Quarta-feira, 1 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Donald e IvanaDonald Trump e Ivana, a sua pimeira mulher

 

José Cutileiro

 

 

A eficácia do mal…

 

 

…ou a incompetência do bem ou porque é que eu apostaria, dobrado contra singelo, que Trump será reeleito 45° presidente dos Estados Unidos, como o foram o 44°, o 43° e o 42°. Disseram-me um dia que os chineses dizem – e não sei se quem mo disse conhecia algum chinês que o tivesse dito - Deus nos livre de viver em tempos interessantes. Mas desta vez não nos livrou e, lendo alguns propósitos de bispos e teólogos cristãos contemporâneos, reverendas e reverendos ditos progressivos, talvez nem sequer o pudesse fazer pela razão simples de afinal não existir.

 

Faz mais de 80 anos que, no começo da Guerra de Espanha , 1936-1939, Federico Garcia Lorca foi assassinado na sua Andaluzia natal por fascistas homófobos parecidos com muitos dos que acabam de levar o partido espanhol Vox às Cortes em Madrid. Lorca era um progressivo que morreu cedo demais para ter virado reaccionário com a idade, mas era também um grande dramaturgo e nem todos os seus personagens, homens ou mulheres, falam connosco na flor da idade – além disso, falam como eles e elas eram e não como ele foi – tal uma mulher, não me lembro se na Yerma se nas Bodas de Sangre (não tenho os livros à mão): «A mi me gustan las cosas asi: los hombres hombres, el trigo trigo». Eu estou com ela e receio que número crescente de eleitores americanos, de qualquer idade e sexo, esteja também, sobretudo desde que o Partido Democrata ganhou maioria gorda na Câmara dos Representantes e, entre correcção política e visões mirabolantes do futuro próximo, assusta os moderados de um lado e do outro, precisos para derrotar Trump quando este se bater por segundo mandato.

 

O receio instalou-se na noite das eleições e, desde então, nunca diminuiu. As minhas primeiras reacções, sem serem imediatas, foram simbólicas. Quando chegaram as alturas próprias não renovei as assinaturas da New York Revue of Books e do New Yorker – apesar de tentivas de ambos  de me levarem de novo aos respectivos redis. Tão-pouco lhes escrevi a explicar a minha retirada; antecipei que não concordariam com a explicação e que, por isso, menos a mereceriam ainda. Eu achara que, regressado depois de uns anos à Europa (Montemor, Marinha, Ilha de Ré, Bruxelas) não haveria melhores bisbilhoteiros para me manterem ao corrente de andanças transatlânticas. Consideram-se os mais inteligentes da costa oriental do seu continente, assim como os franceses se consideram os mais inteligentes da costa ocidental do continente deles.  Se os fosse lendo regularmente saberia tudo.

 

Puro engano. Não perceberam nada de nada do que, da costa à contracosta, a sua gente queria. Pior que Macron com os franceses. E, dado o tempo decorrido da eleição até hoje, não parecem ter emenda. Na quinta-feira passada o New York Times, em anúncio para angariar novos assinantes, gabava-se assim: Whatever happens next, we’ll help you to make sense of it. A arrogância não mudou. E The Donald – como lhe chamava a sua primeira mulher – irá ser reeleito.

 

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Quarta-feira, 3 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Jnicholson6

Harold Nicolson e Vita Sackville West em 1932

 

 

 

José Cutileiro

 

  Pérfida Albion II

                          

The worst kind of diplomatists are missionaries, fanatics and lawyers

                                                             Harold Nicolson, Diplomacy, OUP, London, 1939

 

 

Quando a primeira edição do supra citado livro de Sir Harold Nicolson foi publicada não havia, depois do fiasco da Sociedade das Nações, organizações publicas internacionais como há agora e menos ainda qualquer coisa parecida com a União Europeia. Na realidade, foram precisos seis anos de guerra brutal como nenhuma outra antes e, a seguir a esta, a tenacidade e a visão de meia dúzia de europeus, (entre os quais um francês, Jean Monnet, exportador de cognac que não se formara em Normale Sup e aconselhara o Presidente Franklin Roosevelt), bem como boa vontade, apoio militar e ajuda financeira dos Estados Unidos da América para pôr de pé o projecto que levou à União, cuja trave mestra é invenção recente, a amizade franco-alemã, e está a atravessar o momento mais difícil da sua existência devido a incapacidade aparente do Reino Unido, de um lado, e dos seus vinte e sete parceiros, do outro, de encontrarem maneira aceitável para todos do Reino Unido sair dela a bem.

 

Essa incapacidade assumiu recentemente, do lado do Reino Unido, facetas mais de opera buffa do que de negociação internacional, exercitando as melhores cabeças do jornalismo e da academia na busca de uma saída que fosse aceitável para a Câmara dos Comuns em Londres. Entre a quantidade de descrições interpretativas do que aconteceu até agora e do beco – ou becos – a que se chegou, muitas tendem a culpar a maneira como a negociação fora conduzida desde o princípio por Theresa May, escolhida para Primeiro Ministro pelo partido conservador  depois do chefe anterior deste, David Cameron – responsável pelo referendo em que os britânicos deviam escolher entre permanecer na União Europeia ou sair dela - se demitir. Deixo tudo isso de lado mas não sem recordar que parte do problema reside no facto dos ingleses levarem o seu parlamento muito mais a sério do que os continentais (o que é sinal de saúde política e não sintoma de doença).

 

No Verão passado, historiador expatriado meu amigo, falando do Brexit, perguntou-me « Eles, lá em Bruxelas,  estão conscientes da tragédia que isto é tudo ? » Infelizmente, com raríssimas excepções, julgo que não estivessem nem estejam. Há imensa gente a saber tudo sobre todas as árvores e quase ninguém capaz de ver a floresta. Ora Brexit, se não for tratado com muito cuidado, precipitará mudança tectónica indesejável no equilíbrio do Ocidente. E quer o fado que, à falta de grande estadista que agarrasse este gato pela pele do pescoço, se junte muito do pessoal que Nicolson mais receava. Do lado do Continente, de várias cores políticas, abundam os federalistas – e não há mais missionário; do lado das Ilhas, metendo medo ao governo, vociferam os Brexiters de base – e não há mais fanático. Dum lado e doutro, o terreno está polvilhado de assessores jurídicos, isto é, de advogados.

 

Azar dos Távoras.

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

foto Inês GonçalvesRapariga católica em Panjim © Inês Gonçalves

 

José Cutileiro

 

Só arrelias

 

 

Leio na primeira página do jornal: «Acusação de violação divide a Índia». A Índia é enorme (a maior democracia do mundo, nunca esquecer) e lá não direi que as violações sejam mais que as mães, mas são quase. Esta haveria de ter que ver, para chegar à capa de um diário internacional e fiquei curioso. Até porque gosto da Índia, sinto-me lá bem, falo sem esforço como Peter Sellers em The Party (ou Luis Amorim de Sousa quando lhe dá para isso) e a imitação não é troça, é homenagem, pedido de inclusão, vontade da companhia. Entendo-os bem, desde os jovens contabilistas a jantarem no hotel em Mogadiscio com olhinho triste de punheta e juros compostos  (nos tempos pacíficos do ditador Siad Barre, antes da canalha islamista se meter a purificar o país) até à brasa a quem perguntei numa festa em Londres «Are you from Sweden?», me respondeu «Is that an opening gambit?» e acabámos os dois na minha cama em Oxford. E a memória de fertilidade sem fim, vista do avião de Bombaim com o seu aeroporto de Santa Cruz  até Nova Deli, em grandes manchas vermelhas e verdes de paisagem. Países houve onde me senti de fora assim que lá entrei. Na Índia, em viagens separadas por 60 anos, uma espécie de líquido amniótico virtual protegeu-me dos males do mundo.

 

Curioso, fui ver. Em letras menores que as do título mas maiores que as do texto que introduziam e na legenda de fotografia de eclesiástico saído de um carro e ladeado por dois polícias, aprendi que freira dizia que bispo abusara dela (treze vezes) e que a hierarquia católica urgira que ela se calasse. Senti-me ainda mais em casa. Filho e neto de alentejanos republicanos anticlericais (o Pai vivera crise mística aos 17 anos, casara pela igreja, mas quando eu nasci passara-lhe e não fui baptizado) os malefícios, verificados ou supostos, da Santa Madre Igreja eram pitéu da conversa quotidiana (como no Sul de Espanha: Un cura es un señor a quien todos llaman padre menos los hijos que le llamam tio), lembro-me de folheto ainda do tempo da monarquia que esclarecia na primeira página «A palavra padre é aqui empregue no seu sentido o mais pejorativo» - e depois havia padres anafados e contentes que discretamete tinham amigas.

 

Que até na India a Igreja Católica se veja metida em sarilhos de sexo preocupa-me. Nos Estados Unidos – e alhures – parecem nunca mais acabar os casos de pederastia, prática hoje condenada embora nem sempre tenha sido assim. Espartanos, atenienses, romanos, militares e civis, revigoravam-se com ela. E, de Marrocos ao Afeganistão, ainda hoje faz parte dos costumes.

 

Desprestígio da Igreja de Roma preocupa-me por ela ser parte importante do cristianismo que trouxe à história valorização única do homem. Tu es immortel et irremplaçable diz o capelão ao condenado à morte num filme de Cayatte. Imortal julgo que não mas insubstituível sim – o que em tempo de inteligência artificial, mira constante do lucro e imperador Xi na China poderá escapar demais a quem tenha agarrado o poder.

 

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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

lx antes 1755

Maquete de Lisboa antes do terramoto de 1755

 

 

José Cutileiro

 

Escolaridades

 

 

No Inverno de 1968 o Professor Chimen Abramsky vinha às quintas-feiras à tarde de Londres a St. Antony’s College, Oxford, dar seminário sobre Marx, num rés-do-chão-cave, victoriano e lúgubre, aquecido por calorífero a gás, onde escolares do colégio e de alhures vinham ouvi-lo; não muitos e nem sempre os mesmos.

 

Eu fui uma vez e nesse dia o homem - que sabia tudo sobre Marx, sobre Engels e sobre a correspondência entre Marx e Engels – disse que Marx tinha compreendido imediatamente a importância da Comuna Francesa «as such» para a história da Europa. Engels, acrescentou, fora mais lento: «It took him about a fortnight!».

 

Este momento de formação oxoniana talvez tenha sido decisivo para o resto da minha vida profissional. Seguia-se a outros dois, vindos de formação lisboeta. Numa reunião semanal do serviço de psiquiatria dirigido pelo Professor Barahona Fernandes, um doente era interrogado por ele que depois pedia opiniões aos circunstantes – assistentes, outros médicos, estagiários, sentados à roda - e, no fim, fazia o sumário do caso. Quando chegou a minha vez, respondi-lhe que não tinha teoria ou experiência suficientes, nem sequer  era ainda formado e a minha opinião de pouco valeria. «Não, não. Diga.» respondeu Barahona. «Nestas coisas, às vezes, quem está de fora vê melhor».

 

O primeiro dos momentos  decisivos passara-se cinco anos antes, ia eu fazer exame de anatomia descritiva daí a dias com o Professor Soeiro, erudito amigo de amigos meus, os dois lado a lado num urinol da Faculdade. «Sabe que o Flaubert fez uma viagem ao Egito com o Cloquet do gânglio?» perguntei eu. (Há no braço um gânglio com esse nome). «Se era o do gânglio ou não…», respondeu ele, dubitativo. «Havia dois irmãos: o Hyppolite Cloquet e o Jules Cloquet». «O Hippolyte» atirei ao acaso, para acabar a conversa. «Estamos na mesma!» retorquiu o Professor. «Um chamava-se Hippolyte Cloquet e o outro Hyppolite-Jules Cloquet».

 

Estes momentos articulava-os eu para ilustrar a minha falta de paciência para erudição pedante a mais. Durante uns anos, sobretudo nos Estados Unidos,  houve tanto dinheiro disponível para subsidiar a academia que se passaram a dedicar centenas de páginas a temas de cada vez menos importância, a políticos ou artistas bem esquecidos – e troça cínica de gente como eu. Mas bons tempos, os daqueles disparates simpáticos quando comparados com o elogio gabarola da estupidez, da ignorância crassa, da imoralidade que agora campeiam da Casa Branca ao Palácio da Alvorada, para falar só das Américas. Com consequências desastrosas para a gente presente e futura que se vêem já ou que cientistas mais ou menos eruditos já preveêm (Deus os proteja a todos, roguem os crentes).

 

E dou por mim voltado para bemaventuranças da erudiçao. Como o fim de tarde de verão em que o José-Augusto França contou à minha mulher como era Lisboa  antes do terramoto de 1755 desde a porta da nossa casa no alto da D. Pedro V até ao ainda chamado Terreiro do Paço.

 

NB Quanto aos factos: os do Pofessor Abramsky e do José-Augusto França estavam certos; os do Professor Soeiro, errados e os do Professor Barahona vá lá saber-se.

 

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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Taxi-Driver

 "Taxi Driver" de Martin Scorsese, 1976

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

O povo é quem mais ordena?

 

 

 

A hora é dos gladiadores.Dos leigos de todas as fés. Do ditador futuro que dorme em quem eu sou, em quem tu és – escreveu poeta pessimista aí há meio século, época incómoda mas mais previsível que do que a nossa, malgrado (ou devido a) União Soviética florescente e Dr. Salazar ainda a mandar na tropa que o pusera no poder, aquém e alem mar em África. No Verão de 2016, motorista de taxi nova-iorquino anunciou a passageira que ia votar Trump. Ela perguntou-lhe porquê. « Porque ele me diverte!». A passageira, jornalista, contou isto agora, assustada com o facto de que o presente e o futuro próximo não só do seu país mas do mundo inteiro passarem a depender em grande parte de alguém que é uma autoridade em divertir audiências de televisão escandalosa, fazendo rir americanas e americanos e, não sendo autoridade em mais coisa nenhuma, levou apenas dois anos de vida politica para chegar a Presidente dos Estados Unidos. Fica a gente alarmada com a qualidade da concorrência ou a perspicácia dos eleitores ou ambas…

 

E se uma das duas democracias mais gabarolas do mundo – a outra é a britânica, que também foi enrolada, metendo-se a referendo quando ninguém a isso a obrigava e é o pé de cabra preferido de todos os demagogos – enreda o país que dela tanto se orgulha numa teia de aldrabices agressivas porque em política mentir e dizer a verdade passaram agora valer o mesmo para a maioria dos americanos, correndo risco de guerras a curto prazo e de ruína a médio (a dívida externa nunca foi tão grande, detida sobretudo pela China), estamos fritos - para usar expressão predilecta do meu antigo motorista Tomé.

 

O progresso técnico sempre teve costas largas. Em O Crime do padre Amaro, 1875, cónego de Leiria explica que o caminho-de-ferro é invenção do Diabo porque viajantes podem morrer num desastre, longe demais de padre que lhes desse a extrema-unção. Agora a conversa é outra. Facebook e outras redes sociais validaram com crédito que lhes dão, disparates nocivos. (Em Itália, governante populista desautorizou vacinas muito atacadas nessas redes de que dependem a saúde – às vezes a vida – de crianças pequenas). A ciência é o núcleo da resistência contra essa nova maré de obscurantismo – não é por acaso que fake newsnão medram em áreas onde escolhas de vida ou de morte são claramente conhecidas. A cirurgia cerebral, por exemplo, é uma dessas áreas; de maneira diferente, também o é a construção de pontes – e tantas mais. De muitas outras, porém, onde o conhecimento comum – fanfarrão, vago e auto-contraditório – se faz passar por conhecimento filosófico – modesto, preciso e coerente – muitas leitoras e ouvintes têm sido por enquanto levadas em erro.

 

Mas novo conhecimento está a ser construído, novos algoritmos congeminados e em pouco tempo saberemos viver com redes sociais como aprendemos a viver com telégrafo, telefonia, televisões, computadores e, antes disso, com livros de Gutenberg em vez de incunábulos manuscritos.

 

 

 

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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

weber-ill-520x485Max Weber

Ilustração de Ragni Svensson 

 

José Cutileiro

 

 

Corrupção, família, crimes

 

 

Quando eu vivia na costa oriental dos Estados Unidos, jornais de Nova Iorque deram notícia da condenação a penas de prisão de personagem importante de Wall Street - e do pai dele. O C.E.O. de um hedge fund cometera delito de iniciados, salvando com este pequena fortuna, dentro da grande que já tinha feito. O pai, cirurgião reformado, evitara a ruína, pois havia posto quase toda a sua poupança nas acções que, avisado a tempo pelo filho, oportunamente vendera.

 

Moral da história em Nova Iorque ou em Londres: procuradores diligentes e íntegros tinham devidamente feito punir dois velhacos que se tinham criminosamente servido de informação privilegiada. Moral da história em Braga ou em Évora: banqueiro pusera amor filial acima de obrigações descoroçoadas impostas pelas manigâncias da bolsa e evitara justamente a ruína do velho.

 

Há mais de um século – ou melhor dito, desde que professor alemão chamado Max Weber publicou um livro chamado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - que historiadores do dinheiro e das ideias procuram lidar com tais contrastes (incluindo os que acham essa tese um disparate pegado e recordam a fulgurância de banqueiros e homens de negócios do Norte de Itália, católicos apostólicos romanos, desde o fim da Idade Média) e que o público leitor em geral e políticos desonestos em particular – o mais notável dentre estes, na última década, sendo Angela Merkel – às vezes se aprazam em proclamar moral a gente do Norte da Europa e imoral a gente do Sul da Europa; mais ao sul passam a ser morais outra vez, se o comportamento ético da Chanceler alemã servir de padrão (de standard, em português contemporâneo). Com efeito, por um lado, a Senhora tratou a insolvência grega como se pecado de todo um povo se tratasse, exigindo castigo até ao pagamento total da dívida (e fazendo indemnizar bancos alemães, parceiros em negócios falhados, com dinheiro destinado a aliviar os gregos) enquanto, por outro lado, considerou centenas de milhares de candidatos a asilo político africanos e asiáticos vítimas de infortúnio exigindo ajuda incondicional.

 

É claro que coisas assim nunca são simples. Por exemplo, a primeira vez que lidei com corrupção, sem lhe dar nome nem conhecer o conceito (e como ‘corruptor’, não como ‘corrompido’) tinha 8 anos. Por razões longas de enumerar fiz a quarta classe de casa do avô em Évora enquanto os pais ficaram em Lisboa. Da Rua da Mouraria, onde vivíamos, à escolinha da D. Maria Prego na Travessa da Capelinha era preciso atravessar a cidade; o avô contratou criado antigo (o Velho Madeira) para me acompanhar. A vergonha que tive perante outros meninos e meninas foi tal que, logo no segundo dia, propus pagar da minha semanada ao Velho Madeira para ele me deixar a meio caminho, na Praça do Geraldo. Ele aceitou logo e assim fizemos, à ida e à vinda, durante todo o ano lectivo.

 

Corrupção ou não? Conheci protestantes entendidos na matéria; nunca me lembrei de lhes perguntar.

 

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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Corinne-ou-l-Italie

Mme de Staël 

 

 

José Cutileiro

 

Guanxi

 

 

O homem da Chicago que, quando a União Soviética se eutanasiou levando consigo o comunismo, julgou que a história tinha acabado – a democracia capitalista viera para ficar per omnia saecula saeculurum– acha agora que a ruptura quase geral entre elites e bases (seria elitista chamar-lhes ralés) que faz parte do dia-a-dia político europeu e norte-americano de há uns dez anos para cá (ninguém vivo se lembra de nada assim e, na história, talvez só Madame de Staël se tenha apercebido de coisa parecida em Paris, no começo da Revolução Francesa) vem das bases se terem zangado por se acharem deitadas ao desprezo. Respeito é do que muita gente sente a falta nas nossas sociedades, julga o homem da Chicago.

 

Respeito é também o que querem mafiosos e ditadores; por isso é capaz mesmo de ser isso que faz falta às bases. Quando brancos pobres desempregados de alguns Estados americanos souberam - microfone ligado por engano - de Barack Obama perceber compungido que eles se agarrassem a Deus ou às espingardas (‘they cling to guns or religion’) e a antipatia por gente diferente, ofenderam-se com essa simpatia condescendente e, nas eleições de 2016, votaram em Trump que acharam parecido com eles na fala e, ao contrário dos doutores do costume, disposto a meter a mão na massa. (Estilos: no começo desta semana quer Obama quer Trump afirmaram ser mais responsável do que o outro pelo baixíssimo grau de desemprego no país). Mutatis mutandis, no Leste da Europa onde décadas de comunismo tinham abafado gosto pelo fascismo herdado dos anos 30, está a passar-se coisa parecida, com chefes políticos a reanimarem nas almas paixões que alguns julgavam extintas, incluindo por Hitler – e na Itália (que voltara a ser do lado de cá), apesar de mais de meio século de Democracia Cristã e de Eurocomunismo, por Mussolini.

 

O bom e o bonito, sobretudo para europeus e americanos convencidos (antes de Lenine querer reservar isso para os seus) de sermos a vanguarda do mundo. A reflexão grega, a moral de Cristo – cada um de nós é infinito e insubstituível – e a experimentação deram-nos aspirina e Estado de direito, isto é, melhor vida que em qualquer outra parte do planeta que já não leva P grande, perdido na Via Láctea, uma de muitos milhares de nebulosas. (“Porque é que a gaja se lembrou de dar uma dentada na maçã? Perdão, Deus seja louvado” – rosnará por ventura algum José Régio de hoje).

 

Porque éramos os melhores. Até Portugal, agora décima democracia do mundo, a querer afastar-se de privilégios injustos, de cunhas e favores que afundam os pobres na pobreza - e medram em sentido contrário ao da liberdade. Existem em todo o mundo, desde Cosa Nostra e seus juízes mortos à bomba até ao Guanxi chinês, a maior rede informal de pressões e favores do nosso tempo que consolida poder de governantes, tolhe iniciativa de governados e impede que a China algum dia se transforme numa democracia. Como a Sicília - mas a China é a maior economia do mundo e quer mandar nele.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

12 angry men

Henry Fonda em “Doze homens em Fúria”

Sidney Lumet, 1957

 

 

José Cutileiro

 

 

Homens brancos cristãos e budistas de ambos os sexos

 

 

 

Às vezes há quem julgue que a invenção do pecado original foi  estratagema de poder destinado a reforçar a lei e ajudar a meter o pessoal na ordem, mormente as mulheres. Noutras alturas, os sinais de bestialidade humana são tão evidentes que não estranha que povo de pastores de há três mil anos, sem recurso a Nações Unidas, ADN ou Facebook, recorresse a mitologia própria para tentar criar espaço onde o bem, que também existe, pudesse medrar.

 

O que não falta hoje são sinais desses. Donald Trump é considerado o mais divisivo dos presidentes dos Estados Unidos de que há memória mas coisas lamentáveis que se vão sabendo dele não enfraquecem a determinação dos seus eleitores. Mais de 80% dos Republicanos agradecem a Deus tê-lo como presidente (mesmo os que lhe encontram defeitos e pecados graves estão contentes e acham que é preciso “deixar trabalhar o homem”). Hoje estuda-se tudo e sabe-se que os seus apoiantes mais incondicionais e determinados são homens brancos cristãos. Porque eu entendo que Trump está a fazer muitíssimo mal aos Estados Unidos e ao mundo, pu-los no começo do título desta página de bloco-notas.

 

Pus a seguir budistas, de ambos os sexos. Na Birmânia, durante décadas, a Senhora Aung San Suu Kyi viveu em prisão domiciliária donde chefiava protesto contra a ditadura militar do país, atraiu a simpatia de defensores de direitos do homem de toda a parte, recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1991, foi comparada a Gandhi e, ajudada por mudanças no mundo – o colapso da União Soviética, o fim do apartheid, a eleição de Barack Obama, por exemplo - conseguiu liberalizar o regime e tornar-se uma espécie de primeiro-ministro, com fiel acompanhante como presidente. Entretanto, porém, as autoridades civis e militares da Birmânia têm perseguido com ferocidade rara a minoria muçulmana dos Rohingya - na Birmânia há 209 minorias; em Portugal e Ilhas Adjacentes, por muito que se puxe pelos mirandeses, não há nenhuma - de tal maneira que activistas indignados têm exortado a Senhora a devolver o Prémio Nobel e missão das Nações Unidos condenou o que lá se passa e recomendou inquérito a crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O governo da Birmânia declarou que não autorizara a missão a entrar no seu território e por isso não aceita os resultados.

 

Duas ilusões de adolescência que haviam sobrevivido a mais de 80 anos de atribulações do mundo foram assim levadas em duas penadas.

 

Os americanos do povo, bons, simples, capazes de chegarem à boa solução dos problemas (às vezes, depois de terem experimentado todas as outras lembrara Winston Churchill), defensores da verdade e da decência, admiravelmente ilustrados no filme de Sidney Lumet  “Doze homens em Fúria” (Twelve angry men), 1957, com Henry Fonda.

 

E os budistas, homens e mulheres com religião mais sábia e bondosa do que as outras, incluindo peculiaridades irracionais tal o Dalai Lama, mas incapaz de deixar fazer mal a uma mosca.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Edmund Burke retratado por Joshua Reynolds
via Wikimedia Commons

 

 

 

 

José Cutileiro

 

O primeiro pecado é ser pobre

 

 

Assim declarava o anglo-irlandês Bernard Shaw (1856-1950) e acrescentava: Quando alguém me diz sou inculto mas é porque sou pobre, está a desculpar um mal com outro pior; é como se me dissesse: sou coxo mas é da sífilis. Shaw morreu velho demais para a altura – partira o colo do fémur e respondera a jornalistas à entrada do hospital: se eu escapar desta é porque sou imortal – mas não era e lá ficou. Isto há quase três quartos de século mas, há pouco tempo, tão pouco que lhe escrevi IN MEMORIAM no Expresso, morreu quase tão velho quanto Bernard Shaw mas sem ninguém estranhar isso (hoje, morrer com mais de noventa anos é banal) o francês Claude Lanzmann (1925-2018), autor do filme de dez horas «Shoah», monumento cinematográfico e ariete da condenação do antissemitismo (e único amante de Simone de Beauvoir  autorizado a viver debaixo do mesmo teto que ela), várias décadas antes de morrer declarara: Falhei a vida – J’ai raté ma vie – porque não nasci rico.

 

Sentimentos assim são raramente expressos com essa clareza cirúrgica mas muita gente os alberga, sobretudo em alturas em que o futuro vislumbrado pareça ser menos  agradável do que o presente; em que se pense que os filhos vão ter pior vida do que os pais, como está a acontecer agora na Europa e nos Estados Unidos da América (salvo entre aqueles que os espanhois chamam los ricos-ricos) e não acontecia desde o fim da Segunda Guerra Mundial, décadas em que a gente, de um e do outro lado do Atlântico, até já se esquecera de que tal poderia acontecer. E quando, ao contrário do que se passa agora, cada um sabia ir ganhar mais para o ano, como neste ano ganhara mais do que no ano passado; quando a minha mulher a dias, sabendo que trocaria vantajosamente o seu Toyota em segunda mão, tanto se lhe dava quanto se lhe desse que eu tivesse um ou dois BMWs ou que banqueiros milionários fotografados em revistas a cores coleccionassem Bentleys ou Ferraris. Tout allait pour le mieux dans le meilleur des mondes possibles.

 

Chão que deu uvas e, entretanto, tudo se complica: sem benevolência cúmplice do pobre para o rico, o fel de tribunos enraivados enche as almas do povo que os aplaude. (Os Burke* têm quase sempre razão mas os participantes quase nunca lha a dão a tempo – L’on immole à l’être abstrait les êtres réels et l’on offre au peuple en masse l’holocauste du peuple en détail observou Benjamin Constant sobre o chamado Terror da Revolução Francesa, ninharia por padrões contemporâneos mas marco de infâmia na história europeia). Tal se passa agora nos Estados Unidos: a energia de Trump assegura preferência e apoio inabaláveis de brancos pobres, que metem medo aos parlamentares do Partido Republicano os quais por isso não se opoem a medidas calamitosas, prometidas em campanha pelo Presidente. Por detrás do espectáculo acumulam-se dolos e prejuízos crescentes – materiais e morais – para os Estados Unidos e riscos de mais incómodos, alguns fatais, para toda a gente.

 

 

*Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France, Londres, 1790

 

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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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 dragões imperiais chineses 

 

 

 

José Cutileiro

 

    

Volta do marxismo ? Todos substituíveis ?

 

 

 

Muitas coisas nos arreliam este Verão a começar pelo calor, que envergonhou Eça de Queiroz diante de Fradique Mendes por só lhe ocorrerem expressões reles e em calão: «derrete os untos», «está de ananazes». Amigo do coração lembrou-me que calor passa e outras arrelias não arredam. Há duas que me têm tirado o sono, centrada uma nos Estados Unidos, outra na China.

 

Primeiro, a América. Quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo eu estava na Cidade do Cabo (Greet the Ambassador of the 4th Reich! faíscou o meu colega alemão à guiza de Boa noite, no jardim da casa onde íamos os dois entrar); quando Yeltsin desfez o império de cima para baixo sem sangue, estava eu em Lisboa. A Verdade triunfara sobre o erro, o Bem sobre o mal. E, salvo no caso peculiar da China, a ilusão marxista desabou como castelo de cartas de jogar. Ficaram Cuba, Coreia do Norte, alguns salpicos na União Indiana mas a ideia de que por lá passaria a salvação do mundo parecia ter-se sumido de vez. Se o comunismo perdera, porém, o capitalismo ganhara muito mal. Houve quem percebesse logo – comunismo não era doença, era remédio que falhara – mas  o grosso da cavalaria tomou o freio nos dentes e a eleição de Trump animou-a mais ainda. Na América – mais do que alhures – os poucos ricos estão cada vez mais ricos e os muitos pobres estão cada vez mais pobres. O socialismo marxista que desaparecera por lá desde o fim da Segunda Guerra Mundial (durante três décadas, em todas as classes, os filhos iam sendo sempre mais ricos do que os pais), seduz agora cada vez mais gente. Começou com Bernie Sanders, alastra como fogo de mato: numa «primária» em Nova York, mulata socialista de 28 anos derrotou o número 2 do Partido Democrático no Congresso, branco, sexagenário, não socialista. Mais socialistas marxistas serão eleitos em Novembro.

 

Segundo, a China com arranjo de partido único, dito marxista, a coincidir com capitalismo robusto, balisado pelo Estado. Mas a arrelia que me tira o sono não é essa. Desde a «desmaozição» imposta por Deng Xiaoping fomos notando, a pouco e pouco, o que nos parecia ser alguma liberalização do regime, uma aproximação aos nossos critérios e aos nossos valores. Como, para nós, a democracia parlamentar, monárquica ou presidencial, juntamente com a separação de poderes, a independência do judiciário, o exercício de direitos humanos e eleições livres e limpas é a evidência mesma de saber político universalista, sossegava-nos supor a China no bom caminho.

 

Erro nosso. O Presidente Xi passou a vitalício em regime mais próximo de monarquia absoluta do que das nossas modernices. E, em vez de ser padrão universal como os graus Celsius ou o teorema de Pitágoras, a nossa sabedoria política é um disparate aos olhos dos chineses. E agora?

 

Em filme antigo contra a pena de morte, capelão da cadeia dizia a condenado: Tu es immortel et irremplaçable. Se a China governar o mundo passaremos todos a ser substituíveis?

 

 

  

publicado por VF às 09:00
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