Quarta-feira, 18 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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bola de cristal

 

 

José Cutileiro

 

À procura do futuro?

 

 

 

Dois factos

 

Primeiro: Entre 2007 e 2017, os proventos dos administradores das cem maiores companhias do Reino Unido foram multiplicados por quatro, isto é, passaram em média de um milhão para quatro milhões de libras esterlinas por ano. Durante a mesma década, os proventos do geral das pessoas empregues por conta de outrem no Reino Unido aumentaram de 10%, isto é de 1% por ano.

 

Segundo: Também no Reino Unido, à pergunta, corrente em inquéritos de sociedade, ‘Acha que os seus filhos vão ter vida melhor do que a sua?’ as respostas, até 2007, tinham sido quase sempre sim – e, a partir de 2008, passaram a ser quase sempre não.

 

Uma preocupação.

 

Em toda a Europa Ocidental, comentadores nos jornais, nas telefonias, nas televisões alarmam-nos de há alguns anos a esta parte com o crescimento do chamado populismo. Referendo no Reino Unido a escolher saída da União Europeia; eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos; eleição – e reeleição recente e reforçada – de Vitor Orban para primeiro ministro da Hungria; popularidade mantida pelo actual governo liberticida polaco; subida nas sondagens da Frente Nacional em França e – mais ainda – do movimento Cinco Estrelas na Itália, são dados como exemplos, entre outros, desse crescimento. Aos jornalistas juntam-se os cientistas políticos (a final de contas, uma espécie de jornalistas lentos e  possuídos por ‘the craving for generalizations’ que tanto irritava Wittgenstein) os quais tentam definir populismo, classificar variedades, comparar os seus aproveitamentos por demagogos de direita e de esquerda . Uns e outros, os rápidos e os lentos, preocupados por verem a Democracia mirrar dia a dia diante dos seus olhos, espécie de bambu ao contrário.

 

Um lembrete.

 

Ao contrário do que muito boa gente parece pensar, o fim do comunismo – o colapso da União Soviética; o mandarinato marxista-leninista de Beijing – não foi a extinção de uma doença. Foi o falhanço de um remédio e a sua desacreditação. O comunismo perdeu a Guerra Fria porque era pior do que o capitalismo mas a maneira como as coisas têm corrido desde então está a dar ao capitalismo uma vitória pírrica. Prosseguindo na metáfora médica: a doença continua e, esgotadas todas as variedades da mezinha experimentada primeiro em 1917 – de Pol Pot às democracias sociais nórdicas – parece urgente descobrir outro tratamento.

 

Um palpite.

 

Estaline disse a Churchill em Yalta que o embaixador que ele lhe mandara para Moscovo durante a guerra, trabalhista fabiano, era de primeira água mas tinha mania curiosa: querer explicar-lhe a ele, Estaline, o que era o socialismo. Quase 80 anos depois, se os povos fossem gatos, não seria por nenhuma dessas duas vias que iriam às filhoses. Nem pela da Rerum novarum.Inventar-se-ão misturas mais sensatas do que as ortodoxias vigentes. Se os Estados Unidos correrem com o maluco a tempo, mesmo que já não possam ser donos do jardim zoológico talvez ainda possam servir de polícia de trânsito.

  

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Pinhal de Leiria, 2017

 

 

José Cutileiro

 

 

 

O mundo real

 

 

François Mauriac, católico apostólico romano da região de Bordéus e prémio Nobel da literatura em 1947, escreveu que não conhecia a alma dos criminosos mas conhecia a das pessoas honestas e era um horror. Menos argutas, as nossas elites - eu e tu, hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère… (et, de nos jours, nos soeurs aussi) - estão a descobrir agora que aquilo a que gostam de chamar o país real – o Portugal profundo, escuridão misteriosa escondendo grande diamante por lapidar – é, afinal de contas, tão mau ou pior do que elas próprias. Contentará videirinhos saberem-se dotados de um olho em terra de cegos mas vai deprimir mais o resto de todos nós. A calcinação do Pinhal de Leiria foi a pedra de fecho da abóboda sonâmbula de incúria em que se fora transformando o Estado português.

 

Acabada a ficção “do Minho a Timor” (ainda ouvi gente dizer isso a estrangeiros, sem pestanejar) veio o grande desafio europeu: desde que o Dr. Soares bateu à porta de Bruxelas até nos deixarem entrar passaram dez anos, durante os quais se trabalhou. Uma vez dentro, porém, as coisas começaram a mudar. O Projecto Europeu, onde sempre quisemos estar “no pelotão da frente” (em Portugal a única literatura com leitores é a desportiva) passou a ser uma espécie de renda, ou de lotaria onde não havia nunca prémios astronómicos mas se ia ganhando sempre um poucochinho. Até que chegou a austeridade – “Os pobres que paguem a crise!” – e alguém se lembrou do cavalo do inglês que o dono treinava para viver sem comer e quando estava quase, quase treinado, morreu. Qual o quê! Os povos não são cavalos; entre troikas e autocensura íamos cantando e rindo - até que, de repente, duas girândolas de fogos deram connosco em terra.

 

Ninguém nos estenderá a mão num mundo cheio de outros disparates. Por exemplo, há dias a Organização Mundial da Saúde nomeou seu “Embaixador” Robert Mugabe, ditador que com mão de ferro transformou um dos países mais ricos de África num dos mais pobres. O escândalo foi geral e em 24 horas a OMC tirou-lhe o título. Porque é que o distinguiram? A razão é simples e percebi-a a 25 de Junho de 1982, em Nairobi, numa cimeira da OUA onde fora de observador. Moçambique fazia 7 anos; eu, embaixador em Maputo, quis felicitar Samora Machel que chegava com a comitiva à sala das reuniões quando de outro corredor apareceram Omar Bongo, presidente do Gabão e a sua gente. Estávamos na Guerra Fria: para esquerdistas europeus Bongo era um lacaio do capitalismo; para europeus de direita Machel era um perigoso marxista-leninista. “Machel!”; “Bongo!” gritaram e caíram nos braços um do outro às gargalhadas. Pertenciam ambos à irmandade de escravos forros que agora mandava em África. Capitalismo e comunismo eram problemas nossos, não deles.

 

Pela primeira vez o director da OMS vem de África (ex-ministro dos estrangeiros etíope); para ele Mugabe deve ser ainda, sobretudo e para sempre, um dos grandes heróis das guerras de independência africanas.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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José Cutileiro

 

 

 

Voltas do Mundo

 

 

 

Na segunda-feira de manhã, a telefonia do carro lembrou-me que fazia 50 anos desde a morte de Che Guevara. 50 anos, dantes, eram um ror de tempo, mais do que a vida de muita gente (o meu Pai, por exemplo, morreu com 44, tinha eu 21); hoje os números são outros: casa-se bem mais tarde, muitas mulheres dão à luz pela primeira, e geralmente última vez por volta dos 40. Foi a pílula – a pastilha, dizia amiga minha, também aí há 50 anos, mas nunca ouvi mais ninguém usar a palavra com esse significado, de maneira que não figurará em dicionários de sinónimos: a excentricidade morreu com quem a inventou.

 

No começo de Outubro de 1967 eu vivia em St. Antony’s College, Oxford, e dava-me com economista francês, Jean-Marc Fontaine, chegado há pouco de Sciences-Po. Carregado de todos os preconceitos anti-ingleses que qualquer francês que se prezasse, fosse ele sans-culotte, ci-devant ou mistura dos dois, trazia consigo desde as batalhas de Azincourt, de Waterloo, teve todavia de ir reconhecendo, com relutância, os grandes méritos do que lhe davam agora a ler na pérfida Albion (embora a maneira de pensar fosse tão diferente da sua que lhe acontecia chegar ao fim do primeiro capítulo de um livro com a sensação de ter chegado ao fim do livro). Só na Páscoa seguinte, depois de discussão épica no correio de North Parade, ao virar da nossa rua, julgou entender. “Pourquoi ces types sont, d’une façon générale, si stupides mais leurs intellectuels sont, quand-même, assez astucieux? C’est que, pour eux, penser ce n’est pas naturel. It’s a job. You either do it well or you don’t do it at all”.

 

Jean-Marc era um romântico e quando a notícia chegou pela televisão, e a seguir nas capas de jornais, a preto e branco, com o Che deitado de costas morto, nu da cintura para cima, lembrando Cristo famoso pintado por Mantegna na Renascença, e soldados bolivianos armados em pano de fundo, que geralmente as redacções tiravam da fotografia, achou que era preciso mandar pêsames à embaixada de Cuba em Londres. Ele ia mandá-los, não era comunista mas o Che era figura impar que merecia homenagem e eu deveria mandá-los também. Eu tampouco era comunista; nem sequer tinha a simpatia por Cuba revolucionária que muitos lhe estendiam só por serem anti-americanos – eu não o era – mas também não chegava aos rigores dos que falam dos comunistas como de peste bubónica. O comunismo não foi uma doença; foi um remédio que falhou; o manifesto dos dois alemães (como o Sermão da Montanha do nazareno) não queria dar cabo do mundo, queria endireitá-lo. Deu para o torto; a emenda foi pior do que o soneto - mas o Che morreu convencido do contrário. Mandei os pêsames – e não parei de me arrepender. Passei a receber em quantidade e com regularidade exasperantes toda a espécie de propaganda impressa daquela ditadura de ilhéus, crassa e mentirosa, enquanto estive em Oxford. Três anos depois, quando mudei para Londres, o Colégio passou a devolver tudo e perderam-me o rasto.

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 23 de Agosto de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

Sacanas e bananas

 

 

 

Passam-se anos sem eu ver o Duro. Desde novos, privámos em passagens animadas da vida e ele conhece-me melhor a mim do que eu o conheço a ele - ou pelo menos é isso que eu sinto. (Outro com quem acontecia o mesmo era o meu chorado Zé Cardoso Pires e eu achava que tal se devia ao Zé ser romancista e eu não; com o Duro essa explicação não colhe). Encalhámos um no outro há dias e lembrei-me – lembro-me sempre que nos encontramos - de encalhe anterior, também no verão, à porta do Balaia, depois do 25 de Abril mas antes do Balaia ter virado Club Med.

 

“Voltaste?”. Fazia-o ainda pela finança internacional, em Londres ou numa das costas dos Estados Unidos.

 

“Não! Só quando as condições estiverem cumpridas”.                                                                                  

“Quais condições?”                                                                                                                                                  

“Salazar no poder; Marcelo Caetano na oposição; Freitas do Amaral na clandestinidade!” (Freitas do Amaral, nessa altura, considerava-se e era considerado de direita).

 

A mi me gustan las cosas asi: los hombres hombres; el trigo trigo!” afirma camponesa andaluza numa peça de teatro de Lorca. Camponesa que havia de ser, como o Duro, pessoa de um só princípio, de um só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer. Como seria também o médico cujo nome me escapa, membro do Partido Comunista Português no tempo da clandestinidade, preso duas ou três vezes, esbofeteado pela Pide, que encontrei em casa da Mimi e do Fernando Bandeira de Lima, amigos dos meus Pais (ele também maltratado na António Maria Cardoso) e que, ao falar eu de inspector da Pide inteligente me interrompeu, indignado, porque a inteligência era um dom das almas superiores e, por isso, nenhum Pide podia ser inteligente.

 

Ainda haverá gente assim. O Duro é fino como um coral; o amigo dos Bandeira de Lima era burro; o que nos chegou da camponesa de Lorca não dá para saber – mas tudo seres morais e isso escasseia agora no pessoal político. Não só por cá (já lá vamos); falha no cimo mesmo do que chamávamos “O Mundo Livre”: Trump, palhaço pouco esperto, ignorante e malfazejo terá de ser corrido depressa; no Reino Unido não se vê hoje ninguém; em Berlim, automóveis poluentes e superavit escandaloso são demais para que a mediocridade da Senhora disfarce a Alemanha. Talvez Macron, se fizer os franceses perderem egoísmo e peneiras.

 

E nós? No tempo de Salazar o escritor José Rodrigues Migueis dizia que Portugal era um país de bananas governado por sacanas. Democracia e Europa trouxeram-nos harmonia: hoje somos, governados e governantes, bananas assacanados - ou sacanas abananados se a leitora preferir.

                                                                            

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Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Greta Garbo em Ninotchka

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Elogio dos coca-bichinhos

 

 

 

Num fim de tarde sombrio do fim do Outono de 1967, em sala aquecida a gás da cave victoriana de Saint Antony’s College, Oxford, assistia eu a uma das cinco palestras sobre Marx dadas pelo Professor Chemin Abramsky, sumidade que vinha às quintas-feiras de Londres iluminar os nossos espíritos, quando ele declarou que Marx se dera imediatamente conta da importância para a história da Europa da Comuna Francesa como tal. “Engels”, acrescentou, “foi mais lento. Levou-lhe cerca de quinze dias”. (Talmúdico e germânico, Abramsky lera, inter alia, toda a correspondência entre os dois).

 

Percebi nesse instante que a vida académica onde há três anos me metera não era para mim mas passariam ainda mais sete – e revolta vitoriosa, por fartura das guerras coloniais, de maioria esmagadora de oficiais milicianos e do quadro das forças armadas portuguesas – até a deixar. Sem o espírito coca-bichinhos porém, não haveria ciência e sem ciência não teríamos, por exemplo, nem aspirina, nem aviões, nem o numérico. Outro exemplo: sem inclinação coca-bichinhos a meter ombros à sua visão, o frade de Brno não teria aguentado oito anos de registo da fecundação cruzada de ervilhas de cheiro - e não haveria genética moderna. Nada é simples. Quando Vasco Pulido Valente era candidato a Saint Antony’s, Raymond Carr, director do colégio perguntou-me se o meu amigo era realmente bom. “É um homem muito inteligente” respondi. “Com certeza. Mas porque é que um homem muito inteligente haveria de fazer investigação pormenorizada?”

 

Até hoje nunca ninguém soube o futuro e continuamos a não o saber. Mas, graças aos progressos da ciência (incluindo nesses progressos a liberdade de estudar o que se quiser e de publicar livremente os resultados desses estudos) tampouco agora temos sobre o passado as certezas que tínhamos. Por um lado, mais uma vez, a liberdade de levantar dúvidas – “If you think your mother loves you, check it”, dizia o chefe da redacção ao estagiário nos grandes anos da imprensa escrita americana – por outro lado, cada vez mais coca-bichinhos auferem tempo e dinheiro para satisfazer a sua curiosidade diligente.

 

Para a vasta maioria de nós todos incluindo, presumo, a leitora, o colapso da União Soviética e o fim dos regimes comunistas da Europa Oriental foram um alívio para quem lá vivia e um sossego para nós também. Salvo – e, machista, a nossa opinião em geral não reparou nisso – quanto à satisfação sexual das mulheres. Em 1917, mesmo antes do Bolchevismo, tiveram o voto na Rússia; na URSS e satélites depressa ganharam direitos e liberdades económicas e sociais que as libertaram de muitas dependências e jugos do homem. Estaline fez marcha atrás; mas embora menos na URSS, na Albânia e na Roménia onde também houve retrocessos, a situação feminina europeia do lado de lá era muito melhor do que do lado de cá – para mais fruição e prazer das próprias, também sexual. Tudo medido e avaliado agora por coca-bichinhos e coca-bichinhas.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 7 de Junho de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Berlim, 1989

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Birras ou guerra?

 

 

Poucos ricos, muito ricos; muitos pobres, muito pobres; fosso entre os dois a crescer: assim vai o nosso mundo. É receita para grande desastre, estimulada pela ganância de Wall Street e de outras praças financeiras – em toda a parte, cada vez mais PDGs são premiados por lucros a curto prazo. A diferença entre o que ganham os administradores executivos de grandes companhias e o que ganham os empregados menos bem pagos destas duplicou várias vezes desde o tempo há quarenta anos em que toda a gente parecia estar mais feliz do que alguma vez estivera (e do que está agora), nos Estados Unidos da América e na Europa Ocidental (e a tendência não dá sinais de abrandar, pelo contrário).

 

Tempo houve em que na Áustria políticos cristãos-democratas e sociais-democratas se alternavam no poder e distribuíam pelas clientelas respectivas benesses e prebendas financiadas pelo contribuinte. Com toda a gente, ou quase, sentada à mesa do orçamento, não havia revolucionários, ou sequer conspiradores. A Áustria viveu sob acordo entre a União Soviética e os três grandes do Ocidente, também vencedores da segunda guerra mundial e, se só ela estava proibida, por tratado, de aderir à Aliança Atlântica, aos outros neutros da Europa – Irlanda, Suécia, Finlândia – a União Soviética metia respeito igual ao que metia aos membros europeus da Aliança. Para cá da cortina de ferro e do arranjo sui generis da Jugoslávia, todos nos íamos governando – ou sendo governados – de maneira parecida.

 

Agora temos saudades – ninguém, por enquanto, inventou e pôs em prática coisa melhor, pelo contrário. À geração já matura mas ainda activa dos nossos dias, cabe o duvidoso privilégio – contrariando a experiência de três gerações anteriores consecutivas – de deixar os filhos mais pobres do que os pais tinham sido (excepto, mais uma vez, entre os muito ricos). A chamada terceira via de Tony Blair e do professor da London School of Economics que o inspirou – a arte de diminuir as pensões de velhinhas pobres com boa consciência, chamava-lhe cínico na nossa praça – acabou por não convencer ninguém. A social-democracia alemã – e a sueca – cansaram os eleitores. Transformado em poder por François Mitterrand, que não era socialista mas era artista, o socialismo francês deu cabo do comunismo estalinista francês, apoderou-se da noção de estado-jiboia que tudo come à sua volta e acabou por rebentar: nas eleições legislativas deste mês nem chegará a dez por cento dos votos. Simultaneamente, a direita francesa desconjuntou-se. Os americanos elegeram Trump. Os povos mais ricos e bem tratados do mundo, como meninos mimados, fazem birras.

 

O homo sapiens, também conhecido por bicho homem, gosta do mal e precisa dele dizia, salvo erro, George Orwell e, certamente, algum Doutor da Igreja. Como se meio século de paz não chegasse, vieram demãos de correcção política e a besta zangou-se.

 

Esperemos que cheguem dois ou três grandes sustos para a meterem nos eixos – sem guerra.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 20 de Abril de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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 Sam Nujoma

 

 

 

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Windhoek

 

 

 

Nome bem posto: o vento não amaina na capital da Namíbia onde em 1990, depois de muitos anos de luta anti-colonial, tomou posse o primeiro presidente, Sam Nujoma. Outros chefes de movimentos independentistas de colónias britânicas – Julius Nyerere da Tanzânia (traduziu The Merchant of Venice para suaíli – nunca lhe perguntei se, nessa versão, Shylock em vez de ser judeu era indiano – inventou uma utopia socialista africana e arruinou o país sem derramamento de sangue) ou Oliver Tambo da África do Sul que durante a prisão de Mandela dirigiu o A.N.C. mantendo-o amarrado a visão marxista revolucionária, ou Robert Mugabe do Zimbabué, católico da libertação africano que de entrada seguiu o conselho do moçambicano Machel e não tocou nos bens dos brancos e depois fez marcha atrás transformando a agricultura mais rica de África numa miséria escandalosa, ou outros ainda – durante os anos da luta tratavam o camarada Nujoma um pouco por cima da burra por não o acharem tão inteligente e tão culto quanto eles eram.

 

Independências africanas foram vindo, Pretória percebeu que tinha de acabar com o apartheid. Antes livrou-se da Namíbia, antiga colónia alemã cuja ocupação as Nações Unidas haviam condenado. Depois de muitas peripécias, de Nova Iorque veio o finlandês Matti Ahtisaari, por Pretoria estava o Administrador-Geral Louis Pienaar, do mato e do exílio vieram lugares-tenentes de Nujoma. Entre o fim das conversações e a independência visitei os protagonistas. Pienar e Ahtisari contaram-me a mesma história, o primeiro como cangalheiro a ler-me uma certidão de óbito e o segundo como parteira que me narrasse um nascimento. Esperando a coroação, Nujoma, de fato de safari e sandálias, estava à vontade na moradia onde me recebeu, mobilada tão à pressa que vaso de planta grande ao lado dos sofás novos tinha ainda a etiqueta do preço: 8 rands e 99.

 

Num jantar em Joanesburgo meses depois, jornalista contou-me ter amigo dentista de que agricultor rico da Namíbia era cliente. (A vasta maioria dos grandes proprietários rurais da Namíbia são afrikaners). Homem de uns 70 anos estivera no consultório com o filho uma semana antes: tudo ia pelo melhor, sem quaisquer desmandos ou empecilhos à sua actividade que a independência tivesse trazido. A certa altura quisera referir-se ao Presidente, não se lembrara do nome e perguntara ao filho: “Como é que se chama o cafre que trata da política?”

 

Na sua simplicidade Nujoma percebera uma coisa enorme que escapara à finura dos outros (e a muitos sociais democratas europeus): com o fim do comunismo acabara a razão de ser de muitas práticas social-democratas. Que o capitalismo tenha de se modificar e depressa, não há a menor dúvida; que se insista para o fazer numa espécie de comunismo laite não tem pés nem cabeça. Aumenta o mau viver, desacredita a classe política, desanima os empresários, enxota os investidores: pior do que a austeridade, atrasa o futuro. Quando é que a esquerda europeia tomará juízo?

 

 

 

 

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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Execução de Giordano Bruno 

 

 

 

 

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Velhice do velho continente

 

 

 

Nunca houve tanta gente quanta a que há agora. Somos hoje mais do que a soma de todos os homens e mulheres que viveram e morreram no planeta, desde que o Homo sapiens apareceu até ao fim do século XIX.

 

A maioria da população da Terra é gente nova mas, quando se vai por continentes há uma excepção: a nossa. Há hoje na Europa mais gente velha do que gente nova; diz quem percebe destas coisas que a tendência vai reforçar-se no futuro previsível. A nossa gente nova sobrevive, às aranhas, desanimada, eviscerada por desemprego altíssimo (embora haja casos a contrapelo, até em Portugal: conta The Economist da semana passada, num estudo especial sobre a juventude no mundo, que cá vive e trabalha uma rapariga, génio da informática, que criou empresa inovadora sua e tem clientes por toda a parte do mundo). A Europa, cujos dirigentes políticos passaram gerações a dá-la como exemplo de maneira de viver às outras nações, esquecendo que o milagre europeu assentava, por um lado, em medo salutar de Estaline e dos seus sucessores enquanto a União Soviética durou, medo que aconselhava as pessoas a terem juizinho em casa não fosse o caldo entornar-se (quem se lembre ou conte com quem lho saiba contar, traga à mente três datas emblemáticas lusitanas do século XX - 25 de Abril, 11de Março, 25 de Novembro - e medite sobre o bom-senso) e assentava também, por outro lado, na apólice do seguro de vida garantido pela aliança militar com os Estados Unidos chamada vulgarmente NATO, contra eventuais agressores exteriores, isto é, a dita União Soviética, seguro que dissuadiu o Kremlin de tais maus pensamentos, sendo a Guerra Fria ganha sem ter de se dar um tiro.

 

Tudo isso já lá vai. Em 2008 a doença financeira trouxe para tratamento a austeridade. Emenda pior do que o soneto mas é pior ainda quando xicos-espertos, animados pelo grego da moto, bancam num jeitinho a dar que eles saberão explicar aos alemães. Dessa, nós por cá ainda não estamos livres.

 

Entretanto inépcia do poder americano e cobardia dos confortos europeus deixaram à solta a atrocidade síria cujos fugitivos estão a escavacar pretensões morais europeias, acordando o pior em muitos corações: da brutalidade da Hungria à hipocrisia da Dinamarca. Quando Angela Merkel abriu a porta aos infelizes que não se tivessem afogado pelo caminho, esqueceu-se que a alma das pessoas de bem é um horror.

 

Há pior, por toda a parte. A grande ilusão comunista foi remédio que falhou. A julgar pelos feitos do Estado Islâmico, pelos budistas a irem ao pelo aos muçulmanos na Birmânia, pelo apoio dos evangélicos americanos a Donald Trump, a fé religiosa não nos tirará de apuros.

 

Montesquieu, Voltaire, a razão? Tem-se tentado, sem ela não teríamos chegado a separar a igreja do estado, ingrediente sine qua non de decência de vida. Está a ser agora muito atacada (exactamente por causa disso). Talvez gente nova, europeia ou outra, entre robots e inteligência artificial, encontre outra vez rumo.

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Outubro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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 O Rei Jorge V de Inglaterra e um mendigo no Derby

 

 

 

 

 

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Broncalina do camandro?

 

 

 

“De resto, cá vamos andando – agora observando este impasse da política portuguesa, com um misto de incredulidade e apreensão. Vamos lá ver como é que o António Costa faz o seu jogo – francamente não gostava de estar no lugar dele. A Social-Democracia está numa situação impossível um pouco por todo lado, não é? Como diria o seu amigo designer de quem fez o obituário há uns meses, é uma broncalina do camandro…” desabafou correspondente lisboeta, em e-mail sobre outro assunto.

 

Está, sim senhor – desde o fim da União Soviética, embora nem toda a gente tenha dado por isso. Os regimes comunistas foram logo ao ar (tirando a Coreia do Norte e Cuba) mas quase só Tony Blair percebeu que a social-democracia também estava condenada. Ela existira como mal menor – os dirigentes sindicais vendiam metade da alma ao Diabo para serem aceites pelo patronato mas a outra metade chegava para lhes dar credibilidade junto dos seus e toda gente vivia em paz e sossego na prosperidade ocidental – mas, com o mal maior extinto, o mal menor deixou de ter razão de ser. Blair, Brown (e Mendelson, a cabeça pensante do partido) adoptaram a “terceira via” (a arte de cortar pensões a velhinhas com boa consciência, chamava-lhe um cínico); não tivesse havido a desastrosa guerra do Iraque talvez ainda hoje governassem o Reino Unido. De resto sociais-democratas só se aguentam na Alemanha como parceiros menores, em coligação com Merkel e, na Suécia, depois de quase meio século de poder, desapareceram há anos do governo.

 

A partir da “terceira via”, terá de se inventar melhor senão está o caldo entornado, porque as desigualdades económicas hoje são excessivas. Os ricos estão cada vez mais ricos: nos Estados Unidos, por exemplo, enquanto os rendimentos de operários estagnaram ou diminuíram, entre 1978 e 2012 o pagamento dos CEO das grandes companhias aumentou 876%! Como Marx lembrou, alterações quantitativas acabam por levar a alterações qualitativas e se a tendência continuar não é preciso perspicácia de Papa ou de trotskista para prever balbúrdia.

 

O desabafo do meu amigo lisboeta também se preocupa com o jogo que fará o Secretário-Geral do Partido Socialista português. Para isso, 1974 devia ser exemplo. A URSS era forte, os amanhãs que cantam pareciam evidentes a muitos, havia no PS muita gente à esquerda de Mário Soares e o marxista-leninista Manuel Serra disputou-lhe o lugar. Acordados com Soares, alguns militantes (entre eles Victor Cunha Rego, Vasco Pulido Valente) apresentaram moção social-democrata, colocando ao centro Soares que derrotou Serra e manteve rumo sensato, decente e patriótico, ganhando eleições em 1975 e 1976 e, de caminho, salvando o país. Bem para lá do talento táctico o que deu força a Soares foi a sua crença inabalável na democracia parlamentar e na Europa (a cuja porta bateu logo que primeiro-ministro). Quem tiver crença menos forte quer numa quer noutra, se alcançar por fim poder político fará muito mal a Portugal.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 30 de Setembro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

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Retornados

foto de Rui Ochôa

 

 

 

 

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O fim ou o começo?

 

 

 

Valha-nos o Papa Francisco com manto de bondade universal que não tinha ombros a sustentá-lo desde a morte de Nelson Mandela. Muito de vez em quando, há homens e mulheres assim, Estrelas do Norte que levam tempo a iluminar – Principal dos jesuítas na Argentina dos Generais; comunista a britar pedra na Africa do Sul do Apartheid – mas que, depois de firmada a luz, nada e ninguém apaga.

 

Bem precisamos deles agora. Não só por causa do detestável Victor Orban e demagogos quejandos, vindos do lado de lá da Cortina de Ferro, deitada a baixo há 26 anos mas cujo mal levará muito mais tempo a desfazer do que se imaginou: gerações em que filhos desconfiaram de pais, pais desconfiaram de filhos, vizinhos de vizinhos, polícia dos outros cidadãos e os outros cidadãos da polícia, fizeram sumir a confiança e, como dizia a cantiga: sem confiança, não pode haver felicidade. Mas também por causa de demagogos do lado de cá, sobretudo em França que se arrisca a eleger Marine Le Pen presidente da república daqui a dois anos. Muitos franceses e amigos da França, criados nos mitos de “la Republique” e da resistência antinazi, acham impossível mas receio que se enganem. Não se deram conta de que a França de François Hollande é muito mais parecida com a França do Marechal Pétain do que a Alemanha de Angela Merkel é parecida com a Alemanha de Adolf Hitler, Volkswagen e tudo. Na União Europeia, a Alemanha é hoje o bastião mais sólido contra tentações ditatoriais e tentativas de abuso dos direitos civis e políticos das pessoas. (A virtuosos profissionais como os suecos e, em certa medida, os ingleses, falta o travão brutal e salutar que a memória histórica faz disparar nos alemães sempre que poem o pé em ramo verde).

 

A Europa Comunitária, inventada a seguir à guerra de 39-45 por Jean Monet & Cia., na esteira de muitos visionários, não herdou tradições de Império. Pelo contrário: entalada entre o Comintern e o excepcionalismo americano tentou desfazer-se das que alguns estados membros albergavam. Defendida do papão Estaline pelo arsenal militar americano e adubada por dólares do Plano Marshall, cresceu até ser União Europeia, espécie de gigantesca ONG que, entre nostalgia, culpa, cobardia e inveja, não encontrou ainda o seu lugar no mundo.

 

A catadupa de refugiados de hoje poderia acordá-la dessa espécie de sonambulismo mas, em quase todos os nossos países, políticos e comentadores ponderam as boas razões de Orban - disfarçadas de neofascismo, explicam, por ele querer, democraticamente, agradar aos eleitores - e escandalizam-se com excessos do Bem, esquecidos de que o Bem é sempre escandaloso. Assim não iremos lá.

 

Os factos são simples: a Europa precisa de imigrantes como de pão para a boca, e eles querem vir. Para os aproveitar os europeus têm de se organizar e coordenar. Parece evidente mas não o é e o tempo foge. Se nos enlearmos no medo dos mouros dos demagogos, o futuro ir-nos-á apanhando cada vez mais enfraquecidos e divididos.

 

 

 

 

publicado por VF às 09:57
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