Quarta-feira, 10 de Outubro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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© Tjeerd Royaard

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

Quem são os maus da fita?

 

 

Escrevo para este bloco-notas na terça-feira, como faço quase sempre, a fim de enviar à Vera texto pronto para ela escolher ilustração e pôr no ar o seu blog na quarta. Quando aquelas e aqueles a quem o mando directamente o recebem mais tarde, na quinta, às vezes na sexta, a culpa não é da Vera – é minha e só minha. O que faz de mim o mau desta fita – mas não era de mim que eu queria falar agora.

 

Aprendi da leitura do Expresso Curto de hoje que as acções do clube de futebol italiano Juventus subiram imenso quando Ronaldo fora para lá jogar – e desceram há dias quando se soube de desavença sua em Las Vegas com pequena bem formada (julgo que tivesse sido modelo) aqui há anos. Elle m’a dit d’un ton sévère / Qu’est-ce que tu fais là? / Mais elle m’a laissé faire / Les filles c’est comme ça cantava Georges Brassens, mas as raparigas já não são o que eram e, como tudo na América, a diferença exprime-se em dólares. 325.000 nesse caso - foi o que o número 7 tinha amigavelmente pago para a calar mas isso era antes do #MeToo: agora só a destruição moral dele (ou dela: nestes casos as opiniões dividem-se, com bandos ululantes de um lado e doutro, como o caso recente do juiz do Supremo Brett M. Kavanaugh mostrou) será considerada fim aceitável da polémica. Mas também não é ao Ronaldo - ou à pequena – que eu quero chamar mau da fita.

 

A notícia que me fez ouvir campainhas – para pôr a Leitora na calha – foi que o triunfo republicano no caso Kavanaugh fez subir as bolsas mais ainda do que Trump tem feito só por ser Presidente. Imensa gente bem-pensante na Europa e nos Estados Unidos detesta Trump (em parte por ser bruto e malcriado), na África ao Sul do Saará e na Ásia ele é um branco muito mais parecido com os outros brancos do que com africanos ou asiáticos. Mas do nosso lado do mundo, não. Aí (cá) o que conta é que toda a legislação de Trump contra tentativas de salvar o meio ambiente, contra poder sindical que modere ganância do patronato, contra visão económica que vise a diminuir o fosso entre pouquíssimos muito ricos e muitíssimos muito pobres, indigna toda a gente menos os que seriam seus eleitores, se pudessem votar nele do lado de cá do Atlântico. Quem não se vira contra ele é a gente do dinheiro - fazendo orelhas moucas a palavras sensatas e, para encherem os bolsos, metendo-nos a todos cada vez mais no fundo do buraco. E eu que, quando o namorado da filha do milionário lhe diz “eu não trocava a minha consciência pelo seu dinheiro” e o milionário lhe responde “e você pensa que eu trocava o meu dinheiro pela sua consciência?”, estive sempre até hoje do lado do milionário, dou por mim a achar que o pateta do namorado talvez tenha razão.

 

Se o mundo físico se tornar cada vez mais invivível e o mundo social cada vez mais uma luta de “nós contra eles” ou de “eles contra nós” ou de ambos, alguém terá de voltar a meter a capitalistas desenfreados o medo salutar que a União Soviética lhes metia. São eles os maus da fita.

 

 

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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

weber-ill-520x485Max Weber

Ilustração de Ragni Svensson 

 

José Cutileiro

 

 

Corrupção, família, crimes

 

 

Quando eu vivia na costa oriental dos Estados Unidos, jornais de Nova Iorque deram notícia da condenação a penas de prisão de personagem importante de Wall Street - e do pai dele. O C.E.O. de um hedge fund cometera delito de iniciados, salvando com este pequena fortuna, dentro da grande que já tinha feito. O pai, cirurgião reformado, evitara a ruína, pois havia posto quase toda a sua poupança nas acções que, avisado a tempo pelo filho, oportunamente vendera.

 

Moral da história em Nova Iorque ou em Londres: procuradores diligentes e íntegros tinham devidamente feito punir dois velhacos que se tinham criminosamente servido de informação privilegiada. Moral da história em Braga ou em Évora: banqueiro pusera amor filial acima de obrigações descoroçoadas impostas pelas manigâncias da bolsa e evitara justamente a ruína do velho.

 

Há mais de um século – ou melhor dito, desde que professor alemão chamado Max Weber publicou um livro chamado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - que historiadores do dinheiro e das ideias procuram lidar com tais contrastes (incluindo os que acham essa tese um disparate pegado e recordam a fulgurância de banqueiros e homens de negócios do Norte de Itália, católicos apostólicos romanos, desde o fim da Idade Média) e que o público leitor em geral e políticos desonestos em particular – o mais notável dentre estes, na última década, sendo Angela Merkel – às vezes se aprazam em proclamar moral a gente do Norte da Europa e imoral a gente do Sul da Europa; mais ao sul passam a ser morais outra vez, se o comportamento ético da Chanceler alemã servir de padrão (de standard, em português contemporâneo). Com efeito, por um lado, a Senhora tratou a insolvência grega como se pecado de todo um povo se tratasse, exigindo castigo até ao pagamento total da dívida (e fazendo indemnizar bancos alemães, parceiros em negócios falhados, com dinheiro destinado a aliviar os gregos) enquanto, por outro lado, considerou centenas de milhares de candidatos a asilo político africanos e asiáticos vítimas de infortúnio exigindo ajuda incondicional.

 

É claro que coisas assim nunca são simples. Por exemplo, a primeira vez que lidei com corrupção, sem lhe dar nome nem conhecer o conceito (e como ‘corruptor’, não como ‘corrompido’) tinha 8 anos. Por razões longas de enumerar fiz a quarta classe de casa do avô em Évora enquanto os pais ficaram em Lisboa. Da Rua da Mouraria, onde vivíamos, à escolinha da D. Maria Prego na Travessa da Capelinha era preciso atravessar a cidade; o avô contratou criado antigo (o Velho Madeira) para me acompanhar. A vergonha que tive perante outros meninos e meninas foi tal que, logo no segundo dia, propus pagar da minha semanada ao Velho Madeira para ele me deixar a meio caminho, na Praça do Geraldo. Ele aceitou logo e assim fizemos, à ida e à vinda, durante todo o ano lectivo.

 

Corrupção ou não? Conheci protestantes entendidos na matéria; nunca me lembrei de lhes perguntar.

 

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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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 dragões imperiais chineses 

 

 

 

José Cutileiro

 

    

Volta do marxismo ? Todos substituíveis ?

 

 

 

Muitas coisas nos arreliam este Verão a começar pelo calor, que envergonhou Eça de Queiroz diante de Fradique Mendes por só lhe ocorrerem expressões reles e em calão: «derrete os untos», «está de ananazes». Amigo do coração lembrou-me que calor passa e outras arrelias não arredam. Há duas que me têm tirado o sono, centrada uma nos Estados Unidos, outra na China.

 

Primeiro, a América. Quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo eu estava na Cidade do Cabo (Greet the Ambassador of the 4th Reich! faíscou o meu colega alemão à guiza de Boa noite, no jardim da casa onde íamos os dois entrar); quando Yeltsin desfez o império de cima para baixo sem sangue, estava eu em Lisboa. A Verdade triunfara sobre o erro, o Bem sobre o mal. E, salvo no caso peculiar da China, a ilusão marxista desabou como castelo de cartas de jogar. Ficaram Cuba, Coreia do Norte, alguns salpicos na União Indiana mas a ideia de que por lá passaria a salvação do mundo parecia ter-se sumido de vez. Se o comunismo perdera, porém, o capitalismo ganhara muito mal. Houve quem percebesse logo – comunismo não era doença, era remédio que falhara – mas  o grosso da cavalaria tomou o freio nos dentes e a eleição de Trump animou-a mais ainda. Na América – mais do que alhures – os poucos ricos estão cada vez mais ricos e os muitos pobres estão cada vez mais pobres. O socialismo marxista que desaparecera por lá desde o fim da Segunda Guerra Mundial (durante três décadas, em todas as classes, os filhos iam sendo sempre mais ricos do que os pais), seduz agora cada vez mais gente. Começou com Bernie Sanders, alastra como fogo de mato: numa «primária» em Nova York, mulata socialista de 28 anos derrotou o número 2 do Partido Democrático no Congresso, branco, sexagenário, não socialista. Mais socialistas marxistas serão eleitos em Novembro.

 

Segundo, a China com arranjo de partido único, dito marxista, a coincidir com capitalismo robusto, balisado pelo Estado. Mas a arrelia que me tira o sono não é essa. Desde a «desmaozição» imposta por Deng Xiaoping fomos notando, a pouco e pouco, o que nos parecia ser alguma liberalização do regime, uma aproximação aos nossos critérios e aos nossos valores. Como, para nós, a democracia parlamentar, monárquica ou presidencial, juntamente com a separação de poderes, a independência do judiciário, o exercício de direitos humanos e eleições livres e limpas é a evidência mesma de saber político universalista, sossegava-nos supor a China no bom caminho.

 

Erro nosso. O Presidente Xi passou a vitalício em regime mais próximo de monarquia absoluta do que das nossas modernices. E, em vez de ser padrão universal como os graus Celsius ou o teorema de Pitágoras, a nossa sabedoria política é um disparate aos olhos dos chineses. E agora?

 

Em filme antigo contra a pena de morte, capelão da cadeia dizia a condenado: Tu es immortel et irremplaçable. Se a China governar o mundo passaremos todos a ser substituíveis?

 

 

  

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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bola de cristal

 

 

José Cutileiro

 

À procura do futuro?

 

 

 

Dois factos

 

Primeiro: Entre 2007 e 2017, os proventos dos administradores das cem maiores companhias do Reino Unido foram multiplicados por quatro, isto é, passaram em média de um milhão para quatro milhões de libras esterlinas por ano. Durante a mesma década, os proventos do geral das pessoas empregues por conta de outrem no Reino Unido aumentaram de 10%, isto é de 1% por ano.

 

Segundo: Também no Reino Unido, à pergunta, corrente em inquéritos de sociedade, ‘Acha que os seus filhos vão ter vida melhor do que a sua?’ as respostas, até 2007, tinham sido quase sempre sim – e, a partir de 2008, passaram a ser quase sempre não.

 

Uma preocupação.

 

Em toda a Europa Ocidental, comentadores nos jornais, nas telefonias, nas televisões alarmam-nos de há alguns anos a esta parte com o crescimento do chamado populismo. Referendo no Reino Unido a escolher saída da União Europeia; eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos; eleição – e reeleição recente e reforçada – de Vitor Orban para primeiro ministro da Hungria; popularidade mantida pelo actual governo liberticida polaco; subida nas sondagens da Frente Nacional em França e – mais ainda – do movimento Cinco Estrelas na Itália, são dados como exemplos, entre outros, desse crescimento. Aos jornalistas juntam-se os cientistas políticos (a final de contas, uma espécie de jornalistas lentos e  possuídos por ‘the craving for generalizations’ que tanto irritava Wittgenstein) os quais tentam definir populismo, classificar variedades, comparar os seus aproveitamentos por demagogos de direita e de esquerda . Uns e outros, os rápidos e os lentos, preocupados por verem a Democracia mirrar dia a dia diante dos seus olhos, espécie de bambu ao contrário.

 

Um lembrete.

 

Ao contrário do que muito boa gente parece pensar, o fim do comunismo – o colapso da União Soviética; o mandarinato marxista-leninista de Beijing – não foi a extinção de uma doença. Foi o falhanço de um remédio e a sua desacreditação. O comunismo perdeu a Guerra Fria porque era pior do que o capitalismo mas a maneira como as coisas têm corrido desde então está a dar ao capitalismo uma vitória pírrica. Prosseguindo na metáfora médica: a doença continua e, esgotadas todas as variedades da mezinha experimentada primeiro em 1917 – de Pol Pot às democracias sociais nórdicas – parece urgente descobrir outro tratamento.

 

Um palpite.

 

Estaline disse a Churchill em Yalta que o embaixador que ele lhe mandara para Moscovo durante a guerra, trabalhista fabiano, era de primeira água mas tinha mania curiosa: querer explicar-lhe a ele, Estaline, o que era o socialismo. Quase 80 anos depois, se os povos fossem gatos, não seria por nenhuma dessas duas vias que iriam às filhoses. Nem pela da Rerum novarum.Inventar-se-ão misturas mais sensatas do que as ortodoxias vigentes. Se os Estados Unidos correrem com o maluco a tempo, mesmo que já não possam ser donos do jardim zoológico talvez ainda possam servir de polícia de trânsito.

  

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Davos, Suíça

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Ricos e pobres no mundo inteiro

 

 

 

Quando eu era antropologista praticante publiquei um livro em inglês, sisudo como o título sugeria: A Portuguese Rural Society. Estávamos em 1971 e eu pensara poder inventar nome menos aborrecido para lhe chamar mas quando já havia provas revistas, as fotografias do Mano João e do meu chorado Gérard tinham sido escolhidas, tudo pronto para a feitura física dos volumes da edição, eu não encontrara ainda nome que armasse ao pingarelho quantum satis. No meu gabinete, nos escritórios da Oxford University Press, na oficina da tipografia escolhida para a impressão, o nome continuava a ser o da tese de doutoramento na qual o livro se baseara.

 

A certa altura ocorrera-me chamar-lhe Before the Revolution (explicando no prefácio que, apesar do ambiente e das condições de vida daquelas aldeias tal poder sugerir a algumas cabeças jovens e entusiásticas da burguesia urbana, não iria haver revolução nenhuma) mas desisti por me parecer pretensioso (três anos depois teria ajudado às vendas, mas fosse lá alguém saber). Em última tentativa, passei um dia inteiro numa pequena biblioteca da Universidade com uma “Concordance” de Shakespeare, a ver se havia qualquer verso, dito, frase do Bardo que incluísse as palavras peasant ou peasants e me desse de bandeja o título de que eu precisava. Qual o quê: no tempo de Shakespeare, bem antes de ilusões sobre as virtudes e belezas dos camponeses terem animado almas românticas (e, mais tarde, de pungências sobre o seu sofrimento terem animado almas neo-realistas – No impressionismo, pinta-se o que se vê; no expressionismo pinta-se o que se sente; no neo-realismo pinta-se o que se ouve contou-me o Luís de Sousa que já não sei que professor ensinava por essa altura numa das universidades de Londres), não se escrevia nada de simpático sobre peasants, gente rude, sem maneiras nem conversa, mais própria para se roçar por bestas do que para convívios humanos. Vão tal esforço derradeiro, foi A Portuguese Rural Society que apareceu nas livrarias.

 

Depois da Revolução, que afinal sempre viera, podia por fim aparecer edição portuguesa que a Sá da Costa me propôs e a questão do título levantou-se de novo. Não me lembro se por sugestão minha, ou do João Sá da Costa ou da mulher dele, Ricos e Pobres no Alentejo foi escolhido e (salvo o Iá, Deus lhe tenha a alma em descanso, que com sentido moral exigente me disse, contristado, achar o título demagógico) toda a gente achou bem: o Alentejo tinha fama de grandes diferenças – lavrador abastado dissera um dia de trabalhador despedido que lhe queimara a seara: “Custou-lhe mais o fósforo do que a mim o trigo”.

 

Eram outros tempos e temos a mania das grandezas. Números divulgados este mês mostram que 82% da riqueza mundial gerada o ano passado couberam a 1% dos habitantes, enquanto os 50% mais pobres - 3,6 mil milhões de pessoas - não viram qualquer melhoria. As fortunas de 8 homens somam o mesmo que a totalidade dos bens desses 3,6 mil milhões.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

pinhal de Leiria

Pinhal de Leiria, 2017

 

 

José Cutileiro

 

 

 

O mundo real

 

 

François Mauriac, católico apostólico romano da região de Bordéus e prémio Nobel da literatura em 1947, escreveu que não conhecia a alma dos criminosos mas conhecia a das pessoas honestas e era um horror. Menos argutas, as nossas elites - eu e tu, hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère… (et, de nos jours, nos soeurs aussi) - estão a descobrir agora que aquilo a que gostam de chamar o país real – o Portugal profundo, escuridão misteriosa escondendo grande diamante por lapidar – é, afinal de contas, tão mau ou pior do que elas próprias. Contentará videirinhos saberem-se dotados de um olho em terra de cegos mas vai deprimir mais o resto de todos nós. A calcinação do Pinhal de Leiria foi a pedra de fecho da abóboda sonâmbula de incúria em que se fora transformando o Estado português.

 

Acabada a ficção “do Minho a Timor” (ainda ouvi gente dizer isso a estrangeiros, sem pestanejar) veio o grande desafio europeu: desde que o Dr. Soares bateu à porta de Bruxelas até nos deixarem entrar passaram dez anos, durante os quais se trabalhou. Uma vez dentro, porém, as coisas começaram a mudar. O Projecto Europeu, onde sempre quisemos estar “no pelotão da frente” (em Portugal a única literatura com leitores é a desportiva) passou a ser uma espécie de renda, ou de lotaria onde não havia nunca prémios astronómicos mas se ia ganhando sempre um poucochinho. Até que chegou a austeridade – “Os pobres que paguem a crise!” – e alguém se lembrou do cavalo do inglês que o dono treinava para viver sem comer e quando estava quase, quase treinado, morreu. Qual o quê! Os povos não são cavalos; entre troikas e autocensura íamos cantando e rindo - até que, de repente, duas girândolas de fogos deram connosco em terra.

 

Ninguém nos estenderá a mão num mundo cheio de outros disparates. Por exemplo, há dias a Organização Mundial da Saúde nomeou seu “Embaixador” Robert Mugabe, ditador que com mão de ferro transformou um dos países mais ricos de África num dos mais pobres. O escândalo foi geral e em 24 horas a OMC tirou-lhe o título. Porque é que o distinguiram? A razão é simples e percebi-a a 25 de Junho de 1982, em Nairobi, numa cimeira da OUA onde fora de observador. Moçambique fazia 7 anos; eu, embaixador em Maputo, quis felicitar Samora Machel que chegava com a comitiva à sala das reuniões quando de outro corredor apareceram Omar Bongo, presidente do Gabão e a sua gente. Estávamos na Guerra Fria: para esquerdistas europeus Bongo era um lacaio do capitalismo; para europeus de direita Machel era um perigoso marxista-leninista. “Machel!”; “Bongo!” gritaram e caíram nos braços um do outro às gargalhadas. Pertenciam ambos à irmandade de escravos forros que agora mandava em África. Capitalismo e comunismo eram problemas nossos, não deles.

 

Pela primeira vez o director da OMS vem de África (ex-ministro dos estrangeiros etíope); para ele Mugabe deve ser ainda, sobretudo e para sempre, um dos grandes heróis das guerras de independência africanas.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 12 de Julho de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Bataille de Waterloo

 Batalha de Waterloo  /  Clément-Auguste ANDRIEUX (1829 - 1880)

 

 

José Cutileiro

 

 

Fabrício em Waterloo

 

 

 

 

Ou “Fabrice à Waterloo” como os franceses gostam de dizer, não por serem senhores do seu nariz e terem sempre nariz maior que o do Cyrano (há quarenta anos, quando em Estrasburgo convivi com eles pela primeira vez, percebi que eram portugueses réussis, isto é, tinham todos os nossos defeitos sem terem a qualidade simpática que às vezes nos bafeja de reconhecermos que nem sempre temos razão) mas por ter sido romancista francês quem pôs personagem de romance seu, chamado Fabrice, tão atarantado durante a batalha de Waterloo em que participava como voluntário do lado dos franceses de Napoleão, que perdera o fio à meada, não entendia o que se estava a passar nem percebia sequer quem estava a ganhar e quem estava a perder. A passagem está tão bem escrita que a expressão “Fabrice à Waterloo” entrou na conversa das francesas e dos franceses cultos para referir atrapalhações desse género nos campos mais variados onde a vida nos solte ou prenda – assim como em Portugal a gente recorre ao velho do Restelo, que Camões pôs nos Lusíadas a achar que Vasco da Gama não deitava até à Índia, para falarmos de botas de elástico com raiva ao futuro que só se sentem bem no que julguem já conhecer por dentro e por fora.

 

Nos últimos tempos tenho encontrado alguns assim – mas, desta vez, gente nova e desempoeirada - em questão que eu julgava estar resolvida desde das trente glorieuses, anos de crescimento económico benfazejo do capitalismo europeu centrados entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o fim da Guerra Fria - e definitivamente arrumada desde o colapso voluntário da União Soviética, que se deitou abaixo a ela própria, como grandes industriais japoneses faziam hara-kiri se a empresa falisse. Salvo em cús de Judas exóticos – Cuba; Coreia do Norte – estava a dar-se por toda a parte grande mudança para melhor. Tínhamos esquecido sentença sábia de antigo governador do Banco de Inglaterra, do tempo da Senhora Thatcher, com quem acabou por se dar muito mal e cujo nome me escapa agora: “Mudança é sempre mau. Sobretudo mudança para melhor”.

 

Há dias, amigo, muito mais novo do que eu, ponderava - entre curioso e apreensivo, como se contemplasse fendas abertas em terreno onde pensara construir casa – o enxotar dos doutores a que assistimos agora, o festival de contra-verdades triunfantes em redes sociais, o elogio da ignorância e a exortação à intolerância por populistas de fala grossa a começar pelo 45º Presidente dos Estados Unidos da América. Lembrei-lhe que tudo não vai assim tão mal quanto isso, que os diferentes Estados da América conseguem corrigir muitos disparates do Presidente, que em França, na Holanda, na Áustria os democratas ganharam e a maré mudou. Que a razão tem filhos robustos a combater por ela.

 

Mas que, antes de mais, será preciso refrear a ganância dos mercados. Para voltar ao começo: prefiro estuários a deltas e carabinas a caçadeiras; o Rouge à Chartreuse (ou, 30 anos depois, a Bovary à Educação Sentimental).

 

 

 

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Quarta-feira, 7 de Junho de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Berlim, 1989

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Birras ou guerra?

 

 

Poucos ricos, muito ricos; muitos pobres, muito pobres; fosso entre os dois a crescer: assim vai o nosso mundo. É receita para grande desastre, estimulada pela ganância de Wall Street e de outras praças financeiras – em toda a parte, cada vez mais PDGs são premiados por lucros a curto prazo. A diferença entre o que ganham os administradores executivos de grandes companhias e o que ganham os empregados menos bem pagos destas duplicou várias vezes desde o tempo há quarenta anos em que toda a gente parecia estar mais feliz do que alguma vez estivera (e do que está agora), nos Estados Unidos da América e na Europa Ocidental (e a tendência não dá sinais de abrandar, pelo contrário).

 

Tempo houve em que na Áustria políticos cristãos-democratas e sociais-democratas se alternavam no poder e distribuíam pelas clientelas respectivas benesses e prebendas financiadas pelo contribuinte. Com toda a gente, ou quase, sentada à mesa do orçamento, não havia revolucionários, ou sequer conspiradores. A Áustria viveu sob acordo entre a União Soviética e os três grandes do Ocidente, também vencedores da segunda guerra mundial e, se só ela estava proibida, por tratado, de aderir à Aliança Atlântica, aos outros neutros da Europa – Irlanda, Suécia, Finlândia – a União Soviética metia respeito igual ao que metia aos membros europeus da Aliança. Para cá da cortina de ferro e do arranjo sui generis da Jugoslávia, todos nos íamos governando – ou sendo governados – de maneira parecida.

 

Agora temos saudades – ninguém, por enquanto, inventou e pôs em prática coisa melhor, pelo contrário. À geração já matura mas ainda activa dos nossos dias, cabe o duvidoso privilégio – contrariando a experiência de três gerações anteriores consecutivas – de deixar os filhos mais pobres do que os pais tinham sido (excepto, mais uma vez, entre os muito ricos). A chamada terceira via de Tony Blair e do professor da London School of Economics que o inspirou – a arte de diminuir as pensões de velhinhas pobres com boa consciência, chamava-lhe cínico na nossa praça – acabou por não convencer ninguém. A social-democracia alemã – e a sueca – cansaram os eleitores. Transformado em poder por François Mitterrand, que não era socialista mas era artista, o socialismo francês deu cabo do comunismo estalinista francês, apoderou-se da noção de estado-jiboia que tudo come à sua volta e acabou por rebentar: nas eleições legislativas deste mês nem chegará a dez por cento dos votos. Simultaneamente, a direita francesa desconjuntou-se. Os americanos elegeram Trump. Os povos mais ricos e bem tratados do mundo, como meninos mimados, fazem birras.

 

O homo sapiens, também conhecido por bicho homem, gosta do mal e precisa dele dizia, salvo erro, George Orwell e, certamente, algum Doutor da Igreja. Como se meio século de paz não chegasse, vieram demãos de correcção política e a besta zangou-se.

 

Esperemos que cheguem dois ou três grandes sustos para a meterem nos eixos – sem guerra.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Julho de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Barroso, Goldman Sachs e bom senso

 

 

 

De há uma dúzia de anos para cá, no calendário cinegético deste maravilhoso país que tão generosamente nos acolhe no seu seio – assim chamava a Portugal amigo inglês que cá vivia e já esticou o pernil – abre de vez em quando a caça ao Barroso. (Os nossos compatriotas atiradores à espécie folgam quando franceses rompem também o defeso. Franceses a cuja visão marxista primária do mundo se junta nessas alturas indignação escandalizada pelo triunfo do filho da concierge. Michel Rocard disse uma vez a Barroso que mesmo que ele cantasse a Marselhesa e erguesse ao alto o estandarte tricolor a esquerda francesa nunca o toleraria).

 

A pulsão condenatória nacional tem raízes mais variadas do que a estrangeira, nutrida por todos os horrores da alma humana. Inveja, empertigamento moral e ignorância fazem má mistura, da qual saem comentários nos jornais, nas telefonias, nas televisões, nas “redes sociais” e nas conversas. Num caldo de cultura de má-fé e má-vontade.

 

No cargo que Barroso vai agora ocupar em Londres – Presidente não executivo de Goldman Sachs International – esteve durante uma década, até ao ano passado, o irlandês Peter Sutherland  (o melhor Presidente que a Comissão Europeia não teve: política interna irlandesa impediu o que haveria sido escolha unânime) que foi Comissário Europeu e criou o programa Erasmus, Representante do Secretário-Geral da ONU para Migração, pilotou a transição de GATT para OMC, presidiu à BP, preside à Comissão Católica Internacional sobre Migração, tem vários outros encargos e a mais alta das reputações no mundo em que política e economia internacionais se entrecruzam. Encontrar sucessor à altura não terá sido fácil até Goldman Sachs decidir convidar Durão Barroso.

 

Ouviu-se e leu-se logo um coro de protestos, de entrada esperançados numa ilegalidade. Como esta não existe procuraram, também em vão, conflito de interesses. Por fim trataram Barroso como se fosse um traidor que se tivesse posto ao serviço do inimigo. Tal é, evidentemente, absurdo mas, como essa evidência parece escapar a muitos, vale a pana recordar algumas coisas elementares.

 

Durão Barroso, que foi presidente incansável da Comissão Europeia, vai agora presidir a Goldman Sachs. Mesmo a mais eurocéptica das cidadãs terá de reconhecer que é dever da Comissão - que nos próximos anos não terá mãos a medir na definição das novas relações entre o Reino Unido e a União Europeia - obrar pelo bem dos europeus. Por sua vez Goldman Sachs tem todo o interesse em que essa definição garanta a melhor articulação possível entre a praça financeira de Londres e a Europa Continental, como terá de reconhecer mesmo o mais eurofílico dos cidadãos europeus. A escolha de Durão Barroso faz assim o maior sentido e merece parabéns.

 

Salvo, claro, para quem ache que banqueiros – homens de negócios em geral - são cambada de gatunos apostada em esbulhar o povo e o alto funcionalismo internacional um bando de lacaios do capitalismo.

 

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Quarta-feira, 20 de Abril de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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 Sam Nujoma

 

 

 

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Windhoek

 

 

 

Nome bem posto: o vento não amaina na capital da Namíbia onde em 1990, depois de muitos anos de luta anti-colonial, tomou posse o primeiro presidente, Sam Nujoma. Outros chefes de movimentos independentistas de colónias britânicas – Julius Nyerere da Tanzânia (traduziu The Merchant of Venice para suaíli – nunca lhe perguntei se, nessa versão, Shylock em vez de ser judeu era indiano – inventou uma utopia socialista africana e arruinou o país sem derramamento de sangue) ou Oliver Tambo da África do Sul que durante a prisão de Mandela dirigiu o A.N.C. mantendo-o amarrado a visão marxista revolucionária, ou Robert Mugabe do Zimbabué, católico da libertação africano que de entrada seguiu o conselho do moçambicano Machel e não tocou nos bens dos brancos e depois fez marcha atrás transformando a agricultura mais rica de África numa miséria escandalosa, ou outros ainda – durante os anos da luta tratavam o camarada Nujoma um pouco por cima da burra por não o acharem tão inteligente e tão culto quanto eles eram.

 

Independências africanas foram vindo, Pretória percebeu que tinha de acabar com o apartheid. Antes livrou-se da Namíbia, antiga colónia alemã cuja ocupação as Nações Unidas haviam condenado. Depois de muitas peripécias, de Nova Iorque veio o finlandês Matti Ahtisaari, por Pretoria estava o Administrador-Geral Louis Pienaar, do mato e do exílio vieram lugares-tenentes de Nujoma. Entre o fim das conversações e a independência visitei os protagonistas. Pienar e Ahtisari contaram-me a mesma história, o primeiro como cangalheiro a ler-me uma certidão de óbito e o segundo como parteira que me narrasse um nascimento. Esperando a coroação, Nujoma, de fato de safari e sandálias, estava à vontade na moradia onde me recebeu, mobilada tão à pressa que vaso de planta grande ao lado dos sofás novos tinha ainda a etiqueta do preço: 8 rands e 99.

 

Num jantar em Joanesburgo meses depois, jornalista contou-me ter amigo dentista de que agricultor rico da Namíbia era cliente. (A vasta maioria dos grandes proprietários rurais da Namíbia são afrikaners). Homem de uns 70 anos estivera no consultório com o filho uma semana antes: tudo ia pelo melhor, sem quaisquer desmandos ou empecilhos à sua actividade que a independência tivesse trazido. A certa altura quisera referir-se ao Presidente, não se lembrara do nome e perguntara ao filho: “Como é que se chama o cafre que trata da política?”

 

Na sua simplicidade Nujoma percebera uma coisa enorme que escapara à finura dos outros (e a muitos sociais democratas europeus): com o fim do comunismo acabara a razão de ser de muitas práticas social-democratas. Que o capitalismo tenha de se modificar e depressa, não há a menor dúvida; que se insista para o fazer numa espécie de comunismo laite não tem pés nem cabeça. Aumenta o mau viver, desacredita a classe política, desanima os empresários, enxota os investidores: pior do que a austeridade, atrasa o futuro. Quando é que a esquerda europeia tomará juízo?

 

 

 

 

publicado por VF às 08:30
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