Quarta-feira, 17 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

bar-do-ritz

Bar do Ritz, Lisboa

 

 

José Cutileiro

 

Mais um bey de Tunis !

 

 

Prometi ontem ao almoço no bar do Ritz à Vera que ela teria hoje até ao fim do dia, sem falta, na sua casa da rua dos Caetanos, esta folha de bloco-notas, para depois procurar ilustração condigna. Não contei com já não vir a Portugal há quase seis meses, o país ter entretanto mudado, as mudanças serem no geral para pior e uma delas residir exactamente na qualidade do bacalhau à Braz do Ritz, que piorou escandalosamente desde a última vez em que eu o tinha lá ido comer, excursão até ontem sempre feita, de há muitos anos para cá, com o sossego de espírito dado pela certeza antecipada de coisa boa ao fim da viagem. Papa dôce que acabou. Um dos segredos do bacalhau à Braz é a espessura dos bocados de bacalhau que nele se metem com os ovos e a batata finamente cortada. Para se fazer justiça ao nome do prato tem de se sentir o bacalhau mas se este se sente demais, se as fibras são demasiado espessas, estraga-se o equilíbrio dessa joia da nossa culinária, quebra-se o encanto – e foi isso que aconteceu ontem ao almoço no bar do Ritz.

 

O melhor bacalhau à Braz da minha vida foi o do cozinheiro chinês do clube da Covilhã, teria eu uns vinte e cinco anos e ele aí setenta, onde o António Alçada Baptista e a Zezinha me tinham levado a almoçar. O chinês fora trazido de Macau em pequeno por doutor da administração ultramarina e sua mulher, crescera na Covilhã e lá envelhecera, dando aos sócios do clube e aos convidados destes maravilhas culinárias para lá dos costumes da Beira Baixa - o segundo foi o de um homem discreto e simpático, com restaurante onde o mano João me levou um par de vezes em Évora, perto dos arcos baixos do aqueduto e da Rua das Amas do Cardeal, que morreu de repente há anos, tendo o restaurante fechado. A seguir a esses dois sinais de excelência, bem mais abaixo mas ainda bons, espalhados por Portugal, havia vários outros e, em Lisboa, valia-me o bar do Ritz, o qual, a certa altura, me pareceu mesmo estar a querer melhorar ainda.

 

A leitora poderá achar que a partir de receita falhada uma vez só, só se declararia a decadência do país num excesso de arrogância e de cegueira. Permito-me discordar. Aconteceu ao bar do Ritz, com a abundância recente de cada vez mais turistas endinheirados, o que aconteceu ao resto de Lisboa: uma perda de exigência quanto aos seus próprios padrões, sobre os quais a nova clientela não sabe pronunciar-se, deixando nós assim que esta nos deseduque, em vez de sermos nós a ensinar-lhe coisa nova. É pena.

 

E o bey de Tunis? Esse, leitora, vem de Eça de Queiroz que também escrevia para os jornais e um dia, sem lhe ocorrer assunto, resolveu, a despropósito, atacar o bey de Tunis (que ainda por cima acabara de morrer: « Que importa ? Em Tunis há sempre um bey ») – ou pelo menos Eça assim conta a Pinheiro Chagas em polémica a fazer troça dele. No meu tempo adorávamos todos Eça*.

 

*Tirando o meu chorado Carlos Leal que achava Eça um janota do Porto e preferia Camilo Castelo Branco.

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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