Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Igreja-Matriz-de-Reguengos-de-MonsarazIgreja Matriz de Reguengos em estilo Bernardino Machado florescente. segundo Octávio Durão

 

José Cutileiro

 

Lembranças de Carlos Leal

 

 

Carlos Martins Pereira tinha veterinário. Não o tinha, porém, como se possa ter um gato ou uma prima-direita. A sua casa agrícola, a Casa Leal, era tão vasta que lhes saía mais barato empregar todo o ano um veterinário full time do que depender do mercado. E porquê Casa Leal se o nome era Martins Pereira (o do médico das Caldas que fora seu pai)? Porque a terra vinha da mãe que a herdara do tio Jaime Leal, solteirão que mantivera serralho de moças do campo (Carlos Manuel, seu sobrinho neto, ao passarmos há uns setenta anos diante de casa arruinada no meio do trigo do Barrocal, disse-me que era o monte onde o tio Jaime fodia). Passagem de monta na saga secular de S. Lourenço do Barrocal que correcção política procurará esquecer ou esconder mas que faz parte tanto ou mais que Catarina Eufémia, da herança de todos os alentejanos, da parte que nos cabe deste latifúndio.

 

Carlos Leal, como o meu amigo era tantas vezes referido, sabia tudo isto e ao seu casulo alentejano fazia de vez em quando recolher amigos menos rústicos  da juventude. Passavam temporadas no conchego de Reguengos o sábio matemático professor do Técnico Mira Fernandes e o Tio João Duarte Silva, um dos mais estimados e estimáveis bêbados, caçadores e jogadores da sua geração («A melhor coisa na vida é jogar e ganhar, e a seguir, jogar e perder», dizia). Quando estavam os dois em Reguengos, o Carlos não precisava de sair: tinha em casa « la Science et la Vie », dizia Octávio Durão, outro pândego local enxertado em Philosophe.

 

O veterinário do Carlos viu-se metido em mexerico local. Durante ausência profissional (a Casa Leal cobria vários concelhos) fanfarrão local, mestre d’obras novo-rico por alcunha o Tranca-Ruas, que em vez de exibir sinais exteriores de riqueza recente, preferia alardear sinais exteriores de pobreza passada, dizia-se comunista,  no café dos ricos pedia um café, tirava de embrulho de papel de jornal, chouriço e pão caseiro que cortava à navalha e comia, tudo com tal alarde que o Carlos dizia, quando viesse o comunismo querer ser criado dele, para o ensinar a comer, para o ensinar a vestir-se; o Tranca-Ruas, pois, teria tido propósitos inaceitáveis sobre a virtude da mulher do veterinário. Informado e ofendido, o veterinário declarara no Clube e no Café que ia «matar o Tranca-Ruas». Reguengos ficou em suspenso. Passaram dias, semanas, um mês. A meio do segundo, Carlos perguntou ao veterinário: «Então você mata ou não mata o Tranca-Ruas?». «Mato o Tranca-Ruas quando tiver acabado de pagar as minhas dívidas». «Muito bem» concluiu Carlos e não se falou mais do assunto.

 

Pena as nações terem menos senso. A França gaba-se de ser o melhor lugar do mundo para comer, amar, pensar, viver. Depois, de vez em quando, franceses acham ser precisa Revolução que mude tudo. Desta vez, pelas bocas desatinadas dos gilets jaunes, apoiados por  marotagem de esquerda e direita : Mélenchon, Le Pen. Irá tudo ao sítio mas custará tempo e dinheiro.

 

 

 

publicado por VF às 19:31
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