Quarta-feira, 20 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Favoritas do Soba_ Angola _ Cuanhama - Portugal em Postais Antigos' - postaisportugal_canalblog_com_albums_angola_photos_39954666-cuanhama_html

Favoritas do Sóba, Angola

 

José Cutileiro

 

 

O passado e o presente

 

Desabafo de leitor amigo: «Foi quando se perdeu o respeito pelos mais velhos que começou a dégringolade… afirmo eu agora que sou velho». A leitora terá o seu exemplo preferido desta evidência; eu tenho o meu, não da minha própria experiência de vida mas de bisbilhotices registadas em estudos que alguns querem fazer passar por ciência, aos quais me dediquei quando era novo.

 

Em quase toda a África ao sul do Sara, antes da chegada dos colonos europeus, os velhos mandavam em tudo quanto lhes coubesse na hierarquia da tribo: ficavam com o melhor das colheitas, casavam com as pequenas mais bonitas, dirimiam pendências internas, comandavam os seus contra o mundo. Os brancos trouxeram  muitas mudanças, por exemplo, a autoridade da língua do colonizador (ainda hoje, em Madagáscar, pastores dão ordens às vacas em francês), sendo a mais importante, nisto de velhos e novos, o pagamento de trabalho a dinheiro. O trabalho era e foi por muitos anos, agrícola e mineiro, privilegiando homens novos e robustos, enquanto o dinheiro dos brancos se tornara na única moeda de troca corrente e fiável. De repente, homens novos de origem modesta podiam pagar dotes acima das posses dos velhos mais distintos da tribo. A ordem antiga resistiu simbolicamente, aqui e além (em recantos bucólicos, há reis com trono mas sem poder), mas o grosso das coisas passou a ser regido pela ordem nova donde partiram as élites dos novos países independentes. Os velhos deixaram de constituir uma espécie de Senado da sua terra; sobrevivem esquecidos à mercê da caridade dos novos. Muitos pensarão, como o meu amigo, que a dégringolade começou quando lhes perderam o respeito.

 

Entendo-os mas não simpatizo com a nostalgia. O pitoresco da ordem antiga tinha incómodos. Aquí há 75 anos o meu chorado amigo Carlos Manuel fora a tourada em Santarém com o Fernando e o António Mascarenhas e o Conde da Torre, pai deles. Carlos Manuel deu a certa altura opinião sobre a lide; o Conde, sentado ao lado dele, discordou e deu-lhe uma estalada. Carlos Manuel levantou-se e saiu, no silêncio embaraçado da bancada. Ao fim do dia, no bar do hotel (nesse tempo o mundo era maior e quem viesse aos touros a Santarém ficava a dormir lá) o Fernando e o António foram ter com o Carlos Manuel: «O Pai está incomodadíssimo com o que se passou esta tarde. Vai lá pedir-lhe desculpa».

 

Tudo isto se passava nesta terra de costumes brandos onde Álvaro Cunhal se doutorou na Faculdade de Direito de Lisboa, arguido por Marcello Caetano, indo dormir à prisão e lá ficando depois de doutor e onde o tenente-coronel Majolinha, na Flandres durante a Grande Guerra, sempre que fazia disparar morteiro contra os alemães, rezava para não matar ninguém. Havia muito pior na Cristandade. O Marquês de Custine conta que a sociedade russa do seu tempo estava dividida em 14 classes, podendo os de cada uma delas bater nos das classes inferiores. Isto bem antes do bolchevismo.

 

A dégringolade fez bem a muita gente.

 

 

publicado por VF às 09:00
link do post | comentar | favorito

pesquisar

mais sobre mim

posts recentes

O Bloco-Notas de José Cut...

Santo António de Lisboa

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

tags

todas as tags

links

arquivos

Creative Commons License
This work by //retrovisor.blogs.sapo.pt is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Blogs Portugal

blogs SAPO

subscrever feeds