Quarta-feira, 4 de Julho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

cova da Moura

Associação Cultural Moinho da Juventude, Cova da Moura

© Rui Palha 2014

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A Amadora é um PALOP

 

 

 

A minha sobrinha predilecta, que fala alemão e russo, andou por essa Europa com Erasmo de Roterdão e, após tese de direito brilhante, é advogada em Lisboa, está indignada por haver tanta gente com “interesse eleitoral em berrar que querem pôr na rua os imigrantes todos já”. Sobretudo em países que não têm imigrantes e até mandam eles próprios emigrantes para partes menos intolerantes do Continente.

 

O que há agora é mau e anima em cada um de nós sentimentos que podem facilmente passar da indignação para a ira - e a ira é má conselheira, se não se quiser fazer mal. ‘A dor humana busca amplos horizontes / E tem marés de fel como um sinistro mar’, escreveu Cesário Verde e hoje à roda dá-se pelas ditas marés, embora me pareça não serem desta vez causadas por dor mas por raiva. Que há mal dentro de cada um de nós toda a gente sabe; que se batam tambores para o fazer sair à rua a dar ares da sua graça, não acontece sempre e na Europa, desde as convulsões que acompanharam o fim da Segunda Guerra Mundial – na Alemanha e á volta dela expulsaram-se milhões de pessoas, último sobressalto da grande matança – tínhamos perdido o hábito e o gosto disso, salvo em lugares precisos – o País Basco espanhol; a Irlanda do Norte – especializados em horror macabro. (Estrada à saída de Belfast, tanta chuva que os cantoneiros se abrigam numa tenda. A lona abre-se, homem encapuçado, a metralhadora engatilhada, pergunta: “Católicos ou protestantes?” Aconteceu).

 

Ódios fraternos adormecidos, partiu-se para o que os franceses gostam de chamar o ódio ao outro – e nada parece abater agora. Comovemo-nos, há três anos, com cadáver de menino turco na praia? Mas pouco ou nada fazemos para impedir que homens, mulheres e crianças continuem a morrer no Mediterrâneo. Na Alemanha, a maré de fel quer dar cabo do  extraordinário exemplo de recuperação cívica e moral de um povo (o dos alemães ocidentais). Nos ‘países de Visogrado’ – Polónia, Hungria, Eslováquia, República Checa – o ódio ao outro, brutal (e ridículo, porque não há ‘outro’), torpedeia tentativa de instalação de democracia e decência. Ninguém quer o comunismo de volta mas a solidariedade humana, maltratada durante décadas, não recupera. Quanto ao nazismo: ao ver a Baviera, rica e sem imigrantes, querer tanto mal ao ‘outro’ fica um homem perplexo.

 

Volto à minha sobrinha, na Amadora. “Tenho contactado muito com questões de imigração no trabalho. E tenho um respeito enorme pela maioria destas pessoas. Ser imigrante legal não é fácil e envolve mais papelada e meses de espera com a vida pendurada do que qualquer ser humano merece (…) Ser imigrante ilegal é não existir. Tentar passar a legal depois de ter começado como ilegal é um calvário (…) Enfim também não digo que temos de aceitar toda a gente só porque temos de aceitar mas esta ‘nova’ Europa não é coisa em que me reveja.

 

Se calhar é porque, como me dizia no outro dia um taxista ‘a Amadora é um PALOP’ e eu afinal nunca vivi na Europa”.

 

 

publicado por VF às 16:32
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