Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Claude Lanzmann e Simone de Beauvoir2Claude Lanzmann e Simone de Beauvoir

 

 

 

José Cutileiro

 

Desabafos

 

 

Claude Lanzmann, director da revista Les Temps Modernes, onde sucedeu a Jean-Paul Sartre; autor de Shoa, filme-documentário de 10 horas sobre o morticínio dos judeus europeus por nazis alemães e acólitos de outros nacionalidades (a caça ao judeu é passatempo cristão intermitente e antigo) nos anos 30 e 40 do século passado; único amante de Simone de Beauvoir que esta admitiu que vivesse com ela na sua própria casa – apresento estes três feitos por ordem crecente de mérito – escreveu ter percebido desde muito novo estar condenado a uma vida falhada (ratée) por não ter nascido rico. São raras pessoas com essa lucidez e, mais raras ainda, aquelas que, possuindo-a, têm depois a franqueza de dizer o que ela lhes diz a quem as queira ler. Só encontrei a sentença de Lanzmann depois da morte dele, o ano passado, e talvez não tenha sido o único a identificar-me com a sua percepção fatalista. Mas é pensamento incómodo de albergar, sobretudo associado, inevitavelmente quando se pense em Lanzmann - Grande Senhor, ele próprio – e em Shoa, nos destinos dos milhões de pessoas por esse megamassacre consumidas (a maior barbaridade cometida por europeus contra europeus) . Na paz de uma sociedade tolerante que condena o antissemitismo, passados mais de 70 anos sobre os julgamentos de Nuremberg, parecerá mesquinho pôr na ideia que o dinheiro traga felicidade (não traz mas, dizia Bernard Shaw, traz qualquer coisa tão parecida que só um perito será capaz de as distinguir) de tal maneira que lamentar tão fundamente não o ter – e não o ter de nascença, como parte da ordem natural das coisas – dir-se-ia exercício narciso-masoquista antipático, mesmo desprezível.

 

Talvez – mas depois a gente olha à roda e factos incómodos começam a vir ao de cima. Hoje sabem-se muito mais coisas do que os crescidos sabiam quando eu era pequeno e arrumam-se essas coisas também de muito mais maneiras, avivando semelhanças e contrastes. Por exemplo, sabe-se, com números certos e contas feitas, que as 26 pessoas mais ricas do mundo possuem mais no seu conjunto do que metade – metade - da população do globo terrestre – o que, quer eu quer a leitora, deveremos concordar ser um um rôr de gente. Ao mesmo tempo, nos grandes vazios políticos criados nas cabeças pelo fim do comunismo e das esperanças que este levantara – antes de as aniquilar em Moscovo, Beijing, Havana,  Pyong Yang, onde quer que agarrou poder e prometeu amanhãs que cantam – nada ainda medrou capaz de concorrer com as moderações, decentes e sensatas, que equilibravam os pratos da balança a nosso favor no tempo da Guerra Fria. Nas Américas, em África vibram intolerâncias de fundamentalismo cristão. Em Myanmar morreram ilusões sobre o budismo. O Islão descamba demais em violência.

 

Ficam as nossas democracias, a sua mistura de fome, saciedade e esperança que nos dá a todos, incluindo os Lanzmann, um lugar ao sol. Mas se as diferenças abissais de  riqueza não forem reduzidas até estes oasis se sumirão.

 

 

publicado por VF às 09:00
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1 comentário:
De Anónimo a 6 de Fevereiro de 2019 às 17:26
"Só encontrei a sentença de Lanzmann depois da morte dele, o ano passado,"
Fiquei com desejo de saber onde leu a frase, para ir ler o resto do pragrafo, artigo ou livro onde a encontrou ...
Obrigado.

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