Quarta-feira, 5 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

12 angry men

Henry Fonda em “Doze homens em Fúria”

Sidney Lumet, 1957

 

 

José Cutileiro

 

 

Homens brancos cristãos e budistas de ambos os sexos

 

 

 

Às vezes há quem julgue que a invenção do pecado original foi  estratagema de poder destinado a reforçar a lei e ajudar a meter o pessoal na ordem, mormente as mulheres. Noutras alturas, os sinais de bestialidade humana são tão evidentes que não estranha que povo de pastores de há três mil anos, sem recurso a Nações Unidas, ADN ou Facebook, recorresse a mitologia própria para tentar criar espaço onde o bem, que também existe, pudesse medrar.

 

O que não falta hoje são sinais desses. Donald Trump é considerado o mais divisivo dos presidentes dos Estados Unidos de que há memória mas coisas lamentáveis que se vão sabendo dele não enfraquecem a determinação dos seus eleitores. Mais de 80% dos Republicanos agradecem a Deus tê-lo como presidente (mesmo os que lhe encontram defeitos e pecados graves estão contentes e acham que é preciso “deixar trabalhar o homem”). Hoje estuda-se tudo e sabe-se que os seus apoiantes mais incondicionais e determinados são homens brancos cristãos. Porque eu entendo que Trump está a fazer muitíssimo mal aos Estados Unidos e ao mundo, pu-los no começo do título desta página de bloco-notas.

 

Pus a seguir budistas, de ambos os sexos. Na Birmânia, durante décadas, a Senhora Aung San Suu Kyi viveu em prisão domiciliária donde chefiava protesto contra a ditadura militar do país, atraiu a simpatia de defensores de direitos do homem de toda a parte, recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1991, foi comparada a Gandhi e, ajudada por mudanças no mundo – o colapso da União Soviética, o fim do apartheid, a eleição de Barack Obama, por exemplo - conseguiu liberalizar o regime e tornar-se uma espécie de primeiro-ministro, com fiel acompanhante como presidente. Entretanto, porém, as autoridades civis e militares da Birmânia têm perseguido com ferocidade rara a minoria muçulmana dos Rohingya - na Birmânia há 209 minorias; em Portugal e Ilhas Adjacentes, por muito que se puxe pelos mirandeses, não há nenhuma - de tal maneira que activistas indignados têm exortado a Senhora a devolver o Prémio Nobel e missão das Nações Unidos condenou o que lá se passa e recomendou inquérito a crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O governo da Birmânia declarou que não autorizara a missão a entrar no seu território e por isso não aceita os resultados.

 

Duas ilusões de adolescência que haviam sobrevivido a mais de 80 anos de atribulações do mundo foram assim levadas em duas penadas.

 

Os americanos do povo, bons, simples, capazes de chegarem à boa solução dos problemas (às vezes, depois de terem experimentado todas as outras lembrara Winston Churchill), defensores da verdade e da decência, admiravelmente ilustrados no filme de Sidney Lumet  “Doze homens em Fúria” (Twelve angry men), 1957, com Henry Fonda.

 

E os budistas, homens e mulheres com religião mais sábia e bondosa do que as outras, incluindo peculiaridades irracionais tal o Dalai Lama, mas incapaz de deixar fazer mal a uma mosca.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 4 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

bíblia

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Falar com Deus

 

 

Julgo haver sido Oliver Sacks – neurologista anglo-americano autor, famosamente, de “O homem que julgou que a mulher era um chapéu” (The Man who Mistook his Wife for a Hat”, de outros ensaios da sua arte e também membro de gang de motociclistas californianos barbudos e tatuados – a afirmar: “Quando as pessoas dizem que falam com Deus, a gente acha que elas estão a rezar; quando dizem que Deus fala com elas, a gente acha que elas estão malucas”.

 

A gente que assim acha, de que Sacks fala - ou melhor, falava: o bom doutor já morreu – não é tanta quanto ela própria julga. Nos últimos cinco séculos, à medida que a ciência, malgrado as violências do Santo Ofício, inexoravelmente progredia, gente assim espalhou-se pela Europa, pelas duas costas dos Estados Unidos e por outras partes ocidentalizadas da Terra. Não é, já se vê, o que se entende em muitas outras partes do mundo. Por exemplo, no Estado de Alabama, ao Sul dos Estados Unidos da América, onde a Bíblia é interpretada literalmente (o Universo foi criado por Deus quando o Livro da Génese diz que Ele o criou, isto é, há cerca de seis mil anos, com a Terra no seu centro e o que se aprenda agora: milhares de milhões de anos de existência do Universo, a partir do nada e começando num enorme estrondo, buracos negros entre nebulosas onde energia entrada nunca mais sai – ou talvez saia, o que harmonizaria teoria da gravidade e física quântica – quiçá universos paralelos, sendo o espaço infinito mas o tempo não, e não sendo nunca preciso um Deus), no Estado do Alabama, digo eu, Deus fala todos os dias com muita gente em seu perfeito juízo. E também em muitos outros lugares do globo, com muito mais habitantes do que aqueles que se contem na espuma agnóstica dos nossos dias esclarecidos a Oeste.

 

A conversa vai puxada, leitora. Fiquemo-nos pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacob, na versão retida pelo cristianismo ocidental e depois dividida pela Igreja de Roma, a Sul, e pelas Igrejas Reformadas, mormente as de Calvino e Lutero, a Norte. Lembrei-me disto fustigado pela quantidade de aldrabices de políticos, de homens de negócios, de banqueiros, de comerciantes, de doutores e para-doutores, pais e mães de família, estudantes e professores, compatriotas todos, que a imprensa cada dia mais nos revela. Protestantismo, capitalismo, catolicismo é conversa vasta e exigente; vou ficar-me por dois aspectos. Os protestantes têm de ler a Bíblia; os católicos contentam-se com o que os curas lhes digam dela, sem precisarem de aprender a ler. Os protestantes rezam a Deus; os católicos rezam também aos Santos, incluindo a Virgem Maria.

 

Ora, não só gente letrada se defende melhor da vida do que gente analfabeta, mas também a Deus não se mente - enquanto, com os Santos, tal tratamento é corrente e tolerado, em qualquer fase da transacção, mesmo no pagamento de promessas (isto é, quando o Santo cumpriu).

 

Mesmo longe de fés e liturgias, Portugal é um cabaz de Natal de falcatruas e pantominices.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

Reis Magos Marva

Cartão de Boas Festas (1965)

desenhado por Vasco Luís Futscher Pereira (1922-1984) e vendido nas Papelarias Progresso e da Moda.

 

 

 

 

José Cutileiro

 

Ano Novo Feliz

 

 

 

Se, como acontecia quando fui viver para Inglaterra, o jornal The Times de Londres ainda tivesse a sua primeira página só com anúncios postos pelos leitores para vender fosse o que fosse, comprar fosse o que fosse, oferecer empregos, pedir empregos, anunciar acontecimentos privados, procurar notícias pessoais, dar notícias pessoais, eu teria há semanas posto nela a comunicação seguinte: “Mr. and Mrs. José Cutileiro [ou talvez Mr. José Cutileiro and Ms. Myriam Sochacki] of Rue Darwin, Brussels, wil not be sending Christmas cards this year” de maneira a que quem desse pela falta dos ditos cartões de Boas Festas no que carteiro lhe houvesse deixado durante a Quadra não julgasse que nos tinha acontecido qualquer coisa inibitória – morte, grava doença súbita, divórcio, fuga – e ficasse indevidamente preocupado com isso ou que nos tínhamos pura e simplesmente esquecido deles (ou decidido deliberadamente ignorá-los).

 

É a primeira vez que não mando cartões de Boas Festas mas o mundo já não é tão simples quanto era entre 1963, quando fui viver para Oxford e 1977, quando deixei definitivamente de viver em Londres. Logo em 1966 o Times - último jornal a fazê-lo, aguentando-se sozinho durante décadas - deixou de ter a sua primeira página dedicada a anúncios pessoais e passou, como os outros jornais do mundo inteiro, a pôr nela o que, em cada dia, pareça ter mais importância urbi et orbi. Alguns anos depois apareceu a internet que mudou os hábitos de comunicação letrada das pessoas. Antes de tudo isso, no começo do século XX quando o uso do telefone fixo não estava ainda disseminado, chegara a haver em Londres quatro distribuições de correio por dia – nessa altura namorados houve que se escreveram e responderam duas vezes, diariamente, durante as passagens mais intensas dos seus amores. O telégrafo fizera a primeira mossa, mas pequena. O telefone, quando se tornou corrente, fora mais grave. Mas os estragos causados pela internet são incomparavelmente maiores e em todos os países europeus se assiste à derrocada dos correios, sendo as suas instalações convertidas para outros fins. (Em Portugal, em meados do século XIX, a extinção das ordens religiosas libertou imenso casario, rapidamente ocupado pela introdução do serviço militar obrigatório. Nada se perde e nada se cria).

 

Juntamente com mudanças técnicas houve mudanças nas almas: na Europa há menos cristãos praticantes do que havia. Mas continuam a contar-se muitos adeptos fervorosos dos festejos de Natal, até entre ateus. Os cartões de Boas Festas, em cartolina mesmo (não imitações, às vezes com música, confinadas a écrans de televisão, fora do ambiente de uma casa) alinhando-se em lintéis de lareiras e diante de livros nas estantes, são ainda hoje parte indispensável da decoração. Mas certezas antigas acabaram: quem só receba meia dúzia de cartões, como se desembaraçará?

 

Comecei a escrever para desejar Bom Ano à leitora e acabo decidido a tornar a mandar cartões em 2018.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 8 de Novembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

g-k-chesterton

G.K. Chesterton

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

“Pajens de um morto mito/

 

 

 

Tão líricos, tão sós./ Não têm na voz um grito,/ Mal têm a própria voz/ E ignora-os o infinito/ Que nos ignora a nós”. Assim, Fernando Pessoa exprimia classicismo comedido – o coração geométrico de Ricardo Reis temperado pelo jeito tanto-me-faz de Pessoa Ele Próprio – tudo ao abrigo de relação contrabandista com o outro mundo. Alexandre O’Neill, sempre atirado para a frente – outro mundo tinha deixado de haver - já não ia nessas: “Quem? O Infinito?/ Diz-lhe que entre./ Faz bem ao Infinito/ Estar entre gente”; ou melhor ainda “Sonetos garantidos por dois anos/ E é muito já, leitor que mos compraste/ À procura da alma que trocaste/Por rádios, frigoríficos, enganos”. Por mim, molhei a sopa de outra maneira: “A hora é dos gladiadores./Dos leigos de todas as fés,/Do imperador futuro que dorme/Em quem eu sou, em quem tu és.”

 

Mas havia (ainda) ordem: bem e mal, verdade e erro eram os mesmos em todas as boas casas, fosse qual fosse a indumentária que vestissem. E a razão, irmã do amor e da justiça, parecia, a pouco e pouco, ir escutando preces de almas livres, só a si submissas (embora com bombas atómicas no Japão e holocausto de meia dúzia de milhões de judeus pelo meio). É preciso dar crédito e autoridade á razão para que o acaso se não constitua soberano, escrevera o Cavaleiro de Oliveira que havia sido colocado como diplomata no estrangeiro e fora queimado, em efígie, num auto de fé por ter escrito que o terramoto de 1755 fora castigo de Deus por Lisboa ser demasiado católica. Ele e um jesuíta italiano, o Reverendo Malagrida (queimado em carne e osso) que achara, pelo contrário, que o terramoto fora castigo de Deus por Lisboa não ser suficientemente católica. O Marquês de Pombal era um espírito forte e achava que o terramoto tivera causas naturais. (Havia desmancha-prazeres. Por exemplo, o católico inglês G.K. Chesterton, quase nosso contemporâneo, escreveu que os loucos eram pessoas que tinham perdido tudo menos a razão).

 

Ao Cavaleiro de Oliveira ou quejandos aplicou-se o nome de “estrangeirado”, usado como termo de opróbrio pelos que os tinham feito fugir e por quem ache que é preciso “estar bem com a lei que há” mas empregue com admiração e inveja por muitos outros portugueses sempre desconfiados da Pátria. Lembro-me de há 30 anos em Lisboa precisar de um esquentador e o lojista me dizer: “Não compre Junker que já são feitos cá”. (Virá esta pecha do Tratado de Methwen? Ou desde a fundação da nacionalidade? Não sei, mas vai levar muitas start ups a sacudi-la do capote).

 

Bem e mal. Verdade e erro. Razão e falta dela. Com tudo a chegar-nos hoje in real time e sem anestesia fica-se sem distância no tempo e no espaço para medir bem seja o que for. Dantes, multidões analfabetas à trela de clérigos, depois de doutores, e Gutenberg a ajudar uns e outros. Hoje, Facebook, Twitter & Cia dispensam filtros de quem saiba e deixam que gladiadores domem o acaso e se constituam soberanos. Não há de ser nada? Oxalá.

 

 

 

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Domingo, 25 de Dezembro de 2016

Boas Festas

 

 

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Nativity, 1470-1475 - Piero della Francesca

 

 

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

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@ Percy Jackson 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Deuses

 

 

 

 

Em igreja desafectada num lugarejo da Beira profunda, pedindo-se a vizinha chave para a abrir, amigos dos Pais descobriram estatueta magnífica de S. Sebastião do século XVII. Um ano depois, estando por perto, pediram outra vez à vizinha para lhes abrir a igreja – e não viram o S. Sebastião. Perguntaram se alguém o teria levado (passava-se isto há uns 80 anos e começara já a compra por dez reis de mel coado de obras de arte achadas na província portuguesa por citadinos astutos - pilhagem comparável às das Invasões Francesas do começo do século XIX, com a vantagem de as obras assim preservadas terem ficado em Portugal) mas nada da igreja fora entretanto vendido. De entrada, a vizinha nem percebia bem de que é que eles estavam a falar até, de repente, se fazer luz no seu espírito: “A gente capemo-lo e fizemos uma Santa Teresinha!”

 

O catolicismo cultivou os Santos e as Santas, alguns plasmados de anteriores figuras pagãs, amortecendo assim o choque brutal do monoteísmo - a invenção mais traumática e funesta da humanidade - na vida de cada um (e cada uma) de nós que com ele tivesse de lidar. Santos e Santas são cortesãos celestes, com acesso directo a Deus menos ou mais facilitado, desde Santos e Santas modernas sem cultos enraizados nas mentes dos fiéis às hipóstases mais celebradas da Senhora sua Mãe. Beatas (e beatos) estabelecem as suas intimidades. Uma de Reguengos, a quem mãe aflita com doença de filho viera pedir intervenção de Nossa Senhora de Fátima (de que a beata possuía imagem a que rezava), respondeu-lhe: “Deixa estar filha que eu, em chegando a casa, caio-me lá com a minha Periquita!”. Às vezes, como entre humanos, as coisas dão para o torto: o meu amigo Fernando viu numa igreja de Luanda mulher de pé em cima de um banco insultando em kiluanda imagem de Nossa Senhora do Carmo, por esta não ter cumprido a sua parte de um acordo.

 

As coisas passavam-se assim com Deuses e Deusas quando toda a gente tinha vários. Era o caso - para escolher sociedade evoluída - da civilização romana com quem os cristãos tiveram problemas, não por terem Deus diferente, tal não aquecia nem arrefecia os romanos, mas por não admitirem existência de Deuses dos outros. A intolerância não foi inventada pelos monoteístas mas foi dotada por eles de superioridade moral. Desde as origens no Próximo Oriente as chacinas não pararam. Mas salvo em casos especiais – judeus ortodoxos, Tea Partiers americanos, waabistas - as três grandes religiões reveladas parecem hoje menos viradas para o proselitismo, mormente a Hebraica quiçá por ter sido mais maltratada do que as outras duas. A Cristã chega a roçar o agnosticismo. Mais novo, o Islão dá fiéis cheios de sangue na guelra. Se algum dos seus entusiastas, fanático do chamado Estado Islâmico, nos perguntar o que fizemos do Deus a quem chamam Alá, em cujo nome matam e esfolam, devemos responder que o capámos e fizemos um Nosso Senhor Jesus Cristo, user-friendly para crentes e descrentes.

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Março de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

alentejo 4

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Alentejo

 

 

 

Robert Lowell dava aula no colégio de All Souls em Oxford. Um estudante quis saber o que é que ele pensava de literatura “engagée”. Que era uniformemente má. O estudante insistiu: “E o livro de Norman Mailer sobre o Vietname?” “O livro de Norman Mailer sobre o Vietname não é sobre o Vietname é sobre Norman Mailer”.

 

Isto à laia de introito ao Alentejo prometido de Henrique Raposo, que é mais sobre Henrique Raposo do que sobre o Alentejo, sem por isso perder qualidade. Li-o com gosto e curiosidade e fico à espera de investigação sistemática e pormenorizada sobre temas nele aflorados – passado de violência e suicídio, por exemplo – para ficarmos a saber melhor o que por lá houve e haja ainda. O que Raposo publicou é estimulante mas é pouco e impressionístico.

 

Sobre suicídio, tinha-me telefonado faz já algum tempo porque há quase meio século publiquei monografia sobre outra parte do Alentejo e oficiais do mesmo ofício gostam de comparar notas. Não pude ser-lhe de grande utilidade: sim, também havia suicídios por onde eu tinha andado – as mulheres normalmente atiravam-se a poços com as saias atadas para não flutuarem; os homens davam tiro de caçadeira na boca, o gatilho puxado pelo dedo grande do pé – e disso já ele sabia. Só agora, lendo o livro, percebi porque é que o fenómeno do suicídio lhe fez tanta impressão e não ma tinha feito a mim. Henrique Raposo tem objecção moral ao suicídio e eu não. Além disso, nado e criado nos arredores de Lisboa, foi tentar perceber a terra donde vinham os seus pais a partir de instituições e valores morais muito marcadas pelas do Norte de Portugal. Para muitos alentejanos, o suicídio, por mal que possa fazer a gente próxima do suicida e por distúrbio na comunidade que cause, não constitui ofensa a Deus porque Deus não existe. E as razões da sua prevalência em terras transtaganas - as estatísticas parecem inequívocas, embora se deva lembrar que, em lugares onde o suicídio seja grande pecado e socialmente muito mal visto, certidões do óbito possam não o mencionar – terão, julgo eu, fundamento histórico simples.

 

Enquanto a cristianização do Norte de Portugal coube ao clero secular de dioceses e paróquias, a cristianização do Alentejo foi sobretudo feita por Ordens religiosas. Se a densidade populacional era mais baixa no Sul do país do que no Norte, a densidade de pessoal religioso era muito mais baixa ainda e, com a extinção das ordens religiosas do Liberalismo, a situação piorou. No começo da República, as coisas não se passaram muito mal: mais padres no Alentejo do que no Norte do país aceitaram ser pagos pelo Estado. Mas em 1960, menos de metade das paróquias tinham pároco no Alentejo: “país de missão”, chamava-lhe a Igreja. Não creio que, entretanto, tenha mudado muito.

 

 

NB Alentejo prometido é interessante e bem escrito. Mesmo que o não fosse, a agressão alentejana a autor e livro por pimpões e pimponas ofendidas, no século XXI e na Europa Ocidental, deixa este alentejano de boca aberta.

 

 

 

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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

All Souls College.jpg

 All Souls College, Oxford

 

 

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Ao correr da pena

 

 

 

E.P., que se pronunciava I Pi porque estávamos em Inglaterra e o homem era inglês, Edward Evan Evans-Pritchard no passaporte (os ingleses são anti-jacobinos saudáveis e nem cartões de identidade admitem), Professor de Antropologia Social e Fellow de All Souls na Universidade de Oxford, nesse tempo o mais conceituado oficial do seu ofício em todo o país, baptizado na fé dos pais, dos avós, dos bisavós e por aí acima até ao reinado de Henrique VIII que mandara Roma às urtigas e fundara a igreja anglicana, convertera-se ao catolicismo contra a maré, já homem crescido. Eu vinha de país católico, fora recomendado ao Instituto de Antropologia de Oxford por Ruy Cinatti (que, ao mesmo tempo, me persuadira a mim a ir para Oxford, pois eu ia matricular-me em University College, Londres. Deste fixei regulamento se se faltasse a exame: apresentar atestado de doença ou when appropriate certidão de óbito; o caso mais extremo de insolência funcionária de que me lembre), o Ruy era católico exigente, quase jansenista - “Eu com o Antigo Testamento entendia-me; depois veio aquele gajo, glú-glú, fló-fló, estragou tudo!” – enquanto eu me dizia agnóstico mas, quem sabe, talvez fosse mesmo ateu. Pérolas a porco. Sem nunca termos falado dessas coisas, I Pi sabia.

 

Um dia, no pub, a tomar half-a-bitter, disse-me: “Sabe, para se ser católico (to be a Roman catholic) é preciso ser-se muito estúpido ou então muito inteligente”. Deixando-me na ‘no man’s land’ intermédia que me cabia, pediu-me para o ajudar com livro de memórias que lhe mandara pelo correio Hortense Powdermaker, antropóloga americana do seu tempo, que também fora aluna de Malinowski (Malinowski era polaco, de nacionalidade alemã em 1914, fazia trabalho de campo em ilhas no Pacífico do Império Britânico, e fora lá internado durante os quatro anos da guerra, depois ensinara na London School of Economics, deixando-nos uma obra prima “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. Conhecia a sua arte de alto a baixo: “A antropologia ensina o administrador a tirar terra ao indígena seguindo os costumes do indígena”.) I Pi ia ser operado às cataratas. “O que é que quer que eu veja?” “Procure-me no índice”. Encontrei várias entradas, li-lhas, gostou do que ouviu, disse que Hortense era boa rapariga e acrescentou pormenores salazes da relação dela com Malinowski. Em coscuvilhice, intriga, ofensas e maledicência, pior do que um departamento universitário nem as cúpulas de um partido político (“enquanto há morte há esperança”) nem as/os prima-donas de uma companhia de ópera. Henry Kissinger acha que essa intensidade desmedida é devida à pequenez do que está em jogo.

 

À leitora que tenha chegado aqui acrescento: se de médico e de louco todos temos um pouco, agora de comentador também. Somos mais do que as coisas a comentar e declaro uma trégua. A Inglaterra sai ou entra? Qual dos Costas tem razão? Obama é mesmo um banana? Deixo palpites para outro dia e fico-me pelas caturrices de I Pi.

 

 

 

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Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Giovanni Francesco Rustici (ca. 1495)

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Civilização

 

 

 

André Malraux, escroque francês de génio que se distinguiu nas letras (L’Espoir, La Métamorphose des Dieux), na guerra contra o fascismo (Brigada Internacional em Espanha), na guerra contra o nazismo (Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial) e na política (ministro da cultura de De Gaulle que, quando o amigo François Mauriac, prémio Nobel da literatura, lhe perguntou como conseguia aturá-lo, respondeu: “Malraux c’est mon vice”), escreveu: “Nós somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem.”

 

Era bom, era. O “nós” de Malraux referia-se a um grupo de pessoas muitíssimo mais pequeno do que aquelas que a nossa “civilização” abrange. Apesar de nas escolas actualizadas dos países mais desenvolvidos se aprender que o Big Bang, origem de nós e de tudo o resto, se deu há 13,8 biliões de anos, nada se sabendo do nada que houvesse antes, a vasta maioria da gente – sem chegar aos excessos de literalismo bíblico dos evangélicos americanos (ou, noutra variante de monoteísmo, igualmente candidata a civilização, ao literalismo corânico dos salafistas sauditas) – conforta-se com mitos de criação e redenção que – tal como água de Fátima desde que seja fervida – não fazem mal a ninguém, a não ser se, como acontece agora entre os salafistas, exijam a matança dos infiéis. (Há uns séculos também éramos assim: “E com muitas Ave Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num credo” conta Fernão Mendes Pinto, com o desembaraço de um tempo em que não havia ONG dedicadas aos direitos do homem nem governos empenhados na salvaguarda do estado de direito).

 

No século XX os europeus (e os chineses) foram apanhados em cheio por novo mito, na aparência tão radicalmente diferente das restantes fés – também vinha curar os nossos males mas tudo se passaria neste mundo - que podia ser tomado por outra coisa. Raymond Aron chamou-lhe o ópio dos intelectuais. O estardalhaço foi enorme mas o paraíso não se instalou na Terra. Gato por lebre, dirão alguns, mas o problema é que a lebre, ou melhor, as lebres também não dão conta do recado. Ao mesmo tempo que ser marxista passou a opção privada (assim como ser vegetariano ou filatelista), fés mais antigas - duradouras por nunca terem caído na esparrela de se considerarem ciência - reapareceram no esplendor da sua intolerância. E no mundo globalizado de hoje podem chegar a toda a parte. Na Birmânia, maioria budista maltrata sem dó nem piedade minoria muçulmana. 1.300 anos de cizania sangrenta entre sunitas e xiitas levaram o mês passado à matança de Paris, inspirada, planificada e executada por salafistas.

 

A Europa, adubada pelo Iluminismo, separou a igreja do estado: não matamos nem morremos por mitos religiosos. Considerá-la fortaleza cristã é disparate nocivo. A sua força vem da tolerância. É para defesa desta contra intolerâncias (budista, sunita, xiita, calvinista, católica romana, marxista, o que for) que precisamos de nos armar até aos dentes.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 7 de Outubro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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José Cutileiro.jpg

 

 

 

Não há de ser nada…

 

 

 

Melhor: talvez até possa ser tudo. A crise da imigração, encarada ao gosto de cada um, de Helsínquia a Bucareste, de Londres a Paris, pelos políticos mais demagógicos das nossas praças – a Hungria que arrancara arame farpado cortante da sua fronteira para pessoas poderem fugir dela para o Ocidente em 1989, repô-lo agora para impedir outras pessoas de entrarem nela a caminho da Alemanha, que as quer acolher – estimula políticos que agitam espantalhos julgados de efeito seguro junto de eleitores assustados. A Europa é cristã, dizem eles, a mourama está à porta e, se a deixarmos entrar, o Estado Islâmico vai, pelo menos, encher isto tudo de terroristas, ou talvez até tomar conta do governo de um ou outro dos nossos países (como o escritor francês Michel Houllebecq imaginou para a França num romance de ficção histórica de sucesso). No Médio Oriente há quem sonhe com tais triunfos: em 1992 o Chico Quevedo, nosso embaixador em Ancara, viu numa manifestação de apoio aos muçulmanos dos Balcãs cartaz que rezava: “Não deixaremos que a Bósnia se transforme numa segunda Andaluzia”.

 

Mas o sonho não passa disso, do sonho de escassos entusiastas, e a ideia de que se poderão ressuscitar guerras religiosas na Europa - espantalho plantado por muitos desses demagogos - é profundamente disparatada. O que caracteriza a Europa – a União Europeia e os seus Estados Membros – não é ser cristã, embora o tenha sido durante séculos, a sua cultura esteja impregnada de cristianismo e parte considerável dos seus habitantes pertençam a igrejas cristãs: católicas, ortodoxas, protestantes. O que caracteriza a Europa é ninguém nela poder ser preso ou perseguido em justiça devido às suas crenças ou práticas religiosas. A separação entre estado e igreja é radical – mesmo quando haja uma igreja oficial e o chefe do estado seja também o chefe dessa igreja como acontece em Inglaterra (conhecida, além disso, por ser considerada o berço da democracia e nos ter dado a Magna Carta). Quem poderá ter problemas aqui não serão os europeus mas alguns dos recém vindos do Islão que abracem variedades deste intolerantes de outras crenças: esses, se não se adaptarem, terão de se ir embora. Guerras religiosas já as corremos do nosso seio há muito tempo.

 

Quanto à questão de fundo: os imigrantes precisam da Europa e a Europa precisa dos imigrantes. Para manter o equilíbrio de hoje entre população activa e o resto, a Alemanha necessita 500.000 migrantes por ano até 2050. Há demografias menos atrapalhadas mas, com diferenças de grau, o problema é de todos. Cabe aos políticos encaminharem as coisas de maneiras que nos convenham e, guiando-me pelo passado, julgo que tal acontecerá. Por duas razões: 1 Na Europa, quando as coisas vão bater no fundo aparecem chefes à altura (Churchill; De Gaulle; Soares em 1975). 2 Desde o começo, a construção europeia progrediu de zaragata em zaragata - e a crise da imigração vai obrigá-la a dimensão política que lhe tem faltado.

 

 

 

 

 

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