Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Hino pauta

 

 

 

José Cutileiro

 

As luzes estão apagar-se na Europa

 

 

Assim disse estadista inglês no começo da Primeira Guerra Mundial. Esse novo caminho para a escuridão está a ser trilhado agora, de maneira convencida não só na Polónia que parece vítima de maldição perene (Un polonais, un charmeur; deux polonais, une bagarre; trois polonais, la question polonaise, escreveu Voltaire que morreu antes da Revolução Francesa) e na Hungria, onde Victor Orban está metodicamente a enfraquecer democracia parlamentar por  governação autoritária e corrupta, com a cumplicidade do Partido Popular Europeu (que não o expulsa nem autoriza a Comissão Europeia a cortar-lhe finanças, continuando a pretender, contra toda a evidência, que o levará a mudar de rumo a bem) mas também em outros países da Europa de Leste onde se prestam agora homenagens a militares pro-nazis dos anos 30 e 40 do século passado - tratados de criminosos de guerra há  50 anos.

 

Na Europa dantes dita Ocidental a preocupação também é grande. Na Alemanha, talvez de todos os países europeus, aquele em que o apego à democracia parlamentar é maior (salvo na antiga Alemanha de Leste, envenenada à nascença pela mentira que a criara) o partido da Alternativa ganha terreno. Na Itália evoca-se abertamente saudade de Mussolini, e a coligação extrema direita/extrema esquerda que desgoverna agora o país entende-se em pouco mais do que no desprezo da democracia parlamentar e do estado de direito. Na Inglaterra, políticos desnorteados ou mal norteados transformam séculos de grande história to a trouble of fools (com vénia minha a Yeats). Em Espanha, pela primeira vez desde 1975, partido franquista ganha deputados em parlamento regional e lugar à mesa das pessoas de bem da política. Em França, há catorze fins de semanas, os gilets jaunes manifestam em ruas, estradas e rotundas, destroem propriedade, insultam o presidente da república e pedem democracia directa em vez de representativa (os lugares em que democracia directa foi tentada acabaram em ditadura mas ou não sabem isso ou é isso que querem). Paisagem retocada por antissemitismo renascente, que nestas coisas configura o tradicional canário da mina.

 

George Orwell escreveu algures que, de vez em quando, as pessoas queriam o mal, se batiam por ele. Madame de Stäel, no Paris revolucionário, sentira hiato entre políticos e povo, entre quem mandava e quem era mandado, como nunca sentira antes. Cesário Verde faz pensar: A dor humana busca amplos horizontes/E tem marés de fel como um sinistro mar. Mas ao lado de reflexões luminosas depressa surgem feitos medonhos, do terror de Robespierre às matanças de Pol Pot - e é para feitos assim que a Europa se está a pôr a jeito.

 

Portugal parece escapar à maré de fel. Em 1942, na inauguração do Estádio Nacional o governo salazarista fez espalhar de avionete milhares de panfletos rezando em grandes letras O QUE NÓS QUEREMOS É FUTEBOL. Se em inauguração próxima o governo democrático fizesse o mesmo o povo também haveria de gostar.

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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