Quarta-feira, 27 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Xultimatum

Outros tempos

José Cutileiro

 

Pérfida Albion

 

Para crítico perspicaz Theresa May e os seus sucessivos negociadores queriam que acordo comercial perfeito com a União Europeia, soberania nacional pura e nenhuma fronteira com a Irlanda fizessem parte do contrato de saída da União a assinar pelo Reino Unido e os 27 estados membros restantes. Quando, a pouco e pouco, foram percebendo que tal vontade não era realizável sem ajustes que ajeitassem as contradições, já May tomara medidas e fizera declarações desastrosas (exemplos: assim que escolhida para chefe do partido promover eleições que perdeu e, com elas, a maioria absoluta; declarar, repetidamente, que no dealera preferível a um bad dealsem ter percebido que esta negociação não era como as outras; marcar linhas vermelhas exactamente onde precisava de espaço para negociar) que a revelaram incompetente e incapaz de resistir aos Brexiters extremos que, desde Thatcher, atormentam quem mande no partido Tory.

 

Um fraco rei faz fraca a forte gente e a podridão da cabeça chegou ao corpo todo. Colaboradores directos foram-se demitindo e contradizendo, até mesmo na última semana, à qual se chega em estado da maior confusão graças a inépcia de governo de Londres (exemplo: o homem que provavelmente media melhor o que estava em jogo, o embaixador do Reino Unido junto da União à data do referendo, foi expeditamente levado à demissão). O desejo de May de aplacar os Brexiters nunca abrandou: mesmo agora quando um prazo longo de adiamento da data de Brexit faria todo o sentido, limitou-se a pedir 30 de Junho – Brexiters receavam que mais tempo animasse mais compatriotas seus a afinal ficarem na União.

 

A incapacidade política abissal de May não explica tudo. Por um lado, em Ocidente que perdeu o comando do mundo e onde o fosso entre poucos ricos cada vez mais ricos e muitos pobres cada vez mais pobres aumenta dia a dia e com ele o mau viver, os governados estão fartos dos governantes, protofascistas ganham votos e, no Reino Unido, campanha pela saída da União entusiástica e descaradamente aldrabona, levou a melhor de defesa honesta e tíbia do statu quo. (The best lack all conviction while the worst/Are full of passionate intensity).

 

Por outro lado, a percepção do mundo dos ingleses é especial. Não têm Constituição escrita. Lords, o mais célébre terreno de cricket do mundo, conta 5 portas: East Gate, South Gate, North Gate, Grace Gate e Gate Number 6. Universitários desorientam-se para cá da Mancha por ignorarem o comprimento de 1 quilómetro. Antiquário do sul de Inglaterra entrevistado pelo New York Times não sabia há dias que com no deal os móveis que compra em França para vender mais caros em Inglaterra passariam a pagar direitos. Em 1955, quando o mano João andava na Slade School of Fine Arts, pediu num Workers Cafe (os restaurantes mais baratos da altura) bacon and eggs. Resposta: You can have the bacon, you can have the eggs but you can’t have bacon and eggs because it’s Wednesday. Etc.

 

NB Se a leitora achar que o Conselho de Ministros de May é parecido com um Workers Cafe talvez tenha razão. Dez anos depois do fim da guerra, regras de racionamento de comida estavam ainda nas memórias (e algumas em vigor) recorda o meu amigo Fernando. Em país sem Constituição escrita memórias de precedentes fazem lei e às vezes não são bem lembradas.

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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