Quarta-feira, 10 de Outubro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

tjeerd royaard

© Tjeerd Royaard

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

Quem são os maus da fita?

 

 

Escrevo para este bloco-notas na terça-feira, como faço quase sempre, a fim de enviar à Vera texto pronto para ela escolher ilustração e pôr no ar o seu blog na quarta. Quando aquelas e aqueles a quem o mando directamente o recebem mais tarde, na quinta, às vezes na sexta, a culpa não é da Vera – é minha e só minha. O que faz de mim o mau desta fita – mas não era de mim que eu queria falar agora.

 

Aprendi da leitura do Expresso Curto de hoje que as acções do clube de futebol italiano Juventus subiram imenso quando Ronaldo fora para lá jogar – e desceram há dias quando se soube de desavença sua em Las Vegas com pequena bem formada (julgo que tivesse sido modelo) aqui há anos. Elle m’a dit d’un ton sévère / Qu’est-ce que tu fais là? / Mais elle m’a laissé faire / Les filles c’est comme ça cantava Georges Brassens, mas as raparigas já não são o que eram e, como tudo na América, a diferença exprime-se em dólares. 325.000 nesse caso - foi o que o número 7 tinha amigavelmente pago para a calar mas isso era antes do #MeToo: agora só a destruição moral dele (ou dela: nestes casos as opiniões dividem-se, com bandos ululantes de um lado e doutro, como o caso recente do juiz do Supremo Brett M. Kavanaugh mostrou) será considerada fim aceitável da polémica. Mas também não é ao Ronaldo - ou à pequena – que eu quero chamar mau da fita.

 

A notícia que me fez ouvir campainhas – para pôr a Leitora na calha – foi que o triunfo republicano no caso Kavanaugh fez subir as bolsas mais ainda do que Trump tem feito só por ser Presidente. Imensa gente bem-pensante na Europa e nos Estados Unidos detesta Trump (em parte por ser bruto e malcriado), na África ao Sul do Saará e na Ásia ele é um branco muito mais parecido com os outros brancos do que com africanos ou asiáticos. Mas do nosso lado do mundo, não. Aí (cá) o que conta é que toda a legislação de Trump contra tentativas de salvar o meio ambiente, contra poder sindical que modere ganância do patronato, contra visão económica que vise a diminuir o fosso entre pouquíssimos muito ricos e muitíssimos muito pobres, indigna toda a gente menos os que seriam seus eleitores, se pudessem votar nele do lado de cá do Atlântico. Quem não se vira contra ele é a gente do dinheiro - fazendo orelhas moucas a palavras sensatas e, para encherem os bolsos, metendo-nos a todos cada vez mais no fundo do buraco. E eu que, quando o namorado da filha do milionário lhe diz “eu não trocava a minha consciência pelo seu dinheiro” e o milionário lhe responde “e você pensa que eu trocava o meu dinheiro pela sua consciência?”, estive sempre até hoje do lado do milionário, dou por mim a achar que o pateta do namorado talvez tenha razão.

 

Se o mundo físico se tornar cada vez mais invivível e o mundo social cada vez mais uma luta de “nós contra eles” ou de “eles contra nós” ou de ambos, alguém terá de voltar a meter a capitalistas desenfreados o medo salutar que a União Soviética lhes metia. São eles os maus da fita.

 

 

publicado por VF às 09:00
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