Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 Nuer

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Variações sobre o Bey de Tunis

 

 

 

30 de Janeiro

 

É terça-feira, já passou o meio do dia e estou a escrever em Notes taken at “Oitavos”, trazido do hotel para o avião que me leva de volta à chuva e ao escuro de Bruxelas, depois de três dias de sol e de luz no Guincho, após ter feito esta manhã keynote speech no Instituto de Defesa Nacional, abrindo colóquio sobre as relações transatlânticas de segurança, que continuava depois da minha saída, com Ricardo Alexandre a moderar painel dedicado às relações políticas entre europeus e norte americanos. Saí antes do fim, com bastante pena minha porque a conversa entre Carlos Gaspar, Vasco Rato e um rapaz americano da Brookings Institution era interessante e a regência (como de um maestro) de Ricardo dava gosto: estimulava os oradores a levarem água aos seus moinhos, o que eles faziam com eloquência, mas de maneira que tudo passasse sempre por fim pelo moinho do moderador. Trabalho de artista, sempre bom de ver. Peter Carrington, quando era Secretário-Geral da OTAN (vulgo NATO), fazia-o de tal maneira bem que um dia eu disse ao António Vaz Pereira, nosso embaixador lá, que, em vez de receber ordenado, deveria ser ele a pagar pelo privilégio de assistir a tais espectáculos. Pese a Carrington (e a Ricardo) porém, o mais extraordinário desempenho a que tive a sorte de assistir foi de Giulio Andreotti quando era ministro dos negócios estrangeiros de Itália numa reunião do Conselho da Europa em Estrasburgo, falando em italiano e chegando por isso a quase todos nós à roda da mesa através de intérpretes (no meu caso, para inglês; eu fora lá com Eduardo Azevedo Soares, que era secretário de estado). Andreotti era de serenidade equânime; nunca levantava a voz; fazia com os dedos pequenos gestos de chefe de orquestra e despachou agenda longa em tempo curto, a contento de todos. Quando ao fim da tarde deixamos Estrasburgo o pequeno avião dele estava parado perto do nosso. Italianos da diáspora pertencentes a sua clientela política tinham vindo saudá-lo e vi um deles cair sobre um joelho no tarmac e beijar-lhe a mão.

 

Devo mandar o texto do Bloco-Notas à Vera até ao fim do dia de terça-feira para ela ter tempo de encontrar ilustração que nos agrade aos dois e pôr tudo no ar (no éter? Na web?) quarta-feira. Até hoje nunca falhei mas tenho sempre medo. Telefonei ontem, segunda–feira, à Vera para lhe dizer que desta vez só podia garantir o texto no computador dela quarta-feira à hora de almoço. Ela tem sempre imensa paciência: riu-se e disse que não tinha importância.

 

31 de Janeiro

 

Já é quase hora de almoço em Lisboa, o texto ainda não está pronto e o céu aqui em vez de ser azul como no Guincho é em fifty shades of grey. Os Nuer do Sudão do Sul que vivem da pastorícia têm 50 palavras para dizer boi, conforme as características do bicho. Porque é que os belgas não fazem o mesmo com cinzento? De maneira a percebermos logo se vai chover muito, pouco ou nada? Ou se vai nevar? Ou daqui a quantos meses fará sol?

 

 

 

 

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Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

D Pedro

 Infante D. Pedro

 

 

 

José Cutileiro

 

 

De burro para cavalo?

 

 

 

Em tempo normal (se tal se puder ainda dizer nos nossos dias, vendo os filhos desobedecerem aos pais, as mulheres aos maridos, os novos aos velhos, os pobres aos ricos, os pretos aos brancos, os malcriados aos bem educados – tudo coisas que não eram costume quando eu era pequeno neste país que tão generosamente viria a acolher no seu seio o meu chorado amigo Freddy; as poucas que aconteciam, aconteciam à socapa - e quase toda a gente a achar bem que assim seja ou então a achar que não tem nada a ver com isso e a querer que a deixem em paz, o que é diferente - contrário mesmo - a querer que haja paz) o lema que não existia, nem existe, da diplomacia portuguesa que eu conheci por dentro, a do Estado depois do 25 de Abril, isto é, depois do fim da Ilusão Colonial e antes do Tratado de Lisboa, isto é, do renascer aqui e além da Ilusão Federal - mas deixando pela primeira vez porta de saída que Londres, sem gosto pelo contorcionismo comunitário, está agora desajeitadamente a abrir - deveria ter sido as palavras de despedida ao fim do dia de trabalho, que ouvi uma tarde e nunca mais esqueci, a mulher-a-dias da minha Mãe: “Adeus, parabéns, obrigado e desculpe”. A visão do saguão e o instinto da porta de serviço, por um lado e, por outro lado, o reflexo contrário ao do Infante Dom Pedro a finar-se em Alfarrobeira: “Fartai, vilanagem!” (Avec ses quatre dromadaires/ Don Pedro d’Alfarrobeira/Couru le monde et l’admira./Il a fait ce que je voudrais faire/Si j’avais quatre dromadaires escreveu Wilhelm Kostrovicki, conhecido por Guillaume Apollinaire, que sobreviveu á Grande Guerra – Ah que la guerre est jolie/Avec ses canons et ses cris! – mas foi levado logo a seguir pela Gripe Espanhola, aos 39 anos. Como é que o polaco terá sabido do português?) Mas, desde que nos sentamos à mesa dos crescidos, tem sido um vê se te avias. Qualquer dia há de estranhar-se o Papa não ser português.

 

Releio as linhas acima e desagrada-me a propensão para parágrafos quase tão compridos quanto os do divino asmático mas enquanto este enchia os seus de palavras tão bem escolhidas que a gente chegava ao fim de cada uma dessas ladainhas com a alma consolada e com água na boca para a ladainha seguinte, eu só recebo de volta irritações das leitoras, apostadas às vezes em descobrir erros de concordância, ou predicados sem complemento directo, ou indicativos onde deveriam perfilar-se conjuntivos – que a portuguesa poderá ter muitos defeitos e insuficiências mas, tal como o português, tem um mérito certo: deitar ao desprezo quem julgue esteja a armar ao pingarelho, ou esteja a armar em carapau de corrida, expressões que o Senhor J. Fonseca me disse um dia serem quase mas não serem bem a mesma coisa, sem conseguir explicar-me a diferença de maneira que eu a entendesse. No Negage a gente topava, acrescentou.

 

Infelizmente palpita-me que a minha mania de escrever parágrafos muito compridos seja vista como uma dessas armações por muito boa leitora.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

António Guterres

António Guterres, secretário geral da ONU 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O Circo da ONU

 

 

 

Tenho fraca opinião das Nações Unidas embora lhe reconheça algumas vantagens, que pude medir pela primeira vez no Cairo, onde o Superconstellation fizera escala ao começo da noite, voando de Genebra para Bombaim em Janeiro de 1952. A altura era especial: o General Naguib tinha tomado o poder, levando o país a caminho do Terceiro Mundo (depois de correr com ele, o seu sucessor, Nasser, juntamente com o Pandita Nehru e o jugoslavo Tito – que viriam os três a morrer fiéis ao posto, de morte natural e cercados de acólitos – iriam criar o Movimento dos Não-Alinhados) forçando o Rei Faruk, deposto e exilado, a contribuir pessoalmente para a plausibilidade de vaticínio seu: daí a cinquenta anos só haveria cinco reis no mundo, o Rei de Espadas, o Rei de Paus, o Rei de Ouros, o Rei de Copas e o Rei de Inglaterra. (Voltei a passar no Cairo, daí a pouco mais de seis meses, tinha Naguib sido deposto. Mas a memória mais exótica dessa escala foi outra: ao pequeno-almoço no restaurante do terminal, servido por criados de fez encarnado, se se pedia bacon & eggs vinham sempre três ovos com o bacon. Nunca me acontecera antes nem aconteceu depois, em nenhum lugar do mundo).

 

Nós viajávamos com laissez passer das Nações Unidas porque o Pai trabalhava para a Organização Mundial da Saúde. No mesmo avião vinham duas enfermeiras inglesas de meia-idade, também funcionárias da OMS, que insistiram em se fazer identificar pelos seus passaportes britânicos, válidos e legais no Egipto – e desde há mais de um século impositores de ordem, respeito e eventual subserviência desde o Suez até Pequim. Mas as autoridades fronteiriças do Egipto agora ao serviço de Naguib – nem imagino como terá sido quando passaram a servir Nasser – fingiam não perceber a insistência das Misses e, sabendo que estas viajavam pela OMS, exigiam os laissez-passer da ONU, para eles organização acima de todas as outras no mundo, subalternizando assim os British Passports emitidos por agentes de Sua Majestade Britânica - propósito evidente e inflexível da sua diligência. As enfermeiras a certa altura perceberam que não as deixariam seguir para a Índia, submeteram a razão ao bom senso, e seguiram para Bombaim indignadas.

 

Passados 34 anos, na minha primeira ida à ONU em Nova Iorque, pego à chegada no New York Times, vejo na primeira página artigo sobre a Assembleia Geral que começava e, no segundo parágrafo, leio “Diz António Monteiro, de Portugal: é psicoterapia de grupo para o mundo”. Ele não era ainda embaixador mas diplomata na nossa Missão – e nunca esqueci essa maneira de explicar a utilidade do ritual. Outro momento a não esquecer, 8 anos mais tarde. Nos 50 anos da Organização, o Fernando Andresen, embaixador em Washington e eu, secretário-geral da UEO, entrávamos às 9 da manhã no grande anfiteatro cheio de convidados. “Tu põe-te a pau” disse ele sem olhar para mim. “A maioria desta malta é estrangeira”.

 

Quem não seja burro de todo também aprende com os mais novos.

 

 

 

 

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Domingo, 20 de Agosto de 2017

Espólio de Vasco Luís Futscher Pereira (1922-1984)

 

Disponível para consulta no  Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

 

 Daniel Rocha

 

Hoje, como no início da carreira de Futscher Pereira, os telegramas rosa são os recebidos e os telegramas verdes são os expedidos. O espólio ocupa 14 prateleiras do Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Foto Daniel Rocha

 

  

Estudar este espólio, disse o ministro [dos Negócios Estrangeiros] que é ele próprio um académico, vai permitir ver “como se exerce a profissão de diplomata, como se cresce e se amadurece passando pelos postos C., e como se faz política externa em Portugal — que tem sido sempre um pouco singular”. Foi justamente isso que a filha Vera mais gostou de descobrir ao mergulhar no universo profissional do pai: “Ver o que realmente faz um diplomata. Tem-se aquela ideia do croquete. Como a história da menina a quem perguntam: ‘O que faz o teu pai?’ e ela responde: ‘É diplomata e faz discursos em francês.’ Aqui percebe-se que ser diplomata é sobretudo a descrição e a análise do que se está a passar nos países. Foi ver os bastidores de uma profissão que é tão secreta.”

 

Em momentos separados e a milhares de quilómetros de distância, ela em Lisboa, ele em Dublin, os dois irmãos usam exactamente a mesma expressão. “Estava sentado em cima dos papéis quando já há historiadores interessados em ver”, conta Bernardo. “Até que percebemos que estávamos aqui sentados em cima dos papéis e que assim os papéis morrem”, diz Vera. O filho-embaixador tem uma razão extra: “Sendo eu próprio investigador nas horas vagas [é autor de A Diplomacia de Salazar (1932-1949), de 2012, e Crepúsculo do Colonialismo – A Diplomacia do Estado Novo (1949-1961), que acaba de ser lançado], não me sentiria bem perante os meus colegas académicos dispondo daquele espólio e não o pondo à disposição deles também. Se o meu pai guardou isto tudo, é porque achava que os documentos tinham valor histórico. Não era apenas para nós podermos saber o que ele tinha feito como diplomata.”

 

Leia na íntegra o artigo de Bárbara Reis no jornal Público 

 

 

 

 

 

Vasco e Malu com Nancy e Ronald Reagan

Vasco e Malu Futscher Pereira com Nancy e Ronald Reagan em Washington

 

 

 

* * *

José de Freitas Ferraz* :

 

Ele, na realidade, foi o diplomata mais completo que eu conheci. Na medida em que era um homem extremamente inteligente e culto, tinha uma enorme capacidade de análise, escrevia muitíssimo bem, ainda hoje se quiserem podem ver, e para além disso era extremamente gregário, era extremamente afável, era extremamente simpático, ele tinha uma necessidade terrível de ter gente à volta e tinha também a seu favor o facto de, na realidade, a embaixada em Washington para ele ser o terceiro posto que ele fazia nos EUA. [...] O que aconteceu nesse período, nos períodos em que ele tinha estado nos outros postos ia coleccionando amigos e quando chegou a Washington já tinha uma rede importante e uma rede que desenvolveu.

 

Ele tinha uma, algo que eu aprendi na altura e os colegas também, que era : ele não tolerava "nós". Ele que era extremamente simpático e afável, não tolerava que num jantar oficial, numa recepção, nós, nos apanhasse a falar uns com os outros. Porque ele explicava que vocês estão aqui para trabalhar, portanto fazem o obséquio de falar com os convidados.

 

E ele, por seu lado, se eu estivesse numa ponta da sala, era um prazer ver o Vasco Futscher Pereira e a Malu a trabalhar, como os americanos diziam, “working the crowd”, praticamente cobrindo digamos 60 ou 100 convidados que eles lá tinham.

 

 

*

Bernardo Futscher Pereira:

 

Sempre guardou cuidadosamente e transportou consigo pelo mundo a sua correspondência com o ministério, as inúmeras cartas que trocou com colegas e amigos, os recortes de imprensa em que se apoiaram os seus relatórios. É todo este manancial de documentos, com a única exceção dos que são de natureza estritamente pessoal e familiar, que hoje simbolicamente entregamos à guarda do Arquivo Histórico-Diplomático.

 

E não haverá certamente melhor sitio para o depositar do que no Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Faço-o com particular gosto por ser eu próprio um utilizador assíduo do arquivo e conhecer o seu valor ímpar para o estudo da história diplomática de Portugal – ou seja para a história de Portugal.

 

Sempre procurou transmitir a importância de fazer as coisas bem feitas. Punha um grande apuro em tudo o que fazia, e em particular naquilo que escrevia, num estilo que se esforçava para tornar límpido e elegante. Não era pessoa timorata, que se acanhasse perante os seus superiores ou que deixasse de exprimir, de forma delicada mas firme, os seus pontos de vista. Estava à vontade com toda a gente.

 

Teve uma vida muito atribulada, mas nunca se deixou abater pelas preocupações. Pelo contrário, procurou sempre gozá-la tanto quanto podia. Tinha tempo para tudo. Aliás, costumava dizer: “não ando com pressa na vida”. 

 

Discípulo de António Sérgio e Agostinho da Silva, creio que se via como um humanista. O amor pela cultura manifestava-se numa devoção pelos livros, não como objetos – não era bibliófilo nesse sentido embora adorasse todas as artes decorativas, incluindo a encadernação – mas como expressão do que de mais profundo e elevado a razão e a arte podem criar.

 

 

 

*

 

*Presidente do Instituto Diplomático

 

 

Agradecimentos: Margarida Lages, José de Freitas Ferraz, Bárbara Reis, jornal Público 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Junho de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

saint-John Perse

 Saint-John Perse

José Cutileiro

 

 

  

Ir ver o Sr. Terry

 

 

 

Há cinco anos, depois de eu me esquecer às vezes de coisas de que costumava lembrar-me sempre, minha mulher sugeriu que eu deveria ir consultar um técnico, especialista que me examinasse e pudesse verificar se eu mostrava sintomas de Alzheimer.

 

“Pagar e morrer, o mais tarde que possa ser!” afirmava, didático, milionário meu conhecido que, a meio da assinatura de um cheque, depois da caneta ter já traçado parte do gatafunho, parava uma fracção de segundo, como se a mão lhe doesse, antes de rematar diminuição irrevogável de liquidez. Por razões longas de enumerar, assisti há muitos anos a sessão em que guarda-livros lhe ia pondo cheques em frente para assinar, cada um deles sobre páginas que justificavam o dispêndio, e foi preciso sempre vencer a hesitação final.

 

Eu sou assim com médicos, sobretudo médicos que não conheça, e vou adiando o mais que possa. Depois habituo-me, mas mesmo os raros por quem ganho devoção – sem ela, consultas não servem de nada – visito espaçadamente. (Em parte, porque tenho a impressão de estar a tirar-lhes tempo com o meu moi haïssable).

 

Procurei ganhar tempo, como funcionário público sorna, mas sem perder de vista que o propósito da busca era encontrar o melhor especialista, cinco léguas em redondo. O meu endireita – na tabuleta diz osteopata e tem, a seguir ao nome, iniciais equivalentes, na arte dele, a óptima região de origem controlada – formou-se e trabalhou anos num centro reputado de neurologia, de maneira que comecei por lhe perguntar a ele. Comecei e acabei. Deu-me o nome e as coordenadas do especialista que deveria ir consultar.

 

Não era médico, tendo só direito a Senhor, e tinha agenda carregada mas, devido, segundo a secretária, a desistência, recebeu-me mês e meio depois do meu primeiro telefonema. O exame passava-se em duas sessões de duas horas, em dias diferentes. Acabado o primeiro dia perguntei-lhe o que achava. “Digo-lhe no fim” respondeu.

 

“O Senhor Terry é casado?”

“Sou, porquê?”

“O que é que eu digo à minha mulher?”

“Que não esteja preocupada” respondeu o especialista e sorriu, cúmplice.

 

Estou agora noutra de esquecimentos e a minha mulher acha que devo ir ver o Sr. Terry outra vez. Eu acho que não vale a pena porque continuo a saber de cor grosas de versos. “Tudo coisas que aprendeu quando era novo”. É verdade, mas fixei outro dia um poema de Saint-John Perse. Aqui vai, também para a leitora.

 

 

J'honore les vivants, j'ai face parmi vous.

Et l'un parle à ma droite dans le bruit de son âme

et l'autre monte les vaisseaux,

le Cavalier s'appuie de sa lance pour boire.

(Tirez à l'ombre, sur son seuil, la chaise peinte du vieillard.)

 

 

J’honore les vivants, j’ai grâce parmis vous.                                                                        

Dites aux femmes qu’elles nourrissent                                                                                      

qu’elles nourrissent sur la terre ce filet mince de fumée…                                                      

Et l’homme marche dans les songes et s’achemine vers la mer                                            

et la fumée s’élève au bout des promontoires.

 

 

J’honore les vivants, j’ai hâte parmis vous.                                                                        

Chiens ho! mes chiens, nous vous sifflons…                                                                            

Et la maison chargée d’honneurs, et l’année jaune entre les feuilles                                  

sont peu de chose au coeur de l’homme s’il y songe:                                                      

tous les chemins du monde nous mangent dans la main.

 

 

 

“My name is Zheimer, Al Zheimer” diz sempre o mano João quando se fala destas coisas. 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

 

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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

o-povo-unido

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Lembranças do Verão Quente

 

 

 

 

Quando eu era pequeno e o Avô dizia ter estado com “um rapaz do meu tempo” eu achava que o Avô era parvo porque era velhíssimo, o seu contemporâneo sê-lo-ia também e rapazes começávamos a ser nós, os do meu tempo, de calças à golf, já com olho nas calças compridas. (O Avô veio a morrer bem mais novo do que eu sou hoje mas essa é outra história).

 

Na Escola de Belas Artes de Lisboa, vindo da Brasileira e metendo pela Rua Ivens, no Largo de S. Francisco, sendo lá porteiro o Sr. Cruz, com farda de contínuo e boné de pala azuis escuros, fazendo do vestíbulo rito de passagem entre os perigos do mundo exterior e as bem-aventuranças do seu território (“As Belas Artes é aqui?” perguntavam-lhe às vezes. “Bem”, respondia, “aqui há duas repartições. Há a Escola de Belas Artes e há a Academia de Belas Artes. Se vem para a Escola de Belas Artes é aqui. Se vem para a Academia de Belas Artes também é aqui”, seguindo-se conversa longa até indicação precisa da porta seguinte a que a visita devesse bater), as coisas refinaram. Havia movimentos artísticos e pulsões políticas. O Vasco Croft um dia disse-me, à saída de exposição de alguém do nosso tempo, meio trocista: “Brinca, brincando o tempo passa - e qualquer dia somos uma geração”.

 

Lembrei-me dessa sentença, devido às lufadas de 25 de Abril, às vezes polémicas, trazidas pelo desaparecimento de Mário Soares no dia 7 deste mês. (Disparate repete-se: Soares seria o responsável de “descolonização vergonhosa”. Ora a descolonização foi como foi porque a colonização, sobretudo nas últimas décadas, tinha sido como tinha sido – e porque a partir de 26 de Abril a tropa portuguesa se recusou a dar mais um tiro ou sequer a fingir que o poderia dar). Mas há já várias gerações para quem o 25 de Abril foi sempre no passado; o que li e ouvi neste par de semanas é diferente para os que se lembram como eu e para quem tenha uma vaga ideia dos pais lhe terem contado. E ocorrem-me coisas de que já nem me lembrava e apetece-me registá-las para que não se percam de vez. No verão de 1975, o chamado “verão quente” ardiam de vez em quando sedes do PC no Norte de Portugal, em Londres à hora do almoço o telefone começava a tocar na central e depois de posto em posto até alguém atender e nesse dia chegou ao meu gabinete. Eu era Conselheiro Cultural. Estava um sol luminoso, mais lisboeta do que londrino. Senhora de boa sociedade disse-me que tinha marcado há meses férias em Portugal mas estava assustada com o que via na televisão e nos jornais e perguntava à embaixada se era seguro ir. Respondi-lhe que era com certeza seguro. Insistiu, duvidosa. Repeti com mais pormenor e mais convicção ainda o meu louvor da hospitalidade portuguesa. Tornou a insistir. Perdi a paciência.

 

“Are you a Communist?”

 

“I beg your pardon!” abespinhou-se a minha interlocutora.

 

“If you are not a Communist you have nothing to worry about down there.”

 

“O” - e depois de um silêncio, secamente: “Thank you very much.” E desligou.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 Hillary Clinton

 

 

 

 

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A 7 dias de Broncalina do camandro?

 

 

 

Ou de Bernardette do caboz? Ou uma ou outra, tanto faz. Na segunda terça-feira de Novembro, próximo dia 8, os americanos dos Estados Unidos vão às urnas decidir o seu destino político – e o nosso. Toda a política é política local, disse famosamente Tip O’Neill, antigo presidente da Câmara dos Representantes em Washington, de origem tão irlandesa que em quase cinco décadas de serviço em altas instâncias do Partido Democrata nunca pôs os pés na Embaixada Britânica, porque os ingleses tinham sido os opressores coloniais, os responsáveis pelas terríveis fomes dos séculos XVIII e XIX no seu país, o Diabo na terra, e Tip não queria ser visto pelos outros irlando-americanos a comer o seu pão e a beber o seu vinho, tu cá tu lá com eles. Manteve essa ficção até ao fim, embora se desse com os ingleses como Deus com os anjos e os ajudasse quando tal fosse preciso.

 

Mas, para voltar ao aforismo de Tip, os grandes países têm vantagens sobre os pequenos (é certo que, neste ano da Graça de 2016, a pequena Valónia que nem chega a ser um país atrasou de vários dias a assinatura de acordo comercial muito importante entre a União Europeia e o Canadá e, como nos nossos dias o comércio externo é a única coisa pela qual a Europa ainda tem peso no mundo e se pode dar a algum respeito, houve gente que se assustou mas tudo foi depressa ao sítio assim que a questão de política interna belga que fizera a Valónia portar-se mal foi apaziguada – se eu fosse embaixador no activo acrescentaria nesta altura, entre parêntesis, ver meu 153). E há uma prática bizarra nalgumas organizações internacionais – parar o relógio da sala a poucos minutos da hora para a qual se programara o fim de uma reunião e só o deixar trabalhar outra vez quando se tiver chegado ao acordo pretendido, passadas horas, dias ou mesmo meses, podendo-se então olhar para o relógio e pretender que se acabou no dia e hora devidos. Começou isto quando Don Mintoff, zaragateiro marxista e populista, era primeiro ministro de Malta e inventava maneiras de tornar o seu país importante pela incomodidade que causasse aos outros. Por fim, para lidar com ele, teve de se inventar o conceito de “Consenso Menos Um”.

 

Entreténs de ricos para acudir a males menores. O que poderá estar à nossa espera na madrugada da próxima quarta-feira será um tsunami geopolítico de dimensões inéditas desde 1945, maior – para nós – do que o fim da União Soviética. A política local dos Estados Unidos, os interesses dos seus brancos pobres e dos seus fundamentalistas evangélicos, apostados uns em proteccionismo que os fechasse num casulo imune à globalização e os outros em Supremo Tribunal que recriminalisasse o aborto, poderá ganhar. A Senhora fez o que pôde mas, confessa, falta-lhe o jeito do marido ou de Obama, muitos não gostam dela e não se pode excluir que perca a eleição. Se tal acontecesse a ordem internacional sofreria sobressalto de consequências imprevisíveis para a Europa.

 

 

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Quarta-feira, 20 de Julho de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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 Donald Trump e Nigel Farage

 

 

 

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Mundo novo

 

 

 


Pedro Pires de Miranda, com quem tive a honra de trabalhar quando ele era ministro dos negócios estrangeiros (“A política externa é óptima: só se tem inimigos!” disse-me uma vez - e outra vez, quando eu o informava que com três pessoas não conseguiria levar a cabo tarefa de que me encarregara, perguntou-me “Já experimentou com duas?”) pediu-me ao jantar em que o conheci que eu lhe pusesse, para o dia seguinte, em meia página, as diferenças entre as posições da OTAN e do Pacto de Varsóvia na Conferência Europeia de Segurança, em Estocolmo, onde ele viera acompanhar Mário Soares, Presidente da República, ao funeral de Olaf Palme (primeiro ministro sueco assassinado) e onde eu vivia, chefiando a delegação portuguesa à Conferência. No papel que lhe entreguei quando ele ia apanhar o avião escrevera meia dúzia de frases. A primeira, em inglês (língua franca da diplomacia, onde eu estava, e dos negócios, donde ele vinha), tocava no nó do problema: “We are right and they are wrong” (Nós temos razão e eles não). O mundo era menos complicado do que é agora.


Pedro foi-se embora há pouco tempo, eu ainda por cá ando mas nos trinta anos desde esse enterro nórdico especial (o assassino de Palme andava a monte, não se sabia quem era nem se havia cúmplices, desabaram sobre a cidade num fim de semana chefes políticos do mundo inteiro e, para preocupação suplementar dos serviços de segurança suecos, Shimon Peres, PM de Israel, no sábado, em vez de ir como os outros em carros mais ou menos blindados, foi a pé aos lugares onde tinha de se ir) desde esse enterro, dizia, os que tínhamos razão, ganhámos a guerra fria – e a Rússia perdeu-a - sem termos de dar um tiro. Éramos os melhores, os mais fortes, os mais ricos e ainda por cima, para algumas almas optimistas a História tinha acabado. Só que, como escreveu Nelson Mandela, quando se chega ao cimo da montanha que se está a subir descobre-se que há outra montanha que tem de se subir também, depois dessa mais outra ainda e por aí fora.


Ora para as montanhas que se seguiram e para a cordilheira que se vislumbra até onde a vista alcança nem nós nem os americanos - Atenas e Roma do mundo de hoje, houve quem gostasse de pensar - temos mostrado grande jeito. Perante a decadência do Ocidente (será finalmente desta?) avultam novos poderes – China, Índia; menos grandes mas incomodamente perto, a Rússia de Putin, segunda potência nuclear do mundo, batoteira das Olímpiadas, invasora de vizinhos e a Turquia, onde o islamista Erdogan venceu golpe militar pondo o povo na rua pelo FaceTime do seu iPhone – mas o podre vem de dentro.


Na pátria da Magna Carta, políticos encartados mentiram escandalosamente a eleitores que mostraram ignorância abissal e fartura sem remédio das “elites” - como se chama agora a quem saiba ler e escrever e tenha onde cair morto. Do outro lado do Atlântico, “Nós, o povo” reduziu a duas as pessoas entre quem escolher para suceder a Barack Obama e uma delas é Donald Trump. 

 

 

 

   

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Quarta-feira, 6 de Julho de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Errata

 

 

 

Sempre tive dificuldades com a ortografia de nomes. De gentes e de sítios. Escrevi uma vez Camões com z no fim, abaixo de O homem que for sisudo/Numa tão grande questão/Terá de tomar por escudo/A justiça e a razão/Que estas armas vencem tudo, versos que escolhera para citação de abertura em apontamento douto e terso sobre política europeia  -  mas dei por isso e emendei antes de o mandar por e-mail ao seu ilustre destinatário. Outra vez, há muito mais tempo, numa série de textos publicitários curtos, encomendados por Eduardo Calvet de Magalhães, escrevi várias vezes Carcave-los, como se carcaver fosse um verbo, mas também dei por isso antes de os entregar, comentando o percalço com Calvet. (Lembrando-me dele agora, ressinto a injustiça do seu esquecimento. O mano Manuel, pedagogo, tal renome teve que lhe deram nome de rua e tudo. O nome do mano José, embaixador, é venerado no Palácio das Necessidades como uma das sumidades diplomáticas da segunda metade do nosso século XX. Do Eduardo ninguém fala, embora tenha introduzido a publicidade moderna em Lisboa e no Porto e, entre a chegada da Canada Dry e a chegada da Coca Cola, ter imaginado o refrigerante que mais conviria a Portugal - capilé gaseificado - para publicidade do qual até inventara slogan: “A bebida que lhe corre nas veias”).

 

Na semana passada tornei a disparatar: chamei a Louise de Vilmorin, Louise de Villemorin. Quando dei por isso, avisei a Vera que corrigiu logo no blog e, por conseguinte, o bloco que anda no éter (é assim que se deve dizer?) está como deveria estar mas as poucas amigas e amigos a quem todas as semanas mando directamente o pdf  – ces êtres malhereux, aimables, charmants, point hypocrites, point “moraux”, assim lhes poderia haver chamado Stendhal, ou We few, we happy few, we band of brothers proclamaria talvez, imune a correcção política, Shakespeare quando estava em ‘mode’ heroico  ficaram com o erro por corrigir. A todas e a todos, quer tenham lido esse Bloco-Notas quer não e, se o leram, quer tenham dado pelo disparate quer lhes tenha escapado, aqui e agora deixo o nome bem soletrado da amante principal de Duff Cooper em Paris (mais tarde amante de André Malraux que depois da morte dela herdou no leito sua sobrinha Sophie, também de Vilmorin, conta esta num livro).

 

Assobios para o lado, tudo quanto escrevi acima. André Gide dizia, no Paris dos anos 20 do século passado –“ les années folles” – que às vezes lhe parecia haver mais artistas do que obras de arte. Em Portugal - na Europa - de 2016, às vezes parece haver mais comentadores do que factos a comentar. Sou suspeito por ser eu próprio comentador mas ao acordar de manhã já o mundo está a ser batido em gigantesca montanha de claras em castelo, perfumadas com o aroma do dia. Omnipresente mas efémera conversa de treinadores de bancada, lembra o mano João, com Schadenfreude de quem arranca ternas figuras à brutidão dos calcários e nelas deixa os seus estados de alma per omnia secula seculoram. Amen.

 

 

 

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Quarta-feira, 11 de Maio de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

Charles_Maurice_de_Talleyrand-Périgord_by_Franço

Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord,

bispo de Autun, príncipe de Benevente, 1754-1828

(François Gérard, 1808)

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

La douceur de vivre*

 

 

 

 

Amigo recolhido há muitos anos para lá da barbacã do Alzheimer deixou-nos de vez há dias. Era homem de outro tempo – como às vezes chamamos ao passado - e gostaria de ter nascido em tempo mais passado ainda. Quando fora novo e ia e vinha de Bruxelas a Lisboa de automóvel dava sempre volta larga para não passar por Paris. Porque em Paris, com a Revolução Francesa de 1789, começara a tragédia do mundo moderno.

 

Lera com certeza as Reflexões sobre a Revolução em França de Edmund Burke, publicadas logo em 1790, mas mesmo que o não tivesse feito percebia tão dolorosamente quanto o parlamentar irlandês da Câmara dos Comuns o rombo brutal às tradições que começara a ser aberto; a preferência funesta dada a princípios abstractos sobre costumes. E, se fora admirável em Burke a previsão perspicaz, o meu amigo sofrera, nos decénios da sua vida lúcida, o desenrolar sem remissão desse futuro impiedoso. Está agora na moda dizer mal da Revolução Francesa mas ele não era homem de modas: pensava o que pensava desde os seus anos (brilhantes) de universidade. Ceux qui n’ont pas vécu avant la Révolution n’ont pas connu la douceur de vivre.

 

Do que pouca gente se dava conta e muitos se davam conta achando bem. Sobretudo na Europa continental, farta de monarquias absolutas, e nos Estados Unidos da América, bêbados de independência triunfante, com escravos e índios a amortecerem a pancada. O grande poeta inglês William Wordsworth cantou a felicidade de ser vivo e ainda por cima novo nos momentos gloriosos da Revolução do outro lado do canal mas, nas suas ilhas, tal visão foi sempre minoritária. A prudência e o bom senso britânicos prevaleceram, na convicção de que todo o cuidado seria pouco. O Dr. Samuel Johnson – lexicógrafo, considerado homem tão espirituoso que em dicionários de citações inglesas só Shakespeare, Oscar Wilde e Bernard Shaw o batem em número de entradas – quando a Duquesa de Devonshire, acolhendo-o para sarau literário na sua casa de Londres, lhe disse, entusiasmada, ir ter entre os convidados dessa noite dois revolucionários de Paris, respondeu: “Watch the silver, Madam!” (“Atenção à baixela!”).

 

Coube-nos estar a assistir ao fim desse enorme sobressalto mas nem de longe foi a primeira vez que a história alarmou espíritos atentos. Há poucos anos alguém enumerou o que considerava as piores catástrofes do percurso ocidental, começando já se vê no Próximo Oriente. Por ordem cronológica: monoteísmo; cristianismo primitivo; reforma; Marx e, acrescentaria eu se Thérèse Delpech ainda fosse viva para o defender melhor do que eu o teria atacado, Freud. Desde que o Homo sapiens deu por si, a Dor humana busca os amplos horizontes e tem marés de fel como um sinistro mar.

 

“Não há-de ser nada!” diria o Senhor Engenheiro e, embora o destino não tenha sido o seu forte, está sol em Bruxelas e suspendo a descrença. O mais de tudo isto é Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca.

 

 

 

*Com vénia a Talleyrand, Cesário e Pessoa.

 

       

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