Quarta-feira, 29 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 Alexandre O'Neill

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Inveja do Mundo Real

 

 

Pegara em casa num bloco A5 para tomar notas em Agosto (há sempre blocos à minha volta; este é da Presidência Portuguesa da U.E.O. no primeiro semestre de 2.000, tinha eu deixado de ser o manda-chuva lá do sítio há um mês e logo a seguir  a U.E.O. foi extinta) e já tinha com certeza mexido nele. No canto superior direito da primeira página encontrei escrita pela minha mão mas com caligrafia que permite identificar cada letra, a palavra Nietzsche. Devo-a ter posto ali depois de verificar a ortografia no Google, instrumento precioso para quem tenha «linhas mortas» como diria o falecido embaixador António de Faria; deadlines, dir-se-á correntemente porque tal é o caso de quase toda a gente que escreva nestes dias. Instrumento precioso porque poupa não só idas laboriosas a livrarias ou bibliotecas mas também simples viragens de torso na cadeira para o braço alcançar a estante dos dicionários mais utilizados.

 

É claro que nesta terra de poetas haverá muitas e muitos, sobretudo entre gente nova desempregada ou em busca de primeiro emprego, ou em reformados com décadas de tempo para matar à sua frente, a escrevinhar por amor à arte. Mas a vasta maioria dos escribas do nosso tempo (escriba – o que escreve), acocorados ou não, estará mais inclinada a dar razão ao Dr. Johnson, sempre lapidar: «No one but a blockhead would write except for money». O Dr. Johnson, Samuel de sua graça, é especialidade regional inglesa tão típica quanto a ausência de bilhete de identidade, a condução à esquerda ou a falecida Rainha Mãe, née Elisabeth Bowes-Lyon no seio de família fidalga escocesa. A Rainha a que nós chamamos Isabel II não tem uma gota de sangue inglês nas veias, salvo se, como diria Camilo, tiver havido ao longo dos séculos um ou outro capelão atravessado. De resto, o escritor Evelyn Waugh – juntamente com George Orwell um dos dois gigantes da prosa inglesa do século XX – que era profundamente monárquico, era também visceralmente anti-snob porque, dizia, depois de séculos de costumes ligeiros e divórcio impossível, vá lá saber-se.

 

Hoje uso às vezes expressões ou palavras estrangeiras não traduzidas, como aconteceu em blocos anteriores. Traduttore traditore e, além disso, quem leia hoje português, lê algum inglês e às vezes até um resto de francês. Prefiro fazer assim a arriscar-me a tradução, arte muito difícil, com praticantes prestigiosos e astutos (quem fez de The Importance of being Earnest «A Importância de ser Severo» vem logo à mente), monumentos históricos (o primeiro Fausto de Goethe no francês de Gérard de Nerval), divergências insanáveis (em línguas modernas, do grego de A Guerra do Peloponeso) e puro génio (Mais où sont les neiges d’antan,  segundo Alexandre O’Neill: «Ai onde transpira agora/O bom sovaco d’outrora!»).

 

Há mais ainda.A passagem de língua sem escrita para português deu-nos Inveja do Mundo Real, nome de pessoa nascida em PALOP e não frase deliberadamente confusa para comentar em exame de Filosofia.

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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