Domingo, 20 de Agosto de 2017

Espólio de Vasco Luís Futscher Pereira (1922-1984)

 

Disponível para consulta no  Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

 

 Daniel Rocha

 

Hoje, como no início da carreira de Futscher Pereira, os telegramas rosa são os recebidos e os telegramas verdes são os expedidos. O espólio ocupa 14 prateleiras do Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Foto Daniel Rocha

 

  

Estudar este espólio, disse o ministro [dos Negócios Estrangeiros] que é ele próprio um académico, vai permitir ver “como se exerce a profissão de diplomata, como se cresce e se amadurece passando pelos postos C., e como se faz política externa em Portugal — que tem sido sempre um pouco singular”. Foi justamente isso que a filha Vera mais gostou de descobrir ao mergulhar no universo profissional do pai: “Ver o que realmente faz um diplomata. Tem-se aquela ideia do croquete. Como a história da menina a quem perguntam: ‘O que faz o teu pai?’ e ela responde: ‘É diplomata e faz discursos em francês.’ Aqui percebe-se que ser diplomata é sobretudo a descrição e a análise do que se está a passar nos países. Foi ver os bastidores de uma profissão que é tão secreta.”

 

Em momentos separados e a milhares de quilómetros de distância, ela em Lisboa, ele em Dublin, os dois irmãos usam exactamente a mesma expressão. “Estava sentado em cima dos papéis quando já há historiadores interessados em ver”, conta Bernardo. “Até que percebemos que estávamos aqui sentados em cima dos papéis e que assim os papéis morrem”, diz Vera. O filho-embaixador tem uma razão extra: “Sendo eu próprio investigador nas horas vagas [é autor de A Diplomacia de Salazar (1932-1949), de 2012, e Crepúsculo do Colonialismo – A Diplomacia do Estado Novo (1949-1961), que acaba de ser lançado], não me sentiria bem perante os meus colegas académicos dispondo daquele espólio e não o pondo à disposição deles também. Se o meu pai guardou isto tudo, é porque achava que os documentos tinham valor histórico. Não era apenas para nós podermos saber o que ele tinha feito como diplomata.”

 

Leia na íntegra o artigo de Bárbara Reis no jornal Público 

 

 

 

 

 

Vasco e Malu com Nancy e Ronald Reagan

Vasco e Malu Futscher Pereira com Nancy e Ronald Reagan em Washington

 

 

 

* * *

José de Freitas Ferraz* :

 

Ele, na realidade, foi o diplomata mais completo que eu conheci. Na medida em que era um homem extremamente inteligente e culto, tinha uma enorme capacidade de análise, escrevia muitíssimo bem, ainda hoje se quiserem podem ver, e para além disso era extremamente gregário, era extremamente afável, era extremamente simpático, ele tinha uma necessidade terrível de ter gente à volta e tinha também a seu favor o facto de, na realidade, a embaixada em Washington para ele ser o terceiro posto que ele fazia nos EUA. [...] O que aconteceu nesse período, nos períodos em que ele tinha estado nos outros postos ia coleccionando amigos e quando chegou a Washington já tinha uma rede importante e uma rede que desenvolveu.

 

Ele tinha uma, algo que eu aprendi na altura e os colegas também, que era : ele não tolerava "nós". Ele que era extremamente simpático e afável, não tolerava que num jantar oficial, numa recepção, nós, nos apanhasse a falar uns com os outros. Porque ele explicava que vocês estão aqui para trabalhar, portanto fazem o obséquio de falar com os convidados.

 

E ele, por seu lado, se eu estivesse numa ponta da sala, era um prazer ver o Vasco Futscher Pereira e a Malu a trabalhar, como os americanos diziam, “working the crowd”, praticamente cobrindo digamos 60 ou 100 convidados que eles lá tinham.

 

 

*

Bernardo Futscher Pereira:

 

Sempre guardou cuidadosamente e transportou consigo pelo mundo a sua correspondência com o ministério, as inúmeras cartas que trocou com colegas e amigos, os recortes de imprensa em que se apoiaram os seus relatórios. É todo este manancial de documentos, com a única exceção dos que são de natureza estritamente pessoal e familiar, que hoje simbolicamente entregamos à guarda do Arquivo Histórico-Diplomático.

 

E não haverá certamente melhor sitio para o depositar do que no Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Faço-o com particular gosto por ser eu próprio um utilizador assíduo do arquivo e conhecer o seu valor ímpar para o estudo da história diplomática de Portugal – ou seja para a história de Portugal.

 

Sempre procurou transmitir a importância de fazer as coisas bem feitas. Punha um grande apuro em tudo o que fazia, e em particular naquilo que escrevia, num estilo que se esforçava para tornar límpido e elegante. Não era pessoa timorata, que se acanhasse perante os seus superiores ou que deixasse de exprimir, de forma delicada mas firme, os seus pontos de vista. Estava à vontade com toda a gente.

 

Teve uma vida muito atribulada, mas nunca se deixou abater pelas preocupações. Pelo contrário, procurou sempre gozá-la tanto quanto podia. Tinha tempo para tudo. Aliás, costumava dizer: “não ando com pressa na vida”. 

 

Discípulo de António Sérgio e Agostinho da Silva, creio que se via como um humanista. O amor pela cultura manifestava-se numa devoção pelos livros, não como objetos – não era bibliófilo nesse sentido embora adorasse todas as artes decorativas, incluindo a encadernação – mas como expressão do que de mais profundo e elevado a razão e a arte podem criar.

 

 

 

*

 

*Presidente do Instituto Diplomático

 

 

Agradecimentos: Margarida Lages, José de Freitas Ferraz, Bárbara Reis, jornal Público 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

Institute for Advanced Study

 Institute for Advanced Study, Princeton

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Os professores e o pessoal menor 

 

 

 

 

Quando eu nasci, todos os livros escritos para salvar o mundo já tinham sido escritos. Só faltava uma coisa: salvar o mundo. Assim escreveu Almada Negreiros no começo de A Invenção do Dia Claro - ou usou quase as mesmas palavras, que eu estou a citar de memória e a memória é má conselheira. Habituei-me a ela em pequeno por ter muita, tanta que uma vez pensei que, se tivesse nascido pobrezinho e os meus pais não pudessem continuar a mandar-me à escola, encontraria com certeza circo onde poderia ganhar a vida. Enganos da infância: mesmo sem ter tido de passar por essa prova, cedo me dei conta de que a memória, em vez de ajudar o pensamento a exercitar-se, o desimagina da acção e o torna preguiçoso – sendo que a passagem do tempo piora as coisas.

 

Desde o primeiro ano do liceu vivi em Lisboa, onde os clubes de futebol mais importantes eram o Sporting, o Benfica e o Belenenses, aprendendo eu naturalmente de cor as linhas de cada um deles: Azevedo, Cardoso e Manuel Marques; Canário, Barrosa e Veríssimo, etc. por aí fora. No Verão passado, em conversa com amigo inglês que não percebia porque é no coração de um dos bairros residenciais mais caros e exclusivos de Lisboa – o Restelo – estava enxertado um estádio de futebol moderno, com as grandes invasões populares periódicas e as perturbações permanentes de privacidade que tal acarreta, tive de lhe explicar que o bairro era anterior ao estádio mas que as licenças de toda a ordem precisas para poder construir este (não eram tantas quantas seriam agora mas já faziam um pacote) tinham não obstante sido obtidas porque o habitante mais importante do bairro, onde tinha a sua residência privada, se opôs às razões de peso evocadas por todos os seus vizinhos, apoiou do princípio ao fim a pretensão dos Belenenses, clube de que era adepto ferrenho e, sendo também à época Presidente da República, exerceu a sua influência junto da Câmara de Lisboa e de outras entidades relevantes.

 

O meu amigo, sem perceber nada (coitado, não é de cá) perguntou-me se Os Belenenses tinham sido o clube do Estado Novo. Respondi que achava que não porque, mais ou menos por essa época, reformado muito digno sentado ao meu lado num banco de eléctrico lia no jornal do Belenenses artigo intitulado a azul “Amor clubista: sentimento maravilhoso e inexplicável” da autoria de Miguel Urbano Rodrigues, comunista que se exilara e, depois do 25 de Abril, dirigira durante anos o Avante.

 

Entretanto passou-me pela cabeça a linha do Belenenses: faltava o interior direito; só 5 dias depois apareceu. Coisas assim acontecem cada vez mais.

 

Quanto à salvação do mundo. O Instituto de Estudos Avançados em Princeton é um templo de saber e progresso onde cheguei seis dias depois do Nine/Eleven. Passadas duas semanas, carpinteiro da casa perguntou-me como é que se distinguiam os carros deles dos dos professores. “Os professores não colam a bandeira nacional aos vidros”. Por estas e por outras é que Trump ganhou.

 

 

 

 

 

 

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Domingo, 15 de Novembro de 2015

Sete anos

 

 

 

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 Samuel van Hoogstraten (1664)

 

 

Queridos Leitores,

 

o blog faz hoje sete anos, os últimos dois com a presença semanal do Bloco-Notas de José Cutileiro. São já mais de cem crónicas com o respectivo boneco, como ele diz. São textos que me orgulho de publicar e estou-lhe muitíssimo grata por isso. Grata ainda pela ajuda que tem dado a manter vivo este espaço e por me deixar exercer funções de iconógrafa – mot savant que ouvi há uns anos numa conferência no Instituto Francês e a que logo me identifiquei. 

 

Este ano o Retrovisor recebeu outras contribuições valiosas: as fotografias de João D’Korth, cerca de 300 imagens dos anos 30 e 40, que Henrique D’Korth Brandão pôs à minha disposição e ajudou a digitalizar, e a série My Years in Angola (1950-1970) graças à colaboração de Elizabeth Davies. Agradeço ainda a Jorge Colaço, amigo e colaborador deste blog desde o princípio. 

 

Ao longo destes anos tenho acompanhado com interesse a expansão dos conteúdos em português na rede, muito graças à blogosfera, e detectado lacunas também. Ainda há personalidades do século XX em Portugal com pouca ou nenhuma presença na net. A fotografia vernacular começa a despertar mais interesse – neste momento estão patentes em Lisboa fotografias dos álbuns da Raínha D. Amélia e dos Retornados das ex-colónias – mas quanta coisa não se terá já perdido ou continua a desbotar no fundo duma gaveta? 

 

Há pouco tempo, para ilustrar um artigo sobre o poeta Tomaz Kim, o Jornal de Letras usou uma fotografia deste blog (muito bonita apesar de um pouco estragada). No verão passado o jornal Observador usou imagens que tenho coleccionado das praias de antigamente, algumas das quais eu própria descobri na rede. As fotografias de João D’Korth da Exposição do Mundo Português contêm surpresas apesar de tratar-se de um evento tão amplamente registado. Espero continuar a mostrar aqui curiosidades do mesmo género, que no entanto não vêm ter comigo ao ritmo a que eu desejaria.

 

Aos leitores que visitam pela primeira vez, ou que do Retrovisor conhecem pouco mais que o Bloco-Notas de José Cutileiro, convido à leitura de anteriores posts de aniversário.

 

Muito obrigada pela visita!

 

 

*

 

 

Álbum de Família (2008)

 

Queridos Leitores, (2011)

 

Cabinet de Curiosités (2011)

 

Na blogosfera desde 2008 (2012)

 

Cabinet de curiosités 2 (2013)

 

Tags (2013)

 

 

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Quarta-feira, 29 de Julho de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

uruguay-mundo-despidieron-alcides-ghiggia-uruguayoO golo de Ghiggia que calou 200.000 pessoas no Maracanã

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

As almas dos povos

 

 

 

Morreu neste passado mês de Julho com 88 anos herói nacional uruguaio, nome conhecido e venerado por todos os seus compatriotas (e detestado por todos os vizinhos brasileiros) porque, em 1950, marcara o golo que roubara a vitória ao favorito Brasil e a dera ao Uruguai no Campeonato do Mundo de Futebol, ainda por cima em jogo no Maracanã. “Só três pessoas calaram o Maracanã” dizia Alcides Ghiggia: “o Papa, Frank Sinatra e eu”. Mais de meio século depois do feito, polícia das fronteiras brasileira perguntou-lhe se era ele o Ghiggia do gôlo. “Sou, sou; já foi há tanto tempo...” “Mas ainda nos dói no fundo do peito” respondeu a rapariga enquanto lhe carimbava o passaporte. Pelé adolescente, que se estrearia e ficaria célebre no campeonato do mundo seguinte, contava ser a primeira vez que vira o pai chorar.

 

O desporto (o Rei e alguns outros) tem muitas datas assim, ou quase assim, com sentimentos nacionais embutidos nelas e tendemos a associá-las mais a países agitados e turbulentos como os dos Sul da Europa ou os da América Latina do que a países comedidos na expressão de sentimentos, como têm fama de ser os da Europa do Norte. (No caso acima, tentaram sovar Ghiggia à saída; o guarda –redes brasileiro nunca mais na vida teve contrato decente). Mas, seja qual for a expressão aparente - da quase imperceptível à faca e alguidar - a fundura do sentimento por trás dela nunca se deve subestimar. Um ligeiro fremir dos beiços poderá esconder abismos.

 

A 7 de Novembro de 1978, a fim de celebrar a despedida de futebolista de Iohan Cruiff (que mais tarde tornou a jogar, antes de se despedir de vez e vir a ser por fim treinador do Barcelona), o AJAX de Amestardão convidara para jogo amigável o Bayern de Munique. Por razão nunca bem explicada, ninguém estava no aeroporto à espera da comitiva do Bayern, havendo jogadores, dirigentes e pessoal técnico tido de apanhar taxis para o hotel. Não protestaram nem se queixaram mas concentraram-se bem e, no dia seguinte, em casa, rodeado por milhares de adeptos, o AJAX foi derrotado por 8 a 0. Passados 28 anos, em 2006 - por razão ainda menos bem explicada – a direcção do Bayern de Munique mandou pedir desculpa, ficando por assim dizer o incidente encerrado.

 

Faz confusão à leitora? A mim também mas foi assim e conto-o agora porque desde que a crise grega animou e os europeus começaram a andar à bulha uns com os outros, passaram a ler-se, sob formas variadas – sumários de tratados pretendendo isenção científica; catilinárias parciais e contentes de o serem – resmas de prosa dedicadas às almas nacionais. O pequeno episódio futebolista mostra, por exemplo, que os holandeses podem ser de uma falta de maneiras devastadora sem parecerem dar-se conta disso; que os alemães, se se sentirem humilhados, são capazes de aplicar as virtudes e dons do milagre alemão a punição exemplar mas, se tempo for dado ao tempo, de pedirem desculpa por o terem feito. Talvez a Europa não esteja afinal perdida.

 

 

 

 

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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2014

A Colecção Futscher Pereira

 

Romanceiro Capa 1.jpg

 

Romanceiro

Manuscrito do Autor

[autógrafo de Almeida Garrett]

 

 

 

A compra pelo Estado Português do espólio garrettiano designado por “Colecção Futscher Pereira” [1], anunciada pelo Secretário de Estado da Cultura no dia 18 de Dezembro, fecha um ciclo iniciado há dez anos pela descoberta, por minha irmã Cristina Futscher Pereira (1948-2005), de manuscritos inéditos de Almeida Garrett que contribuem de forma decisiva para o estudo do Romanceiro português.

 

Fica deste modo assegurada a ampla divulgação deste espólio, o maior desejo de Cristina, além da permanência dos autógrafos em Portugal, nas melhores condições [2]. Por fim, e também importante, com esta aquisição a Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas valoriza aos olhos do público a recolha pioneira de Garrett de temas da nossa tradição oral. São relatos de eventos históricos e histórias de amor, transgressão e violência, de grande suspense e final incerto, que mantêm plena actualidade no século XXI.

 

Para a família, a colecção permanecerá ligada à memória de Cristina, de Venâncio Augusto Deslandes e de iniciativas e amizades inspiradas pelo Autor [3]. Entregamos estes papéis com muita satisfação e um bocadinho de nostalgia.

 

 

 

*

 

 

 

 Notas: 

 

1.  A Colecção engloba mais de 400 páginas manuscritas, grande parte delas inéditas, compreendidas no período de 1839 a 1853/54.

Artigo de Luís Miguel Queirós no Público sobre a aquisição da colecção pelo Estado Português. 

 

2.  “O espólio agora adquirido será objecto de um contrato de depósito na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, enriquecendo, desta forma, o já importante espólio garrettiano de que [a instituição] dispõe”, de acordo com o comunicado divulgado pelo Gabinete do Secretário de Estado da Cultura citado pela Agência Lusa.

Espólio Garrettiano da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra [Youtube] 

 

3.

-  Blog garrettiano O Divino , 2004-2005

 

-  A Moira Encantada de João Baptista de Almeida Garrett  

Edição oferecida pelo "Diário de Notícias" aos leitores no 140º aniversário do jornal, a 29 de Dezembro de 2004

ISSN 0870-1954 Lisboa, Dezembro 2004

 

- No aniversário da morte de Garrett. Apresentação de um inédito do Romanceiro [Ermitão] 

Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana

Annualia Verbo. Temas, Factos, Figuras, 2005/2006. 

 

- As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de ‘Edição Crítica’ [Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas, Especialidade de Estudos Literários]

Sandra Boto

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

  

 

 

 

Sobre a Colecção Futscher Pereira e Venâncio Augusto Deslandes leia também aqui 

 

 

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Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O antigo regime e a revolução

 

 

Poucos anos antes ou poucos anos depois do 25 de Abril, num bar no Cais de Sodré onde o Albaninho Costa Lobo me levara a tomar um copo ao fim da tarde, entre fregueses compinchas do Albaninho, gente de negócios de barcos, havia um, devoto da memória de Salazar, que contou ter em casa discos com discursos dele que muitas vezes punha na grafonola e ouvia, a chorar.  

 

Tinha o falar franco e confiante dos praticantes de desporto (no caso, andebol no Sporting) e contava a sua história sem pompa nem pretensão. Lembrei-me hoje dessa passagem que me impressionara na altura. Nado e criado em casa de tradição republicana, que por Salazar nutria uma mistura de desprezo, desgosto e zanga; tendo por assim dizer posto entre parêntesis avô materno salazarista; dando-me com filhos de amigos dos pais de inclinação parecida e fazendo eu próprio amizades laicas e esquerdistas — nem eu nem os meus irmãos tínhamos sido baptizados — vivi a universidade, a morte do pai, a ida para Inglaterra, numa bolha oposicionista que não se desfez até à queda do regime. Vindo de Londres a Lisboa no começo de Maio de 1974, ao passar o controle de fonteira no aeroporto da Portela — “Seja bem-vindo a este país livre” disse o jovem guarda-fiscal ao devolver-me o passaporte — senti o que continua a ser a maior alegria da minha vida fora do foro privado.

 

Depois da revolução ter derrubado o antigo regime, porém, aprendi a ver Portugal de outra maneira. Episódios curiosos chegavam do mundo universitário: estudantes maoistas foram a Sintra convidar MS Lourenço para professor de filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, onde o regime anterior não o deixara ensinar. Acordo feito, até que à saída um dos maoistas perguntou “O Senhor Professor conhece o trabalho do camarada Estaline sobre lógica?” “Não, não conheço”. “Mas vai com certeza ler?” “Nem pouco mais ou menos”. Acordo desfeito. Alguns anos depois, numa aula prática com dez alunos, um deles contou a Mena Mónica de argumento espectacular num livro que vários deles tinham lido. “Num livro de quem?” perguntou a Mena. “Aqui da Joana”. Doutro mundo que eu também conhecera, o da agricultura alentejana, vinham notícias piores ainda e o que lá fui ver em 1976 mais me desencorajou. Portugal fora destapado, como dizia o meu chorado Horácio Menano. E dentro do tacho havia de tudo (incluindo alguns patriotas impolutos). Espartilhada pela Guerra Fria, a Revolução dos Cravos acabou em democracia (tal como a Primavera de Praga acabara em Inverno) e depressa me convenci de duas coisas. Primeira: não havia país mais parecido com Portugal depois do 25 de Abril do que Portugal antes do 25 de Abril. Segunda: ao contrário do que aprendera em casa dos pais, Salazar não tinha sido causa dos nossos males mas sim sua consequência.

 

5 de Outubro; 28 de Maio; 25 de Abril. Hoje, na União Europeia, com a tropa limitada aos seus deveres constitucionais, deixará de haver datas dessas e não teremos mais desculpas.

 

 

Imagem aqui 

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Sábado, 27 de Setembro de 2014

Carta a Garrett (2005)

 

 

Cristina Ténis 1965.jpg

 

 

Cristina Futscher Pereira

17 Abril 1948—27 Setembro 2005 

 

 

 

 

 

Caro Almeida Garrett

 

 

Perdoe-me tão directa interpelação, mas creia que não o incomodaria por pouca coisa. Conhece bem o drama de partir, e de partir cedo. De partir cedo demais. Sei, por isso, que entenderá o que tenho para dizer.

 

O seu nome e a sua obra são ainda venerados nesta sua terra, embora um pouco da mesma forma que os monumentos o costumam ser. Reverenciados, mas na verdade esquecidos, ignorados, e vandalizados. Nada de novo, como muito bem sabe.

 

Imagine que se descobriram os manuscritos inéditos do seu Romanceiro misturados com outros papéis que estavam em casa de Venâncio Deslandes, na época director da Imprensa Nacional. Podemos talvez imaginar as razões pelas quais o Senhor Deslandes poderá ter levado os manuscritos para casa, mas provavelmente nunca saberemos ao certo a razão de lá terem ficado até a Cristina Futscher Pereira os ter descoberto.

 

Mas o achado constituiu também um encontro.

 

A partir desse momento o destino de Cristina Futscher Pereira passou a estar ligado ao destino desses papéis, e Você, meu caro Garrett, passou a estar no centro do seu entusiasmo. Ela pressagiava que aqueles manuscritos eram um sinal da sua boa estrela, e até construiu este pequeno «templo», de onde agora lhe escrevo, para nele partilhar as boas novas com todos os interessados.

 

Mas (quase) ninguém estava verdadeiramente interessado. Bem, houve alguns lampejos de interesse pelos papéis, noblesse oblige, embora frouxos e breves. Não sei, talvez estejamos cansados de ser um País, de ter uma História tão pesada e de tão incerto saldo.

 

Além do mais, o romanceiro é uma coisa tão out, tão old fashioned you know what I mean? —, é coisa de um mundo que já não existe, e que por isso já não nos interessa. Claro, é bom que se preserve, alguém que se encarregue de guardar essas coisas. Pode ser que um dia façam falta, sei lá.

 

Apesar de tudo, o meu Amigo nem tem muito de que se queixar. Apesar do infortúnio pedagógico das Viagens, ainda faz parte do cânone, ninguém lhe impugna o episódio do Mindelo, ainda lhe dão palco nos teatros, o fraque verde, a gravata de cor e o chapéu branco ainda causam um simulacro de furor entre as senhoras. Da sua poesia sobraram as Folhas Caídas (cujo pathos aumenta se se souber da história com a viscondessa da Luz), e a sua eloquência ainda ecoa vagamente no Parlamento. Outros não se podem gabar de tanto.

 

Mas na verdade pouca gente o lê e, hélas!, cada vez menos gente fala a mesma língua em que Você escreveu páginas tão marcantes.

 

Adiante. Eu conheci a Cristina por sua causa. Digamos que foi o ilustre Autor que propiciou o nosso encontro. Assim que lhe ouvi os planos, logo a alertei para esperar muito pouco ou nada. Mas o meu cepticismo foi cedendo à sua energia e vontade de suscitar um interesse renovado pela sua figura e pela sua obra, caro Garrett. E a isso eu não me poderia negar.

 

O resultado dessa colaboração está aqui nestas páginas escritas no éter (o meu caro Amigo perdoará não me atrever sequer a tentar explicar-lhe o que isto é…), mas está também nas muitas cartas que trocámos, através da quais o nosso relacionamento atingiu a patente de amizade.

 

Caro Almeida Garrett, a Cristina Futscher Pereira morreu.

 

Partiu cedo demais, como também aconteceu consigo. Com a morte dela, morre também este espaço que ela lhe dedicou, no qual eu tive a honra e o gosto de participar.

 

Ele aí – aí?, aqui? – fica, como testemunho de como lhe pulsou o coração ao longo do seu último ano de vida. A Cristina fez o que pôde, até já não poder fazer mais. Mas fica também o exemplo, e, quem sabe?, talvez ele frutifique, talvez possa ser retomado. Não é verdade que todos lhe devemos isso?

 

Cumprido este dever de que voluntariamente me incumbi, despeço-me com a estima e a admiração de sempre.

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Se os mortos e os tempos conviverem e se misturarem como acontece na Torre de Barbela de Ruben A., estou certo de que há-de vir a conhecer a Cristina. Peço-lhe que a trate como a uma boa e dedicada Amiga.

 

 

 

 

Notas:

 

Este texto fechou o blog O Divino em 2005. O blog garrettiano fora criado por Cristina em 2004 e foi retirado dos blogs do sapo cinco anos depois.

 

Jorge Colaço é o autor dos blogs Retentiva e Conteúdos em Português. 

 

 

Leia também os posts

 

Long Live Garrett

 

Garrett inédito

 

Garrett liberal, romântico, escritor, homem de espírito, pesquisador, homem de acção...

 

Garrett leitor de Vicente

 

Venâncio Augusto Deslandes (1829-1909)

 

 

Inéditos do romanceiro garrettiano neste blog na tag Garrett 

 

 

 

 

 

 

Lettre à Garrett (2005)

 

 

Cher Almeida Garrett,

 

Pardonnez-moi de vous interpeller ainsi, si soudainement, mais, croyez bien que je n’oserais pas vous importuner pour un rien. Partir, et partir tôt, est un drame que vous connaissez bien. Partir trop tôt. Je sais, donc, que vous comprendrez ce que j’ai à vous dire.

 

Votre nom et votre œuvre sont encore vénérés dans ce pays qui est le vôtre, même si on leur voue, en somme, l’estime accordée habituellement aux monuments. Révérés, mais en vérité, oubliés, ignorés et vandalisés. Rien de nouveau, nous le savons bien.

 

Imaginez-vous que les manuscrits inédits de votre Romanceiro ont été découverts dans un tas de papiers qui se trouvait chez Venâncio Deslandes, jadis directeur de l’Imprensa Nacional. Il n’est pas difficile d’imaginer les raisons qui auront conduit Monsieur Deslandes à rapporter le manuscrit chez lui mais nous ne saurons probablement jamais le fin mot de l’histoire qui explique qu’ils y soient restés jusqu’à ce que Cristina Futscher Pereira ne les déniche.

 

Mais cette découverte fut aussi une rencontre.

 

Car, dès cet instant, le destin de Cristina Futscher Pereira s’est mêlé à celui de ces documents. Et vous, mon cher Garrett, sachez que vous avez nourri son enthousiasme. Elle pressentait que ces manuscrits étaient une manifestation de sa bonne étoile et alla même jusqu’à construire ce petit temple d’où je vous écris, pour y partager les bonnes nouvelles avec tous ceux qu’elles intéresseraient.

 

Mais, (presque) personne ne se montra intéressé. Enfin, il y eu quelques lueurs d’intérêt pour ces documents, noblesse oblige , bien qu’elles fussent mornes et brèves. Qui sait, peut-être sommes-nous fatigués d’être un Pays, d’avoir une Histoire si pesante, au bilan si incertain.

 

Et puis, un Romanceiro, n’est-ce pas quelque chose de complètement has been, si old fashioned – you know what I mean? – quelque chose qui appartient à un monde qui n’est plus et qui a donc cessé de nous intéresser ? Bien sûr, il convient de le protéger et quelqu’un doit se charger de conserver ces choses. Ça pourrait venir à manquer, un jour, qui sait ?

 

Et pourtant, cher ami, vous avez bien peu de raisons de vous plaindre. En dépit de l’infortune pédagogique de Voyages , vous faites encore partie du canon, personne ne vous réfute l’épisode de Mindelo, la scène des théâtres vous est encore ouverte, le frac vert, la cravate colorée et le chapeau blanc provoquent encore bien des émois chez la gente féminine. De votre poésie, il reste Folhas Caídas (dont le pathos augmente quand on connaît l’histoire de la vicomtesse de Luz) et votre éloquence résonne encore vaguement au parlement. Tout le monde n’a pas la chance de pouvoir en dire autant.

 

Mais en réalité, votre œuvre est bien peu lue et, hélas ! , rares sont ceux qui parlent encore cette langue dans laquelle vous avez écrit ces pages si remarquables.

 

Poursuivons. J’ai connu Cristina à cause de vous. Disons que c’est l’écrivain illustre qui est à l’origine de notre rencontre. A peine m’avait-elle fait part de ses projets que je lui disais de ne rien attendre, ou si peu. Mais mon scepticisme a cédé face à l’énergie qui l’animait et à son désir d’éveiller un intérêt renouvelé pour votre personne, cher Garrett, et pour votre œuvre. Comment aurais-je pu refuser ?

 

Le résultat de cette collaboration est là, dans ces pages écrites dans l’éther (vous me pardonnerez, cher ami, de ne pas me risquer à la moindre explication...) mais aussi, dans ce riche échange épistolaire d’où est née une amitié certaine.

 

Cher Almeida Garrett, Cristina Futscher Pereira n’est plus.

 

Elle est partie trop tôt, comme vous. Avec elle, disparaît également cet espace qu’elle vous avait consacré et auquel j’ai eu l’honneur et le plaisir de participer.

 

Et lui là, – là ? Ici ? – reste pour témoigner de ces battements de cœur que vous avez provoqués tout au long de sa dernière année de vie. Cristina a fait ce qu’elle a pu jusqu’à ne plus pouvoir. Mais son exemple est là et, qui sait, peut-être fera-t-il des émules, peut-être sera-t-il repris ? N’est-il pas vrai que nous lui sommes tous redevables ?

 

C’est le devoir accompli - dont je me suis moi-même investi - que je vous salue, toujours plein d’estime et d’admiration.

 

 

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Si les morts et les époques se rejoignent et se mêlent comme dans La Tour de Barbela de Ruben A., vous finirez par faire la connaissance de Cristina. Je vous demande de lui accorder le traitement que l’on réserve aux amis sincères et dévoués.

 

 

 

Traduction de Laurence Corréard

 

 

 

Lettre à Garrett fut le dernier texte publié dans O Divino , un blog créé par Cristina en 2004.

 

 

 

 

publicado por VF às 06:41
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Terça-feira, 10 de Junho de 2014

Dia de Camões

 

 

10 de Junho: dia de Portugal — dia de São Camões ... Depois de muitos anos e de alguns regimes que trou­xeram cambiantes ao calendário cívico e suas combi­nações com o litúrgico, a Nação canonizou civicamente o seu épico fixando no dia da sua morte o da comuni­dade nacional. Por acaso, três dias antes do dia onomás­tico de António, o santo português por excelência, paralelamente tornado dia festivo de Lisboa, embora superado no calendário municipal pelo do mártir Vicente e seus corvos domésticos.

 

Porquê a data da morte do poeta piedosamente embrulhado num lençol de esmola, diz a lenda? Porque é a única data certa do seu bilhete de identidade, tão falho de dados firmes como abundante em desgraças e aventuras. Isto significa simbolicamente que uma glória a tal nível se paga a preço de sangue. O fanal humano de um povo tira a sua luz das cinzas de quem o encarnou: Que não é prémio vil ser conhecido, etc.

 

Mas, apesar de tudo, Camões não é uma glória popular. Ou, se o chega a ser, é indirectamente. O povo, sem acesso ao estilo grandíloquo e corrente de Os Lusíadas, só reteve o perfil sofredor e aventureiro do autor. Teve de o assimilar à escala dos seus heróis de terreiro,  dos que  com  ele  compartilham a  sorte mofina e a existência bulhenta em feiras e procissões. Por isso o verdadeiro altar cívico de Camões, embora nem de longe florido como o altar de Santo António nas escadinhas da Alfama, é o tabuleiro de faianças em que verdeja o busto de barro do épico, barbado e de pálpebra descida. Em vez do resplendor dos santos — a coroa de loiros dos poetas.

 

A ingénua, terrível profanação vai mesmo muito mais longe. Tenho diante de mim, sempre que escrevo, uma caneca de loiça — a verde, branco e castanho—, uma caneca de vinho que em vez de um frade glutão representa Camões naquele preparo. Bigode e barba parecem acabados de cofiar, nos ritos do beber das tabernas. Oferta que devo a António Duarte, que se documenta no povo para esculpir os nossos maiores com verdade e com força.

 

Mas a irreverência resulta afinal num símbolo profundo e ousado. O oleiro imaginário converte o cantor de Baco em Baco mesmo. Camões, soldado de África,  náufrago na China, com uma pobre mulher indígena por amparo, tendo acutilado um homem dos arreios do Paço numa procissão da Corte e sido por ele perdoado (como fazem os pobres uns aos outros nas suas fáceis brigas);  Camões, que Diogo do Couto conheceu «vivendo de amigos» na ilha de Moçambique, como tanto inadaptado a repatriar de esmola — acaba naturalmente em caraça de caneca ao alcance de fei­rantes e turistas.

 

[...] Promovendo Camões ao absoluto biográfico da encarnação dos seus valores, o povo português como que oculta a si mesmo uma culpa ancestral. O que nos contemporâneos do poeta foi displicência ou incúria, fraca atenção a uma luz que tentava fazer de nós farol do Mundo, tornou-se, na posterioridade, um zelo repentino em sublimar o homem tratado pessoalmente como mesquinho. É certo que ele mesmo se requintou numa conduta precária, ele mesmo desdenhou o bom comportamento: Erros meus, má fortuna, amor ardente / Em minha perdição se conjugaram. A alquimia da grandeza humana por representação pessoal da grandeza de todos tem esse preço de sangue.

 

No fim de contas o que é, que significa Camões?

 

Pois é o «lugar onde» da consciência de missão de um povo à porta dos Tempos Modernos, criador de cami­nhos, de universalidade, de comunhão humana à escala do Globo Mundo, como diz Fernando Pessoa. Através de um programa de interesses e estímulos materiais, de «dilatação de império»? Sem dúvida. E como não? Deus escreve direito por linhas tortas, diz-se. O «direito», o justo, o generoso da humanização pelo enlace dos conti­nentes estanques durante milénios, fechados historica­mente em si mesmos, sem trato nem troca, teve de passar por algumas vias duras. São as «linhas tortas» da história. Descrevê-las, endireitá-las na boa intenção que tudo justifica e resgata, fazer do farol de Santelmo a pequena luz moral que prevalecerá no fim — foi o segredo  de Camões.  Na voz de Os Lusíadas tudo é «sublime», «sublimado», «excelente», «supremo». As estâncias do poema são uma oficina verbal de transfor­mações prodigiosas. Mas os sofrimentos do poeta, que andou nas toldas dos navios como os seus heróis do mar, autentica-as. Sendo sábias demais, o povo povinho mal as sente. Mas adopta o poeta quase cego, pobre como ele mesmo, e basta. E até quando traz a sua triste verónica a uma caneca de vinho o venera a seu modo.

 

[11.6.1971]

 

Vitorino Nemésio

in  Jornal do Observador

© Editorial Verbo e Vitorino Nemésio, 1974

 

 

 

 

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Terça-feira, 27 de Setembro de 2011

Le monde sans vous (2)

 

 

Ma sœur la vie, ma sœur mon amie. Sœur à jamais jeune et enjouée, sœur lunatique, amie fougueuse, imprévisible, tantôt prodigue, tantôt avare. Sœur frondeuse, amie fugueuse. Mais la mort, elle, comment la qualifier? Quelle sœur est-ce là, quelle amie effarante ?

Elle n'a pas d’âge, celle-là, et aucune saute d'humeur; elle n’est ni avare ni prodigue, et jamais elle ne fugue, Elle marche dans les pas de la vie, depuis le tout premier. Pas à pas, avec grande minutie, et une totale discrétion. Et un jour, à un instant donné que nul ne peut prévoir, elle accomplit un brusque saut, elle prend la place de proue — elle prend toute la place. Le rapt qu'elle commet est radical, irrévocable. Irréparable.


 

 

Sylvie Germain

in Le monde sans vous  p. 31

© Éditions Albin Michel, 2011


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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

Il faut redevenir classique

 

 

Nul n'ignore, depuis Platon, Aristote et saint Augustin, combien la tâche est rude de faire le mal pour le mal. Une troupe de brigands s'invente des règles. Les lois de la mafia passent pour rigoureuses. L'homme qui se goinfre et se vautre poursuit ce qu'il estime le meilleur. De même celui qui torture et qui tue. L'amour du bien est le ressort de toutes les actions, y compris les plus viles.


Pourtant, l'hommage que rend sans cesse le vice à la vertu n'a rien qui rassure. Toutes les abominations de notre siècle ont été perpétrées pour la bonne cause, universalité de la classe, pureté de la race, service du bon Dieu... Les bonnes causes, remarque Soljénitsyne, fonctionnent en multiplicateurs du crime. Elles transforment l'activité artisanale d'un Landru en l'entreprise millionnaire et funèbre d'un Pol Pot. Athalie massacre par souci du Bien de l'État. Joad par respect de Dieu. Idéaux et idéologies aveuglent comme un «bandeau fatal». D'édifiantes prosopopées animent le crime de l'intérieur, ou de l'extérieur le dissimulent.


«Nous courons sans souci dans le précipice, après que nous avons mis quelque chose devant pour nous empêcher de le voir », écrit Pascal. Les classiques n'auraient jamais eu l'impudence d'annoncer la « fin des idéologies ». Une de perdue, dix de retrouvées.


Si la notion de classe ne rassemble plus, le phantasme de l’ethnie fait florès, la communauté des fidèles un tabac. Quand la science ne soutient plus les fariboles de lutte finale, la religion prend le relais. Les idéologies — le Grand Siècle les nommait imagination ou opinion — valent moins pour ce qu'elles racontent que par ce qu'elles interdisent d'appréhender. Leur force persuasive est soumise à variation, molle ou dure, universelle ou locale, mais tant qu'elles accomplissent leur travail de bouche-vue elles répondent à la demande.


De nos jours, les postmodernes concluent abusivement de l’effondrement du système soviétique à la mort absolue du marxisme. Ils se plantent définitivement quand ils extrapolent la fin des « grands récits ». Les miliciens serbes chantaient la bataille du champ des Merles (1389) en liquidant les civils croates de Vukovar (1991) et les Bosniaques de Srebrenica (1995). Les tueurs du Front islamique du salut égorgent les collégiennes et les chanteurs de raï tout en se disputant le titre de calife, d'émir et les traditions qui collent à ces vocables. Il ne faut jamais sous-estimer l'inépuisable plaisir des contes à massacrer debout et à jouir en rampant.


En matière d'idéologie, la fonction-récit reste subordonnée à la fonction-bandeau. Les nostalgies fallacieuses, l’avenir radieux, les lendemains qui chantent ou les cieux bienheureux sont livrés en prime. L'important est de ne pas prêter attention à la boue qui cerne et au sang que l'on verse.

 

André Glucksmann

in Le Bien et le Mal, Lettres immorales d’Allemagne et de France

[Lettre V , Pile dans le Noir! : Racine offusque les jolis coeurs — Paris oublie bergers et bergères entre 1660 et 1685 - Le Monde est un théatre— Les fils d'Oedipe font l'actualité—Il faut redevir classique]

© Éditions Robert Laffont, S.A., Paris, 1997.

 


publicado por VF às 13:18
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