Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

two-dragons-on-the-wall

 dragões imperiais chineses 

 

 

 

José Cutileiro

 

    

Volta do marxismo ? Todos substituíveis ?

 

 

 

Muitas coisas nos arreliam este Verão a começar pelo calor, que envergonhou Eça de Queiroz diante de Fradique Mendes por só lhe ocorrerem expressões reles e em calão: «derrete os untos», «está de ananazes». Amigo do coração lembrou-me que calor passa e outras arrelias não arredam. Há duas que me têm tirado o sono, centrada uma nos Estados Unidos, outra na China.

 

Primeiro, a América. Quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo eu estava na Cidade do Cabo (Greet the Ambassador of the 4th Reich! faíscou o meu colega alemão à guiza de Boa noite, no jardim da casa onde íamos os dois entrar); quando Yeltsin desfez o império de cima para baixo sem sangue, estava eu em Lisboa. A Verdade triunfara sobre o erro, o Bem sobre o mal. E, salvo no caso peculiar da China, a ilusão marxista desabou como castelo de cartas de jogar. Ficaram Cuba, Coreia do Norte, alguns salpicos na União Indiana mas a ideia de que por lá passaria a salvação do mundo parecia ter-se sumido de vez. Se o comunismo perdera, porém, o capitalismo ganhara muito mal. Houve quem percebesse logo – comunismo não era doença, era remédio que falhara – mas  o grosso da cavalaria tomou o freio nos dentes e a eleição de Trump animou-a mais ainda. Na América – mais do que alhures – os poucos ricos estão cada vez mais ricos e os muitos pobres estão cada vez mais pobres. O socialismo marxista que desaparecera por lá desde o fim da Segunda Guerra Mundial (durante três décadas, em todas as classes, os filhos iam sendo sempre mais ricos do que os pais), seduz agora cada vez mais gente. Começou com Bernie Sanders, alastra como fogo de mato: numa «primária» em Nova York, mulata socialista de 28 anos derrotou o número 2 do Partido Democrático no Congresso, branco, sexagenário, não socialista. Mais socialistas marxistas serão eleitos em Novembro.

 

Segundo, a China com arranjo de partido único, dito marxista, a coincidir com capitalismo robusto, balisado pelo Estado. Mas a arrelia que me tira o sono não é essa. Desde a «desmaozição» imposta por Deng Xiaoping fomos notando, a pouco e pouco, o que nos parecia ser alguma liberalização do regime, uma aproximação aos nossos critérios e aos nossos valores. Como, para nós, a democracia parlamentar, monárquica ou presidencial, juntamente com a separação de poderes, a independência do judiciário, o exercício de direitos humanos e eleições livres e limpas é a evidência mesma de saber político universalista, sossegava-nos supor a China no bom caminho.

 

Erro nosso. O Presidente Xi passou a vitalício em regime mais próximo de monarquia absoluta do que das nossas modernices. E, em vez de ser padrão universal como os graus Celsius ou o teorema de Pitágoras, a nossa sabedoria política é um disparate aos olhos dos chineses. E agora?

 

Em filme antigo contra a pena de morte, capelão da cadeia dizia a condenado: Tu es immortel et irremplaçable. Se a China governar o mundo passaremos todos a ser substituíveis?

 

 

  

publicado por VF às 09:00
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 18 de Julho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

daily beast-tomasky-putin-trump-mob-hero_xgynkk

Trump e Putin

@ The Daily Beast

 

 

José Cutileiro

 

 

Reflexões tristes

 

 

 

Escrevo na segunda-feira. No Domingo, o Público recordou-me a libertação de Nelson Mandela em 1990, começo do fim do apartheid; no Sábado, publiquei no Expresso in memoriam de Peter Carrington que morreu na terça-feira passada aos 99 anos e que, em 1982, se demitira de Foreign Secretary (Ministro dos Negócios Estrangeiros) por o seu ministério não se ter apercebido de que a Argentina ia invadir as Falklands: o ministro era ele, a responsabilidade era sua.

 

Nesta mesma segunda-feira, encontraram-se em Helsínquia Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos e Vladimir Putin, Presidente da Rússia. Vivemos outros tempos: a força interior que amarrou Mandela ao mastro, o ponto de honra que fez Carrington despedir-se, raros em qualquer altura, são praticamente inexistentes na vida política actual. Indo do geral para o particular, estão a anos-luz de distância dos personagens que hoje se encontraram um com o outro na cidade a que os suecos ainda chamam Helsingford.

 

Putin é o chefe de um estado-máfia, estruturado em rede de ex-funcionários do KGB - como ele próprio - assente em cleptocracia consecutiva à privatização da economia soviética, posta em marcha com as melhores intenções pelo falecido Yegor Gaidar (não foi assassinado mas houve tentativas), aos 32 anos o primeiro primeiro-ministro do Presidente Yeltsin. O entusiasmo era grande mas não se passa de hoje para amanhã de uma dieta de marxismo leninista para uma dieta de Hayek sem dar cabo da saúde. O resultado é país com esperança de vida e liberdade de imprensa menores do que há 25 anos e alcoolismo maior. Não se criou economia que fosse libertando a Rússia da dependência das exportações de gás e petróleo (Helmut Schmidt dizia justamente que a URSS era o Alto Volta sem bombas atómicas; substituindo URSS por Rússia e Alto Volta por Burkina Faso, ainda se aplica). A Rússia não é a China: entregues a si próprios, os russos não criam riqueza, consomem vodka. Politicamente, uma pseudodemocracia oprime os cidadãos, assassinando de vez em quando um ou outro. Bilionário, autocrático e imoral (riqueza e poder roubados ao povo), Putin vem na linha de Estaline e dos czares mais brutais.

 

Portando-se como anfitrião, que não era, acolheu um Trump subserviente e acomodatício ao ponto de aumentar suspeitas de alguns de que os russos tenham qualquer coisa contra ele. Ignorante, preguiçoso e inepto louvou constantemente o seu anfitrião. Chegou a dizer que a afirmação de Putin de que a Rússia não se tinha metido nas eleições americanas lhe parecia convincente – contra as convicções, provadas e públicas, dos seus próprios serviços de informação e segurança que acompanham o assunto.

 

Desta vez, a indignação nos Estados Unidos - não há memória de presidente se ter portado tão mal no estrangeiro – brota até de políticos Republicanos. Há mais: sendo Trump e Putin aldrabões públicos e notórios, ouviremos mentiras do que foi dito em tête-à-tête. Salvo se a CIA tiver feito o seu trabalho…

 

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 20 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

AFP_AI20J

Zona de treino militar em Grafenwoehr, Alemanha. 

Christof Stache/AFP via Getty Images 

 

 

José Cutileiro

 

 

A ver se o homem entende

 

 

 

Pedro Pires de Miranda, o ministro dos negócios estrangeiros português mais inteligente com quem trabalhei (ou, pelo menos, aquele com quem aprendi mais - um dia, era eu director político do MNE, informei-o: ‘Senhor Ministro, eu com três pessoas não consigo tratar disso’; ‘Já experimentou com duas?’ veio a resposta), percebeu o que escapara aos outros e a ele dava gosto: ‘A política externa é óptima. Só se têm inimigos!’

 

Não só os portugueses são afectados por essa cegueira idílica. Os europeus – primeiro 6; depois 9; depois 10; depois 12; depois 15; depois 24 (aí o caldo começou a entornar-se); hoje 28 e amanhã 27 – estiveram esquecidos disso desde a invenção das Comunidades Europeias até à eleição de Donald Trump e mesmo, depois desse feito americano (Hillary Clinton ganhou por três milhões o voto popular) julgaram que o exercício do poder iria tornar o homem muito parecido com os seus predecessores. Grande e breve engano - mais duro ainda, a seguir a 8 anos de Barack Obama, o menino querido da maioria dos eleitores europeus dessa época.

 

Donald Trump é deliberadamente ordinário e malcriado; é um mentiroso sistemático e o que se sabe de muitos dos seus sentimentos, gostos e vontades deveria exclui-lo do convívio de gente decente, tê-lo impedido de ser escolhido para inquilino da Casa Branca. Dito isto, é o Presidente dos Estados Unidos da América e tem razões de queixa legítimas dos europeus no que diz respeito a despesas de defesa. Terá outras ainda no comércio internacional, mas a sua maneira de tentar corrigir desequilíbrios contra si com a imposição de tarifas irá desencadear guerras comerciais e ajudar a destruir a ordem internacional baseada em regras aceites por todos em que o mundo vive pacificamente há mais de meio século e de que o principal beneficiário são os Estados Unidos.

 

Na defesa é diferente. O Tratado do Atlântico Norte de 1949 – que levou a organização a que chamamos OTAN ou, à inglesa, NATO – de que Portugal foi membro fundador mesmo sem ser uma democracia tinha em vista defenderem-nos do perigo soviético. O arsenal nuclear americano (existem também o britânico e o francês mas, como Mitterrand disse uma vez a propósito do segundo: ‘Soyons sérieux, messieurs…’) e as forças convencionais americanas eram de longe as maiores da Aliança mas, se houvesse invasão soviética, esta seria dos países europeus. Depois da Guerra Fria, sem risco dessa invasão, a NATO continua essencial para nossa defesa mas acordou-se em partilhar o fardo de outra maneira. Cada Aliado gastaria pelo menos 2% do seu PIB em defesa. Apesar de décadas  de insistência de Washington, só o Reino Unido o faz.

 

Assim, quando Trump tweeta que a Alemanha deixou entrar tantos emigrantes que o crime aumentou (o que é mentira) a Alemanha deveria chamar o embaixador em Washington para consultas. Mas deveria também ser capaz de informar o embaixador americano em Berlim de que a despesa alemã de defesa subira acima de 2% do PIB.  

 

publicado por VF às 19:02
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

el greco

 S. Francisco de Assis - El Greco

 

 

José Cutileiro

 

 

A parte colérica da alma

 

 

Partido de extrema-direita ganhou as eleições na Eslovénia e irá juntar o país a outros do Centro e do Leste da Europa – Hungria, Polónia, República Checa, Áustria - e talvez em breve também do Oeste – Itália - que dizem não a emigrantes vindos de África e de Ásia (terras viciosas que há cinco séculos os portugueses andaram devastando, cantara Luís, zarolho de génio de cuja data de morte fizemos dia nacional, celebrado no Domingo).

 

Setenta e três anos passaram sobre a afirmação universal do Bem, quando em 1945 o Terceiro Reich se rendeu incondicionalmente aos aliados; afirmação confirmada, para os que ainda tivessem dúvidas, quarenta e quatro anos depois, quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo e os aliados bons derrotaram por fim os aliados maus; com demão suplementar da dita confirmação aplicada zelosamente entre Janeiro de 2009 e Janeiro de 2017 por Barack Obama, então inquilino da Casa Branca, convencido de que a sua passagem por lá iria melhorar o mundo (Razão, irmã do amor e da justiça mais uma vez escuta a minha prece, rogara também Antero, o suicida do jardim público em Ponta Delgada).

 

A parte colérica da alma está a voltar em força e a fomentar ódio ao estrangeiro em corações que nos últimos decénios andavam distraídos por outras coisas. Praticam-se crueldades que, julgávamos nós, tinham passado a ser inadmissíveis. Na fonteira entre o México e os Estados Unidos, famílias latino-americanas que para estes queiram emigrar legalmente vêm os filhos separados dos pais até à conclusão do processo, isto é, sine die, sem nada saberem uns dos outros. Tal enormidade Trumpiana (ele diz que a lei vem dos Democratas mas é mentira), condenada até por alguns senadores norte-americanos, continua de vento em popa. De desmandos de Putin, Orban, Erdogan, do faraónico Sisi e outros mandachuvas africanos, do grande chefe chinês que se fez declarar perpétuo pelo Partido, sabemos todas as noites no telejornal (se Sócrates, Pinho, EDP, Sporting, eutanásia e dentro de dias campeonato do mundo de futebol deixarem tempo…) e cada um já não nos incomoda mais que escassos segundos.

 

Achamos outra vez natural que os humanos sejam maus como as cobras uns para os outros, o que sempre aconteceu e muitas vezes por razões consideradas boas (quando retomou Goa em 1510, Albuquerque terríbil encheu um bote com orelhas e narizes de muçulmanos locais, castigados por o terem traído; no seu tempo de Vice-Rei, em barco cheio de muçulmanos apresado no alto mar, homens, mulheres e crianças eram sempre passados a fio de espada que a segurança do Império dispensava mais mourama).

 

A demanda do Bem, a convicção de que a felicidade passara a ser possível não levaram só ao Gulag ou a Pol Pot. Na decência tenaz de algumas  democracias burguesas pareceu  à vezes que certas maldades tinham acabado (como a varíola, no mundo natural). Grande engano. Como um sábio lembrou, a guerra é tão antiga quanto a humanidade; a paz é uma invenção recente.

 

 

 

publicado por VF às 12:32
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 2 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

matsys

Quentin Metsys - O Cambista e a sua mulher (1519)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Deutschland, Deutschland über alles

 

 

 

Quem é o maior inimigo da União Europeia? O Reino Unido, de saída no comboio fantasma do Brexit? Itália, onde maioria dos eleitores votaram este ano em partidos que não a querem? Polónia, a submeter o poder judicial ao poder executivo? A Hungria autoritária e xenófoba de Vitor Orban?

 

Ou estará o inimigo fora de portas? Os Estados Unidos de Donald Trump com o seu ataque sistemático ao ambiente e a sua guerra comercial contra mundo? A cleptocracia de Vladimir Putin, incapaz de diversificar economia de gás e petróleo, com 110 pessoas donas de 35% da riqueza russa, a mão de ferro do Kremlin a dominar jornais, telefonias e televisões, controlando a opinião interna, e ordena piratagem informática (e um assassinato ou outro), para tentar destabilizar potências estrangeiras, grandes ou pequenas? Ou será a China, planeando a longo prazo (que já não é o que era: Keynes escreveu que a longo prazo já teremos morrido todos mas agora, a longo prazo, ainda alguns de nós por cá andarão)?

 

Ou, para espíritos seduzidos pela teoria conspirativa da história, todos estes, mancomunados uns com os outros?

 

Nada disso, leitora. O maior inimigo da União Europeia é afinal a Alemanha, que é também o mais populoso e o mais rico dos seus Estados Membros bem como, até há poucos anos, o era a Alemanha Federal – antes da reunificação havia duas Alemanhas - o único a encontrar na Europa um Ersatz de Pátria . Em 1996, em Bruxelas, coronel alemão que trabalhava comigo na UEO e fora no dia 9 de Maio a espectáculo na Grand Place para celebrar o Dia da Europa, contou-me, indignado, que só ele, a mulher e os filhos se tinham levantado quando fora tocado o Hino da Europa (4º andamento da nona sinfonia de Beethoven, sobre a Ode á Alegria de Schiller).

 

Em 1945, os europeus beligerantes estavam de rastos e a Alemanha, além disso, com quatro patas em cima (USA, URSS, Reino Unido e França) para só se levantar devagar e desarmada. Mas em 1957 já assinou o Tratado de Roma (a Itália também); laboriosa e disciplinada fora pagando a sua conta, pagamento muito facilitado porque se precisava dela forte, perante a União Soviética. Com os anos foi recuperando muitas das características de uma grande potência (e uma rara nestas: era o único dos “grandes” a esforçar-se por tratar bem os “pequenos”). Antes de se dissolver, a União Soviética consentiu na sua reunificação. Aí as coisas mudaram.

 

A “construção europeia” fora inventada na esperança de se poder viver em paz com a Alemanha depois das duas tragédias da primeira metade do século XX. Funcionou enquanto a Alemanha era devedora e estava dividida. Cofre pagador e reunificada, opõe-se a qualquer forma de mutualização da dívida. Acredita que o Norte protestante da Europa é bom e o Sul católico e ortodoxo é mau. Dívidas são pecados. Conservadores, liberais, verdes e democratas sociais acham “que a Europa está como está porque não se foi suficientemente duro com os países do Sul”. Nada bom à vista.

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 28 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

pain_au_chocolat

pain au chocolat

 

José Cutileiro

 

 

Nova Iorque dos Pobres e Espírito de Contradição

 

 

 I

Há muitos anos chamei a Bruxelas a Nova Iorque dos pobres e dá sempre gosto ao inventor verificar que a coisa inventada existe. (Tem riscos, como tudo quanto seja levado ao excesso; Camões lembrou-o cruelmente: Torna-se o amador na coisa amada/Por virtude de muito imaginar).

 

Hoje, em minúscula clínica dessas que há agora onde a gente se sente muito melhor do que num hospital, de tal maneira que os anestesistas para nos porem a dormir precisam só da quarta parte do líquido que nos injectam nos ditos hospitais, fizeram-me pequena intervenção. O cirurgião era grego, a anestesista polaca, a enfermeira uruguaia, eu português (a minha mulher, cujo telefone lhes dei, é francesa). Belga, só talvez a recepcionista que, nos cinco minutos que passei na sala espera, desembaraçava-se em francês e no holandês que se fala aqui – 60% no país,12% em Bruxelas. Na meia hora de chá preto e pain au chocolat que passei entre acordar e ir-me embora, a conversa terá sido mais variada e divertida do que teria sido na Mãe Pátria sobre mexeriquices de colegas, amigos, parentes e os altos e baixos do Desporto Rei. À uruguaia lembrei embaixador reformado inglês encontrado em Londres na casa de amigos ingleses, há mais de meio século, que em Montevideo fora raptado pelos «Tupamaros», terroristas urbanos, todos de boas famílias e educadíssimos que o trataram sempres bem e foi libertado incólume, aprendendo, todavia uma lição: nunca acreditar em quem prometa paraíso futuro onde só se possa chegar através de inferno intermédio (foi a enfermeira que me lembrou o nome dos guerrilheiros). A anestesista, que tem vergonha do actual governo polaco, fez-me pensar em Geremek, o grande medievalista e ministro dos negócios estrangeiros polaco da Solidarnosc, a contar-me, em Varsóvia, cena entre Walesa e Ieltsin,os dois bêbados, com o russo a garantir ao polaco que deixava a Polónia juntar-se à OTAN enquanto os seus colaboradores lhe repetiam que não podia ser, e o electricista de Gdansk perguntava, do outro lado: «Quem é que manda na Rússia ? És tu ou são eles ?». E ao cirurgião, que trouxera ele mesmo o pain au chocolat e me explicara não haver razões para preocupação, disse que ele conseguira criar, no coração de Bruxelas, uma espécie de Atenas sem corrupção. (Grego nosso conhecido impressionara-nos há dias com a aventura de conseguir internar e tratar bem a sua velha e lúcida mãe num hospital privado de Antenas: só mediante gorjetas e subornos tais que me indignaram, e eu sou d’Évora, não de Oslo nem de Helsinquia. No Peloponeso, assim se vive e se acha natural viver. Viva a Nova Iorque dos pobres!

 

II

John Bolton, como Conselheiro Nacional de Segurança de Trump, poderá ser benéfico. Um defeito de Trump é o espírito de contradição e desconfia tanto dos conselheiros que talvez agora, para mostrar que não depende de Bolton, passe a usar de bom senso. (Estariam ambos melhor em Rilhafolhes mas não se pode ter tudo…)

 

 

 

publicado por VF às 09:00
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 14 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Fake news

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Et nunc et semper

 

 

Há agora grande animação a propósito de fake-news e de aldrabices quejandas que fervilham desde que os americanos escolheram para Presidente um mentiroso compulsivo (mas - ao contrário dos mitómanos que ás vezes se prejudicam com as mentiras que inventam – este está sempre a ver se leva água ao seu moinho e, quando não o consegue, foi por limitação de inteligência, de cultura ou de informação como acontece tantas vezes a chicos espertos e não por reconhecimento de a razão estar do outro lado. Há quem diga nessas alturas que o Presidente é sobretudo narcisista, como se tal fosse grande pecado, mas eu não estou convencido: Oscar Wilde contava que as águas do lago, quando lhes perguntaram se Narciso era realmente belo, responderam que não sabiam porque, quando Narciso vinha ver-se nelas, não olhavam para ele - olhavam para si próprias nas meninas dos olhos dele. Atirar a primeira pedra…

 

Felizmente, pelo menos por enquanto, a algazarra passa-se sobretudo nas chamadas redes sociais, uma gigantesca bolha, porventura ela própria dentro de uma outra bolha - e por aí fora - onde vivem deusas e deuses, homens e mulheres, onde se mata, se morre, se ama, se odeia, se acaba e se recomeça, como se se a vida fosse uma fantasia impune de ricos e, enquanto assim for, não virá daí mais mal ao mundo do que aquele que já tinha vindo ao longo de milénios, por mor de quezílias semelhantes, explodindo em amores e ódios, dividindo famílias, nações e fés, pelo menos desde Abel e Caim (para leitora que prefira ou esteja mais calhada com a mitologia cristã). Se fake news e fantasias acopladas tomassem conta dos livros texto, da experimentação e dos debates em cirurgia torácica, por exemplo, ou na construção de pontes sobre rios ou na pilotagem automática de automóveis e de aviões ou na análise, selecção e engarrafamento da Água do Luso – aí haveria razão para grande susto. De algoritmos a física quântica, muita coisa hoje nos organiza as vidas, cujo entendimento escapa a muitos de nós mas cujo estatuto científico e técnico não é minado pela tagarelice cacofónica zumbindo constantemente ao nosso alcance visual e auditivo nas redes sociais. O que é minado, esse sim, é o chamado conhecimento comum, já de si vago, incoerente, gabarola, e há eras sem fim, constantemente posto à prova pelas religiões do mundo, sobretudo pelas religiões reveladas e, destas, pelas três maiores: Cristianismo, Islamismo e Judaísmo.

 

O que mudou, quase desapareceu, são os guardas florestais e mais arranjos destinados a prevenir fogos incontroláveis no Pinhal de Leiria que é o espírito. O aparelho científico e, pelo menos por enquanto, a máquina judiciária estão seguros, olhando pelos conhecimentos lógico e empírico, por um lado, e pela aplicação das leis, por outro. No resto dos espaços públicos e privados, a razão arrisca-se a perder crédito; a autoridade e o acaso a constituírem-se soberanos – mas isso já o temia o Cavaleiro de Oliveira (1702-1783). Não há de ser nada.

 

 

 

publicado por VF às 09:00
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

codorniz65

Capa de La Codorniz celebrando a nova lei de imprensa conhecida como “ley Fraga” (1965)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Mundo Novo

 

 

Assino há muito tempo a New York Review of Books e, desde que vivi em Princeton, professor no Institute for Advanced Study, de 2001 a 2004 passei a assinar o New Yorker que, costumava eu dizer a toda a gente, é o melhor semanário do mundo – ou pelo menos o melhor semanário publicado em língua que eu saiba ler. Veio ocupar o lugar deixado vago há décadas por La Codorniz – “La revista más audaz para el lector más inteligente!”, trazia impresso numa tarja que atravessava a capa – impressa em castanho e cor-de-rosa, publicada em Madrid no tempo de Franco, suspensa de vez em quando pelo Poder (uma vez por causa de boletim meteorológico: “Mañana, como en igual fecha en años anteriores, se sentirá en toda la peninsula um fresco general del Noroeste”; outra, por pôr na capa de um número o desenho de um ovo enorme com a legenda “El huevo de Colón” e, na capa do número seguinte, novamente um ovo enorme com a legenda “El outro huevo de Colón”) e sempre implacável: grande fotografia do próprio com a legenda seguinte: “D. Jose Ortega y Gasset, Primero filósofo de España y Decimoquinto de Alemania”. Quando Franco acabou e veio a liberdade, acabou a Codorniz. 

 

Acontece-me agora uma coisa bizarra. Desde que Trump chegou à Casa Branca, depois de quase dois anos de campanha, com primárias republicanas e democratas primeiro e face-a-face Trump-Clinton depois, em eleições livres e limpas, tirante uma ou outra intervenção secreta e indevida do Kremlin para fazer Clinton perder votos, nunca saberemos quantos (a palavra tirante chegou-me agora directa de Camilo no começo da novela de Cenas da Foz, A Sorte em Preto, quando diz que a fidalguia do pai da heroína – cito de cor – vinha desde os godos em linha pura e varonil, “tirante um ou outro capelão atravessado”) e não se irão impugnar as eleições por causa disso, seja qual for o resultado do inquérito em curso; desde a chegada de Trump ao Escritório Oval dizia eu, perdi a paciência para os dois pontificadores nova-iorquinos – a New York Review; o New Yorker – e deixei praticamente de os ler. Continuam a vir pelo correio, de vez em quando tiro-lhes a cingida bolsa de plástico fino e transparente dentro da qual chegam a minha casa e ponho-os nas pilhas respectivas mas li por junto um artigo do New Yorker porque amigo insistiu. Estou de nojo; é estado que passa com o tempo e não cancelei assinaturas. Mas, por enquanto, raramente lhes toco – porque me sinto enganado. Afinal, eles que julgavam saber tudo mas não tinham percebido nada, deixaram multidões fartas de serem descuradas pela arrogância da mó de cima escolher gente ignorante, mal formada e viciosa para governar o país.

 

Também não tenho desculpa. Cheguei ao Instituto em Princeton logo a seguir ao 11 de Setembro com a América em estado de choque. Poucos dias depois carpinteiro da casa explicou-me como se distinguiam os automóveis do pessoal menor dos dos professores: “A gente cola a bandeira nas janelas dos nossos carros e eles não”.

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

US_Constitution

 Constituição dos Estados Unidos da América

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Trump, os americanos e nós

 

 

 

Jornais americanos contaram as mentiras de Trump e o cálculo dá mais de 5 mentiras por dia desde a tomada de posse. Para ser justo, o número pouco sentido faz se não for comparado com números equivalentes para os seus predecessores, pelo menos desde Ronald Reagan, inclusive: Bush pai, Bill Clinton, Bush filho, Barack Obama. Obama foi comparado – mentia, mas muito menos - porém estudos dos outros, difíceis e morosos, não foram feitos. Talvez algum bilionário benemérito de extrema-direita pudesse encomendá-los a uma das entidades competentes e impolutas que existem nos Estados Unidos.

 

Não ajuda debate político cada vez mais faccioso ter, de um lado, a diabolização de Trump, e, do outro, a diabolização de Hillary Clinton - e também, para americanos puros e duros, a base evangélica que apoia o Vice-Presidente Pence, desde os cachafundos da cintura bíblica do Sul confederado até ao Knesset em Jerusalém, a diabolização de mulheres que não cozinhem todos dias pontualmente o jantar dos maridos e não criem filhas de maneira que estas venham a portar-se como elas. “She-devils” chamam-lhes os Republicanos mais entusiastas para ganharem votos nas eleições deste ano para o Congresso.

 

À primeira vista, na Europa, é preciso chegarmos a ramalhetes sombrios de curas e fidalgos na Bretanha azul; a aldeias polacas ou austríacas, beatas e anti-semitas; a jovens bávaros ou suecos desempregados, disciplinados na violência, para encontrar tal eflúvio de crenças anacrónicas. Todo o cuidado é pouco mas com Macron em França, a grande coligação na Alemanha (knock on wood!), a Espanha laicizada e a Itália desconfiada de grandes visões, é provável que a Europa escape à ambição de ordem sem democracia que anima os governos de Budapeste e de Varsóvia. (Un polonais, un charmeur; deux polonais une bagarre; trois polonais, la question polonaise, Voltaire).

 

Nos Estados Unidos é diferente. E o que lá se passar vai afectar-nos a todos na Europa. Os números da economia, a curto prazo, confortarão Trump e algumas das suas falhas morais (menos chocantes para latinos do que para europeus do Norte: amigo português, dez anos mais velho do que eu, dizia à mulher: “O nosso azar filha é termos nascido cedo demais – senão tu também me punhas os palitos e eramos os dois felizes”. Já morreram ambos) não abalam o seu eleitorado. Em inquérito recente, 72% dos Republicanos acham Trump um bom modelo para a juventude (faz a gente pensar). O busílis está no assalto a critérios de decência e equilíbrio de poderes (que desde os Pais Fundadores conferem aos Estados Unidos força, atracção e estabilidade) feito escandalosamente por Trump, com desenvoltura que põe os seus interesses próprios à frente dos interesses dos Estados Unidos. Desde a não declaração do património até à publicação recente de elementos de inquérito do FBI contra a oposição do director deste, os casos vão-se acumulando. Se lhe derem mais um mandato, receio que o dano seja irreparável.

 

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

trump-tower-las-vegas_dezeen

Las Vegas 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Patos bravos

 

 

 

As mesmas palavras dizem coisas diferentes segundo os lugares. Em norueguês, “pato bravo” traz logo à cabeça peça de teatro de Ibsen (e em inglês também, em certas circunstâncias: vi uma tarde em Nairobi cartaz de representação teatral nessa noite e noites seguintes, por actrizes e actores negros do Quénia, alguns dos quais lá estavam figurados, de The Wild Duck de Hendrik Ibsen). E poderia ter visto cartaz equivalente, escrito em dinamarquês, numa rua de Copenhaga, porque a língua em que Ibsen escreveu os seus dramas era o dinamarquês, embora Ibsen ele próprio fosse norueguês - não é bem o mesmo que Luís Bernardo Honwana, sendo moçambicano, escrever em português, mas tampouco é completamente diferente porque a Noruega, se não estou em erro, a certa altura foi colónia ou coisa parecida da Dinamarca - e como o disparate não poupa ninguém, nem os escandinavos, quase sempre tão certinhos em tudo, há agora na Noruega espíritos desembaraçados que retrovertem Ibsen para norueguês moderno, oferecendo a públicos de representações teatrais e a leitoras de livros o que eles entendem ser como Ibsen teria escrito agora. Disse-me entendida um dia que o dito norueguês moderno soava feio e tosco, enquanto o Ibsen original soava bonito e subtil, mas essa minha amiga era um alma sensível e considerava que o punhado de homens e mulheres, instruídos obrigatoriamente, que julgavam estar assim a fazer justiça ao verdadeiro espírito do dramaturgo, estavam na realidade a caricaturá-lo, ainda por cima com mau gosto.

 

Já as três palavras Le Canard Sauvage, lidas em parede de uma rua de Bruxelas, só depois de muitas voltas lembrariam o mister – ou arte, ou engenho – de Racine, Goethe ou Shakespeare ou, porque não, do próprio Ibsen (tenho dias em que não consigo impedir-me de complicar as coisas…) mas antes, prosaica e gulosamente, sugeriria restaurante mais ou menos pretensioso. Em Bruxelas, ou em Estrasburgo, ou em Mulhouse, ou em Basileia, ou em qualquer outro vestígio do Reino Lotaríngio, tudo isto em grande parte depois Ducado de Borgonha, e hoje, Suíça, França, Luxemburgo, Bélgica Valónica, um dos ramalhetes de lugares no mundo onde há séculos se come e se bebe muito bem.

 

Em Lisboa, isto é, na Lisboa do meu tempo - não sei se hoje se falará por lá assim – o significado de ‘pato bravo’ era outro ainda. Um pato bravo era um construtor civil que fizera fortuna e passara a novo rico, nem sempre com honestidade pegada à sua reputação, pelo contrário, mas com jeito para escapar a complicações. Muitas vezes, não sei porquê, vindo de Tomar. Nesse Portugal, o equivalente de Trump seria um pato bravo ordinário. Mas o caso de Trump é mais complicado: os patos bravos de Nova Iorque escapam melhor à troça dos ricos-ricos se forem de Manhattan do que se forem de Brooklyn. E Trump é um pato bravo de Brooklyn. São complexos de inferioridade, uns dentro dos outros como bonecas russas, e o homem sempre a achar que não lhe estão a dar o valor devido.

 

publicado por VF às 09:00
link do post | comentar | favorito

pesquisar

mais sobre mim

posts recentes

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

tags

todas as tags

links

arquivos

Creative Commons License
This work by //retrovisor.blogs.sapo.pt is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Blogs Portugal

blogs SAPO

subscrever feeds