Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

brexit cartoon

 

José Cutileiro

 

Pouca paciência

 

                                                                                         

A ministra dos negócios estrangeiros sueca disse não desculpar aos ingleses terem-nos metido a todos numa broncalina do camandro – ou numa Bernardette do caboz, poderia preferir dizer pedante de linguajares alfacinhas mas afinal é o mesmo, salvo para tais pedantes. Cada um tem os seus gostos.

 

E a mulher tem carradas de razão. Os ingleses nunca se habituaram a terem deixado de ser os patrões do mundo, embora tal tivesse acontecido há um século com a Paz de Versailles (oportunamente confirmado em 1945, quando os patrões do mundo passaram a ser os Estados Unidos da América, com a Rússia, durante 70 anos, a tentar roubar-lhes o poleiro) e, de maneira característica, meteram-se a partir de então a sentirem-se ofendidos por não o serem. Partilhar poder custa-lhes mais do que a outros – a «indirect rule» colonial era estratagema hábil: os sobas mandavam nos seus e os ingleses mandavam nos sobas, o que lhes garantia o poder, mantendo os outros com algumas plumas – e na União Europeia nunca perceberam bem o essencial: que, com a Alemanha desarmada e depois pouco armada, eles eram os mais fortes, ofenderam-se com ninharias e, por fim, sobretudoToriesmas também muitosLabour, julgaram que « a Europa» era o que os impedia de serem grandes como antes, em vez de perceberem que era, pelo contrário, o que lhes permitia conservarem parte dessa grandeza. Acompanhado tal estado de espírito permanente por erupções patrioteiras muitas vezes ridículas, a incompetência dos políticos fez o resto.

 

Os políticos são como os vinhos: há anos bons e anos maus. Na Europa, a seguir ao colapso da União Soviética, as colheitas não têm sido das melhores, com gente na sua maioria medíocre no que era dantes a Europa Ocidental e gente hábil na conquista do poder mas fiel às tradições fascistoides do lugar no que era dantes a Europa Oriental, tradições vindas dos anos 20 e 30 do século passado, exemplificadas pelo húngaro Orban e o gémeo polaco sobrevivente. Em Inglaterra, passadas  grandeza de Churchill, nervo de Thatcher e a ‘terceira via’ de Blair (arte de cortar pensões a velhinhas, com boa consciência) vieram pequenezes a coincidirem com o grande debate nacional – e da Magna Carta passou-se a desordem inédita. Salvo nos horrores próprios aos nacionalismos, costumavam-se encontrar nos ingleses mais decência e bom senso do que de costume. Foi chão que deu uvas.

 

Há quem julgue que longos períodos de paz impedem a aparição de grandes homens de Estado mas a ciência política (slow journalism, chamava-lhe o meu amigo Herb) não dá para certezas assim e poucas generalizações que não sejam triviais se poderão fazer a partir dela. É o que temos por agora, depois se verá – e, seja como fôr, «dos Lloyd Georges da Babilónia/Não reza a história nada» lembrou o Poeta, pondo pontos nos is.

 

Voltando aos ingleses. Só conheci um português como eles, juiz que vinha às vezes a Estrasburgo: «Não domino idiomas estrangeiros e sinto-me mal fora do território nacional».

 

 

 

 

publicado por VF às 18:07
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