Quarta-feira, 10 de Junho de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

Camoes_-_retrato_de_goa_2b.jpg

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

10 de Junho

 

 

 

“Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo”. Este verso da Feira Cabisbaixa de Alexandre O’Neill ressoa em mim. Tentei ver-me livre dele por via post-moderna — “Portugal é questão que Alexandre O’Neill tem consigo mesmo” — mas, sendo o post-modernismo um rosário de asneiras, a esperteza não me ajudou a sair do labirinto.

 

Alguns anos depois, o homem de teatro Mário Viegas, em campanha para a Presidência da República, lançou esta palavra de ordem: “Europa não. Portugal nunca!”. Também ressoou em mim. Deveria ser adaptada e divulgada em todas as línguas da União. Os europeus – 7% da população, 25% do produto, 50% da despesa social do mundo… E ainda se queixam? – terão de perceber que se não há ninguém melhor do que eles, tampouco eles são melhores do que seja quem for. É claro que píncaros éticos assim são para Espinosas, não para mortais comuns. Mas, se não quisermos outra vez guerras entre nós, é para esse lado que se deve esticar a corda e não para o outro como fazem agora patriotas finlandeses, lepenistas franceses, ukipistas ingleses, tantos outros. (Hoje digo sim à Europa. Sabe-se que, para quem não tenha muita fé, não há nada pior do que ir a Roma; no meu caso, quinze anos de vida em Bruxelas fizeram de um eurocéptico um europeísta. E passei a preferir Portugal sempre a Portugal nunca: sabedoria ou senilidade?)

 

Entre os dizeres de O’Neill e Viegas, Portugal vivera a 25 de Abril de 1974 o seu terceiro grande sobressalto no século XX. Hoje a maioria não se lembra do Estado Novo. António Alçada Baptista, em 1998, escreveu sobre ele: “(…) no tempo do antigo regime vivi com alguma ansiedade a condição de ser português. Não tínhamos liberdade e aguentámos uma guerra colonial que era para mim uma vergonha. O governo tinha tomado conta de todos os valores patrióticos e religiosos e por isso era com muita dificuldade que eu conseguia ter orgulho no meu país”.

 

Era assim nesse tempo com muitos de nós, católicos ou ateus, monárquicos ou republicanos. Ditaduras e guerras dão tratos de polé ao patriotismo. Em 1940, o regime francês de Vichy, presidido pelo marechal Pétain, julgou à revelia o general De Gaulle, refugiado em Londres, e condenou-o à morte por traição à pátria. Por sua vez, em 1945, o regime francês de Paris, presidido por De Gaulle que ajudara a derrotar a Alemanha nazi, condenou Pétain à morte por traição à pátria. De Gaulle, cujo único filho varão era afilhado de Pétain, comutou a pena em prisão perpétua.

 

Na paz e democracia do Portugal europeu de hoje, um inglês da Várzea de Colares - Deus lhe tenha alma em descanso – gabava-se ser o único colunista da imprensa lisboeta que gostava de Portugal; os seus confrades lusos não paravam de dizer mal do país. Alguém lhe explicou. Ele louvava Portugal mas se estrangeiros viessem atacá-lo meter-se-ia no primeiro avião para Londres. Os confrades lusos talvez não gostassem de Portugal mas amavam-no e, se estrangeiros investissem, morreriam por ele. Simples, no fundo.

 

 

 

publicado por VF às 00:42
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

Foto Sonda Cassini.jpg

 Foto Sonda Cassini

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Agora e na hora da nossa morte

 

 

António Alçada Baptista travou-me o braço e disse-me enquanto atravessávamos o foyer do teatro Maria Matos onde nessa tarde havia uma recepção: “Estou a escrever um livro porreirinho sobre Deus”. Eu chegara de Oxford uma hora antes para meia dúzia de dias na Pátria, não nos víamos há meses e assim recebi anúncio da Peregrinação Interior. Da boca do cavalo, dir-se-ia em inglês.

 

Tempo mais simples do que o nosso de hoje. Três séculos intensos de zaragatas europeias tinham acabado em muitos lugares por separar a Igreja do Estado; blasfémia era pecado mas deixara de ser crime. A fé de cada um - como os gostos de cada um - não se discutia. O nazismo fora derrotado e destruído; o comunismo estava cantonado até que o seu próprio peso o fizesse desmoronar. Na Europa Ocidental vingavam decência entre governantes e governados e comedimento na partilha do latifúndio, inéditos na história.

 

O Portugal de O Tempo e o Modo esperava pelo 25 de Abril e o Deus do António era o Deus hebraico de Abraão, Isaac e Jacob, mais tarde também de Jesus Cristo e, mais tarde ainda, de Abu Al Cassem Ben Abdalá Ben Al Mutalibe (Maomé significaria O Glorificado). Os estragos feitos ao longo da história pelo monoteísmo começavam a ser esquecidos em ambiente que André Malraux apreendera bem: “Somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem”.

 

Éramos. Talvez ainda se escrevam livros porreirinhos sobre Deus, nos quais a leitora encontre apreciação da vida, benevolência e tolerância, longe de polémicas teológicas – longe, na aparência, de qualquer teologia. Mas onde hoje mais ouvimos falar de Deus, é nos feitos do Estado Islâmico do Iraque e da Síria ou de Boko Haram na Nigéria, um Deus antropomórfico, primitivo, cruel, sangrento, cujos fiéis oferecem à outra gente conversão ou morte – ou começam matando, se mais jeito der. Nova Iorque, Washington, Londres, Madrid, Paris, Copenhague – a procissão ainda vai no adro. E, em partes da cristandade – por exemplo, na Rússia – igrejas opressivas recuperam poder temporal.

 

Entretanto, a ciência vai mudando o conhecimento do mundo de maneiras tão inesperadas e com tal rapidez que o presente – e não apenas o passado – às vezes é como se fosse país estrangeiro, com língua e hábitos diferentes dos nossos. Mudanças de paradigma sucedem-se em cascata. E a passagem de novas teorias, intuições, palpites, de mentes científicas para entusiasmos leigos faz-se num momento e sem filtro, devido à panóplia de meios de comunicação hoje ao dispor de cada um.

 

Nesta mistura adúltera de tudo, diz-me amigo entendido em coisas americanas, lá quase todos os movimentos feministas debatem o género da divindade, ao ponto de usarem o feminino nas orações. E que Deus seja um robot, nem macho nem fêmea, dados os progressos em inteligência artificial, etc., será decerto sugerido um dia destes. Separando de uma penada o físico do moral; o que é do que deveria ser. Até à guinada seguinte…

 

 

 

publicado por VF às 09:53
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Je suis Charlie 3.jpg

Paris, Place de la République, 11 de Janeiro de 2015 *

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Vidas decentes

 

 

“Il faut de tout pour faire un monde” disse eu, resignado a já não sei que iniquidade. “É por isso que o mundo é tão mal feito”, respondeu o António Alçada.

 

Ocorreu-me essa resposta lapidar do autor de Peregrinação Interior depois de ver, ouvir e ler em resultados de inquéritos que, desde o Papa Francisco até ao Rei da Jordânia, passando por 42% dos cidadãos da República Francesa, muito boa gente acha que os humoristas do Charlie Hebdo assassinados no dia 7 tinham ido longe demais e que os sobreviventes haviam reincidido no número da semana passada, vendido aos milhões. Daí a achar-se que as razões do morticínio inadmissível possam ser entendidas – se um homem insultasse a minha mãe eu dava-lhe um murro, teria dito o Papa a jornalistas – vai caminho curto demais para salvaguarda da decência do nosso viver.

 

Quem sacrifique liberdade a segurança não merece nem uma nem outra, explicou Benjamim Franklin, revolucionário de 1776, um dos” Pais Fundadores” dos Estados Unidos da América, e evoco-o porque quando, a seguir ao massacre, milhões de pessoas ostentando “Je suis Charlie” encheram ruas e praças de Paris e outras cidades francesas, não estavam a subscrever o que os cronistas e caricaturistas do semanário houvessem escrito ou desenhado, estavam a afirmar e a defender o direito que estes tinham de o fazer.

 

Esse espírito, espinha dorsal da França desde a Revolução de 1789, que resistiu à restauração do Império, à Comuna de Paris e à sua punição brutal, ao regime de Vichy durante a Segunda Grande Guerra, mas que nas décadas de prosperidade e paz que vieram a seguir e no marasmo quezilento dos últimos anos parecia ter adormecido, endireitou-se agora quando o estandarte sangrento da tirania se levantou outra vez. Espírito capaz de mover montanhas, muitos conspiram para o abater mas nele reside a esperança da França e da Europa. E toda a conversa de “Je ne suis pas Charlie” , de Charlie ter ido longe demais no insulto a crenças e ideias de outros – neste caso muçulmanos; em casos anteriores cristãos e judeus – é falso remédio que aumenta o mal em vez de o curar.

 

Mesmo que não nos debrucemos sobre lugares onde houve queima da bandeira tricolor (embora se lembre, para exemplo, que no Paquistão as últimas manifestações anti-ocidentais antes destas haviam sido contra a atribuição do prémio Nobel da Paz à pequena que os Talibãs tinham tentado assassinar por advogar educação feminina e que na Chechénia o cacique sanguinolento que lá reina mandou manifestar também) essa conversa ataca a base de sociedades como a nossa: a liberdade de pensar e dizer o que se pensa; o direito à vida quer se creia quer não se creia em Deus. Os dois estão ligados como irmãos siameses: se se restringir a liberdade de expressão para não ofender almas sensíveis que possam ser levadas a assassinar quem faça troça do seu Deus (ou impedir que mulheres saibam ler e escrever), começa a destecer-se o pano em que é talhada a decência do nosso viver.

 

 

 

 

Foto: David Futscher Pereira

 

publicado por VF às 08:51
link do post | comentar | favorito
Domingo, 12 de Junho de 2011

Santos Populares

 

 

 

 São Cosme e São Damião. Objetos de devoção popular.

 


O caso é que, antigamente, o sagrado andava misturado com o profano através da nossa vida quotidiana e tínhamos notícias constantes de um mundo que, em rigor, era habitado por Deus e os santos, os anjos e os demónios, as almas dos eleitos e dos condenados.

 

A relação com os santos era uma espécie de panteísmo. Na imensa policlínica das almas, só Deus Nosso Senhor era de clínica geral e os santos tinham especialidades e, de tal modo que, se você perdia uma libra, era melhor pedir o seu achamento a Santo António do que ao próprio Deus, Nosso Senhor. Este politeísmo assegurava a presença do sagrado: o ateísmo — fiquem sabendo — começa com a teoria e a prática do Deus único.

 

 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias aqui

© Editorial Presença

 

 

 

Imagem: Madeira recortada e policromada; sec. XIX; Diamantina (Minas Gerais) - 76 x 35,5 cm.

in Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

publicado por VF às 15:58
link do post | comentar | favorito
Sábado, 11 de Junho de 2011

A Pátria, o que é? (2)

 

 

 

 

 Rui Chafes, O teu coração está a dormir, não o acordes demasiado cedo*  (2008)

 

 

 

[...] Tenho consciência de que, em idênticos cruzamentos da história, os abismos são muitos e de que algumas gerações que nos precederam, a pretexto de largar para grandes voos, caíram em grandes precipícios. Trata-se duma espécie de «Patologia das Sociedades Civilizadas», título que parece do Dr. Segismundo Freud, se é que não será mesmo dele. Algumas vezes, a rebelião contra as incomodidades sociais exprime-se, inesperadamente, pela sua identificação com as ideologias racionais. Quando, na Alemanha dos fins dos anos 20, princípios dos anos 30, a situação económica se deteriorou, muitos marxistas esfregaram as mãos de contentes porque as profecias de Karl Marx se iriam cumprir. O que aconteceu foi o que se viu: a ânsia duma mudança urgente, as aspirações unicamente dirigidas para o bem-estar material não se ligaram aos desejos de liberdade mas ao fenómeno inverso; ao medo da liberdade; as pessoas identificaram-se com uma forma de dependência duma atitude existencial que trocava a liberdade pelo paternalismo e pela protecção. Elas estavam sensíveis aos apelos feitos ao seu lado emocionalmente irracional, místico e infantil, porque esses apelos vinham reforçar a necessidade de se apegarem a figuras de autoridade que prometiam uma «nova vida».

 

Isto é só para dizer que, ao lado desses abismos, há uma forma sadia de encarar o romantismo, atitude a que, se fosse possível, eu chamaria «ingenuidade controlada», o que equivale a dizer que, muitas coisas em que a gente acreditava estão certas, só que mais ninguém acredita nelas e elas, em certa medida, viviam dessa crença. O Diabo, as almas do outro mundo e todos os fantasmas em geral, habitam um espaço de que eles não são os representantes maiores: esse espaço constituído pelo misterioso e pelo irracional vive da nossa própria crença e não estão dispostos a conviver com quem os recusa. Isto faz parte duma questão maior que é a de uma longa e não sei se eterna contradança entre a natureza e a cultura, nomeadamente quando ela incorporou uma excessiva dose de Razão. Não podemos dispensar a culturização do mundo, mas a verdade é que, desde que a Razão se apoderou dela, a cultura está prestes a destruir-nos, porque não há maior barbárie do que a da loucura da Razão. É então que a natureza reúne as suas forças e dá um grito. Neste mundo, racionalizado e politizado até à exaustão, o romantismo é capaz de ser esse grito que visa um «para além» do político. Hoje, não necessitamos de nenhum discurso político nem que seja o da «desconstrução» do conceito hegeliano do Estado. Necessitamos, isso sim, de um clima de interrogação onde seja possível analisar a metamorfose das condições interiores da alma. Eu sei: a gente diz «alma» e vocês riem-se mas, o que temos mais para enfrentar a barbárie?

 

 


António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias aqui

© Editorial Presença

 

 

 

* peça fotografada por LMD, 2010 (aqui); no âmbito da exposição KHORA, Fundação Carmona e Costa

 

publicado por VF às 00:45
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 10 de Junho de 2011

A Pátria, o que é?

 

 

 

 

 

 

José Pedro Croft, sem título (1988)

ferro, 11x 57 x 57*

 

 

 


[...] A Pátria, sobretudo para aqueles que vivem dentro dela, é uma realidade que nem sempre é fácil consciencializar. Sou daqueles que recuperam com facilidade as fatalidades da fortuna e, talvez por isso, fico muito grato a todos os acasos que fizeram de mim o que sou. A verdade é que não desgosto de mim assim e arranjei comigo próprio uma tal cumplicidade que nunca me zango comigo. Sem vaidade, acho que o acaso nos dá o primeiro verso e que nos cabe a nós fazer o poema.

 

Por isso, gosto de ter nascido na Covilhã, acontecimento que se deu sem me terem pedido opinião. Gosto de Portugal e da língua portuguesa e de tudo aquilo que nos diziam quando éramos pequeninos e nunca ninguém me ouvirá um queixume por ter nascido português.

 

No entanto, nem sempre fui assim: no tempo do antigo regime vivi com alguma ansiedade a condição de ser português. Não tínhamos liberdade e aguentámos uma guerra colonial que era para mim uma vergonha. O Governo tinha tomado conta de todos os valores patrióticos e religiosos e por isso era com muita dificuldade que eu conseguia ter orgulho do meu país. A tentação queirosiana é muito grande e demoramos um pouco a descobrir o que tem de provinciano isto, de gostar de Paris. Como noutro lugar direi, devo ao Brasil as pazes que fiz com a minha Pátria.

 

Hoje, não tenho dúvida que a nossa relação com uma terra e com um povo molda decisivamente aquilo que somos e constitui até uma das poucas barreiras que nos restam para opor à massificação inevitável. Esta relação não é um folclore, nem um anacronismo piegas, nem o tique do tal optimista que vai creditando a seu favor tudo o que lhe vai acontecendo. O que sucede é que a nossa ligação à terra é capaz de ser uma descoberta tardia, nomeadamente para aqueles que, como eu, acreditaram sofregamente nas «luzes» e, por isso, durante algum tempo, tiveram a veleidade de apresentar a sua candidatura a «cidadãos do mundo».

 

Aquilo a que as selectas da instrução primária chamavam «a nossa terra», que os mestres-escola impunham como tema de redacção, é afinal uma realidade que se impõe com veemência e denodo. Não quero esconder que muitos intelectuais que prezo e admiro — o exemplo que me ocorre é o de Krishnamurti — consideravam a Pátria como factor de impedimento à solidariedade humana que deve caracterizar o processo do futuro. O que acontece, é que a sua ideia de Pátria, que, aliás, estava conforme ao entendimento geral da sua época, não tem nada que ver com a Pátria que hoje nos interessa. Naquele tempo, a Pátria tinha dentro de si um fundo belicista que, a partir da defesa da fronteira, pretendia a expansão e o domínio de outros povos. Ora, hoje, a Pátria não pode ser nada disso, mas ao contrário é a consciencialização e o desenvolvimento de uma cultura específica — quase diria de uma «maneira de ser» — que é necessário pôr em diálogo com os outros povos e culturas para a realização do universal. Assim, não é fácil definir a Pátria. Diria que é um tecido de sentimentos, emoções e ideias que cada vez está mais ligado à nossa sobrevivência «cultural» se, com esse nome, quisermos designar a própria sobrevivência do «ser» expresso através daquilo que nos distingue dos outros. Como é que isto se vai resolver num futuro bastante próximo, não sei, porque a identidade de um homem como a identidade de um povo são fenómenos que julgo incompatíveis com a massificação. 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias   p.154-155

© Editorial Presença aqui

 

 

 

* Fotografia de Laura Castro Caldas

Catálogo Arte na Colecção Contemporânea da Fundação Luso-Americana, CAM-FCG, Lisboa 1992

 


publicado por VF às 00:24
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Terça-feira, 17 de Maio de 2011

António Alçada Baptista

 

 

 

aqui

 


O Cláudio Abramo era um grande jornalista brasileiro e um querido amigo meu. De uma delicadeza, de uma inteligência, de uma argúcia raras. Ele era um aristocrata anarquista, mas tinha a mania que era de esquerda e de esquerda revolucionaríssima. Mas a sua figura, a sua educação e os seus modos não davam para tanto.

Ele tinha um lugar de chefia na Folha de São Paulo. Não me posso esquecer do dia em que fui ter com ele ao jornal e pediu a uma menina servente dois cafés. A menina trouxe os dois cafés numa bandeja, mas tropeçou logo à entrada e espalhou os cafés por cima da mesa. Coitadinha, de atrapalhada, pôs-se a chorar. O Cláudio levantou-se e tentou consolá-la com uma ternura e uma delicadeza que nunca mais esquecerei:

— Ó filhinha, isto não tem importância. Nós é que te pedimos desculpa de te fazer vir aqui com os cafés...

A pequena lá ficou menos nervosa, veio limpar a mesa e trouxe outros cafés. A delicadeza desta cena do «revolucionário» com a menina dos cafés nunca mais me saiu da cabeça e é essa a memória que me ficou do Cláudio.

Quando veio o 25 de Abril, o primeiro telefonema que recebi foi dele. Queria que eu fosse trabalhar para a Folha, em São Paulo, pois estava preocupado com a minha sorte em Portugal. Tranquilizei-o. Disse-lhe que ficaria por aqui, que finalmente íamos ter liberdade mas se, por um acaso, viesse uma «democracia popular», que aí sim. Que já não tinha idade nem condição social para viver numa coisa dessas e que não me esqueceria da sua oferta.

Mas o Cláudio não ficou tranquilo. Como o Victor Cunha Rego tinha trabalhado com ele na Folha, resolveu telefonar ao Victor. Disse-lhe:

— Ó Victor, por favor, vocês não matem o António Alçada!...

O Victor respondeu-lhe:

— Vamos lá agora matar o António Alçada! Era o que faltava. A gente não vai matar ninguém...

Então, veio a revolução ao cimo daquele aristocrata nato e disse de lá meio agastado:

— Não matam ninguém! Então que raio de revolução é essa que não vai matar ninguém...

 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias

© Editorial Presença aqui

 

Leia também aqui

 

 

publicado por VF às 13:42
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

Peregrinação Interior

 

Ao receber esta manhã a notícia da morte de António Alçada Baptista, fui reler Peregrinação Interior à procura de um excerto para aqui publicar. Recordava acima de tudo a simplicidade e o sentido de humor com que o autor descreve episódios da sua infância na Covilhã. Ficou para mim como um livro de memórias, um dos meus favoritos de sempre de um escritor português.

 

António Alçada Baptista é um dos escritores que cito em “Retrovisor, um Álbum de Família”. Reencontrei hoje aquelas qualidades intactas, assim como os sorrisos e risos que muitas passagens inevitavelmente convocam. Esquecera por completo as interrogações mais profundas destas “Reflexões sobre Deus” e mesmo o subtítulo deste memorial interior, como lhe chama o autor.

 

 

 

Às vezes penso numa coisa que havia ali na feira popular, em Palhavã, e que era o Poço da Morte. Pagavam-se quinze tostões e os voluntários eram submetidos à força de um vórtice que os fazia subir colados às paredes. Eu nunca tive coragem para me meter naquilo, mas ficava espectador interessado daquela minoria audaz que se entregava livremente à força que a fazia subir. Depois a máquina parava e as pessoas continuavam normalmente coladas ao chão, passeando a sua banalidade somente interrompida.

 

Sinto que um imenso surto vital irrompe na grande comunidade de espaço e de tempo em que estamos imersos. Que ele é feito do esforço dos criadores, santos, poetas e sábios, nomeados ou não, que ao longo dos tempos fizeram dum pequeno sopro interior a epopeia da conquista da verdade e da liberdade que paira ao longo da história como sua e nossa justificação. Sei que para a maioria das pessoas coisas destas nada significam, mas que há outras que fizeram da sua integração nesta epopeia a sua razão de viver. Julgo que Deus estará em mim e eu nele enquanto for capaz de manter esta vontade vital de permanecer na força do seu vórtice criador.

 

 

 

António Alçada Baptista

in Peregrinação Interior I

© Editorial Presença

 

 

publicado por VF às 23:45
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

pesquisar

mais sobre mim

posts recentes

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

Santos Populares

A Pátria, o que é? (2)

A Pátria, o que é?

António Alçada Baptista

Peregrinação Interior

tags

todas as tags

links

arquivos

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Creative Commons License
This work by //retrovisor.blogs.sapo.pt is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Blogs Portugal

blogs SAPO

subscrever feeds