Quarta-feira, 10 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

ze-povinho-e-maria-paciencia-

Zé Povinho e Maria Paciência

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Descoberta de Portugal

 

 

Do Presidente da República ao mais modesto estagiário da imprensa, bem como os  animadores de Facebook & Co, toda a gente parece agora ter descoberto que Portugal é como é – e espantar-se, indignada, como se nunca cá tivesse vivido.

 

País de brandos costumes, as pessoas estão a fixar-se mais na brandura do que nos costumes. O facto do Dr. Álvaro Cunhal se ter doutorado em direito quando estava preso, indo dormir à cadeia a seguir a cada dia de provas, lembra-nos que o regime do Dr. Salazar não era como os regimes de Estaline ou Ceausescu, mas não deve fazer-nos esquecer que era, em todo o caso, uma ditadura a qual – mesmo sem contar as atrocidades cometidas em África – estava bem longe de uma democracia parlamentar. Poderia dizer-se de Salazar o que o Papa Urbano VIII disse de Richelieu quando soube da morte dele: «Se há Deus, o Cardeal vai ter muitas contas a prestar. Se não há Deus, levou uma vida bonita.» Moderação deve ser a nossa característica mais vezes evocada e estimada, por portugueses e estrangeiros. Amiga brasileira que enviuvou de português mas continuou a viver aqui, um dia explicou essa decisão assim: «No Brasil, se eu for jantar com um homem tenho de dormir com ele e em Portugal não».

 

Esta moderação ajuda, por exemplo, a que não haja vendetas, mas não anula que cada um deva lealdade suprema à sua família concreta (pai, mãe, filho, filha, irmão, irmã, avós, netos, primos, primas), com o centro em si próprio, e não a um conceito abstrato de estado ou de cidadania. A moral universalista (protestante?) do noroeste da Europa, que me manda ter para com um estranho (ou até para com o meu pior inimigo) obrigações que tenha para com os meus irmão, pai ou filho, soa entre nós como um disparate, quase como um pecado. É uma das razões pelas quais o capitalismo nunca funcionou bem aqui, carregado com lealdades a parentes (e amigos) que tecem teia de obrigações particulares, contrariando a lógica do negócio. Essa carga é também de favores prestados e recebidos. O estatuto de um homem – ou de uma mulher – mede-se muito por ela. Quando, em 1934, o Pai fez exame de obstetrícia, a primeira coisa que o catedrático Professor Moreira, por alcunha «o Moreirinha», lhe perguntou foi :  «O Senhor não tem vergonha de vir fazer exame sem uma recomendaçãozinha ?» As recomendações, as ‘cunhas’, faziam parte do seu capital: quanto mais pedidos satisfizesse, mais favores lhe ficassem a dever,  mais o seu crédito crescia. Aluno que não trouxesse recomendação era hora perdida.

 

A modernidade avança porém e algumas obrigações do capitalismo e da democracia vão a contra-pêlo da tradição. Um homem (ou mulher) honrado tem escolhas dolorosas a fazer, entre regras de convivência que se desvanecem e ditames da busca de eficácia estabelecidos por algoritmos que poucos entendem.

 

Entre compadres cuja ajuda falha e computadores que não dominam bem, portuguesas e portugueses sofrem – e cogitam, à portuguesa, que não há de ser nada.

  

publicado por VF às 09:00
link do post | comentar | favorito

pesquisar

mais sobre mim

posts recentes

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

Santo António de Lisboa

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

tags

todas as tags

links

arquivos

Creative Commons License
This work by //retrovisor.blogs.sapo.pt is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Blogs Portugal

blogs SAPO

subscrever feeds