Quarta-feira, 14 de Agosto de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

CaminhadasCaminhadas na Serra de Sintra aqui

 

 

José Cutileiro

 

Se o verniz estalar?

 

Vai para três meses que dei pelos portugueses – ou, pelo menos, os alfacinhas e gentes de seus arredores, outrora saloiada entalada entre mouros e cristãos – contentes, pela primeira vez na minha vida, ao reencontrá-los vindo de fora. E tenho experiência disso: a primeira vez que os reencontrei vindo do estrangeiro tinha dezassete anos; hoje tenho oitenta e quatro e, tirante entre os dezoito e os vinte e oito, quando saí pouco, não tenho deixado de o fazer ano nenhum, amiúde várias vezes por ano. E as reacções não mudaram – ‘Então?’ ‘Estou pior, pá!’; ‘Tudo bem?’ ‘Que remédio…’; Les portugueux sont toujours gueux (Alexandre O’Neill dixit) – durante sessenta e sete anos, desde desembarque de Madrid, achando o Diário de Notícias lido no avião da TAP pessimamente escrito – por razões longas de enumerar tinha estado longe de Portugal nove meses, só levara livros bons comigo e, nessa altura, longe era longe e não vira nenhum jornal lusitano – as pessoas na rua vestidas como se fossem para um casamento e toda a gente com cara de enterro. Essa tristeza iria acompanhar-me seis décadas, sempre que voltava a pôr pé na Pátria.

 

Tudo mudou nesta Primavera, a começar pela tripulação da TAP que me trouxe a Lisboa, gente nova e bem disposta, sem sequer lamúrias quanto à decadência da companhia (e à situação aberrante, acrescento eu, de ainda agora ser ainda um bocadinho da leitora e um bocadinho minha). E outros e outras a ela se seguiram, prestáveis, divertidos, afirmando o seu sotaque entre o dos brasileiros e brasileiras circundantes. É claro que há muitos turistas e também grande quantidade de reformados sobretudo, ao que me dizem, de franceses a quem são dadas aqui condições fiscais bem favoráveis (e porque não? Quando grandes empresas nossas estão sediadas fiscalmente nos Países Baixos e no Luxemburgo em vez de pagarem os seus impostos na ocidental praia lusitana, acho bem que o nosso fisco faça o que possa para trazer para aqui algum dinheiro ganho alhures). Até agora tudo bem – ou so far so good como, por enquanto, quem quiser pode ainda dizer em Hong-Kong sem apanhar com mangueirada de água ou ser despachado para a China a toque de caixa.

 

Mas será que vai durar? Apesar de altos e baixos damos uns novecentos anos de garantia que é muito mais do que o geral dos estados membros das Nações Unidas seriam capazes de fazer. Mas há costumes e maneiras que parecem escondidos agora e poderão reaparecer, impôr-se de um momento para o outro – e está o caldo entornado. O hábito de aldrabar como se fosse a coisa mais natural do mundo (e entre muitos de nós é capaz de ser…). Por exemplo, a naturalidade com que médicos passam atestados falsos para justificarem segundas chamadas. As perenes cunhas para tudo. São teimas antigas: em 1934, quando o meu Pai, finalista de Medicina, fez exame de Obstetrícia, a primeira coisa que o professor lhe perguntou foi: «O Senhor não tem vergonha de vir fazer exame sem uma recomendaçãozinha?»

  

 

publicado por VF às 09:00
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