Quarta-feira, 7 de Novembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Winnie 2

 Winnie Mandela

 

José Cutileiro

 

 

 

Nelson e Winnie

 

 

 

Escrevo no aeroporto Humberto Delgado, sentado numa cadeira de rodas, à espera do avião para Bruxelas, atrasado uma hora. Lembro-me de sessão de propaganda eleitoral de Delgado em Lisboa, em 1958, a que fui com o João Monjardino e o Pedro, seu pai. À saída, Guarda Republicana a cavalo batia nas pessoas a torto e a direito. Poucos anos depois, a PIDE armou cilada ao general, assassinou-o barbaramente e à amante brasileira e enterrou-os mal num descampado espanhol perto de Villa Nueva del Fresno. Hoje, Delgado dá o nome ao aeroporto internacional de Lisboa (e Pedro Monjardino dá o seu a rotunda à beira mar na estrada de Cascais para o Guincho). Há dias em que a gente acredita no progresso moral da História.

 

Amiga que assistira terça-feira a palestra minha sobre Nelson Mandela mandou-me dizer por email: “Faltou a Winnie – por trás de um grande homem há sempre um grande mulher ou há um grande homem apesar da mulher?” Winnie, em cuja modesta casa no Soweto Mandela se instalou vindo da prisão na Província do Cabo para Joanesburgo, merecia palestra ela própria. Quando a conheci, depois de 27 anos com o homem preso, tinha charme e sex-appeal a rodos (tal a Greco de Prévert, ela était faite comme ça. Depois de começo triunfal, a vida não lhe fizera favores. Estudara até onde pudera ir sob a pata asfixiante do apartheid, roubara Mandela à primeira mulher (tiveram duas filhas), militava com tanto entusiasmo quanto ele contra o regime, mas o advogado brilhante, chefe do braço armado do ANC e boxeur amador exímio foi preso, condenado a prisão perpétua por terrorismo e mandado britar pedra para Robben Island.

 

Cá fora ela continuara a luta sem uma fraqueza, sem uma transigência, mais extrema nas suas posições do que o marido como sempre fora e continuaria a ser, mesmo depois do ANC tomar o poder. Prisão, residências fixas, desterros, humilhações impostas pelas limitações cruéis e mesquinhas da legislação racial mirabolante do apartheid. Entretanto ganhara nome, fieis, também oposição no partido – Cyril Ramaphosa  detestava-a e era recíproco – e até uma espécie de milícia de futebolistas amadores que marcava terrenos e matou um miúdo de escola, o que deu processo crime e escândalo grande. E os amantes, que foram muitos (est-ce ma faute à moi?). Mandela disse sempre que fora ele o chefe que abandonara a família, mas as diferenças entre os dois eram incompatíveis e divorciaram-se. Morreu depois dele, com quem mantinha relação pública de amizade e ganhou o seu lugar na História. O lado democrático do ANC que procura construir uma África do Sul decente depois da inépcia de Thabo Mbeki e da corrupção teratológica de Jacob Zuma continua a abominar a sua memória. O lado revolucionário do ANC que quer a expropriação dos brancos e política social ruinosa continua a adorá-la.

 

Quanto a Nelson, teve outras mulheres; o casamento tardio com Graça Machel pareceu trazer-lhe mais felicidade do que qualquer outro. Nestas coisas não há regras.

 

publicado por VF às 09:00
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