Quarta-feira, 8 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Waterloo 1Batalha de Waterloo

 

 

José Cutileiro

 

Viagem na minha terra

 

 

Nota introdutória  Este título ignora que a Vera tem relação especial com os escritos do autor de Frei Luís de Sousa. Desencantou em casa manuscritos dele que acrescentam ao espólio do homem que inventou o português que nós falamos. Sem Garrett antes, Eça não poderia ter encantado tanto tantos de nós  nem haveria porventura, no pior dos casos, passado do janota do Porto que o meu chorado amigo Carlos Leal insistia erradamente em desprezar nele. Vá lá saber-se. Por mim devo confessar que Camilo (Castelo Branco) – é com ele que a comparação era feita em serões de província, alguns ainda iluminados a petróleo – me fascina às vezes – o fim de A Sorte em Preto, por exemplo, é uma pequena joia – mas que, na maior parte das vezes, me aborrece. Garrett e depois dele, mais ainda, Eça, purificaram o dialecto da tribo, expressão de Mallarmé que T. S. Eliot tirou do esquecimento ao metê-la na língua franca dos nossos dias. Entretanto, deste lado do mar não tivemos James Joyce, Marcel Proust ou Graciliano Ramos. O Zé Cardoso Pires foi o que mais perto dessa limpeza   andou, sobretudo em Lisboa livro de bordo.

 

Adiante. Estou sentado com a Myriam, que empurrara a cadeira de rodas pela manga abaixo, na segunda fila. As cadeiras são as mesmas e são poucochinho – no Alvar Aalto here – bengaleiros para casacos há muito desapareceram, viajamos assim como que em versão formicada e voadora de antiga camioneta para Sintra da Eduardo Jorge. Faltam bilhas de água de Caneças que dariam toque ecológico, sempre benvindo por estrangeiros mais ricos do que nós. Por outro lado, com louvável empenho cultural e alguma consciência do país que servem – não esquecer que o dia nacional de Portugal é o dia da morte do nosso maior poeta (e não, como acontece com outros, o de uma batalha ganha ou perdida ou, pior ainda, o da tomada sangrenta, por multidão armada, de cadeia para fidalgos tarados) – os dirigentes da TAP dão a cada um dos seus grandes aviões de passageiros o nome de uma ou um grande artista português, julgo que quase sempre das letras, e ontem calhou-me um chamado José Saramago. Infelizmente, porém, eu não gostava do homem nem gosto dos escritos dele.

 

Parado com as rodas quietas e firmes no plancher des vaches, como diria médico sábio meu amigo, o avião ia deixando entrar pessoas, muitas desejosas do sol de Portugal (que não haveria desta vez). Um homem mais bem vestido do que os outros, de barba cuidada, riu-se para nós e parou de pé contra a fila da frente. Era o Bernardo, irmão da Vera, vindo de reunião europeia, onde os participantes agora, com ingleses nem cá nem lá e eurocépticos à frente das sondagens eleitorais se sentem como Fabrice em Waterloo, sem perceberem como está a correr a batalha.

 

Quando todos se sentaram vi que o Bernardo, na fila atrás da nossa, ia já em economia. Eu julgara que se tivesse acabado com essa pelintrice do tempo de Passos Coelho mas não: alinhar por baixo continua a ser a regra. Coitado do país.

 

 

 

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Quarta-feira, 3 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Jnicholson6

Harold Nicolson e Vita Sackville West em 1932

 

 

 

José Cutileiro

 

  Pérfida Albion II

                          

The worst kind of diplomatists are missionaries, fanatics and lawyers

                                                             Harold Nicolson, Diplomacy, OUP, London, 1939

 

 

Quando a primeira edição do supra citado livro de Sir Harold Nicolson foi publicada não havia, depois do fiasco da Sociedade das Nações, organizações publicas internacionais como há agora e menos ainda qualquer coisa parecida com a União Europeia. Na realidade, foram precisos seis anos de guerra brutal como nenhuma outra antes e, a seguir a esta, a tenacidade e a visão de meia dúzia de europeus, (entre os quais um francês, Jean Monnet, exportador de cognac que não se formara em Normale Sup e aconselhara o Presidente Franklin Roosevelt), bem como boa vontade, apoio militar e ajuda financeira dos Estados Unidos da América para pôr de pé o projecto que levou à União, cuja trave mestra é invenção recente, a amizade franco-alemã, e está a atravessar o momento mais difícil da sua existência devido a incapacidade aparente do Reino Unido, de um lado, e dos seus vinte e sete parceiros, do outro, de encontrarem maneira aceitável para todos do Reino Unido sair dela a bem.

 

Essa incapacidade assumiu recentemente, do lado do Reino Unido, facetas mais de opera buffa do que de negociação internacional, exercitando as melhores cabeças do jornalismo e da academia na busca de uma saída que fosse aceitável para a Câmara dos Comuns em Londres. Entre a quantidade de descrições interpretativas do que aconteceu até agora e do beco – ou becos – a que se chegou, muitas tendem a culpar a maneira como a negociação fora conduzida desde o princípio por Theresa May, escolhida para Primeiro Ministro pelo partido conservador  depois do chefe anterior deste, David Cameron – responsável pelo referendo em que os britânicos deviam escolher entre permanecer na União Europeia ou sair dela - se demitir. Deixo tudo isso de lado mas não sem recordar que parte do problema reside no facto dos ingleses levarem o seu parlamento muito mais a sério do que os continentais (o que é sinal de saúde política e não sintoma de doença).

 

No Verão passado, historiador expatriado meu amigo, falando do Brexit, perguntou-me « Eles, lá em Bruxelas,  estão conscientes da tragédia que isto é tudo ? » Infelizmente, com raríssimas excepções, julgo que não estivessem nem estejam. Há imensa gente a saber tudo sobre todas as árvores e quase ninguém capaz de ver a floresta. Ora Brexit, se não for tratado com muito cuidado, precipitará mudança tectónica indesejável no equilíbrio do Ocidente. E quer o fado que, à falta de grande estadista que agarrasse este gato pela pele do pescoço, se junte muito do pessoal que Nicolson mais receava. Do lado do Continente, de várias cores políticas, abundam os federalistas – e não há mais missionário; do lado das Ilhas, metendo medo ao governo, vociferam os Brexiters de base – e não há mais fanático. Dum lado e doutro, o terreno está polvilhado de assessores jurídicos, isto é, de advogados.

 

Azar dos Távoras.

 

 

 

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Quarta-feira, 27 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Xultimatum

Outros tempos

José Cutileiro

 

Pérfida Albion

 

Para crítico perspicaz Theresa May e os seus sucessivos negociadores queriam que acordo comercial perfeito com a União Europeia, soberania nacional pura e nenhuma fronteira com a Irlanda fizessem parte do contrato de saída da União a assinar pelo Reino Unido e os 27 estados membros restantes. Quando, a pouco e pouco, foram percebendo que tal vontade não era realizável sem ajustes que ajeitassem as contradições, já May tomara medidas e fizera declarações desastrosas (exemplos: assim que escolhida para chefe do partido promover eleições que perdeu e, com elas, a maioria absoluta; declarar, repetidamente, que no dealera preferível a um bad dealsem ter percebido que esta negociação não era como as outras; marcar linhas vermelhas exactamente onde precisava de espaço para negociar) que a revelaram incompetente e incapaz de resistir aos Brexiters extremos que, desde Thatcher, atormentam quem mande no partido Tory.

 

Um fraco rei faz fraca a forte gente e a podridão da cabeça chegou ao corpo todo. Colaboradores directos foram-se demitindo e contradizendo, até mesmo na última semana, à qual se chega em estado da maior confusão graças a inépcia de governo de Londres (exemplo: o homem que provavelmente media melhor o que estava em jogo, o embaixador do Reino Unido junto da União à data do referendo, foi expeditamente levado à demissão). O desejo de May de aplacar os Brexiters nunca abrandou: mesmo agora quando um prazo longo de adiamento da data de Brexit faria todo o sentido, limitou-se a pedir 30 de Junho – Brexiters receavam que mais tempo animasse mais compatriotas seus a afinal ficarem na União.

 

A incapacidade política abissal de May não explica tudo. Por um lado, em Ocidente que perdeu o comando do mundo e onde o fosso entre poucos ricos cada vez mais ricos e muitos pobres cada vez mais pobres aumenta dia a dia e com ele o mau viver, os governados estão fartos dos governantes, protofascistas ganham votos e, no Reino Unido, campanha pela saída da União entusiástica e descaradamente aldrabona, levou a melhor de defesa honesta e tíbia do statu quo. (The best lack all conviction while the worst/Are full of passionate intensity).

 

Por outro lado, a percepção do mundo dos ingleses é especial. Não têm Constituição escrita. Lords, o mais célébre terreno de cricket do mundo, conta 5 portas: East Gate, South Gate, North Gate, Grace Gate e Gate Number 6. Universitários desorientam-se para cá da Mancha por ignorarem o comprimento de 1 quilómetro. Antiquário do sul de Inglaterra entrevistado pelo New York Times não sabia há dias que com no deal os móveis que compra em França para vender mais caros em Inglaterra passariam a pagar direitos. Em 1955, quando o mano João andava na Slade School of Fine Arts, pediu num Workers Cafe (os restaurantes mais baratos da altura) bacon and eggs. Resposta: You can have the bacon, you can have the eggs but you can’t have bacon and eggs because it’s Wednesday. Etc.

 

NB Se a leitora achar que o Conselho de Ministros de May é parecido com um Workers Cafe talvez tenha razão. Dez anos depois do fim da guerra, regras de racionamento de comida estavam ainda nas memórias (e algumas em vigor) recorda o meu amigo Fernando. Em país sem Constituição escrita memórias de precedentes fazem lei e às vezes não são bem lembradas.

 

 

 

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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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José Cutileiro

 

 

 

Rex/Pontifex

 

 

As palavras são latinas mas os conceitos vêm dos egípcios que inventaram as traves mestras do poder neste mundo e no outro. Tudo o que veio depois deles – de gregos, romanos, cristãos, muçulmanos – foi construido sobre esses alicerces, expressos inter alianas maravilhas mais antigas ao Sul do país e nas  pirâmides de Gizé a Norte, dizia-me amigo que há dias subiu o Nilo, parando nos dois hoteis preferidos de Agatha Christie, um típicamente inglês colonial, o outro já afrancesado e ambos excelentes para alguém se desalterar e meditar nos intervalos de tal regresso às origens, bafejados há cem anos por ventoínhas e agora por ar condicionado. O meu amigo só lamentava que, perante tanta sabedoria ancestral, não se pudesse pedir agora ao General Abdel Fathah el-Sisi que se fosse instalar em Londres para meter na ordem o bando de descerebrados, eleitos e eleitores, que numa mistura surpreendente de incompetência, ignorância e engano, meteu o Reino Unido na camisa de onze varas do Brexit.

 

 

Respondi-lhe que inventar tudo, tudo, não tinham. Escapara-lhes o monoteismo, embora o faraó Amenofis IV – ou, como ele preferia ser denominado, Akhenaton – durante o seu reinado tentasse promovê-lo. Foi, para os artistas (sempres solícitas ao gosto dos seus patronos), tempo diferente dos outros: o que chegou até nós dos seus ateliers e oficinas está cheio de esculturas e de restos de pinturas murais naturalistas, como não se encontram em nenhum outro momento da história egípcia, desde dos primórdios desta até à invasão romana, nem.em qualquer outro lugar antes do Renascimento. Quando, aos doze anos, eu soube destes sucessos, Akhenaton passou a ser um dos meus herois, juntamente com Fernão de Magalhães e o capitão Scott que com a sua expedição atingira o Polo Sul para encontrar a bandeira da Noruega, hasteada por Amundsen que lá chegara antes e, no regresso, morrer de frio com os seus companheiros na neve da Antártida.

 

Entretanto, mudei muito. A admiração por Akhenaton mantém-se mas com  grande beliscadura: estou há décadas convencido de que o monoteísmo é um dos maiores flagelos do mundo; que os males sancionados pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacob excedem de longe os bens que se lhe possam atribuir . Na tradição cristã seguem-se ao monoteismo, o cristianismo primitivo e a Reforma - fora das igrejas mas em veias semelhantes eu acrescentaria Marx e Freud). E para tudo isto, lembrando-me da sugestão do meu amigo, nem o General el-Sisi chegaria.

 

Ia continuar sobre monoteísmo e lei e ordem à l’égyptiennemas, escrevo terça-feira, acabo de saber que o ex-presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, preso há 7 anos, acusado de crimes contra a humanidade, foi absolvido e mandado libertar pelo Tribunal Penal Internacional. Gostei que o Tribunal começasse a ganhar juízo – e lembrei-me de Gbagbo, ainda presidente a dizer a jornalista francês: « Pois é, vocês querem que a gente faça a Revolução de 1789 sem ofender a Amnistia Internacional ».

 

 

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Quarta-feira, 21 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

cravos

 

 

José Cutileiro

 

E agora José ?

 

George Orwell lembrou algures que as pessoas às vezes precisam de mal, querem o mal. Parece estar a acontecer agora.

 

Depois de sinais em sentido contrário – vitória aliada na guerra de 1939–1945, descolonizações, colapso eutanásico da União Soviética em 1991 – e a seguir a, de Nova Iorque a Pequim, em todas as praças financeiras, capitalistas cheios de sangue na guelra se entusiasmarem tanto com o fim do comunismo que tomaram o freio nos dentes e perderam a vergonha, começaram a brotar expressões do mal consequente, escondido e insuspeitado até então como alguns cancros a que especialistas chamam neoplasias profundas. De entrada de bom modo – ‘não’ nos referendos holandês e francês de 2005 sobre ‘mais Europa’: os povos afinal queriam menos – e ultimamente com acinte: a tragédia do Brexit; a delinquência de Trump; proto-fascismos no Leste da Europa; Bolsonaro e o seu governo-circo. (Cito Carlos Drummond de Andrade no título da nota para lembrar à leitora a existência de brasileiros com coração e cabeça nos lugares certos - apesar de tantos milhões de votos dados a uma espécie de General Tapioca em pior e quase tantos outros milhões dados a cleptocratas convencidos de que ser de esquerda lhes lava os pecados. Se eu fosse brasileiro, teria feito como Fernando Henrique Cardoso e ficado em casa no dia do voto).

 

O comunismo - nunca é demais repeti-lo - não é doença extinta, foi remédio que falhou, que antes disso enchera milhões de pessoas de esperança nas cinco partes do Mundo mas continuara a ser usado cegamente nalgumas delas depois de se saber que fazia pior do que a doença. Lavrada a certidão de óbito, porém, com urgências e enfermarias fechadas, o fosso entre ricos e pobres cavou-se tanto – entre poucos ricos, cada vez mais ricos, e muitos pobres, cada vez mais pobres – que se não se encontrar rapidamente maneira de começar a colmatar essa brecha, as pessoas vão ficar ainda mais zangadas umas com as outras do que o que já estão, agarrando-se desesperadamente a crenças que desvirtuam (patriotismo é amor aos seus; nacionalismo é ódio aos outros – assim Roman Gary expôs lapidarmente o engano) e seguindo demagogos que, no poder, farão ainda  muito mais mal (exemplos recentes são Hitler e Mussolini; exemplo actual é a administração Trump na protecção do ambiente).

 

Portugal tem escapado ao pior do turbilhão, confirmando bom senso colectivo revelado em sucessivas eleições nacionais desde Abril de 1976. Todavia, todo cuidado é pouco, a começar pelos muitos esforços deliberados de baralhar verdade e erros que de Washington a Moscovo se utilizam hoje para manter ou ganhar poder. Esforços que passam muitas vezes a ser recebidos com um encolher de ombros, como se a legitimação da aldrabice fosse factual e moralmente aceitável. Não o é e convém lembrar que em cirurgia torácica, por exemplo, ou construção de pontes, chegaria a resultados catastróficos e à comissão de crimes.

 

Em política também mas leva mais tempo a explicar.

 

 

 

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Quarta-feira, 30 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 Caravaggio (1595)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Os cotovelos da Europa

 

 

… eram a Inglaterra e a Itália, decidiu o nosso Fernando Pessoa no começo do seu único livro de versos publicado em vida, « Mensagem », que apresentou a concurso organizado pelo Secretariado de Propaganda Nacional do governo do Dr. Salazar onde lhe deram menção honrosa (o 1° Prémio foi para « Romaria », do padre Vasco - do apelido esqueci-me - de quem toda a gente se esqueceu também). Um dos cotovelos era a Inglaterra, o outro era a Itália. Com tais cotovelos no estado em que estão hoje a Europa arriscar-se-ia a cair de caras o que seria mau para nós porque para o compincha de Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e mais rapaziada (não havia meninas) o rosto da Europa era Portugal.

 

A Inglaterra foi sempre pedra no sapato da Europa e o Brexit, quando veio, não espantou ninguém. Por outro lado, como a prosperidade dos ilhéus depende de relações mutuamente vantajosas com o resto da União, há cada vez mais gente a querer que, por fim, não haja saída ou que haja saída tão parecida com não a ter havido que ninguém dê por isso (que não se sinta diferença no tinir dos dobrões no bolso, diria o meu amigo Henrique). Se Putin continuar, sempre, a meter medo e Trump continuar a meter, às vezes, medo maior ainda, talvez a prudência leve a resultado que nos enriqueça a todos em vez de nos empobrecer.

 

O susto agora não vem desse cotovelo. Vem do outro, do italiano. A Itália, um dos seis países fundadores do que é agora a União Europeia (mas o único cujos chefes não podiam voltar de automóvel para dormirem em casa depois de jantarem todos em Bruxelas, por ser longe de mais), país rico com manhas de país pobre onde a vergonha é opcional, tem a maioria dos eleitores contra a Europa pela primeira vez desde as Comunidades Europeias. A leitora saberá de peripécias recentes: eleições puseram no topo A Liga, partido de direita dura, racista, xenófoba, nostálgica de Mussolini e o 5 Estrelas, partido meio virado para o infinito meio virado para bardamerda, ramalhete de fantasias irresponsáveis italianas que recebeu ainda mais votos do que o outro. Nada os une salvo ódio à Europa, ao euro, às elites políticas tradicionais do país, de Berlusconi a Renzi, e à estrangeirada – pretos e alemães à cabeça. O Presidente da República encarregou de formar governo nulidade aldrabona por eles indicada mas recusou-se a aceitar para ministro das finanças economista que advogara saída do euro. Impasse: a nulidade retirou-se, os dois partidos bateram a porta, o Presidente encarregou tecnocrata (tão amigo da austeridade que lhe chamam O Tesouras) para formar governo de gestão e daqui a poucos meses haverá novas eleições.

 

Bruxelas suspirou de alívio; Macron saudou a coragem do Presidente. Eu tenho dúvidas. No governo, a coligação depressa daria ditos por não ditos, exporia sua incompetência e se desfaria. Assim ganhou capital de queixa populista e será mais difícil de combater no futuro.

 

“Ai esta Europa, esta Europa…” diria a Avó Berta.

 

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Quarta-feira, 2 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Quentin Metsys - O Cambista e a sua mulher (1519)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Deutschland, Deutschland über alles

 

 

 

Quem é o maior inimigo da União Europeia? O Reino Unido, de saída no comboio fantasma do Brexit? Itália, onde maioria dos eleitores votaram este ano em partidos que não a querem? Polónia, a submeter o poder judicial ao poder executivo? A Hungria autoritária e xenófoba de Vitor Orban?

 

Ou estará o inimigo fora de portas? Os Estados Unidos de Donald Trump com o seu ataque sistemático ao ambiente e a sua guerra comercial contra mundo? A cleptocracia de Vladimir Putin, incapaz de diversificar economia de gás e petróleo, com 110 pessoas donas de 35% da riqueza russa, a mão de ferro do Kremlin a dominar jornais, telefonias e televisões, controlando a opinião interna, e ordena piratagem informática (e um assassinato ou outro), para tentar destabilizar potências estrangeiras, grandes ou pequenas? Ou será a China, planeando a longo prazo (que já não é o que era: Keynes escreveu que a longo prazo já teremos morrido todos mas agora, a longo prazo, ainda alguns de nós por cá andarão)?

 

Ou, para espíritos seduzidos pela teoria conspirativa da história, todos estes, mancomunados uns com os outros?

 

Nada disso, leitora. O maior inimigo da União Europeia é afinal a Alemanha, que é também o mais populoso e o mais rico dos seus Estados Membros bem como, até há poucos anos, o era a Alemanha Federal – antes da reunificação havia duas Alemanhas - o único a encontrar na Europa um Ersatz de Pátria . Em 1996, em Bruxelas, coronel alemão que trabalhava comigo na UEO e fora no dia 9 de Maio a espectáculo na Grand Place para celebrar o Dia da Europa, contou-me, indignado, que só ele, a mulher e os filhos se tinham levantado quando fora tocado o Hino da Europa (4º andamento da nona sinfonia de Beethoven, sobre a Ode á Alegria de Schiller).

 

Em 1945, os europeus beligerantes estavam de rastos e a Alemanha, além disso, com quatro patas em cima (USA, URSS, Reino Unido e França) para só se levantar devagar e desarmada. Mas em 1957 já assinou o Tratado de Roma (a Itália também); laboriosa e disciplinada fora pagando a sua conta, pagamento muito facilitado porque se precisava dela forte, perante a União Soviética. Com os anos foi recuperando muitas das características de uma grande potência (e uma rara nestas: era o único dos “grandes” a esforçar-se por tratar bem os “pequenos”). Antes de se dissolver, a União Soviética consentiu na sua reunificação. Aí as coisas mudaram.

 

A “construção europeia” fora inventada na esperança de se poder viver em paz com a Alemanha depois das duas tragédias da primeira metade do século XX. Funcionou enquanto a Alemanha era devedora e estava dividida. Cofre pagador e reunificada, opõe-se a qualquer forma de mutualização da dívida. Acredita que o Norte protestante da Europa é bom e o Sul católico e ortodoxo é mau. Dívidas são pecados. Conservadores, liberais, verdes e democratas sociais acham “que a Europa está como está porque não se foi suficientemente duro com os países do Sul”. Nada bom à vista.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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bola de cristal

 

 

José Cutileiro

 

À procura do futuro?

 

 

 

Dois factos

 

Primeiro: Entre 2007 e 2017, os proventos dos administradores das cem maiores companhias do Reino Unido foram multiplicados por quatro, isto é, passaram em média de um milhão para quatro milhões de libras esterlinas por ano. Durante a mesma década, os proventos do geral das pessoas empregues por conta de outrem no Reino Unido aumentaram de 10%, isto é de 1% por ano.

 

Segundo: Também no Reino Unido, à pergunta, corrente em inquéritos de sociedade, ‘Acha que os seus filhos vão ter vida melhor do que a sua?’ as respostas, até 2007, tinham sido quase sempre sim – e, a partir de 2008, passaram a ser quase sempre não.

 

Uma preocupação.

 

Em toda a Europa Ocidental, comentadores nos jornais, nas telefonias, nas televisões alarmam-nos de há alguns anos a esta parte com o crescimento do chamado populismo. Referendo no Reino Unido a escolher saída da União Europeia; eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos; eleição – e reeleição recente e reforçada – de Vitor Orban para primeiro ministro da Hungria; popularidade mantida pelo actual governo liberticida polaco; subida nas sondagens da Frente Nacional em França e – mais ainda – do movimento Cinco Estrelas na Itália, são dados como exemplos, entre outros, desse crescimento. Aos jornalistas juntam-se os cientistas políticos (a final de contas, uma espécie de jornalistas lentos e  possuídos por ‘the craving for generalizations’ que tanto irritava Wittgenstein) os quais tentam definir populismo, classificar variedades, comparar os seus aproveitamentos por demagogos de direita e de esquerda . Uns e outros, os rápidos e os lentos, preocupados por verem a Democracia mirrar dia a dia diante dos seus olhos, espécie de bambu ao contrário.

 

Um lembrete.

 

Ao contrário do que muito boa gente parece pensar, o fim do comunismo – o colapso da União Soviética; o mandarinato marxista-leninista de Beijing – não foi a extinção de uma doença. Foi o falhanço de um remédio e a sua desacreditação. O comunismo perdeu a Guerra Fria porque era pior do que o capitalismo mas a maneira como as coisas têm corrido desde então está a dar ao capitalismo uma vitória pírrica. Prosseguindo na metáfora médica: a doença continua e, esgotadas todas as variedades da mezinha experimentada primeiro em 1917 – de Pol Pot às democracias sociais nórdicas – parece urgente descobrir outro tratamento.

 

Um palpite.

 

Estaline disse a Churchill em Yalta que o embaixador que ele lhe mandara para Moscovo durante a guerra, trabalhista fabiano, era de primeira água mas tinha mania curiosa: querer explicar-lhe a ele, Estaline, o que era o socialismo. Quase 80 anos depois, se os povos fossem gatos, não seria por nenhuma dessas duas vias que iriam às filhoses. Nem pela da Rerum novarum.Inventar-se-ão misturas mais sensatas do que as ortodoxias vigentes. Se os Estados Unidos correrem com o maluco a tempo, mesmo que já não possam ser donos do jardim zoológico talvez ainda possam servir de polícia de trânsito.

  

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 19 de Abril de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

aspirina

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O fim das Luzes?

 

 

Em 2005, por altura da tentação de uma Constituição europeia, tinha havido dois avisos, dois “nãos” a referendos – um vindo de país onde não fica bem gastar dinheiro com mulheres e vinho e não se gosta de inflação (a Holanda); outro vindo de país onde fica bem gastar dinheiro com mulheres e vinho e uma pitada de inflação é o sal da economia (a França) – mas quem mandava nessa altura na Europa (que é mais ou menos quem agora nela manda) usou de falcatrua a que ninguém se opôs: tiraram dois ou três pratos da ementa proposta mas deixaram ficar os outros todos, apagando os nomes que lhes tinham dado e escrevendo no cardápio nomes diferentes. A malta (como o Zeca Afonso chamava à gente) esteve-se nas tintas porque se vivia ainda na tradição das trente glorieuses: o ano corrente fora melhor do que o ano anterior e o ano que viria a seguir seria melhor ainda do que o ano corrente, de maneira que, se a minha mulher-a-dias podia trocar de Toyota em segunda mão, não a aquecia nem arrefecia que eu trocasse de BMW ou o Rockefeller local – nessa altura era o Ricardo Salgado, agora ainda há menos quem se assemelhe à tribo americana – trocasse de Bentley.

 

A seguir vieram as crises começadas em 2008 e, na peugada delas, a austeridade. E a gente sem aprender. Não surpreende muito: quando se toma uma aspirina e a cabeça deixa de doer; quando, se se for preso, se pode chamar um advogado que consegue tirar-nos da cadeia ou, se a lei obrigar a que lá fiquemos, garante a nossa defesa ao abrigo de leis, até ao tribunal se se vier a chegar lá; quando, se se adoece, se tem direito a médico, tratamento e hospitalização; quando, se se perde o emprego, se tem direito a subsídio de desemprego, etc., etc., é difícil imaginar que neste baixo mundo se possa viver muito melhor do que assim.

 

De aspirina a subsídio de desemprego tudo se deve a evolução especial da humanidade na pequena península da Eurásia a que se chama Europa, durante os últimos quatro séculos. (O século de Péricles e Jesus Cristo também contaram mas, embora tenham sido conhecidos de civilizações orientais e médio-orientais, não levaram nelas milagres como os do desenvolvimento das ciências e do humanismo na Europa). Habituadas a viver com room service permanente, numa espécie de upgrading da condição humana tomado tão naturalmente como as estações do ano ou as marés, as nossas gentes não querem perceber que, como no filme de Tati Mon Oncle, “tudo comunica” e que, quem apoie o Brexit, Le Pen em França (amigo experiente aposta, dobrado contra singelo, que ela vai ganhar à primeira volta), Orban na Hungria, o gémeo sobrevivente na Polónia e também Erdogan na Turquia, Trump nos Estados Unidos, Putin na Rússia, vai apagando uma a uma as lâmpadas que nos alumiam; talvez mal e pouco mas não há outras. Fundamentalistas Corânicos ou Bíblicos (que negam a teoria da evolução) ou budistas (que limpam etnicamente a Birmânia) deixados à rédea solta darão cabo de tudo. Até da aspirina.

 

 

 

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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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José Cutileiro

 

 

Uma Europa alemã?

 

 

 

Os Deuses estão outra vez zangados connosco, pensariam Reis e Pontífices olhando à volta e talvez mandassem sacrificar vacas ou virgens se os tempos fossem para tais estratagemas. Mas não são: já não é por aí que o gato vai às filhoses. Na Europa, o Vaticano resistiu enquanto pôde mas Angelo Roncalli, mais conhecido por João XXIII, a cuja memória Pasolini dedicou o filme O Evangelho segundo S. Mateus, convocou o Concílio Vaticano II e começou uma grande mudança, tão grande que sobreviveu aos rigores do Papa polaco e ganha ânimo novo com as larguezas do papa Francisco. O meu chorado Nuno Bragança, católico progressista como se dizia na altura mas entusiasta lúcido desse progresso, achava que se João XXIII houvesse vivido mais dez anos “tinha dado cabo de tudo”.

 

Mas o Vaticano não é membro da União Europeia e é por causa do estado desta que tanta gente hoje dorme mal. Ataques a “união cada vez mais chegada” dos europeus, prometida fará sessenta anos no mês que vem no preâmbulo de tratado assinado em Roma, têm sido bem-sucedidos e outros estão na calha. Primeiro, o chamado Brexit, em que aldrabões sem vergonha convenceram populações inglesas ignorantes e (pela primeira vez há um século) mais pobres do que os pais tinham sido, de que seriam mais ricas e poderosas fora da União Europeia do que dentro dela. Mentira patética mas, com determinação de manada de bisontes trotando para se afogar no mar, políticos e burocratas meteram mãos à obra e não se vê marcha atrás. Segundo, o chamado Presidente Trump, maluco com mau fundo, que baixou para abismos inéditos os níveis - moral e intelectual - exigidos pela função sem que tal pareça ofender a sua base eleitoral, considera a Alemanha perigo maior do que a Rússia, e está constitucionalmente ao abrigo de junta médico-psiquiátrica. Terceiro, no futuro próximo, eleição provável de populistas na Europa. Em Março o partido de Geert Wilders deverá vir à cabeça na Holanda. Como a hipocrisia holandesa – que deveria ser património cultural distinguido pela UNESCO – não o deixará governar, coligação de outros se encarregará de ir aplicando o seu programa à socapa. A seguir em França Marine Le Pen poderá ser Presidente e, querendo proteger a produção nacional e sair do Euro, fará o descabello do touro europeu, malferido pela estocada do Brexit.

 

A esperança está na Alemanha onde há eleições em Setembro. A insistência desta na manutenção indevida de enorme superavit e a sua cegueira luterana diante das dívidas que a austeridade, em lugar de aliviar, vai aumentando não deveriam animar ninguém a vê-la como base de sustentação do que restar da Europa. Mas quer Merkel quer Schulz são europeístas convictos e Senhora que ousou abrir os braços a todos os desgraçados do Médio Oriente saberá explicar aos seus que poderão deixar reestruturar a dívida grega sem sequer darem por isso.

 

Ao princípio a ideia fora europeizar a Alemanha. À vista está a germanização do que resta da Europa. É a vida.

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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