Quarta-feira, 25 de Julho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Ouroboros @ wikipedia

 

 

José Cutileiro

 

 

Versões do Mito do Eterno Retorno

 

 

 

Federico Garcia Lorca achava que no Verão o calor em Granada era tão grande que era impossível fazer fosse o que fosse. E exemplificava: no Verão, em Granada, dois e dois nunca chegam a ser quatro. Quedan siempre y solamente dos y dos.

 

O poeta de ‘Romancero Gitano’ e dramaturgo de ‘La Casa de Bernarda Alba’, mesmo que, um serão no começo da guerra civil em Espanha (1936-1939), não tivesse sido levado à força por voluntários franquistas de casa de amigos em Granada com quem insistira em ir passar uns dias em vez de aceitar convite da actriz Margarita Xirgu e ir com ela para Buenos Aires, e morto a tiro e enterrado sem cerimónia em vala comum andaluza, certamente por ser esquerdista e homossexual, não teria quase de certeza chegado aos nossos dias porque, até hoje, nunca homem, mulher ou transgender chegou a fazer 120 anos. Senão teria visto os costumes mudarem no seu país ao ponto das pessoas se poderem casar umas com as outras, independentemente do sexo que tenham, e tal ser considerado progresso por muitos. 

 

Mas, se deitasse até aos 140 (agora estarei a futurar demais) seria capaz de assistir a retrocesso nos costumes e nas leis e encontrar a populaça nativa contente com tais recuos. E, apesar disso, olhando desta ponta da Europa e comparando-a com o resto do mundo, sentir-se-ia perigosamente só na sua vida, na sua liberdade, e na sua busca da felicidade, como náufrago em jangada no mar alto.

 

A história é um vaivém ou pelo menos assim parece agora, por um lado porque a grande aventura imaginada com princípio, meio e fim a caminho do Paraíso na Terra que tomou conta de metade do mundo durante bem mais de meio século e oferecia Criação e Juízo Final sem Deus a cortar as voltas, era afinal uma aldrabice enfeitada com crimes. E que, por outro lado as mudanças são agora cada vez mais rápidas do que costumavam ser. Até à revolução industrial, criar uma criança era ajudar a fazer com que ela se parecesse com o pai em crescida, se fosse menino ou com a mãe, se fosse  menina. Em Portugal, onde o que o pouco que houve de revolução industrial chegou mais tarde do que a outros países e onde o grosso da grei continuou graniticamente analfabeta quando tal já não acontecia em quase toda a Europa ocidental, o bonheur de vivre de que falava Talleyrand durou quase até ao tempo da minha escola primária.

 

Onde isso já vai tudo – tão longe que pode dar a volta. O que se fazia em várias gerações não leva hoje metade da vida de um homem a fazer. Lorca teria visto o progresso tornar os seus sonhos reais – mas se continuasse a sobreviver arriscar-se-ia a que nova realidade se instalasse e os tornasse irreais outra vez. Trump, Duterte, Erdogan, Orban, Bolsonaro - uma espécie de Trump tropical - outros ainda e candidatos a sê-lo. Para não falar do Império do Meio que, ao contrário do que a gente julgava desde Den Xiao Ping, acha que os nossos valores não são universais e acabou de instaurar a sua Monarquia Absoluta.

 

 

 

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Sexta-feira, 20 de Julho de 2018

Evora-Africa

Até 25 de Agosto de 2018 em Évora

O programa completo pode ser consultado em http://evorafrica.pt/

 

 Chéri Samba

Chéri Samba

© http://www.magnin-a.com

 

A exposição de arte contemporânea "African Passions", no Palácio Cadaval, com curadoria de André Magnin e Philippe Boutté - a primeira que realiza em Portugal - inclui obras de artistas plásticos e fotógrafos do Congo, Costa do Marfim, Moçambique, Mali, Senegal, Benim, África do Sul e Madagáscar.

 

O festival "Evora Africa", que se prolonga até 25 de Agosto, apresenta um diversificado programa de exposições, concertos, performances, conferências e DJ'S e reúne trinta artistas plásticos contemporâneos, músicos e performers africanos. 

 

 

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Omar Victor Diop, Série Diáspora

© http://www.magnin-a.com

 

Para além do Palácio Cadaval, o Templo Romano, o Cromeleque dos Almendres e a Biblioteca Pública de Évora serão palco de espetáculos da Orquestra Ballaké Sissoko, Costa Neto, Irmãos Makossa, Rita Só, Johnny Cooltrane, Mbye Ebrime, DJ Rycardo, Companhia Xindiro e os jovens dançarinos, Celeste Mariposa, Bambaram, Bassekou Kouyate, Selma Uamusse, Bubacar Djabaté, Áfrika Aki, The Zaouli de Manfla, Miroca Paris, DJ Ibaaku, Sara Tavares, Congo Stars de Vibration, Dj Lucky, Lady G Brown.

 

 

Malick Sidibé | Courtesy Galerie MAGNIN-A, Paris

 Malick Sidibé, Nuit de Noël (Happy Club), 1963

© http://www.magnin-a.com

 

 

 

Centro de Arte Quetzal, Vidigueira

 

No contexto do festival, o Centro de Arte Quetzal apresenta uma selecção de trabalhos dos artistas sul-africanos Marlene Dumas, Moshekwa Langa e William Kentridge, incluindo a série de curtas-metragens de animação (Dez desenhos para projecção 1989-2011), e um mural tipográfico da artista egípcia e libanesa Bahia Shebab, com o título Mil Vezes Não.

 

W Kentrridge

William Kentridge Levitation 1996

 

 

 

Marlene Dumas

Marlene Dumas Cain+Abel (Twins) 1989

 

 

 

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Quarta-feira, 23 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Oscar Wilde por Max Beerbohm

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Novos e velhos

 

 

Janus Onyszkiewicz, dissidente polaco virado ministro da defesa no intervalo feliz  entre o fim do comunismo e o regime beato e bruto que está a agarrar a Polónia e a tentar tornar a fazer dela uma penitenciária, disse-me que, nisto de novos e velhos, decidira há muito que todos os que tivessem a sua idade ou menos eram novos e todos os que tivessem mais idade do que ele eram velhos. (Velhos ou velhas; novos ou novas. Para não tornar este escrito uma sucessão de solavancos, tal fica subentendido para todo o texto – salvo evidentemente quando não faça sentido nenhum). À volta da meia-idade que ele tinha na altura esta partilha ajuda a genica de um homem. Uns anos mais tarde, se a cabeça continuar viva, faz dele um velho espirituoso. Mais uns anos ainda e é disparate a evitar por quem não goste que o julguem senil. (Seja como for, há casos impossíveis. Oscar Wilde dizia de Max Beerbohm, escritor e desenhador seu contemporâneo em Oxford, tinham os dois vinte anos, que os Deuses  haviam contemplado Max com ‘o dom da velhice perpétua’, ‘the gift of perpetual old age).

 

Conheci senhor português de mais de 70 anos que chorou de emoção perante tanto progresso científico e técnico quando o sputnik de Yuri Gagarin deu lá em cima um par de voltas à terra e toda a gente cá em baixo soube disso in real time. E um bom meio milénio antes, o navegador Juan Ponce de Leon que, no dia de S. João, morreu à vista de terra a que nenhum europeu chegara antes e que hoje chamamos Florida, entrou na história pelas palavras que então pronunciou: « Gracias te seam mi San Juan bendito, que he mirado algo nuevo ! »

 

Se deste lado da curva de Gauss saltitam velhos vivos da costa, do outro lado dela jazem a espreguiçar-se novos com alma de velho – que podem revelar-se de maneira divertida. Há anos sem fim, estava eu a jantar num restaurante de caça em Hampstead com a minha mulher e casal amigo, todos nós ainda novos (todos portugueses), e falou-se do Brasil, talvez por eu ter estado dias antes em festa londrina de brasileiros e portugueses da qual guardara - e guardo ainda – duas sentenças lapidares. Primeira: uma brasileira disse-me “Vocês si detestam!” (‘Vocês’ eram os portugueses; não só os que estavam ali, todos, em geral). Segunda: tendo eu dito de alguém “É o último dos imbecis”, brasileiro ao meu lado sugeriu “Não diga último; diga penúltimo. Deixe sempre lugar para um cara.” Rimo-nos todos à mesa quando contei dessa festa, o meu amigo sentiu pulsão interior e exclamou: “Gostava de ir ao Brasil!”. Depois parou, calou-se um instante, reflectiu e acrescentou “Não. O que eu gostava era de já ter ido e de ter gostado.”

 

Achei a formulação excelente, contei-a a várias pessoas e agora, meio século depois, de repente, ocorre-me que é sinal de velhice,  confortada por vida bem vivida, mas velhice. Emoção simétrica à de Fernando Pessoa quando se lembra de momento bom da infância e acrescenta: “Era eu feliz então? Não sei. Fui-o outrora agora.”

 

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

corruption 2

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

« Onde é que é o guichet da corrupção ? »

 

 

Assim costumava perguntar há muitos anos, tio da Vera indignado por não ter tido ainda direito a nenhuma. Era uma reacção moderada e divertida, bem diferente da indignação tonitruante que viceja agora, abafando a reprovação genuína de alguma gente de bem e disfarçando a inveja (cruzes, canhoto!) que medra no peito fiel de muito patriota.

 

Nesta matéria, às vezes, há casos bicudos. Quando eu vivia em Princeton, New Jersey, soube pelo jornal diário o seguinte. Figura importante de Wall Street fora apanhada por investigação oficial num caso de informação priveligiada, levada a tribunal e condenada a alguns anos de cadeia. Beneficiado com a informação indevidamente transmitida contava-se seu próprio pai, médico reformado (se bem me lembro, nefrologista) com mais de oitenta anos que pudera vender as acções da sua poupança antes destas se desvalorizarem abruptamente - e fora também condenado. Eram judeus, tinham laços de família muito fortes (tal como acontece quase sempre em Portugal) e ocorreu-me na altura que o corretor haveria de ter sentido o que sentiria português trabalhando na Bolsa de Lisboa, apanhado em circunstâncias semelhantes. «Então uma moral universalista, que coloca à mesma distância de mim o último dos estranhos e o primeiro dos próximos, vai-me obrigar a deixar na miséria o meu pai? E numa idade em que já nem poderia tentar sair dela? Qual é o dever de um filho: cumprir lei cega perante valores milenários e deixar o pai pelas ruas da amargura? Ou arriscar-se a ignorar essa lei e cumprir as obrigações da tribo?» Palpita-me que a escolha do hipotético corretor alfacinha seria a mesma da do homem de Wall Street.

 

Impôr de repente leis gerais universalistas a gente regida  por usos e costumes tradicionais que poem a família no coração do mundo, é sempre o cabo dos trabalhos. Todas as potências coloniais descobriram isso. Também o descobriram os liberais portugueses a seguir a 1834, quando, de Lisboa, quiseram fazer chegar o país novo, inventado por Mouzinho da Silveira, a sombrias boticas de Trás-os-Montes, a barbeiros palreiros do Algarve. (Mouzinho escrevera cercado na Cidade Invicta, e já se demitira do governo quando os liberais ganharam a guerra aos miguelistas e se meteram a mudar Portugal).

 

Quase século e meio depois, os laços entre centro e periferia - entre Estado e povo - tinham cristalizado. Quanto ao que chamamos corrupção (termo que não era usado) em Câmara Municipal alentejana que conheci bem as coisas passavam-se assim. Quando camponês, pequeno comerciante ou artífice tinha de lá ir, se o assunto fosse tratado a nível baixo a gorgeta era 25 tostões; a nível alto, 5 mil reis. Dentro do funcionalismo porque presidente e vereadores, todos da mó de cima, não constavam da tabela. Trocavam favores.

 

Havia muito menos negócios, muito menos dinheiro a circular, os ricos nasciam ricos, os pobres morriam pobres. Ao comércio e à indústria o Dr. Salazar preferia a agricultura.

 

 

 

 

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Sábado, 23 de Dezembro de 2017

Bom Natal

 

 

Presépio Marva 2

 

Cartão de Boas Festas (1965)

desenhado por Vasco Luís Futscher Pereira (1922-1984) e vendido nas Papelarias Progresso e da Moda.

 

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Quarta-feira, 23 de Agosto de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

Sacanas e bananas

 

 

 

Passam-se anos sem eu ver o Duro. Desde novos, privámos em passagens animadas da vida e ele conhece-me melhor a mim do que eu o conheço a ele - ou pelo menos é isso que eu sinto. (Outro com quem acontecia o mesmo era o meu chorado Zé Cardoso Pires e eu achava que tal se devia ao Zé ser romancista e eu não; com o Duro essa explicação não colhe). Encalhámos um no outro há dias e lembrei-me – lembro-me sempre que nos encontramos - de encalhe anterior, também no verão, à porta do Balaia, depois do 25 de Abril mas antes do Balaia ter virado Club Med.

 

“Voltaste?”. Fazia-o ainda pela finança internacional, em Londres ou numa das costas dos Estados Unidos.

 

“Não! Só quando as condições estiverem cumpridas”.                                                                                  

“Quais condições?”                                                                                                                                                  

“Salazar no poder; Marcelo Caetano na oposição; Freitas do Amaral na clandestinidade!” (Freitas do Amaral, nessa altura, considerava-se e era considerado de direita).

 

A mi me gustan las cosas asi: los hombres hombres; el trigo trigo!” afirma camponesa andaluza numa peça de teatro de Lorca. Camponesa que havia de ser, como o Duro, pessoa de um só princípio, de um só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer. Como seria também o médico cujo nome me escapa, membro do Partido Comunista Português no tempo da clandestinidade, preso duas ou três vezes, esbofeteado pela Pide, que encontrei em casa da Mimi e do Fernando Bandeira de Lima, amigos dos meus Pais (ele também maltratado na António Maria Cardoso) e que, ao falar eu de inspector da Pide inteligente me interrompeu, indignado, porque a inteligência era um dom das almas superiores e, por isso, nenhum Pide podia ser inteligente.

 

Ainda haverá gente assim. O Duro é fino como um coral; o amigo dos Bandeira de Lima era burro; o que nos chegou da camponesa de Lorca não dá para saber – mas tudo seres morais e isso escasseia agora no pessoal político. Não só por cá (já lá vamos); falha no cimo mesmo do que chamávamos “O Mundo Livre”: Trump, palhaço pouco esperto, ignorante e malfazejo terá de ser corrido depressa; no Reino Unido não se vê hoje ninguém; em Berlim, automóveis poluentes e superavit escandaloso são demais para que a mediocridade da Senhora disfarce a Alemanha. Talvez Macron, se fizer os franceses perderem egoísmo e peneiras.

 

E nós? No tempo de Salazar o escritor José Rodrigues Migueis dizia que Portugal era um país de bananas governado por sacanas. Democracia e Europa trouxeram-nos harmonia: hoje somos, governados e governantes, bananas assacanados - ou sacanas abananados se a leitora preferir.

                                                                            

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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

jack-in-the-box

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Democracias

 

 

 

No ano passado, a democracia mais antiga e mais prestigiada do mundo (o Reino Unido de Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) e a democracia mais rica e poderosa do mundo (os Estados Unidos da América), utilizando os seus respeitados mecanismos constitucionais, deram a si próprias duas bordoadas de cujos maus efeitos não recuperarão tão cedo.

 

A bordoada britânica foi resultado de referendo a perguntar aos cidadãos (melhor dito, aos súbditos de Sua Majestade Britânica) se queriam sair da União Europeia ou permanecer nela – uma maioria disse que queria sair. A bordoada americana foi eleger Donald Trump Presidente dos Estados Unidos. No primeiro caso a procissão nem sequer vai no adro: só há poucos dias se encetaram conversas formais em Bruxelas mas, antes das negociações começarem, já se tinha percebido que o Reino Unido ia perder muito com o negócio, a todos os níveis. Durante a campanha que precedeu o referendo os partidários da saída mentiram escandalosamente sobre o dinheiro que os britânicos poupariam se saíssem, sem que os partidários na permanência na União tivessem denunciado essa mentira com vigor comparável; além disso a população da Inglaterra e da Irlanda do Norte, é uma das mais ignorantes e menos educadas dos 35 países da OCDE. Por exemplo, em lugares dependentes para sua sobrevivência da exportação de automóveis para o resto da União Europeia, a percentagem de votantes que quiseram deixá-la foi das mais altas do país. 44% das exportações britânicas e mais de metade das importações são com o resto da União Europeia; saindo do Mercado Único tudo isso lhes ficará muito mais caro mas, para nele ficarem mesmo saindo da União, teriam de admitir imigrantes de lá vindos e isso, até agora, é impensável. Digo até agora porque a indústria em geral começou a dar-se conta de que, sem estrangeiros, a economia levará grande e duradouro rombo. Para não falar da City. Os serviços de finança e negócios de Londres perfazem um terço do PIB britânico porque têm clientes pela Europa toda – que os vão deixar se saírem da União. A Confederação da Industria Britânica estima que em 2020 o PIB britânico será de 3,5% a 5% menor do que se o Reino tivesse continuado na União. Haverá 2° referendo? Exit tão soft que não se dê por ele? Ou insistirão no masoquismo da ruína voluntária?

 

Nos Estados Unidos as coisas vão de mal a pior porque Trump não dá para Presidente – a maioria dos eleitores já o sabia – e, em vez do hábito fazer o monge, neste caso o monge está a esfarrapar o hábito. A personalidade de Trump - o seu narcisismo, a sua mesquinhez, a sua maldade, a sua ignorância – está a abandalhar a Presidência. Sendo a Constituição como é não se vê saída fácil – mas quanto mais demorar, pior será para a América e para o mundo.

 

Acha a leitora que irá tudo ao sítio? Escrevo em Montemor-o-Novo onde, a passar na cidade antiga, li este nome: Rua da Paz, e, por baixo, antiga rua da Mancebia. Enquanto há vida há esperança.

 

 

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Sábado, 24 de Junho de 2017

Papelaria da Moda / Parker

 

 

Montras c. 1960 

Montra-1

O tesouro!... 

 

Montra 3

A mensagem 

 

Montra 2

Páscoa Feliz

 

 

 

montra 4

 

Para onde for leve sempre consigo a sua PARKER

 

 

 

Papelaria da Moda papel

 

Mais sobre as Papelarias Progresso e da Moda AQUI  e AQUI 

 

 

 

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Domingo, 18 de Dezembro de 2016

brinquedos portugueses

 

 

Olavo 1.jpg

 

 

Em tempos, quando o Menino Jesus, ou tu, faziam anos, a família e os amigos da casa ofereciam-te objectos desconcertantes e inúteis, chamados brinquedos. Tu, está claro, ficavas muito contente com os presentes, por virem embrulhados em papéis vistosos, por constituírem uma novidade, aliás provisória (lamentável defeito da novidade!) mas principalmente por ser costume ficarmos contentes quando alguém nos oferece qualquer coisa. Na verdade, ou seja, no dia seguinte (a verdade só é completa no dia seguinte), verificavas que os tais brinquedos não correspondiam às tuas secretas ambições. Ah! O dia seguinte do brinquedo! Como é rápida a decadência do brinquedo, uma vez arrancado ao arranjo da montra da loja, onde brilhou, rodeado por outros brinquedos, valorizado por luzes hipócritas! Os brinquedos deviam ficar eternamente na suas caixas bonitas, ou penduradas nos tectos dos estabelecimentos para serem apontados pelos dedos indicadores dos meninos. É raro um brinquedo corresponder à imaginação da criança que o recebe. Deves lembrar-te de que, por volta dos teus seis anos, não achavas graça nenhuma a um boneco, por mais bonito que ele fosse. Eu, pelo menos, não achava. O que eu queria era um martelo verdadeiro para pregar pregos verdadeiros onde me apetecesse. A lei natural dos contrastes convida as crianças a desejarem ser adultas. Por exemplo: um cavalo vivo, com arreios de “cow-boy”, é artigo muito querido de todos os meninos. Pistolas autênticas, das que dão tiros homicidas, bicicletas de duas rodas, serrotes, etc., são objectos apreciadíssimos pela infância, que também aceita, resignadamente, as respectivas imitações, de lata, de três rodas, e sem dentes.

 

 

 

Olavo 2.jpg

 

 

 

Tenho um amigo um bocado parecido comigo nestes assuntos de educação infantil. Tem dois filhos a quem tudo permite e a quem gostaria de realizar todos os sonhos. Há tempo, um dos pequenos pediu-lhe um serrote com dentes afiados, e o pai fez-lhe a vontade. O serrote marcou época em casa do meu amigo. Vários móveis de estimação foram serrados pelo garoto que, trocadilho aparte, tem «bicho carpinteiro». O pai do serrador desgostou-se com a proeza do filho e julgo que lhe tirou o serrote. Mas teve desgosto quando lhe tirou o serrote. Disse-me, confidencialmente, que nunca mais o seu querido filho teria um brinquedo que lhe desse satisfação comparável à daquele serrote verdadeiro. «Resta saber — concluiu — se é melhor evitar a perda de móveis insubstituíveis ou a perda duma partícula da alegria de viver do meu filho». Mas, repito, não ê possível apertar em tão poucas linhas a extensa filosofia do brinquedo.

 

 

 

Olavo 3.jpg

 

 

[...] As crianças portuguesas já trazem de longe, quando nascem, uma indisciplina, uma desordem que não lhes consente manusear dinamite sem perigo de explosões. Logo, não as podemos presentear, aos dez anos, como acontece aos meninos alemães, com espingardas de tiro rápido, nem com cavalos de carne e osso, como é uso conceder às crianças inglesas. Sejamos prudentes com os nossos filhos, deliciosamente meridionais, imaginativos e bravos! Fabriquemos, para eles, alguns brinquedos mansos e já consagrados, mas tanto quanto possível aportuguesados.

 

 Olavo d’Eça Leal

in Revista Panorama, número 12, ano 2º, 1942

 

 

 

 

Olavo-dEa-Leal10.jpg

 

Olavo d’Eça Leal (1908-1976) pertenceu à geração de intelectuais e artistas portugueses que colaboraram na revista Contemporânea e no Salão dos Independentes. Escritor e célebre radialista da Emissora Nacional, a sua obra inclui o teatro, a poesia, as artes plásticas, a ficção e a literatura infantil. Escreveu e produziu dezenas de peças para a rádio e televisão, foi jornalista, ilustrador, e coleccionador ecléctico.

 

Em 1939 publica um livro para crianças, Iratan e Iracema, os Meninos mais Malcriados do Mundo, com ilustrações de Paulo Ferreira, que recebe o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho. Esta história ao jeito de folhetim radiofónico infantil foi lida pelo autor aos microfones da Emissora Nacional no programa "Meia Hora de Recreio" em trinta e oito fragmentos. Em 1943 é editada a sua História de Portugal para os Meninos Preguiçosos (1943) ilustrada por Manuel Lapa.

 

Desenhos, pinturas, livros e objectos de Olavo d’Eça Leal reunidos ao longo dos últimos quarenta anos pelo seu filho Tomaz encontram-se expostos na Casa da Pinheira [The House of the She-Pine Tree] - Casa-Museu e Guest House situada numa antiga quinta do século XIX próximo da aldeia do Sabugo.

 

 

 

 

 

Agradecimentos: Tomaz d’Eça Leal, Casa da Pinheira , Hemeroteca DigitalAlmanak Silva, Restos de Colecção, JuvenilbaseWikipedia

    

publicado por VF às 17:15
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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

Olympians.jpg

 

@ Percy Jackson 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Deuses

 

 

 

 

Em igreja desafectada num lugarejo da Beira profunda, pedindo-se a vizinha chave para a abrir, amigos dos Pais descobriram estatueta magnífica de S. Sebastião do século XVII. Um ano depois, estando por perto, pediram outra vez à vizinha para lhes abrir a igreja – e não viram o S. Sebastião. Perguntaram se alguém o teria levado (passava-se isto há uns 80 anos e começara já a compra por dez reis de mel coado de obras de arte achadas na província portuguesa por citadinos astutos - pilhagem comparável às das Invasões Francesas do começo do século XIX, com a vantagem de as obras assim preservadas terem ficado em Portugal) mas nada da igreja fora entretanto vendido. De entrada, a vizinha nem percebia bem de que é que eles estavam a falar até, de repente, se fazer luz no seu espírito: “A gente capemo-lo e fizemos uma Santa Teresinha!”

 

O catolicismo cultivou os Santos e as Santas, alguns plasmados de anteriores figuras pagãs, amortecendo assim o choque brutal do monoteísmo - a invenção mais traumática e funesta da humanidade - na vida de cada um (e cada uma) de nós que com ele tivesse de lidar. Santos e Santas são cortesãos celestes, com acesso directo a Deus menos ou mais facilitado, desde Santos e Santas modernas sem cultos enraizados nas mentes dos fiéis às hipóstases mais celebradas da Senhora sua Mãe. Beatas (e beatos) estabelecem as suas intimidades. Uma de Reguengos, a quem mãe aflita com doença de filho viera pedir intervenção de Nossa Senhora de Fátima (de que a beata possuía imagem a que rezava), respondeu-lhe: “Deixa estar filha que eu, em chegando a casa, caio-me lá com a minha Periquita!”. Às vezes, como entre humanos, as coisas dão para o torto: o meu amigo Fernando viu numa igreja de Luanda mulher de pé em cima de um banco insultando em kiluanda imagem de Nossa Senhora do Carmo, por esta não ter cumprido a sua parte de um acordo.

 

As coisas passavam-se assim com Deuses e Deusas quando toda a gente tinha vários. Era o caso - para escolher sociedade evoluída - da civilização romana com quem os cristãos tiveram problemas, não por terem Deus diferente, tal não aquecia nem arrefecia os romanos, mas por não admitirem existência de Deuses dos outros. A intolerância não foi inventada pelos monoteístas mas foi dotada por eles de superioridade moral. Desde as origens no Próximo Oriente as chacinas não pararam. Mas salvo em casos especiais – judeus ortodoxos, Tea Partiers americanos, waabistas - as três grandes religiões reveladas parecem hoje menos viradas para o proselitismo, mormente a Hebraica quiçá por ter sido mais maltratada do que as outras duas. A Cristã chega a roçar o agnosticismo. Mais novo, o Islão dá fiéis cheios de sangue na guelra. Se algum dos seus entusiastas, fanático do chamado Estado Islâmico, nos perguntar o que fizemos do Deus a quem chamam Alá, em cujo nome matam e esfolam, devemos responder que o capámos e fizemos um Nosso Senhor Jesus Cristo, user-friendly para crentes e descrentes.

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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