Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Zé Povinho

"Zé Povinho" de Rafael Bordalo Pinheiro

 

 

José Cutileiro

 

 

Portugal, 10ª democracia do mundo

 

  

Vinda de iniciativa séria e respeitada, a notícia enriquece pela variedade a lista habitual de triunfos pátrios. Não tenho nada contra o futebol ou qualquer outro desporto/espectáculo de sucesso (há muitos anos Bernard Shaw escreveu que a maioria dos seus compatriotas – ingleses - estaria de acordo em considerar que o Arcebispo de Cantuária tinha mais valor do que um campeão do mundo de boxe; a dificuldade estava na quantificação: quantos campeões de boxe valia um arcebispo? Ou, adaptando ao Portugal de hoje, quantos pontas-direitas vale um cardeal? O problema é que quem decide nestas coisas – já decidia no tempo de Shaw mas sem tanta desenvoltura - é o mercado e nele as contas são ao contrário: quantos cardeais seriam precisos para pagar um ponta direita? Aí é que está o busílis e está também a razão pela qual os Estados Unidos da América – com uma única hierarquia, a do dinheiro - não poderão nunca ser modelo do mundo por muito que se goste de Coca-Cola, de Ella Fitzgerald ou de Frank Lloyd Wright, entende amigo sagaz que viveu lá muito mais tempo do que eu).

 

Felizmente a questão não se põe quanto à distinção de ser classificado a 10ª democracia do mundo porque esta abrange todos nós, incluindo a leitora e incluindo-me a mim (Porquê Mário? Porquê Cesariny? Porquê, ó meu Deus, de Vasconcelos?– vem-me à cabeça nesta altura). O que a distinção traz, isso sim, é a obrigação de melhorarmos ainda mais. Por muito que continue a pesar a alguns dos nossos pedagogos, a concorrência não é pecado e faz bem a quem se mete nela. Sendo mais importante de tudo a level playing field, isto é, para ricos e pobres, altos e baixos, espertos e burros, as mesmas condições à partida, sem cunhas (Portugal); Old boys net (Grã Bretanha); Guanxi (China).Há excepções de resistência: lembro-me, era eu miúdo, em concurso de carreira hospitalar, o Zana Mello e Castro retirar candidatura quando a PIDE impediu colega esquerdista de concorrer. Já não há PIDE, continua a haver gente honrada mas excepções à prática má continuam a ser poucas.

 

E deveriam passar a ser muitas porque, escreve-me leitora, a corrupção é um dos piores males do mundo: “Primeiro pelo mal directo que causa, ao fomentar os outros males todos, segundo porque é praticamente impossível de eliminar em tempo útil, terceiro porque desencoraja e tira a esperança às pessoas de que seja possível fazer as coisas de outra maneira sem ter de se arrancar o sistema pela raiz.

 

‘Eles (políticos, governantes) são todos iguais’ deve ser um dos poucos sentimentos verdadeiramente comuns a toda a humanidade”.

 

Tarefa hercúlea? Talvez mas rombos nos privilégios de ricos e afins perante o poder político, impensáveis há 10 anos, ajudaram a chegar ao 10º lugar; a renomeação de Joana Marques Vidal talvez ajude a guindar-nos ao 9º - brinca brincando, felizmente bem longe da definição de República atribuída ao monárquico Voltaire: “Le malheur de chacun pour le bonheur du tout”.    

 

    

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Sexta-feira, 13 de Julho de 2018

Escultura de Manuel Rosa

 

MR calcário 88 cortesia Giefarte

Na Sociedade Nacional de Belas Artes até 21 de Julho de 2018

 

 

 

Clareira (1984-2018) marca o aguardado regresso da escultura de Manuel Rosa à visibilidade pública. A exposição, de cariz antológico, cobre todo o percurso do artista, integrando, ainda, peças novas, produzidas especificamente para a ocasião. Clareira constitui-se, assim, como o mais extenso panorama do trabalho de um dos mais singulares e originais escultores surgidos na década de 1980 em Portugal, cujo percurso foi perdendo gradualmente intensidade em benefício do importante trabalho que há décadas desenvolve enquanto editor.

 

O vocabulário de Manuel Rosa é amplo em termos formais, temáticos e materiais. É um trabalho que, entre referências à escultura primitiva e pré-clássica, à Arte Povera e à geração de escultores britânicos surgida nos anos 80 do século passado, se destacou pela forma como construiu um forte sentimento de intemporalidade, por um lado, e uma intensa ligação à terra e aos materiais do lugar, por outro. 

 

A exposição, organizada pela SNBA e a Fundação Carmona e Costa, com curadoria de Manuel Costa Cabral e Nuno Faria, estará patente no Salão da SNBA  até 21 de Julho de 2018 e poderá ser visitada de segunda a sexta-feira, das 12h00 às 19h00 e aos sábados das 14h00 às 20h00.

 

 

 

 MR s:título 1998

 

 Mais sobre Manuel Rosa aqui

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Quarta-feira, 13 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Mon. Grande Guerra-

Monumento aos mortos da Grande Guerra em Lisboa

 

 

José Cutileiro

 

 

A caminho dos anos 40

 

 

                                        (…) isto lembra cada vez mais a transição dos 20 para os 30. Ainda há pouco tal pareceria impensável mas agora esperemos que não dê nos 40, escreveu-me o Fernando que esteve em muitos lugares, conheceu muita gente e tem a cabeça mais bem organizada que conheço fora do mundo académico (dentro tampouco há muitas capazes de lhe pedir meças). Não posso estar mais de acordo com ele.

 

Cada dia acrescenta sinais percursores. Por exemplo: governo austríaco, coligando direita dirigida por primeiro-ministro de 31 anos e extrema-direita mais idosa, fechou algumas mesquitas e expulsou imanes turcos. Por ter dado muito mais guardas de campos de concentração nazis per capitado que a própria Alemanha, a Áustria lembra-me o proverbial canário da mina (posto lá porque anidrido carbónico mata primeiro um canário do que um homem, dando tempo a este de fugir se houver fuga de gás).

 

Preocupante também, de outra maneira: nos Estados Unidos, 87% dos membros do Partido Republicano – homens e mulheres – aprovam sem reservas o desempenho do Presidente Trump. Na realidade, o partido deveria ter passado a chamar-se Partido de Trump. O Partido Republicano a que estávamos habituados, o de Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt, Ronald Reagan, foi de férias não se sabe para onde nem se algum dia voltará (ou pelo menos assim disse há dias John Boehner, um dos seus mais activos dirigentes nos tempos de Obama e Bush).

 

Trump fez campanha sem disfarçar quem era: mentiu a torto e a direito, recusou-se a revelar rendimentos, foi machista, racista, brutal e ordinário, insultou aleijados e inválidos de guerra, heróis ou não, exibiu ignorância, incompetência, xenofobia e desprezo por minorias e elites, tudo espetacularmente e ganhando a pouco e pouco cada vez mais adeptos. No voto popular ficou três milhões atrás de Hillary, mas em três Estados chave onde brancos pobres tinham votado Obama em 2008 e 2012 (e, portanto, derrotado Hillary nas primárias para 2008) desta vez votaram Trump, deram-lhe a eleição e acreditam nele como num salvador. Com oportunismo e curteza de vistas tradicionais, congressistas e senadores do partido por um lado, e homens de negócios por outro, atentos à voz do povo, decidiram pôr-se também do lado de Trump. Cálculo comparável mutatis mutandis ao de alguns apoiantes táticos do começo de Hitler (como o político Von Papen, absolvido em Nuremberg ou o industrial Krupp, condenado a dez anos) convencidos de que o domesticariam.

 

A época, o lugar, as pessoas são outras mas o que mudou foi que agora vai tudo mais depressa. O comunismo que ajudou a derrotar o fascismo era remédio falso – como remédio falso fora o fascismo – e a doença está assanhada outra vez. Por toda a parte há ricos, poucos, cada vez mais ricos e pobres, muitos, cada vez mais pobres. Não dá.

 

Coitado do meu neto? Talvez mas, vendo mais longe, talvez bisneto venha a festejar vitórias da Democracia e quedas de outros Muros de Berlim.

 

 

 

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Quarta-feira, 26 de Julho de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

hortensias 2

 

 

José Cutileiro

 

 

Hortênsias dos Açores – à falta de um Bey em Tunis

 

 

 

Todas as terças feiras, há mais do que três anos, eu começo a manhã com uma aposta contra mim próprio: quero ter o bloco-notas pronto ao fim do dia para o mandar à Vera a tempo de ela poder encontrar boneco que o ilustre e poder despachar os dois juntos para o éter – éter onde depois a leitora os irá buscar, já capturados pela máquina moderna, de bolso ou de mesa, que a leitora, segundo a hora e o lugar, prefira pôr ao seu serviço. Entre bens e males de mundo, bens e males da Pátria e bens e males de mim próprio, em teoria a escolha à minha frente é vasta mas – lembrando Hyppolite, qui regardait le ciel par le trou de la serrure e, quando lhe explicaram que podia olhar para o céu de outra maneira, respondeu vous appelez ça l’azur, ce grand ciel bleu? Mon azur à moi est plus compliqué!, ou pelo menos assim me lembro do poeta belga Géo Norge – mas, dizia, o momento de começar, como o de Husain Bolt a sair dos tacos, às vezes precisa de concentração que o ar desse dia não me dá. Estava eu hoje por bandas assim quando abri e-mail da Vera a perguntar-me se eu queria que ela aprovasse um comentário. No Assunto vinha: comentário de “desconhecido” no blog.

 

Não era um desconhecido; era uma conhecida que começava: José continuas a não te lembrar de mim na nossa infância… Vou dizer à Vera para aprovar o comentário de maneira que eu não precise de o transcrever aqui na íntegra. Em resumo, a minha amiga na infância lembra-se de coisas de que eu não me lembro e eu lembro-me de coisas de que ela não se lembra. Julguei, mal, que ela tinha vindo uma tarde de visita com a mãe à quinta onde nós vivíamos na Ilha Terceira. (Nessa altura era costume senhoras, cujas vidas eram em casa, fazerem visitas umas às outras). Afinal tinham lá passado as duas cinco semanas, vindas do Faial. Dou a mão à palmatória (depois de décadas de pedagogia branda, as novas gerações usarão ainda esta figura de retórica?). E a minha amiga julga, acho que também mal, que eu a retratava em figurinhas que amassava em terra e depressa se desfaziam ou se quebravam. Por mim, julgo que haverá de ter sido o mano João. É certo que em menino – tive a sorte de ser um dos filhos dos homens que foram meninos – também pus a mão na massa. Cópia do Desterrado de Soares dos Reis em plasticina com meio palmo de altura foi fotografada por Mário Novais e elogiada por Diogo de Macedo, crítico de arte abalizado, já estávamos de volta ao Continente. Mas, quanto a feitos de escultura, fiquei-me por aí, donde infiro que a minha amiga deve ter trocado os manos na memória dela – tanto mais que conta no comentário que eu (isto é, o João) já crescido esculpi algumas Teresinhas e até lhe dei (o João deu) uma delas.

 

Não sei do retrato dela com hortênsias que havia em casa da mãe e pedi à Vera que encontrasse fotografia de muitas hortênsias açorianas para ilustração desta página de bloco. Entretanto perdi a aposta comigo próprio: já é quarta-feira.

 

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Quarta-feira, 6 de Julho de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Xarope_de_Capile.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Errata

 

 

 

Sempre tive dificuldades com a ortografia de nomes. De gentes e de sítios. Escrevi uma vez Camões com z no fim, abaixo de O homem que for sisudo/Numa tão grande questão/Terá de tomar por escudo/A justiça e a razão/Que estas armas vencem tudo, versos que escolhera para citação de abertura em apontamento douto e terso sobre política europeia  -  mas dei por isso e emendei antes de o mandar por e-mail ao seu ilustre destinatário. Outra vez, há muito mais tempo, numa série de textos publicitários curtos, encomendados por Eduardo Calvet de Magalhães, escrevi várias vezes Carcave-los, como se carcaver fosse um verbo, mas também dei por isso antes de os entregar, comentando o percalço com Calvet. (Lembrando-me dele agora, ressinto a injustiça do seu esquecimento. O mano Manuel, pedagogo, tal renome teve que lhe deram nome de rua e tudo. O nome do mano José, embaixador, é venerado no Palácio das Necessidades como uma das sumidades diplomáticas da segunda metade do nosso século XX. Do Eduardo ninguém fala, embora tenha introduzido a publicidade moderna em Lisboa e no Porto e, entre a chegada da Canada Dry e a chegada da Coca Cola, ter imaginado o refrigerante que mais conviria a Portugal - capilé gaseificado - para publicidade do qual até inventara slogan: “A bebida que lhe corre nas veias”).

 

Na semana passada tornei a disparatar: chamei a Louise de Vilmorin, Louise de Villemorin. Quando dei por isso, avisei a Vera que corrigiu logo no blog e, por conseguinte, o bloco que anda no éter (é assim que se deve dizer?) está como deveria estar mas as poucas amigas e amigos a quem todas as semanas mando directamente o pdf  – ces êtres malhereux, aimables, charmants, point hypocrites, point “moraux”, assim lhes poderia haver chamado Stendhal, ou We few, we happy few, we band of brothers proclamaria talvez, imune a correcção política, Shakespeare quando estava em ‘mode’ heroico  ficaram com o erro por corrigir. A todas e a todos, quer tenham lido esse Bloco-Notas quer não e, se o leram, quer tenham dado pelo disparate quer lhes tenha escapado, aqui e agora deixo o nome bem soletrado da amante principal de Duff Cooper em Paris (mais tarde amante de André Malraux que depois da morte dela herdou no leito sua sobrinha Sophie, também de Vilmorin, conta esta num livro).

 

Assobios para o lado, tudo quanto escrevi acima. André Gide dizia, no Paris dos anos 20 do século passado –“ les années folles” – que às vezes lhe parecia haver mais artistas do que obras de arte. Em Portugal - na Europa - de 2016, às vezes parece haver mais comentadores do que factos a comentar. Sou suspeito por ser eu próprio comentador mas ao acordar de manhã já o mundo está a ser batido em gigantesca montanha de claras em castelo, perfumadas com o aroma do dia. Omnipresente mas efémera conversa de treinadores de bancada, lembra o mano João, com Schadenfreude de quem arranca ternas figuras à brutidão dos calcários e nelas deixa os seus estados de alma per omnia secula seculoram. Amen.

 

 

 

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Sábado, 16 de Abril de 2016

dicionário pessoal: estátua

E

 

 

estátua
es.tá.tu.a
nome feminino
(do latim statua)

Escultura tridimensional representando uma figura humana, uma divindade ou um animal. As que são dedicadas a figuras humanas constituem uma parcela da população das cidades, frequentemente negligenciada e vandalizada, sem representação nem registo nos cadernos eleitorais. Apesar disso, para sempre recordadas do incidente ocorrido com Galateia – e mais tarde com Pinóquio e outras imitações mais modernas e noutros suportes materiais –, resistem bravamente, no temor da mítica humanização, e conspiram silenciosamente entre si, decididas a permanecer de pedra. É que, exibindo a arrogância hirta de o tempo se ir anulando nelas, cumprem a vingança de nós nos anularmos nele.

 

 

 

 

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Domingo, 10 de Abril de 2016

"Colectiva" de A. calpi

 

 

A. Calpi Taças_n.jpg

 Galeria espaço AZ, Lisboa

 

 

 

 

Patente até 24 de Abril em Lisboa, a exposição "Colectiva" apresenta um vasto conjunto de obras confeccionadas por A. calpi desde o ano 2000 a partir de objectos abandonados, restos de colecção e materiais descartados.

 

A colecção de colagens, esculturas e assemblages, suportada por elementos de cenografia e decoração, inclui desde pequenos objectos até imponentes e delicados  "troféus" e "monumentos", erguidos dia a dia por A. calpi ao sabor do que se lhe ofereceu ao longo dum percurso criativo singular, marcado por incursões em géneros muito diversos e tendo por pano de fundo o amor pelo teatro e a alta cultura.

 

A quantidade e a diversidade de peças expostas, a sua laboriosa complexidade, e a forma como se encontram distribuídas pelos diferentes espaços da galeria conferem a esta primeira mostra a densidade de uma retrospectiva: meditação bem humorada e melancólica sobre a passagem do tempo e a vida dos objectos, cartografia dos estados de alma do artista, labirinto poético não isento de inquietação.

 

 

 

 

 

"Colectiva" de A. calpi

Curadoria: Eva Oddo [texto da exposição aqui]

 

Na Galeria espaço AZ aqui

Travessa Fábrica dos Pentes, 10

Lisboa

Exposição patente até 24 de Abril, Quinta a Domingo das 16H00 às 20H00

 

Acção dramática “Morre Pr’aí” / “Drop Dead” / “Die Hard” de 11 a 24 de Abril

 

Para adultos. Quintas, sábados, domingos e segundas às 19H30.

Nestes dias a galeria fecha às 19h30 e não será possível aceder depois desta hora.

Número limitado de lugares, sujeito a reserva por e-mail [colectivac@gmail.com].

 

 

 

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Quarta-feira, 6 de Abril de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

couture_port-02.jpg

Monumento aos soldados portugueses mortos na 1ª Guerra Mundial

António Teixeira Lopes (1928)

La Couture, França

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

O primeiro pecado é ser pobre

 

 

 

Assim escreveu Bernard Shaw, irlandês saído da minoria protestante da ilha, no começo do século passado acrescentando que quando alguém diz “sou inculto mas é porque sou pobre” está a desculpar um mal com outro pior. É como se estivesse a dizer sou coxo mas é da sífilis. Escreveu também que o dinheiro não dava felicidade mas dava uma coisa tão parecida que só um perito era capaz de as distinguir. Amiga minha a quem anos de vida nos Estados Unidos instilaram bom senso revivificante nas sinóvias morais instaladas em menina e moça pelas Doroteias gosta de lembrar às vezes com algum schadenfreude que “mais vale ser rica e saudável do que ser pobre e doente”. Conheci no Alentejo profundo Senhora chamada Antónia, mulher de taberneiro-seareiro com pendor filosófico, tão enérgica, metódica, esperta e diligente na lida do seu negócio, trazendo a taberna num brinco enquanto o marido preguiçava, que eu achava que ela, tal como Wolfgang (Amadeus Mozart), Pablo (Ruiz Picasso) e William (Shakespeare) não deixava “criar gordura ao músculo do dia”.

 

Fora Portugal assim… Mas não é. Se o meu entusiasmo lírico era evidente, já o Senhor Teófilo, compadre dela e secretário da Junta de Freguesia, se queixava: “É boa rapariga, a Antónia – é pena ter aquela coisa do lucro.” Aquela coisa do lucro… O lucro ser coisa má é convicção que parece permear o país de alto abaixo e de lado a lado, desde a direita das sacristias tradicionais (as Misericórdias, por exemplo, limitavam rigorosamente o juro – baixo - a que emprestavam dinheiro) até à esquerda dos sindicatos modernos (“La propriété c’est le vol” foi Proudhon quem o disse primeiro mas não era por isso que Marx o detestava). “Hoje fiz manhã de rico!”, expressão que ouvi também no Alentejo a jovem funcionário do Grémio da Lavoura com quem encalhei no café central da terra, sentado diante de um café com leite e de uma torrada às onze da manhã, deixaria qualquer milionário americano, por um lado, indignado por se pensar que as manhãs dele eram assim e, por outro, relutante diante de sugestões de investimento num lugar onde se julgava que os ricos assim eram – talvez por ser o caso dos indígenas ricos. A América dos negócios ficara inquieta quando descobrira que Ronald Reagan descia ao seu escritório na Casa Branca às 9 da manhã, em vez de ser às 7 como qualquer protestante anglo-saxónico branco que se prezasse.

 

Algures entre a apresentação de Os Lusíadas a D. Sebastião e as três invasões francesas perdeu-se o fio à meada. O pai dizia que não somos descendentes dos que foram à Índia: somos descendentes dos que cá ficaram. Em tudo. Quarta-feira passada lembrei-me de Fernão Mendes Pinto, dizimando chineses a poder de Avé-Marias e pelouros; hoje lembro-me de um tenente-coronel reformado adorável, muito de casa do meu primeiro sogro, que na batalha de La Lys comandara uma bateria de morteiros. Contou-me que sempre que mandava um para o outro lado rezava para não matar ninguém.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

Churchill afp getty images.jpg

 O busto devolvido de Winston Churchill

©afp/getty

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Dia Santo na loja?

 

 

 

 

O poeta mexicano Octávio Paz escreveu, famosamente: “Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”.

 

Vivi em Maputo entre 1981 e 1983, anos de grande penúria e muita gente a passar fome. Logo a seguir à independência, quase todos os portugueses tinham tido de se ir embora ficando a economia em muito mau estado e a autoridade dos chefes tradicionais era desrespeitada pelo triunfalismo dos quadros da Frelimo. A retórica do poder, anti-ocidental, anti-americana e disparatada proclamava que, guiado pelo marxismo, o país sairia do sub-desenvolvimento em quinze anos. Nas lojas faltava quase tudo. Num grande supermercado da Baixa da cidade com todas as prateleiras vazias salvo uma no meio da sala, cheia de pensos higiénicos para senhoras, lembrei-me de Octávio Paz. “Pobre Moçambique” ocorreu-me. “Tão longe de Deus e tão longe dos Estados Unidos”.

 

Passando para a Europa agora. Acabado o perigo que a União Soviética representava para os Estados Unidos, estes distraíram-se – haverá ainda quem se lembre do “fim da História”? – e, cereja em cima do bolo, em Janeiro de 2009 tomou posse em Washington presidente filho de pai queniano preto e mãe americana branca, nascido no Havai, jurista eloquente cujo hobby era a organização comunitária, avesso a guerras (o seu predecessor metera a América em duas, estúpidas e caras), que devolveu logo ao governo de Sua Majestade Britânica busto de Churchill oferecido a Bush filho (que o pusera na Sala Oval) e, para a celebração dos vinte anos da queda do muro, em vez de ir pessoalmente a Berlim mandou vídeo com discurso seu.

 

O afastamento da Europa não foi só obra sua: houve sempre em Washington políticos isolacionistas e desconfiados dos europeus mas a mistura desses sentimentos antigos com alheamento à Europa inédito em inquilino da Casa Branca não ajuda europeus (e americanos) convictos de que primazia norte americana no mundo, em entendimento forte com a Europa, seria a melhor garantia de paz, liberdade e decência pública imaginável no nosso tempo.

 

Ainda por cima, numa espécie de acerto de contas depois da derrota na Guerra Fria, Putin parece chegar e sobrar para Obama: está a ganhar perigosamente no tabuleiro da Síria devido à inépcia do outro. (Disse-se de Franklin Roosevelt que tinha uma inteligência de segunda mas um temperamento de primeira. Com Obama é o contrário).

 

Os Estados Unidos não se darem ao respeito é muito mau para a Europa. A União Europeia e, antes, a OTAN construíram-se porque Estaline nos aterrorizava e porque os Estados Unidos queriam barbacãs. Putin incomoda os europeus mas não os aterroriza e hoje os americanos não precisam de muralhas dessas – até dos Açores se livram. Ora, sem os americanos, os europeus não se saberão defender de quem os atacar - e mesmo sem ataques não sabem pôr-se na bicha quando é preciso fazê-lo (como se está desgraçadamente a ver quanto aos refugiados). O patrão está fora mas na loja o dia não é Santo – é maldito.

 

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Giordano_Bruno_s_execution-SPL-1.jpg

 

Execução de Giordano Bruno 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Velhice do velho continente

 

 

 

Nunca houve tanta gente quanta a que há agora. Somos hoje mais do que a soma de todos os homens e mulheres que viveram e morreram no planeta, desde que o Homo sapiens apareceu até ao fim do século XIX.

 

A maioria da população da Terra é gente nova mas, quando se vai por continentes há uma excepção: a nossa. Há hoje na Europa mais gente velha do que gente nova; diz quem percebe destas coisas que a tendência vai reforçar-se no futuro previsível. A nossa gente nova sobrevive, às aranhas, desanimada, eviscerada por desemprego altíssimo (embora haja casos a contrapelo, até em Portugal: conta The Economist da semana passada, num estudo especial sobre a juventude no mundo, que cá vive e trabalha uma rapariga, génio da informática, que criou empresa inovadora sua e tem clientes por toda a parte do mundo). A Europa, cujos dirigentes políticos passaram gerações a dá-la como exemplo de maneira de viver às outras nações, esquecendo que o milagre europeu assentava, por um lado, em medo salutar de Estaline e dos seus sucessores enquanto a União Soviética durou, medo que aconselhava as pessoas a terem juizinho em casa não fosse o caldo entornar-se (quem se lembre ou conte com quem lho saiba contar, traga à mente três datas emblemáticas lusitanas do século XX - 25 de Abril, 11de Março, 25 de Novembro - e medite sobre o bom-senso) e assentava também, por outro lado, na apólice do seguro de vida garantido pela aliança militar com os Estados Unidos chamada vulgarmente NATO, contra eventuais agressores exteriores, isto é, a dita União Soviética, seguro que dissuadiu o Kremlin de tais maus pensamentos, sendo a Guerra Fria ganha sem ter de se dar um tiro.

 

Tudo isso já lá vai. Em 2008 a doença financeira trouxe para tratamento a austeridade. Emenda pior do que o soneto mas é pior ainda quando xicos-espertos, animados pelo grego da moto, bancam num jeitinho a dar que eles saberão explicar aos alemães. Dessa, nós por cá ainda não estamos livres.

 

Entretanto inépcia do poder americano e cobardia dos confortos europeus deixaram à solta a atrocidade síria cujos fugitivos estão a escavacar pretensões morais europeias, acordando o pior em muitos corações: da brutalidade da Hungria à hipocrisia da Dinamarca. Quando Angela Merkel abriu a porta aos infelizes que não se tivessem afogado pelo caminho, esqueceu-se que a alma das pessoas de bem é um horror.

 

Há pior, por toda a parte. A grande ilusão comunista foi remédio que falhou. A julgar pelos feitos do Estado Islâmico, pelos budistas a irem ao pelo aos muçulmanos na Birmânia, pelo apoio dos evangélicos americanos a Donald Trump, a fé religiosa não nos tirará de apuros.

 

Montesquieu, Voltaire, a razão? Tem-se tentado, sem ela não teríamos chegado a separar a igreja do estado, ingrediente sine qua non de decência de vida. Está a ser agora muito atacada (exactamente por causa disso). Talvez gente nova, europeia ou outra, entre robots e inteligência artificial, encontre outra vez rumo.

 

 

 

publicado por VF às 07:19
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