Quarta-feira, 31 de Outubro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Adão e Eva - Peter Paul Rubens

 

José Cutileiro

 

 

O povo é quem mais ordena

 

 

A extrema riqueza e a extrema pobreza têm uma coisa em comum: ambas assustam à primeira vista, disse já não me lembro ao certo (a idade não perdoa) que escritor inglês - e era capaz de ter razão. Digo ‘era capaz’, porque não tenho experiência que chegue na matéria. Um ou outro marajá ou príncipe árabe em festas de Oxford, às vezes com atavios tradicionais e caprichos malcriados; uma manhã a pé por ruas de Karachi, com cuidado para não pisar cadáveres de gente acabada de morrer de fome.

 

A esmagadora maioria dos ricos e dos pobres que encontrei na vida estavam muito longe desses extremos, embora suficientemente perto para a gente saber que uns eram os pobres e outros eram os ricos e ser às vezes tentado a compará-los.  Passando do dinheiro à política, quem diga pobres e ricos poderá também dizer bases e cúpulas, povo e poder. E aí a minha experiência profissional quer como antropologista no Alto Alentejo  nos anos sessenta do século passado quer como diplomata na Bósnia Herzegovina no começo dos anos noventa do dito século, convenceu-me de coisas que não vêm e não são sugeridas nem no Sermão da Montanha de Nosso Senhor Jesus Cristo nem no Manifesto Comunista dos alemães anglicizados Karl Marx e Frederich Engels. (Parêntesis: se acrescentarmos Freud e Einstein a esse estojo de ferramentas intelectuais para entendimento do século XX, ficaremos com ramalhete que deixará de água na boca qualquer antissemita americano que se preze, já a engatilhar as muitas armas de fogo que o Estado os encoraja a ter em casa. Parêntesis fechado).

 

O que eu descobri nas minhas andanças alentejanas e balcânicas no já remoto século passado – ou descobri independentemente, ou julguei ter descoberto, ou, dirão alguns, tomei nuvem por Juno e elaborei enganado – foi que os pobres são piores do que os ricos (não só fisicamente, pois remédios custam caro, mas também moralmente) e que as bases são piores do que as cúpulas. Talvez isto não se note tanto porque os ricos dão mais nas vistas. O escândalo da tia do meu chorado Raúl Miguel, fechada num manicómio quando se apaixonou por amanuense pelintra, pela família que subornou psiquiatras e juizes, até deu uma peça de teatro de Ramada Curto. Dos muito velhos e velhas em famílias de trabalhadores rurais, mortos devagar de fome por só os deixarem comer à proporção das suas míseras reformas, ninguém falou. Quanto à política: hoje o Dr. Karadzic, chefe dos sérvios bósnios em 1992, preso na Haia, apela de sentença de quarenta anos de cadeia. Ele era a cúpula: e passava o tempo a tentar moderar as suas bases que queriam sempre matar e espoliar mais croatas e muçulmanos.

 

O que me leva ao Pecado Original e ao à vontade que Silicone Valley veio dar à maldade humana. Fartai vilanagem! Tempo haverá até serem criados novos estabilizadores de decência e bom senso. Entretanto, o Brasil está à beira do abismo. Mas, como dizia o meu amigo Vernon Walters: «Você olha pró abismo e o Brasil não cabe!».

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Linha de montagem de automóveis em Tianjin

 

José Cutileiro

 

 

 

Aquecimento global

 

 

Há dilemas antigos. Por exemplo: dar-se a gente prazer agora ou resistir à tentação imediata para se poder oferecer prazer maior no futuro? Poupar ou esbanjar? E há a história do menino burro, único que gostava de óleo de fígado de bacalhau na classe porque a mãe lhe dava dez tostões por cada colherada bebida. E que fazia ele com o dinheiro? Quando havia tostões suficientes a mãe comprava outra garrafa de óleo de fígado de bacalhau.

 

Saúde e frugalidade. O amigo do Michael que desde os vinte anos só gastava metade do ordenado que ganhava por mês para poder pôr a outra metade a render: Quando o Michael me falou dele já tinha quase quarenta, começava a perder cabelo e estava ainda longe de ser rico mas persistia. Os herdeiros desapontados que verberavam o Senhor Pires por ter esbanjado a fortuna com amigas e outra más companhias mas nunca tinham tido nada a dizer da agiotagem implacável por ele praticada para fazer fortuna. Os que abrem contas em bancos em nome dos filhos assim que os filhos nascem e os que os fazem logo sócios do Sporting ou do Benfica. Filhos e, no nosso tempo, com certeza também filhas – o futuro já não é o que era escreveu há mais ou menos um século Paul Valéry. Videntes há poucos - e alguns são vigaristas – mas quase toda gente espera andar por cá ainda um bocadinho ou pelo menos ter quem por cá ande por ela ou por ele. Bisneto é gancho de alpinista cravado mais acima na parede de rocha da montanha.

 

Por tudo isto, o estado em que as coisas estão quanto a aquecimento global assusta-me. Não tenho credenciais de ecologista nem sou vegetariano ou veganista e falha-me o lado de moda deste género de coisas. Conheci no Alentejo menina, depois senhora, hoje senhora velha, sempre entusiasta e prosélita, de entrada na JIC (juventude independente católica) para fazer bem aos pobres a seguir no Partido Comunista Português – foram os anos gloriosos da reforma agrária - e, por fim, ecologista convicta, arauto de catástrofe se não mudarmos de rumo. Desta vez tem por ela gente mais abalizada que os poucos curas do país de missão alentejano e os muitos controleiros marxista-leninistas. E o facto da minha alentejana continuar prosélita pode tornar a sua posição barulhenta mas não lhe tira razão.

 

Sabemos que, se nada se fizer para que a temperatura suba menos, muitas partes da Terra serão inabitáveis e as habitáveis serão inóspitas no fim deste século. O inquilino ignorante da Casa Branca acha que aquecimento global é fake news chinês para tentar prejudicar a economia americana e não faz nada. Os seus homólogos europeus louvam-se nos pareceres da ciência mas nada fazem tampouco. Seria preciso fazer sacrifícios hoje para garantir futuro viável mas quem sacrificar agora já não estará depois cá para receber o prémio. Ninguém parece disposto a acautelar as vidas de netas e de netos.

 

Je ne connais pas l’âme des criminels mais je connais celle des gens honnêtes et quelle horreur, escreveu o bom François Mauriac.   

 

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Sexta-feira, 20 de Julho de 2018

Evora-Africa

Até 25 de Agosto de 2018 em Évora

O programa completo pode ser consultado em http://evorafrica.pt/

 

 Chéri Samba

Chéri Samba

© http://www.magnin-a.com

 

A exposição de arte contemporânea "African Passions", no Palácio Cadaval, com curadoria de André Magnin e Philippe Boutté - a primeira que realiza em Portugal - inclui obras de artistas plásticos e fotógrafos do Congo, Costa do Marfim, Moçambique, Mali, Senegal, Benim, África do Sul e Madagáscar.

 

O festival "Evora Africa", que se prolonga até 25 de Agosto, apresenta um diversificado programa de exposições, concertos, performances, conferências e DJ'S e reúne trinta artistas plásticos contemporâneos, músicos e performers africanos. 

 

 

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Omar Victor Diop, Série Diáspora

© http://www.magnin-a.com

 

Para além do Palácio Cadaval, o Templo Romano, o Cromeleque dos Almendres e a Biblioteca Pública de Évora serão palco de espetáculos da Orquestra Ballaké Sissoko, Costa Neto, Irmãos Makossa, Rita Só, Johnny Cooltrane, Mbye Ebrime, DJ Rycardo, Companhia Xindiro e os jovens dançarinos, Celeste Mariposa, Bambaram, Bassekou Kouyate, Selma Uamusse, Bubacar Djabaté, Áfrika Aki, The Zaouli de Manfla, Miroca Paris, DJ Ibaaku, Sara Tavares, Congo Stars de Vibration, Dj Lucky, Lady G Brown.

 

 

Malick Sidibé | Courtesy Galerie MAGNIN-A, Paris

 Malick Sidibé, Nuit de Noël (Happy Club), 1963

© http://www.magnin-a.com

 

 

 

Centro de Arte Quetzal, Vidigueira

 

No contexto do festival, o Centro de Arte Quetzal apresenta uma selecção de trabalhos dos artistas sul-africanos Marlene Dumas, Moshekwa Langa e William Kentridge, incluindo a série de curtas-metragens de animação (Dez desenhos para projecção 1989-2011), e um mural tipográfico da artista egípcia e libanesa Bahia Shebab, com o título Mil Vezes Não.

 

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William Kentridge Levitation 1996

 

 

 

Marlene Dumas

Marlene Dumas Cain+Abel (Twins) 1989

 

 

 

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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Davos, Suíça

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Ricos e pobres no mundo inteiro

 

 

 

Quando eu era antropologista praticante publiquei um livro em inglês, sisudo como o título sugeria: A Portuguese Rural Society. Estávamos em 1971 e eu pensara poder inventar nome menos aborrecido para lhe chamar mas quando já havia provas revistas, as fotografias do Mano João e do meu chorado Gérard tinham sido escolhidas, tudo pronto para a feitura física dos volumes da edição, eu não encontrara ainda nome que armasse ao pingarelho quantum satis. No meu gabinete, nos escritórios da Oxford University Press, na oficina da tipografia escolhida para a impressão, o nome continuava a ser o da tese de doutoramento na qual o livro se baseara.

 

A certa altura ocorrera-me chamar-lhe Before the Revolution (explicando no prefácio que, apesar do ambiente e das condições de vida daquelas aldeias tal poder sugerir a algumas cabeças jovens e entusiásticas da burguesia urbana, não iria haver revolução nenhuma) mas desisti por me parecer pretensioso (três anos depois teria ajudado às vendas, mas fosse lá alguém saber). Em última tentativa, passei um dia inteiro numa pequena biblioteca da Universidade com uma “Concordance” de Shakespeare, a ver se havia qualquer verso, dito, frase do Bardo que incluísse as palavras peasant ou peasants e me desse de bandeja o título de que eu precisava. Qual o quê: no tempo de Shakespeare, bem antes de ilusões sobre as virtudes e belezas dos camponeses terem animado almas românticas (e, mais tarde, de pungências sobre o seu sofrimento terem animado almas neo-realistas – No impressionismo, pinta-se o que se vê; no expressionismo pinta-se o que se sente; no neo-realismo pinta-se o que se ouve contou-me o Luís de Sousa que já não sei que professor ensinava por essa altura numa das universidades de Londres), não se escrevia nada de simpático sobre peasants, gente rude, sem maneiras nem conversa, mais própria para se roçar por bestas do que para convívios humanos. Vão tal esforço derradeiro, foi A Portuguese Rural Society que apareceu nas livrarias.

 

Depois da Revolução, que afinal sempre viera, podia por fim aparecer edição portuguesa que a Sá da Costa me propôs e a questão do título levantou-se de novo. Não me lembro se por sugestão minha, ou do João Sá da Costa ou da mulher dele, Ricos e Pobres no Alentejo foi escolhido e (salvo o Iá, Deus lhe tenha a alma em descanso, que com sentido moral exigente me disse, contristado, achar o título demagógico) toda a gente achou bem: o Alentejo tinha fama de grandes diferenças – lavrador abastado dissera um dia de trabalhador despedido que lhe queimara a seara: “Custou-lhe mais o fósforo do que a mim o trigo”.

 

Eram outros tempos e temos a mania das grandezas. Números divulgados este mês mostram que 82% da riqueza mundial gerada o ano passado couberam a 1% dos habitantes, enquanto os 50% mais pobres - 3,6 mil milhões de pessoas - não viram qualquer melhoria. As fortunas de 8 homens somam o mesmo que a totalidade dos bens desses 3,6 mil milhões.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Schubert

 Franz Schubert, aguarela de Wilhelm August Rieder, 1825.

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O quinteto em dó maior, D 956, de Schubert

 

 

 

O mano Jorge, que morreu com dez anos e tinha menos nove do que eu, era o único dos três filhos com jeito para música. O piano que fora da Mãe veio de Évora para nossa casa em Lisboa e a Professora Mariana que dera lições ao Babalhú, à Luzinha e à Nucha, filhos de João Cid dos Santos e de sua mulher Nazaré Vilhena, amigos lá de casa – o Pai era padrinho da Nucha – começou a dar lições ao Jorge quando ele tinha seis anos.

 

O Pai cantara em novo cantigas alentejanas (lembro-me da confusão que me fizera ouvi-lo nos Olhos da Marianita em casa do avô quando eu sabia estar ele em Lisboa: era um disco gravado quando era estudante e posto na telefonia naquela manhã pelo Radio Clube Português ou a Emissora Nacional) mas quer o João quer eu pouco ou nada herdámos dessa inclinação; o João, nada mesmo: se fosse inglês poderia dizer como Winston Churchill que só conhecia duas músicas – uma era o God Save the King e a outra não era; eu saíra um bocadinho menos duro de orelha, distinguindo alguns compositores de outros e sentindo preferências fortes por alguns deles.

 

Nunca saberemos o que o Jorge teria dado. Na geração seguinte, a inclinação reapareceu. O meu filho toca há muitos anos em dois grupos pop holandeses que têm conhecido algum sucesso em Groningen e outras cidades do Norte dos Países Baixos. E o meu sobrinho Tiago, que agora vive em Berlim, é compositor, inter alia, de uma ópera, de música orquestral e de música de câmara, tendo também sido professor de composição. Para entender melhor estes saltos de gerações é útil saber que não são à toa. Existe toda uma ciência destas coisas a partir das experiências de um monge agostinho de Brno, hoje na República Checa, chamado Mendel que, passou oito anos a cruzar ervilhas de cheiro e descobriu as leis segundo as quais, em cada espécie, os caracteres hereditários passam de geração em geração, fazendo comunicação científica em que explicou tudo isso, incluindo a existência de pares do que hoje chamamos genes, em 1865. Ficou esquecido meio século, depois inspirou investigações que ainda hoje continuam: é um gigante da biologia, ombreando com Darwin. Ver-se-á o que darão o meu neto e os netos (e o bisneto) do mano João.

 

Tudo isto porque na telefonia do carro ouvi hoje mais uma vez o quinteto em dó maior de Schubert D 956 quase todo, tocado não sei por quem. De há um século para cá ouve-se música que nos chega assim, por acaso ou de propósito, em discos e em maneiras mais modernas ainda de a reproduzir sem ter de haver músicos a tocá-la diante de nós ou nessa altura. Ouvi-o pela primeira vez em casa do Ruy Cinatti e, na minha ignorância musical, tocou-me muito e veio-me à cabeça linha de Eliot “ an infinitely gentle, infinitely suffering thing”. Volta sempre que o oiço (a última vez o ano passado, ao vivo). Quando estou em sala, dá-me para achar que não devia haver discos. Depois caio em mim: sem discos, teria ouvido muito pouca música, quase toda má.

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Agosto de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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José Cutileiro

 

 

 

Gemeinschaft e Globalização

 

 

 

O sabonete fugira-me das mãos (os portugueses nunca deixam cair coisas – estas “fogem-lhes das mãos”, dizia o Alexandre O’Neill), baixei-me para o apanhar e dei comigo estatelado de costas no duche do hotel (com a água fechada). Chamei em vão pela Myriam; a construção de hotéis leva a peito o isolamento acústico. Quando, hora e meia depois, ela acordou e telefonou a pedir ajuda, mulher nova comandando homem também novo, empregados do hotel simpáticos e sorridentes, puseram-me de pé num instante com eficácia profissional.

 

Uma hora depois, telefonei a pedir informação sobre o horário do pequeno almoço. A recepcionista deu-ma e perguntou-me a seguir se o Senhor Embaixador estava melhor. Numa lufada de amor da Pátria chegou-me cena passada há quase 83 anos em Évora. Na noite em que eu nasci, em casa dos meus avós maternos, o Pai fez chamada para amigo em Lisboa a dar a notícia. Os telefonemas interurbanos nessa altura pediam-se a uma central (a que chamavam Troncas). Pouco depois de acabada a conversa o telefone tocou; era a menina de Troncas que fizera a chamada, para dar os parabéns ao Senhor Doutor.

 

Aconchegos difíceis de imaginar em lugares protestantes e puritanos, onde pecariam por inconfidências inadmissíveis. Presumo que seja a regularidades assim que alguns antropólogos chamam “vigências”, certezas que não mudam através do tempo apesar do resto mudar tanto à nossa volta.

 

Mas antes, de papo para o ar no chão entre as 6 e as 7 e meia da manhã, tinha-me lembrado de outra coisa. Há poucos anos, prémio Nobel (1974) da medicina belga com 95 anos, viúvo, que fazia ainda 40 piscinas de 20 metros por dia, sentiu-se mal em casa, caiu e, até a mulher-a-dias chegar 14 horas depois, não foi capaz de se levantar. Ficou furioso, indignou-se com limitações postas na Bélgica à eutanásia que lá é legal mas tem de ser autorizada e tanto barafustou (e tão grande era o seu prestígio) que depressa lhe deram licença e pôde ir-se embora em paz, cercado por família que muito lhe queria. Acreditava – como eu acredito – que, depois de morto, nada dele sobreviveria.

 

Entretanto vou tendo notícia de outras coisas: numa aldeia do Paquistão, conselho dos anciãos decidiu que menina de 17 anos, cujo irmão tinha violado outra menina de 17 anos, fosse ela própria violada, não dizendo a notícia por quem. Em Canton, Mississippi, numa fábrica da Nissan, 3.500 operários, homens e mulheres, quase todos negros, votaram quinta e sexta-feira passada e rejeitaram, por maioria de 60%, a sindicalização. O sindicato em questão – United Automobile Workers - acusou Nissan de ameaçar e intimidar os operários; alguns destes evocaram caso de corrupção de chefe sindicalista. O Sul dos Estados Unidos continua ainda menos sindicalizado do que o resto do país.

 

O mundo é vário – e áspero demais em muitos lugares. Continuo a preferir a decência europeia que inclui hoje muitas vezes a liberdade de casar com quem se queira e o direito de morrer em paz.

 

 

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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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José Cutileiro

 

 

Democracias

 

 

 

No ano passado, a democracia mais antiga e mais prestigiada do mundo (o Reino Unido de Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) e a democracia mais rica e poderosa do mundo (os Estados Unidos da América), utilizando os seus respeitados mecanismos constitucionais, deram a si próprias duas bordoadas de cujos maus efeitos não recuperarão tão cedo.

 

A bordoada britânica foi resultado de referendo a perguntar aos cidadãos (melhor dito, aos súbditos de Sua Majestade Britânica) se queriam sair da União Europeia ou permanecer nela – uma maioria disse que queria sair. A bordoada americana foi eleger Donald Trump Presidente dos Estados Unidos. No primeiro caso a procissão nem sequer vai no adro: só há poucos dias se encetaram conversas formais em Bruxelas mas, antes das negociações começarem, já se tinha percebido que o Reino Unido ia perder muito com o negócio, a todos os níveis. Durante a campanha que precedeu o referendo os partidários da saída mentiram escandalosamente sobre o dinheiro que os britânicos poupariam se saíssem, sem que os partidários na permanência na União tivessem denunciado essa mentira com vigor comparável; além disso a população da Inglaterra e da Irlanda do Norte, é uma das mais ignorantes e menos educadas dos 35 países da OCDE. Por exemplo, em lugares dependentes para sua sobrevivência da exportação de automóveis para o resto da União Europeia, a percentagem de votantes que quiseram deixá-la foi das mais altas do país. 44% das exportações britânicas e mais de metade das importações são com o resto da União Europeia; saindo do Mercado Único tudo isso lhes ficará muito mais caro mas, para nele ficarem mesmo saindo da União, teriam de admitir imigrantes de lá vindos e isso, até agora, é impensável. Digo até agora porque a indústria em geral começou a dar-se conta de que, sem estrangeiros, a economia levará grande e duradouro rombo. Para não falar da City. Os serviços de finança e negócios de Londres perfazem um terço do PIB britânico porque têm clientes pela Europa toda – que os vão deixar se saírem da União. A Confederação da Industria Britânica estima que em 2020 o PIB britânico será de 3,5% a 5% menor do que se o Reino tivesse continuado na União. Haverá 2° referendo? Exit tão soft que não se dê por ele? Ou insistirão no masoquismo da ruína voluntária?

 

Nos Estados Unidos as coisas vão de mal a pior porque Trump não dá para Presidente – a maioria dos eleitores já o sabia – e, em vez do hábito fazer o monge, neste caso o monge está a esfarrapar o hábito. A personalidade de Trump - o seu narcisismo, a sua mesquinhez, a sua maldade, a sua ignorância – está a abandalhar a Presidência. Sendo a Constituição como é não se vê saída fácil – mas quanto mais demorar, pior será para a América e para o mundo.

 

Acha a leitora que irá tudo ao sítio? Escrevo em Montemor-o-Novo onde, a passar na cidade antiga, li este nome: Rua da Paz, e, por baixo, antiga rua da Mancebia. Enquanto há vida há esperança.

 

 

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Quarta-feira, 22 de Março de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Philips 1964

 gravador Philips, 1964

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

As coisas são o que são. 

 O que é ser? O que são coisas?

 

Quando perguntei ao Tio Zé Peidinho, pastor reformado (de gado, não de almas) como é que achava que o mundo tinha começado, analfabeto com melhor cabeça que muitos doutores que eu conheci – nesse tempo, doutores eram pelo menos licenciados em matérias estudadas em universidades e não técnicos enfeitados com o título no afã de serem promovidos a portugueses de primeira pelo tratamento que lhes passava a dar o comércio - respondeu: “Há de ter começado como tudo: de pequenino”.

 

O Tio Zé Peidinho tinha 82 anos, era muita idade nesse tempo, eu 32, e estávamos à conversa numa manhã de sol, só com barulhos de campo e de sinos da igreja da Vila às horas, meias e quartos de hora, porque escribas, acocorados ou não, precisam de saber às quantas o mundo anda. Pontualidade mais rigorosa só chegou com máquinas que exigiam disciplina no trabalho, começando no Noroeste da Europa com o que se chamou a revolução industrial. No lugar onde o Tio Zé Peidinho e eu estávamos tal revolução nunca tinha realmente chegado mas produtos e subprodutos seus tinham já feito mudar muita coisa: antes da fábrica de cartão construída na margem do Guadiana, antecipada com desconfiança (“Como se eu acreditasse que aquela merda serve para fazer papel” rosnou o secretário do tribunal da sua cadeira de lona na esplanada do Café Central à passagem lenta de um reboque carregado de maquinaria) mas que, pela primeira vez na história local, deu trabalho a operários entra o ano, sai o ano (até albufeira da barragem de Alqueva a ter deliberadamente submergido) encontravam-se na freguesia sinais claros de dependência do mundo exterior. Em casinhoto no sopé da colina havia há décadas uma bomba fabricada - e assinada - em Inglaterra para levar água do rio à cisterna intramuros lá em cima.

 

Registei a nossa conversa no gravador Philips e perguntei-lhe se queria ouvir. Ouviu atento e depois disse: “Olha que mánicazinha tã esperta!” Concordei, os dois embevecidos com aquela maravilha do progresso. Pouco tempo depois, em St.Antony’s College, Oxford, eu e um economista de turbante chamado Montek Sing que de lá foi para o Banco Mundial, ficávamos fascinados com grande fotocopiadora xerox na administração do colégio que além de nos fazer ouvir espécie de deglutição mecânica própria de tais engenhos, chispava luzes verdes. Talvez Montek e eu, o Punjab e o Alentejo, estivéssemos menos longe do campo original da espécie do que ingleses, americanos, alemães, judeus e outros que também viviam no Colégio e não me lembro de encontrar na contemplação da copiadora.

 

Remanso que acabou. Exponenciações da lei de Moore aceleram inexoravelmente o mundo digital. Física quântica tem aplicações práticas inesperadas e surpreendentes. O resto da natureza sofre ainda mais do que nós. Políticos desorientados querem diminuir trocas comerciais e produzir mais armamentos. Estamos a ficar analfabetos e não somos tão espertos como o Tio Zé Peidinho.

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Sábado, 23 de Abril de 2016

dicionário pessoal: bofetada

 

 

 

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bofetada

bo.fe.ta.da

Nome feminino

(de bofete + ada)

 

A definição geral é a de um golpe facial assente, ou plantado, com a palma da mão. Também as há dadas com a parte de trás da mão, tomando nesse caso, popularmente, o nome de mosquete ou mesmo de safanão. Porém, quando se dão ou se prometem bofetadas, que não sejam «sem mão» ou «de luva branca», formas mais sofisticadas e exemplares, há que ter em conta a imensa variedade de matizes e subtilezas que este gesto envolve, conforme quem o desfere, a sua origem social, o nível cultural, a idade, a região do país, o contexto desencadeador e o estilo pessoal; e, claro, o grau de violência com que é desferido ou, até, a zona atingida, como no caso da orelhada, de boa tradição alentejana, o sopapo ou o trompázio.
Deste ponto de vista, bofetada é até o termo mais suave, mais cândido, mais «totó» ou «nini» se quisermos, juntamente com a palmada ligeira que é o bofete ou a tapa, termos mais açucarados e outro-atlânticos. Muito abaixo portanto do clássico tabefe (de origem árabe), breve e enérgico, com a mesma secura eloquente do estalo e da estalada. Talvez por isso todos estes se apliquem indiferentemente a crianças e adultos, homens e mulheres, cidadãos e cidadãs, homo ou hétero, bi ou poli, e até mesmo a transgéneros.
A bofetada popular tem uma variedade de expressões. Umas de carácter impiedoso, que revelam a intenção e a força usada (ou a usar) como chapada, lambada, lampana ou latada; outras são eufemismos estilosos, maneirismos, e revelam mais sobre quem as pronuncia do que outra coisa: pastilha, galheta, bilhete, bolacha ou bolachada, estampilha e sorvete. De resto, a variação de intensidade ganha particular nitidez no mundo, ou melhor, no mar de diferenças que existe entre a sardinha e a solha, passando pela sarda.
Lugar à parte, pela sua riqueza expressiva, mas também pelo seu desuso corrente, tem a palavra sinapismo como sinónimo de bofetada: impregnada dos ardores da mostarda, ela é, entre todas, a única que remete para remédio ou tratamento.

 

 

 

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Quarta-feira, 6 de Abril de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

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Monumento aos soldados portugueses mortos na 1ª Guerra Mundial

António Teixeira Lopes (1928)

La Couture, França

 

 

 

 

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O primeiro pecado é ser pobre

 

 

 

Assim escreveu Bernard Shaw, irlandês saído da minoria protestante da ilha, no começo do século passado acrescentando que quando alguém diz “sou inculto mas é porque sou pobre” está a desculpar um mal com outro pior. É como se estivesse a dizer sou coxo mas é da sífilis. Escreveu também que o dinheiro não dava felicidade mas dava uma coisa tão parecida que só um perito era capaz de as distinguir. Amiga minha a quem anos de vida nos Estados Unidos instilaram bom senso revivificante nas sinóvias morais instaladas em menina e moça pelas Doroteias gosta de lembrar às vezes com algum schadenfreude que “mais vale ser rica e saudável do que ser pobre e doente”. Conheci no Alentejo profundo Senhora chamada Antónia, mulher de taberneiro-seareiro com pendor filosófico, tão enérgica, metódica, esperta e diligente na lida do seu negócio, trazendo a taberna num brinco enquanto o marido preguiçava, que eu achava que ela, tal como Wolfgang (Amadeus Mozart), Pablo (Ruiz Picasso) e William (Shakespeare) não deixava “criar gordura ao músculo do dia”.

 

Fora Portugal assim… Mas não é. Se o meu entusiasmo lírico era evidente, já o Senhor Teófilo, compadre dela e secretário da Junta de Freguesia, se queixava: “É boa rapariga, a Antónia – é pena ter aquela coisa do lucro.” Aquela coisa do lucro… O lucro ser coisa má é convicção que parece permear o país de alto abaixo e de lado a lado, desde a direita das sacristias tradicionais (as Misericórdias, por exemplo, limitavam rigorosamente o juro – baixo - a que emprestavam dinheiro) até à esquerda dos sindicatos modernos (“La propriété c’est le vol” foi Proudhon quem o disse primeiro mas não era por isso que Marx o detestava). “Hoje fiz manhã de rico!”, expressão que ouvi também no Alentejo a jovem funcionário do Grémio da Lavoura com quem encalhei no café central da terra, sentado diante de um café com leite e de uma torrada às onze da manhã, deixaria qualquer milionário americano, por um lado, indignado por se pensar que as manhãs dele eram assim e, por outro, relutante diante de sugestões de investimento num lugar onde se julgava que os ricos assim eram – talvez por ser o caso dos indígenas ricos. A América dos negócios ficara inquieta quando descobrira que Ronald Reagan descia ao seu escritório na Casa Branca às 9 da manhã, em vez de ser às 7 como qualquer protestante anglo-saxónico branco que se prezasse.

 

Algures entre a apresentação de Os Lusíadas a D. Sebastião e as três invasões francesas perdeu-se o fio à meada. O pai dizia que não somos descendentes dos que foram à Índia: somos descendentes dos que cá ficaram. Em tudo. Quarta-feira passada lembrei-me de Fernão Mendes Pinto, dizimando chineses a poder de Avé-Marias e pelouros; hoje lembro-me de um tenente-coronel reformado adorável, muito de casa do meu primeiro sogro, que na batalha de La Lys comandara uma bateria de morteiros. Contou-me que sempre que mandava um para o outro lado rezava para não matar ninguém.

 

 

 

 

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