Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Hino pauta

 

 

 

José Cutileiro

 

As luzes estão apagar-se na Europa

 

 

Assim disse estadista inglês no começo da Primeira Guerra Mundial. Esse novo caminho para a escuridão está a ser trilhado agora, de maneira convencida não só na Polónia que parece vítima de maldição perene (Un polonais, un charmeur; deux polonais, une bagarre; trois polonais, la question polonaise, escreveu Voltaire que morreu antes da Revolução Francesa) e na Hungria, onde Victor Orban está metodicamente a enfraquecer democracia parlamentar por  governação autoritária e corrupta, com a cumplicidade do Partido Popular Europeu (que não o expulsa nem autoriza a Comissão Europeia a cortar-lhe finanças, continuando a pretender, contra toda a evidência, que o levará a mudar de rumo a bem) mas também em outros países da Europa de Leste onde se prestam agora homenagens a militares pro-nazis dos anos 30 e 40 do século passado - tratados de criminosos de guerra há  50 anos.

 

Na Europa dantes dita Ocidental a preocupação também é grande. Na Alemanha, talvez de todos os países europeus, aquele em que o apego à democracia parlamentar é maior (salvo na antiga Alemanha de Leste, envenenada à nascença pela mentira que a criara) o partido da Alternativa ganha terreno. Na Itália evoca-se abertamente saudade de Mussolini, e a coligação extrema direita/extrema esquerda que desgoverna agora o país entende-se em pouco mais do que no desprezo da democracia parlamentar e do estado de direito. Na Inglaterra, políticos desnorteados ou mal norteados transformam séculos de grande história to a trouble of fools (com vénia minha a Yeats). Em Espanha, pela primeira vez desde 1975, partido franquista ganha deputados em parlamento regional e lugar à mesa das pessoas de bem da política. Em França, há catorze fins de semanas, os gilets jaunes manifestam em ruas, estradas e rotundas, destroem propriedade, insultam o presidente da república e pedem democracia directa em vez de representativa (os lugares em que democracia directa foi tentada acabaram em ditadura mas ou não sabem isso ou é isso que querem). Paisagem retocada por antissemitismo renascente, que nestas coisas configura o tradicional canário da mina.

 

George Orwell escreveu algures que, de vez em quando, as pessoas queriam o mal, se batiam por ele. Madame de Stäel, no Paris revolucionário, sentira hiato entre políticos e povo, entre quem mandava e quem era mandado, como nunca sentira antes. Cesário Verde faz pensar: A dor humana busca amplos horizontes/E tem marés de fel como um sinistro mar. Mas ao lado de reflexões luminosas depressa surgem feitos medonhos, do terror de Robespierre às matanças de Pol Pot - e é para feitos assim que a Europa se está a pôr a jeito.

 

Portugal parece escapar à maré de fel. Em 1942, na inauguração do Estádio Nacional o governo salazarista fez espalhar de avionete milhares de panfletos rezando em grandes letras O QUE NÓS QUEREMOS É FUTEBOL. Se em inauguração próxima o governo democrático fizesse o mesmo o povo também haveria de gostar.

 

 

 

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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Igreja-Matriz-de-Reguengos-de-MonsarazIgreja Matriz de Reguengos em estilo Bernardino Machado florescente. segundo Octávio Durão

 

José Cutileiro

 

Lembranças de Carlos Leal

 

 

Carlos Martins Pereira tinha veterinário. Não o tinha, porém, como se possa ter um gato ou uma prima-direita. A sua casa agrícola, a Casa Leal, era tão vasta que lhes saía mais barato empregar todo o ano um veterinário full time do que depender do mercado. E porquê Casa Leal se o nome era Martins Pereira (o do médico das Caldas que fora seu pai)? Porque a terra vinha da mãe que a herdara do tio Jaime Leal, solteirão que mantivera serralho de moças do campo (Carlos Manuel, seu sobrinho neto, ao passarmos há uns setenta anos diante de casa arruinada no meio do trigo do Barrocal, disse-me que era o monte onde o tio Jaime fodia). Passagem de monta na saga secular de S. Lourenço do Barrocal que correcção política procurará esquecer ou esconder mas que faz parte tanto ou mais que Catarina Eufémia, da herança de todos os alentejanos, da parte que nos cabe deste latifúndio.

 

Carlos Leal, como o meu amigo era tantas vezes referido, sabia tudo isto e ao seu casulo alentejano fazia de vez em quando recolher amigos menos rústicos  da juventude. Passavam temporadas no conchego de Reguengos o sábio matemático professor do Técnico Mira Fernandes e o Tio João Duarte Silva, um dos mais estimados e estimáveis bêbados, caçadores e jogadores da sua geração («A melhor coisa na vida é jogar e ganhar, e a seguir, jogar e perder», dizia). Quando estavam os dois em Reguengos, o Carlos não precisava de sair: tinha em casa « la Science et la Vie », dizia Octávio Durão, outro pândego local enxertado em Philosophe.

 

O veterinário do Carlos viu-se metido em mexerico local. Durante ausência profissional (a Casa Leal cobria vários concelhos) fanfarrão local, mestre d’obras novo-rico por alcunha o Tranca-Ruas, que em vez de exibir sinais exteriores de riqueza recente, preferia alardear sinais exteriores de pobreza passada, dizia-se comunista,  no café dos ricos pedia um café, tirava de embrulho de papel de jornal, chouriço e pão caseiro que cortava à navalha e comia, tudo com tal alarde que o Carlos dizia, quando viesse o comunismo querer ser criado dele, para o ensinar a comer, para o ensinar a vestir-se; o Tranca-Ruas, pois, teria tido propósitos inaceitáveis sobre a virtude da mulher do veterinário. Informado e ofendido, o veterinário declarara no Clube e no Café que ia «matar o Tranca-Ruas». Reguengos ficou em suspenso. Passaram dias, semanas, um mês. A meio do segundo, Carlos perguntou ao veterinário: «Então você mata ou não mata o Tranca-Ruas?». «Mato o Tranca-Ruas quando tiver acabado de pagar as minhas dívidas». «Muito bem» concluiu Carlos e não se falou mais do assunto.

 

Pena as nações terem menos senso. A França gaba-se de ser o melhor lugar do mundo para comer, amar, pensar, viver. Depois, de vez em quando, franceses acham ser precisa Revolução que mude tudo. Desta vez, pelas bocas desatinadas dos gilets jaunes, apoiados por  marotagem de esquerda e direita : Mélenchon, Le Pen. Irá tudo ao sítio mas custará tempo e dinheiro.

 

 

 

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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Karajan - Lipatti

 

 

José Cutileiro

 

Elites

 

Há coisas antigas quanto a espécie humana. Em toda a parte, a guerra (a paz é uma invasão recente) vinda já de primos antepassados próximos - Cromagnon; Neandertal; alguns africanos - e, em quase toda a parte, o arranjo das gentes em mó de cima e mó de baixo, mesmo quando ainda não haja agricultura a separar quem tenha a terra de quem a trabalhe. De vez em quando, os da mó de baixo acham que a sua voz deveria ser mais ouvida do que o é e o bom povo passa de querer mal aos vizinhos – alfacinhas a tripeiros, portugueses a espanhóis, europeus a africanos, matéria prima da história tal como ela é (era ?)  ensinada nos liceus e atitude aprovada por pais da Pátria e por forças vivas  da nação - a querer mal a patrões se for por eles empregada e a ricos em geral se achar que  não pertence ao grupo.

 

A França é o país europeu que se especializou na segunda variedade e, como os vinhos, tem anos piores e anos melhores. 2019 promete, com os coletes amarelos na rua, a bloquear rotundas e pagamentos nas autoestradas e a proclamar urbi et orbi que o mundo é mal feito e que é preciso refazê-lo melhor (propondo muitos o referendo – cidadão, como eles dizem – processo seguro de enrolar o povo e abrir a porta a ditaduras). Quanto à contribuição directa dos coletes amarelos para organização social decente de aldeias, cidades, países e continentes onde porventura tomassem ou influenciassem o poder, pouco sabemos ainda mas, por outro lado, talvez saibamos já tudo. Se um deste dias a leitora se meter à estrada em França e passar por grupos aguerridos de coletes amarelos, se não levar à vista no para-brisas do seu carro um dos ditos coletes e não tocar muitas vezes a buzina fazem-na passar devagar e gritam-lhe insultos. Les gilets jaunes acreditam em « zero-sum games » como se diz agora, isto é, são incapazes de compromisso e, portanto, nocivos à democracia. Dito isto, repito o que já disse aqui muitas vezes: depois do colapso da União Soviética o capitalismo tomou o freio nos dentes (ou, pior ainda, passou a obedecer cegamente às instruções de uma clique que o controla e sabe muito bem o que quer, como dantes nas visões conspirativas dos comunistas mais néscios) de tal maneira que o fosso entre ricos (cada vez menos) e pobres (cada vez mais) continua a cavar-se muito depressa, levando a minha mulher a dias a ter inveja do meu BMW,  em vez de como dantes, na tradição das trente glorieuses, sentir nele uma segurança cobrindo o seu VW.

 

As elites? Escrevo no dia de Natal. Ainda deitado ao fim da manhã, chegaram-me lá a cima, vindos da sala no primeiro andar onde está a música, Lipatti ao piano e Karajan a dirigir a orquestra no andante do concerto para piano n°21 em dó maior de Mozart, no festival de Lucerna de 1950, gravado por auditor que o ouvia na telefonia e ressuscitado por técnicos no CD que eu tenho. Ramalhete de milagres de génio musical e tecnologias contemporâneas trouxe-me  bem-aventurança neste dia sagrado dos cristãos de 2018.

 

 

 

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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

marc blochMarc Bloch

1886-1944

 

 

José Cutileiro

 

De uma esperança a outra

 

Lembro-me do Pai voltar de Madrid em 1939, logo a seguir ao fim da Guerra de Espanha, com fotografias de casas em ruínas. O país estava de rastos: durante muitos anos o contrabando passou a fazer-se de cá para lá, com nós a aldrabá-los a eles. No Passapoga da noite madrilena, uma mulher valia menos que no 3º andar do100 da rua do Mundo, em Lisboa. O escudo valia o dobro da peseta.

 

Portugal estava dividido: em casa do Nuno Bragança celebraram a última Cruzada; na minha sofreu-se porque a democracia tinha sido derrotada. Mau sinal para a segunda Grande Guerra? Não tanto: confiança inabalável na vitória das democracias foi premiada em 1945. Poucos dias depois de Salazar ter posto a nossa bandeira a meia-haste nos edifícios públicos e ter mandado pêsames ao governo alemão pela morte de Hitler, a seguir à rendição incondicional da Alemanha, houve grande manifestação em Lisboa, atrás da bandeira inglesa, da bandeira americana e, entre as duas, de mastro sem bandeira hasteada. (A seguir à invasão da URSS por Hitler, os comunistas tinham defendido a causa aliada). O Estado Novo aguentou ainda 29 anos mas a oposição era mais forte do que equívoco em que assentava. Este parecia ter ficado resolvido em 1975, quando Mário Soares e o MFA puseram partidos contra as Comunidades Europeias e a OTAN fora do alcance do arco governativo.

 

Voltando à esperança. 1974 e 1991 foram anos bons, sobretudo para aqueles que tinham entendido que comunismo, marxismo-leninismo, trotskismo facção Lambert, todas as variedades conhecidas dessa visão, estavam fundamentalmente erradas e não era por aí que o gato iria às filhoses. Mas, entretanto, tudo se complicou outra vez. Progresso técnico a ritmo inédito e vontade de enriquecer de intensidade rara desde Nova Iorque a Shangai, passando por todo o resto do mundo, juntaram-se os dois à esquina. Até agora não se lhes consegue deitar a mão e a maldade de cada humano, com um computador à frente, pinta a manta como quer – não só nos Estados Unidos onde o espalhar de mentiras foi glorificado por Presidente que usou e encorajou o método para chegar ao poleiro mas também na França de hoje onde a extrema-direita de Marine Le Pen e Steve Bannon , desonesta até à medula, quer que o povo veja no acordo sobre o clima de Marraquexe uma conspiração contra os estados-nação europeus e os seus valores. A 10 de Dezembro de 1948, a Declaração Universal dos direitos humanos nasceu em Paris. Desde então, melhorámos. Em 1948, a África do Sul não a assinou porque os pretos valiam menos do que os brancos; os países árabes porque as mulheres valiam menos do que os homens; a União Soviética (e satélites) porque os povos valiam menos do que partidos e governos.

 

Até a maldade humana ser desunhada outra vez vai passar tempo: talvez venha a ser precisa guerra grande e à antiga. Em 1944 Marc Bloch, que os alemães iam fuzilar, escreveu: “Nous sommes les vaincus provisoires d’un injuste destin”. É a nossa esperança.

 

 

 

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Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

FRANCE-SOCIAL-POLITICS-ENVIRONMENT-OIL-DEMO

Foto: Lucas Barioulet@AFP

 

 

 

José Cutileiro

 

Zangas

 

A França, um dos países do mundo onde se vive melhor quer se seja rico quer pobre, está em pé de guerra. Contra o aquecimento global, Macron resolveu aumentar o preço dos combustíveis. Movimento popular espontâneo - como se insiste em dizer apesar de Facebook&Companhia - os ‘coletes amarelos’, resolveu protestar nas ruas e nas estradas. Rapaziada e algum mulherio de extrema direita e de extrema esquerda poz colete amarelo sobre a roupa negra do costume e passou barreiras policiais juntando-se aos manifestantes de boa fé, antes de meter capucho e máscara e começar a partir tudo à sua roda, fazendo estragos consideráveis até no monumento ao Soldado Desconhecido do Arco do Triunfo.

 

A França, lembram sempre os franceses, não é país de reformas mas país de revoluções. A seguir a De Gaulle, os predecessores de Macron na Quinta República (salvo Giscard d’Estaing) reformaram muito pouco ou muito mal mas safaram-se sem que revolução os beliscasse, assim como os habitantes de Lisboa não tornaram a apanhar com terramoto parecido com o de 1755. Mas a natureza sísmica do sistema francês não perdoa e calhou a Macron estar no Eliseu a tentar meter as coisas na ordem mais do que nenhum dos seus predecessores fizera quando os tremores começaram.

 

Não houve Estados Gerais nem Trotsky a assaltar o correio. Em 1911, durante a primeira greve geral de trabalhadores rurais alentejanos, influenciados pelo que se passava na Andaluzia e esperançados no governo republicano de Lisboa, quando o grito ‘Vem aí a greve !’ foi dado numa pequena vila do distrito de Évora, as pessoas trancaram portas e janelas por estarem convencidas de que a greve era um bicho. Ignorância assim quanto a revoluções não existe em França, muito pelo contrário. Dos Pirinéus às Ardenas e mormente em Paris, toda a gente está convencida de que sabe tudo mas, na realidade, como historiadores sábios não se cansam de lembrar, sabe-se muito pouco e menos ainda quando a coisa esteja em curso e se quiser apostar no vencedor. É preciso estar à hora certa no lugar certo, passada essa primeira selecção, há quem tenha unhas para tocar aquela guitarra (muito poucos) e quem julgue que as tenha, sem as ter (muitos). E, como com os melões, só depois de encetado é que se sabe.

 

E  das duas uma. Ou Macron tem de facto o que alguns entusiastas entendidos viram nele – a capacidade de agarrar e usar o poder com génio comparável, na história de França, ao de Napoleão Bonaparte – e consegue sair da crise por cima, a França está salva por mais umas décadas (até à próxima pulsão revolucionária animada a Facebook ou ao que se tiver inventado entretanto) e a Europa provavelmente também ou então Macron afinal não dá para as encomendas, Marine Le Pen chega ao poder, anima e é animada por almas gémeas noutros países europeus e, mais ano menos ano, estaremos todos outra vez à bulha uns com os outros.

 

Para gáudio de Putin, Trump e o Príncipe Herdeiro da Arábia Saudita, paladinos de valores mais antigos.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Toile de Jouy

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A Ordem Natural

 

 

 

“Venha aqui falar a este Senhor que era muito amigo do seu bisavô!” A menina obedeceu à mãe e parou a trotinete ao pé de nós, virando de repente o guiador de maneira que quase a fez cair e espalhou terra do jardim à volta.

 

É bom ir pondo as crianças diante daquilo que a gente entenda ser a Ordem Natural do Mundo com parentes, amigos e inimigos devidamente colocados no espaço e no tempo, às distâncias certas, para elas não desaguarem na vida real, directas de Facebook e quejandos. E é bom porque, para além de fantasias modernas entretidas que tiram horas sem fim às vinte e quatro que cada dia tem, petizes e petizas levam agora mais tempo a perceberem como as coisas são do que levávamos quando era a nossa vez de sermos pequenos. Não sou filósofo mas oiço muitas vezes telefonia no carro e, uma manhã, voz de mulher parisiense encheu o habitáculo assim que carreguei no botão: “Comme disait Lacan, le réel c’est quand on se cogne!”. Antes de figurar o ‘maître à penser’, por uma única vez, pareceu-me a mim, autor de verdade como um punho, que tanta influência teve – e tem – em gerações seguidas de intelectuais e candidatos a intelectuais do país de Edith Piaf e Marcel Cerdan (e tão pouca marca deixa se se tenta traduzi-lo: quando o meu amigo David Callagher trabalhava para o Times Literary Supplement quiseram dedicar um número à vida intelectual francesa da época e pediram artigos a autores na moda – Lévi-Strauss, Derrida, Leroy Gouraind, Merleau-Ponty, etc., incluindo Lacan – os artigos chegaram, foram traduzidos, tirando o de Lacan que o staff do TLS não conseguiu verter para inglês e foi posto a circular pelos melhores departamentos de francês das universidades britânicas mas sem resultado tangível, enquanto Lacan telefonava insistentemente a David - “Alors, Monsieur Callagher: mon article?” – as repostas sucediam-se, idênticas, implacáveis: It doesn’t make sense in English), antes pois de Lacan figurar no meu espírito, veio François Villon, cinco séculos mais velho, a louvar a fala das parisienses do seu tempo: “Il n’est bom bec que de Paris!” A galanteria francesa arranja sempre maneira de se sobrepor nos nossos espíritos a aspectos menos agradáveis dos costumes e do temperamento gauleses. Os jornais – ou melhor, o que no nosso tempo tecnológico por eles passa na net – informam que Catherine Deneuve e mais noventa e nove mulheres vieram manifestar-se contra o que acham excessos de puritanismo anglo-saxónico do movimento “me.too”. Violação é violação, mas insistência, mesmo desajeitada, em sedução não o é; o que se tem passado e está a passar-se nos Estados Unidos (e noutros recantos protestantes do mundo) nestas matérias e matérias afins, é patético e perigoso. (Cínicos provocadores talvez publiquem Grab my pussy the French way; mas, no geral, Deneuve & Co trazem bom senso e bom gosto a estados de alma que perderam ambos).

 

Velhice é outra questão. Ser muito amigo do seu bisavô põe pontos pesados demais nos is.

 

 

 

 

 

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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2017

Anne Wiazemsky (1947-2017)

 

 

 

 

Wiaz b&w-1

 

 

 

Entre le père Deau et moi, la correspondance reprend. Très vite, nous convenons de nous revoir en mai à Malagar car je dois m'y rendre pour terminer d'aménager le petit logement que la région Aquitaine met à la disposi­tion de la famille Mauriac pour la remercier de lui avoir fait don de la propriété. Je lui avais décrit la colère puis le chagrin que j'avais éprouvés face à la décision de ma mère, de sa sœur et de ses frères. Leur volonté inébran­lable malgré mes supplications, celles de mon frère et de mes cousines. Nous ne réclamions que de différer de quelques années leur choix. J'étais la plus acharnée car j'y allais souvent. Cette propriété était ce à quoi je tenais le plus au monde. Un paradis de l'enfance d'abord, des années délaissé, et un paradis pour l'adulte que j'étais devenue. Durant les huit dernières années de la vie de ma grand-mère, j'avais pris l'habitude de passer de régu­liers séjours auprès d'elle. C'est là que nous avions appris à nous connaître et à nous aimer. À sa mort, grâce à l'insistance de ma plus chère amie, j'y étais retournée. Miracle, les jours heureux étaient tout aussi vivants et je pouvais y retrouver sans tristesse des êtres aimés et disparus. C'est là que j'ai commencé à écrire. Je pus en profiter encore deux ans puis je dus m'en aller comme en avait décidé ma famille.

 

Anne Wiazemsky in Un Saint Homme

© Éditions Gallimard, 2017

 

 

 

Domaine de Malagar

 

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Fotos gentilmente cedidas por Meei-huey Wang.

 

Um artigo do Guardian aqui

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Quarta-feira, 12 de Julho de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Bataille de Waterloo

 Batalha de Waterloo  /  Clément-Auguste ANDRIEUX (1829 - 1880)

 

 

José Cutileiro

 

 

Fabrício em Waterloo

 

 

 

 

Ou “Fabrice à Waterloo” como os franceses gostam de dizer, não por serem senhores do seu nariz e terem sempre nariz maior que o do Cyrano (há quarenta anos, quando em Estrasburgo convivi com eles pela primeira vez, percebi que eram portugueses réussis, isto é, tinham todos os nossos defeitos sem terem a qualidade simpática que às vezes nos bafeja de reconhecermos que nem sempre temos razão) mas por ter sido romancista francês quem pôs personagem de romance seu, chamado Fabrice, tão atarantado durante a batalha de Waterloo em que participava como voluntário do lado dos franceses de Napoleão, que perdera o fio à meada, não entendia o que se estava a passar nem percebia sequer quem estava a ganhar e quem estava a perder. A passagem está tão bem escrita que a expressão “Fabrice à Waterloo” entrou na conversa das francesas e dos franceses cultos para referir atrapalhações desse género nos campos mais variados onde a vida nos solte ou prenda – assim como em Portugal a gente recorre ao velho do Restelo, que Camões pôs nos Lusíadas a achar que Vasco da Gama não deitava até à Índia, para falarmos de botas de elástico com raiva ao futuro que só se sentem bem no que julguem já conhecer por dentro e por fora.

 

Nos últimos tempos tenho encontrado alguns assim – mas, desta vez, gente nova e desempoeirada - em questão que eu julgava estar resolvida desde das trente glorieuses, anos de crescimento económico benfazejo do capitalismo europeu centrados entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o fim da Guerra Fria - e definitivamente arrumada desde o colapso voluntário da União Soviética, que se deitou abaixo a ela própria, como grandes industriais japoneses faziam hara-kiri se a empresa falisse. Salvo em cús de Judas exóticos – Cuba; Coreia do Norte – estava a dar-se por toda a parte grande mudança para melhor. Tínhamos esquecido sentença sábia de antigo governador do Banco de Inglaterra, do tempo da Senhora Thatcher, com quem acabou por se dar muito mal e cujo nome me escapa agora: “Mudança é sempre mau. Sobretudo mudança para melhor”.

 

Há dias, amigo, muito mais novo do que eu, ponderava - entre curioso e apreensivo, como se contemplasse fendas abertas em terreno onde pensara construir casa – o enxotar dos doutores a que assistimos agora, o festival de contra-verdades triunfantes em redes sociais, o elogio da ignorância e a exortação à intolerância por populistas de fala grossa a começar pelo 45º Presidente dos Estados Unidos da América. Lembrei-lhe que tudo não vai assim tão mal quanto isso, que os diferentes Estados da América conseguem corrigir muitos disparates do Presidente, que em França, na Holanda, na Áustria os democratas ganharam e a maré mudou. Que a razão tem filhos robustos a combater por ela.

 

Mas que, antes de mais, será preciso refrear a ganância dos mercados. Para voltar ao começo: prefiro estuários a deltas e carabinas a caçadeiras; o Rouge à Chartreuse (ou, 30 anos depois, a Bovary à Educação Sentimental).

 

 

 

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Quarta-feira, 28 de Junho de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Danton

a cabeça de Danton

 

 

 

José Cutileiro

 

Os doutores e o povo

 

 

 

Em 1778, o começo do preâmbulo da Constituição dos Estados Unidos da América, “Nós o Povo”, não incluía nem índios, nem pretos, nem indigentes, nem mulheres, só homens brancos desafogados (muitos deles, se fossem portugueses de hoje, seriam doutores). Em 1789 chegou a Revolução Francesa: Ah ça ira, ça ira, ça ira,/Les aristocrates à la lanterne/ Ah ça ira, ça ira, ça ira,/Les aristocrates on les pendra! (mas o Dr.Guillotin meteu-se de permeio, passou-se a decapitar e não a enforcar, o método manteve-se depois do próprio Guillotin ser guilhotinado e a invenção só deixou de ser usada quando a pena de morte foi extinta em França em 1982). Mais doutor que Robespierre não havia, Danton fora um grande barrista, Marat era médico. De entrada, cortaram-se cabeças a alguns fidalgos, mas o entusiasmo depressa abrandou. Essa revolução, toda a gente dizia, fora burguesa. Em 1917 veio a Revolução russa: os alemães do Kaiser (que detestava o primo Romanoff) convenceram Lenine a vir da Suíça e meteram-no em comboio selado donde só saiu na Estação da Finlândia, em S. Petersburgo, para tirar a Rússia da guerra e fazer a revolução bolchevique. Lenin era doutoríssimo, Trotsky também; Estaline não - mas fora seminarista. Depois de anos de saneamentos mortíferos e de gulag chegou a meritocracia partidária do tempo de Brejnev, quando os aparachiques deixaram de se matar uns aos outros e passaram a corromper-se uns aos outros. Opressão e subserviência dão sempre má mistura. A União Soviética colapsou ao fim de 70 anos de incompetências acumuladas que deixaram o que sobrou dela exausto até hoje.

 

E o poder sempre nas mãos de doutores, que experiências com outros deram resultados piores. (Tal o aguadeiro ajudado pelos ingleses para derrubar o rei Amanulah, modernizador do Afeganistão que, há quase um século, mandara tirar o véu às mulheres, se correspondia com Lenine e Mustafah Kemal e acabou exilado em Roma – enquanto em Cabul o aguadeiro mandou queimar todos os livros que não fossem o Corão porque ou diziam o que vinha no Corão e eram supérfluos, ou não diziam e eram malditos. Durou pouco). Mao, Nehru, Pol Pot, Lee Kuan Yew de Singapura, foram doutores – Kemal Attaturk, um doutor fardado. Portugal não escapou à maré: Afonso Costa, António José de Almeida, Sidónio Pais, António de Oliveira Salazar, Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e os de agora (salvo Jerónimo de Sousa).

 

A prática é sensata: mais vale ser governado por gente que saiba alguma coisa do que por gente ignorante e contente de o ser e hoje as melhores garantias de saber são universidades. Mas Facebook e quejandos dão vantagens inéditas à ignorância. O não britânico à Europa e a eleição de Donald Trump são disso exemplos assustadores - e a procissão ainda vai no adro. Nestas coisas, contra o que julgam alguns optimistas, não há progresso ascendente garantido; iremos por aí abaixo de escantilhão antes de começarmos a trepar outra vez pela encosta acima.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 10 de Maio de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

FRANCE POLITICS ELECTIONS MACRON

Emmanuel Macron

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O desbravar do caminho

 

 

 

 

Emmanuel Macron ganhou folgadamente a eleição presidencial em França mas os 34% de votos em Marine Le Pen mostraram mais de um terço da França virada para o país pétainista que fora no começo dos anos quarenta do século passado, contente por Hitler a ter salvo do comunismo – e tanto pior para os judeus. Que em 1945 a França não só tenha escapado ao opróbrio da derrota mas também sido dada por um dos cinco grandes vencedores da segunda guerra mundial – juntamente com Rússia, Inglaterra, América e China – com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, deve-se ao génio do general De Gaulle que, de Londres onde se refugiara, apelara à resistência aos alemães pelas forças francesas livres, uma pequena minoria de civis e militares (a que os comunistas se aliaram mas só depois de Hitler ter invadido a União Soviética, rompendo brutalmente o pacto germano-sovético contra as democracias europeias) e, a despeito da sobranceria norte-americana , comandara a sua luta com tal eficácia militar e política que, em 1944, descera os Campos Elísios à frente dos seus como libertador de Paris.

 

A França (e a fortiori a União Europeia) precisa também agora de quem a salve e talvez tenha encontrado o salvador em Emmanuel Macron. É trabalho de Hércules mas poderá ser feito e Macron parece estar disso convencido, tal como parecem estar os milhões que foi juntando à sua volta desde que, há um ano, lançou o movimento En marche! quando ninguém o conhecia para lá do mundo político parisiense onde se sabia haver aparecido rapaz inteligentíssimo com quem toda a gente simpatizava , casado com Senhora muito mais velha do que ele que fora sua professora no liceu. Se Macron der conta do recado, é preciso ir mais atrás na história de França do que De Gaulle para encontrar figura comparável: Napoleão Bonaparte. Os tempos e as técnicas são outros e a guerra não é militar mas em tenacidade de propósito, clareza no rumo à vitória, planeamento a longo prazo de estruturas e pormenores necessários ao projecto sem por isso perder comando e controle da luta diária, as semelhanças são sugestivas.

 

Muitos comentadores franceses e alguns estrangeiros lembram em tom magistral que não há homens providenciais. (Argumento conhecido contra a história contada por feitos de Reis, por praticantes da história contada por variações do preço do centeio). Infelizmente para os comentadores, “providencial” assenta como uma luva em De Gaulle e Napoleão (até o mando lhe subir à cabeça e o desterrar para Santa Helena). Sem homens providenciais – e uma mulher, Joana d’Arc – a França não seria a França.

 

Macron terá maioria na Assembleia Nacional. As piores dificuldades vêm de fora: austeridade, imposta pelos seus amigos alemães; vandalização da verdade, desde a teoria da evolução ao aquecimento global e a tudo o resto, exemplificada pelo 45º presidente dos Estados Unidos, que disse já quase 500 mentiras provadas desde que tomou posse a 20 de Janeiro.

 

 

 

 

 

publicado por VF às 10:18
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