Quarta-feira, 3 de Outubro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Taxi-Driver

 "Taxi Driver" de Martin Scorsese, 1976

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

O povo é quem mais ordena?

 

 

 

A hora é dos gladiadores.Dos leigos de todas as fés. Do ditador futuro que dorme em quem eu sou, em quem tu és – escreveu poeta pessimista aí há meio século, época incómoda mas mais previsível que do que a nossa, malgrado (ou devido a) União Soviética florescente e Dr. Salazar ainda a mandar na tropa que o pusera no poder, aquém e alem mar em África. No Verão de 2016, motorista de taxi nova-iorquino anunciou a passageira que ia votar Trump. Ela perguntou-lhe porquê. « Porque ele me diverte!». A passageira, jornalista, contou isto agora, assustada com o facto de que o presente e o futuro próximo não só do seu país mas do mundo inteiro passarem a depender em grande parte de alguém que é uma autoridade em divertir audiências de televisão escandalosa, fazendo rir americanas e americanos e, não sendo autoridade em mais coisa nenhuma, levou apenas dois anos de vida politica para chegar a Presidente dos Estados Unidos. Fica a gente alarmada com a qualidade da concorrência ou a perspicácia dos eleitores ou ambas…

 

E se uma das duas democracias mais gabarolas do mundo – a outra é a britânica, que também foi enrolada, metendo-se a referendo quando ninguém a isso a obrigava e é o pé de cabra preferido de todos os demagogos – enreda o país que dela tanto se orgulha numa teia de aldrabices agressivas porque em política mentir e dizer a verdade passaram agora valer o mesmo para a maioria dos americanos, correndo risco de guerras a curto prazo e de ruína a médio (a dívida externa nunca foi tão grande, detida sobretudo pela China), estamos fritos - para usar expressão predilecta do meu antigo motorista Tomé.

 

O progresso técnico sempre teve costas largas. Em O Crime do padre Amaro, 1875, cónego de Leiria explica que o caminho-de-ferro é invenção do Diabo porque viajantes podem morrer num desastre, longe demais de padre que lhes desse a extrema-unção. Agora a conversa é outra. Facebook e outras redes sociais validaram com crédito que lhes dão, disparates nocivos. (Em Itália, governante populista desautorizou vacinas muito atacadas nessas redes de que dependem a saúde – às vezes a vida – de crianças pequenas). A ciência é o núcleo da resistência contra essa nova maré de obscurantismo – não é por acaso que fake newsnão medram em áreas onde escolhas de vida ou de morte são claramente conhecidas. A cirurgia cerebral, por exemplo, é uma dessas áreas; de maneira diferente, também o é a construção de pontes – e tantas mais. De muitas outras, porém, onde o conhecimento comum – fanfarrão, vago e auto-contraditório – se faz passar por conhecimento filosófico – modesto, preciso e coerente – muitas leitoras e ouvintes têm sido por enquanto levadas em erro.

 

Mas novo conhecimento está a ser construído, novos algoritmos congeminados e em pouco tempo saberemos viver com redes sociais como aprendemos a viver com telégrafo, telefonia, televisões, computadores e, antes disso, com livros de Gutenberg em vez de incunábulos manuscritos.

 

 

 

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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

weber-ill-520x485Max Weber

Ilustração de Ragni Svensson 

 

José Cutileiro

 

 

Corrupção, família, crimes

 

 

Quando eu vivia na costa oriental dos Estados Unidos, jornais de Nova Iorque deram notícia da condenação a penas de prisão de personagem importante de Wall Street - e do pai dele. O C.E.O. de um hedge fund cometera delito de iniciados, salvando com este pequena fortuna, dentro da grande que já tinha feito. O pai, cirurgião reformado, evitara a ruína, pois havia posto quase toda a sua poupança nas acções que, avisado a tempo pelo filho, oportunamente vendera.

 

Moral da história em Nova Iorque ou em Londres: procuradores diligentes e íntegros tinham devidamente feito punir dois velhacos que se tinham criminosamente servido de informação privilegiada. Moral da história em Braga ou em Évora: banqueiro pusera amor filial acima de obrigações descoroçoadas impostas pelas manigâncias da bolsa e evitara justamente a ruína do velho.

 

Há mais de um século – ou melhor dito, desde que professor alemão chamado Max Weber publicou um livro chamado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - que historiadores do dinheiro e das ideias procuram lidar com tais contrastes (incluindo os que acham essa tese um disparate pegado e recordam a fulgurância de banqueiros e homens de negócios do Norte de Itália, católicos apostólicos romanos, desde o fim da Idade Média) e que o público leitor em geral e políticos desonestos em particular – o mais notável dentre estes, na última década, sendo Angela Merkel – às vezes se aprazam em proclamar moral a gente do Norte da Europa e imoral a gente do Sul da Europa; mais ao sul passam a ser morais outra vez, se o comportamento ético da Chanceler alemã servir de padrão (de standard, em português contemporâneo). Com efeito, por um lado, a Senhora tratou a insolvência grega como se pecado de todo um povo se tratasse, exigindo castigo até ao pagamento total da dívida (e fazendo indemnizar bancos alemães, parceiros em negócios falhados, com dinheiro destinado a aliviar os gregos) enquanto, por outro lado, considerou centenas de milhares de candidatos a asilo político africanos e asiáticos vítimas de infortúnio exigindo ajuda incondicional.

 

É claro que coisas assim nunca são simples. Por exemplo, a primeira vez que lidei com corrupção, sem lhe dar nome nem conhecer o conceito (e como ‘corruptor’, não como ‘corrompido’) tinha 8 anos. Por razões longas de enumerar fiz a quarta classe de casa do avô em Évora enquanto os pais ficaram em Lisboa. Da Rua da Mouraria, onde vivíamos, à escolinha da D. Maria Prego na Travessa da Capelinha era preciso atravessar a cidade; o avô contratou criado antigo (o Velho Madeira) para me acompanhar. A vergonha que tive perante outros meninos e meninas foi tal que, logo no segundo dia, propus pagar da minha semanada ao Velho Madeira para ele me deixar a meio caminho, na Praça do Geraldo. Ele aceitou logo e assim fizemos, à ida e à vinda, durante todo o ano lectivo.

 

Corrupção ou não? Conheci protestantes entendidos na matéria; nunca me lembrei de lhes perguntar.

 

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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Corinne-ou-l-Italie

Mme de Staël 

 

 

José Cutileiro

 

Guanxi

 

 

O homem da Chicago que, quando a União Soviética se eutanasiou levando consigo o comunismo, julgou que a história tinha acabado – a democracia capitalista viera para ficar per omnia saecula saeculurum– acha agora que a ruptura quase geral entre elites e bases (seria elitista chamar-lhes ralés) que faz parte do dia-a-dia político europeu e norte-americano de há uns dez anos para cá (ninguém vivo se lembra de nada assim e, na história, talvez só Madame de Staël se tenha apercebido de coisa parecida em Paris, no começo da Revolução Francesa) vem das bases se terem zangado por se acharem deitadas ao desprezo. Respeito é do que muita gente sente a falta nas nossas sociedades, julga o homem da Chicago.

 

Respeito é também o que querem mafiosos e ditadores; por isso é capaz mesmo de ser isso que faz falta às bases. Quando brancos pobres desempregados de alguns Estados americanos souberam - microfone ligado por engano - de Barack Obama perceber compungido que eles se agarrassem a Deus ou às espingardas (‘they cling to guns or religion’) e a antipatia por gente diferente, ofenderam-se com essa simpatia condescendente e, nas eleições de 2016, votaram em Trump que acharam parecido com eles na fala e, ao contrário dos doutores do costume, disposto a meter a mão na massa. (Estilos: no começo desta semana quer Obama quer Trump afirmaram ser mais responsável do que o outro pelo baixíssimo grau de desemprego no país). Mutatis mutandis, no Leste da Europa onde décadas de comunismo tinham abafado gosto pelo fascismo herdado dos anos 30, está a passar-se coisa parecida, com chefes políticos a reanimarem nas almas paixões que alguns julgavam extintas, incluindo por Hitler – e na Itália (que voltara a ser do lado de cá), apesar de mais de meio século de Democracia Cristã e de Eurocomunismo, por Mussolini.

 

O bom e o bonito, sobretudo para europeus e americanos convencidos (antes de Lenine querer reservar isso para os seus) de sermos a vanguarda do mundo. A reflexão grega, a moral de Cristo – cada um de nós é infinito e insubstituível – e a experimentação deram-nos aspirina e Estado de direito, isto é, melhor vida que em qualquer outra parte do planeta que já não leva P grande, perdido na Via Láctea, uma de muitos milhares de nebulosas. (“Porque é que a gaja se lembrou de dar uma dentada na maçã? Perdão, Deus seja louvado” – rosnará por ventura algum José Régio de hoje).

 

Porque éramos os melhores. Até Portugal, agora décima democracia do mundo, a querer afastar-se de privilégios injustos, de cunhas e favores que afundam os pobres na pobreza - e medram em sentido contrário ao da liberdade. Existem em todo o mundo, desde Cosa Nostra e seus juízes mortos à bomba até ao Guanxi chinês, a maior rede informal de pressões e favores do nosso tempo que consolida poder de governantes, tolhe iniciativa de governados e impede que a China algum dia se transforme numa democracia. Como a Sicília - mas a China é a maior economia do mundo e quer mandar nele.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

12 angry men

Henry Fonda em “Doze homens em Fúria”

Sidney Lumet, 1957

 

 

José Cutileiro

 

 

Homens brancos cristãos e budistas de ambos os sexos

 

 

 

Às vezes há quem julgue que a invenção do pecado original foi  estratagema de poder destinado a reforçar a lei e ajudar a meter o pessoal na ordem, mormente as mulheres. Noutras alturas, os sinais de bestialidade humana são tão evidentes que não estranha que povo de pastores de há três mil anos, sem recurso a Nações Unidas, ADN ou Facebook, recorresse a mitologia própria para tentar criar espaço onde o bem, que também existe, pudesse medrar.

 

O que não falta hoje são sinais desses. Donald Trump é considerado o mais divisivo dos presidentes dos Estados Unidos de que há memória mas coisas lamentáveis que se vão sabendo dele não enfraquecem a determinação dos seus eleitores. Mais de 80% dos Republicanos agradecem a Deus tê-lo como presidente (mesmo os que lhe encontram defeitos e pecados graves estão contentes e acham que é preciso “deixar trabalhar o homem”). Hoje estuda-se tudo e sabe-se que os seus apoiantes mais incondicionais e determinados são homens brancos cristãos. Porque eu entendo que Trump está a fazer muitíssimo mal aos Estados Unidos e ao mundo, pu-los no começo do título desta página de bloco-notas.

 

Pus a seguir budistas, de ambos os sexos. Na Birmânia, durante décadas, a Senhora Aung San Suu Kyi viveu em prisão domiciliária donde chefiava protesto contra a ditadura militar do país, atraiu a simpatia de defensores de direitos do homem de toda a parte, recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1991, foi comparada a Gandhi e, ajudada por mudanças no mundo – o colapso da União Soviética, o fim do apartheid, a eleição de Barack Obama, por exemplo - conseguiu liberalizar o regime e tornar-se uma espécie de primeiro-ministro, com fiel acompanhante como presidente. Entretanto, porém, as autoridades civis e militares da Birmânia têm perseguido com ferocidade rara a minoria muçulmana dos Rohingya - na Birmânia há 209 minorias; em Portugal e Ilhas Adjacentes, por muito que se puxe pelos mirandeses, não há nenhuma - de tal maneira que activistas indignados têm exortado a Senhora a devolver o Prémio Nobel e missão das Nações Unidos condenou o que lá se passa e recomendou inquérito a crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O governo da Birmânia declarou que não autorizara a missão a entrar no seu território e por isso não aceita os resultados.

 

Duas ilusões de adolescência que haviam sobrevivido a mais de 80 anos de atribulações do mundo foram assim levadas em duas penadas.

 

Os americanos do povo, bons, simples, capazes de chegarem à boa solução dos problemas (às vezes, depois de terem experimentado todas as outras lembrara Winston Churchill), defensores da verdade e da decência, admiravelmente ilustrados no filme de Sidney Lumet  “Doze homens em Fúria” (Twelve angry men), 1957, com Henry Fonda.

 

E os budistas, homens e mulheres com religião mais sábia e bondosa do que as outras, incluindo peculiaridades irracionais tal o Dalai Lama, mas incapaz de deixar fazer mal a uma mosca.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Edmund Burke retratado por Joshua Reynolds
via Wikimedia Commons

 

 

 

 

José Cutileiro

 

O primeiro pecado é ser pobre

 

 

Assim declarava o anglo-irlandês Bernard Shaw (1856-1950) e acrescentava: Quando alguém me diz sou inculto mas é porque sou pobre, está a desculpar um mal com outro pior; é como se me dissesse: sou coxo mas é da sífilis. Shaw morreu velho demais para a altura – partira o colo do fémur e respondera a jornalistas à entrada do hospital: se eu escapar desta é porque sou imortal – mas não era e lá ficou. Isto há quase três quartos de século mas, há pouco tempo, tão pouco que lhe escrevi IN MEMORIAM no Expresso, morreu quase tão velho quanto Bernard Shaw mas sem ninguém estranhar isso (hoje, morrer com mais de noventa anos é banal) o francês Claude Lanzmann (1925-2018), autor do filme de dez horas «Shoah», monumento cinematográfico e ariete da condenação do antissemitismo (e único amante de Simone de Beauvoir  autorizado a viver debaixo do mesmo teto que ela), várias décadas antes de morrer declarara: Falhei a vida – J’ai raté ma vie – porque não nasci rico.

 

Sentimentos assim são raramente expressos com essa clareza cirúrgica mas muita gente os alberga, sobretudo em alturas em que o futuro vislumbrado pareça ser menos  agradável do que o presente; em que se pense que os filhos vão ter pior vida do que os pais, como está a acontecer agora na Europa e nos Estados Unidos da América (salvo entre aqueles que os espanhois chamam los ricos-ricos) e não acontecia desde o fim da Segunda Guerra Mundial, décadas em que a gente, de um e do outro lado do Atlântico, até já se esquecera de que tal poderia acontecer. E quando, ao contrário do que se passa agora, cada um sabia ir ganhar mais para o ano, como neste ano ganhara mais do que no ano passado; quando a minha mulher a dias, sabendo que trocaria vantajosamente o seu Toyota em segunda mão, tanto se lhe dava quanto se lhe desse que eu tivesse um ou dois BMWs ou que banqueiros milionários fotografados em revistas a cores coleccionassem Bentleys ou Ferraris. Tout allait pour le mieux dans le meilleur des mondes possibles.

 

Chão que deu uvas e, entretanto, tudo se complica: sem benevolência cúmplice do pobre para o rico, o fel de tribunos enraivados enche as almas do povo que os aplaude. (Os Burke* têm quase sempre razão mas os participantes quase nunca lha a dão a tempo – L’on immole à l’être abstrait les êtres réels et l’on offre au peuple en masse l’holocauste du peuple en détail observou Benjamin Constant sobre o chamado Terror da Revolução Francesa, ninharia por padrões contemporâneos mas marco de infâmia na história europeia). Tal se passa agora nos Estados Unidos: a energia de Trump assegura preferência e apoio inabaláveis de brancos pobres, que metem medo aos parlamentares do Partido Republicano os quais por isso não se opoem a medidas calamitosas, prometidas em campanha pelo Presidente. Por detrás do espectáculo acumulam-se dolos e prejuízos crescentes – materiais e morais – para os Estados Unidos e riscos de mais incómodos, alguns fatais, para toda a gente.

 

 

*Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France, Londres, 1790

 

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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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 dragões imperiais chineses 

 

 

 

José Cutileiro

 

    

Volta do marxismo ? Todos substituíveis ?

 

 

 

Muitas coisas nos arreliam este Verão a começar pelo calor, que envergonhou Eça de Queiroz diante de Fradique Mendes por só lhe ocorrerem expressões reles e em calão: «derrete os untos», «está de ananazes». Amigo do coração lembrou-me que calor passa e outras arrelias não arredam. Há duas que me têm tirado o sono, centrada uma nos Estados Unidos, outra na China.

 

Primeiro, a América. Quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo eu estava na Cidade do Cabo (Greet the Ambassador of the 4th Reich! faíscou o meu colega alemão à guiza de Boa noite, no jardim da casa onde íamos os dois entrar); quando Yeltsin desfez o império de cima para baixo sem sangue, estava eu em Lisboa. A Verdade triunfara sobre o erro, o Bem sobre o mal. E, salvo no caso peculiar da China, a ilusão marxista desabou como castelo de cartas de jogar. Ficaram Cuba, Coreia do Norte, alguns salpicos na União Indiana mas a ideia de que por lá passaria a salvação do mundo parecia ter-se sumido de vez. Se o comunismo perdera, porém, o capitalismo ganhara muito mal. Houve quem percebesse logo – comunismo não era doença, era remédio que falhara – mas  o grosso da cavalaria tomou o freio nos dentes e a eleição de Trump animou-a mais ainda. Na América – mais do que alhures – os poucos ricos estão cada vez mais ricos e os muitos pobres estão cada vez mais pobres. O socialismo marxista que desaparecera por lá desde o fim da Segunda Guerra Mundial (durante três décadas, em todas as classes, os filhos iam sendo sempre mais ricos do que os pais), seduz agora cada vez mais gente. Começou com Bernie Sanders, alastra como fogo de mato: numa «primária» em Nova York, mulata socialista de 28 anos derrotou o número 2 do Partido Democrático no Congresso, branco, sexagenário, não socialista. Mais socialistas marxistas serão eleitos em Novembro.

 

Segundo, a China com arranjo de partido único, dito marxista, a coincidir com capitalismo robusto, balisado pelo Estado. Mas a arrelia que me tira o sono não é essa. Desde a «desmaozição» imposta por Deng Xiaoping fomos notando, a pouco e pouco, o que nos parecia ser alguma liberalização do regime, uma aproximação aos nossos critérios e aos nossos valores. Como, para nós, a democracia parlamentar, monárquica ou presidencial, juntamente com a separação de poderes, a independência do judiciário, o exercício de direitos humanos e eleições livres e limpas é a evidência mesma de saber político universalista, sossegava-nos supor a China no bom caminho.

 

Erro nosso. O Presidente Xi passou a vitalício em regime mais próximo de monarquia absoluta do que das nossas modernices. E, em vez de ser padrão universal como os graus Celsius ou o teorema de Pitágoras, a nossa sabedoria política é um disparate aos olhos dos chineses. E agora?

 

Em filme antigo contra a pena de morte, capelão da cadeia dizia a condenado: Tu es immortel et irremplaçable. Se a China governar o mundo passaremos todos a ser substituíveis?

 

 

  

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Quarta-feira, 18 de Julho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Trump e Putin

@ The Daily Beast

 

 

José Cutileiro

 

 

Reflexões tristes

 

 

 

Escrevo na segunda-feira. No Domingo, o Público recordou-me a libertação de Nelson Mandela em 1990, começo do fim do apartheid; no Sábado, publiquei no Expresso in memoriam de Peter Carrington que morreu na terça-feira passada aos 99 anos e que, em 1982, se demitira de Foreign Secretary (Ministro dos Negócios Estrangeiros) por o seu ministério não se ter apercebido de que a Argentina ia invadir as Falklands: o ministro era ele, a responsabilidade era sua.

 

Nesta mesma segunda-feira, encontraram-se em Helsínquia Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos e Vladimir Putin, Presidente da Rússia. Vivemos outros tempos: a força interior que amarrou Mandela ao mastro, o ponto de honra que fez Carrington despedir-se, raros em qualquer altura, são praticamente inexistentes na vida política actual. Indo do geral para o particular, estão a anos-luz de distância dos personagens que hoje se encontraram um com o outro na cidade a que os suecos ainda chamam Helsingford.

 

Putin é o chefe de um estado-máfia, estruturado em rede de ex-funcionários do KGB - como ele próprio - assente em cleptocracia consecutiva à privatização da economia soviética, posta em marcha com as melhores intenções pelo falecido Yegor Gaidar (não foi assassinado mas houve tentativas), aos 32 anos o primeiro primeiro-ministro do Presidente Yeltsin. O entusiasmo era grande mas não se passa de hoje para amanhã de uma dieta de marxismo leninista para uma dieta de Hayek sem dar cabo da saúde. O resultado é país com esperança de vida e liberdade de imprensa menores do que há 25 anos e alcoolismo maior. Não se criou economia que fosse libertando a Rússia da dependência das exportações de gás e petróleo (Helmut Schmidt dizia justamente que a URSS era o Alto Volta sem bombas atómicas; substituindo URSS por Rússia e Alto Volta por Burkina Faso, ainda se aplica). A Rússia não é a China: entregues a si próprios, os russos não criam riqueza, consomem vodka. Politicamente, uma pseudodemocracia oprime os cidadãos, assassinando de vez em quando um ou outro. Bilionário, autocrático e imoral (riqueza e poder roubados ao povo), Putin vem na linha de Estaline e dos czares mais brutais.

 

Portando-se como anfitrião, que não era, acolheu um Trump subserviente e acomodatício ao ponto de aumentar suspeitas de alguns de que os russos tenham qualquer coisa contra ele. Ignorante, preguiçoso e inepto louvou constantemente o seu anfitrião. Chegou a dizer que a afirmação de Putin de que a Rússia não se tinha metido nas eleições americanas lhe parecia convincente – contra as convicções, provadas e públicas, dos seus próprios serviços de informação e segurança que acompanham o assunto.

 

Desta vez, a indignação nos Estados Unidos - não há memória de presidente se ter portado tão mal no estrangeiro – brota até de políticos Republicanos. Há mais: sendo Trump e Putin aldrabões públicos e notórios, ouviremos mentiras do que foi dito em tête-à-tête. Salvo se a CIA tiver feito o seu trabalho…

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 20 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Zona de treino militar em Grafenwoehr, Alemanha. 

Christof Stache/AFP via Getty Images 

 

 

José Cutileiro

 

 

A ver se o homem entende

 

 

 

Pedro Pires de Miranda, o ministro dos negócios estrangeiros português mais inteligente com quem trabalhei (ou, pelo menos, aquele com quem aprendi mais - um dia, era eu director político do MNE, informei-o: ‘Senhor Ministro, eu com três pessoas não consigo tratar disso’; ‘Já experimentou com duas?’ veio a resposta), percebeu o que escapara aos outros e a ele dava gosto: ‘A política externa é óptima. Só se têm inimigos!’

 

Não só os portugueses são afectados por essa cegueira idílica. Os europeus – primeiro 6; depois 9; depois 10; depois 12; depois 15; depois 24 (aí o caldo começou a entornar-se); hoje 28 e amanhã 27 – estiveram esquecidos disso desde a invenção das Comunidades Europeias até à eleição de Donald Trump e mesmo, depois desse feito americano (Hillary Clinton ganhou por três milhões o voto popular) julgaram que o exercício do poder iria tornar o homem muito parecido com os seus predecessores. Grande e breve engano - mais duro ainda, a seguir a 8 anos de Barack Obama, o menino querido da maioria dos eleitores europeus dessa época.

 

Donald Trump é deliberadamente ordinário e malcriado; é um mentiroso sistemático e o que se sabe de muitos dos seus sentimentos, gostos e vontades deveria exclui-lo do convívio de gente decente, tê-lo impedido de ser escolhido para inquilino da Casa Branca. Dito isto, é o Presidente dos Estados Unidos da América e tem razões de queixa legítimas dos europeus no que diz respeito a despesas de defesa. Terá outras ainda no comércio internacional, mas a sua maneira de tentar corrigir desequilíbrios contra si com a imposição de tarifas irá desencadear guerras comerciais e ajudar a destruir a ordem internacional baseada em regras aceites por todos em que o mundo vive pacificamente há mais de meio século e de que o principal beneficiário são os Estados Unidos.

 

Na defesa é diferente. O Tratado do Atlântico Norte de 1949 – que levou a organização a que chamamos OTAN ou, à inglesa, NATO – de que Portugal foi membro fundador mesmo sem ser uma democracia tinha em vista defenderem-nos do perigo soviético. O arsenal nuclear americano (existem também o britânico e o francês mas, como Mitterrand disse uma vez a propósito do segundo: ‘Soyons sérieux, messieurs…’) e as forças convencionais americanas eram de longe as maiores da Aliança mas, se houvesse invasão soviética, esta seria dos países europeus. Depois da Guerra Fria, sem risco dessa invasão, a NATO continua essencial para nossa defesa mas acordou-se em partilhar o fardo de outra maneira. Cada Aliado gastaria pelo menos 2% do seu PIB em defesa. Apesar de décadas  de insistência de Washington, só o Reino Unido o faz.

 

Assim, quando Trump tweeta que a Alemanha deixou entrar tantos emigrantes que o crime aumentou (o que é mentira) a Alemanha deveria chamar o embaixador em Washington para consultas. Mas deveria também ser capaz de informar o embaixador americano em Berlim de que a despesa alemã de defesa subira acima de 2% do PIB.  

 

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Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

el greco

 S. Francisco de Assis - El Greco

 

 

José Cutileiro

 

 

A parte colérica da alma

 

 

Partido de extrema-direita ganhou as eleições na Eslovénia e irá juntar o país a outros do Centro e do Leste da Europa – Hungria, Polónia, República Checa, Áustria - e talvez em breve também do Oeste – Itália - que dizem não a emigrantes vindos de África e de Ásia (terras viciosas que há cinco séculos os portugueses andaram devastando, cantara Luís, zarolho de génio de cuja data de morte fizemos dia nacional, celebrado no Domingo).

 

Setenta e três anos passaram sobre a afirmação universal do Bem, quando em 1945 o Terceiro Reich se rendeu incondicionalmente aos aliados; afirmação confirmada, para os que ainda tivessem dúvidas, quarenta e quatro anos depois, quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo e os aliados bons derrotaram por fim os aliados maus; com demão suplementar da dita confirmação aplicada zelosamente entre Janeiro de 2009 e Janeiro de 2017 por Barack Obama, então inquilino da Casa Branca, convencido de que a sua passagem por lá iria melhorar o mundo (Razão, irmã do amor e da justiça mais uma vez escuta a minha prece, rogara também Antero, o suicida do jardim público em Ponta Delgada).

 

A parte colérica da alma está a voltar em força e a fomentar ódio ao estrangeiro em corações que nos últimos decénios andavam distraídos por outras coisas. Praticam-se crueldades que, julgávamos nós, tinham passado a ser inadmissíveis. Na fonteira entre o México e os Estados Unidos, famílias latino-americanas que para estes queiram emigrar legalmente vêm os filhos separados dos pais até à conclusão do processo, isto é, sine die, sem nada saberem uns dos outros. Tal enormidade Trumpiana (ele diz que a lei vem dos Democratas mas é mentira), condenada até por alguns senadores norte-americanos, continua de vento em popa. De desmandos de Putin, Orban, Erdogan, do faraónico Sisi e outros mandachuvas africanos, do grande chefe chinês que se fez declarar perpétuo pelo Partido, sabemos todas as noites no telejornal (se Sócrates, Pinho, EDP, Sporting, eutanásia e dentro de dias campeonato do mundo de futebol deixarem tempo…) e cada um já não nos incomoda mais que escassos segundos.

 

Achamos outra vez natural que os humanos sejam maus como as cobras uns para os outros, o que sempre aconteceu e muitas vezes por razões consideradas boas (quando retomou Goa em 1510, Albuquerque terríbil encheu um bote com orelhas e narizes de muçulmanos locais, castigados por o terem traído; no seu tempo de Vice-Rei, em barco cheio de muçulmanos apresado no alto mar, homens, mulheres e crianças eram sempre passados a fio de espada que a segurança do Império dispensava mais mourama).

 

A demanda do Bem, a convicção de que a felicidade passara a ser possível não levaram só ao Gulag ou a Pol Pot. Na decência tenaz de algumas  democracias burguesas pareceu  à vezes que certas maldades tinham acabado (como a varíola, no mundo natural). Grande engano. Como um sábio lembrou, a guerra é tão antiga quanto a humanidade; a paz é uma invenção recente.

 

 

 

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Quarta-feira, 2 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

matsys

Quentin Metsys - O Cambista e a sua mulher (1519)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Deutschland, Deutschland über alles

 

 

 

Quem é o maior inimigo da União Europeia? O Reino Unido, de saída no comboio fantasma do Brexit? Itália, onde maioria dos eleitores votaram este ano em partidos que não a querem? Polónia, a submeter o poder judicial ao poder executivo? A Hungria autoritária e xenófoba de Vitor Orban?

 

Ou estará o inimigo fora de portas? Os Estados Unidos de Donald Trump com o seu ataque sistemático ao ambiente e a sua guerra comercial contra mundo? A cleptocracia de Vladimir Putin, incapaz de diversificar economia de gás e petróleo, com 110 pessoas donas de 35% da riqueza russa, a mão de ferro do Kremlin a dominar jornais, telefonias e televisões, controlando a opinião interna, e ordena piratagem informática (e um assassinato ou outro), para tentar destabilizar potências estrangeiras, grandes ou pequenas? Ou será a China, planeando a longo prazo (que já não é o que era: Keynes escreveu que a longo prazo já teremos morrido todos mas agora, a longo prazo, ainda alguns de nós por cá andarão)?

 

Ou, para espíritos seduzidos pela teoria conspirativa da história, todos estes, mancomunados uns com os outros?

 

Nada disso, leitora. O maior inimigo da União Europeia é afinal a Alemanha, que é também o mais populoso e o mais rico dos seus Estados Membros bem como, até há poucos anos, o era a Alemanha Federal – antes da reunificação havia duas Alemanhas - o único a encontrar na Europa um Ersatz de Pátria . Em 1996, em Bruxelas, coronel alemão que trabalhava comigo na UEO e fora no dia 9 de Maio a espectáculo na Grand Place para celebrar o Dia da Europa, contou-me, indignado, que só ele, a mulher e os filhos se tinham levantado quando fora tocado o Hino da Europa (4º andamento da nona sinfonia de Beethoven, sobre a Ode á Alegria de Schiller).

 

Em 1945, os europeus beligerantes estavam de rastos e a Alemanha, além disso, com quatro patas em cima (USA, URSS, Reino Unido e França) para só se levantar devagar e desarmada. Mas em 1957 já assinou o Tratado de Roma (a Itália também); laboriosa e disciplinada fora pagando a sua conta, pagamento muito facilitado porque se precisava dela forte, perante a União Soviética. Com os anos foi recuperando muitas das características de uma grande potência (e uma rara nestas: era o único dos “grandes” a esforçar-se por tratar bem os “pequenos”). Antes de se dissolver, a União Soviética consentiu na sua reunificação. Aí as coisas mudaram.

 

A “construção europeia” fora inventada na esperança de se poder viver em paz com a Alemanha depois das duas tragédias da primeira metade do século XX. Funcionou enquanto a Alemanha era devedora e estava dividida. Cofre pagador e reunificada, opõe-se a qualquer forma de mutualização da dívida. Acredita que o Norte protestante da Europa é bom e o Sul católico e ortodoxo é mau. Dívidas são pecados. Conservadores, liberais, verdes e democratas sociais acham “que a Europa está como está porque não se foi suficientemente duro com os países do Sul”. Nada bom à vista.

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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