de Oliveira (1702-1783). Não há de ser nada.

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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