Quarta-feira, 12 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Corinne-ou-l-Italie

Mme de Staël 

 

 

José Cutileiro

 

Guanxi

 

 

O homem da Chicago que, quando a União Soviética se eutanasiou levando consigo o comunismo, julgou que a história tinha acabado – a democracia capitalista viera para ficar per omnia saecula saeculurum– acha agora que a ruptura quase geral entre elites e bases (seria elitista chamar-lhes ralés) que faz parte do dia-a-dia político europeu e norte-americano de há uns dez anos para cá (ninguém vivo se lembra de nada assim e, na história, talvez só Madame de Staël se tenha apercebido de coisa parecida em Paris, no começo da Revolução Francesa) vem das bases se terem zangado por se acharem deitadas ao desprezo. Respeito é do que muita gente sente a falta nas nossas sociedades, julga o homem da Chicago.

 

Respeito é também o que querem mafiosos e ditadores; por isso é capaz mesmo de ser isso que faz falta às bases. Quando brancos pobres desempregados de alguns Estados americanos souberam - microfone ligado por engano - de Barack Obama perceber compungido que eles se agarrassem a Deus ou às espingardas (‘they cling to guns or religion’) e a antipatia por gente diferente, ofenderam-se com essa simpatia condescendente e, nas eleições de 2016, votaram em Trump que acharam parecido com eles na fala e, ao contrário dos doutores do costume, disposto a meter a mão na massa. (Estilos: no começo desta semana quer Obama quer Trump afirmaram ser mais responsável do que o outro pelo baixíssimo grau de desemprego no país). Mutatis mutandis, no Leste da Europa onde décadas de comunismo tinham abafado gosto pelo fascismo herdado dos anos 30, está a passar-se coisa parecida, com chefes políticos a reanimarem nas almas paixões que alguns julgavam extintas, incluindo por Hitler – e na Itália (que voltara a ser do lado de cá), apesar de mais de meio século de Democracia Cristã e de Eurocomunismo, por Mussolini.

 

O bom e o bonito, sobretudo para europeus e americanos convencidos (antes de Lenine querer reservar isso para os seus) de sermos a vanguarda do mundo. A reflexão grega, a moral de Cristo – cada um de nós é infinito e insubstituível – e a experimentação deram-nos aspirina e Estado de direito, isto é, melhor vida que em qualquer outra parte do planeta que já não leva P grande, perdido na Via Láctea, uma de muitos milhares de nebulosas. (“Porque é que a gaja se lembrou de dar uma dentada na maçã? Perdão, Deus seja louvado” – rosnará por ventura algum José Régio de hoje).

 

Porque éramos os melhores. Até Portugal, agora décima democracia do mundo, a querer afastar-se de privilégios injustos, de cunhas e favores que afundam os pobres na pobreza - e medram em sentido contrário ao da liberdade. Existem em todo o mundo, desde Cosa Nostra e seus juízes mortos à bomba até ao Guanxi chinês, a maior rede informal de pressões e favores do nosso tempo que consolida poder de governantes, tolhe iniciativa de governados e impede que a China algum dia se transforme numa democracia. Como a Sicília - mas a China é a maior economia do mundo e quer mandar nele.

 

 

 

 

 

publicado por VF às 11:33
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