Quarta-feira, 11 de Julho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Laura Codruta Kovesi
 
 

José Cutileiro

 

 

Dissabores romenos

 

 

 

No começo ou no fim de um daqueles filmes pequenos que o autor de Citizen Kanee de The Magnificent Ambersons produzia e realizava nos últimos anos da vida, que não foi longa – mas começou depressa: tinha 26 anos quando fez Citizen Kane - para ir ganhando algum dinheiro, já não me lembro qual deles, Orson Welles pergunta-nos retoricamente do écran, com o jeito e o charme que nele abundavam, se nós sabíamos como era a receita de omelete de um cozinheiro romeno. No filme ele diz chef, nós agora também dizemos chefe, mas quando o filme foi feito nós dizíamos cozinheiro. Chefe é modernice, assim como estrelas do Michelin e – salvo no Porto, que já era cidade de província da Europa enquanto Lisboa ainda não era nada – servir primeiro as senhoras. E responde ele próprio à pergunta: “First, you steal an egg” – “Primeiro, rouba-se um ovo”. A este propósito, há conselho balcânico, encontrado em várias línguas da vizinhança mas não em romeno que, traduzido para português, rezaria assim: “Depois de apertares a mão a um romeno, conta os dedos.”

 

Lembrei-me disto hoje, por ter lido o que li no New York Times on line (eu, facebook e outros indutores de infantilização dispenso: sentir-me-ia como criança esquecida de que a mãe lhe tinha dito para não falar a estranhos nem responder se eles lhe falassem a ela, mas Google acho utilíssimo porque me poupa tempo e corrige a memória, a qual, diria o meu chorado Raul Miguel, mente ainda mais do que as mulheres). A Roménia, há alguns anos, elegeu presidente da república Klauss Iohannis, chefe de pequeno partido da oposição, membro da sua minoria alemã que, de tão pequena, não assusta ninguém – a minoria incómoda é a húngara, sobretudo quando dá jeito ao populista Orban aliciá-la da sua ponte de comando em Budapeste – e o homem, luterano, sério, organizado até à medula dos ossos, resolveu tentar meter o país na ordem e, para um alemão, a ordem, desde 1945, com demão a Leste em 1989, é democrática. Para isso tem-se apoiado muito na procuradora da república (como nós diríamos) Laura Codruta Kovesi, encarregada de combater a corrupção e fazendo-o com grande sucesso desde a sua nomeação em 2013, animando o povo e a União Europeia mas agastando governo e grandes partidos. Ora a constituição romena dá mais poder ao governo do que ao presidente e, em Fevereiro, o ministro da justiça recomendou ao presidente que a Drª Laura fosse demitida porque excedera o seu mandato e – cereja do costume nestes bolos – estragava a imagem da Roménia no estrangeiro. Durante meses, o presidente disse que não o faria; agora, apertado por artimanha constitucional, fê-lo mesmo, mas a luta continua: vai nomear alguém do mesmo jaez e a Drª, do posto para onde vai, continuará a mandar farpas.

 

Conto isto não por animar sabermos que há pior que nós na U.E. mas sim porque a diferença não é assim tão grande e se não nos pusermos a pau resvalaremos para buraco donde não haverá 25 de Abril (ou 28 de Maio) que nos tire.

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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