Quarta-feira, 11 de Julho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Laura Codruta Kovesi
 
 

José Cutileiro

 

 

Dissabores romenos

 

 

 

No começo ou no fim de um daqueles filmes pequenos que o autor de Citizen Kanee de The Magnificent Ambersons produzia e realizava nos últimos anos da vida, que não foi longa – mas começou depressa: tinha 26 anos quando fez Citizen Kane - para ir ganhando algum dinheiro, já não me lembro qual deles, Orson Welles pergunta-nos retoricamente do écran, com o jeito e o charme que nele abundavam, se nós sabíamos como era a receita de omelete de um cozinheiro romeno. No filme ele diz chef, nós agora também dizemos chefe, mas quando o filme foi feito nós dizíamos cozinheiro. Chefe é modernice, assim como estrelas do Michelin e – salvo no Porto, que já era cidade de província da Europa enquanto Lisboa ainda não era nada – servir primeiro as senhoras. E responde ele próprio à pergunta: “First, you steal an egg” – “Primeiro, rouba-se um ovo”. A este propósito, há conselho balcânico, encontrado em várias línguas da vizinhança mas não em romeno que, traduzido para português, rezaria assim: “Depois de apertares a mão a um romeno, conta os dedos.”

 

Lembrei-me disto hoje, por ter lido o que li no New York Times on line (eu, facebook e outros indutores de infantilização dispenso: sentir-me-ia como criança esquecida de que a mãe lhe tinha dito para não falar a estranhos nem responder se eles lhe falassem a ela, mas Google acho utilíssimo porque me poupa tempo e corrige a memória, a qual, diria o meu chorado Raul Miguel, mente ainda mais do que as mulheres). A Roménia, há alguns anos, elegeu presidente da república Klauss Iohannis, chefe de pequeno partido da oposição, membro da sua minoria alemã que, de tão pequena, não assusta ninguém – a minoria incómoda é a húngara, sobretudo quando dá jeito ao populista Orban aliciá-la da sua ponte de comando em Budapeste – e o homem, luterano, sério, organizado até à medula dos ossos, resolveu tentar meter o país na ordem e, para um alemão, a ordem, desde 1945, com demão a Leste em 1989, é democrática. Para isso tem-se apoiado muito na procuradora da república (como nós diríamos) Laura Codruta Kovesi, encarregada de combater a corrupção e fazendo-o com grande sucesso desde a sua nomeação em 2013, animando o povo e a União Europeia mas agastando governo e grandes partidos. Ora a constituição romena dá mais poder ao governo do que ao presidente e, em Fevereiro, o ministro da justiça recomendou ao presidente que a Drª Laura fosse demitida porque excedera o seu mandato e – cereja do costume nestes bolos – estragava a imagem da Roménia no estrangeiro. Durante meses, o presidente disse que não o faria; agora, apertado por artimanha constitucional, fê-lo mesmo, mas a luta continua: vai nomear alguém do mesmo jaez e a Drª, do posto para onde vai, continuará a mandar farpas.

 

Conto isto não por animar sabermos que há pior que nós na U.E. mas sim porque a diferença não é assim tão grande e se não nos pusermos a pau resvalaremos para buraco donde não haverá 25 de Abril (ou 28 de Maio) que nos tire.

 

 

 

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Quarta-feira, 4 de Julho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

cova da Moura

Associação Cultural Moinho da Juventude, Cova da Moura

© Rui Palha 2014

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A Amadora é um PALOP

 

 

 

A minha sobrinha predilecta, que fala alemão e russo, andou por essa Europa com Erasmo de Roterdão e, após tese de direito brilhante, é advogada em Lisboa, está indignada por haver tanta gente com “interesse eleitoral em berrar que querem pôr na rua os imigrantes todos já”. Sobretudo em países que não têm imigrantes e até mandam eles próprios emigrantes para partes menos intolerantes do Continente.

 

O que há agora é mau e anima em cada um de nós sentimentos que podem facilmente passar da indignação para a ira - e a ira é má conselheira, se não se quiser fazer mal. ‘A dor humana busca amplos horizontes / E tem marés de fel como um sinistro mar’, escreveu Cesário Verde e hoje à roda dá-se pelas ditas marés, embora me pareça não serem desta vez causadas por dor mas por raiva. Que há mal dentro de cada um de nós toda a gente sabe; que se batam tambores para o fazer sair à rua a dar ares da sua graça, não acontece sempre e na Europa, desde as convulsões que acompanharam o fim da Segunda Guerra Mundial – na Alemanha e á volta dela expulsaram-se milhões de pessoas, último sobressalto da grande matança – tínhamos perdido o hábito e o gosto disso, salvo em lugares precisos – o País Basco espanhol; a Irlanda do Norte – especializados em horror macabro. (Estrada à saída de Belfast, tanta chuva que os cantoneiros se abrigam numa tenda. A lona abre-se, homem encapuçado, a metralhadora engatilhada, pergunta: “Católicos ou protestantes?” Aconteceu).

 

Ódios fraternos adormecidos, partiu-se para o que os franceses gostam de chamar o ódio ao outro – e nada parece abater agora. Comovemo-nos, há três anos, com cadáver de menino turco na praia? Mas pouco ou nada fazemos para impedir que homens, mulheres e crianças continuem a morrer no Mediterrâneo. Na Alemanha, a maré de fel quer dar cabo do  extraordinário exemplo de recuperação cívica e moral de um povo (o dos alemães ocidentais). Nos ‘países de Visogrado’ – Polónia, Hungria, Eslováquia, República Checa – o ódio ao outro, brutal (e ridículo, porque não há ‘outro’), torpedeia tentativa de instalação de democracia e decência. Ninguém quer o comunismo de volta mas a solidariedade humana, maltratada durante décadas, não recupera. Quanto ao nazismo: ao ver a Baviera, rica e sem imigrantes, querer tanto mal ao ‘outro’ fica um homem perplexo.

 

Volto à minha sobrinha, na Amadora. “Tenho contactado muito com questões de imigração no trabalho. E tenho um respeito enorme pela maioria destas pessoas. Ser imigrante legal não é fácil e envolve mais papelada e meses de espera com a vida pendurada do que qualquer ser humano merece (…) Ser imigrante ilegal é não existir. Tentar passar a legal depois de ter começado como ilegal é um calvário (…) Enfim também não digo que temos de aceitar toda a gente só porque temos de aceitar mas esta ‘nova’ Europa não é coisa em que me reveja.

 

Se calhar é porque, como me dizia no outro dia um taxista ‘a Amadora é um PALOP’ e eu afinal nunca vivi na Europa”.

 

 

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Quarta-feira, 27 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Italian navy rescue asylum seekersrequerentes de asilo no Mediterrâneo 

Foto Massimo Sestini - 2014

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Regresso aos anos trinta?

 

 

 

Amiga de Torino estima que apreensão dos outros europeus quanto a estabilidade política italiana, por causa de coligação governamental contra natura de partido da extrema-direita (a Liga) e partido de esquerda libertária e folclórica (o 5 Estrelas), não tem razão de ser – muito pelo contrário.

 

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial que não havia país da Europa ocidental mais politicamente instável do que a Itália, com quase um governo por ano. Salvo meia dúzia de génios da arte, os seus políticos, dos mais bem pagos do planeta, eram baratos de ideias, de ideais, de aspecto, de trato e pouco considerados mas ninguém se preocupava com isso porque os fabricantes de luvas eram de primeira classe. Os de luvas e os outros: de roupa, de calçado, de coisas de casa, de automóveis, de joalharia, de vinhos, de comida, de electrodomésticos, de fitas de cinema - e depois há os monumentos e o jeito para agradar: das ruínas de Pompeia, Goethe escreveu no seu diário que tinha havido muitas tragédias na história da humanidade mas nenhuma que dera gosto aos vindouros como aquela.

 

De há poucos anos a esta parte, porém, como em todo o Sul da Europa, a papa-doce acabou-se mas enquanto na Grécia, na Espanha e em Portugal tal não levou a guinada populista para a direita na política - talvez por Salazar, Franco e os coronéis gregos estarem mais próximos de nós no tempo do que está Mussolini, que acabou baleado com a amante e exposto ao público pendurado pelos pés há 73 anos. Seja como for, algumas eleições locais têm realçado ainda mais o poder da Liga e muita gente, incluindo a italiana sagaz com que comecei esta escrita acha que se o país todo voltasse às urnas agora a Liga seria capaz de ter muito mais votos e poder governar sem precisar do 5 Estrelas, contando com apoios da direita da antiga Democracia Cristã. A Itália penderia assim, como aconteceu na Hungria e na Polónia - e parece estar a preparar-se na Áustria, na Eslováquia, na Eslovénia – para uma forma de democracia “musculada”, sistema para o qual alguns comentadores já encontraram nome: democratura.

 

A seguir a 1945, sob hegemonia americana, na Europa do lado de cá da cortina de ferro estabeleceram-se regimes democráticos, aparentemente vigorosos (embora dependessem dos Estados Unidos para sua defesa) e atingiram-se níveis de decência e prosperidade inéditos no mundo. A defesa dos direitos do homem floresceu. O único mal era o comunismo, que ia ser vencido – como foi.

 

Mas o mal não era esse. E o que começou a passar-se depois, está a florescer agora e não se sabe ainda onde irá parar, é uma rejeição dessas décadas de boa-vai-ela e de boas intenções. O ‘outro’ – e milhares de emigrantes por ele - passou a ser o inimigo. A lei do mais forte não perdoa; direitos do homem são luxos de rico. Qualquer dia haverá guerras por perto.

 

Italianos sensatos não querem que este governo caia pois a seguir viria a Liga sozinha. Consigam-no ou não, a Europa vai por mau caminho.

 

 

 

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Quarta-feira, 20 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Zona de treino militar em Grafenwoehr, Alemanha. 

Christof Stache/AFP via Getty Images 

 

 

José Cutileiro

 

 

A ver se o homem entende

 

 

 

Pedro Pires de Miranda, o ministro dos negócios estrangeiros português mais inteligente com quem trabalhei (ou, pelo menos, aquele com quem aprendi mais - um dia, era eu director político do MNE, informei-o: ‘Senhor Ministro, eu com três pessoas não consigo tratar disso’; ‘Já experimentou com duas?’ veio a resposta), percebeu o que escapara aos outros e a ele dava gosto: ‘A política externa é óptima. Só se têm inimigos!’

 

Não só os portugueses são afectados por essa cegueira idílica. Os europeus – primeiro 6; depois 9; depois 10; depois 12; depois 15; depois 24 (aí o caldo começou a entornar-se); hoje 28 e amanhã 27 – estiveram esquecidos disso desde a invenção das Comunidades Europeias até à eleição de Donald Trump e mesmo, depois desse feito americano (Hillary Clinton ganhou por três milhões o voto popular) julgaram que o exercício do poder iria tornar o homem muito parecido com os seus predecessores. Grande e breve engano - mais duro ainda, a seguir a 8 anos de Barack Obama, o menino querido da maioria dos eleitores europeus dessa época.

 

Donald Trump é deliberadamente ordinário e malcriado; é um mentiroso sistemático e o que se sabe de muitos dos seus sentimentos, gostos e vontades deveria exclui-lo do convívio de gente decente, tê-lo impedido de ser escolhido para inquilino da Casa Branca. Dito isto, é o Presidente dos Estados Unidos da América e tem razões de queixa legítimas dos europeus no que diz respeito a despesas de defesa. Terá outras ainda no comércio internacional, mas a sua maneira de tentar corrigir desequilíbrios contra si com a imposição de tarifas irá desencadear guerras comerciais e ajudar a destruir a ordem internacional baseada em regras aceites por todos em que o mundo vive pacificamente há mais de meio século e de que o principal beneficiário são os Estados Unidos.

 

Na defesa é diferente. O Tratado do Atlântico Norte de 1949 – que levou a organização a que chamamos OTAN ou, à inglesa, NATO – de que Portugal foi membro fundador mesmo sem ser uma democracia tinha em vista defenderem-nos do perigo soviético. O arsenal nuclear americano (existem também o britânico e o francês mas, como Mitterrand disse uma vez a propósito do segundo: ‘Soyons sérieux, messieurs…’) e as forças convencionais americanas eram de longe as maiores da Aliança mas, se houvesse invasão soviética, esta seria dos países europeus. Depois da Guerra Fria, sem risco dessa invasão, a NATO continua essencial para nossa defesa mas acordou-se em partilhar o fardo de outra maneira. Cada Aliado gastaria pelo menos 2% do seu PIB em defesa. Apesar de décadas  de insistência de Washington, só o Reino Unido o faz.

 

Assim, quando Trump tweeta que a Alemanha deixou entrar tantos emigrantes que o crime aumentou (o que é mentira) a Alemanha deveria chamar o embaixador em Washington para consultas. Mas deveria também ser capaz de informar o embaixador americano em Berlim de que a despesa alemã de defesa subira acima de 2% do PIB.  

 

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Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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 S. Francisco de Assis - El Greco

 

 

José Cutileiro

 

 

A parte colérica da alma

 

 

Partido de extrema-direita ganhou as eleições na Eslovénia e irá juntar o país a outros do Centro e do Leste da Europa – Hungria, Polónia, República Checa, Áustria - e talvez em breve também do Oeste – Itália - que dizem não a emigrantes vindos de África e de Ásia (terras viciosas que há cinco séculos os portugueses andaram devastando, cantara Luís, zarolho de génio de cuja data de morte fizemos dia nacional, celebrado no Domingo).

 

Setenta e três anos passaram sobre a afirmação universal do Bem, quando em 1945 o Terceiro Reich se rendeu incondicionalmente aos aliados; afirmação confirmada, para os que ainda tivessem dúvidas, quarenta e quatro anos depois, quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo e os aliados bons derrotaram por fim os aliados maus; com demão suplementar da dita confirmação aplicada zelosamente entre Janeiro de 2009 e Janeiro de 2017 por Barack Obama, então inquilino da Casa Branca, convencido de que a sua passagem por lá iria melhorar o mundo (Razão, irmã do amor e da justiça mais uma vez escuta a minha prece, rogara também Antero, o suicida do jardim público em Ponta Delgada).

 

A parte colérica da alma está a voltar em força e a fomentar ódio ao estrangeiro em corações que nos últimos decénios andavam distraídos por outras coisas. Praticam-se crueldades que, julgávamos nós, tinham passado a ser inadmissíveis. Na fonteira entre o México e os Estados Unidos, famílias latino-americanas que para estes queiram emigrar legalmente vêm os filhos separados dos pais até à conclusão do processo, isto é, sine die, sem nada saberem uns dos outros. Tal enormidade Trumpiana (ele diz que a lei vem dos Democratas mas é mentira), condenada até por alguns senadores norte-americanos, continua de vento em popa. De desmandos de Putin, Orban, Erdogan, do faraónico Sisi e outros mandachuvas africanos, do grande chefe chinês que se fez declarar perpétuo pelo Partido, sabemos todas as noites no telejornal (se Sócrates, Pinho, EDP, Sporting, eutanásia e dentro de dias campeonato do mundo de futebol deixarem tempo…) e cada um já não nos incomoda mais que escassos segundos.

 

Achamos outra vez natural que os humanos sejam maus como as cobras uns para os outros, o que sempre aconteceu e muitas vezes por razões consideradas boas (quando retomou Goa em 1510, Albuquerque terríbil encheu um bote com orelhas e narizes de muçulmanos locais, castigados por o terem traído; no seu tempo de Vice-Rei, em barco cheio de muçulmanos apresado no alto mar, homens, mulheres e crianças eram sempre passados a fio de espada que a segurança do Império dispensava mais mourama).

 

A demanda do Bem, a convicção de que a felicidade passara a ser possível não levaram só ao Gulag ou a Pol Pot. Na decência tenaz de algumas  democracias burguesas pareceu  à vezes que certas maldades tinham acabado (como a varíola, no mundo natural). Grande engano. Como um sábio lembrou, a guerra é tão antiga quanto a humanidade; a paz é uma invenção recente.

 

 

 

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Quarta-feira, 30 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 Caravaggio (1595)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Os cotovelos da Europa

 

 

… eram a Inglaterra e a Itália, decidiu o nosso Fernando Pessoa no começo do seu único livro de versos publicado em vida, « Mensagem », que apresentou a concurso organizado pelo Secretariado de Propaganda Nacional do governo do Dr. Salazar onde lhe deram menção honrosa (o 1° Prémio foi para « Romaria », do padre Vasco - do apelido esqueci-me - de quem toda a gente se esqueceu também). Um dos cotovelos era a Inglaterra, o outro era a Itália. Com tais cotovelos no estado em que estão hoje a Europa arriscar-se-ia a cair de caras o que seria mau para nós porque para o compincha de Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e mais rapaziada (não havia meninas) o rosto da Europa era Portugal.

 

A Inglaterra foi sempre pedra no sapato da Europa e o Brexit, quando veio, não espantou ninguém. Por outro lado, como a prosperidade dos ilhéus depende de relações mutuamente vantajosas com o resto da União, há cada vez mais gente a querer que, por fim, não haja saída ou que haja saída tão parecida com não a ter havido que ninguém dê por isso (que não se sinta diferença no tinir dos dobrões no bolso, diria o meu amigo Henrique). Se Putin continuar, sempre, a meter medo e Trump continuar a meter, às vezes, medo maior ainda, talvez a prudência leve a resultado que nos enriqueça a todos em vez de nos empobrecer.

 

O susto agora não vem desse cotovelo. Vem do outro, do italiano. A Itália, um dos seis países fundadores do que é agora a União Europeia (mas o único cujos chefes não podiam voltar de automóvel para dormirem em casa depois de jantarem todos em Bruxelas, por ser longe de mais), país rico com manhas de país pobre onde a vergonha é opcional, tem a maioria dos eleitores contra a Europa pela primeira vez desde as Comunidades Europeias. A leitora saberá de peripécias recentes: eleições puseram no topo A Liga, partido de direita dura, racista, xenófoba, nostálgica de Mussolini e o 5 Estrelas, partido meio virado para o infinito meio virado para bardamerda, ramalhete de fantasias irresponsáveis italianas que recebeu ainda mais votos do que o outro. Nada os une salvo ódio à Europa, ao euro, às elites políticas tradicionais do país, de Berlusconi a Renzi, e à estrangeirada – pretos e alemães à cabeça. O Presidente da República encarregou de formar governo nulidade aldrabona por eles indicada mas recusou-se a aceitar para ministro das finanças economista que advogara saída do euro. Impasse: a nulidade retirou-se, os dois partidos bateram a porta, o Presidente encarregou tecnocrata (tão amigo da austeridade que lhe chamam O Tesouras) para formar governo de gestão e daqui a poucos meses haverá novas eleições.

 

Bruxelas suspirou de alívio; Macron saudou a coragem do Presidente. Eu tenho dúvidas. No governo, a coligação depressa daria ditos por não ditos, exporia sua incompetência e se desfaria. Assim ganhou capital de queixa populista e será mais difícil de combater no futuro.

 

“Ai esta Europa, esta Europa…” diria a Avó Berta.

 

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Quarta-feira, 2 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Quentin Metsys - O Cambista e a sua mulher (1519)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Deutschland, Deutschland über alles

 

 

 

Quem é o maior inimigo da União Europeia? O Reino Unido, de saída no comboio fantasma do Brexit? Itália, onde maioria dos eleitores votaram este ano em partidos que não a querem? Polónia, a submeter o poder judicial ao poder executivo? A Hungria autoritária e xenófoba de Vitor Orban?

 

Ou estará o inimigo fora de portas? Os Estados Unidos de Donald Trump com o seu ataque sistemático ao ambiente e a sua guerra comercial contra mundo? A cleptocracia de Vladimir Putin, incapaz de diversificar economia de gás e petróleo, com 110 pessoas donas de 35% da riqueza russa, a mão de ferro do Kremlin a dominar jornais, telefonias e televisões, controlando a opinião interna, e ordena piratagem informática (e um assassinato ou outro), para tentar destabilizar potências estrangeiras, grandes ou pequenas? Ou será a China, planeando a longo prazo (que já não é o que era: Keynes escreveu que a longo prazo já teremos morrido todos mas agora, a longo prazo, ainda alguns de nós por cá andarão)?

 

Ou, para espíritos seduzidos pela teoria conspirativa da história, todos estes, mancomunados uns com os outros?

 

Nada disso, leitora. O maior inimigo da União Europeia é afinal a Alemanha, que é também o mais populoso e o mais rico dos seus Estados Membros bem como, até há poucos anos, o era a Alemanha Federal – antes da reunificação havia duas Alemanhas - o único a encontrar na Europa um Ersatz de Pátria . Em 1996, em Bruxelas, coronel alemão que trabalhava comigo na UEO e fora no dia 9 de Maio a espectáculo na Grand Place para celebrar o Dia da Europa, contou-me, indignado, que só ele, a mulher e os filhos se tinham levantado quando fora tocado o Hino da Europa (4º andamento da nona sinfonia de Beethoven, sobre a Ode á Alegria de Schiller).

 

Em 1945, os europeus beligerantes estavam de rastos e a Alemanha, além disso, com quatro patas em cima (USA, URSS, Reino Unido e França) para só se levantar devagar e desarmada. Mas em 1957 já assinou o Tratado de Roma (a Itália também); laboriosa e disciplinada fora pagando a sua conta, pagamento muito facilitado porque se precisava dela forte, perante a União Soviética. Com os anos foi recuperando muitas das características de uma grande potência (e uma rara nestas: era o único dos “grandes” a esforçar-se por tratar bem os “pequenos”). Antes de se dissolver, a União Soviética consentiu na sua reunificação. Aí as coisas mudaram.

 

A “construção europeia” fora inventada na esperança de se poder viver em paz com a Alemanha depois das duas tragédias da primeira metade do século XX. Funcionou enquanto a Alemanha era devedora e estava dividida. Cofre pagador e reunificada, opõe-se a qualquer forma de mutualização da dívida. Acredita que o Norte protestante da Europa é bom e o Sul católico e ortodoxo é mau. Dívidas são pecados. Conservadores, liberais, verdes e democratas sociais acham “que a Europa está como está porque não se foi suficientemente duro com os países do Sul”. Nada bom à vista.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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bola de cristal

 

 

José Cutileiro

 

À procura do futuro?

 

 

 

Dois factos

 

Primeiro: Entre 2007 e 2017, os proventos dos administradores das cem maiores companhias do Reino Unido foram multiplicados por quatro, isto é, passaram em média de um milhão para quatro milhões de libras esterlinas por ano. Durante a mesma década, os proventos do geral das pessoas empregues por conta de outrem no Reino Unido aumentaram de 10%, isto é de 1% por ano.

 

Segundo: Também no Reino Unido, à pergunta, corrente em inquéritos de sociedade, ‘Acha que os seus filhos vão ter vida melhor do que a sua?’ as respostas, até 2007, tinham sido quase sempre sim – e, a partir de 2008, passaram a ser quase sempre não.

 

Uma preocupação.

 

Em toda a Europa Ocidental, comentadores nos jornais, nas telefonias, nas televisões alarmam-nos de há alguns anos a esta parte com o crescimento do chamado populismo. Referendo no Reino Unido a escolher saída da União Europeia; eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos; eleição – e reeleição recente e reforçada – de Vitor Orban para primeiro ministro da Hungria; popularidade mantida pelo actual governo liberticida polaco; subida nas sondagens da Frente Nacional em França e – mais ainda – do movimento Cinco Estrelas na Itália, são dados como exemplos, entre outros, desse crescimento. Aos jornalistas juntam-se os cientistas políticos (a final de contas, uma espécie de jornalistas lentos e  possuídos por ‘the craving for generalizations’ que tanto irritava Wittgenstein) os quais tentam definir populismo, classificar variedades, comparar os seus aproveitamentos por demagogos de direita e de esquerda . Uns e outros, os rápidos e os lentos, preocupados por verem a Democracia mirrar dia a dia diante dos seus olhos, espécie de bambu ao contrário.

 

Um lembrete.

 

Ao contrário do que muito boa gente parece pensar, o fim do comunismo – o colapso da União Soviética; o mandarinato marxista-leninista de Beijing – não foi a extinção de uma doença. Foi o falhanço de um remédio e a sua desacreditação. O comunismo perdeu a Guerra Fria porque era pior do que o capitalismo mas a maneira como as coisas têm corrido desde então está a dar ao capitalismo uma vitória pírrica. Prosseguindo na metáfora médica: a doença continua e, esgotadas todas as variedades da mezinha experimentada primeiro em 1917 – de Pol Pot às democracias sociais nórdicas – parece urgente descobrir outro tratamento.

 

Um palpite.

 

Estaline disse a Churchill em Yalta que o embaixador que ele lhe mandara para Moscovo durante a guerra, trabalhista fabiano, era de primeira água mas tinha mania curiosa: querer explicar-lhe a ele, Estaline, o que era o socialismo. Quase 80 anos depois, se os povos fossem gatos, não seria por nenhuma dessas duas vias que iriam às filhoses. Nem pela da Rerum novarum.Inventar-se-ão misturas mais sensatas do que as ortodoxias vigentes. Se os Estados Unidos correrem com o maluco a tempo, mesmo que já não possam ser donos do jardim zoológico talvez ainda possam servir de polícia de trânsito.

  

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 11 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Hungria,2018

fronteira húngara

 

 

José Cutileiro

 

 

Fronteiras

 

 

 

Tinha quatorze anos a primeira vez que pisei uma fronteira. Foi numa tarde quente de verão em S. Leonardo-Fronteira, entre Mourão e Villa Nueva del Fresno, muito antes do burgo espanhol ficar conhecido por a PIDE ter assassinado brutalmente o general Humberto Delgado e a sua amante brasileira e os ter mal enterrado num campo próximo. (A segunda, três anos depois, foi numa manhã nevada de inverno, no passe do Kyberg, marcado por lápides de regimentos coloniais ingleses do fim do século XIX e começo do século XX – Churchill, a cavalo, andou à bulha por lá - em caminho montanhoso entre Peshawar, no Paquistão, e Jellalabad no Afeganistão onde iamos pernoitar mas isso é outra história e ficará para outro dia).

 

Nesse tempo, a Espanha era mais pobre do que Portugal e a fronteira, que atravessava a estrada numa linha oblíqua, marcava a diferença. Do nosso lado o piso era alcatrão, do lado espanhol, terra batida. Tínhamos ido de Reguengos até lá de passeio, no carro do Dr. José Pires Gonçalves, médico e medievalista amador competente (em Portugal, cada homem, além de ser o que é é outra coisa, e essa outra coisa é o que ele gostaria de ser, escreveu Ramalho Ortigão) com o Dr. José Sereto, Secretário do Tribunal e poeta satírico de mérito (em Portugal, cada homem …) que de pé, diante do alcatrão e da terra batida, recitou « Fronteira » de Miguel Torga, que eu não conhecia.

 

De um lado terra, doutro lado terra;                                                                                                                  

De um lado gente, doutro lado gente;                                                                                            

Lados e filhos desta mesma serra,                                                                                           

O mesmo céu os olha e os consente.

 

O mesmo beijo aqui; o mesmo beijo além;                                                                                

Uivos iguais de lobo ou de alcateia                                                                                             

E a mesma lua lírica que vem                                                                                                       

Corar meadas duma nova teia.

 

Mas uma força que não tem razão,

Que não tem olhos, que não tem sentido,                                                                                             

Passa e reparte o coração                                                                                                                

Do mais pequeno tojo adormecido.

 

 

Fiquei maravilhado. Desde esse dia e durante muito tempo as fronteiras para mim foram isso. Fronteiras políticas entre estados. Portugal e Espanha, Espanha e França, França e Bélgica, Bélgica e Holanda, Holanda e Alemanha, separações que a União Europeia, dentro dos seus limites, estava a conseguir apagar deixando-nos passar de um estado para outro quase sem dar por isso.

 

Há poucos anos, quando grandes imigrações inesperadas começaram a dar mau viver, o quadro mudou de cores. A ‘força’ que Torga verbera nos seus versos, a repartir o coração do mais pequeno tojo adormecido, tem afinal razão, olhos e sentido. Quem não os tinha era Torga e tantas almas mais ou menos poéticas, como a minha, embevecidas com o génio lírico do transmontano e distraidas do que se passava diante dos nossos olhos.

 

 

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Quarta-feira, 28 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

pain_au_chocolat

pain au chocolat

 

José Cutileiro

 

 

Nova Iorque dos Pobres e Espírito de Contradição

 

 

 I

Há muitos anos chamei a Bruxelas a Nova Iorque dos pobres e dá sempre gosto ao inventor verificar que a coisa inventada existe. (Tem riscos, como tudo quanto seja levado ao excesso; Camões lembrou-o cruelmente: Torna-se o amador na coisa amada/Por virtude de muito imaginar).

 

Hoje, em minúscula clínica dessas que há agora onde a gente se sente muito melhor do que num hospital, de tal maneira que os anestesistas para nos porem a dormir precisam só da quarta parte do líquido que nos injectam nos ditos hospitais, fizeram-me pequena intervenção. O cirurgião era grego, a anestesista polaca, a enfermeira uruguaia, eu português (a minha mulher, cujo telefone lhes dei, é francesa). Belga, só talvez a recepcionista que, nos cinco minutos que passei na sala espera, desembaraçava-se em francês e no holandês que se fala aqui – 60% no país,12% em Bruxelas. Na meia hora de chá preto e pain au chocolat que passei entre acordar e ir-me embora, a conversa terá sido mais variada e divertida do que teria sido na Mãe Pátria sobre mexeriquices de colegas, amigos, parentes e os altos e baixos do Desporto Rei. À uruguaia lembrei embaixador reformado inglês encontrado em Londres na casa de amigos ingleses, há mais de meio século, que em Montevideo fora raptado pelos «Tupamaros», terroristas urbanos, todos de boas famílias e educadíssimos que o trataram sempres bem e foi libertado incólume, aprendendo, todavia uma lição: nunca acreditar em quem prometa paraíso futuro onde só se possa chegar através de inferno intermédio (foi a enfermeira que me lembrou o nome dos guerrilheiros). A anestesista, que tem vergonha do actual governo polaco, fez-me pensar em Geremek, o grande medievalista e ministro dos negócios estrangeiros polaco da Solidarnosc, a contar-me, em Varsóvia, cena entre Walesa e Ieltsin,os dois bêbados, com o russo a garantir ao polaco que deixava a Polónia juntar-se à OTAN enquanto os seus colaboradores lhe repetiam que não podia ser, e o electricista de Gdansk perguntava, do outro lado: «Quem é que manda na Rússia ? És tu ou são eles ?». E ao cirurgião, que trouxera ele mesmo o pain au chocolat e me explicara não haver razões para preocupação, disse que ele conseguira criar, no coração de Bruxelas, uma espécie de Atenas sem corrupção. (Grego nosso conhecido impressionara-nos há dias com a aventura de conseguir internar e tratar bem a sua velha e lúcida mãe num hospital privado de Antenas: só mediante gorjetas e subornos tais que me indignaram, e eu sou d’Évora, não de Oslo nem de Helsinquia. No Peloponeso, assim se vive e se acha natural viver. Viva a Nova Iorque dos pobres!

 

II

John Bolton, como Conselheiro Nacional de Segurança de Trump, poderá ser benéfico. Um defeito de Trump é o espírito de contradição e desconfia tanto dos conselheiros que talvez agora, para mostrar que não depende de Bolton, passe a usar de bom senso. (Estariam ambos melhor em Rilhafolhes mas não se pode ter tudo…)

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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