Quarta-feira, 19 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

bussola

 

José Cutileiro

 

A visão do saguão e o instinto da porta de serviço

 

Quando era diplomata, lembro-me de ter achado de vez em quando que quem mandava em nós - os nossos chefes políticos - abundava nesses atributos pelintras porventura impostos pela miséria da pátria (várias bancarrotas desde o liberalismo monárquico até à república de Abril, sempre vistas como pecaminosas por protestantes do Norte). A visão do saguão e o instinto da porta de serviço não são manhas de pobre – essas também por cá as temos – são, por assim dizer, coordenadas cartesianas do modo subalterno de viver. Vêm juntas com a desconfiança do dinheiro de muitos católicos – por exemplo, do Papa Francisco – e também de muitos comunistas, como aquele, à época secreto no Portugal de Salazar, que me louvava, contristado, comadre sua comerciante, diligente e cada vez menos pobre: «É boa rapariga a Antónia; só tem aquela coisa do lucro…».

 

O contrário absoluto desses atributos também existe e o encontrei: por exemplo, em Pedro Pires de Miranda ao dizer-me, radiante, um dia quando eu entrava no seu gabinete nas Necessidades: «A política externa é óptima: só se têm inimigos !». Mas realidade assim ou sequer tendência no mesmo sentido são raras, o que eu acho estranho porque há na língua, no português que há vários séculos e ainda hoje falamos, pelo menos um sinal forte do contrário. Enquanto em francês se diz garde de corpse em inglês bodyguard, em português diz-se guarda-costas, o que implica que só se for atacado pelas costas um português precisará de outro homem para o ajudar a defender-se. Se o ataque for de frente, bastará ele próprio. Sinal inequívoco do papel constituinte da honra na definição de qualquer português, é curioso que coabite nalguns dos nossos chefes políticos contemporâneos com preocupações maníacas de segurança pessoal. (Mas ao considerar matérias assim, correríamos o risco de resvalar do mundo simples dos valores medievais, com o Bem e o Mal cada um em seu sítio e o Marquês de Sade na Bastilha, antes de esta, assaltada por bandidos armados, ter passado a dia nacional francês e mascote de todos os revolucionários do mundo ao mundo complicado dos nossos dias, cheio de teoremas sem prova, de puzzles a que faltam peças, de chineses que acham ser ainda cedo para avaliar as consequências da Revolução Francesa e daqueles que acham que foi com essa que o caldo se entornou e evitam passar por Paris que continua a celebrá-la sem vergonha).

 

O entre-parêntesis foi longo sem nos levar longe. Que acontece aqui? Florença tem séculos de turistas, milhões desde a segunda guerra mundial, mas não perdeu um átomo de identidade – quem venha de fora que se ajeite. Aqui é confuso: admitem-se imigrantes pobres fazendo seu pé de meia de gorgetas de imigrantes ricos ou não tão pobres quanto eles, e os indígenas mudam maneiras de cozinhar ou de rasgar portas e janelas para inglês (ou francês, ou alemão) ver (e comprar e alugar). ‘Cadê Portugal ?’ perguntaria Balsonaro. É esse o perigo.

 

 

publicado por VF às 11:01
link do post | comentar | favorito

pesquisar

mais sobre mim

posts recentes

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

tags

todas as tags

links

arquivos

Creative Commons License
This work by //retrovisor.blogs.sapo.pt is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Blogs Portugal

blogs SAPO

subscrever feeds