Quarta-feira, 20 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Zona de treino militar em Grafenwoehr, Alemanha. 

Christof Stache/AFP via Getty Images 

 

 

José Cutileiro

 

 

A ver se o homem entende

 

 

 

Pedro Pires de Miranda, o ministro dos negócios estrangeiros português mais inteligente com quem trabalhei (ou, pelo menos, aquele com quem aprendi mais - um dia, era eu director político do MNE, informei-o: ‘Senhor Ministro, eu com três pessoas não consigo tratar disso’; ‘Já experimentou com duas?’ veio a resposta), percebeu o que escapara aos outros e a ele dava gosto: ‘A política externa é óptima. Só se têm inimigos!’

 

Não só os portugueses são afectados por essa cegueira idílica. Os europeus – primeiro 6; depois 9; depois 10; depois 12; depois 15; depois 24 (aí o caldo começou a entornar-se); hoje 28 e amanhã 27 – estiveram esquecidos disso desde a invenção das Comunidades Europeias até à eleição de Donald Trump e mesmo, depois desse feito americano (Hillary Clinton ganhou por três milhões o voto popular) julgaram que o exercício do poder iria tornar o homem muito parecido com os seus predecessores. Grande e breve engano - mais duro ainda, a seguir a 8 anos de Barack Obama, o menino querido da maioria dos eleitores europeus dessa época.

 

Donald Trump é deliberadamente ordinário e malcriado; é um mentiroso sistemático e o que se sabe de muitos dos seus sentimentos, gostos e vontades deveria exclui-lo do convívio de gente decente, tê-lo impedido de ser escolhido para inquilino da Casa Branca. Dito isto, é o Presidente dos Estados Unidos da América e tem razões de queixa legítimas dos europeus no que diz respeito a despesas de defesa. Terá outras ainda no comércio internacional, mas a sua maneira de tentar corrigir desequilíbrios contra si com a imposição de tarifas irá desencadear guerras comerciais e ajudar a destruir a ordem internacional baseada em regras aceites por todos em que o mundo vive pacificamente há mais de meio século e de que o principal beneficiário são os Estados Unidos.

 

Na defesa é diferente. O Tratado do Atlântico Norte de 1949 – que levou a organização a que chamamos OTAN ou, à inglesa, NATO – de que Portugal foi membro fundador mesmo sem ser uma democracia tinha em vista defenderem-nos do perigo soviético. O arsenal nuclear americano (existem também o britânico e o francês mas, como Mitterrand disse uma vez a propósito do segundo: ‘Soyons sérieux, messieurs…’) e as forças convencionais americanas eram de longe as maiores da Aliança mas, se houvesse invasão soviética, esta seria dos países europeus. Depois da Guerra Fria, sem risco dessa invasão, a NATO continua essencial para nossa defesa mas acordou-se em partilhar o fardo de outra maneira. Cada Aliado gastaria pelo menos 2% do seu PIB em defesa. Apesar de décadas  de insistência de Washington, só o Reino Unido o faz.

 

Assim, quando Trump tweeta que a Alemanha deixou entrar tantos emigrantes que o crime aumentou (o que é mentira) a Alemanha deveria chamar o embaixador em Washington para consultas. Mas deveria também ser capaz de informar o embaixador americano em Berlim de que a despesa alemã de defesa subira acima de 2% do PIB.  

 

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Quarta-feira, 2 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Quentin Metsys - O Cambista e a sua mulher (1519)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Deutschland, Deutschland über alles

 

 

 

Quem é o maior inimigo da União Europeia? O Reino Unido, de saída no comboio fantasma do Brexit? Itália, onde maioria dos eleitores votaram este ano em partidos que não a querem? Polónia, a submeter o poder judicial ao poder executivo? A Hungria autoritária e xenófoba de Vitor Orban?

 

Ou estará o inimigo fora de portas? Os Estados Unidos de Donald Trump com o seu ataque sistemático ao ambiente e a sua guerra comercial contra mundo? A cleptocracia de Vladimir Putin, incapaz de diversificar economia de gás e petróleo, com 110 pessoas donas de 35% da riqueza russa, a mão de ferro do Kremlin a dominar jornais, telefonias e televisões, controlando a opinião interna, e ordena piratagem informática (e um assassinato ou outro), para tentar destabilizar potências estrangeiras, grandes ou pequenas? Ou será a China, planeando a longo prazo (que já não é o que era: Keynes escreveu que a longo prazo já teremos morrido todos mas agora, a longo prazo, ainda alguns de nós por cá andarão)?

 

Ou, para espíritos seduzidos pela teoria conspirativa da história, todos estes, mancomunados uns com os outros?

 

Nada disso, leitora. O maior inimigo da União Europeia é afinal a Alemanha, que é também o mais populoso e o mais rico dos seus Estados Membros bem como, até há poucos anos, o era a Alemanha Federal – antes da reunificação havia duas Alemanhas - o único a encontrar na Europa um Ersatz de Pátria . Em 1996, em Bruxelas, coronel alemão que trabalhava comigo na UEO e fora no dia 9 de Maio a espectáculo na Grand Place para celebrar o Dia da Europa, contou-me, indignado, que só ele, a mulher e os filhos se tinham levantado quando fora tocado o Hino da Europa (4º andamento da nona sinfonia de Beethoven, sobre a Ode á Alegria de Schiller).

 

Em 1945, os europeus beligerantes estavam de rastos e a Alemanha, além disso, com quatro patas em cima (USA, URSS, Reino Unido e França) para só se levantar devagar e desarmada. Mas em 1957 já assinou o Tratado de Roma (a Itália também); laboriosa e disciplinada fora pagando a sua conta, pagamento muito facilitado porque se precisava dela forte, perante a União Soviética. Com os anos foi recuperando muitas das características de uma grande potência (e uma rara nestas: era o único dos “grandes” a esforçar-se por tratar bem os “pequenos”). Antes de se dissolver, a União Soviética consentiu na sua reunificação. Aí as coisas mudaram.

 

A “construção europeia” fora inventada na esperança de se poder viver em paz com a Alemanha depois das duas tragédias da primeira metade do século XX. Funcionou enquanto a Alemanha era devedora e estava dividida. Cofre pagador e reunificada, opõe-se a qualquer forma de mutualização da dívida. Acredita que o Norte protestante da Europa é bom e o Sul católico e ortodoxo é mau. Dívidas são pecados. Conservadores, liberais, verdes e democratas sociais acham “que a Europa está como está porque não se foi suficientemente duro com os países do Sul”. Nada bom à vista.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 4 de Outubro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

AfD

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Tempo circular

 

 

 

O tio Clarimundo proibira-me de fazer mais de duas citações ao almoço e três ao jantar. Adolescente, eu passava uma semana em casa dele porque o Pai visitava outra vez a clínica do Lopez Ibor em Madrid e a Mãe fora com ele. Cingi-me à disciplina avuncular mas a emenda não pegou. Adiante.

 

As I write highly civilized human beings fly over my head trying to kill me”, George Orwell, em Londres, durante o Blitz. “Je suis la guerre civile. Quand je tue, je sais que je tue”, Henri de Montherland, começo da sua peça “La Guerre Civile”. A guerra atómica começara nesse dia, o soldado teve de partir sem se despedir da mãe mas promete ir visitá-la assim que a guerra acabar … “three quarters of an hour from now!”, Tom Lehrer, matemático do MIT, cantor de protesto e de humor na década de 60, com muito sucesso na costa e na contracosta dos Estados Unidos (mas menos ou mesmo nenhum no interior entre as duas, que sem ninguém dar por isso já germinava por lá essa coisa politicamente teratológica – ou talvez seja a nova normalidade e o aleijado seja eu – a que se chama Trumpismo).

 

Vieram-me os três juntos à cabeça agora porque, depois de alguns entre nós, embalados por tanto aumento de riqueza e tanta aparência de virtude desde a autodestruição da União Soviética (que Vladimir Putin considera a maior catástrofe geopolítica do século XX - once a KGB officer, always a KGB officer) se meterem a imaginar, com pormenor adaptado aos nossos dias, a paz perfeita proposta pelo filósofo Immanuel Kant e parecerem convencidos de que tudo ia realmente pelo melhor no melhor dos mundos possíveis (conheço um ou dois, mais espertos a meterem equações à economia do que a leitora ou que este seu criado, mas para entendimento do mundo à sua e nossa volta, valha-nos Deus...) até começaram a brotar por toda a parte flores venenosas apostadas em darem cabo de jardim tão carinhosamente plantado.

 

Empreendimento criminoso hereditário, vulgo Coreia do Norte , talvez compreensivelmente preocupado com o que aconteceu a Muammar Khadafi que negociara com o Ocidente o desmantelamento das suas ambições nucleares, resolveu lembrar-nos a todos que tem bombas e que as poderá usar. O choque cultural cria estranheza; talvez o homem não assuste os seus mas assusta todo o resto (tirando as Bolsas que, com a acuidade geopolítica dos homens de negócios, parecem nem dar por ele). Com sorte não há de ser nada - mas aumenta o perigo por o Presidente dos Estados Unidos actual ser tão escandalosamente inepto. Entretanto a Catalunha, devido a manha perversa de alguns políticos locais e a estupidez granítica de Madrid, poderá dar à Espanha e à Europa déja vus impensáveis há um mês, desarrumadores de outras cabeças e potencialmente sangrentos. Por fim, em Berlim o pior sistema de governo tirando todos os outros levou ao Budenstag noventa e seis deputados nostálgicos de Hitler e das glórias passadas do Volk.

 

Como ao jantar em casa do tio Clarimundo, fico-me por três citações.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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José Cutileiro

 

 

Uma Europa alemã?

 

 

 

Os Deuses estão outra vez zangados connosco, pensariam Reis e Pontífices olhando à volta e talvez mandassem sacrificar vacas ou virgens se os tempos fossem para tais estratagemas. Mas não são: já não é por aí que o gato vai às filhoses. Na Europa, o Vaticano resistiu enquanto pôde mas Angelo Roncalli, mais conhecido por João XXIII, a cuja memória Pasolini dedicou o filme O Evangelho segundo S. Mateus, convocou o Concílio Vaticano II e começou uma grande mudança, tão grande que sobreviveu aos rigores do Papa polaco e ganha ânimo novo com as larguezas do papa Francisco. O meu chorado Nuno Bragança, católico progressista como se dizia na altura mas entusiasta lúcido desse progresso, achava que se João XXIII houvesse vivido mais dez anos “tinha dado cabo de tudo”.

 

Mas o Vaticano não é membro da União Europeia e é por causa do estado desta que tanta gente hoje dorme mal. Ataques a “união cada vez mais chegada” dos europeus, prometida fará sessenta anos no mês que vem no preâmbulo de tratado assinado em Roma, têm sido bem-sucedidos e outros estão na calha. Primeiro, o chamado Brexit, em que aldrabões sem vergonha convenceram populações inglesas ignorantes e (pela primeira vez há um século) mais pobres do que os pais tinham sido, de que seriam mais ricas e poderosas fora da União Europeia do que dentro dela. Mentira patética mas, com determinação de manada de bisontes trotando para se afogar no mar, políticos e burocratas meteram mãos à obra e não se vê marcha atrás. Segundo, o chamado Presidente Trump, maluco com mau fundo, que baixou para abismos inéditos os níveis - moral e intelectual - exigidos pela função sem que tal pareça ofender a sua base eleitoral, considera a Alemanha perigo maior do que a Rússia, e está constitucionalmente ao abrigo de junta médico-psiquiátrica. Terceiro, no futuro próximo, eleição provável de populistas na Europa. Em Março o partido de Geert Wilders deverá vir à cabeça na Holanda. Como a hipocrisia holandesa – que deveria ser património cultural distinguido pela UNESCO – não o deixará governar, coligação de outros se encarregará de ir aplicando o seu programa à socapa. A seguir em França Marine Le Pen poderá ser Presidente e, querendo proteger a produção nacional e sair do Euro, fará o descabello do touro europeu, malferido pela estocada do Brexit.

 

A esperança está na Alemanha onde há eleições em Setembro. A insistência desta na manutenção indevida de enorme superavit e a sua cegueira luterana diante das dívidas que a austeridade, em lugar de aliviar, vai aumentando não deveriam animar ninguém a vê-la como base de sustentação do que restar da Europa. Mas quer Merkel quer Schulz são europeístas convictos e Senhora que ousou abrir os braços a todos os desgraçados do Médio Oriente saberá explicar aos seus que poderão deixar reestruturar a dívida grega sem sequer darem por isso.

 

Ao princípio a ideia fora europeizar a Alemanha. À vista está a germanização do que resta da Europa. É a vida.

 

 

 

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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

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Deutschland über alles?

 

 

 

 

Ou não? Na eleição de António Guterres para Secretário-Geral das Nações Unidas houve episódio esquisito. Depois de 5 votos a feijões todos ganhos por Guterres e antes do sexto, o governo da Bulgária retirou a sua candidata, Directora Geral da UNESCO, senhora socialista que tinha o apoio da Rússia e, por instigação de Angela Merkel, nomeou outra, Comissária Europeia, de direita. Guterres ganhou também a sexta votação e veio a ser escolhido por aclamação pelo Conselho de Segurança; a recém-vinda búlgara de direita teve ainda menos votos do que a búlgara de esquerda (que se mantivera em liça, indigitada por outro país). O curioso da história é Merkel ter decidido meter-se ao barulho quando a vitória de Guterres estava assegurada. Houve escolhas para Secretário-Geral da ONU renhidas, num caso pelo menos exigindo coelho tirado à última hora da cartola para fugir a impasse de vetos cruzados. Mas este ano não. Ou Merkel foi mal informada pelos seus de como as coisas se estavam a passar ou julgou que apesar de tudo a sua vontade prevaleceria (mais provavelmente, mistura de ambas as coisas). Não prevaleceu. Será o proverbial canário da mina?

 

Oxalá. Quem trate há muito tempo de coisas europeias - nos milhares de reuniões, entra o ano sai o ano, em que diplomatas, burocratas, políticos e técnicos de (hoje) 28 países concertam posições sobre toda a espécie de assuntos – conheceu três fases distintas quanto à participação da Alemanha. Na primeira, durante aí um quarto de século a seguir ao Tratado de Roma de 1957 - criador do processo formal que levaria à União Europeia - a Alemanha derrotada, saindo aos poucos da ruína, envergonhada, não mostrava preferências próprias nem levantava a voz, cultivava europeísmo em vez de patriotismo, e era seguidora disciplinada de quaisquer consensos. Na segunda, começada no fim dos anos 80, a Alemanha, primeiro com a capital ainda em Bona e depois, de novo inteira, em Berlim, começou a dar sinais cada vez mais fortes e frequentes de hegemonia e de gosto por a exercer. (O anúncio, em Dezembro de 1991,de que ia reconhecer a independência da Croácia sem esperar por acordo a Doze foi marco importante de autonomia política reconquistada). A terceira começou em 2010 com a crise financeira e a austeridade, declarada política obrigatória no Sul da Europa para quem quisesse receber ajuda de “Bruxelas” (que compensou primeiro perdas de bancos alemães e franceses), e foi anunciada em termos moralistas ofensivos pela formiga germânica às cigarras meridionais. Grande responsável pelo marasmo económico europeu tem sido acompanhada, também noutros campos, por arrogância crescente de quase todo o pessoal alemão que participa nos milhares de reuniões europeias.

 

O descontentamento de outros europeus perante esta situação absurda cresce; talvez leve Berlim a mudar de rumo. É urgente que o faça antes de tanta cegueira acabar de vez com reabilitação alemã que parecia há 10 anos ter vindo para ficar.

 

 

 

NB Há gente a mais agora a dar palpites sobre política internacional. E aconselhar a Alemanha, de dedo em riste, a partir de um pequeno blog lisboeta parece néscio. Mas será? Em 1914 quando se soube no Cartaxo que a Alemanha invadira a Bélgica, o director do jornal da vila saltou de cadeira de barbeiro meio escanhoado e saiu a correr, anunciando que ia escrever artigo a escavacar o Kaiser. E o facto, como lembrou o advogado e dramaturgo Amilcar Ramada Curto que contou depois a história, é que o Kaiser perdeu a guerra.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Angela Merkel

 

 

 

 

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A questão alemã

 

 

 

 

 

No Domingo passado - a leitora terá dado por isso - partido da extrema-direita alemã passou à frente da CDU, vindo com 21% dos votos em segundo lugar, a seguir aos 30% dos Sociais Democratas vencedores e relegando para terceiro lugar, com 19%, o partido da Senhora Merkel, em eleições regionais no mais pequeno dos Länder, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, entalado entre o resto da Alemanha a Polónia e o Mar Báltico, que não conta mais do que 2% do eleitorado do país, fazia parte da República Democrática Alemã antes de reunificação e é o Land onde a Chanceler vota e é eleita. Esta coincidência, a seguir a três desempenhos notáveis em eleições regionais na Primavera da Alternativa para a Alemanha (24,3% em Saxe-Anhalt; 15,1% em Bade-Wurtemberg; 12,6% em Renânia-Palatinado) levou Frauke Petry, porta-voz do partido, a cantar “vitória” e a declarar que “os cidadãos perderam a confiança nos velhos partidos” (que, para ela, são todos menos a Alternativa).

 

Até às reacções hostis de muitos alemães à generosidade voluntarista e unilateral de Angela Merkel no acolhimento de imigrantes do próximo Oriente, sobretudo de imigrantes fugidos do horror sírio, a Alemanha fora, desde as grandes crises começadas em 2010 - a crise das dívidas soberanas e, mais tarde, a crise da imigração – ou, melhor ainda, desde o fim da segunda guerra mundial em 1945, o país europeu menos provável para berço de novo regime fascista, depois do surto triunfalista dos antigos na década de 30 e do seu esmagamento implacável na de 40, do século passado. Mais do que isso. Entre a derrota de 1945 e a reunificação de 1991 a Alemanha Ocidental, primeiro de rastos e depois, a pouco e pouco, levantando-se do chão por determinação tenaz (com ajudas de fora: estar proibida de se meter em grandes despesas militares; ver perdoado o grosso das dívidas de guerra incorridas na paz de Versailles de 1919 e a seguir à rendição incondicional de 1945 porque Washington, Londres e Paris precisavam dela forte contra a Rússia Soviética) tornara-se, de longe, a grande potência que melhor tratava potências médias e pequenas.

 

E era também a nação europeia que levava mais a sério a Europa (primeiro as Comunidades Europeias e, mesmo depois da reunificação lhe devolver Pátria própria, a União Europeia).

 

Helmut Kohl avisava: “Quem vier a seguir a nós [governar a Alemanha] não se lembrará da guerra”. Felizmente apareceu Merkel, que se lembrava da Alemanha de Leste. Mas a sua austeridade pôs a economia europeia na cauda do crescimento económico do mundo (e mostrou urbi et orbi que a dívida afinal ainda não estava paga).

 

A Alternativa assusta mas é cereja para bolo que não foi cozido. Julgo que o enxerto democrático continue a vingar no tronco teutónico. Que quanto a imigração a Alemanha ajude a civilizar os países do Leste europeu em vez de ceder à barbaridade destes. Que os alemães se convençam de que meio século sem lhes darem ouvidos não lhes dá direito a não ouvirem os outros.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Fim de festa

 

 

 

 

Saiu o ano, entrou o ano. No topo do Estado dois chatos tristonhos deram lugar a dois faroleiros alegres e parece que o povo gosta assim. Ao menos anda a gente distraída, Senhor Doutor. Não ficámos menos pobres mas passámos a viver com mais gosto, dizem-me médicos de Lisboa e mestres d’obras de província. E nesta aventura inédita a que chamamos Europa – já lá vai mais de meio século sem andarmos à estalada uns aos outros (e sem batermos em pretos) – há muitos que nos invejam por esse mundo fora, apesar do mal que gostamos de dizer de nós próprios. Mas será preciso acordarmos e ganharmos juízo porque a papa doce está a acabar.

 

Não acabaria nunca enquanto a União Soviética existisse e a Alemanha estivesse dividida. (Gosto tanto da Alemanha que prefiro que haja duas – lembrava o General De Gaulle). O medo que o Camarada Estaline e os seus herdeiros nos metiam nos ossos tinha efeito salutar nas nossas decisões de europeus do Ocidente: dava força e razão ao que nos unia, punha de lado o que nos afastava e a construção europeia não parava. Se idade e doença não tivessem levado tão depressa desta para melhor os dois predecessores imediatos de Gorbachev, a perestroika e o colapso da União Soviética só teriam chegado dez anos depois, com a União Europeia já pronta para entrega aos europeus, chave na mão, pelo empreiteiro Delors ao serviço do casal franco-alemão (gravado para todo o sempre na sabedoria das nações por Mitterrand e Kohl de mão dada em Verdun).

 

A reunificação alemã deu cabo desse casal. Como no drama de Almeida Garrett Frei Luís de Sousa, que dantes se estudava no liceu, o primeiro marido afinal ainda estava vivo. “Perdida, desonrada, infame” grita da filha inocente a bígama involuntária quando tal descobre, antes de se fechar num convento a expiar a culpa até ao fim da vida. Para a Alemanha Reunida, o centro da Europa passou a ser a Leste. Tem algum respeito ainda pelo Noroeste protestante, à cabeça os holandeses, heróis de Srebrenica e gente de contas certas; Inglaterra indispensável para equilibrar França que não só descobriu que não manda na Europa (tempo foi em que Kohl dizia que o Chanceler alemão, quando ia ver o Presidente francês, devia começar por fazer três reverências) mas também que nem sequer em si própria manda - com os ingleses a irem-se embora, como é que vai ser? – e os de Sul e Sueste que se arranjem, punidos com cegueira analfabeta, norteada por calendários eleitorais teutónicos. Até à reunificação, a Alemanha Ocidental expiara exemplarmente a sua gigantesca culpa (ajudada por perdão de dívida que afastava fantasias de ir para Leste) mas, depois de reunida, a tentação de ser alemã e não cidadã europeia cruza cada vez mais cabeças, deixando mais nódoas negras nos vizinhos.

 

Enquanto a Europa se afunda. Quando agora o Sultão de Istanbul acusa as potências ocidentais de conspirarem contra ele, as potências em vez de mandarem canhoneiras para o Bósforo desfazem-se em desculpas de mau pagador.

 

 

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Quarta-feira, 29 de Junho de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

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A Nave dos Loucos - Pieter van der Heyden (1562)

 

 

 

 

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“E agora José?”

 

 

 

perguntou Yvonne por SMS (haver quem se lembre de Carlos Drummond a propósito da maioria dos britânicos decidirem de um dia para o outro sair da União Europeia dá logo algum conforto). É pergunta retórica mas eu respondo. Agora, Yvonne, das duas uma: se, dos outros europeus, aqueles a quem a Inglaterra faz falta dentro da União tiverem mais poder do que aqueles que suspiram de alívio por a verem sair dela, tudo irá menos mal no menos mau dos mundos possíveis. Se for ao contrário vamos ter, Você e eu, fim de vida muito mais incómodo do que aquele que havíamos antecipado.

 

Vai ouvir e ler agora toda a espécie de argumentos, vindos de um lado e do outro, mas não será o valor intrínseco de qualquer deles que ditará o futuro mas sim o resultado do confronto de forças indicado acima. É sempre assim. Por exemplo, durante a Guerra (como nós dizemos; para leitoras mais novas, a Segunda Guerra Mundial) uma tarde, no Norte de África, Duff Cooper tentava persuadir Churchill dos grandes méritos de De Gaulle (Churchill, primeiro-ministro britânico e De Gaulle, chefe exilado em Londres das forças francesas livres, não precisarão de apresentação; Duff Cooper foi ministro inglês próximo de Churchill, embaixador em Paris logo a seguir à guerra, biógrafo exímio de Talleyrand e polígamo natural: a mulher, Lady Diana Cooper tinha às vezes de consolar a sua principal amante francesa, Louise de Vilmorin, dos devaneios do marido). A certa altura Winston interrompeu Duff: “Não vale a pena insistires. Tu gostas dele e eu não (You like the man and I don’t)”.

 

É o que se está a passar. Felizmente para quem pense, como eu, que União Europeia, privada de Reino Unido, seria objecto político teratológico, girafa sem pescoço ou touro sem cornos, o chefe de fila dos que lamentam a saída e não a querem apressar é Angela Merkel, ao pé da qual resmungões anti-ingleses de vários partidos e pátrias, sedentos de divórcio litigioso, são pigmeus. Vale a pena ir demorando porque os jogos não estão feitos. O referendo não era vinculativo. Referendos europeus foram repetidos. Danos nos interesses de todos causados por tão egrégia insensatez cega os olhos. Brutidão xenófoba – a começar pelos ingleses – precisa de correcção exemplar. Talvez se possa ainda virar o bico ao prego.

 

Moralistas evocarão Bertolt Brecht: “É preciso dissolver o povo e eleger outro!”. Haverá lembranças diferentes. Em 1999, quando a OTAN ia bombardear a Sérvia, Robin Cook, MNE inglês, disse a Madeleine Albright, MNE americana, que os seus juristas (lawyers) achavam que tal era ilegal. “Get other lawyers” respondeu ela. E na Cidade e as Serras quando os dois homens de Madame de Trèves, o marido, o Conde de Trèves e o amante, o banqueiro judeu David Ephraim, querem convencer Jacinto a investir numa mina de esmeraldas no Ceilão e Jacinto pergunta enfadado Ele há esmeraldas no Ceilão? o banqueiro indigna-se: “Homem, há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!

 

Brexit? Ou talvez não?

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 22 de Junho de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

Philippe Wojazer Reuters.jpg© Philippe Wojazer/Reuters

 

 

 

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Europa sem ingleses ? Não, obrigado

 

 

 

Desde o Tratado de Windsor - e da batalha de Aljubarrota – Portugal e a Inglaterra têm tido relações privilegiadas que resistiram ao ultimato inglês de 1890 e a pressão alemã durante a II Guerra Mundial para que a nossa neutralidade nos impedisse de aceitar a instalação de base militar inglesa (e, depois, americana) na Ilha Terceira dos Açores.

 

Potências marítimas, confrontadas por poderes continentais, demo-nos bem assim quando a Europa passou a ser o centro do mundo e também agora, que a União Europeia já não o é. Na quinta-feira (eleições e referendos são às quintas-feiras no Reino Unido), os ingleses - a escoceses e irlandeses do Norte o problema não se põe -, em inusitada manifestação colectiva de falta de bom senso, poderão optar por sair da União. Não acredito que o façam mas, se o fizerem, Portugal deveria começar a pensar em sair também.

 

Temos recebido muito da União, como tínhamos recebido muito das Comunidades Europeias que a precederam. Sem a Inglaterra, porém, a União será um animal político muito diferente do que é agora, contrário ao nosso interesse.

 

Com o Tratado de Roma de 1957, França, Alemanha, Itália e Benelux criaram a Comunidade Económica Europeia. O Reino Unido - isto é, a Inglaterra - não se quis então juntar aos seis fundadores. Poucos anos depois passou a querê-lo mas De Gaulle opôs-se. O alargamento a Reino Unido, Irlanda e Dinamarca fez-se em 1973; quando Portugal aderiu em 1986, já a Inglaterra era um dos ‘Quatro Grandes’. A chamada Construção Europeia fora possível porque, a seguir a seis anos de guerra, os europeus, sobretudo a Alemanha, estavam de rastos e URSS (potência atómica desde 1949) e EUA partilhavam o domínio do mundo em Guerra Fria. Os EUA protegiam a Europa Ocidental: defendiam-nos da Rússia - e defendiam-nos também uns dos outros. Sem uma Rússia que nos aterrorizava e uma Alemanha de rastos não se teria chegado à União Europeia.

 

A URSS colapsou e a Rússia revanchista de Putin não mete medo que se lhe compare. O terror soviético animava forças centrípetas vitais para a Europa; sem ele medram forças centrífugas de nacionalismo (patriotismo é amor aos nossos; nacionalismo é ódio aos outros, Romain Gary). Entretanto, a Alemanha levantou-se do chão, reunificou-se, fez do Eixo Franco-Alemão a trela com que Berlim puxa Paris, ajeitou os Tratados e, sem Inglaterra a bater-se por liberdade económica, defesa forte a Leste e Sul e bom senso em geral, acabaria obtendo em paz – mais por erros dos outros do que por desígnio próprio – o que lhe escapara nas guerras lançadas em 1914 e 1939: domínio incontestado da Europa.

 

Não há país mais longe do fascismo do que a Alemanha de hoje mas há vigências antigas. A saga da austeridade atasca a economia do Continente, afunda o Sul, divide Norte e Sul, com os alemães convencidos de estarem a fazer bem, por bem. Querem livrar-nos dos nossos Demónios e não entendem que a gente queira livrá-los dos Demónios deles. Assim não.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 1 de Junho de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

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Cem anos depois

 

 

 

Ernst Jünger, autor de diários de guerra célebres na Alemanha e também em França – traduzidos na Bibliothèque de La Pléiade (Tomo I: 1914-1918; Tomo II: 1939-1945), sendo o primeiro considerado por muitos o mais belo livro de guerra e o segundo, onde o autor, já homem feito, hostil aos nazis, deixou para trás a excitação do combate e o horror das trincheiras para ser oficial durante a ocupação alemã de Paris, relata com a mesma franqueza a extrema dificuldade de conservar “a sua integridade num mundo onde verdade e moralidade já não têm qualquer expressão visível” – quando lhe haviam perguntado, nos anos de l’entre deux guerres, qual a impressão mais forte que lhe ficara da Grande Guerra, respondera “A pena de a termos perdido”.

 

Lembrei-me dessa resposta com as comemorações do centenário da batalha de Verdun que durou onze meses, matou oitocentos mil soldados sob as bandeiras alemã e francesa vindos de muitas pátrias - no caso da França bem para lá da Europa e da cristandade – e foi ganha sob a égide do Marechal Pétain que ficou herói nacional – quase à altura de Joana d’Arc no altar patriótico que cada francesa ou francês traz dentro da cabeça – até a Alemanha atacar de novo, 20 anos depois de humilhada pela paz de Versailles, tendo Pétain, guindado a Presidente da República, negociado rendição que deixou a Alemanha a ocupar o país e o governo francês, subalterno, sediado em Vichy. De Gaulle, de cujo filho mais velho Pétain fora padrinho, fugiu para Londres, de lá exortou à rebelião pela BBC, organizou a Resistência e foi condenado à morte à revelia. (Os comunistas só passaram a resistir aos nazis depois de Hitler invadir a Rússia em 1941). Com a vitória Aliada em 1945, De Gaulle, entretanto Presidente, amnistiou Pétain que de Leão de Verdun passara a traidor condenado à morte e acabou a vida preso da Ilha de Yeu. François Mitterand, Presidente socialista eleito em 1981, mandava pôr-lhe flores na campa nos aniversários da sua morte.

 

No Domingo, diante do ossuário monumental que guarda milhares de ossadas desconhecidas franco-alemãs, inaugurado em1932 (condenar o horror da Grande Guerra não impediu os chefes de se meterem noutra), François Hollande e Angela Merkel lembraram erros e crimes passados e avisaram de nuvens negras no futuro. De facto, novos fascismos e racismos de sempre atraem muita gente. Na Europa, fronteiras voltam: só a que separa Chéquia e Eslováquia não foi traçada a sangue. A guerra é tao antiga quanto o homem; a paz é uma invenção recente, disse jurista inglês a meio do século XIX.

 

Felizmente há a Bomba (nuclear) para moderar ímpetos mas quanto mais amigos animarem à toa redes sociais e mais jornais com pés e cabeça forem desaparecendo de bancas e écrans, maiores serão as probabilidades de gente que não sabe nada e julga saber tudo ser posta no poder em eleições livres e limpas e o usar muito mal. O puto coreano já é grande susto; meia dúzia de graúdos democráticos serão o fim da picada.

 

 

 

publicado por VF às 08:00
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