Domingo, 22 de Dezembro de 2013

Imagens proféticas e outras

 

 

 

   João Bénard da Costa

 

 

 

[...] Naquele tempo, as crianças como eu não recebiam os presentes na noite da véspera. Os adultos escondiam cuidadosamente da nossa vista o que tinham comprado em nome do Menino Jesus (Pai Natal não existia ainda). Deitavam-nos, prevenindo que noite, muito noite, o Menino desceria pela chaminé da lareira da sala, para pôr as prendas nos sapatinhos que lá tínhamos deixado, antes de ir para a cama. Só as podíamos ver de manhã. E — não fosse o diabo tecê-las — avisavam-nos que ai de nós se quiséssemos entrar lá, antes de eles lá nos levarem, de manhã e nunca muito de manhãzinha, pois que pais deitam-se tarde e não se levantam cedo.

 

Pela calada da nossa noite, enfeitavam a sala e distribuíam por oito sapatos (éramos quatro, nessa altura) as compras do Menino. Depois, a casa levantava a âncora para a travessia da noite, como me lembro de ter lido em Gide.

 

Mas a excitação fazia-me (fazia-nos) acordar muito cedo. Logo que via o Outão diante de mim, percebia que a hora era próxima. Os minutos pareciam horas. Sombreados e luzeiros fixavam-se — como numa pintura — e não os via moverem-se. Se o Menino não tivesse vindo? Se não acontecesse nada? Terrível era a tentação de me levantar e ir espreitar, mas o medo da desobediência e do tabu, tolhia-me. Houvesse uma Eurídice por perto, não sei se teria resistido. Mas, como já disse, não havia.

 

Até que a porta se abria e me chamavam, com inconfundível alegria. Na sala, rompíamos os quatro ao mesmo tempo e, por mais esperado que fosse, o milagre era, de ano em ano, maior. Tudo aquilo, tudo aquilo só para mim. E era tão forte que um ano houve em que perguntei à minha Mãe como é que havia gente que não acreditava em Deus. A prova, irrefutável, era aquele maná caído do céu nos meus sapatos, coincidindo quase exactamente com tudo quanto eu tinha pedido.

 

Depois, muito depois, chegou o tempo de eu fazer de Menino Jesus para os meus filhos e depois, muito depois, o tempo de. obrigado pelo tempo deles, fazer de Pai Natal para os meus netos. Mas sempre que vejo as crianças precipitarem-se para o monte de embrulhos, maravilhosos e maravilhados, repete-se-me a antiquíssima questão e a antiquíssima certeza. A manhã de Natal de outrora, a noite de Natal de hoje é a prova da existência de Deus.

 

A mais absurda das provas? Obviamente, não vou argumentar. Mas já me apeteceria discutir se será mais absurda que as chamadas «provas racionais», nomeadamente as do santo de Aquino. Sosseguem que não vou por aí.

 

Apetece-me continuar em registo mágico, que é o registo destes musgos e destes presépios, destas palhinhas e destes reis. Sophia contou-me (Os Três Reis do Oriente) que Gaspar. Belchior e Baltazar viram a estrela que «mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria». E reconheceram-na logo «porque ela não podia ser de outra maneira». Quem reconhece a alegria das crianças, como quem vê a «carne do sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência», não pode reconhecer estas coisas sem Te ver. «Como poderei suportar o que vi se não te vir?». É o oposto e é o mesmo.[...]

 

 

João Bénard da Costa

In Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 1º volume pp.386-387 

[crónica Uma frincha na janela, 26-12-2003] 

© Assírio & Alvim

 

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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012

António Ferro

 

 

 

António Joaquim Tavares Ferro (1895-1956) 

 

 

A RTP2 exibe no próximo domingo um documentário sobre António Ferro, da autoria de Paulo Seabra, projecto que tive o gosto de acompanhar desde o princípio. O Paulo sabe que eu estimo António Ferro e o trabalho das equipas de que se rodeou no SPN e no SNI, e que gostava de ver mais valorizado o seu legado [1].

 

Sou suspeita, já que António Ferro era “muito lá de casa” [2ou melhor dizendo muito lá de casa de meus avós maternos, com quem vivi vários anos. E sem nunca o ter conhecido pessoalmente, nem a sua mulher, Fernanda de Castro [3], tenho a sensação de os conhecer desde sempre de casa de meus avós, que os recordavam com grande amizade e admiração. Com gratidão também: em poucas palavras, estes meus avós tinham sido ricos e perdido tudo em 1929; meu avô Guilherme Pereira de Carvalho [4], quase a chegar aos 40 anos e com três filhos pequenos, empregara-se pela primeira vez na vida a vender automóveis. Três anos depois foi convidado por António Ferro a integrar o SPN como seu secretário pessoal. Era o trabalho ideal para o seu feitio, a garantia de um salário ao fim do mês e, last but not least, a promessa de uma existência infinitamente mais “rica” do que tudo aquilo com que os meus avós pudessem ter sonhado desde o seu revés de fortuna.

 

Lembro-me de minha avó descrever uma viagem de navio à Argentina, por ocasião de um congresso de escritores, depois de se ter convencido de que "nunca mais faria uma viagem", e da satisfação com que recordava o convívio com intelectuais e artistas estrangeiros que passaram por Portugal nesses anos. Guardava dessa época uma vasta colecção de autógrafos em pequenos álbuns encadernados, especialmente concebidos para o efeito.

 

Ultimamente, novas descobertas proporcionadas pela exaustiva recolha documental e iconográfica realizada por Paulo Seabra para o documentário aprofundaram o meu interesse por António Ferro. Resta-nos agora esperar por uma biografia moderna digna deste homem carismático, que imagino, no auge da «política do espírito», a reinventar o Império assim à maneira dum produtor do cinema clássico de Hollywood.

 

 

 

ESTÉTICA PROPAGANDA UTOPIA no Portugal de António Ferro

 

RTP2 | DOMINGOS  9 e 16 de DEZEMBRO de 2012 | 21h

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas: 

IMAGEM: Fototeca Palácio Foz (actualmente, na Direcção-Geral de Arquivos/Torre do Tombo) s/data, encontrada aqui e que lembra esta aqui

 

1. A loja A Vida Portuguesa, a vitória de um movimento cívico pela reabertura do Museu de Arte Popular, em 2010, e diversos blogs contribuíram de forma importante para o reconhecimento da produção do SNI. Mais neste blog aqui e na tag "arte popular"

 

2. Uma expressão favorita de João Bénard da Costa e título de um dos seus livros. Leia mais aqui.

 

3. Fernanda de Castro aqui  e numa fotografia de Cecil Beaton  aqui

 

4. Guilherme Pereira de Carvalho aqui e os meus dois avós nos anos 20 aqui

 

5. Fundação António Quadros aqui e aqui

 

6. A poesia dos simples: arte popular e nação no Estado Novo, de Vera Marques Alves aqui 

 

 

 

 

 

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Terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

Cinema Novo (1963)

 

 

 

Rui Gomes e Isabel Ruth em "Os Verdes Anos", de Paulo Rocha.

(Col. Cinemateca Portuguesa)

 

 

Os Verdes Anos é o primeiro filme das produções Cunha Telles que, pode dizer-se, começavam com o pé direito: o filme seria premiado em Locarno, o nome de Paulo Rocha surgia nas principais revistas de cinema europeias como uma revelação.

Visto hoje, Os Verdes Anos têm o grande mérito de ser um documento precioso sobre Lisboa do príncipio dos anos 60, o seu provincianismo, o desespero e a sufocação de uma geração jovem. Para o cinema, o filme revelava ainda a sensibilidade de um compositor (Carlos Paredes) que construiu um tema musical que ficaria célebre (...).

Pela primeira vez depois de muitos anos este filme sintonizava-se com a realidade portuguesa, espelhava-a. Era um vento de mudança no cinema que por cá se fazia. Mas a mudança não estava só na respiração temática. Acontecia também (...) na respiração fílmica, na atenção aos movimentos de câmara, à realidade plástica dos planos, aos tempos.

Mais de vinte anos depois, Os Verdes Anos, não ganharam cãs, sabemo-lo... O que quer dizer que o Cinema Novo que nele se propunha o era, de facto.

 

Jorge Leitão Ramos,

in Dicionário do Cinema Português 1962-1988

Ed. Caminho, Lisboa, 1989

 

 

 

 

Isabel Ruth em "Os Verdes Anos", de Paulo Rocha.

(Col. Cinemateca Portuguesa)

 

 

Paulo Rocha era, por essa altura, relativamente marginal a quaisquer grupos. Estivera, é certo, por esses anos, perto de alguns dos universitários católicos que mais inovaram em matéria de gostos críticos, mas nunca teve nessas estruturas papel de evidência. Depois, vagueara pela França, com uma bolsa do IDHEC e estagiara com Renoir em Le Caporal Epinglé. Ao voltar, em 1962, trabalhou com Oliveira no Acto da Primavera e na Caça. Quando se decidiu passar à realização, foi buscar a esse grupo de católicos dois dos mais relevantes colaboradores: Nuno Bragança (1929-1985) que viria a ser um dos expoentes da nova literatura portuguesa dos anos 60 e 70 e o poeta Pedro Tamen (1934). O primeiro adaptou o argumento e escreveu os diálogos; o segundo foi autor da letra da canção leitmotiv do filme, musicada por Carlos Paredes (...).

Ainda, Verdes Anos, é o filme que melhor dá a ver Lisboa e Portugal como espaços de frustração, espaços claustrofóbicos, sem saídas, onde tudo se frustra e tudo agoniza numa morte branda.

 

João Bénard da Costa

in Histórias do Cinema, Sínteses da Cultura Portuguesa

Europália 91, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa

 

 

Textos e fotos reproduzidos de Amor de Perdição.pt aqui

 

 

 

 

"Os Verdes Anos", de Paulo Rocha (Portugal 1963)

 


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Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

Muito lá de casa

 

 

 

 

 

 

Revista Cinémonde, anos 60

 

 

 

Muito lá de casa eram todos aqueles de quem, lá em casa, havia retratos em imensas gavetas, que foram a primeira das minhas explorações predilectas, a primeira das minhas paixões predilectas. Esgotados os retratos de família, até ao mais remoto primo, havia centenas (não exagero) de fotografias de personagens que, nem que fosse por um dia, tinham sido muito de casa. Senhores barbudos, velhas com grandes chapéus, virgens pálidas, jovens olheirentos. Fotografîas com dedicatórias retóricas: «Ao Exm.° Senhor F... offereço como prova de estima». Insaciável, eu queria saber os nomes de todos e em toda a casa de que era muito pedia para ver essas gavetas e esses retratos. Se os crescidos não tinham mais que fazer, identificavam-nos para meu deleite e, em dias mais fastos, contavam-me, para cada um ou de cada um, histórias de espantar.

 

Foi numa dessas casas, de que eu era muito, que, um dia, quando já esgotara todas as gavetas e já sabia de cor e salteado os nomes dos habitantes delas, alguém me passou para a mão um exemplar da «Marie Claire». Era um número antigo, provavelmente de 1940, porque me lembro de saber que a revista interrompera a publicação depois de os alemães entrarem em Paris. E fui parar a duas páginas — que passaram para mim a ser as páginas centrais — em que estavam retratos de 15 actrizes e 15 actores, arrumados, ao alto para as senhoras e ao baixo para os senhores, por ordem das respectivas alturas.

[...]

Esqueci a maior parte dos retratados nas gavetas, à medida que fui deixando de as abrir ou que se fecharam as casas que habitavam em efígie. As actrizes e os actores, em truque bem digno da arte deles, elevaram-se desses rectângulos, em que figuravam em corpo inteiro, nas páginas da «Marie Claire», para grandes planos que me ficarão a acompanhar para todo o sempre. Estáticos, nessa primeira visão, animaram-se depois nos muitos, muitos filmes que vi com eles.

[...]

Por uns apaixonei-me eu, por outros não. Muitos forram hoje a casa em que vivo. Todos passaram a ser muito lá de casa. E foi só um princípio. Com eles trouxeram, como os demónios expulsos da parábola evangélica, não mais 30, mas mais 300, uns vindos ainda mais de trás, antepassados dessa galeria dos «thirties», outros herdeiros deles, ramos da mesma árvore, filhos ou netos dos altos e baixos da «Marie Claire».

 

 

João Bénard da Costa

in Muito lá de casa (O Problema da Habitação) aqui

©Assírio e Alvim e João Bénard da Costa, 1993

 

 

 

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Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

João Bénard da Costa

 

 

 

Com João Bénard da Costa e Lotte Eisner

na Arrábida, em 1983

 

 

 

Lotte H. Eisner, a grande ensaísta do cinema expressionista alemão, visitou Portugal em 1983 a convite da Cinemateca Portuguesa, à qual eu acabara de chegar, com a missão – imagine-se – de dar maior visibilidade às actividades da instituição. Os anos que lá trabalhei foram dos mais felizes de toda a minha vida profissional. Comecei por ter a sorte de a minha primeira tarefa correr bem, uma homenagem a outra senhora muito idosa, Dina Teresa, vedeta do primeiro filme sonoro português. Os jornais deram um relevo sem precedentes ao evento, o que me valeu a confiança imediata de Luís de Pina e João Bénard da Costa, além de ter contribuído para esclarecer, aos olhos dos outros colaboradores da direcção – uma equipa reduzida, muito competente e motivada – as razões da minha presença ali.

 

O meu trabalho consistia em redigir comunicados de imprensa, tratar dos convites, fazer pequenas visitas guiadas ao museu instalado no primeiro andar, acompanhar os visitantes estrangeiros, numerosos nesses anos; fazia também o que mais houvesse para fazer, telefonemas para o estrangeiro, ajudar a secretária de João Bénard a decifrar-lhe a letra, traduzir, escrever à máquina quando era preciso. Vale a pena explicar que o processo então utilizado para o fabrico das “folhas de sessão” obrigava a que o texto fosse dactilografado, numa máquina de escrever eléctrica - a máquina de esfera IBM - numas folhas especiais recobertas de uma fina camada de cera. As gralhas eram tapadas com um verniz, aplicado a pincel, que permitia voltar a bater letras por cima. Só então é que a ‘matriz’ seguia para a reprografia.

 

Eu escrevia bem à máquina, depressa e com poucos êrros, e foi assim que algumas vezes, não muitas, o João me pediu que levasse a máquina para o seu gabinete, para me ditar de improviso o texto da “folha” a distribuir daí a pouco na sala de cinema.

Ditava, contínua e pausadamente, sem omitir a pontuação, a caminhar devagar de um lado para o outro. No fim o texto estava perfeito, não era preciso alterar uma vírgula, nunca vi nada assim. Mas além da admiração que a ‘proeza’ sempre me causava, a recordação mágica que guardo dessas ocasiões está ligada à concentração profunda de ambos na tarefa, algo parecido com a ‘simbiose’ que o intérprete de conferência (em que mais tarde me tornei) estabelece, durante o discurso, com o orador (inspirado).

 

João Bénard Costa revelou-me o sentido da expressão “escrever ao correr da pena”.

 

 

 

 

 

 

 

um excerto de Muito Lá de Casa aqui

 

 

Mais sobre João Bénard da Costa aqui

 

 

 

 

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