Quarta-feira, 6 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

mata-hariMata Hari

 

José Cutileiro

 

E se soubessem quem é, o que saberiam ?

 

 

Assim pergunta Álvaro de Campos no começo da Tabacaria (Janelas do meu quarto,/Do meu quarto um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é) e eu pergunto o mesmo quando gente à minha roda se assusta com o que os gigantes do web sabem agora de nós todos. A minha reacção imediata é egocêntrica e narcisistica (‘Querem? Sirvam-se!’ dizia Almada de jornal que bisbilhotara na sua vida privada); a seguir é simplesmente sensata, como a do nosso heterónimo engenheiro.

 

O susto vem da novidade brutal dos meios usados que se modernizam a velocidade inédita de progresso técnico e tem o seu exemplo mais radical na Inteligência Artificial. Quando uma manicazinha esperta, como o Tio Zé Peidinho chamava ao meu gravador, ganha partida de xadrez ao campeão do mundo Casparov e, poucos anos depois, outra manicazinha, mais esperta ainda, ganha partida de go ao campeão oriental desse jogo, mais dificil ainda do que o xadrez, até eu me alarmo. Digo até eu porque sou reformado e portanto relativamente imune a medidas de eficiência propostas por manicazinhas parecidas que despedem pessoal a eito – uma das práticas que vão cavando o fosso entre poucos ricos, cada vez mais ricos, e muitos pobres cada vez mais pobres e levarão por fim, aposto dobrado contra singelo, a broncalina do camandro ou, se a leitora preferir, a Bernardette do caboz.

 

Claro que o mal não vem só do progresso técnico – vem também da iniciativa (ou falta dela) de cada um. Em Portugal onde há muitos anos conheci selfmade men bem feitos, porque tinham tido bons modelos e repeitavam saber antigo (à bilheteira de teatro de zarzuela em Madrid, diante de vendedeira  espampanante, um deles perguntou ao filho «Oh Gérard, como é que se diz ‘colo alabastrino’ em português ?) tais sucessos eram raros e a outra ponta da curva de Gauss às vezes cortava o coração. Perguntei um dia ao Senhor Moreira, de manhã à noite dentro do seu quiosque no largo do Príncipe Real, do lado da faculdade de ciências, que tinha tudo antes de haver lojas de conveniência e estendia um maço de Porto e uma carteira de fósforos ao Ruy Cinatti quando ele lhe dizia «Gluglu e flófló», há quanto tempo ali estava e ele respondeu-me «Há 50 anos, Senhor Doutor. Uma vida inglória».

 

De resto, desde o aparente recato de lugarejos perdidos até ao bulício cosmopolita das grandes cidades comerciais, a espionagem existe desde a origem da humanidade. E técnicas modernas podem às vezes deixar mais peixe sair da rede do que métodos tradicionais. Do ponto de vista de quem espie – e toda a gente, todas as partes que se confrontem em paz ou em guerra, espiam –o melhor será sábia mistura de ambos. Quando o Vasco Valente foi abrir a nossa embaixada em Lusaca, a Teresa, sua mulher, tinha amiga em Salisbury a quem telefonava muitas vezes. Uma noite não conseguia fazer a chamada e ao fim de quase uma hora apareceu na linha voz de homem, redonda e simpática: «Try tomorrow, Madam. Tape recorder out of order».

 

 

publicado por VF às 09:00
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