Quarta-feira, 28 de Agosto de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Soufflé Grand-Marnier aqui

 

José Cutileiro

 

O bistrot do francês

 

 

Mais exactamente, Le Bistrot Pierre-Marie, na Rua da Torre, acima e do outro lado do cemitério da Guia, encostado a um 5 à Sec, deixou de existir. Durante alguns dias os vidros guardaram o nome embora o lugar estivesse fechado e vazio. Depois, desses vidros foram tirados todos os dizeres. Referências aos prazeres da mesa fora de casa, que se encostavam a referência mal disfarçada aos prazeres do adultério citadino no nome da franchise de limpeza a seco, desapareceram de vez. Assim acabou ali a joie de vivrefrancesa.

 

Por Facebook e outras artimanhas dos nossos dias sabemos que Pierre-Marie pretende voltar a dar-nos prazeres gustativos não mais longe, presumo eu, do que umas cinco léguas em redondo. Mas tais notícias são poucas e vagas; não  noto progresso nelas; não vivo cá todo o ano e cheguei a idade na qual, no dia para que se acorda de manhã, as estatísticas dizem que tanto se pode viver quanto morrer  pelo que o regresso de Pierre-Marie e do seu bistrot é para mim urgente porque a sua falta faz minguar a qualidade de minha vida.

 

É certo que ao longo da costa, para quem, passado Paço d’Arcos, venha de Lisboa pela Marginal  e, de vez em quando, bem para dentro dela, desde os Santos do Estoril até ao Guincho – ou até à Praia Grande para os mais aventureiros – os restaurantes se seguem que sabem grelhar peixe (com distinção muito especial para Lourdes, na Boca do Inferno e Suzette na Adraga) mas o bistrot do francês não tinha nada a ver com isso. Estabelecera-se ao lado de Cascais, a estrada que da Rotunda Pedro Monjardino deitava até à sua porta pouco se afasta do tradicional vôo do corvo e não chegará a cobrir um quilómetro mas ele não  estava ali para grelhar peixe. Sem pretensões, com bons preços e bom senso, criara como um pequeno restaurante parisiense de bairro, onde souflés de queijo – e ultimamente também de Grand Marnier – e outras joias da gastronomia francesa eram feitos para serem comidos por clientela como eu que sabia ao que viera e encontrava o que queria.

 

O bistrot não fechou por Pierre-Marie ter adoecido ou estar cansado ou tal lhe dar na real gana. Fechou porque o contrato de arrendamento (o bail, dizem os franceses) acabara e para o renovar, animado pela explosão teratológica do mercado em Lisboa e arredores, o senhorio pedia tal montante que Pierre Marie, homem de coragem e experiência, habituado a lidar bem com riscos em várias partes do mundo, decidiu não poder aceitá-lo. Assim, a subida escandalosa de preços num sector do mercado imobiliário, provocado sobretudo por oferta francesa inesperada de que tantos portugueses à procura de casa se queixam agora, negou-nos a presença de pequeno restaurante francês que nos trazia presença civilizada única, livre por um lado de exageros regionais e, por outro, de pretensões universais falhadas de guindar a gastronomia ao estatuto de oitava arte. Comia-se como em pequeno restaurante de bairro parisiense, competente e sossegado – e faz falta.

 

 

 

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Quarta-feira, 7 de Agosto de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Max Weber imagem aqui

 

José Cutileiro

 

As coisas são como são

 

Há uns vinte anos, em Princeton, li no jornal de um escândalo em Wall Street, pequeno por padrões a que a ganância, nesta época de financeiros desregulados e sindicatos enfraquecidos, nos tem levado a adoptar mas suficiente para entreter leitores do New York Times. Homem importante e tido por super honesto daquela praça financeira fora parar à cadeia, culpado do delito de informação privilegiada. Até aqui nada de especial mas li a seguir que o pai dele, urologista reformado com mais de 80 anos, a quem o filho informara e assim pudera vender a tempo a poupança de uma vida inteira e evitar a ruína, fora também condenado. E aí o caso mudou de figura porque o imaginei, leitora, em Portugal.

 

Quem atiraria a primeira pedra ao filho que salvara o pai? Quem acharia que ele se deveria ter submetido às obrigações de uma moral universalista que trata igualmente, segundo regras gerais aplicadas a todos, o filho predilecto da leitora e os ciganos que devem com certeza ter roubado a trotinete eléctrica da filha do vizinho da sua mulher a dias? Quem o condenaria em tribunal? E, se fosse mesmo condenado, quantos tratariam de arranjar maneira de lhe encurtar a pena ou até de o amnistiar?

 

Na Idade Média, desenvolveu-se na ponta noroeste da Eurásia sistema de regras de convivência entre quem tinha a terra e quem a trabalhava ou tinha misteres correlativos a que se chamou feudalismo, que foi ensinando a toda a gente como se comportarem uns com os outros e irem vivendo em paz, sobreviveu às matanças das grandes guerras religiosas europeias e chegou ao nosso tempo sob a forma de democracias parlamentares e de monarquias que reinam mas não governam. Entretanto, fiéis ofendidos não só por alguns dogmas da Igreja Católica mas também pela depravação do Vaticano (em festa dada ao papa Alexandre Borgia, cinquenta cortesãs dançaram primeiro vestidas, depois nuas, apanhando no fim - com as vaginas - castanhas do chão de mármore), com Lutero e Calvino à frente, reformaram o cristianismo. Os fieis passaram a ler a Bíblia e a falar directamente com Deus. A moralidade tornou-se ingrediente indispensável da salvação, e integrou o progresso material. No começo do século XX, o sábio alemão Max Weber publicou A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo que pareceu fazer sentido a muitos, enquanto este florescia, primeiro na ponta noroeste da Europa, depois nos Estados Unidos – e hoje no mundo inteiro, China à cabeça.

 

A ponta sudoeste da Europa onde nós estamos, não conheceu tais vivências. Enquanto a norte, em princípio, se acredita em estranho que nos fale e o poder que haja é legítimo, no sul desconfia-se do estranho e o poder que haja nunca é tão legítimo quanto isso. Com União Europeia ou sem ela, levará muito tempo e muitas dôres de cabeça legislativas acertar as peças que fechem este puzzle.

 

Entretanto, o afilhado da sobrinha do irmão do presidente da câmara que fez fornecimentos sem concurso pode continuar a dormir em sossego.

 

 

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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Karajan - Lipatti

 

 

José Cutileiro

 

Elites

 

Há coisas antigas quanto a espécie humana. Em toda a parte, a guerra (a paz é uma invasão recente) vinda já de primos antepassados próximos - Cromagnon; Neandertal; alguns africanos - e, em quase toda a parte, o arranjo das gentes em mó de cima e mó de baixo, mesmo quando ainda não haja agricultura a separar quem tenha a terra de quem a trabalhe. De vez em quando, os da mó de baixo acham que a sua voz deveria ser mais ouvida do que o é e o bom povo passa de querer mal aos vizinhos – alfacinhas a tripeiros, portugueses a espanhóis, europeus a africanos, matéria prima da história tal como ela é (era ?)  ensinada nos liceus e atitude aprovada por pais da Pátria e por forças vivas  da nação - a querer mal a patrões se for por eles empregada e a ricos em geral se achar que  não pertence ao grupo.

 

A França é o país europeu que se especializou na segunda variedade e, como os vinhos, tem anos piores e anos melhores. 2019 promete, com os coletes amarelos na rua, a bloquear rotundas e pagamentos nas autoestradas e a proclamar urbi et orbi que o mundo é mal feito e que é preciso refazê-lo melhor (propondo muitos o referendo – cidadão, como eles dizem – processo seguro de enrolar o povo e abrir a porta a ditaduras). Quanto à contribuição directa dos coletes amarelos para organização social decente de aldeias, cidades, países e continentes onde porventura tomassem ou influenciassem o poder, pouco sabemos ainda mas, por outro lado, talvez saibamos já tudo. Se um deste dias a leitora se meter à estrada em França e passar por grupos aguerridos de coletes amarelos, se não levar à vista no para-brisas do seu carro um dos ditos coletes e não tocar muitas vezes a buzina fazem-na passar devagar e gritam-lhe insultos. Les gilets jaunes acreditam em « zero-sum games » como se diz agora, isto é, são incapazes de compromisso e, portanto, nocivos à democracia. Dito isto, repito o que já disse aqui muitas vezes: depois do colapso da União Soviética o capitalismo tomou o freio nos dentes (ou, pior ainda, passou a obedecer cegamente às instruções de uma clique que o controla e sabe muito bem o que quer, como dantes nas visões conspirativas dos comunistas mais néscios) de tal maneira que o fosso entre ricos (cada vez menos) e pobres (cada vez mais) continua a cavar-se muito depressa, levando a minha mulher a dias a ter inveja do meu BMW,  em vez de como dantes, na tradição das trente glorieuses, sentir nele uma segurança cobrindo o seu VW.

 

As elites? Escrevo no dia de Natal. Ainda deitado ao fim da manhã, chegaram-me lá a cima, vindos da sala no primeiro andar onde está a música, Lipatti ao piano e Karajan a dirigir a orquestra no andante do concerto para piano n°21 em dó maior de Mozart, no festival de Lucerna de 1950, gravado por auditor que o ouvia na telefonia e ressuscitado por técnicos no CD que eu tenho. Ramalhete de milagres de génio musical e tecnologias contemporâneas trouxe-me  bem-aventurança neste dia sagrado dos cristãos de 2018.

 

 

 

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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

tjeerd royaard

© Tjeerd Royaard

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

Quem são os maus da fita?

 

 

Escrevo para este bloco-notas na terça-feira, como faço quase sempre, a fim de enviar à Vera texto pronto para ela escolher ilustração e pôr no ar o seu blog na quarta. Quando aquelas e aqueles a quem o mando directamente o recebem mais tarde, na quinta, às vezes na sexta, a culpa não é da Vera – é minha e só minha. O que faz de mim o mau desta fita – mas não era de mim que eu queria falar agora.

 

Aprendi da leitura do Expresso Curto de hoje que as acções do clube de futebol italiano Juventus subiram imenso quando Ronaldo fora para lá jogar – e desceram há dias quando se soube de desavença sua em Las Vegas com pequena bem formada (julgo que tivesse sido modelo) aqui há anos. Elle m’a dit d’un ton sévère / Qu’est-ce que tu fais là? / Mais elle m’a laissé faire / Les filles c’est comme ça cantava Georges Brassens, mas as raparigas já não são o que eram e, como tudo na América, a diferença exprime-se em dólares. 325.000 nesse caso - foi o que o número 7 tinha amigavelmente pago para a calar mas isso era antes do #MeToo: agora só a destruição moral dele (ou dela: nestes casos as opiniões dividem-se, com bandos ululantes de um lado e doutro, como o caso recente do juiz do Supremo Brett M. Kavanaugh mostrou) será considerada fim aceitável da polémica. Mas também não é ao Ronaldo - ou à pequena – que eu quero chamar mau da fita.

 

A notícia que me fez ouvir campainhas – para pôr a Leitora na calha – foi que o triunfo republicano no caso Kavanaugh fez subir as bolsas mais ainda do que Trump tem feito só por ser Presidente. Imensa gente bem-pensante na Europa e nos Estados Unidos detesta Trump (em parte por ser bruto e malcriado), na África ao Sul do Saará e na Ásia ele é um branco muito mais parecido com os outros brancos do que com africanos ou asiáticos. Mas do nosso lado do mundo, não. Aí (cá) o que conta é que toda a legislação de Trump contra tentativas de salvar o meio ambiente, contra poder sindical que modere ganância do patronato, contra visão económica que vise a diminuir o fosso entre pouquíssimos muito ricos e muitíssimos muito pobres, indigna toda a gente menos os que seriam seus eleitores, se pudessem votar nele do lado de cá do Atlântico. Quem não se vira contra ele é a gente do dinheiro - fazendo orelhas moucas a palavras sensatas e, para encherem os bolsos, metendo-nos a todos cada vez mais no fundo do buraco. E eu que, quando o namorado da filha do milionário lhe diz “eu não trocava a minha consciência pelo seu dinheiro” e o milionário lhe responde “e você pensa que eu trocava o meu dinheiro pela sua consciência?”, estive sempre até hoje do lado do milionário, dou por mim a achar que o pateta do namorado talvez tenha razão.

 

Se o mundo físico se tornar cada vez mais invivível e o mundo social cada vez mais uma luta de “nós contra eles” ou de “eles contra nós” ou de ambos, alguém terá de voltar a meter a capitalistas desenfreados o medo salutar que a União Soviética lhes metia. São eles os maus da fita.

 

 

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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

weber-ill-520x485Max Weber

Ilustração de Ragni Svensson 

 

José Cutileiro

 

 

Corrupção, família, crimes

 

 

Quando eu vivia na costa oriental dos Estados Unidos, jornais de Nova Iorque deram notícia da condenação a penas de prisão de personagem importante de Wall Street - e do pai dele. O C.E.O. de um hedge fund cometera delito de iniciados, salvando com este pequena fortuna, dentro da grande que já tinha feito. O pai, cirurgião reformado, evitara a ruína, pois havia posto quase toda a sua poupança nas acções que, avisado a tempo pelo filho, oportunamente vendera.

 

Moral da história em Nova Iorque ou em Londres: procuradores diligentes e íntegros tinham devidamente feito punir dois velhacos que se tinham criminosamente servido de informação privilegiada. Moral da história em Braga ou em Évora: banqueiro pusera amor filial acima de obrigações descoroçoadas impostas pelas manigâncias da bolsa e evitara justamente a ruína do velho.

 

Há mais de um século – ou melhor dito, desde que professor alemão chamado Max Weber publicou um livro chamado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - que historiadores do dinheiro e das ideias procuram lidar com tais contrastes (incluindo os que acham essa tese um disparate pegado e recordam a fulgurância de banqueiros e homens de negócios do Norte de Itália, católicos apostólicos romanos, desde o fim da Idade Média) e que o público leitor em geral e políticos desonestos em particular – o mais notável dentre estes, na última década, sendo Angela Merkel – às vezes se aprazam em proclamar moral a gente do Norte da Europa e imoral a gente do Sul da Europa; mais ao sul passam a ser morais outra vez, se o comportamento ético da Chanceler alemã servir de padrão (de standard, em português contemporâneo). Com efeito, por um lado, a Senhora tratou a insolvência grega como se pecado de todo um povo se tratasse, exigindo castigo até ao pagamento total da dívida (e fazendo indemnizar bancos alemães, parceiros em negócios falhados, com dinheiro destinado a aliviar os gregos) enquanto, por outro lado, considerou centenas de milhares de candidatos a asilo político africanos e asiáticos vítimas de infortúnio exigindo ajuda incondicional.

 

É claro que coisas assim nunca são simples. Por exemplo, a primeira vez que lidei com corrupção, sem lhe dar nome nem conhecer o conceito (e como ‘corruptor’, não como ‘corrompido’) tinha 8 anos. Por razões longas de enumerar fiz a quarta classe de casa do avô em Évora enquanto os pais ficaram em Lisboa. Da Rua da Mouraria, onde vivíamos, à escolinha da D. Maria Prego na Travessa da Capelinha era preciso atravessar a cidade; o avô contratou criado antigo (o Velho Madeira) para me acompanhar. A vergonha que tive perante outros meninos e meninas foi tal que, logo no segundo dia, propus pagar da minha semanada ao Velho Madeira para ele me deixar a meio caminho, na Praça do Geraldo. Ele aceitou logo e assim fizemos, à ida e à vinda, durante todo o ano lectivo.

 

Corrupção ou não? Conheci protestantes entendidos na matéria; nunca me lembrei de lhes perguntar.

 

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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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 dragões imperiais chineses 

 

 

 

José Cutileiro

 

    

Volta do marxismo ? Todos substituíveis ?

 

 

 

Muitas coisas nos arreliam este Verão a começar pelo calor, que envergonhou Eça de Queiroz diante de Fradique Mendes por só lhe ocorrerem expressões reles e em calão: «derrete os untos», «está de ananazes». Amigo do coração lembrou-me que calor passa e outras arrelias não arredam. Há duas que me têm tirado o sono, centrada uma nos Estados Unidos, outra na China.

 

Primeiro, a América. Quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo eu estava na Cidade do Cabo (Greet the Ambassador of the 4th Reich! faíscou o meu colega alemão à guiza de Boa noite, no jardim da casa onde íamos os dois entrar); quando Yeltsin desfez o império de cima para baixo sem sangue, estava eu em Lisboa. A Verdade triunfara sobre o erro, o Bem sobre o mal. E, salvo no caso peculiar da China, a ilusão marxista desabou como castelo de cartas de jogar. Ficaram Cuba, Coreia do Norte, alguns salpicos na União Indiana mas a ideia de que por lá passaria a salvação do mundo parecia ter-se sumido de vez. Se o comunismo perdera, porém, o capitalismo ganhara muito mal. Houve quem percebesse logo – comunismo não era doença, era remédio que falhara – mas  o grosso da cavalaria tomou o freio nos dentes e a eleição de Trump animou-a mais ainda. Na América – mais do que alhures – os poucos ricos estão cada vez mais ricos e os muitos pobres estão cada vez mais pobres. O socialismo marxista que desaparecera por lá desde o fim da Segunda Guerra Mundial (durante três décadas, em todas as classes, os filhos iam sendo sempre mais ricos do que os pais), seduz agora cada vez mais gente. Começou com Bernie Sanders, alastra como fogo de mato: numa «primária» em Nova York, mulata socialista de 28 anos derrotou o número 2 do Partido Democrático no Congresso, branco, sexagenário, não socialista. Mais socialistas marxistas serão eleitos em Novembro.

 

Segundo, a China com arranjo de partido único, dito marxista, a coincidir com capitalismo robusto, balisado pelo Estado. Mas a arrelia que me tira o sono não é essa. Desde a «desmaozição» imposta por Deng Xiaoping fomos notando, a pouco e pouco, o que nos parecia ser alguma liberalização do regime, uma aproximação aos nossos critérios e aos nossos valores. Como, para nós, a democracia parlamentar, monárquica ou presidencial, juntamente com a separação de poderes, a independência do judiciário, o exercício de direitos humanos e eleições livres e limpas é a evidência mesma de saber político universalista, sossegava-nos supor a China no bom caminho.

 

Erro nosso. O Presidente Xi passou a vitalício em regime mais próximo de monarquia absoluta do que das nossas modernices. E, em vez de ser padrão universal como os graus Celsius ou o teorema de Pitágoras, a nossa sabedoria política é um disparate aos olhos dos chineses. E agora?

 

Em filme antigo contra a pena de morte, capelão da cadeia dizia a condenado: Tu es immortel et irremplaçable. Se a China governar o mundo passaremos todos a ser substituíveis?

 

 

  

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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bola de cristal

 

 

José Cutileiro

 

À procura do futuro?

 

 

 

Dois factos

 

Primeiro: Entre 2007 e 2017, os proventos dos administradores das cem maiores companhias do Reino Unido foram multiplicados por quatro, isto é, passaram em média de um milhão para quatro milhões de libras esterlinas por ano. Durante a mesma década, os proventos do geral das pessoas empregues por conta de outrem no Reino Unido aumentaram de 10%, isto é de 1% por ano.

 

Segundo: Também no Reino Unido, à pergunta, corrente em inquéritos de sociedade, ‘Acha que os seus filhos vão ter vida melhor do que a sua?’ as respostas, até 2007, tinham sido quase sempre sim – e, a partir de 2008, passaram a ser quase sempre não.

 

Uma preocupação.

 

Em toda a Europa Ocidental, comentadores nos jornais, nas telefonias, nas televisões alarmam-nos de há alguns anos a esta parte com o crescimento do chamado populismo. Referendo no Reino Unido a escolher saída da União Europeia; eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos; eleição – e reeleição recente e reforçada – de Vitor Orban para primeiro ministro da Hungria; popularidade mantida pelo actual governo liberticida polaco; subida nas sondagens da Frente Nacional em França e – mais ainda – do movimento Cinco Estrelas na Itália, são dados como exemplos, entre outros, desse crescimento. Aos jornalistas juntam-se os cientistas políticos (a final de contas, uma espécie de jornalistas lentos e  possuídos por ‘the craving for generalizations’ que tanto irritava Wittgenstein) os quais tentam definir populismo, classificar variedades, comparar os seus aproveitamentos por demagogos de direita e de esquerda . Uns e outros, os rápidos e os lentos, preocupados por verem a Democracia mirrar dia a dia diante dos seus olhos, espécie de bambu ao contrário.

 

Um lembrete.

 

Ao contrário do que muito boa gente parece pensar, o fim do comunismo – o colapso da União Soviética; o mandarinato marxista-leninista de Beijing – não foi a extinção de uma doença. Foi o falhanço de um remédio e a sua desacreditação. O comunismo perdeu a Guerra Fria porque era pior do que o capitalismo mas a maneira como as coisas têm corrido desde então está a dar ao capitalismo uma vitória pírrica. Prosseguindo na metáfora médica: a doença continua e, esgotadas todas as variedades da mezinha experimentada primeiro em 1917 – de Pol Pot às democracias sociais nórdicas – parece urgente descobrir outro tratamento.

 

Um palpite.

 

Estaline disse a Churchill em Yalta que o embaixador que ele lhe mandara para Moscovo durante a guerra, trabalhista fabiano, era de primeira água mas tinha mania curiosa: querer explicar-lhe a ele, Estaline, o que era o socialismo. Quase 80 anos depois, se os povos fossem gatos, não seria por nenhuma dessas duas vias que iriam às filhoses. Nem pela da Rerum novarum.Inventar-se-ão misturas mais sensatas do que as ortodoxias vigentes. Se os Estados Unidos correrem com o maluco a tempo, mesmo que já não possam ser donos do jardim zoológico talvez ainda possam servir de polícia de trânsito.

  

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Davos, Suíça

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Ricos e pobres no mundo inteiro

 

 

 

Quando eu era antropologista praticante publiquei um livro em inglês, sisudo como o título sugeria: A Portuguese Rural Society. Estávamos em 1971 e eu pensara poder inventar nome menos aborrecido para lhe chamar mas quando já havia provas revistas, as fotografias do Mano João e do meu chorado Gérard tinham sido escolhidas, tudo pronto para a feitura física dos volumes da edição, eu não encontrara ainda nome que armasse ao pingarelho quantum satis. No meu gabinete, nos escritórios da Oxford University Press, na oficina da tipografia escolhida para a impressão, o nome continuava a ser o da tese de doutoramento na qual o livro se baseara.

 

A certa altura ocorrera-me chamar-lhe Before the Revolution (explicando no prefácio que, apesar do ambiente e das condições de vida daquelas aldeias tal poder sugerir a algumas cabeças jovens e entusiásticas da burguesia urbana, não iria haver revolução nenhuma) mas desisti por me parecer pretensioso (três anos depois teria ajudado às vendas, mas fosse lá alguém saber). Em última tentativa, passei um dia inteiro numa pequena biblioteca da Universidade com uma “Concordance” de Shakespeare, a ver se havia qualquer verso, dito, frase do Bardo que incluísse as palavras peasant ou peasants e me desse de bandeja o título de que eu precisava. Qual o quê: no tempo de Shakespeare, bem antes de ilusões sobre as virtudes e belezas dos camponeses terem animado almas românticas (e, mais tarde, de pungências sobre o seu sofrimento terem animado almas neo-realistas – No impressionismo, pinta-se o que se vê; no expressionismo pinta-se o que se sente; no neo-realismo pinta-se o que se ouve contou-me o Luís de Sousa que já não sei que professor ensinava por essa altura numa das universidades de Londres), não se escrevia nada de simpático sobre peasants, gente rude, sem maneiras nem conversa, mais própria para se roçar por bestas do que para convívios humanos. Vão tal esforço derradeiro, foi A Portuguese Rural Society que apareceu nas livrarias.

 

Depois da Revolução, que afinal sempre viera, podia por fim aparecer edição portuguesa que a Sá da Costa me propôs e a questão do título levantou-se de novo. Não me lembro se por sugestão minha, ou do João Sá da Costa ou da mulher dele, Ricos e Pobres no Alentejo foi escolhido e (salvo o Iá, Deus lhe tenha a alma em descanso, que com sentido moral exigente me disse, contristado, achar o título demagógico) toda a gente achou bem: o Alentejo tinha fama de grandes diferenças – lavrador abastado dissera um dia de trabalhador despedido que lhe queimara a seara: “Custou-lhe mais o fósforo do que a mim o trigo”.

 

Eram outros tempos e temos a mania das grandezas. Números divulgados este mês mostram que 82% da riqueza mundial gerada o ano passado couberam a 1% dos habitantes, enquanto os 50% mais pobres - 3,6 mil milhões de pessoas - não viram qualquer melhoria. As fortunas de 8 homens somam o mesmo que a totalidade dos bens desses 3,6 mil milhões.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

pinhal de Leiria

Pinhal de Leiria, 2017

 

 

José Cutileiro

 

 

 

O mundo real

 

 

François Mauriac, católico apostólico romano da região de Bordéus e prémio Nobel da literatura em 1947, escreveu que não conhecia a alma dos criminosos mas conhecia a das pessoas honestas e era um horror. Menos argutas, as nossas elites - eu e tu, hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère… (et, de nos jours, nos soeurs aussi) - estão a descobrir agora que aquilo a que gostam de chamar o país real – o Portugal profundo, escuridão misteriosa escondendo grande diamante por lapidar – é, afinal de contas, tão mau ou pior do que elas próprias. Contentará videirinhos saberem-se dotados de um olho em terra de cegos mas vai deprimir mais o resto de todos nós. A calcinação do Pinhal de Leiria foi a pedra de fecho da abóboda sonâmbula de incúria em que se fora transformando o Estado português.

 

Acabada a ficção “do Minho a Timor” (ainda ouvi gente dizer isso a estrangeiros, sem pestanejar) veio o grande desafio europeu: desde que o Dr. Soares bateu à porta de Bruxelas até nos deixarem entrar passaram dez anos, durante os quais se trabalhou. Uma vez dentro, porém, as coisas começaram a mudar. O Projecto Europeu, onde sempre quisemos estar “no pelotão da frente” (em Portugal a única literatura com leitores é a desportiva) passou a ser uma espécie de renda, ou de lotaria onde não havia nunca prémios astronómicos mas se ia ganhando sempre um poucochinho. Até que chegou a austeridade – “Os pobres que paguem a crise!” – e alguém se lembrou do cavalo do inglês que o dono treinava para viver sem comer e quando estava quase, quase treinado, morreu. Qual o quê! Os povos não são cavalos; entre troikas e autocensura íamos cantando e rindo - até que, de repente, duas girândolas de fogos deram connosco em terra.

 

Ninguém nos estenderá a mão num mundo cheio de outros disparates. Por exemplo, há dias a Organização Mundial da Saúde nomeou seu “Embaixador” Robert Mugabe, ditador que com mão de ferro transformou um dos países mais ricos de África num dos mais pobres. O escândalo foi geral e em 24 horas a OMC tirou-lhe o título. Porque é que o distinguiram? A razão é simples e percebi-a a 25 de Junho de 1982, em Nairobi, numa cimeira da OUA onde fora de observador. Moçambique fazia 7 anos; eu, embaixador em Maputo, quis felicitar Samora Machel que chegava com a comitiva à sala das reuniões quando de outro corredor apareceram Omar Bongo, presidente do Gabão e a sua gente. Estávamos na Guerra Fria: para esquerdistas europeus Bongo era um lacaio do capitalismo; para europeus de direita Machel era um perigoso marxista-leninista. “Machel!”; “Bongo!” gritaram e caíram nos braços um do outro às gargalhadas. Pertenciam ambos à irmandade de escravos forros que agora mandava em África. Capitalismo e comunismo eram problemas nossos, não deles.

 

Pela primeira vez o director da OMS vem de África (ex-ministro dos estrangeiros etíope); para ele Mugabe deve ser ainda, sobretudo e para sempre, um dos grandes heróis das guerras de independência africanas.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 12 de Julho de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Bataille de Waterloo

 Batalha de Waterloo  /  Clément-Auguste ANDRIEUX (1829 - 1880)

 

 

José Cutileiro

 

 

Fabrício em Waterloo

 

 

 

 

Ou “Fabrice à Waterloo” como os franceses gostam de dizer, não por serem senhores do seu nariz e terem sempre nariz maior que o do Cyrano (há quarenta anos, quando em Estrasburgo convivi com eles pela primeira vez, percebi que eram portugueses réussis, isto é, tinham todos os nossos defeitos sem terem a qualidade simpática que às vezes nos bafeja de reconhecermos que nem sempre temos razão) mas por ter sido romancista francês quem pôs personagem de romance seu, chamado Fabrice, tão atarantado durante a batalha de Waterloo em que participava como voluntário do lado dos franceses de Napoleão, que perdera o fio à meada, não entendia o que se estava a passar nem percebia sequer quem estava a ganhar e quem estava a perder. A passagem está tão bem escrita que a expressão “Fabrice à Waterloo” entrou na conversa das francesas e dos franceses cultos para referir atrapalhações desse género nos campos mais variados onde a vida nos solte ou prenda – assim como em Portugal a gente recorre ao velho do Restelo, que Camões pôs nos Lusíadas a achar que Vasco da Gama não deitava até à Índia, para falarmos de botas de elástico com raiva ao futuro que só se sentem bem no que julguem já conhecer por dentro e por fora.

 

Nos últimos tempos tenho encontrado alguns assim – mas, desta vez, gente nova e desempoeirada - em questão que eu julgava estar resolvida desde das trente glorieuses, anos de crescimento económico benfazejo do capitalismo europeu centrados entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o fim da Guerra Fria - e definitivamente arrumada desde o colapso voluntário da União Soviética, que se deitou abaixo a ela própria, como grandes industriais japoneses faziam hara-kiri se a empresa falisse. Salvo em cús de Judas exóticos – Cuba; Coreia do Norte – estava a dar-se por toda a parte grande mudança para melhor. Tínhamos esquecido sentença sábia de antigo governador do Banco de Inglaterra, do tempo da Senhora Thatcher, com quem acabou por se dar muito mal e cujo nome me escapa agora: “Mudança é sempre mau. Sobretudo mudança para melhor”.

 

Há dias, amigo, muito mais novo do que eu, ponderava - entre curioso e apreensivo, como se contemplasse fendas abertas em terreno onde pensara construir casa – o enxotar dos doutores a que assistimos agora, o festival de contra-verdades triunfantes em redes sociais, o elogio da ignorância e a exortação à intolerância por populistas de fala grossa a começar pelo 45º Presidente dos Estados Unidos da América. Lembrei-lhe que tudo não vai assim tão mal quanto isso, que os diferentes Estados da América conseguem corrigir muitos disparates do Presidente, que em França, na Holanda, na Áustria os democratas ganharam e a maré mudou. Que a razão tem filhos robustos a combater por ela.

 

Mas que, antes de mais, será preciso refrear a ganância dos mercados. Para voltar ao começo: prefiro estuários a deltas e carabinas a caçadeiras; o Rouge à Chartreuse (ou, 30 anos depois, a Bovary à Educação Sentimental).

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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