Quarta-feira, 20 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Favoritas do Sóba, Angola

 

José Cutileiro

 

 

O passado e o presente

 

Desabafo de leitor amigo: «Foi quando se perdeu o respeito pelos mais velhos que começou a dégringolade… afirmo eu agora que sou velho». A leitora terá o seu exemplo preferido desta evidência; eu tenho o meu, não da minha própria experiência de vida mas de bisbilhotices registadas em estudos que alguns querem fazer passar por ciência, aos quais me dediquei quando era novo.

 

Em quase toda a África ao sul do Sara, antes da chegada dos colonos europeus, os velhos mandavam em tudo quanto lhes coubesse na hierarquia da tribo: ficavam com o melhor das colheitas, casavam com as pequenas mais bonitas, dirimiam pendências internas, comandavam os seus contra o mundo. Os brancos trouxeram  muitas mudanças, por exemplo, a autoridade da língua do colonizador (ainda hoje, em Madagáscar, pastores dão ordens às vacas em francês), sendo a mais importante, nisto de velhos e novos, o pagamento de trabalho a dinheiro. O trabalho era e foi por muitos anos, agrícola e mineiro, privilegiando homens novos e robustos, enquanto o dinheiro dos brancos se tornara na única moeda de troca corrente e fiável. De repente, homens novos de origem modesta podiam pagar dotes acima das posses dos velhos mais distintos da tribo. A ordem antiga resistiu simbolicamente, aqui e além (em recantos bucólicos, há reis com trono mas sem poder), mas o grosso das coisas passou a ser regido pela ordem nova donde partiram as élites dos novos países independentes. Os velhos deixaram de constituir uma espécie de Senado da sua terra; sobrevivem esquecidos à mercê da caridade dos novos. Muitos pensarão, como o meu amigo, que a dégringolade começou quando lhes perderam o respeito.

 

Entendo-os mas não simpatizo com a nostalgia. O pitoresco da ordem antiga tinha incómodos. Aquí há 75 anos o meu chorado amigo Carlos Manuel fora a tourada em Santarém com o Fernando e o António Mascarenhas e o Conde da Torre, pai deles. Carlos Manuel deu a certa altura opinião sobre a lide; o Conde, sentado ao lado dele, discordou e deu-lhe uma estalada. Carlos Manuel levantou-se e saiu, no silêncio embaraçado da bancada. Ao fim do dia, no bar do hotel (nesse tempo o mundo era maior e quem viesse aos touros a Santarém ficava a dormir lá) o Fernando e o António foram ter com o Carlos Manuel: «O Pai está incomodadíssimo com o que se passou esta tarde. Vai lá pedir-lhe desculpa».

 

Tudo isto se passava nesta terra de costumes brandos onde Álvaro Cunhal se doutorou na Faculdade de Direito de Lisboa, arguido por Marcello Caetano, indo dormir à prisão e lá ficando depois de doutor e onde o tenente-coronel Majolinha, na Flandres durante a Grande Guerra, sempre que fazia disparar morteiro contra os alemães, rezava para não matar ninguém. Havia muito pior na Cristandade. O Marquês de Custine conta que a sociedade russa do seu tempo estava dividida em 14 classes, podendo os de cada uma delas bater nos das classes inferiores. Isto bem antes do bolchevismo.

 

A dégringolade fez bem a muita gente.

 

 

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Quarta-feira, 13 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

fernandopeyroteo

Fernando Peyroteo

 

José Cutileiro

 

Todo o mundo é composto de mudança

 

Ou assim Camões disse, talvez por palavras parecidas: estou a citar de memória que é mais traiçoeira ainda do que a pior das mulheres vítimas de violência doméstica aos olhos dos que lhes batem e, às vezes, de quem julga estes nos raros casos que são denunciados à polícia. Os modernos – nós, agora – estão a pôr de pernas para o ar costumes seculares. Miguel de Unamuno que, velho e alquebrado, na universidade de Salamanca replicou ao grito de Muera la intelectualidad traidora! Viva la muerte! do general franquista Millan Astray levantando-se e proclamando Este es el templo de la inteligencia y yo soy su sumo sacerdote!, anos antes, válido e em tempo de paz, teria gracejado – contaram-me, não vi escrito, mas se não era verdade era verosímil – que um homem devia todos os dias dar uma sova à mulher porque mesmo que ele não soubesse porquê ela sabia. De resto, não há sistema simbólico tradicional no mundo de que se tenha notícia (e são muitíssimos) em que a mulher não esteja do lado do mal, enquanto o homem fica sempre com o bem. Como se diria agora, há fake news que vêm de muito longe - entre os cristãos, com abundância, até da Bíblia.

 

Passar a tratar as mulheres de igual para igual é mudança nova e tanto quanto se saiba única. (Em sociedades matrilineais, por engano ditas matriarcais, o filho não herda do pai mas do irmão da mãe; quem quer, pode e manda continua a ser o homem). Quem diz mulher diz judeu. Estão a aumentar muito os casos de antissemitismo na Europa, hoje criminalizáveis. Essa mudança legal vai contra a tradição cristã que, durante quase dois milénios, maltratou os judeus, desde os pogroms da Europa oriental, percursores da solução final nazi, passando pelas conversões forçadas, até chegar à exclusão de clubes e outras descriminações raciais brandas que ainda duram. A pesar do peso dessa tradição, e de racismo generalizado (incluindo hebreu) no Médio Oriente, tratamento igual a judeus e goyim parece ter chegado à Europa para ficar. Outra mudança nova.

 

A mudança de que falava Camões é a mudança das estações, quatro vezes por ano voltando tudo ao mesmo, salvo no homem que a partir de certa idade chama à mudança envelhecimento seja qual for a estação em que entre. Quando, da mudança cíclica, se chega à mudança cada vez para pior da senectude, abre-se ainda mais um capítulo que pode às vezes fazer outros levantarem o sobrolho. Casal amigo de Frau Tichbein, mãe de Emílio (o dos detectives), achava que no tempo deles «o céu era mais azul e a cabeça dos bois era maior».

 

Levantar o sobrolho aos outros e ao próprio. Dei por mim a achar que os políticos de hoje, comparados com os do meu tempo (a que verdadeira política chegou em 1974, antes havia presos que éramos nós e carcereiros que eram eles) pareciam toscos e rascas. Depois fui mais atrás: aos 10 anos achava que o Presidente da República devia ser Fernando Peyroteo, avançado-centro do Sporting e da selecção nacional. A gente vai mudando.

 

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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

foto Inês GonçalvesRapariga católica em Panjim © Inês Gonçalves

 

José Cutileiro

 

Só arrelias

 

 

Leio na primeira página do jornal: «Acusação de violação divide a Índia». A Índia é enorme (a maior democracia do mundo, nunca esquecer) e lá não direi que as violações sejam mais que as mães, mas são quase. Esta haveria de ter que ver, para chegar à capa de um diário internacional e fiquei curioso. Até porque gosto da Índia, sinto-me lá bem, falo sem esforço como Peter Sellers em The Party (ou Luis Amorim de Sousa quando lhe dá para isso) e a imitação não é troça, é homenagem, pedido de inclusão, vontade da companhia. Entendo-os bem, desde os jovens contabilistas a jantarem no hotel em Mogadiscio com olhinho triste de punheta e juros compostos  (nos tempos pacíficos do ditador Siad Barre, antes da canalha islamista se meter a purificar o país) até à brasa a quem perguntei numa festa em Londres «Are you from Sweden?», me respondeu «Is that an opening gambit?» e acabámos os dois na minha cama em Oxford. E a memória de fertilidade sem fim, vista do avião de Bombaim com o seu aeroporto de Santa Cruz  até Nova Deli, em grandes manchas vermelhas e verdes de paisagem. Países houve onde me senti de fora assim que lá entrei. Na Índia, em viagens separadas por 60 anos, uma espécie de líquido amniótico virtual protegeu-me dos males do mundo.

 

Curioso, fui ver. Em letras menores que as do título mas maiores que as do texto que introduziam e na legenda de fotografia de eclesiástico saído de um carro e ladeado por dois polícias, aprendi que freira dizia que bispo abusara dela (treze vezes) e que a hierarquia católica urgira que ela se calasse. Senti-me ainda mais em casa. Filho e neto de alentejanos republicanos anticlericais (o Pai vivera crise mística aos 17 anos, casara pela igreja, mas quando eu nasci passara-lhe e não fui baptizado) os malefícios, verificados ou supostos, da Santa Madre Igreja eram pitéu da conversa quotidiana (como no Sul de Espanha: Un cura es un señor a quien todos llaman padre menos los hijos que le llamam tio), lembro-me de folheto ainda do tempo da monarquia que esclarecia na primeira página «A palavra padre é aqui empregue no seu sentido o mais pejorativo» - e depois havia padres anafados e contentes que discretamete tinham amigas.

 

Que até na India a Igreja Católica se veja metida em sarilhos de sexo preocupa-me. Nos Estados Unidos – e alhures – parecem nunca mais acabar os casos de pederastia, prática hoje condenada embora nem sempre tenha sido assim. Espartanos, atenienses, romanos, militares e civis, revigoravam-se com ela. E, de Marrocos ao Afeganistão, ainda hoje faz parte dos costumes.

 

Desprestígio da Igreja de Roma preocupa-me por ela ser parte importante do cristianismo que trouxe à história valorização única do homem. Tu es immortel et irremplaçable diz o capelão ao condenado à morte num filme de Cayatte. Imortal julgo que não mas insubstituível sim – o que em tempo de inteligência artificial, mira constante do lucro e imperador Xi na China poderá escapar demais a quem tenha agarrado o poder.

 

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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

akhenaton-principal-kAdD--620x349@abcAkhenaton

 

José Cutileiro

 

 

 

Rex/Pontifex

 

 

As palavras são latinas mas os conceitos vêm dos egípcios que inventaram as traves mestras do poder neste mundo e no outro. Tudo o que veio depois deles – de gregos, romanos, cristãos, muçulmanos – foi construido sobre esses alicerces, expressos inter alianas maravilhas mais antigas ao Sul do país e nas  pirâmides de Gizé a Norte, dizia-me amigo que há dias subiu o Nilo, parando nos dois hoteis preferidos de Agatha Christie, um típicamente inglês colonial, o outro já afrancesado e ambos excelentes para alguém se desalterar e meditar nos intervalos de tal regresso às origens, bafejados há cem anos por ventoínhas e agora por ar condicionado. O meu amigo só lamentava que, perante tanta sabedoria ancestral, não se pudesse pedir agora ao General Abdel Fathah el-Sisi que se fosse instalar em Londres para meter na ordem o bando de descerebrados, eleitos e eleitores, que numa mistura surpreendente de incompetência, ignorância e engano, meteu o Reino Unido na camisa de onze varas do Brexit.

 

 

Respondi-lhe que inventar tudo, tudo, não tinham. Escapara-lhes o monoteismo, embora o faraó Amenofis IV – ou, como ele preferia ser denominado, Akhenaton – durante o seu reinado tentasse promovê-lo. Foi, para os artistas (sempres solícitas ao gosto dos seus patronos), tempo diferente dos outros: o que chegou até nós dos seus ateliers e oficinas está cheio de esculturas e de restos de pinturas murais naturalistas, como não se encontram em nenhum outro momento da história egípcia, desde dos primórdios desta até à invasão romana, nem.em qualquer outro lugar antes do Renascimento. Quando, aos doze anos, eu soube destes sucessos, Akhenaton passou a ser um dos meus herois, juntamente com Fernão de Magalhães e o capitão Scott que com a sua expedição atingira o Polo Sul para encontrar a bandeira da Noruega, hasteada por Amundsen que lá chegara antes e, no regresso, morrer de frio com os seus companheiros na neve da Antártida.

 

Entretanto, mudei muito. A admiração por Akhenaton mantém-se mas com  grande beliscadura: estou há décadas convencido de que o monoteísmo é um dos maiores flagelos do mundo; que os males sancionados pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacob excedem de longe os bens que se lhe possam atribuir . Na tradição cristã seguem-se ao monoteismo, o cristianismo primitivo e a Reforma - fora das igrejas mas em veias semelhantes eu acrescentaria Marx e Freud). E para tudo isto, lembrando-me da sugestão do meu amigo, nem o General el-Sisi chegaria.

 

Ia continuar sobre monoteísmo e lei e ordem à l’égyptiennemas, escrevo terça-feira, acabo de saber que o ex-presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, preso há 7 anos, acusado de crimes contra a humanidade, foi absolvido e mandado libertar pelo Tribunal Penal Internacional. Gostei que o Tribunal começasse a ganhar juízo – e lembrei-me de Gbagbo, ainda presidente a dizer a jornalista francês: « Pois é, vocês querem que a gente faça a Revolução de 1789 sem ofender a Amnistia Internacional ».

 

 

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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Caution FS

 

José Cutileiro

 

 

De desejos do bem a práticas do mal

 

 

«All politics is local politics» disse famosamente Tip O’Neill, muitos anos presidente da Camara dos Representantes em Washington, que nunca pôs os pés na Embaixada Britânica porque como todos os O’Neill era descendente de irlandeses e ha ódios de honra que mesmo que não se sintam (deu-se sempre bem com os embaixadores britânicos) se devem simbolicamente significar. Ódios que estão agora a subir de dia para dia em quase toda a parte, numa espécie de moda que de Trump a Bolsonaro, de Erdogan a Putin, de Duterte a Orban, de Le Pen a Salvini, e por aí fora, vão envenenando as relações entre pessoas, tribos, nações e tornando cada vez menos improváveis guerras que os europeus, depois de cinquenta anos no casulo do abrigo atómico fornecido por destruição mútua garantida às mãos de Washington, Moscovo ou ambas durante a paz da Guerra Fria, julgavam tão extintas como a varíola nesta península da Ásia, tão linda que Zeus um dia se transformou em touro para dormir com ela.

 

Não estavam. E, neste ‘cada-um-a-querer-o-seu-e-ou-tudo-ou-nada’, talvez nos devessemos preocupar com nossos filhos e netos. (Embora, a avaliar pelo pouquíssimo que se faz para deixar o Planeta vivável por quem venha a seguir, a ideia de sacrificar prazer de hoje a prazer futuro - sobretudo se esse prazer futuro já não for nosso – não pareça ser regra geral de vida mas mania de muito poucos). Deveríamos, pelo menos, ser capazes de contradizer  as mentiras inventadas  e orquestradas para deitar abaixo decência de viver que, com uma origem distante no lugar do homem no mito cristão, se começou a impôr no Renascimento, a seguir no Iluminismo, ganhou duas Grandes Guerras e, depois do fim da segunda, derrotados nazismo e fascismo, estabeleceu o Plano Marshall e o Pacto do Atlântico e veio a meter o comunismo no caixote do lixo da História.

 

Contra o que Talleyrand julgava, la douceur de vivre é muito maior e chegou a muito mais gente depois da Revolução. Dos seus caboucos fazem parte arranjos constitucionais que enquadram direitos e deveres de quem governe e de quem seja governado. Quando se toca neles – como agora na Polónia e na Hungria – está-se a fazer mal ao Homem, abrindo caixa de Pandora  cheia de víboras. As fake news que nos bombardeiam enfraquecem a defesa da decência, sem a qual a vida seria muito mais dura e brutal mas é difícil acabar com elas. Por exemplo, lembra o historiador-guru israelita Yuval Noah Harari, a Bíblia está cheia delas  e embora sejam raros os que creem ainda que o Mundo começou há 5.760 anos ou que Nossa Senhora concebeu virgem, muitos acreditam em outras inverosimilhanças.

 

Não importa. Metamos entre parêntesis os Deuses de cada um, e ataquemos mentiras sobre o que esteja provado lógica ou empiricamente. Que eu saiba não vingam fake news sobre o teorema de Pitágoras, o princípio de Arquimedes ou as teorias  da relatividade de Einstein - e por aí abaixo. A eito e sem tréguas, senão adeus douceur de vivre.

 

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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Karajan - Lipatti

 

 

José Cutileiro

 

Elites

 

Há coisas antigas quanto a espécie humana. Em toda a parte, a guerra (a paz é uma invasão recente) vinda já de primos antepassados próximos - Cromagnon; Neandertal; alguns africanos - e, em quase toda a parte, o arranjo das gentes em mó de cima e mó de baixo, mesmo quando ainda não haja agricultura a separar quem tenha a terra de quem a trabalhe. De vez em quando, os da mó de baixo acham que a sua voz deveria ser mais ouvida do que o é e o bom povo passa de querer mal aos vizinhos – alfacinhas a tripeiros, portugueses a espanhóis, europeus a africanos, matéria prima da história tal como ela é (era ?)  ensinada nos liceus e atitude aprovada por pais da Pátria e por forças vivas  da nação - a querer mal a patrões se for por eles empregada e a ricos em geral se achar que  não pertence ao grupo.

 

A França é o país europeu que se especializou na segunda variedade e, como os vinhos, tem anos piores e anos melhores. 2019 promete, com os coletes amarelos na rua, a bloquear rotundas e pagamentos nas autoestradas e a proclamar urbi et orbi que o mundo é mal feito e que é preciso refazê-lo melhor (propondo muitos o referendo – cidadão, como eles dizem – processo seguro de enrolar o povo e abrir a porta a ditaduras). Quanto à contribuição directa dos coletes amarelos para organização social decente de aldeias, cidades, países e continentes onde porventura tomassem ou influenciassem o poder, pouco sabemos ainda mas, por outro lado, talvez saibamos já tudo. Se um deste dias a leitora se meter à estrada em França e passar por grupos aguerridos de coletes amarelos, se não levar à vista no para-brisas do seu carro um dos ditos coletes e não tocar muitas vezes a buzina fazem-na passar devagar e gritam-lhe insultos. Les gilets jaunes acreditam em « zero-sum games » como se diz agora, isto é, são incapazes de compromisso e, portanto, nocivos à democracia. Dito isto, repito o que já disse aqui muitas vezes: depois do colapso da União Soviética o capitalismo tomou o freio nos dentes (ou, pior ainda, passou a obedecer cegamente às instruções de uma clique que o controla e sabe muito bem o que quer, como dantes nas visões conspirativas dos comunistas mais néscios) de tal maneira que o fosso entre ricos (cada vez menos) e pobres (cada vez mais) continua a cavar-se muito depressa, levando a minha mulher a dias a ter inveja do meu BMW,  em vez de como dantes, na tradição das trente glorieuses, sentir nele uma segurança cobrindo o seu VW.

 

As elites? Escrevo no dia de Natal. Ainda deitado ao fim da manhã, chegaram-me lá a cima, vindos da sala no primeiro andar onde está a música, Lipatti ao piano e Karajan a dirigir a orquestra no andante do concerto para piano n°21 em dó maior de Mozart, no festival de Lucerna de 1950, gravado por auditor que o ouvia na telefonia e ressuscitado por técnicos no CD que eu tenho. Ramalhete de milagres de génio musical e tecnologias contemporâneas trouxe-me  bem-aventurança neste dia sagrado dos cristãos de 2018.

 

 

 

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Quarta-feira, 28 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

giovanni-domenico-cerrini-vanitas--time-reveals-the-truthTime reveals truthGiovanni Domenico Cerrini 

 

José Cutileiro

 

Armadilhas da verdade

 

“A verdade, Zé, é uma água muito quente onde eu de vez em quando meto um dedo para ver se ainda queima e ainda” disse-me o Luís Sttau Monteiro que era mitómano e encantador, uma manhã no Almanaque.

 

A mitomania é incurável. Cardoso Pires fora a França por uma semana mas ficara lá dois meses e o Luís começara a dizer que recebera carta dele de vinte páginas, algumas manchadas de lágrimas, em que narrava amor novo e intenso que o mantinha fora. Quando voltou, alguém lhe falou da conversa do Luís e o Zé não gostou. Convocou-o para reunião no Almanaque e pediu-me para ir também; contou-lhe o que lhe tinham dito da carta que não lhe havia escrito e perguntou-lhe se era verdade. O Luís respondeu que sim mas não por culpa dele: mentia compulsivamente porque em pequeno dera queda grave, fora operado à cabeça e “metade do meu crânio é de platina”. O que era mentira. O Zé trocou olhar comigo e aceitámos a explicação.

 

Para quem não seja mitómano, as armadilhas são outras. Por exemplo: adolescente, o meu amigo António passou uns dias na Irlanda em casa de condiscipulo no colégio interno de Millfield. Na primeira noite sonhou que no dia seguinte iam a outra casa de campo próxima onde havia rapariga muito bonita, música como ele, e que dormiam juntos. No dia seguinte tudo aconteceu assim. Quando em Londres me contou acrescentou: “Nunca na vida acreditei em coisas destas. E agora?”

 

O Almanaque e Millfield foram há muito tempo. Na semana passada, taxista disse-me esperar “não estar a ofender ninguém mas não acredito em religiões, em nenhuma. Nunca ninguém voltou da morte para nos dizer o que havia”. Respondi que não estava ofendido e continuámos a conversa. De uns 65 anos, belga nascido em Bruxelas a mãe espanhola católica e pai muçulmano marroquino, vivera desde pequeno entre duas fés e acabara por não aceitar nenhuma. Depois da morte dos pais continuara a ver gente da família da mãe, dava-se ainda com alguns deles - “os católicos são muito tolerantes” – mas a família do pai ostracizara-o porque acabara a não acreditar no Deus deles. Eram os seus parentes paternos extremistas muçulmanos, perguntei? (Bruxelas tem muitos. Do bairro de Mollenbeek sairam os cabecilhas dos ataques terroristas em Paris de 2015 e tinham saído para o Afeganistão os assassinos do comandante Massoud em 2001). Não. Eram muçulmanos correntes, iguais a tantos outros. “São todos fanáticos. Lembra-se da fatwa contra Rushdie? Está em vigor e ele vive escondido. E os marroquinos são como os persas: quem não tiver a fé deles é inimigo.”

 

Contra Trump e Orban, espíritos bons e justos exortam-me a distinguir entre Islão verdadeiro, de amor e tolerância, praticado por milhões de muçulmanos e o credo distorcido e cruel dos terroristas que me queiram matar. A experiência do taxista é que no Islão os bons são tão pouco de fiar quanto os maus mas não sei se os pais dele se tratavam bem ou mal, davam ou não bom viver em casa. A verdade nem veio nem se foi.

 

 

 

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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

12 angry men

Henry Fonda em “Doze homens em Fúria”

Sidney Lumet, 1957

 

 

José Cutileiro

 

 

Homens brancos cristãos e budistas de ambos os sexos

 

 

 

Às vezes há quem julgue que a invenção do pecado original foi  estratagema de poder destinado a reforçar a lei e ajudar a meter o pessoal na ordem, mormente as mulheres. Noutras alturas, os sinais de bestialidade humana são tão evidentes que não estranha que povo de pastores de há três mil anos, sem recurso a Nações Unidas, ADN ou Facebook, recorresse a mitologia própria para tentar criar espaço onde o bem, que também existe, pudesse medrar.

 

O que não falta hoje são sinais desses. Donald Trump é considerado o mais divisivo dos presidentes dos Estados Unidos de que há memória mas coisas lamentáveis que se vão sabendo dele não enfraquecem a determinação dos seus eleitores. Mais de 80% dos Republicanos agradecem a Deus tê-lo como presidente (mesmo os que lhe encontram defeitos e pecados graves estão contentes e acham que é preciso “deixar trabalhar o homem”). Hoje estuda-se tudo e sabe-se que os seus apoiantes mais incondicionais e determinados são homens brancos cristãos. Porque eu entendo que Trump está a fazer muitíssimo mal aos Estados Unidos e ao mundo, pu-los no começo do título desta página de bloco-notas.

 

Pus a seguir budistas, de ambos os sexos. Na Birmânia, durante décadas, a Senhora Aung San Suu Kyi viveu em prisão domiciliária donde chefiava protesto contra a ditadura militar do país, atraiu a simpatia de defensores de direitos do homem de toda a parte, recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1991, foi comparada a Gandhi e, ajudada por mudanças no mundo – o colapso da União Soviética, o fim do apartheid, a eleição de Barack Obama, por exemplo - conseguiu liberalizar o regime e tornar-se uma espécie de primeiro-ministro, com fiel acompanhante como presidente. Entretanto, porém, as autoridades civis e militares da Birmânia têm perseguido com ferocidade rara a minoria muçulmana dos Rohingya - na Birmânia há 209 minorias; em Portugal e Ilhas Adjacentes, por muito que se puxe pelos mirandeses, não há nenhuma - de tal maneira que activistas indignados têm exortado a Senhora a devolver o Prémio Nobel e missão das Nações Unidos condenou o que lá se passa e recomendou inquérito a crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O governo da Birmânia declarou que não autorizara a missão a entrar no seu território e por isso não aceita os resultados.

 

Duas ilusões de adolescência que haviam sobrevivido a mais de 80 anos de atribulações do mundo foram assim levadas em duas penadas.

 

Os americanos do povo, bons, simples, capazes de chegarem à boa solução dos problemas (às vezes, depois de terem experimentado todas as outras lembrara Winston Churchill), defensores da verdade e da decência, admiravelmente ilustrados no filme de Sidney Lumet  “Doze homens em Fúria” (Twelve angry men), 1957, com Henry Fonda.

 

E os budistas, homens e mulheres com religião mais sábia e bondosa do que as outras, incluindo peculiaridades irracionais tal o Dalai Lama, mas incapaz de deixar fazer mal a uma mosca.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 4 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

bíblia

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Falar com Deus

 

 

Julgo haver sido Oliver Sacks – neurologista anglo-americano autor, famosamente, de “O homem que julgou que a mulher era um chapéu” (The Man who Mistook his Wife for a Hat”, de outros ensaios da sua arte e também membro de gang de motociclistas californianos barbudos e tatuados – a afirmar: “Quando as pessoas dizem que falam com Deus, a gente acha que elas estão a rezar; quando dizem que Deus fala com elas, a gente acha que elas estão malucas”.

 

A gente que assim acha, de que Sacks fala - ou melhor, falava: o bom doutor já morreu – não é tanta quanto ela própria julga. Nos últimos cinco séculos, à medida que a ciência, malgrado as violências do Santo Ofício, inexoravelmente progredia, gente assim espalhou-se pela Europa, pelas duas costas dos Estados Unidos e por outras partes ocidentalizadas da Terra. Não é, já se vê, o que se entende em muitas outras partes do mundo. Por exemplo, no Estado de Alabama, ao Sul dos Estados Unidos da América, onde a Bíblia é interpretada literalmente (o Universo foi criado por Deus quando o Livro da Génese diz que Ele o criou, isto é, há cerca de seis mil anos, com a Terra no seu centro e o que se aprenda agora: milhares de milhões de anos de existência do Universo, a partir do nada e começando num enorme estrondo, buracos negros entre nebulosas onde energia entrada nunca mais sai – ou talvez saia, o que harmonizaria teoria da gravidade e física quântica – quiçá universos paralelos, sendo o espaço infinito mas o tempo não, e não sendo nunca preciso um Deus), no Estado do Alabama, digo eu, Deus fala todos os dias com muita gente em seu perfeito juízo. E também em muitos outros lugares do globo, com muito mais habitantes do que aqueles que se contem na espuma agnóstica dos nossos dias esclarecidos a Oeste.

 

A conversa vai puxada, leitora. Fiquemo-nos pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacob, na versão retida pelo cristianismo ocidental e depois dividida pela Igreja de Roma, a Sul, e pelas Igrejas Reformadas, mormente as de Calvino e Lutero, a Norte. Lembrei-me disto fustigado pela quantidade de aldrabices de políticos, de homens de negócios, de banqueiros, de comerciantes, de doutores e para-doutores, pais e mães de família, estudantes e professores, compatriotas todos, que a imprensa cada dia mais nos revela. Protestantismo, capitalismo, catolicismo é conversa vasta e exigente; vou ficar-me por dois aspectos. Os protestantes têm de ler a Bíblia; os católicos contentam-se com o que os curas lhes digam dela, sem precisarem de aprender a ler. Os protestantes rezam a Deus; os católicos rezam também aos Santos, incluindo a Virgem Maria.

 

Ora, não só gente letrada se defende melhor da vida do que gente analfabeta, mas também a Deus não se mente - enquanto, com os Santos, tal tratamento é corrente e tolerado, em qualquer fase da transacção, mesmo no pagamento de promessas (isto é, quando o Santo cumpriu).

 

Mesmo longe de fés e liturgias, Portugal é um cabaz de Natal de falcatruas e pantominices.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

Reis Magos Marva

Cartão de Boas Festas (1965)

desenhado por Vasco Luís Futscher Pereira (1922-1984) e vendido nas Papelarias Progresso e da Moda.

 

 

 

 

José Cutileiro

 

Ano Novo Feliz

 

 

 

Se, como acontecia quando fui viver para Inglaterra, o jornal The Times de Londres ainda tivesse a sua primeira página só com anúncios postos pelos leitores para vender fosse o que fosse, comprar fosse o que fosse, oferecer empregos, pedir empregos, anunciar acontecimentos privados, procurar notícias pessoais, dar notícias pessoais, eu teria há semanas posto nela a comunicação seguinte: “Mr. and Mrs. José Cutileiro [ou talvez Mr. José Cutileiro and Ms. Myriam Sochacki] of Rue Darwin, Brussels, wil not be sending Christmas cards this year” de maneira a que quem desse pela falta dos ditos cartões de Boas Festas no que carteiro lhe houvesse deixado durante a Quadra não julgasse que nos tinha acontecido qualquer coisa inibitória – morte, grava doença súbita, divórcio, fuga – e ficasse indevidamente preocupado com isso ou que nos tínhamos pura e simplesmente esquecido deles (ou decidido deliberadamente ignorá-los).

 

É a primeira vez que não mando cartões de Boas Festas mas o mundo já não é tão simples quanto era entre 1963, quando fui viver para Oxford e 1977, quando deixei definitivamente de viver em Londres. Logo em 1966 o Times - último jornal a fazê-lo, aguentando-se sozinho durante décadas - deixou de ter a sua primeira página dedicada a anúncios pessoais e passou, como os outros jornais do mundo inteiro, a pôr nela o que, em cada dia, pareça ter mais importância urbi et orbi. Alguns anos depois apareceu a internet que mudou os hábitos de comunicação letrada das pessoas. Antes de tudo isso, no começo do século XX quando o uso do telefone fixo não estava ainda disseminado, chegara a haver em Londres quatro distribuições de correio por dia – nessa altura namorados houve que se escreveram e responderam duas vezes, diariamente, durante as passagens mais intensas dos seus amores. O telégrafo fizera a primeira mossa, mas pequena. O telefone, quando se tornou corrente, fora mais grave. Mas os estragos causados pela internet são incomparavelmente maiores e em todos os países europeus se assiste à derrocada dos correios, sendo as suas instalações convertidas para outros fins. (Em Portugal, em meados do século XIX, a extinção das ordens religiosas libertou imenso casario, rapidamente ocupado pela introdução do serviço militar obrigatório. Nada se perde e nada se cria).

 

Juntamente com mudanças técnicas houve mudanças nas almas: na Europa há menos cristãos praticantes do que havia. Mas continuam a contar-se muitos adeptos fervorosos dos festejos de Natal, até entre ateus. Os cartões de Boas Festas, em cartolina mesmo (não imitações, às vezes com música, confinadas a écrans de televisão, fora do ambiente de uma casa) alinhando-se em lintéis de lareiras e diante de livros nas estantes, são ainda hoje parte indispensável da decoração. Mas certezas antigas acabaram: quem só receba meia dúzia de cartões, como se desembaraçará?

 

Comecei a escrever para desejar Bom Ano à leitora e acabo decidido a tornar a mandar cartões em 2018.

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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