Quarta-feira, 17 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

bar-do-ritz

Bar do Ritz, Lisboa

 

 

José Cutileiro

 

Mais um bey de Tunis !

 

 

Prometi ontem ao almoço no bar do Ritz à Vera que ela teria hoje até ao fim do dia, sem falta, na sua casa da rua dos Caetanos, esta folha de bloco-notas, para depois procurar ilustração condigna. Não contei com já não vir a Portugal há quase seis meses, o país ter entretanto mudado, as mudanças serem no geral para pior e uma delas residir exactamente na qualidade do bacalhau à Braz do Ritz, que piorou escandalosamente desde a última vez em que eu o tinha lá ido comer, excursão até ontem sempre feita, de há muitos anos para cá, com o sossego de espírito dado pela certeza antecipada de coisa boa ao fim da viagem. Papa dôce que acabou. Um dos segredos do bacalhau à Braz é a espessura dos bocados de bacalhau que nele se metem com os ovos e a batata finamente cortada. Para se fazer justiça ao nome do prato tem de se sentir o bacalhau mas se este se sente demais, se as fibras são demasiado espessas, estraga-se o equilíbrio dessa joia da nossa culinária, quebra-se o encanto – e foi isso que aconteceu ontem ao almoço no bar do Ritz.

 

O melhor bacalhau à Braz da minha vida foi o do cozinheiro chinês do clube da Covilhã, teria eu uns vinte e cinco anos e ele aí setenta, onde o António Alçada Baptista e a Zezinha me tinham levado a almoçar. O chinês fora trazido de Macau em pequeno por doutor da administração ultramarina e sua mulher, crescera na Covilhã e lá envelhecera, dando aos sócios do clube e aos convidados destes maravilhas culinárias para lá dos costumes da Beira Baixa - o segundo foi o de um homem discreto e simpático, com restaurante onde o mano João me levou um par de vezes em Évora, perto dos arcos baixos do aqueduto e da Rua das Amas do Cardeal, que morreu de repente há anos, tendo o restaurante fechado. A seguir a esses dois sinais de excelência, bem mais abaixo mas ainda bons, espalhados por Portugal, havia vários outros e, em Lisboa, valia-me o bar do Ritz, o qual, a certa altura, me pareceu mesmo estar a querer melhorar ainda.

 

A leitora poderá achar que a partir de receita falhada uma vez só, só se declararia a decadência do país num excesso de arrogância e de cegueira. Permito-me discordar. Aconteceu ao bar do Ritz, com a abundância recente de cada vez mais turistas endinheirados, o que aconteceu ao resto de Lisboa: uma perda de exigência quanto aos seus próprios padrões, sobre os quais a nova clientela não sabe pronunciar-se, deixando nós assim que esta nos deseduque, em vez de sermos nós a ensinar-lhe coisa nova. É pena.

 

E o bey de Tunis? Esse, leitora, vem de Eça de Queiroz que também escrevia para os jornais e um dia, sem lhe ocorrer assunto, resolveu, a despropósito, atacar o bey de Tunis (que ainda por cima acabara de morrer: « Que importa ? Em Tunis há sempre um bey ») – ou pelo menos Eça assim conta a Pinheiro Chagas em polémica a fazer troça dele. No meu tempo adorávamos todos Eça*.

 

*Tirando o meu chorado Carlos Leal que achava Eça um janota do Porto e preferia Camilo Castelo Branco.

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Fernando Peyroteo

 

José Cutileiro

 

Todo o mundo é composto de mudança

 

Ou assim Camões disse, talvez por palavras parecidas: estou a citar de memória que é mais traiçoeira ainda do que a pior das mulheres vítimas de violência doméstica aos olhos dos que lhes batem e, às vezes, de quem julga estes nos raros casos que são denunciados à polícia. Os modernos – nós, agora – estão a pôr de pernas para o ar costumes seculares. Miguel de Unamuno que, velho e alquebrado, na universidade de Salamanca replicou ao grito de Muera la intelectualidad traidora! Viva la muerte! do general franquista Millan Astray levantando-se e proclamando Este es el templo de la inteligencia y yo soy su sumo sacerdote!, anos antes, válido e em tempo de paz, teria gracejado – contaram-me, não vi escrito, mas se não era verdade era verosímil – que um homem devia todos os dias dar uma sova à mulher porque mesmo que ele não soubesse porquê ela sabia. De resto, não há sistema simbólico tradicional no mundo de que se tenha notícia (e são muitíssimos) em que a mulher não esteja do lado do mal, enquanto o homem fica sempre com o bem. Como se diria agora, há fake news que vêm de muito longe - entre os cristãos, com abundância, até da Bíblia.

 

Passar a tratar as mulheres de igual para igual é mudança nova e tanto quanto se saiba única. (Em sociedades matrilineais, por engano ditas matriarcais, o filho não herda do pai mas do irmão da mãe; quem quer, pode e manda continua a ser o homem). Quem diz mulher diz judeu. Estão a aumentar muito os casos de antissemitismo na Europa, hoje criminalizáveis. Essa mudança legal vai contra a tradição cristã que, durante quase dois milénios, maltratou os judeus, desde os pogroms da Europa oriental, percursores da solução final nazi, passando pelas conversões forçadas, até chegar à exclusão de clubes e outras descriminações raciais brandas que ainda duram. A pesar do peso dessa tradição, e de racismo generalizado (incluindo hebreu) no Médio Oriente, tratamento igual a judeus e goyim parece ter chegado à Europa para ficar. Outra mudança nova.

 

A mudança de que falava Camões é a mudança das estações, quatro vezes por ano voltando tudo ao mesmo, salvo no homem que a partir de certa idade chama à mudança envelhecimento seja qual for a estação em que entre. Quando, da mudança cíclica, se chega à mudança cada vez para pior da senectude, abre-se ainda mais um capítulo que pode às vezes fazer outros levantarem o sobrolho. Casal amigo de Frau Tichbein, mãe de Emílio (o dos detectives), achava que no tempo deles «o céu era mais azul e a cabeça dos bois era maior».

 

Levantar o sobrolho aos outros e ao próprio. Dei por mim a achar que os políticos de hoje, comparados com os do meu tempo (a que verdadeira política chegou em 1974, antes havia presos que éramos nós e carcereiros que eram eles) pareciam toscos e rascas. Depois fui mais atrás: aos 10 anos achava que o Presidente da República devia ser Fernando Peyroteo, avançado-centro do Sporting e da selecção nacional. A gente vai mudando.

 

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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Hino pauta

 

 

 

José Cutileiro

 

As luzes estão apagar-se na Europa

 

 

Assim disse estadista inglês no começo da Primeira Guerra Mundial. Esse novo caminho para a escuridão está a ser trilhado agora, de maneira convencida não só na Polónia que parece vítima de maldição perene (Un polonais, un charmeur; deux polonais, une bagarre; trois polonais, la question polonaise, escreveu Voltaire que morreu antes da Revolução Francesa) e na Hungria, onde Victor Orban está metodicamente a enfraquecer democracia parlamentar por  governação autoritária e corrupta, com a cumplicidade do Partido Popular Europeu (que não o expulsa nem autoriza a Comissão Europeia a cortar-lhe finanças, continuando a pretender, contra toda a evidência, que o levará a mudar de rumo a bem) mas também em outros países da Europa de Leste onde se prestam agora homenagens a militares pro-nazis dos anos 30 e 40 do século passado - tratados de criminosos de guerra há  50 anos.

 

Na Europa dantes dita Ocidental a preocupação também é grande. Na Alemanha, talvez de todos os países europeus, aquele em que o apego à democracia parlamentar é maior (salvo na antiga Alemanha de Leste, envenenada à nascença pela mentira que a criara) o partido da Alternativa ganha terreno. Na Itália evoca-se abertamente saudade de Mussolini, e a coligação extrema direita/extrema esquerda que desgoverna agora o país entende-se em pouco mais do que no desprezo da democracia parlamentar e do estado de direito. Na Inglaterra, políticos desnorteados ou mal norteados transformam séculos de grande história to a trouble of fools (com vénia minha a Yeats). Em Espanha, pela primeira vez desde 1975, partido franquista ganha deputados em parlamento regional e lugar à mesa das pessoas de bem da política. Em França, há catorze fins de semanas, os gilets jaunes manifestam em ruas, estradas e rotundas, destroem propriedade, insultam o presidente da república e pedem democracia directa em vez de representativa (os lugares em que democracia directa foi tentada acabaram em ditadura mas ou não sabem isso ou é isso que querem). Paisagem retocada por antissemitismo renascente, que nestas coisas configura o tradicional canário da mina.

 

George Orwell escreveu algures que, de vez em quando, as pessoas queriam o mal, se batiam por ele. Madame de Stäel, no Paris revolucionário, sentira hiato entre políticos e povo, entre quem mandava e quem era mandado, como nunca sentira antes. Cesário Verde faz pensar: A dor humana busca amplos horizontes/E tem marés de fel como um sinistro mar. Mas ao lado de reflexões luminosas depressa surgem feitos medonhos, do terror de Robespierre às matanças de Pol Pot - e é para feitos assim que a Europa se está a pôr a jeito.

 

Portugal parece escapar à maré de fel. Em 1942, na inauguração do Estádio Nacional o governo salazarista fez espalhar de avionete milhares de panfletos rezando em grandes letras O QUE NÓS QUEREMOS É FUTEBOL. Se em inauguração próxima o governo democrático fizesse o mesmo o povo também haveria de gostar.

 

 

 

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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Claude Lanzmann e Simone de Beauvoir2Claude Lanzmann e Simone de Beauvoir

 

 

 

José Cutileiro

 

Desabafos

 

 

Claude Lanzmann, director da revista Les Temps Modernes, onde sucedeu a Jean-Paul Sartre; autor de Shoa, filme-documentário de 10 horas sobre o morticínio dos judeus europeus por nazis alemães e acólitos de outros nacionalidades (a caça ao judeu é passatempo cristão intermitente e antigo) nos anos 30 e 40 do século passado; único amante de Simone de Beauvoir que esta admitiu que vivesse com ela na sua própria casa – apresento estes três feitos por ordem crecente de mérito – escreveu ter percebido desde muito novo estar condenado a uma vida falhada (ratée) por não ter nascido rico. São raras pessoas com essa lucidez e, mais raras ainda, aquelas que, possuindo-a, têm depois a franqueza de dizer o que ela lhes diz a quem as queira ler. Só encontrei a sentença de Lanzmann depois da morte dele, o ano passado, e talvez não tenha sido o único a identificar-me com a sua percepção fatalista. Mas é pensamento incómodo de albergar, sobretudo associado, inevitavelmente quando se pense em Lanzmann - Grande Senhor, ele próprio – e em Shoa, nos destinos dos milhões de pessoas por esse megamassacre consumidas (a maior barbaridade cometida por europeus contra europeus) . Na paz de uma sociedade tolerante que condena o antissemitismo, passados mais de 70 anos sobre os julgamentos de Nuremberg, parecerá mesquinho pôr na ideia que o dinheiro traga felicidade (não traz mas, dizia Bernard Shaw, traz qualquer coisa tão parecida que só um perito será capaz de as distinguir) de tal maneira que lamentar tão fundamente não o ter – e não o ter de nascença, como parte da ordem natural das coisas – dir-se-ia exercício narciso-masoquista antipático, mesmo desprezível.

 

Talvez – mas depois a gente olha à roda e factos incómodos começam a vir ao de cima. Hoje sabem-se muito mais coisas do que os crescidos sabiam quando eu era pequeno e arrumam-se essas coisas também de muito mais maneiras, avivando semelhanças e contrastes. Por exemplo, sabe-se, com números certos e contas feitas, que as 26 pessoas mais ricas do mundo possuem mais no seu conjunto do que metade – metade - da população do globo terrestre – o que, quer eu quer a leitora, deveremos concordar ser um um rôr de gente. Ao mesmo tempo, nos grandes vazios políticos criados nas cabeças pelo fim do comunismo e das esperanças que este levantara – antes de as aniquilar em Moscovo, Beijing, Havana,  Pyong Yang, onde quer que agarrou poder e prometeu amanhãs que cantam – nada ainda medrou capaz de concorrer com as moderações, decentes e sensatas, que equilibravam os pratos da balança a nosso favor no tempo da Guerra Fria. Nas Américas, em África vibram intolerâncias de fundamentalismo cristão. Em Myanmar morreram ilusões sobre o budismo. O Islão descamba demais em violência.

 

Ficam as nossas democracias, a sua mistura de fome, saciedade e esperança que nos dá a todos, incluindo os Lanzmann, um lugar ao sol. Mas se as diferenças abissais de  riqueza não forem reduzidas até estes oasis se sumirão.

 

 

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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

akhenaton-principal-kAdD--620x349@abcAkhenaton

 

José Cutileiro

 

 

 

Rex/Pontifex

 

 

As palavras são latinas mas os conceitos vêm dos egípcios que inventaram as traves mestras do poder neste mundo e no outro. Tudo o que veio depois deles – de gregos, romanos, cristãos, muçulmanos – foi construido sobre esses alicerces, expressos inter alianas maravilhas mais antigas ao Sul do país e nas  pirâmides de Gizé a Norte, dizia-me amigo que há dias subiu o Nilo, parando nos dois hoteis preferidos de Agatha Christie, um típicamente inglês colonial, o outro já afrancesado e ambos excelentes para alguém se desalterar e meditar nos intervalos de tal regresso às origens, bafejados há cem anos por ventoínhas e agora por ar condicionado. O meu amigo só lamentava que, perante tanta sabedoria ancestral, não se pudesse pedir agora ao General Abdel Fathah el-Sisi que se fosse instalar em Londres para meter na ordem o bando de descerebrados, eleitos e eleitores, que numa mistura surpreendente de incompetência, ignorância e engano, meteu o Reino Unido na camisa de onze varas do Brexit.

 

 

Respondi-lhe que inventar tudo, tudo, não tinham. Escapara-lhes o monoteismo, embora o faraó Amenofis IV – ou, como ele preferia ser denominado, Akhenaton – durante o seu reinado tentasse promovê-lo. Foi, para os artistas (sempres solícitas ao gosto dos seus patronos), tempo diferente dos outros: o que chegou até nós dos seus ateliers e oficinas está cheio de esculturas e de restos de pinturas murais naturalistas, como não se encontram em nenhum outro momento da história egípcia, desde dos primórdios desta até à invasão romana, nem.em qualquer outro lugar antes do Renascimento. Quando, aos doze anos, eu soube destes sucessos, Akhenaton passou a ser um dos meus herois, juntamente com Fernão de Magalhães e o capitão Scott que com a sua expedição atingira o Polo Sul para encontrar a bandeira da Noruega, hasteada por Amundsen que lá chegara antes e, no regresso, morrer de frio com os seus companheiros na neve da Antártida.

 

Entretanto, mudei muito. A admiração por Akhenaton mantém-se mas com  grande beliscadura: estou há décadas convencido de que o monoteísmo é um dos maiores flagelos do mundo; que os males sancionados pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacob excedem de longe os bens que se lhe possam atribuir . Na tradição cristã seguem-se ao monoteismo, o cristianismo primitivo e a Reforma - fora das igrejas mas em veias semelhantes eu acrescentaria Marx e Freud). E para tudo isto, lembrando-me da sugestão do meu amigo, nem o General el-Sisi chegaria.

 

Ia continuar sobre monoteísmo e lei e ordem à l’égyptiennemas, escrevo terça-feira, acabo de saber que o ex-presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, preso há 7 anos, acusado de crimes contra a humanidade, foi absolvido e mandado libertar pelo Tribunal Penal Internacional. Gostei que o Tribunal começasse a ganhar juízo – e lembrei-me de Gbagbo, ainda presidente a dizer a jornalista francês: « Pois é, vocês querem que a gente faça a Revolução de 1789 sem ofender a Amnistia Internacional ».

 

 

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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Caution FS

 

José Cutileiro

 

 

De desejos do bem a práticas do mal

 

 

«All politics is local politics» disse famosamente Tip O’Neill, muitos anos presidente da Camara dos Representantes em Washington, que nunca pôs os pés na Embaixada Britânica porque como todos os O’Neill era descendente de irlandeses e ha ódios de honra que mesmo que não se sintam (deu-se sempre bem com os embaixadores britânicos) se devem simbolicamente significar. Ódios que estão agora a subir de dia para dia em quase toda a parte, numa espécie de moda que de Trump a Bolsonaro, de Erdogan a Putin, de Duterte a Orban, de Le Pen a Salvini, e por aí fora, vão envenenando as relações entre pessoas, tribos, nações e tornando cada vez menos improváveis guerras que os europeus, depois de cinquenta anos no casulo do abrigo atómico fornecido por destruição mútua garantida às mãos de Washington, Moscovo ou ambas durante a paz da Guerra Fria, julgavam tão extintas como a varíola nesta península da Ásia, tão linda que Zeus um dia se transformou em touro para dormir com ela.

 

Não estavam. E, neste ‘cada-um-a-querer-o-seu-e-ou-tudo-ou-nada’, talvez nos devessemos preocupar com nossos filhos e netos. (Embora, a avaliar pelo pouquíssimo que se faz para deixar o Planeta vivável por quem venha a seguir, a ideia de sacrificar prazer de hoje a prazer futuro - sobretudo se esse prazer futuro já não for nosso – não pareça ser regra geral de vida mas mania de muito poucos). Deveríamos, pelo menos, ser capazes de contradizer  as mentiras inventadas  e orquestradas para deitar abaixo decência de viver que, com uma origem distante no lugar do homem no mito cristão, se começou a impôr no Renascimento, a seguir no Iluminismo, ganhou duas Grandes Guerras e, depois do fim da segunda, derrotados nazismo e fascismo, estabeleceu o Plano Marshall e o Pacto do Atlântico e veio a meter o comunismo no caixote do lixo da História.

 

Contra o que Talleyrand julgava, la douceur de vivre é muito maior e chegou a muito mais gente depois da Revolução. Dos seus caboucos fazem parte arranjos constitucionais que enquadram direitos e deveres de quem governe e de quem seja governado. Quando se toca neles – como agora na Polónia e na Hungria – está-se a fazer mal ao Homem, abrindo caixa de Pandora  cheia de víboras. As fake news que nos bombardeiam enfraquecem a defesa da decência, sem a qual a vida seria muito mais dura e brutal mas é difícil acabar com elas. Por exemplo, lembra o historiador-guru israelita Yuval Noah Harari, a Bíblia está cheia delas  e embora sejam raros os que creem ainda que o Mundo começou há 5.760 anos ou que Nossa Senhora concebeu virgem, muitos acreditam em outras inverosimilhanças.

 

Não importa. Metamos entre parêntesis os Deuses de cada um, e ataquemos mentiras sobre o que esteja provado lógica ou empiricamente. Que eu saiba não vingam fake news sobre o teorema de Pitágoras, o princípio de Arquimedes ou as teorias  da relatividade de Einstein - e por aí abaixo. A eito e sem tréguas, senão adeus douceur de vivre.

 

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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

marc blochMarc Bloch

1886-1944

 

 

José Cutileiro

 

De uma esperança a outra

 

Lembro-me do Pai voltar de Madrid em 1939, logo a seguir ao fim da Guerra de Espanha, com fotografias de casas em ruínas. O país estava de rastos: durante muitos anos o contrabando passou a fazer-se de cá para lá, com nós a aldrabá-los a eles. No Passapoga da noite madrilena, uma mulher valia menos que no 3º andar do100 da rua do Mundo, em Lisboa. O escudo valia o dobro da peseta.

 

Portugal estava dividido: em casa do Nuno Bragança celebraram a última Cruzada; na minha sofreu-se porque a democracia tinha sido derrotada. Mau sinal para a segunda Grande Guerra? Não tanto: confiança inabalável na vitória das democracias foi premiada em 1945. Poucos dias depois de Salazar ter posto a nossa bandeira a meia-haste nos edifícios públicos e ter mandado pêsames ao governo alemão pela morte de Hitler, a seguir à rendição incondicional da Alemanha, houve grande manifestação em Lisboa, atrás da bandeira inglesa, da bandeira americana e, entre as duas, de mastro sem bandeira hasteada. (A seguir à invasão da URSS por Hitler, os comunistas tinham defendido a causa aliada). O Estado Novo aguentou ainda 29 anos mas a oposição era mais forte do que equívoco em que assentava. Este parecia ter ficado resolvido em 1975, quando Mário Soares e o MFA puseram partidos contra as Comunidades Europeias e a OTAN fora do alcance do arco governativo.

 

Voltando à esperança. 1974 e 1991 foram anos bons, sobretudo para aqueles que tinham entendido que comunismo, marxismo-leninismo, trotskismo facção Lambert, todas as variedades conhecidas dessa visão, estavam fundamentalmente erradas e não era por aí que o gato iria às filhoses. Mas, entretanto, tudo se complicou outra vez. Progresso técnico a ritmo inédito e vontade de enriquecer de intensidade rara desde Nova Iorque a Shangai, passando por todo o resto do mundo, juntaram-se os dois à esquina. Até agora não se lhes consegue deitar a mão e a maldade de cada humano, com um computador à frente, pinta a manta como quer – não só nos Estados Unidos onde o espalhar de mentiras foi glorificado por Presidente que usou e encorajou o método para chegar ao poleiro mas também na França de hoje onde a extrema-direita de Marine Le Pen e Steve Bannon , desonesta até à medula, quer que o povo veja no acordo sobre o clima de Marraquexe uma conspiração contra os estados-nação europeus e os seus valores. A 10 de Dezembro de 1948, a Declaração Universal dos direitos humanos nasceu em Paris. Desde então, melhorámos. Em 1948, a África do Sul não a assinou porque os pretos valiam menos do que os brancos; os países árabes porque as mulheres valiam menos do que os homens; a União Soviética (e satélites) porque os povos valiam menos do que partidos e governos.

 

Até a maldade humana ser desunhada outra vez vai passar tempo: talvez venha a ser precisa guerra grande e à antiga. Em 1944 Marc Bloch, que os alemães iam fuzilar, escreveu: “Nous sommes les vaincus provisoires d’un injuste destin”. É a nossa esperança.

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

cravos

 

 

José Cutileiro

 

E agora José ?

 

George Orwell lembrou algures que as pessoas às vezes precisam de mal, querem o mal. Parece estar a acontecer agora.

 

Depois de sinais em sentido contrário – vitória aliada na guerra de 1939–1945, descolonizações, colapso eutanásico da União Soviética em 1991 – e a seguir a, de Nova Iorque a Pequim, em todas as praças financeiras, capitalistas cheios de sangue na guelra se entusiasmarem tanto com o fim do comunismo que tomaram o freio nos dentes e perderam a vergonha, começaram a brotar expressões do mal consequente, escondido e insuspeitado até então como alguns cancros a que especialistas chamam neoplasias profundas. De entrada de bom modo – ‘não’ nos referendos holandês e francês de 2005 sobre ‘mais Europa’: os povos afinal queriam menos – e ultimamente com acinte: a tragédia do Brexit; a delinquência de Trump; proto-fascismos no Leste da Europa; Bolsonaro e o seu governo-circo. (Cito Carlos Drummond de Andrade no título da nota para lembrar à leitora a existência de brasileiros com coração e cabeça nos lugares certos - apesar de tantos milhões de votos dados a uma espécie de General Tapioca em pior e quase tantos outros milhões dados a cleptocratas convencidos de que ser de esquerda lhes lava os pecados. Se eu fosse brasileiro, teria feito como Fernando Henrique Cardoso e ficado em casa no dia do voto).

 

O comunismo - nunca é demais repeti-lo - não é doença extinta, foi remédio que falhou, que antes disso enchera milhões de pessoas de esperança nas cinco partes do Mundo mas continuara a ser usado cegamente nalgumas delas depois de se saber que fazia pior do que a doença. Lavrada a certidão de óbito, porém, com urgências e enfermarias fechadas, o fosso entre ricos e pobres cavou-se tanto – entre poucos ricos, cada vez mais ricos, e muitos pobres, cada vez mais pobres – que se não se encontrar rapidamente maneira de começar a colmatar essa brecha, as pessoas vão ficar ainda mais zangadas umas com as outras do que o que já estão, agarrando-se desesperadamente a crenças que desvirtuam (patriotismo é amor aos seus; nacionalismo é ódio aos outros – assim Roman Gary expôs lapidarmente o engano) e seguindo demagogos que, no poder, farão ainda  muito mais mal (exemplos recentes são Hitler e Mussolini; exemplo actual é a administração Trump na protecção do ambiente).

 

Portugal tem escapado ao pior do turbilhão, confirmando bom senso colectivo revelado em sucessivas eleições nacionais desde Abril de 1976. Todavia, todo cuidado é pouco, a começar pelos muitos esforços deliberados de baralhar verdade e erros que de Washington a Moscovo se utilizam hoje para manter ou ganhar poder. Esforços que passam muitas vezes a ser recebidos com um encolher de ombros, como se a legitimação da aldrabice fosse factual e moralmente aceitável. Não o é e convém lembrar que em cirurgia torácica, por exemplo, ou construção de pontes, chegaria a resultados catastróficos e à comissão de crimes.

 

Em política também mas leva mais tempo a explicar.

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

arc de triomphe Paris

Arco do Triunfo, Paris

 

 

José Cutileiro

 

Eterno retorno

 

 

Fim de semana chuvoso, no conforto de casa, com a televisão a mostrar comemorações em vários lugares, mormente no Paris que Haussman arquitectou para glória do Estado e controle de turbas operárias descontentes. Arco do Triunfo no centro da Estrela, debaixo do chão da qual jaz o soldado desconhecido (ou conhecido de Deus – Known unto God– segundo lápides funerárias em cemitérios militares britânicos, graças a Rudyard Kipling, prémio Nobel da literatura, que perdera um filho na guerra cujo fim, há cem anos, foi celebrado este Domingo). França, a mais monárquica das Repúblicas - cada francês ou francesa entrança em si um ci-devante um sans culotte  - tem jeito para comemorações destas, a coreografia foi excelente, os muitos chefes de estado presentes, abrigados da chuva por elegante construção temporária transparente, portaram-se bem e Macron disse bem discurso bem escrito. A Sarabanda da 5ª suite para violoncelo solo de João Sebastião Bach - que Rostropovich tocara em 1989 diante de Muro de Berlim deitado a baixo – ouviu-se desta vez pelas mãos de Yo Yo Ma. (Mesmo três Fems que conseguiram manifestar-se e a polícia agarrou logo não destoaram: mamas ao léu fazem parte gloriosa da Grande Revolução Francesa).

 

Tudo como deve ser mas Álvaro de Campos veio-me logo à cabeça.

 

Dos Lloyd Georges da Babilónia                                                                                             

Não reza a história nada.                                                                                    

Dos Briands da Assíria ou do Egipto,                                                                                  

Dos Trotskys de qualquer colónia                                                                                            

Grega ou romana já passada                                                                                                     

O nome é morto, inda que escrito.

 

 

 

Só o parvo de um poeta, ou um louco                                                                                                                                           

Que fazia filosofia                                                                                                                        

Ou um geómetra maduro                                                                                                               

Sobrevive a esse tanto pouco                                                                                                                                                                                                                                  Que está lá para trás no escuro                                                                                                   

E nem a história já historia.

 

 

Ó grandes homens do Momento!                                                                                                              

Ó grandes glórias a ferver                                                                                                                        

De quem a obscuridade foge!                                                                                                                

Aproveitai sem pensamento,                                                                                                                           

Tratai da fama e do comer,                                                                                                                                                                         

Que o amanhã é dos loucos de hoje.

 

 

Em modo menos anarquista, lembrei-me da estreia de ‘A Tragédia do Rei Lear’, posta em cena em sueco por Ingmar Bergman em Janeiro de 1984, na véspera da abertura da Conferência de Paz de Estocolmo, entre países da OTAN, países do Pacto de Varsóvia e países neutros e não-alinhados, que começou num dos momentos mais tensos da Guerra Fria. O 'Rei ‘Lear’ é uma zaragata de faca e alguidar em que muita gente mata e morre, incluindo o Rei e as três filhas. Na última cena, alguns sobreviventes lambem as feridas e preparam-se para retomar a vida, acabrunhados. Na mise en scénede Bergman, o pano cai – e levanta-se num ápice com os personagens de espada em riste já prontos para outra, antes de cair de vez.

 

Será o que nos espera? Angela Merkel esmagou o Sul da Europa, não quis tocar no superavit alemão, despertou o fascismo latente do Leste da Europa ao prometer-lhes gente de todas as fés e cores e vai-se embora. Os ingleses perderam a tramontana. Varsóvia, Budapeste, Viena, até Roma, deixaram de procurar entrar pela porta estreita e animam o pior dentro de cada um de nós. Macron quer as coisas certas mas tem pouca companhia. E de um lado e do outro, sem fé nem lei, Trump e Putin fazem troça.

 

Uma broncalina do camandro ou, se a leitora preferir, uma Bernardette do caboz.

 

 

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Quarta-feira, 31 de Outubro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Adão e Eva - Peter Paul Rubens

 

José Cutileiro

 

 

O povo é quem mais ordena

 

 

A extrema riqueza e a extrema pobreza têm uma coisa em comum: ambas assustam à primeira vista, disse já não me lembro ao certo (a idade não perdoa) que escritor inglês - e era capaz de ter razão. Digo ‘era capaz’, porque não tenho experiência que chegue na matéria. Um ou outro marajá ou príncipe árabe em festas de Oxford, às vezes com atavios tradicionais e caprichos malcriados; uma manhã a pé por ruas de Karachi, com cuidado para não pisar cadáveres de gente acabada de morrer de fome.

 

A esmagadora maioria dos ricos e dos pobres que encontrei na vida estavam muito longe desses extremos, embora suficientemente perto para a gente saber que uns eram os pobres e outros eram os ricos e ser às vezes tentado a compará-los.  Passando do dinheiro à política, quem diga pobres e ricos poderá também dizer bases e cúpulas, povo e poder. E aí a minha experiência profissional quer como antropologista no Alto Alentejo  nos anos sessenta do século passado quer como diplomata na Bósnia Herzegovina no começo dos anos noventa do dito século, convenceu-me de coisas que não vêm e não são sugeridas nem no Sermão da Montanha de Nosso Senhor Jesus Cristo nem no Manifesto Comunista dos alemães anglicizados Karl Marx e Frederich Engels. (Parêntesis: se acrescentarmos Freud e Einstein a esse estojo de ferramentas intelectuais para entendimento do século XX, ficaremos com ramalhete que deixará de água na boca qualquer antissemita americano que se preze, já a engatilhar as muitas armas de fogo que o Estado os encoraja a ter em casa. Parêntesis fechado).

 

O que eu descobri nas minhas andanças alentejanas e balcânicas no já remoto século passado – ou descobri independentemente, ou julguei ter descoberto, ou, dirão alguns, tomei nuvem por Juno e elaborei enganado – foi que os pobres são piores do que os ricos (não só fisicamente, pois remédios custam caro, mas também moralmente) e que as bases são piores do que as cúpulas. Talvez isto não se note tanto porque os ricos dão mais nas vistas. O escândalo da tia do meu chorado Raúl Miguel, fechada num manicómio quando se apaixonou por amanuense pelintra, pela família que subornou psiquiatras e juizes, até deu uma peça de teatro de Ramada Curto. Dos muito velhos e velhas em famílias de trabalhadores rurais, mortos devagar de fome por só os deixarem comer à proporção das suas míseras reformas, ninguém falou. Quanto à política: hoje o Dr. Karadzic, chefe dos sérvios bósnios em 1992, preso na Haia, apela de sentença de quarenta anos de cadeia. Ele era a cúpula: e passava o tempo a tentar moderar as suas bases que queriam sempre matar e espoliar mais croatas e muçulmanos.

 

O que me leva ao Pecado Original e ao à vontade que Silicone Valley veio dar à maldade humana. Fartai vilanagem! Tempo haverá até serem criados novos estabilizadores de decência e bom senso. Entretanto, o Brasil está à beira do abismo. Mas, como dizia o meu amigo Vernon Walters: «Você olha pró abismo e o Brasil não cabe!».

 

 

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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