Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

lx antes 1755

Maquete de Lisboa antes do terramoto de 1755

 

 

José Cutileiro

 

Escolaridades

 

 

No Inverno de 1968 o Professor Chimen Abramsky vinha às quintas-feiras à tarde de Londres a St. Antony’s College, Oxford, dar seminário sobre Marx, num rés-do-chão-cave, victoriano e lúgubre, aquecido por calorífero a gás, onde escolares do colégio e de alhures vinham ouvi-lo; não muitos e nem sempre os mesmos.

 

Eu fui uma vez e nesse dia o homem - que sabia tudo sobre Marx, sobre Engels e sobre a correspondência entre Marx e Engels – disse que Marx tinha compreendido imediatamente a importância da Comuna Francesa «as such» para a história da Europa. Engels, acrescentou, fora mais lento: «It took him about a fortnight!».

 

Este momento de formação oxoniana talvez tenha sido decisivo para o resto da minha vida profissional. Seguia-se a outros dois, vindos de formação lisboeta. Numa reunião semanal do serviço de psiquiatria dirigido pelo Professor Barahona Fernandes, um doente era interrogado por ele que depois pedia opiniões aos circunstantes – assistentes, outros médicos, estagiários, sentados à roda - e, no fim, fazia o sumário do caso. Quando chegou a minha vez, respondi-lhe que não tinha teoria ou experiência suficientes, nem sequer  era ainda formado e a minha opinião de pouco valeria. «Não, não. Diga.» respondeu Barahona. «Nestas coisas, às vezes, quem está de fora vê melhor».

 

O primeiro dos momentos  decisivos passara-se cinco anos antes, ia eu fazer exame de anatomia descritiva daí a dias com o Professor Soeiro, erudito amigo de amigos meus, os dois lado a lado num urinol da Faculdade. «Sabe que o Flaubert fez uma viagem ao Egito com o Cloquet do gânglio?» perguntei eu. (Há no braço um gânglio com esse nome). «Se era o do gânglio ou não…», respondeu ele, dubitativo. «Havia dois irmãos: o Hyppolite Cloquet e o Jules Cloquet». «O Hippolyte» atirei ao acaso, para acabar a conversa. «Estamos na mesma!» retorquiu o Professor. «Um chamava-se Hippolyte Cloquet e o outro Hyppolite-Jules Cloquet».

 

Estes momentos articulava-os eu para ilustrar a minha falta de paciência para erudição pedante a mais. Durante uns anos, sobretudo nos Estados Unidos,  houve tanto dinheiro disponível para subsidiar a academia que se passaram a dedicar centenas de páginas a temas de cada vez menos importância, a políticos ou artistas bem esquecidos – e troça cínica de gente como eu. Mas bons tempos, os daqueles disparates simpáticos quando comparados com o elogio gabarola da estupidez, da ignorância crassa, da imoralidade que agora campeiam da Casa Branca ao Palácio da Alvorada, para falar só das Américas. Com consequências desastrosas para a gente presente e futura que se vêem já ou que cientistas mais ou menos eruditos já preveêm (Deus os proteja a todos, roguem os crentes).

 

E dou por mim voltado para bemaventuranças da erudiçao. Como o fim de tarde de verão em que o José-Augusto França contou à minha mulher como era Lisboa  antes do terramoto de 1755 desde a porta da nossa casa no alto da D. Pedro V até ao ainda chamado Terreiro do Paço.

 

NB Quanto aos factos: os do Pofessor Abramsky e do José-Augusto França estavam certos; os do Professor Soeiro, errados e os do Professor Barahona vá lá saber-se.

 

publicado por VF às 09:00
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