Quarta-feira, 24 de Julho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

LumumbaPatrice Lumumba e o Rei Balduíno, Congo 1961

 

José Cutileiro

 

Calor

 

Num país como a Bélgica, dividido entre duas nações que se detestam, Bruxelas é uma ilha de tranquilidade, variedade e decência – uma espécie de Nova Iorque dos pobres, se a leitora entende o que eu quero dizer. Talvez por haver aqui muitos estrangeiros, o ódio recíproco de valões e flamengos esbate-se num universo muito mais vasto. (Não estou a exagerar quanto a esse ódio. Muitos anos antes de eu pôr os pés na Bélgica, tive colega belga, embaixador como eu no Conselho da Europa em Estrasburgo, quase na idade da reforma, jovial e rubicundo, que um dia, a propósito de coisa nenhuma me perguntou: Tu sais ce que c’est que la pollution? E respondeu ele próprio: Un Wallon dans la Meuse ! Et tu sais ce que c’est que la solution? Tornou a responder: Tout les Wallons dans la Meuse!! O homem não era só belga: era embaixador da Bélgica, e deveria ter por obrigação defender os interesses de todos os belgas, mas tal não lhe passava pela cabeça.

 

Em tempo de paz, o ódio esbate-se melhor. Nas grandes guerras dos europeus do século XX,  essa sanha recíproca, pelo contrário, arranjou pano para mais mangas ainda. Embora, em 1914, um dos primeiros actos de guerra alemães tivesse sido a queima brutal e viciosa da biblioteca da Universidade de Louvain, barbaridade equânime pois aquela estava cheia de livros preciosos franceses e   holandeses, durante a  guerra os flamengos colaboraram muito com os alemães, enquanto os valões penderam para os franceses e os ingleses e os ajudaram. Na segunda guerra, tudo isso se repetiu, mas com mais violência e crueldade, porque, bem vistas as coisas, ser pro-nazi era feito muito diferente do que ser pro-alemão. Neste país, algumas das cicatrizes de 39-45 estão mal fechadas e deixam ainda sair pus e sangue.

 

Neste mês de Julho em Bruxelas, porém, não se dá por isso. Perfilou-se mal maior: o calor, para o qual Bruxelas está ainda mais mal apetrechada do que Lisboa está para o frio. (As duas cidades onde vivi mais convencidas de terem um bom clima, foram Lisboa e a Cidade do Cabo, tão convencidas, a despropósito, que se rapava nelas no inverno frio de rachar. Quando eu era novo, em Lisboa, não percebia porque é que os vestiários para sobretudos estavam dentro de casa. Deviam estar fora, porque era dentro de casa que se tinha mais frio.)

 

«Pior que Kinshasa» ouvi em francês belga, de mesa ao lado da minha numa esplanada. Cada um tem as suas referências africanas e as belgas são diferentes das nossas  e menos frequentes. Não houve colonialismo mais bruto e desumano e a juventude belga de hoje condena-o muitas vezes. Mas a grande maldade dos dias que vivemos é o calor: 44 graus Celsius previstos para quinta-feira. Talvez desde as matanças mandadas fazer pelo Duque d’Alba não tenha havido tanto incómodo.

 

Mas nisto de calor, a palma d’ouro vai para Federico Garcia Lorca. Em Granada, dizia ele, no verão o calor é tanto que não se passa nada. «Dos y dos nunca llegan a ser quatro. Quedan siempre y solamente dos y dos».

 

 

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Quarta-feira, 17 de Julho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Samora Machel

Samora Machel     -  foto aqui

 

 

José Cutileiro

 

Correcção política

 

1982. Recepção do Presidente da República ao corpo diplomático em Maputo. À entrada, Samora Machel saúda os embaixadores e outros chefes de missão que o vão cumprimentando. Chega a minha vez:

«Senhor Presidente… »                                                                                                         

«Olá, patrão» e, olhando pedagogicamente para a cara atónita do embaixador da Alemanha Federal, logo atrás de mim na bicha – nessa altura havia duas Alemanhas, a Federal com capital em Bona, membro da OTAN, expiando convicta a pena dos seus crimes de guerra e a Democrática, com capital em Berlim, membro do Pacto de Varsóvia, convencida de que a conversão ao comunismo a limpara dos ditos crimes (e, de caminho, dirigindo e executando toda a intelligence da República Popular de Moçambique, incluindo as escutas a nossas casas) - social-democrata dedicado à cooperação com o Terceiro Mundo, acrescentou: «Ele era o meu patrão…»

 

E Samora Machel era assim. Disse-me um dia, a propósito dos cooperantes que agora vinham da URSS, dos países de Leste, da Escandinávia, dos Estados Unidos: «Vocês tratavam-nos como pretos. Estes gajos tratam-nos como macacos». E, doutra vez, que Agostinho Neto, então presidente de Angola, não era um preto – era um branco pintado de preto, porque não sabia rir-se. Eu conhecera, anos antes e muito ao de leve, o Dr. Agostinho Neto à saída do Hospital de Santa Marta em Lisboa, onde ele trabalhava salvo erro com o Dr. Carlos George: de paletó e colete, camisa branca e gravata às listas, parecia de facto doutor tão sizudo quanto os outros. O Natas, de sua graça António Vaz Pereira, meu predecessor em Maputo, falou-me de outro momento memorável que lhe fora contado por Chissano, então ministro dos negócios estrangeiros, que a ele assistira. Samora, fardado de camuflado, como nessa altura fazia sempre em tais ocasiões, ia receber as cartas credenciais do embaixador do Lesoto. Quando ao fundo da sala a cortina foi corrida e o embaixador, gordo e baixo, de casaca preta coberta de condecorações, apareceu e começou a caminhar na direcção de Machel, este, sem qualquer expressão no rosto, sem mexer a cabeça nem olhar para ele, disse a Chissano, perfilado a seu lado: «Ai o preto…»

 

Lembrei-me hoje de Machel porque, ouvido nessa altura, já era muitas vezes uma lufada de ar fresco, e recordado agora, o é ainda mais nestes tempos de correcção política – tão excessiva que até leva a absurdos contrários como quando Antonio Tabucchi, em Princeton, perguntou a minha opinião sobre assinar papel que lhe fora passado por Susan Sontag a pedir desculpa aos pretos americanos pela escravatura que trouxera de África os seus antepassados e eu lhe respondi que talvez fizessem melhor em pedir desculpa aos pretos da África ocidental por os seus antepassados não terem sido trazidos também.

 

NB Nada a ver com a Dra Fátima Bonifácio que, embora culta e informada, esquece pelo menos o Preste João e Desmond Tutu.

 

 

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Quarta-feira, 19 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

bussola

 

José Cutileiro

 

A visão do saguão e o instinto da porta de serviço

 

Quando era diplomata, lembro-me de ter achado de vez em quando que quem mandava em nós - os nossos chefes políticos - abundava nesses atributos pelintras porventura impostos pela miséria da pátria (várias bancarrotas desde o liberalismo monárquico até à república de Abril, sempre vistas como pecaminosas por protestantes do Norte). A visão do saguão e o instinto da porta de serviço não são manhas de pobre – essas também por cá as temos – são, por assim dizer, coordenadas cartesianas do modo subalterno de viver. Vêm juntas com a desconfiança do dinheiro de muitos católicos – por exemplo, do Papa Francisco – e também de muitos comunistas, como aquele, à época secreto no Portugal de Salazar, que me louvava, contristado, comadre sua comerciante, diligente e cada vez menos pobre: «É boa rapariga a Antónia; só tem aquela coisa do lucro…».

 

O contrário absoluto desses atributos também existe e o encontrei: por exemplo, em Pedro Pires de Miranda ao dizer-me, radiante, um dia quando eu entrava no seu gabinete nas Necessidades: «A política externa é óptima: só se têm inimigos !». Mas realidade assim ou sequer tendência no mesmo sentido são raras, o que eu acho estranho porque há na língua, no português que há vários séculos e ainda hoje falamos, pelo menos um sinal forte do contrário. Enquanto em francês se diz garde de corpse em inglês bodyguard, em português diz-se guarda-costas, o que implica que só se for atacado pelas costas um português precisará de outro homem para o ajudar a defender-se. Se o ataque for de frente, bastará ele próprio. Sinal inequívoco do papel constituinte da honra na definição de qualquer português, é curioso que coabite nalguns dos nossos chefes políticos contemporâneos com preocupações maníacas de segurança pessoal. (Mas ao considerar matérias assim, correríamos o risco de resvalar do mundo simples dos valores medievais, com o Bem e o Mal cada um em seu sítio e o Marquês de Sade na Bastilha, antes de esta, assaltada por bandidos armados, ter passado a dia nacional francês e mascote de todos os revolucionários do mundo ao mundo complicado dos nossos dias, cheio de teoremas sem prova, de puzzles a que faltam peças, de chineses que acham ser ainda cedo para avaliar as consequências da Revolução Francesa e daqueles que acham que foi com essa que o caldo se entornou e evitam passar por Paris que continua a celebrá-la sem vergonha).

 

O entre-parêntesis foi longo sem nos levar longe. Que acontece aqui? Florença tem séculos de turistas, milhões desde a segunda guerra mundial, mas não perdeu um átomo de identidade – quem venha de fora que se ajeite. Aqui é confuso: admitem-se imigrantes pobres fazendo seu pé de meia de gorgetas de imigrantes ricos ou não tão pobres quanto eles, e os indígenas mudam maneiras de cozinhar ou de rasgar portas e janelas para inglês (ou francês, ou alemão) ver (e comprar e alugar). ‘Cadê Portugal ?’ perguntaria Balsonaro. É esse o perigo.

 

 

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Quarta-feira, 20 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Zona de treino militar em Grafenwoehr, Alemanha. 

Christof Stache/AFP via Getty Images 

 

 

José Cutileiro

 

 

A ver se o homem entende

 

 

 

Pedro Pires de Miranda, o ministro dos negócios estrangeiros português mais inteligente com quem trabalhei (ou, pelo menos, aquele com quem aprendi mais - um dia, era eu director político do MNE, informei-o: ‘Senhor Ministro, eu com três pessoas não consigo tratar disso’; ‘Já experimentou com duas?’ veio a resposta), percebeu o que escapara aos outros e a ele dava gosto: ‘A política externa é óptima. Só se têm inimigos!’

 

Não só os portugueses são afectados por essa cegueira idílica. Os europeus – primeiro 6; depois 9; depois 10; depois 12; depois 15; depois 24 (aí o caldo começou a entornar-se); hoje 28 e amanhã 27 – estiveram esquecidos disso desde a invenção das Comunidades Europeias até à eleição de Donald Trump e mesmo, depois desse feito americano (Hillary Clinton ganhou por três milhões o voto popular) julgaram que o exercício do poder iria tornar o homem muito parecido com os seus predecessores. Grande e breve engano - mais duro ainda, a seguir a 8 anos de Barack Obama, o menino querido da maioria dos eleitores europeus dessa época.

 

Donald Trump é deliberadamente ordinário e malcriado; é um mentiroso sistemático e o que se sabe de muitos dos seus sentimentos, gostos e vontades deveria exclui-lo do convívio de gente decente, tê-lo impedido de ser escolhido para inquilino da Casa Branca. Dito isto, é o Presidente dos Estados Unidos da América e tem razões de queixa legítimas dos europeus no que diz respeito a despesas de defesa. Terá outras ainda no comércio internacional, mas a sua maneira de tentar corrigir desequilíbrios contra si com a imposição de tarifas irá desencadear guerras comerciais e ajudar a destruir a ordem internacional baseada em regras aceites por todos em que o mundo vive pacificamente há mais de meio século e de que o principal beneficiário são os Estados Unidos.

 

Na defesa é diferente. O Tratado do Atlântico Norte de 1949 – que levou a organização a que chamamos OTAN ou, à inglesa, NATO – de que Portugal foi membro fundador mesmo sem ser uma democracia tinha em vista defenderem-nos do perigo soviético. O arsenal nuclear americano (existem também o britânico e o francês mas, como Mitterrand disse uma vez a propósito do segundo: ‘Soyons sérieux, messieurs…’) e as forças convencionais americanas eram de longe as maiores da Aliança mas, se houvesse invasão soviética, esta seria dos países europeus. Depois da Guerra Fria, sem risco dessa invasão, a NATO continua essencial para nossa defesa mas acordou-se em partilhar o fardo de outra maneira. Cada Aliado gastaria pelo menos 2% do seu PIB em defesa. Apesar de décadas  de insistência de Washington, só o Reino Unido o faz.

 

Assim, quando Trump tweeta que a Alemanha deixou entrar tantos emigrantes que o crime aumentou (o que é mentira) a Alemanha deveria chamar o embaixador em Washington para consultas. Mas deveria também ser capaz de informar o embaixador americano em Berlim de que a despesa alemã de defesa subira acima de 2% do PIB.  

 

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Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 Nuer

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Variações sobre o Bey de Tunis

 

 

 

30 de Janeiro

 

É terça-feira, já passou o meio do dia e estou a escrever em Notes taken at “Oitavos”, trazido do hotel para o avião que me leva de volta à chuva e ao escuro de Bruxelas, depois de três dias de sol e de luz no Guincho, após ter feito esta manhã keynote speech no Instituto de Defesa Nacional, abrindo colóquio sobre as relações transatlânticas de segurança, que continuava depois da minha saída, com Ricardo Alexandre a moderar painel dedicado às relações políticas entre europeus e norte americanos. Saí antes do fim, com bastante pena minha porque a conversa entre Carlos Gaspar, Vasco Rato e um rapaz americano da Brookings Institution era interessante e a regência (como de um maestro) de Ricardo dava gosto: estimulava os oradores a levarem água aos seus moinhos, o que eles faziam com eloquência, mas de maneira que tudo passasse sempre por fim pelo moinho do moderador. Trabalho de artista, sempre bom de ver. Peter Carrington, quando era Secretário-Geral da OTAN (vulgo NATO), fazia-o de tal maneira bem que um dia eu disse ao António Vaz Pereira, nosso embaixador lá, que, em vez de receber ordenado, deveria ser ele a pagar pelo privilégio de assistir a tais espectáculos. Pese a Carrington (e a Ricardo) porém, o mais extraordinário desempenho a que tive a sorte de assistir foi de Giulio Andreotti quando era ministro dos negócios estrangeiros de Itália numa reunião do Conselho da Europa em Estrasburgo, falando em italiano e chegando por isso a quase todos nós à roda da mesa através de intérpretes (no meu caso, para inglês; eu fora lá com Eduardo Azevedo Soares, que era secretário de estado). Andreotti era de serenidade equânime; nunca levantava a voz; fazia com os dedos pequenos gestos de chefe de orquestra e despachou agenda longa em tempo curto, a contento de todos. Quando ao fim da tarde deixamos Estrasburgo o pequeno avião dele estava parado perto do nosso. Italianos da diáspora pertencentes a sua clientela política tinham vindo saudá-lo e vi um deles cair sobre um joelho no tarmac e beijar-lhe a mão.

 

Devo mandar o texto do Bloco-Notas à Vera até ao fim do dia de terça-feira para ela ter tempo de encontrar ilustração que nos agrade aos dois e pôr tudo no ar (no éter? Na web?) quarta-feira. Até hoje nunca falhei mas tenho sempre medo. Telefonei ontem, segunda–feira, à Vera para lhe dizer que desta vez só podia garantir o texto no computador dela quarta-feira à hora de almoço. Ela tem sempre imensa paciência: riu-se e disse que não tinha importância.

 

31 de Janeiro

 

Já é quase hora de almoço em Lisboa, o texto ainda não está pronto e o céu aqui em vez de ser azul como no Guincho é em fifty shades of grey. Os Nuer do Sudão do Sul que vivem da pastorícia têm 50 palavras para dizer boi, conforme as características do bicho. Porque é que os belgas não fazem o mesmo com cinzento? De maneira a percebermos logo se vai chover muito, pouco ou nada? Ou se vai nevar? Ou daqui a quantos meses fará sol?

 

 

 

 

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Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

D Pedro

 Infante D. Pedro

 

 

 

José Cutileiro

 

 

De burro para cavalo?

 

 

 

Em tempo normal (se tal se puder ainda dizer nos nossos dias, vendo os filhos desobedecerem aos pais, as mulheres aos maridos, os novos aos velhos, os pobres aos ricos, os pretos aos brancos, os malcriados aos bem educados – tudo coisas que não eram costume quando eu era pequeno neste país que tão generosamente viria a acolher no seu seio o meu chorado amigo Freddy; as poucas que aconteciam, aconteciam à socapa - e quase toda a gente a achar bem que assim seja ou então a achar que não tem nada a ver com isso e a querer que a deixem em paz, o que é diferente - contrário mesmo - a querer que haja paz) o lema que não existia, nem existe, da diplomacia portuguesa que eu conheci por dentro, a do Estado depois do 25 de Abril, isto é, depois do fim da Ilusão Colonial e antes do Tratado de Lisboa, isto é, do renascer aqui e além da Ilusão Federal - mas deixando pela primeira vez porta de saída que Londres, sem gosto pelo contorcionismo comunitário, está agora desajeitadamente a abrir - deveria ter sido as palavras de despedida ao fim do dia de trabalho, que ouvi uma tarde e nunca mais esqueci, a mulher-a-dias da minha Mãe: “Adeus, parabéns, obrigado e desculpe”. A visão do saguão e o instinto da porta de serviço, por um lado e, por outro lado, o reflexo contrário ao do Infante Dom Pedro a finar-se em Alfarrobeira: “Fartai, vilanagem!” (Avec ses quatre dromadaires/ Don Pedro d’Alfarrobeira/Couru le monde et l’admira./Il a fait ce que je voudrais faire/Si j’avais quatre dromadaires escreveu Wilhelm Kostrovicki, conhecido por Guillaume Apollinaire, que sobreviveu á Grande Guerra – Ah que la guerre est jolie/Avec ses canons et ses cris! – mas foi levado logo a seguir pela Gripe Espanhola, aos 39 anos. Como é que o polaco terá sabido do português?) Mas, desde que nos sentamos à mesa dos crescidos, tem sido um vê se te avias. Qualquer dia há de estranhar-se o Papa não ser português.

 

Releio as linhas acima e desagrada-me a propensão para parágrafos quase tão compridos quanto os do divino asmático mas enquanto este enchia os seus de palavras tão bem escolhidas que a gente chegava ao fim de cada uma dessas ladainhas com a alma consolada e com água na boca para a ladainha seguinte, eu só recebo de volta irritações das leitoras, apostadas às vezes em descobrir erros de concordância, ou predicados sem complemento directo, ou indicativos onde deveriam perfilar-se conjuntivos – que a portuguesa poderá ter muitos defeitos e insuficiências mas, tal como o português, tem um mérito certo: deitar ao desprezo quem julgue esteja a armar ao pingarelho, ou esteja a armar em carapau de corrida, expressões que o Senhor J. Fonseca me disse um dia serem quase mas não serem bem a mesma coisa, sem conseguir explicar-me a diferença de maneira que eu a entendesse. No Negage a gente topava, acrescentou.

 

Infelizmente palpita-me que a minha mania de escrever parágrafos muito compridos seja vista como uma dessas armações por muito boa leitora.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

António Guterres

António Guterres, secretário geral da ONU 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O Circo da ONU

 

 

 

Tenho fraca opinião das Nações Unidas embora lhe reconheça algumas vantagens, que pude medir pela primeira vez no Cairo, onde o Superconstellation fizera escala ao começo da noite, voando de Genebra para Bombaim em Janeiro de 1952. A altura era especial: o General Naguib tinha tomado o poder, levando o país a caminho do Terceiro Mundo (depois de correr com ele, o seu sucessor, Nasser, juntamente com o Pandita Nehru e o jugoslavo Tito – que viriam os três a morrer fiéis ao posto, de morte natural e cercados de acólitos – iriam criar o Movimento dos Não-Alinhados) forçando o Rei Faruk, deposto e exilado, a contribuir pessoalmente para a plausibilidade de vaticínio seu: daí a cinquenta anos só haveria cinco reis no mundo, o Rei de Espadas, o Rei de Paus, o Rei de Ouros, o Rei de Copas e o Rei de Inglaterra. (Voltei a passar no Cairo, daí a pouco mais de seis meses, tinha Naguib sido deposto. Mas a memória mais exótica dessa escala foi outra: ao pequeno-almoço no restaurante do terminal, servido por criados de fez encarnado, se se pedia bacon & eggs vinham sempre três ovos com o bacon. Nunca me acontecera antes nem aconteceu depois, em nenhum lugar do mundo).

 

Nós viajávamos com laissez passer das Nações Unidas porque o Pai trabalhava para a Organização Mundial da Saúde. No mesmo avião vinham duas enfermeiras inglesas de meia-idade, também funcionárias da OMS, que insistiram em se fazer identificar pelos seus passaportes britânicos, válidos e legais no Egipto – e desde há mais de um século impositores de ordem, respeito e eventual subserviência desde o Suez até Pequim. Mas as autoridades fronteiriças do Egipto agora ao serviço de Naguib – nem imagino como terá sido quando passaram a servir Nasser – fingiam não perceber a insistência das Misses e, sabendo que estas viajavam pela OMS, exigiam os laissez-passer da ONU, para eles organização acima de todas as outras no mundo, subalternizando assim os British Passports emitidos por agentes de Sua Majestade Britânica - propósito evidente e inflexível da sua diligência. As enfermeiras a certa altura perceberam que não as deixariam seguir para a Índia, submeteram a razão ao bom senso, e seguiram para Bombaim indignadas.

 

Passados 34 anos, na minha primeira ida à ONU em Nova Iorque, pego à chegada no New York Times, vejo na primeira página artigo sobre a Assembleia Geral que começava e, no segundo parágrafo, leio “Diz António Monteiro, de Portugal: é psicoterapia de grupo para o mundo”. Ele não era ainda embaixador mas diplomata na nossa Missão – e nunca esqueci essa maneira de explicar a utilidade do ritual. Outro momento a não esquecer, 8 anos mais tarde. Nos 50 anos da Organização, o Fernando Andresen, embaixador em Washington e eu, secretário-geral da UEO, entrávamos às 9 da manhã no grande anfiteatro cheio de convidados. “Tu põe-te a pau” disse ele sem olhar para mim. “A maioria desta malta é estrangeira”.

 

Quem não seja burro de todo também aprende com os mais novos.

 

 

 

 

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Domingo, 20 de Agosto de 2017

Espólio de Vasco Luís Futscher Pereira (1922-1984)

 

Disponível para consulta no  Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

 

 Daniel Rocha

 

Hoje, como no início da carreira de Futscher Pereira, os telegramas rosa são os recebidos e os telegramas verdes são os expedidos. O espólio ocupa 14 prateleiras do Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Foto Daniel Rocha

 

  

Estudar este espólio, disse o ministro [dos Negócios Estrangeiros] que é ele próprio um académico, vai permitir ver “como se exerce a profissão de diplomata, como se cresce e se amadurece passando pelos postos C., e como se faz política externa em Portugal — que tem sido sempre um pouco singular”. Foi justamente isso que a filha Vera mais gostou de descobrir ao mergulhar no universo profissional do pai: “Ver o que realmente faz um diplomata. Tem-se aquela ideia do croquete. Como a história da menina a quem perguntam: ‘O que faz o teu pai?’ e ela responde: ‘É diplomata e faz discursos em francês.’ Aqui percebe-se que ser diplomata é sobretudo a descrição e a análise do que se está a passar nos países. Foi ver os bastidores de uma profissão que é tão secreta.”

 

Em momentos separados e a milhares de quilómetros de distância, ela em Lisboa, ele em Dublin, os dois irmãos usam exactamente a mesma expressão. “Estava sentado em cima dos papéis quando já há historiadores interessados em ver”, conta Bernardo. “Até que percebemos que estávamos aqui sentados em cima dos papéis e que assim os papéis morrem”, diz Vera. O filho-embaixador tem uma razão extra: “Sendo eu próprio investigador nas horas vagas [é autor de A Diplomacia de Salazar (1932-1949), de 2012, e Crepúsculo do Colonialismo – A Diplomacia do Estado Novo (1949-1961), que acaba de ser lançado], não me sentiria bem perante os meus colegas académicos dispondo daquele espólio e não o pondo à disposição deles também. Se o meu pai guardou isto tudo, é porque achava que os documentos tinham valor histórico. Não era apenas para nós podermos saber o que ele tinha feito como diplomata.”

 

Leia na íntegra o artigo de Bárbara Reis no jornal Público 

 

 

 

 

 

Vasco e Malu com Nancy e Ronald Reagan

Vasco e Malu Futscher Pereira com Nancy e Ronald Reagan em Washington

 

 

 

* * *

José de Freitas Ferraz* :

 

Ele, na realidade, foi o diplomata mais completo que eu conheci. Na medida em que era um homem extremamente inteligente e culto, tinha uma enorme capacidade de análise, escrevia muitíssimo bem, ainda hoje se quiserem podem ver, e para além disso era extremamente gregário, era extremamente afável, era extremamente simpático, ele tinha uma necessidade terrível de ter gente à volta e tinha também a seu favor o facto de, na realidade, a embaixada em Washington para ele ser o terceiro posto que ele fazia nos EUA. [...] O que aconteceu nesse período, nos períodos em que ele tinha estado nos outros postos ia coleccionando amigos e quando chegou a Washington já tinha uma rede importante e uma rede que desenvolveu.

 

Ele tinha uma, algo que eu aprendi na altura e os colegas também, que era : ele não tolerava "nós". Ele que era extremamente simpático e afável, não tolerava que num jantar oficial, numa recepção, nós, nos apanhasse a falar uns com os outros. Porque ele explicava que vocês estão aqui para trabalhar, portanto fazem o obséquio de falar com os convidados.

 

E ele, por seu lado, se eu estivesse numa ponta da sala, era um prazer ver o Vasco Futscher Pereira e a Malu a trabalhar, como os americanos diziam, “working the crowd”, praticamente cobrindo digamos 60 ou 100 convidados que eles lá tinham.

 

 

*

Bernardo Futscher Pereira:

 

Sempre guardou cuidadosamente e transportou consigo pelo mundo a sua correspondência com o ministério, as inúmeras cartas que trocou com colegas e amigos, os recortes de imprensa em que se apoiaram os seus relatórios. É todo este manancial de documentos, com a única exceção dos que são de natureza estritamente pessoal e familiar, que hoje simbolicamente entregamos à guarda do Arquivo Histórico-Diplomático.

 

E não haverá certamente melhor sitio para o depositar do que no Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Faço-o com particular gosto por ser eu próprio um utilizador assíduo do arquivo e conhecer o seu valor ímpar para o estudo da história diplomática de Portugal – ou seja para a história de Portugal.

 

Sempre procurou transmitir a importância de fazer as coisas bem feitas. Punha um grande apuro em tudo o que fazia, e em particular naquilo que escrevia, num estilo que se esforçava para tornar límpido e elegante. Não era pessoa timorata, que se acanhasse perante os seus superiores ou que deixasse de exprimir, de forma delicada mas firme, os seus pontos de vista. Estava à vontade com toda a gente.

 

Teve uma vida muito atribulada, mas nunca se deixou abater pelas preocupações. Pelo contrário, procurou sempre gozá-la tanto quanto podia. Tinha tempo para tudo. Aliás, costumava dizer: “não ando com pressa na vida”. 

 

Discípulo de António Sérgio e Agostinho da Silva, creio que se via como um humanista. O amor pela cultura manifestava-se numa devoção pelos livros, não como objetos – não era bibliófilo nesse sentido embora adorasse todas as artes decorativas, incluindo a encadernação – mas como expressão do que de mais profundo e elevado a razão e a arte podem criar.

 

 

 

*

 

*Presidente do Instituto Diplomático

 

 

Agradecimentos: Margarida Lages, José de Freitas Ferraz, Bárbara Reis, jornal Público 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Junho de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

saint-John Perse

 Saint-John Perse

José Cutileiro

 

 

  

Ir ver o Sr. Terry

 

 

 

Há cinco anos, depois de eu me esquecer às vezes de coisas de que costumava lembrar-me sempre, minha mulher sugeriu que eu deveria ir consultar um técnico, especialista que me examinasse e pudesse verificar se eu mostrava sintomas de Alzheimer.

 

“Pagar e morrer, o mais tarde que possa ser!” afirmava, didático, milionário meu conhecido que, a meio da assinatura de um cheque, depois da caneta ter já traçado parte do gatafunho, parava uma fracção de segundo, como se a mão lhe doesse, antes de rematar diminuição irrevogável de liquidez. Por razões longas de enumerar, assisti há muitos anos a sessão em que guarda-livros lhe ia pondo cheques em frente para assinar, cada um deles sobre páginas que justificavam o dispêndio, e foi preciso sempre vencer a hesitação final.

 

Eu sou assim com médicos, sobretudo médicos que não conheça, e vou adiando o mais que possa. Depois habituo-me, mas mesmo os raros por quem ganho devoção – sem ela, consultas não servem de nada – visito espaçadamente. (Em parte, porque tenho a impressão de estar a tirar-lhes tempo com o meu moi haïssable).

 

Procurei ganhar tempo, como funcionário público sorna, mas sem perder de vista que o propósito da busca era encontrar o melhor especialista, cinco léguas em redondo. O meu endireita – na tabuleta diz osteopata e tem, a seguir ao nome, iniciais equivalentes, na arte dele, a óptima região de origem controlada – formou-se e trabalhou anos num centro reputado de neurologia, de maneira que comecei por lhe perguntar a ele. Comecei e acabei. Deu-me o nome e as coordenadas do especialista que deveria ir consultar.

 

Não era médico, tendo só direito a Senhor, e tinha agenda carregada mas, devido, segundo a secretária, a desistência, recebeu-me mês e meio depois do meu primeiro telefonema. O exame passava-se em duas sessões de duas horas, em dias diferentes. Acabado o primeiro dia perguntei-lhe o que achava. “Digo-lhe no fim” respondeu.

 

“O Senhor Terry é casado?”

“Sou, porquê?”

“O que é que eu digo à minha mulher?”

“Que não esteja preocupada” respondeu o especialista e sorriu, cúmplice.

 

Estou agora noutra de esquecimentos e a minha mulher acha que devo ir ver o Sr. Terry outra vez. Eu acho que não vale a pena porque continuo a saber de cor grosas de versos. “Tudo coisas que aprendeu quando era novo”. É verdade, mas fixei outro dia um poema de Saint-John Perse. Aqui vai, também para a leitora.

 

 

J'honore les vivants, j'ai face parmi vous.

Et l'un parle à ma droite dans le bruit de son âme

et l'autre monte les vaisseaux,

le Cavalier s'appuie de sa lance pour boire.

(Tirez à l'ombre, sur son seuil, la chaise peinte du vieillard.)

 

 

J’honore les vivants, j’ai grâce parmis vous.                                                                        

Dites aux femmes qu’elles nourrissent                                                                                      

qu’elles nourrissent sur la terre ce filet mince de fumée…                                                      

Et l’homme marche dans les songes et s’achemine vers la mer                                            

et la fumée s’élève au bout des promontoires.

 

 

J’honore les vivants, j’ai hâte parmis vous.                                                                        

Chiens ho! mes chiens, nous vous sifflons…                                                                            

Et la maison chargée d’honneurs, et l’année jaune entre les feuilles                                  

sont peu de chose au coeur de l’homme s’il y songe:                                                      

tous les chemins du monde nous mangent dans la main.

 

 

 

“My name is Zheimer, Al Zheimer” diz sempre o mano João quando se fala destas coisas. 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

 

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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

o-povo-unido

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Lembranças do Verão Quente

 

 

 

 

Quando eu era pequeno e o Avô dizia ter estado com “um rapaz do meu tempo” eu achava que o Avô era parvo porque era velhíssimo, o seu contemporâneo sê-lo-ia também e rapazes começávamos a ser nós, os do meu tempo, de calças à golf, já com olho nas calças compridas. (O Avô veio a morrer bem mais novo do que eu sou hoje mas essa é outra história).

 

Na Escola de Belas Artes de Lisboa, vindo da Brasileira e metendo pela Rua Ivens, no Largo de S. Francisco, sendo lá porteiro o Sr. Cruz, com farda de contínuo e boné de pala azuis escuros, fazendo do vestíbulo rito de passagem entre os perigos do mundo exterior e as bem-aventuranças do seu território (“As Belas Artes é aqui?” perguntavam-lhe às vezes. “Bem”, respondia, “aqui há duas repartições. Há a Escola de Belas Artes e há a Academia de Belas Artes. Se vem para a Escola de Belas Artes é aqui. Se vem para a Academia de Belas Artes também é aqui”, seguindo-se conversa longa até indicação precisa da porta seguinte a que a visita devesse bater), as coisas refinaram. Havia movimentos artísticos e pulsões políticas. O Vasco Croft um dia disse-me, à saída de exposição de alguém do nosso tempo, meio trocista: “Brinca, brincando o tempo passa - e qualquer dia somos uma geração”.

 

Lembrei-me dessa sentença, devido às lufadas de 25 de Abril, às vezes polémicas, trazidas pelo desaparecimento de Mário Soares no dia 7 deste mês. (Disparate repete-se: Soares seria o responsável de “descolonização vergonhosa”. Ora a descolonização foi como foi porque a colonização, sobretudo nas últimas décadas, tinha sido como tinha sido – e porque a partir de 26 de Abril a tropa portuguesa se recusou a dar mais um tiro ou sequer a fingir que o poderia dar). Mas há já várias gerações para quem o 25 de Abril foi sempre no passado; o que li e ouvi neste par de semanas é diferente para os que se lembram como eu e para quem tenha uma vaga ideia dos pais lhe terem contado. E ocorrem-me coisas de que já nem me lembrava e apetece-me registá-las para que não se percam de vez. No verão de 1975, o chamado “verão quente” ardiam de vez em quando sedes do PC no Norte de Portugal, em Londres à hora do almoço o telefone começava a tocar na central e depois de posto em posto até alguém atender e nesse dia chegou ao meu gabinete. Eu era Conselheiro Cultural. Estava um sol luminoso, mais lisboeta do que londrino. Senhora de boa sociedade disse-me que tinha marcado há meses férias em Portugal mas estava assustada com o que via na televisão e nos jornais e perguntava à embaixada se era seguro ir. Respondi-lhe que era com certeza seguro. Insistiu, duvidosa. Repeti com mais pormenor e mais convicção ainda o meu louvor da hospitalidade portuguesa. Tornou a insistir. Perdi a paciência.

 

“Are you a Communist?”

 

“I beg your pardon!” abespinhou-se a minha interlocutora.

 

“If you are not a Communist you have nothing to worry about down there.”

 

“O” - e depois de um silêncio, secamente: “Thank you very much.” E desligou.

 

 

 

 

 

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