Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

idosos3

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O que é que vem nos livros que um homem da minha idade não saiba ?

 

 

Assim me explicou pequeno proprietário alentejano o facto de não ir buscar livros à biblioteca itinerante da Gulbenkian que nesse dia visitava a vila, enquanto a filha fora lá direita como fazia sempre. Ele, e tantos outros alentejanos da sua idade e do seu tempo, era um céptico; ela, mais do que outras raparigas da JIC feminina da região que eu tenha conhecido nessa altura, era uma entusiasta. Estava-lhe na massa do sangue, de criança pequena à senhora de idade que agora é, fosse para onde fosse que o intelecto a puxasse. Na JIC era praticante exaltada e intolerante; depois, com a Pátria, metera-se a outras crenças e nos tempos animados da reforma agrária alentejana tornara-se comunista convicta. A última vez que estive com ela - muitos anos depois do PREC e há outros tantos já – era ecologista vibrante, escrupulosa e prosélita como sempre. Não sei se nalguma das suas três fases converteu alguém à fé que tinha na altura; sei, pelo contrário, que havia gente que fugia dela quando a via aproximar-se. Talvez o entusiasmo assustasse as pessoas ; in meso stat virtus diziam os romanos . É extraodinário o número de coisas que gregos e romanos diziam com que nós estamos de acordo – e eles nem pela primeira revolução industrial tinham passado. (Alguém que já tenha tido dores de dentes terá de admitir que aspirina é progresso, o resto…).

 

Ele ficou também como era. Tinha cara que me lembrava caras de fidalgos castelhanos pintados por El Greco no enterro do Conde de Orgaz, de uma tristeza da Europa do Sul que atinge o nadir em partes da Calábria. E, embora não chegando a estatura meã, tinha cara de homem alto. Continuou a arruinar-se lentamente até morrer; o filho há muito casara e deixara a vila, a filha ficou solteira na casa de família. A obstinação do pai estava longe de ser atípica: outro senhor da terra, em princípio com mais obrigações por ser bacharel formado em direito, sentado em esplanada de café vendo passar muito devagar maquinaria rebocada por tractor a caminho de uma curva do Guadiana onde se instalava fábrica de cartão (anos depois submersa graças à barragem de Alqueva)  disse, em parte para mim e em parte urbi et orbi, «Como se eu acreditasse que esta merda serve para fazer papel!».

 

Voltando ao progresso: talvez tenha havido. Há poucos anos, juíza na Malásia, incapaz de averiguar seguramente qual de dois gémeos univitelinos matara um homem, mandou os dois em paz. Exactamente o contrário do que fizera fidalgo francês católico que, no século XIII, derrotara os albigenses, pois uns eram heréticos cátaros e os que o não eram negavam-se a denunciar parentes e vizinhos. O fidalgo foi lapidar: «Matai-os a todos, Deus reconhecerá os seus.» A juíza da Malásia também o foi mas em sentido contrário, mais de acordo com os nossos gostos de agora: na dúvida preferiu poupar um inocente a sacrificá-lo mesmo que assim fazendo tenha poupado um culpado ao castigo devido.

 

 

publicado por VF às 09:00
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