Quarta-feira, 8 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Waterloo 1Batalha de Waterloo

 

 

José Cutileiro

 

Viagem na minha terra

 

 

Nota introdutória  Este título ignora que a Vera tem relação especial com os escritos do autor de Frei Luís de Sousa. Desencantou em casa manuscritos dele que acrescentam ao espólio do homem que inventou o português que nós falamos. Sem Garrett antes, Eça não poderia ter encantado tanto tantos de nós  nem haveria porventura, no pior dos casos, passado do janota do Porto que o meu chorado amigo Carlos Leal insistia erradamente em desprezar nele. Vá lá saber-se. Por mim devo confessar que Camilo (Castelo Branco) – é com ele que a comparação era feita em serões de província, alguns ainda iluminados a petróleo – me fascina às vezes – o fim de A Sorte em Preto, por exemplo, é uma pequena joia – mas que, na maior parte das vezes, me aborrece. Garrett e depois dele, mais ainda, Eça, purificaram o dialecto da tribo, expressão de Mallarmé que T. S. Eliot tirou do esquecimento ao metê-la na língua franca dos nossos dias. Entretanto, deste lado do mar não tivemos James Joyce, Marcel Proust ou Graciliano Ramos. O Zé Cardoso Pires foi o que mais perto dessa limpeza   andou, sobretudo em Lisboa livro de bordo.

 

Adiante. Estou sentado com a Myriam, que empurrara a cadeira de rodas pela manga abaixo, na segunda fila. As cadeiras são as mesmas e são poucochinho – no Alvar Aalto here – bengaleiros para casacos há muito desapareceram, viajamos assim como que em versão formicada e voadora de antiga camioneta para Sintra da Eduardo Jorge. Faltam bilhas de água de Caneças que dariam toque ecológico, sempre benvindo por estrangeiros mais ricos do que nós. Por outro lado, com louvável empenho cultural e alguma consciência do país que servem – não esquecer que o dia nacional de Portugal é o dia da morte do nosso maior poeta (e não, como acontece com outros, o de uma batalha ganha ou perdida ou, pior ainda, o da tomada sangrenta, por multidão armada, de cadeia para fidalgos tarados) – os dirigentes da TAP dão a cada um dos seus grandes aviões de passageiros o nome de uma ou um grande artista português, julgo que quase sempre das letras, e ontem calhou-me um chamado José Saramago. Infelizmente, porém, eu não gostava do homem nem gosto dos escritos dele.

 

Parado com as rodas quietas e firmes no plancher des vaches, como diria médico sábio meu amigo, o avião ia deixando entrar pessoas, muitas desejosas do sol de Portugal (que não haveria desta vez). Um homem mais bem vestido do que os outros, de barba cuidada, riu-se para nós e parou de pé contra a fila da frente. Era o Bernardo, irmão da Vera, vindo de reunião europeia, onde os participantes agora, com ingleses nem cá nem lá e eurocépticos à frente das sondagens eleitorais se sentem como Fabrice em Waterloo, sem perceberem como está a correr a batalha.

 

Quando todos se sentaram vi que o Bernardo, na fila atrás da nossa, ia já em economia. Eu julgara que se tivesse acabado com essa pelintrice do tempo de Passos Coelho mas não: alinhar por baixo continua a ser a regra. Coitado do país.

 

 

 

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Quarta-feira, 1 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Donald e IvanaDonald Trump e Ivana, a sua pimeira mulher

 

José Cutileiro

 

 

A eficácia do mal…

 

 

…ou a incompetência do bem ou porque é que eu apostaria, dobrado contra singelo, que Trump será reeleito 45° presidente dos Estados Unidos, como o foram o 44°, o 43° e o 42°. Disseram-me um dia que os chineses dizem – e não sei se quem mo disse conhecia algum chinês que o tivesse dito - Deus nos livre de viver em tempos interessantes. Mas desta vez não nos livrou e, lendo alguns propósitos de bispos e teólogos cristãos contemporâneos, reverendas e reverendos ditos progressivos, talvez nem sequer o pudesse fazer pela razão simples de afinal não existir.

 

Faz mais de 80 anos que, no começo da Guerra de Espanha , 1936-1939, Federico Garcia Lorca foi assassinado na sua Andaluzia natal por fascistas homófobos parecidos com muitos dos que acabam de levar o partido espanhol Vox às Cortes em Madrid. Lorca era um progressivo que morreu cedo demais para ter virado reaccionário com a idade, mas era também um grande dramaturgo e nem todos os seus personagens, homens ou mulheres, falam connosco na flor da idade – além disso, falam como eles e elas eram e não como ele foi – tal uma mulher, não me lembro se na Yerma se nas Bodas de Sangre (não tenho os livros à mão): «A mi me gustan las cosas asi: los hombres hombres, el trigo trigo». Eu estou com ela e receio que número crescente de eleitores americanos, de qualquer idade e sexo, esteja também, sobretudo desde que o Partido Democrata ganhou maioria gorda na Câmara dos Representantes e, entre correcção política e visões mirabolantes do futuro próximo, assusta os moderados de um lado e do outro, precisos para derrotar Trump quando este se bater por segundo mandato.

 

O receio instalou-se na noite das eleições e, desde então, nunca diminuiu. As minhas primeiras reacções, sem serem imediatas, foram simbólicas. Quando chegaram as alturas próprias não renovei as assinaturas da New York Revue of Books e do New Yorker – apesar de tentivas de ambos  de me levarem de novo aos respectivos redis. Tão-pouco lhes escrevi a explicar a minha retirada; antecipei que não concordariam com a explicação e que, por isso, menos a mereceriam ainda. Eu achara que, regressado depois de uns anos à Europa (Montemor, Marinha, Ilha de Ré, Bruxelas) não haveria melhores bisbilhoteiros para me manterem ao corrente de andanças transatlânticas. Consideram-se os mais inteligentes da costa oriental do seu continente, assim como os franceses se consideram os mais inteligentes da costa ocidental do continente deles.  Se os fosse lendo regularmente saberia tudo.

 

Puro engano. Não perceberam nada de nada do que, da costa à contracosta, a sua gente queria. Pior que Macron com os franceses. E, dado o tempo decorrido da eleição até hoje, não parecem ter emenda. Na quinta-feira passada o New York Times, em anúncio para angariar novos assinantes, gabava-se assim: Whatever happens next, we’ll help you to make sense of it. A arrogância não mudou. E The Donald – como lhe chamava a sua primeira mulher – irá ser reeleito.

 

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Quarta-feira, 3 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Jnicholson6

Harold Nicolson e Vita Sackville West em 1932

 

 

 

José Cutileiro

 

  Pérfida Albion II

                          

The worst kind of diplomatists are missionaries, fanatics and lawyers

                                                             Harold Nicolson, Diplomacy, OUP, London, 1939

 

 

Quando a primeira edição do supra citado livro de Sir Harold Nicolson foi publicada não havia, depois do fiasco da Sociedade das Nações, organizações publicas internacionais como há agora e menos ainda qualquer coisa parecida com a União Europeia. Na realidade, foram precisos seis anos de guerra brutal como nenhuma outra antes e, a seguir a esta, a tenacidade e a visão de meia dúzia de europeus, (entre os quais um francês, Jean Monnet, exportador de cognac que não se formara em Normale Sup e aconselhara o Presidente Franklin Roosevelt), bem como boa vontade, apoio militar e ajuda financeira dos Estados Unidos da América para pôr de pé o projecto que levou à União, cuja trave mestra é invenção recente, a amizade franco-alemã, e está a atravessar o momento mais difícil da sua existência devido a incapacidade aparente do Reino Unido, de um lado, e dos seus vinte e sete parceiros, do outro, de encontrarem maneira aceitável para todos do Reino Unido sair dela a bem.

 

Essa incapacidade assumiu recentemente, do lado do Reino Unido, facetas mais de opera buffa do que de negociação internacional, exercitando as melhores cabeças do jornalismo e da academia na busca de uma saída que fosse aceitável para a Câmara dos Comuns em Londres. Entre a quantidade de descrições interpretativas do que aconteceu até agora e do beco – ou becos – a que se chegou, muitas tendem a culpar a maneira como a negociação fora conduzida desde o princípio por Theresa May, escolhida para Primeiro Ministro pelo partido conservador  depois do chefe anterior deste, David Cameron – responsável pelo referendo em que os britânicos deviam escolher entre permanecer na União Europeia ou sair dela - se demitir. Deixo tudo isso de lado mas não sem recordar que parte do problema reside no facto dos ingleses levarem o seu parlamento muito mais a sério do que os continentais (o que é sinal de saúde política e não sintoma de doença).

 

No Verão passado, historiador expatriado meu amigo, falando do Brexit, perguntou-me « Eles, lá em Bruxelas,  estão conscientes da tragédia que isto é tudo ? » Infelizmente, com raríssimas excepções, julgo que não estivessem nem estejam. Há imensa gente a saber tudo sobre todas as árvores e quase ninguém capaz de ver a floresta. Ora Brexit, se não for tratado com muito cuidado, precipitará mudança tectónica indesejável no equilíbrio do Ocidente. E quer o fado que, à falta de grande estadista que agarrasse este gato pela pele do pescoço, se junte muito do pessoal que Nicolson mais receava. Do lado do Continente, de várias cores políticas, abundam os federalistas – e não há mais missionário; do lado das Ilhas, metendo medo ao governo, vociferam os Brexiters de base – e não há mais fanático. Dum lado e doutro, o terreno está polvilhado de assessores jurídicos, isto é, de advogados.

 

Azar dos Távoras.

 

 

 

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Quarta-feira, 27 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Xultimatum

Outros tempos

José Cutileiro

 

Pérfida Albion

 

Para crítico perspicaz Theresa May e os seus sucessivos negociadores queriam que acordo comercial perfeito com a União Europeia, soberania nacional pura e nenhuma fronteira com a Irlanda fizessem parte do contrato de saída da União a assinar pelo Reino Unido e os 27 estados membros restantes. Quando, a pouco e pouco, foram percebendo que tal vontade não era realizável sem ajustes que ajeitassem as contradições, já May tomara medidas e fizera declarações desastrosas (exemplos: assim que escolhida para chefe do partido promover eleições que perdeu e, com elas, a maioria absoluta; declarar, repetidamente, que no dealera preferível a um bad dealsem ter percebido que esta negociação não era como as outras; marcar linhas vermelhas exactamente onde precisava de espaço para negociar) que a revelaram incompetente e incapaz de resistir aos Brexiters extremos que, desde Thatcher, atormentam quem mande no partido Tory.

 

Um fraco rei faz fraca a forte gente e a podridão da cabeça chegou ao corpo todo. Colaboradores directos foram-se demitindo e contradizendo, até mesmo na última semana, à qual se chega em estado da maior confusão graças a inépcia de governo de Londres (exemplo: o homem que provavelmente media melhor o que estava em jogo, o embaixador do Reino Unido junto da União à data do referendo, foi expeditamente levado à demissão). O desejo de May de aplacar os Brexiters nunca abrandou: mesmo agora quando um prazo longo de adiamento da data de Brexit faria todo o sentido, limitou-se a pedir 30 de Junho – Brexiters receavam que mais tempo animasse mais compatriotas seus a afinal ficarem na União.

 

A incapacidade política abissal de May não explica tudo. Por um lado, em Ocidente que perdeu o comando do mundo e onde o fosso entre poucos ricos cada vez mais ricos e muitos pobres cada vez mais pobres aumenta dia a dia e com ele o mau viver, os governados estão fartos dos governantes, protofascistas ganham votos e, no Reino Unido, campanha pela saída da União entusiástica e descaradamente aldrabona, levou a melhor de defesa honesta e tíbia do statu quo. (The best lack all conviction while the worst/Are full of passionate intensity).

 

Por outro lado, a percepção do mundo dos ingleses é especial. Não têm Constituição escrita. Lords, o mais célébre terreno de cricket do mundo, conta 5 portas: East Gate, South Gate, North Gate, Grace Gate e Gate Number 6. Universitários desorientam-se para cá da Mancha por ignorarem o comprimento de 1 quilómetro. Antiquário do sul de Inglaterra entrevistado pelo New York Times não sabia há dias que com no deal os móveis que compra em França para vender mais caros em Inglaterra passariam a pagar direitos. Em 1955, quando o mano João andava na Slade School of Fine Arts, pediu num Workers Cafe (os restaurantes mais baratos da altura) bacon and eggs. Resposta: You can have the bacon, you can have the eggs but you can’t have bacon and eggs because it’s Wednesday. Etc.

 

NB Se a leitora achar que o Conselho de Ministros de May é parecido com um Workers Cafe talvez tenha razão. Dez anos depois do fim da guerra, regras de racionamento de comida estavam ainda nas memórias (e algumas em vigor) recorda o meu amigo Fernando. Em país sem Constituição escrita memórias de precedentes fazem lei e às vezes não são bem lembradas.

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

fernandopeyroteo

Fernando Peyroteo

 

José Cutileiro

 

Todo o mundo é composto de mudança

 

Ou assim Camões disse, talvez por palavras parecidas: estou a citar de memória que é mais traiçoeira ainda do que a pior das mulheres vítimas de violência doméstica aos olhos dos que lhes batem e, às vezes, de quem julga estes nos raros casos que são denunciados à polícia. Os modernos – nós, agora – estão a pôr de pernas para o ar costumes seculares. Miguel de Unamuno que, velho e alquebrado, na universidade de Salamanca replicou ao grito de Muera la intelectualidad traidora! Viva la muerte! do general franquista Millan Astray levantando-se e proclamando Este es el templo de la inteligencia y yo soy su sumo sacerdote!, anos antes, válido e em tempo de paz, teria gracejado – contaram-me, não vi escrito, mas se não era verdade era verosímil – que um homem devia todos os dias dar uma sova à mulher porque mesmo que ele não soubesse porquê ela sabia. De resto, não há sistema simbólico tradicional no mundo de que se tenha notícia (e são muitíssimos) em que a mulher não esteja do lado do mal, enquanto o homem fica sempre com o bem. Como se diria agora, há fake news que vêm de muito longe - entre os cristãos, com abundância, até da Bíblia.

 

Passar a tratar as mulheres de igual para igual é mudança nova e tanto quanto se saiba única. (Em sociedades matrilineais, por engano ditas matriarcais, o filho não herda do pai mas do irmão da mãe; quem quer, pode e manda continua a ser o homem). Quem diz mulher diz judeu. Estão a aumentar muito os casos de antissemitismo na Europa, hoje criminalizáveis. Essa mudança legal vai contra a tradição cristã que, durante quase dois milénios, maltratou os judeus, desde os pogroms da Europa oriental, percursores da solução final nazi, passando pelas conversões forçadas, até chegar à exclusão de clubes e outras descriminações raciais brandas que ainda duram. A pesar do peso dessa tradição, e de racismo generalizado (incluindo hebreu) no Médio Oriente, tratamento igual a judeus e goyim parece ter chegado à Europa para ficar. Outra mudança nova.

 

A mudança de que falava Camões é a mudança das estações, quatro vezes por ano voltando tudo ao mesmo, salvo no homem que a partir de certa idade chama à mudança envelhecimento seja qual for a estação em que entre. Quando, da mudança cíclica, se chega à mudança cada vez para pior da senectude, abre-se ainda mais um capítulo que pode às vezes fazer outros levantarem o sobrolho. Casal amigo de Frau Tichbein, mãe de Emílio (o dos detectives), achava que no tempo deles «o céu era mais azul e a cabeça dos bois era maior».

 

Levantar o sobrolho aos outros e ao próprio. Dei por mim a achar que os políticos de hoje, comparados com os do meu tempo (a que verdadeira política chegou em 1974, antes havia presos que éramos nós e carcereiros que eram eles) pareciam toscos e rascas. Depois fui mais atrás: aos 10 anos achava que o Presidente da República devia ser Fernando Peyroteo, avançado-centro do Sporting e da selecção nacional. A gente vai mudando.

 

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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Claude Lanzmann e Simone de Beauvoir2Claude Lanzmann e Simone de Beauvoir

 

 

 

José Cutileiro

 

Desabafos

 

 

Claude Lanzmann, director da revista Les Temps Modernes, onde sucedeu a Jean-Paul Sartre; autor de Shoa, filme-documentário de 10 horas sobre o morticínio dos judeus europeus por nazis alemães e acólitos de outros nacionalidades (a caça ao judeu é passatempo cristão intermitente e antigo) nos anos 30 e 40 do século passado; único amante de Simone de Beauvoir que esta admitiu que vivesse com ela na sua própria casa – apresento estes três feitos por ordem crecente de mérito – escreveu ter percebido desde muito novo estar condenado a uma vida falhada (ratée) por não ter nascido rico. São raras pessoas com essa lucidez e, mais raras ainda, aquelas que, possuindo-a, têm depois a franqueza de dizer o que ela lhes diz a quem as queira ler. Só encontrei a sentença de Lanzmann depois da morte dele, o ano passado, e talvez não tenha sido o único a identificar-me com a sua percepção fatalista. Mas é pensamento incómodo de albergar, sobretudo associado, inevitavelmente quando se pense em Lanzmann - Grande Senhor, ele próprio – e em Shoa, nos destinos dos milhões de pessoas por esse megamassacre consumidas (a maior barbaridade cometida por europeus contra europeus) . Na paz de uma sociedade tolerante que condena o antissemitismo, passados mais de 70 anos sobre os julgamentos de Nuremberg, parecerá mesquinho pôr na ideia que o dinheiro traga felicidade (não traz mas, dizia Bernard Shaw, traz qualquer coisa tão parecida que só um perito será capaz de as distinguir) de tal maneira que lamentar tão fundamente não o ter – e não o ter de nascença, como parte da ordem natural das coisas – dir-se-ia exercício narciso-masoquista antipático, mesmo desprezível.

 

Talvez – mas depois a gente olha à roda e factos incómodos começam a vir ao de cima. Hoje sabem-se muito mais coisas do que os crescidos sabiam quando eu era pequeno e arrumam-se essas coisas também de muito mais maneiras, avivando semelhanças e contrastes. Por exemplo, sabe-se, com números certos e contas feitas, que as 26 pessoas mais ricas do mundo possuem mais no seu conjunto do que metade – metade - da população do globo terrestre – o que, quer eu quer a leitora, deveremos concordar ser um um rôr de gente. Ao mesmo tempo, nos grandes vazios políticos criados nas cabeças pelo fim do comunismo e das esperanças que este levantara – antes de as aniquilar em Moscovo, Beijing, Havana,  Pyong Yang, onde quer que agarrou poder e prometeu amanhãs que cantam – nada ainda medrou capaz de concorrer com as moderações, decentes e sensatas, que equilibravam os pratos da balança a nosso favor no tempo da Guerra Fria. Nas Américas, em África vibram intolerâncias de fundamentalismo cristão. Em Myanmar morreram ilusões sobre o budismo. O Islão descamba demais em violência.

 

Ficam as nossas democracias, a sua mistura de fome, saciedade e esperança que nos dá a todos, incluindo os Lanzmann, um lugar ao sol. Mas se as diferenças abissais de  riqueza não forem reduzidas até estes oasis se sumirão.

 

 

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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

brexit cartoon

 

José Cutileiro

 

Pouca paciência

 

                                                                                         

A ministra dos negócios estrangeiros sueca disse não desculpar aos ingleses terem-nos metido a todos numa broncalina do camandro – ou numa Bernardette do caboz, poderia preferir dizer pedante de linguajares alfacinhas mas afinal é o mesmo, salvo para tais pedantes. Cada um tem os seus gostos.

 

E a mulher tem carradas de razão. Os ingleses nunca se habituaram a terem deixado de ser os patrões do mundo, embora tal tivesse acontecido há um século com a Paz de Versailles (oportunamente confirmado em 1945, quando os patrões do mundo passaram a ser os Estados Unidos da América, com a Rússia, durante 70 anos, a tentar roubar-lhes o poleiro) e, de maneira característica, meteram-se a partir de então a sentirem-se ofendidos por não o serem. Partilhar poder custa-lhes mais do que a outros – a «indirect rule» colonial era estratagema hábil: os sobas mandavam nos seus e os ingleses mandavam nos sobas, o que lhes garantia o poder, mantendo os outros com algumas plumas – e na União Europeia nunca perceberam bem o essencial: que, com a Alemanha desarmada e depois pouco armada, eles eram os mais fortes, ofenderam-se com ninharias e, por fim, sobretudoToriesmas também muitosLabour, julgaram que « a Europa» era o que os impedia de serem grandes como antes, em vez de perceberem que era, pelo contrário, o que lhes permitia conservarem parte dessa grandeza. Acompanhado tal estado de espírito permanente por erupções patrioteiras muitas vezes ridículas, a incompetência dos políticos fez o resto.

 

Os políticos são como os vinhos: há anos bons e anos maus. Na Europa, a seguir ao colapso da União Soviética, as colheitas não têm sido das melhores, com gente na sua maioria medíocre no que era dantes a Europa Ocidental e gente hábil na conquista do poder mas fiel às tradições fascistoides do lugar no que era dantes a Europa Oriental, tradições vindas dos anos 20 e 30 do século passado, exemplificadas pelo húngaro Orban e o gémeo polaco sobrevivente. Em Inglaterra, passadas  grandeza de Churchill, nervo de Thatcher e a ‘terceira via’ de Blair (arte de cortar pensões a velhinhas, com boa consciência) vieram pequenezes a coincidirem com o grande debate nacional – e da Magna Carta passou-se a desordem inédita. Salvo nos horrores próprios aos nacionalismos, costumavam-se encontrar nos ingleses mais decência e bom senso do que de costume. Foi chão que deu uvas.

 

Há quem julgue que longos períodos de paz impedem a aparição de grandes homens de Estado mas a ciência política (slow journalism, chamava-lhe o meu amigo Herb) não dá para certezas assim e poucas generalizações que não sejam triviais se poderão fazer a partir dela. É o que temos por agora, depois se verá – e, seja como fôr, «dos Lloyd Georges da Babilónia/Não reza a história nada» lembrou o Poeta, pondo pontos nos is.

 

Voltando aos ingleses. Só conheci um português como eles, juiz que vinha às vezes a Estrasburgo: «Não domino idiomas estrangeiros e sinto-me mal fora do território nacional».

 

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Caution FS

 

José Cutileiro

 

 

De desejos do bem a práticas do mal

 

 

«All politics is local politics» disse famosamente Tip O’Neill, muitos anos presidente da Camara dos Representantes em Washington, que nunca pôs os pés na Embaixada Britânica porque como todos os O’Neill era descendente de irlandeses e ha ódios de honra que mesmo que não se sintam (deu-se sempre bem com os embaixadores britânicos) se devem simbolicamente significar. Ódios que estão agora a subir de dia para dia em quase toda a parte, numa espécie de moda que de Trump a Bolsonaro, de Erdogan a Putin, de Duterte a Orban, de Le Pen a Salvini, e por aí fora, vão envenenando as relações entre pessoas, tribos, nações e tornando cada vez menos improváveis guerras que os europeus, depois de cinquenta anos no casulo do abrigo atómico fornecido por destruição mútua garantida às mãos de Washington, Moscovo ou ambas durante a paz da Guerra Fria, julgavam tão extintas como a varíola nesta península da Ásia, tão linda que Zeus um dia se transformou em touro para dormir com ela.

 

Não estavam. E, neste ‘cada-um-a-querer-o-seu-e-ou-tudo-ou-nada’, talvez nos devessemos preocupar com nossos filhos e netos. (Embora, a avaliar pelo pouquíssimo que se faz para deixar o Planeta vivável por quem venha a seguir, a ideia de sacrificar prazer de hoje a prazer futuro - sobretudo se esse prazer futuro já não for nosso – não pareça ser regra geral de vida mas mania de muito poucos). Deveríamos, pelo menos, ser capazes de contradizer  as mentiras inventadas  e orquestradas para deitar abaixo decência de viver que, com uma origem distante no lugar do homem no mito cristão, se começou a impôr no Renascimento, a seguir no Iluminismo, ganhou duas Grandes Guerras e, depois do fim da segunda, derrotados nazismo e fascismo, estabeleceu o Plano Marshall e o Pacto do Atlântico e veio a meter o comunismo no caixote do lixo da História.

 

Contra o que Talleyrand julgava, la douceur de vivre é muito maior e chegou a muito mais gente depois da Revolução. Dos seus caboucos fazem parte arranjos constitucionais que enquadram direitos e deveres de quem governe e de quem seja governado. Quando se toca neles – como agora na Polónia e na Hungria – está-se a fazer mal ao Homem, abrindo caixa de Pandora  cheia de víboras. As fake news que nos bombardeiam enfraquecem a defesa da decência, sem a qual a vida seria muito mais dura e brutal mas é difícil acabar com elas. Por exemplo, lembra o historiador-guru israelita Yuval Noah Harari, a Bíblia está cheia delas  e embora sejam raros os que creem ainda que o Mundo começou há 5.760 anos ou que Nossa Senhora concebeu virgem, muitos acreditam em outras inverosimilhanças.

 

Não importa. Metamos entre parêntesis os Deuses de cada um, e ataquemos mentiras sobre o que esteja provado lógica ou empiricamente. Que eu saiba não vingam fake news sobre o teorema de Pitágoras, o princípio de Arquimedes ou as teorias  da relatividade de Einstein - e por aí abaixo. A eito e sem tréguas, senão adeus douceur de vivre.

 

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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

arc de triomphe Paris

Arco do Triunfo, Paris

 

 

José Cutileiro

 

Eterno retorno

 

 

Fim de semana chuvoso, no conforto de casa, com a televisão a mostrar comemorações em vários lugares, mormente no Paris que Haussman arquitectou para glória do Estado e controle de turbas operárias descontentes. Arco do Triunfo no centro da Estrela, debaixo do chão da qual jaz o soldado desconhecido (ou conhecido de Deus – Known unto God– segundo lápides funerárias em cemitérios militares britânicos, graças a Rudyard Kipling, prémio Nobel da literatura, que perdera um filho na guerra cujo fim, há cem anos, foi celebrado este Domingo). França, a mais monárquica das Repúblicas - cada francês ou francesa entrança em si um ci-devante um sans culotte  - tem jeito para comemorações destas, a coreografia foi excelente, os muitos chefes de estado presentes, abrigados da chuva por elegante construção temporária transparente, portaram-se bem e Macron disse bem discurso bem escrito. A Sarabanda da 5ª suite para violoncelo solo de João Sebastião Bach - que Rostropovich tocara em 1989 diante de Muro de Berlim deitado a baixo – ouviu-se desta vez pelas mãos de Yo Yo Ma. (Mesmo três Fems que conseguiram manifestar-se e a polícia agarrou logo não destoaram: mamas ao léu fazem parte gloriosa da Grande Revolução Francesa).

 

Tudo como deve ser mas Álvaro de Campos veio-me logo à cabeça.

 

Dos Lloyd Georges da Babilónia                                                                                             

Não reza a história nada.                                                                                    

Dos Briands da Assíria ou do Egipto,                                                                                  

Dos Trotskys de qualquer colónia                                                                                            

Grega ou romana já passada                                                                                                     

O nome é morto, inda que escrito.

 

 

 

Só o parvo de um poeta, ou um louco                                                                                                                                           

Que fazia filosofia                                                                                                                        

Ou um geómetra maduro                                                                                                               

Sobrevive a esse tanto pouco                                                                                                                                                                                                                                  Que está lá para trás no escuro                                                                                                   

E nem a história já historia.

 

 

Ó grandes homens do Momento!                                                                                                              

Ó grandes glórias a ferver                                                                                                                        

De quem a obscuridade foge!                                                                                                                

Aproveitai sem pensamento,                                                                                                                           

Tratai da fama e do comer,                                                                                                                                                                         

Que o amanhã é dos loucos de hoje.

 

 

Em modo menos anarquista, lembrei-me da estreia de ‘A Tragédia do Rei Lear’, posta em cena em sueco por Ingmar Bergman em Janeiro de 1984, na véspera da abertura da Conferência de Paz de Estocolmo, entre países da OTAN, países do Pacto de Varsóvia e países neutros e não-alinhados, que começou num dos momentos mais tensos da Guerra Fria. O 'Rei ‘Lear’ é uma zaragata de faca e alguidar em que muita gente mata e morre, incluindo o Rei e as três filhas. Na última cena, alguns sobreviventes lambem as feridas e preparam-se para retomar a vida, acabrunhados. Na mise en scénede Bergman, o pano cai – e levanta-se num ápice com os personagens de espada em riste já prontos para outra, antes de cair de vez.

 

Será o que nos espera? Angela Merkel esmagou o Sul da Europa, não quis tocar no superavit alemão, despertou o fascismo latente do Leste da Europa ao prometer-lhes gente de todas as fés e cores e vai-se embora. Os ingleses perderam a tramontana. Varsóvia, Budapeste, Viena, até Roma, deixaram de procurar entrar pela porta estreita e animam o pior dentro de cada um de nós. Macron quer as coisas certas mas tem pouca companhia. E de um lado e do outro, sem fé nem lei, Trump e Putin fazem troça.

 

Uma broncalina do camandro ou, se a leitora preferir, uma Bernardette do caboz.

 

 

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Quarta-feira, 31 de Outubro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Adão e Eva - Peter Paul Rubens

 

José Cutileiro

 

 

O povo é quem mais ordena

 

 

A extrema riqueza e a extrema pobreza têm uma coisa em comum: ambas assustam à primeira vista, disse já não me lembro ao certo (a idade não perdoa) que escritor inglês - e era capaz de ter razão. Digo ‘era capaz’, porque não tenho experiência que chegue na matéria. Um ou outro marajá ou príncipe árabe em festas de Oxford, às vezes com atavios tradicionais e caprichos malcriados; uma manhã a pé por ruas de Karachi, com cuidado para não pisar cadáveres de gente acabada de morrer de fome.

 

A esmagadora maioria dos ricos e dos pobres que encontrei na vida estavam muito longe desses extremos, embora suficientemente perto para a gente saber que uns eram os pobres e outros eram os ricos e ser às vezes tentado a compará-los.  Passando do dinheiro à política, quem diga pobres e ricos poderá também dizer bases e cúpulas, povo e poder. E aí a minha experiência profissional quer como antropologista no Alto Alentejo  nos anos sessenta do século passado quer como diplomata na Bósnia Herzegovina no começo dos anos noventa do dito século, convenceu-me de coisas que não vêm e não são sugeridas nem no Sermão da Montanha de Nosso Senhor Jesus Cristo nem no Manifesto Comunista dos alemães anglicizados Karl Marx e Frederich Engels. (Parêntesis: se acrescentarmos Freud e Einstein a esse estojo de ferramentas intelectuais para entendimento do século XX, ficaremos com ramalhete que deixará de água na boca qualquer antissemita americano que se preze, já a engatilhar as muitas armas de fogo que o Estado os encoraja a ter em casa. Parêntesis fechado).

 

O que eu descobri nas minhas andanças alentejanas e balcânicas no já remoto século passado – ou descobri independentemente, ou julguei ter descoberto, ou, dirão alguns, tomei nuvem por Juno e elaborei enganado – foi que os pobres são piores do que os ricos (não só fisicamente, pois remédios custam caro, mas também moralmente) e que as bases são piores do que as cúpulas. Talvez isto não se note tanto porque os ricos dão mais nas vistas. O escândalo da tia do meu chorado Raúl Miguel, fechada num manicómio quando se apaixonou por amanuense pelintra, pela família que subornou psiquiatras e juizes, até deu uma peça de teatro de Ramada Curto. Dos muito velhos e velhas em famílias de trabalhadores rurais, mortos devagar de fome por só os deixarem comer à proporção das suas míseras reformas, ninguém falou. Quanto à política: hoje o Dr. Karadzic, chefe dos sérvios bósnios em 1992, preso na Haia, apela de sentença de quarenta anos de cadeia. Ele era a cúpula: e passava o tempo a tentar moderar as suas bases que queriam sempre matar e espoliar mais croatas e muçulmanos.

 

O que me leva ao Pecado Original e ao à vontade que Silicone Valley veio dar à maldade humana. Fartai vilanagem! Tempo haverá até serem criados novos estabilizadores de decência e bom senso. Entretanto, o Brasil está à beira do abismo. Mas, como dizia o meu amigo Vernon Walters: «Você olha pró abismo e o Brasil não cabe!».

 

 

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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