Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

weber-ill-520x485Max Weber

Ilustração de Ragni Svensson 

 

José Cutileiro

 

 

Corrupção, família, crimes

 

 

Quando eu vivia na costa oriental dos Estados Unidos, jornais de Nova Iorque deram notícia da condenação a penas de prisão de personagem importante de Wall Street - e do pai dele. O C.E.O. de um hedge fund cometera delito de iniciados, salvando com este pequena fortuna, dentro da grande que já tinha feito. O pai, cirurgião reformado, evitara a ruína, pois havia posto quase toda a sua poupança nas acções que, avisado a tempo pelo filho, oportunamente vendera.

 

Moral da história em Nova Iorque ou em Londres: procuradores diligentes e íntegros tinham devidamente feito punir dois velhacos que se tinham criminosamente servido de informação privilegiada. Moral da história em Braga ou em Évora: banqueiro pusera amor filial acima de obrigações descoroçoadas impostas pelas manigâncias da bolsa e evitara justamente a ruína do velho.

 

Há mais de um século – ou melhor dito, desde que professor alemão chamado Max Weber publicou um livro chamado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - que historiadores do dinheiro e das ideias procuram lidar com tais contrastes (incluindo os que acham essa tese um disparate pegado e recordam a fulgurância de banqueiros e homens de negócios do Norte de Itália, católicos apostólicos romanos, desde o fim da Idade Média) e que o público leitor em geral e políticos desonestos em particular – o mais notável dentre estes, na última década, sendo Angela Merkel – às vezes se aprazam em proclamar moral a gente do Norte da Europa e imoral a gente do Sul da Europa; mais ao sul passam a ser morais outra vez, se o comportamento ético da Chanceler alemã servir de padrão (de standard, em português contemporâneo). Com efeito, por um lado, a Senhora tratou a insolvência grega como se pecado de todo um povo se tratasse, exigindo castigo até ao pagamento total da dívida (e fazendo indemnizar bancos alemães, parceiros em negócios falhados, com dinheiro destinado a aliviar os gregos) enquanto, por outro lado, considerou centenas de milhares de candidatos a asilo político africanos e asiáticos vítimas de infortúnio exigindo ajuda incondicional.

 

É claro que coisas assim nunca são simples. Por exemplo, a primeira vez que lidei com corrupção, sem lhe dar nome nem conhecer o conceito (e como ‘corruptor’, não como ‘corrompido’) tinha 8 anos. Por razões longas de enumerar fiz a quarta classe de casa do avô em Évora enquanto os pais ficaram em Lisboa. Da Rua da Mouraria, onde vivíamos, à escolinha da D. Maria Prego na Travessa da Capelinha era preciso atravessar a cidade; o avô contratou criado antigo (o Velho Madeira) para me acompanhar. A vergonha que tive perante outros meninos e meninas foi tal que, logo no segundo dia, propus pagar da minha semanada ao Velho Madeira para ele me deixar a meio caminho, na Praça do Geraldo. Ele aceitou logo e assim fizemos, à ida e à vinda, durante todo o ano lectivo.

 

Corrupção ou não? Conheci protestantes entendidos na matéria; nunca me lembrei de lhes perguntar.

 

publicado por VF às 21:06
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