Quarta-feira, 28 de Agosto de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Soufflé Grand-Marnier aqui

 

José Cutileiro

 

O bistrot do francês

 

 

Mais exactamente, Le Bistrot Pierre-Marie, na Rua da Torre, acima e do outro lado do cemitério da Guia, encostado a um 5 à Sec, deixou de existir. Durante alguns dias os vidros guardaram o nome embora o lugar estivesse fechado e vazio. Depois, desses vidros foram tirados todos os dizeres. Referências aos prazeres da mesa fora de casa, que se encostavam a referência mal disfarçada aos prazeres do adultério citadino no nome da franchise de limpeza a seco, desapareceram de vez. Assim acabou ali a joie de vivrefrancesa.

 

Por Facebook e outras artimanhas dos nossos dias sabemos que Pierre-Marie pretende voltar a dar-nos prazeres gustativos não mais longe, presumo eu, do que umas cinco léguas em redondo. Mas tais notícias são poucas e vagas; não  noto progresso nelas; não vivo cá todo o ano e cheguei a idade na qual, no dia para que se acorda de manhã, as estatísticas dizem que tanto se pode viver quanto morrer  pelo que o regresso de Pierre-Marie e do seu bistrot é para mim urgente porque a sua falta faz minguar a qualidade de minha vida.

 

É certo que ao longo da costa, para quem, passado Paço d’Arcos, venha de Lisboa pela Marginal  e, de vez em quando, bem para dentro dela, desde os Santos do Estoril até ao Guincho – ou até à Praia Grande para os mais aventureiros – os restaurantes se seguem que sabem grelhar peixe (com distinção muito especial para Lourdes, na Boca do Inferno e Suzette na Adraga) mas o bistrot do francês não tinha nada a ver com isso. Estabelecera-se ao lado de Cascais, a estrada que da Rotunda Pedro Monjardino deitava até à sua porta pouco se afasta do tradicional vôo do corvo e não chegará a cobrir um quilómetro mas ele não  estava ali para grelhar peixe. Sem pretensões, com bons preços e bom senso, criara como um pequeno restaurante parisiense de bairro, onde souflés de queijo – e ultimamente também de Grand Marnier – e outras joias da gastronomia francesa eram feitos para serem comidos por clientela como eu que sabia ao que viera e encontrava o que queria.

 

O bistrot não fechou por Pierre-Marie ter adoecido ou estar cansado ou tal lhe dar na real gana. Fechou porque o contrato de arrendamento (o bail, dizem os franceses) acabara e para o renovar, animado pela explosão teratológica do mercado em Lisboa e arredores, o senhorio pedia tal montante que Pierre Marie, homem de coragem e experiência, habituado a lidar bem com riscos em várias partes do mundo, decidiu não poder aceitá-lo. Assim, a subida escandalosa de preços num sector do mercado imobiliário, provocado sobretudo por oferta francesa inesperada de que tantos portugueses à procura de casa se queixam agora, negou-nos a presença de pequeno restaurante francês que nos trazia presença civilizada única, livre por um lado de exageros regionais e, por outro, de pretensões universais falhadas de guindar a gastronomia ao estatuto de oitava arte. Comia-se como em pequeno restaurante de bairro parisiense, competente e sossegado – e faz falta.

 

 

 

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Quarta-feira, 10 de Julho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

pastéisPastéis de Belém, Lisboa. foto: alamy

 

José Cutileiro

 

Antes do grande sobressalto

 

 

O Deutsche Bank vai despedir 20.000 pessoas, sobretudo em Wall Street e Londres. O responsável pela política de investimentos, mal orientada e mal executada, causa principal dos desaires recentes, deixa também o banco, mas com 11 milhões de dólares de gratificação - li eu aqui em Bruxelas na primeira página do último FT Weekend. Se a gente juntar esta informação ao facto de na crise começada em 2008, parte importante do dinheiro emprestado à Grécia pelo FMI serviu prioritáriamente para pagar a bancos alemães, cúmplices da extravagância meridional, e também ao facto de nenhum responsável de banco ou outra instituição financeira privada europeus ter ido parar à cadeia por causa da dita crise, (um ou outro matou-se: ainda há homens de honra mas já não há moral pública) não espantará que alguns de nós suspeitem que as coisas vão ter de mudar. E como ‘patrician reformers’ dedicados a mudá-las a bem e de cima para baixo, parecem ter desaparecido (enquanto a filosofia dos actors principais do poder actual pode ser encapsulada no lema assustador atribuido a outra estrela do Deutsche, morto em desastre de avião em 2.000 : «Se não tens $100  milhões de dólares aos 40 anos és um falhado»), outros, menos bem educados e crentes convictos no valor curativo das revoluções, tentarão fazer a mudança a mal e a contrapelo. Não digo debaixo para cima porque o bom povo, antes de se meter ao barulho e marcado pela Comuna de Paris de 1871, pelos bolcheviques russos de 1917, e por desmandos ainda piores na Ásia e nas Américas esperará para ver qual dos lados o tratará menos mal antes de tomar partido. Acredite a leitora que vem aí uma broncalina do camandro ou uma Bernardette do caboz e que seja qual delas for a escolha não será sua.

 

«É muito grave deixar a Europa» diz o riquíssimo Jacinto ao seu amigo José Fernandes quando o comboio saído de Paris que os levava a Lisboa ia a passar os Pireneus. Hoje já há pouca gente que pense assim: Espanha e Portugal são refúgios quase bucólicos e os franceses em particular são gulosos deste recanto onde a terra se acaba e o mar começa que tão generosamente os acolhe no seu seio como de croissants ou baguettes ao pequeno almoço mas sem nunca esquecerem que a França é o centro do mundo. Apesar de avanços da extrema direita (em Portugal não a há, em parte porque o 25 de Abril deitou abaixo 48 anos dela e em parte porque, ao conquistar a sua primeira maioria absoluta Cavaco Silva foi mata-borrão que absorveu toda a direita, da mais centrista à mais extrema) grande maioria deles é a favor da União Europeia mas não à nossa maneira. Portugal quer estar na União para ficar mais europeu; a França que estar na União para que esta fique mais francesa. Vivi em França de 1977 a 1980 e achei que os franceses eram portugueses bem sucedidos e, portanto, mais arrogantes e menos simpáticos do que nós. Só vão ao sítio se tratados mal, o que será incompatível com regras básicas de turismo. A ver vamos.

 

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Quarta-feira, 26 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

míssil hipersónico USAmíssil hipersónico norte-americano

 

José Cutileiro

Guerras

 

Leio no jornal que americanos, russos e chineses trabalham em mísseis hipersónicos capazes de viajar a mais de 15 vezes a velocidade do som, de atingir num quarto de hora alvos russos ou chineses se forem americanos (ou americanos se forem russos ou chineses), levando cargas explosivas e podendo perfurar as paredes mais resistentes de abrigos atómicos subterrâneos ou as couraças de porta-aviões americanos. Leio também que, ao contrário do que acontecera a partir de certa altura durante a guerra fria, não há conversas entre os protagonistas para criar regras de protecção mútua que ajudassem a lidar com acidentes ou mal-entendidos. Nesse como em qualquer género de  armamento, os americanos de Trump não estão interessados em nada que cheire a prevenção e os outros tampouco insistem.

 

«Messieurs les anglais tirez les premiers» disse o tenente Conde de Auteroche na manhã de 11 de Maio de 1745, durante a guerra da sucessão da Áustria quando franceses e ingleses, com aliados vários, (ao todo 47.000 homens de um lado e 51.000 do outro) apoiavam pretendentes diferentes, assim dando começo à batalha de Fontenoy, no que eram então os Países Baixos austríacos e é hoje a Valónia, na Bélgica.  Nessa altura e até à Revolução Francesa (e, a seguir, à explosão dos nacionalismos) as guerras eram o grande desporto da fidalguia. Auteroche convidou os ingleses a atirarem primeiro como quem, num jogo de ténis entre amadores, convide a bolar primeiro quem o defronte do outro lado da rede. Escrevendo poucas décadas depois, o Príncipe de Ligne diz que o seu maior desgosto fora a morte do filho, decapitado por tiro de canhão do exército revolucionário francês. Conta da relação estreitada por terem combatido juntos, de como chegara a pensar que seria bom serem feridos ao mesmo tempo. Já no começo do fim desse mundo, Napoleão Bonaparte lembrou que a coragem (física) é a única virtude que não se pode imitar. As ruas das cidades europeias estão cheias de nomes de batalhas ganhas - e de quem as ganhou – para não as deixar sair da memória colectiva.

 

A guerra é tão antiga quanto a humanidade (recente, e não sei se duradoura, é a paz); houve, na Europa e alhures, além da fidalga e da nuclear, outras maneiras de a fazer, e haverá mais no futuro sob formas que talvez nem imaginemos. Vivemos, seja como for, em tempo muito especial: toda a gente fala da brecha aberta entre as elites e o resto. Salvo em páginas de Madame de Staël que deu por divórcio assim em Paris, no começo da Revolução Francesa, não há memória de coisa parecida na história que conhecemos. Talvez a razão seja a mesma: explosões gigantescas de liberdade, a exigirem outros costumes. (Em 1917 na Rússia não chegou a haver liberdade: Os lagartos mudam de pele/Para salvar o coração./Nós mudamos de coração/Para salvar a pele escreveu poeta local coevo, prontamente executado).

 

Dito isto: 1 Não há nada mais parecido com a França de Versailles do que a França do Eliseu. 2 E os mísseis hipersónicos?

 

 

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Quarta-feira, 24 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Notre Dame após incêndioCatedral de Notre Dame após o incêndio © Bloomberg/Getty Images

 

José Cutileiro

 

Notre-Dame e o resto

 

O Presidente Macron fez o que  pôde  para trazer o Papa Francisco a Paris no rescaldo do incêndio de Notre Dame mas o Papa que não só não é italiano mas tampouco é europeu, não se deixou convencer. Se tivesse vindo ajudaria talvez também a fazer esquecer em peitos fieis franceses as suas manifestações de amizade por Cardeal francês, compincha de longa data que muito o ajudou a subir ao trono pontifício, condenado há pouco em primeira instância em tribunal francês por ter protegido padre pedófilo, que Francisco recebeu em Roma recusando-se a aceitar a sua demissão (há apelo e há presunção de inocência, sublinhou o Vaticano). Macron, que precisará de legitimidade quase divina para conquistar de novo legitimidade eleitoral, há de ter ficado desapontado (decidira fazer-se baptizar aos 12 anos contra a opinião de pai livre-pensador; ultimamente diz-se que pende para o agnosticismo mas o ponto evidentemente não é esse – é a política: trazer o Papa a Paris teria aumentado a sua cota na França profunda e na outra).

 

Victor Hugo tem sido muito citado, com o corcunda Quasimodo e a cigana Esmeralda em primeira linha; a história de França relembrada desde o século XII, com as provações da catedral postas em relevo, mormente durante o Terror na Revolução Francesa de 1789 em que pensaram deitá-la abaixo e serviu de armazém. Rompendo com tradição da monarquia foi lá que Napoleão se coroou Imperador. E têm-se enumerado os tesouros perdidos no fogo bem como os tesouros salvos dele (entre estes últimos, discretamente, às vezes de maneira quase envergonhada, a mais notável das relíquias lá guardadas: a coroa de espinhos, que só os mais beatos entre os beatos acreditam ser a original – e que para espírito como o meu evoca sobretudo a visita a Jerusalém do Raposão, anticlerical e desavergonhado d’ A Relíquiade Eça de Queiroz e não o Calvário, com Cristo entre os dois ladrões).

 

Que as religiões – incluindo o catolicismo apostólico romano bem como suas Cruzadas e Inquisição – tenham sido dos maiores criadores de sofrimento no mundo é convenientemente esquecido nesta altura até porque também criaram, e continuam a criar, felicidades e êxtases sem paralelo e porque o catolicismo está a perder fieis, não tanto para o judaísmo e o islão mas para religiões protestantes evangélicas. E isso nota-se todos os dias: em França as igrejas católicas estão vazias nos dias e às horas de culto e as mesquitas estão cheias. Pior ainda, igrejas protestantes carismáticas, muito populares há décadas em África e na América Latina, estão agora pela primeira vez a entrar em força no Hexágono. E, ainda por cima, nenhum destes outros cultos (nem as igrejas protestantes tradicionais) está marcado pela mancha da pedofilia que a igreja de Roma começou por procurar esconder e negar. Tempos difíceis.

 

NB Vítimas têm-se queixado, passados anos. Ainda não soube de ninguém agradecer ao padre que o seduzira havê-lo colocado na via da sua própria natureza.

 

 

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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Hino pauta

 

 

 

José Cutileiro

 

As luzes estão apagar-se na Europa

 

 

Assim disse estadista inglês no começo da Primeira Guerra Mundial. Esse novo caminho para a escuridão está a ser trilhado agora, de maneira convencida não só na Polónia que parece vítima de maldição perene (Un polonais, un charmeur; deux polonais, une bagarre; trois polonais, la question polonaise, escreveu Voltaire que morreu antes da Revolução Francesa) e na Hungria, onde Victor Orban está metodicamente a enfraquecer democracia parlamentar por  governação autoritária e corrupta, com a cumplicidade do Partido Popular Europeu (que não o expulsa nem autoriza a Comissão Europeia a cortar-lhe finanças, continuando a pretender, contra toda a evidência, que o levará a mudar de rumo a bem) mas também em outros países da Europa de Leste onde se prestam agora homenagens a militares pro-nazis dos anos 30 e 40 do século passado - tratados de criminosos de guerra há  50 anos.

 

Na Europa dantes dita Ocidental a preocupação também é grande. Na Alemanha, talvez de todos os países europeus, aquele em que o apego à democracia parlamentar é maior (salvo na antiga Alemanha de Leste, envenenada à nascença pela mentira que a criara) o partido da Alternativa ganha terreno. Na Itália evoca-se abertamente saudade de Mussolini, e a coligação extrema direita/extrema esquerda que desgoverna agora o país entende-se em pouco mais do que no desprezo da democracia parlamentar e do estado de direito. Na Inglaterra, políticos desnorteados ou mal norteados transformam séculos de grande história to a trouble of fools (com vénia minha a Yeats). Em Espanha, pela primeira vez desde 1975, partido franquista ganha deputados em parlamento regional e lugar à mesa das pessoas de bem da política. Em França, há catorze fins de semanas, os gilets jaunes manifestam em ruas, estradas e rotundas, destroem propriedade, insultam o presidente da república e pedem democracia directa em vez de representativa (os lugares em que democracia directa foi tentada acabaram em ditadura mas ou não sabem isso ou é isso que querem). Paisagem retocada por antissemitismo renascente, que nestas coisas configura o tradicional canário da mina.

 

George Orwell escreveu algures que, de vez em quando, as pessoas queriam o mal, se batiam por ele. Madame de Stäel, no Paris revolucionário, sentira hiato entre políticos e povo, entre quem mandava e quem era mandado, como nunca sentira antes. Cesário Verde faz pensar: A dor humana busca amplos horizontes/E tem marés de fel como um sinistro mar. Mas ao lado de reflexões luminosas depressa surgem feitos medonhos, do terror de Robespierre às matanças de Pol Pot - e é para feitos assim que a Europa se está a pôr a jeito.

 

Portugal parece escapar à maré de fel. Em 1942, na inauguração do Estádio Nacional o governo salazarista fez espalhar de avionete milhares de panfletos rezando em grandes letras O QUE NÓS QUEREMOS É FUTEBOL. Se em inauguração próxima o governo democrático fizesse o mesmo o povo também haveria de gostar.

 

 

 

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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Igreja-Matriz-de-Reguengos-de-MonsarazIgreja Matriz de Reguengos em estilo Bernardino Machado florescente. segundo Octávio Durão

 

José Cutileiro

 

Lembranças de Carlos Leal

 

 

Carlos Martins Pereira tinha veterinário. Não o tinha, porém, como se possa ter um gato ou uma prima-direita. A sua casa agrícola, a Casa Leal, era tão vasta que lhes saía mais barato empregar todo o ano um veterinário full time do que depender do mercado. E porquê Casa Leal se o nome era Martins Pereira (o do médico das Caldas que fora seu pai)? Porque a terra vinha da mãe que a herdara do tio Jaime Leal, solteirão que mantivera serralho de moças do campo (Carlos Manuel, seu sobrinho neto, ao passarmos há uns setenta anos diante de casa arruinada no meio do trigo do Barrocal, disse-me que era o monte onde o tio Jaime fodia). Passagem de monta na saga secular de S. Lourenço do Barrocal que correcção política procurará esquecer ou esconder mas que faz parte tanto ou mais que Catarina Eufémia, da herança de todos os alentejanos, da parte que nos cabe deste latifúndio.

 

Carlos Leal, como o meu amigo era tantas vezes referido, sabia tudo isto e ao seu casulo alentejano fazia de vez em quando recolher amigos menos rústicos  da juventude. Passavam temporadas no conchego de Reguengos o sábio matemático professor do Técnico Mira Fernandes e o Tio João Duarte Silva, um dos mais estimados e estimáveis bêbados, caçadores e jogadores da sua geração («A melhor coisa na vida é jogar e ganhar, e a seguir, jogar e perder», dizia). Quando estavam os dois em Reguengos, o Carlos não precisava de sair: tinha em casa « la Science et la Vie », dizia Octávio Durão, outro pândego local enxertado em Philosophe.

 

O veterinário do Carlos viu-se metido em mexerico local. Durante ausência profissional (a Casa Leal cobria vários concelhos) fanfarrão local, mestre d’obras novo-rico por alcunha o Tranca-Ruas, que em vez de exibir sinais exteriores de riqueza recente, preferia alardear sinais exteriores de pobreza passada, dizia-se comunista,  no café dos ricos pedia um café, tirava de embrulho de papel de jornal, chouriço e pão caseiro que cortava à navalha e comia, tudo com tal alarde que o Carlos dizia, quando viesse o comunismo querer ser criado dele, para o ensinar a comer, para o ensinar a vestir-se; o Tranca-Ruas, pois, teria tido propósitos inaceitáveis sobre a virtude da mulher do veterinário. Informado e ofendido, o veterinário declarara no Clube e no Café que ia «matar o Tranca-Ruas». Reguengos ficou em suspenso. Passaram dias, semanas, um mês. A meio do segundo, Carlos perguntou ao veterinário: «Então você mata ou não mata o Tranca-Ruas?». «Mato o Tranca-Ruas quando tiver acabado de pagar as minhas dívidas». «Muito bem» concluiu Carlos e não se falou mais do assunto.

 

Pena as nações terem menos senso. A França gaba-se de ser o melhor lugar do mundo para comer, amar, pensar, viver. Depois, de vez em quando, franceses acham ser precisa Revolução que mude tudo. Desta vez, pelas bocas desatinadas dos gilets jaunes, apoiados por  marotagem de esquerda e direita : Mélenchon, Le Pen. Irá tudo ao sítio mas custará tempo e dinheiro.

 

 

 

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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Karajan - Lipatti

 

 

José Cutileiro

 

Elites

 

Há coisas antigas quanto a espécie humana. Em toda a parte, a guerra (a paz é uma invasão recente) vinda já de primos antepassados próximos - Cromagnon; Neandertal; alguns africanos - e, em quase toda a parte, o arranjo das gentes em mó de cima e mó de baixo, mesmo quando ainda não haja agricultura a separar quem tenha a terra de quem a trabalhe. De vez em quando, os da mó de baixo acham que a sua voz deveria ser mais ouvida do que o é e o bom povo passa de querer mal aos vizinhos – alfacinhas a tripeiros, portugueses a espanhóis, europeus a africanos, matéria prima da história tal como ela é (era ?)  ensinada nos liceus e atitude aprovada por pais da Pátria e por forças vivas  da nação - a querer mal a patrões se for por eles empregada e a ricos em geral se achar que  não pertence ao grupo.

 

A França é o país europeu que se especializou na segunda variedade e, como os vinhos, tem anos piores e anos melhores. 2019 promete, com os coletes amarelos na rua, a bloquear rotundas e pagamentos nas autoestradas e a proclamar urbi et orbi que o mundo é mal feito e que é preciso refazê-lo melhor (propondo muitos o referendo – cidadão, como eles dizem – processo seguro de enrolar o povo e abrir a porta a ditaduras). Quanto à contribuição directa dos coletes amarelos para organização social decente de aldeias, cidades, países e continentes onde porventura tomassem ou influenciassem o poder, pouco sabemos ainda mas, por outro lado, talvez saibamos já tudo. Se um deste dias a leitora se meter à estrada em França e passar por grupos aguerridos de coletes amarelos, se não levar à vista no para-brisas do seu carro um dos ditos coletes e não tocar muitas vezes a buzina fazem-na passar devagar e gritam-lhe insultos. Les gilets jaunes acreditam em « zero-sum games » como se diz agora, isto é, são incapazes de compromisso e, portanto, nocivos à democracia. Dito isto, repito o que já disse aqui muitas vezes: depois do colapso da União Soviética o capitalismo tomou o freio nos dentes (ou, pior ainda, passou a obedecer cegamente às instruções de uma clique que o controla e sabe muito bem o que quer, como dantes nas visões conspirativas dos comunistas mais néscios) de tal maneira que o fosso entre ricos (cada vez menos) e pobres (cada vez mais) continua a cavar-se muito depressa, levando a minha mulher a dias a ter inveja do meu BMW,  em vez de como dantes, na tradição das trente glorieuses, sentir nele uma segurança cobrindo o seu VW.

 

As elites? Escrevo no dia de Natal. Ainda deitado ao fim da manhã, chegaram-me lá a cima, vindos da sala no primeiro andar onde está a música, Lipatti ao piano e Karajan a dirigir a orquestra no andante do concerto para piano n°21 em dó maior de Mozart, no festival de Lucerna de 1950, gravado por auditor que o ouvia na telefonia e ressuscitado por técnicos no CD que eu tenho. Ramalhete de milagres de génio musical e tecnologias contemporâneas trouxe-me  bem-aventurança neste dia sagrado dos cristãos de 2018.

 

 

 

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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

marc blochMarc Bloch

1886-1944

 

 

José Cutileiro

 

De uma esperança a outra

 

Lembro-me do Pai voltar de Madrid em 1939, logo a seguir ao fim da Guerra de Espanha, com fotografias de casas em ruínas. O país estava de rastos: durante muitos anos o contrabando passou a fazer-se de cá para lá, com nós a aldrabá-los a eles. No Passapoga da noite madrilena, uma mulher valia menos que no 3º andar do100 da rua do Mundo, em Lisboa. O escudo valia o dobro da peseta.

 

Portugal estava dividido: em casa do Nuno Bragança celebraram a última Cruzada; na minha sofreu-se porque a democracia tinha sido derrotada. Mau sinal para a segunda Grande Guerra? Não tanto: confiança inabalável na vitória das democracias foi premiada em 1945. Poucos dias depois de Salazar ter posto a nossa bandeira a meia-haste nos edifícios públicos e ter mandado pêsames ao governo alemão pela morte de Hitler, a seguir à rendição incondicional da Alemanha, houve grande manifestação em Lisboa, atrás da bandeira inglesa, da bandeira americana e, entre as duas, de mastro sem bandeira hasteada. (A seguir à invasão da URSS por Hitler, os comunistas tinham defendido a causa aliada). O Estado Novo aguentou ainda 29 anos mas a oposição era mais forte do que equívoco em que assentava. Este parecia ter ficado resolvido em 1975, quando Mário Soares e o MFA puseram partidos contra as Comunidades Europeias e a OTAN fora do alcance do arco governativo.

 

Voltando à esperança. 1974 e 1991 foram anos bons, sobretudo para aqueles que tinham entendido que comunismo, marxismo-leninismo, trotskismo facção Lambert, todas as variedades conhecidas dessa visão, estavam fundamentalmente erradas e não era por aí que o gato iria às filhoses. Mas, entretanto, tudo se complicou outra vez. Progresso técnico a ritmo inédito e vontade de enriquecer de intensidade rara desde Nova Iorque a Shangai, passando por todo o resto do mundo, juntaram-se os dois à esquina. Até agora não se lhes consegue deitar a mão e a maldade de cada humano, com um computador à frente, pinta a manta como quer – não só nos Estados Unidos onde o espalhar de mentiras foi glorificado por Presidente que usou e encorajou o método para chegar ao poleiro mas também na França de hoje onde a extrema-direita de Marine Le Pen e Steve Bannon , desonesta até à medula, quer que o povo veja no acordo sobre o clima de Marraquexe uma conspiração contra os estados-nação europeus e os seus valores. A 10 de Dezembro de 1948, a Declaração Universal dos direitos humanos nasceu em Paris. Desde então, melhorámos. Em 1948, a África do Sul não a assinou porque os pretos valiam menos do que os brancos; os países árabes porque as mulheres valiam menos do que os homens; a União Soviética (e satélites) porque os povos valiam menos do que partidos e governos.

 

Até a maldade humana ser desunhada outra vez vai passar tempo: talvez venha a ser precisa guerra grande e à antiga. Em 1944 Marc Bloch, que os alemães iam fuzilar, escreveu: “Nous sommes les vaincus provisoires d’un injuste destin”. É a nossa esperança.

 

 

 

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Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

FRANCE-SOCIAL-POLITICS-ENVIRONMENT-OIL-DEMO

Foto: Lucas Barioulet@AFP

 

 

 

José Cutileiro

 

Zangas

 

A França, um dos países do mundo onde se vive melhor quer se seja rico quer pobre, está em pé de guerra. Contra o aquecimento global, Macron resolveu aumentar o preço dos combustíveis. Movimento popular espontâneo - como se insiste em dizer apesar de Facebook&Companhia - os ‘coletes amarelos’, resolveu protestar nas ruas e nas estradas. Rapaziada e algum mulherio de extrema direita e de extrema esquerda poz colete amarelo sobre a roupa negra do costume e passou barreiras policiais juntando-se aos manifestantes de boa fé, antes de meter capucho e máscara e começar a partir tudo à sua roda, fazendo estragos consideráveis até no monumento ao Soldado Desconhecido do Arco do Triunfo.

 

A França, lembram sempre os franceses, não é país de reformas mas país de revoluções. A seguir a De Gaulle, os predecessores de Macron na Quinta República (salvo Giscard d’Estaing) reformaram muito pouco ou muito mal mas safaram-se sem que revolução os beliscasse, assim como os habitantes de Lisboa não tornaram a apanhar com terramoto parecido com o de 1755. Mas a natureza sísmica do sistema francês não perdoa e calhou a Macron estar no Eliseu a tentar meter as coisas na ordem mais do que nenhum dos seus predecessores fizera quando os tremores começaram.

 

Não houve Estados Gerais nem Trotsky a assaltar o correio. Em 1911, durante a primeira greve geral de trabalhadores rurais alentejanos, influenciados pelo que se passava na Andaluzia e esperançados no governo republicano de Lisboa, quando o grito ‘Vem aí a greve !’ foi dado numa pequena vila do distrito de Évora, as pessoas trancaram portas e janelas por estarem convencidas de que a greve era um bicho. Ignorância assim quanto a revoluções não existe em França, muito pelo contrário. Dos Pirinéus às Ardenas e mormente em Paris, toda a gente está convencida de que sabe tudo mas, na realidade, como historiadores sábios não se cansam de lembrar, sabe-se muito pouco e menos ainda quando a coisa esteja em curso e se quiser apostar no vencedor. É preciso estar à hora certa no lugar certo, passada essa primeira selecção, há quem tenha unhas para tocar aquela guitarra (muito poucos) e quem julgue que as tenha, sem as ter (muitos). E, como com os melões, só depois de encetado é que se sabe.

 

E  das duas uma. Ou Macron tem de facto o que alguns entusiastas entendidos viram nele – a capacidade de agarrar e usar o poder com génio comparável, na história de França, ao de Napoleão Bonaparte – e consegue sair da crise por cima, a França está salva por mais umas décadas (até à próxima pulsão revolucionária animada a Facebook ou ao que se tiver inventado entretanto) e a Europa provavelmente também ou então Macron afinal não dá para as encomendas, Marine Le Pen chega ao poder, anima e é animada por almas gémeas noutros países europeus e, mais ano menos ano, estaremos todos outra vez à bulha uns com os outros.

 

Para gáudio de Putin, Trump e o Príncipe Herdeiro da Arábia Saudita, paladinos de valores mais antigos.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Toile de Jouy

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A Ordem Natural

 

 

 

“Venha aqui falar a este Senhor que era muito amigo do seu bisavô!” A menina obedeceu à mãe e parou a trotinete ao pé de nós, virando de repente o guiador de maneira que quase a fez cair e espalhou terra do jardim à volta.

 

É bom ir pondo as crianças diante daquilo que a gente entenda ser a Ordem Natural do Mundo com parentes, amigos e inimigos devidamente colocados no espaço e no tempo, às distâncias certas, para elas não desaguarem na vida real, directas de Facebook e quejandos. E é bom porque, para além de fantasias modernas entretidas que tiram horas sem fim às vinte e quatro que cada dia tem, petizes e petizas levam agora mais tempo a perceberem como as coisas são do que levávamos quando era a nossa vez de sermos pequenos. Não sou filósofo mas oiço muitas vezes telefonia no carro e, uma manhã, voz de mulher parisiense encheu o habitáculo assim que carreguei no botão: “Comme disait Lacan, le réel c’est quand on se cogne!”. Antes de figurar o ‘maître à penser’, por uma única vez, pareceu-me a mim, autor de verdade como um punho, que tanta influência teve – e tem – em gerações seguidas de intelectuais e candidatos a intelectuais do país de Edith Piaf e Marcel Cerdan (e tão pouca marca deixa se se tenta traduzi-lo: quando o meu amigo David Callagher trabalhava para o Times Literary Supplement quiseram dedicar um número à vida intelectual francesa da época e pediram artigos a autores na moda – Lévi-Strauss, Derrida, Leroy Gouraind, Merleau-Ponty, etc., incluindo Lacan – os artigos chegaram, foram traduzidos, tirando o de Lacan que o staff do TLS não conseguiu verter para inglês e foi posto a circular pelos melhores departamentos de francês das universidades britânicas mas sem resultado tangível, enquanto Lacan telefonava insistentemente a David - “Alors, Monsieur Callagher: mon article?” – as repostas sucediam-se, idênticas, implacáveis: It doesn’t make sense in English), antes pois de Lacan figurar no meu espírito, veio François Villon, cinco séculos mais velho, a louvar a fala das parisienses do seu tempo: “Il n’est bom bec que de Paris!” A galanteria francesa arranja sempre maneira de se sobrepor nos nossos espíritos a aspectos menos agradáveis dos costumes e do temperamento gauleses. Os jornais – ou melhor, o que no nosso tempo tecnológico por eles passa na net – informam que Catherine Deneuve e mais noventa e nove mulheres vieram manifestar-se contra o que acham excessos de puritanismo anglo-saxónico do movimento “me.too”. Violação é violação, mas insistência, mesmo desajeitada, em sedução não o é; o que se tem passado e está a passar-se nos Estados Unidos (e noutros recantos protestantes do mundo) nestas matérias e matérias afins, é patético e perigoso. (Cínicos provocadores talvez publiquem Grab my pussy the French way; mas, no geral, Deneuve & Co trazem bom senso e bom gosto a estados de alma que perderam ambos).

 

Velhice é outra questão. Ser muito amigo do seu bisavô põe pontos pesados demais nos is.

 

 

 

 

 

publicado por VF às 15:13
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