Quarta-feira, 12 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

palavrao

 © drante/iStock

 

José Cutileiro

 

Calão

 

Dizem-me que a gente nova fala com constantes palavrões os quais no meu tempo (e mesmo no tempo do meu filho) seriam impensáveis em tal profusão salvo em pequenas bolsas de proletariado marginal, criminoso e embriagado, ou em meia dúzia de excêntricos e excêntricas bem nascidos para quem a ordinarice no falar era uma maneira de sublinhar superioridade impune. Lembro-me da Madalena Machado Macedo que fazia gala em praguejar como o proverbial carroceiro, no aeroporto de Lisboa de há sessenta anos, a querer entrar para a alfândega, que se via do hall através de grande vidro, para lá esperar o Manuel Eugénio. Guarda-fiscal parou-a dizendo-lhe que era proibido passar. «Porquê ?» «São ordens do Senhor Director.» «Diga ao Senhor Director que eu me chamo Madalena Espírito Santo Mello e passo sempre» respondeu ela e assim o fez. O calão dela, usado sobretudo em conversa com gente da sua roda, era chocante (e divertido) por ser usado por uma mulher, configurando transgressão muito mais severa do que a de um homem. O português, sobretudo o português escrito, língua franca de curas, tabeliões e academias é tão hostil ao calão quanto uma tia solteirona beata. Nesse português, palavrões ou falas sexuais são agressões postas de lado ou mandadas para trás como pedras no arroz ou vinho bouchonné. Talvez de resto se deva a essas restrições a necessidade e o gosto de exagero e espampanância no calão dos jovens. (Definição operacional de jovem: Criatura entre os 12 e os 35 anos, de qualquer dos sexos disponíveis, que se recusa a obedecer ao pai).

 

E é pena porque há histórias, exemplos dir-se-ia dantes, nessas falas interditas e, se a Vera me deixar, ousarei contar duas aqui, ligadas ao atelier do meu chorado Frederico George. Antes dos computadores, ateliers de arquitecto estavam cheios de desenhadores temperamentais e volúveis, entre artesão e artista).

 

No dia de 1968 em que Marcelo Caetano falou pela primeira vez como Presidente do Conselho à Assembleia Nacional eu tinha ido trabalhar com o Frederico para o Palácio Fronteira, onde ele vivia com a mulher, mãe do então Marquês. Para verem Marcelo na televisão, juntaram-se-nos a Maria João Mangualde e dois colegas com quem ela estudava medicina. No fim, depois deles saírem, Frederico perguntou-me: «Você já viu isto ?» «Isto o quê, Mestre?» «Você é doutor por Oxford, e estes estudantecos trataram-no por você!» «Nem reparei, Mestre, e não tem importância nenhuma.» «Ah tem, tem» concluiu o Frederico. «Eu, estas coisas tu cá, tu lá, pontapé na cona, não gosto!» Desenhador seu apaixonara-se por puta de um bordel e vivera lá mais de um mês a procurar tirá-la da vida. Sem sucesso - mas aprendendo, entretanto, novas maneiras eloquentes de dizer coisas.

 

Segundo exemplo. Uma tarde, armara-se no atelier discussão gabarola e animadíssima, sobre comprimentos de pénis. Ao fim de uma hora, Frederico George interveio a arrumar o assunto: «Essas coisas querem-se pequeninas. São para senhoras.»

 

Outros tempos.

 

 

publicado por VF às 09:00
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