Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Caution FS

 

José Cutileiro

 

 

De desejos do bem a práticas do mal

 

 

«All politics is local politics» disse famosamente Tip O’Neill, muitos anos presidente da Camara dos Representantes em Washington, que nunca pôs os pés na Embaixada Britânica porque como todos os O’Neill era descendente de irlandeses e ha ódios de honra que mesmo que não se sintam (deu-se sempre bem com os embaixadores britânicos) se devem simbolicamente significar. Ódios que estão agora a subir de dia para dia em quase toda a parte, numa espécie de moda que de Trump a Bolsonaro, de Erdogan a Putin, de Duterte a Orban, de Le Pen a Salvini, e por aí fora, vão envenenando as relações entre pessoas, tribos, nações e tornando cada vez menos improváveis guerras que os europeus, depois de cinquenta anos no casulo do abrigo atómico fornecido por destruição mútua garantida às mãos de Washington, Moscovo ou ambas durante a paz da Guerra Fria, julgavam tão extintas como a varíola nesta península da Ásia, tão linda que Zeus um dia se transformou em touro para dormir com ela.

 

Não estavam. E, neste ‘cada-um-a-querer-o-seu-e-ou-tudo-ou-nada’, talvez nos devessemos preocupar com nossos filhos e netos. (Embora, a avaliar pelo pouquíssimo que se faz para deixar o Planeta vivável por quem venha a seguir, a ideia de sacrificar prazer de hoje a prazer futuro - sobretudo se esse prazer futuro já não for nosso – não pareça ser regra geral de vida mas mania de muito poucos). Deveríamos, pelo menos, ser capazes de contradizer  as mentiras inventadas  e orquestradas para deitar abaixo decência de viver que, com uma origem distante no lugar do homem no mito cristão, se começou a impôr no Renascimento, a seguir no Iluminismo, ganhou duas Grandes Guerras e, depois do fim da segunda, derrotados nazismo e fascismo, estabeleceu o Plano Marshall e o Pacto do Atlântico e veio a meter o comunismo no caixote do lixo da História.

 

Contra o que Talleyrand julgava, la douceur de vivre é muito maior e chegou a muito mais gente depois da Revolução. Dos seus caboucos fazem parte arranjos constitucionais que enquadram direitos e deveres de quem governe e de quem seja governado. Quando se toca neles – como agora na Polónia e na Hungria – está-se a fazer mal ao Homem, abrindo caixa de Pandora  cheia de víboras. As fake news que nos bombardeiam enfraquecem a defesa da decência, sem a qual a vida seria muito mais dura e brutal mas é difícil acabar com elas. Por exemplo, lembra o historiador-guru israelita Yuval Noah Harari, a Bíblia está cheia delas  e embora sejam raros os que creem ainda que o Mundo começou há 5.760 anos ou que Nossa Senhora concebeu virgem, muitos acreditam em outras inverosimilhanças.

 

Não importa. Metamos entre parêntesis os Deuses de cada um, e ataquemos mentiras sobre o que esteja provado lógica ou empiricamente. Que eu saiba não vingam fake news sobre o teorema de Pitágoras, o princípio de Arquimedes ou as teorias  da relatividade de Einstein - e por aí abaixo. A eito e sem tréguas, senão adeus douceur de vivre.

 

publicado por VF às 09:00
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