Quarta-feira, 27 de Junho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Italian navy rescue asylum seekersrequerentes de asilo no Mediterrâneo 

Foto Massimo Sestini - 2014

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Regresso aos anos trinta?

 

 

 

Amiga de Torino estima que apreensão dos outros europeus quanto a estabilidade política italiana, por causa de coligação governamental contra natura de partido da extrema-direita (a Liga) e partido de esquerda libertária e folclórica (o 5 Estrelas), não tem razão de ser – muito pelo contrário.

 

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial que não havia país da Europa ocidental mais politicamente instável do que a Itália, com quase um governo por ano. Salvo meia dúzia de génios da arte, os seus políticos, dos mais bem pagos do planeta, eram baratos de ideias, de ideais, de aspecto, de trato e pouco considerados mas ninguém se preocupava com isso porque os fabricantes de luvas eram de primeira classe. Os de luvas e os outros: de roupa, de calçado, de coisas de casa, de automóveis, de joalharia, de vinhos, de comida, de electrodomésticos, de fitas de cinema - e depois há os monumentos e o jeito para agradar: das ruínas de Pompeia, Goethe escreveu no seu diário que tinha havido muitas tragédias na história da humanidade mas nenhuma que dera gosto aos vindouros como aquela.

 

De há poucos anos a esta parte, porém, como em todo o Sul da Europa, a papa-doce acabou-se mas enquanto na Grécia, na Espanha e em Portugal tal não levou a guinada populista para a direita na política - talvez por Salazar, Franco e os coronéis gregos estarem mais próximos de nós no tempo do que está Mussolini, que acabou baleado com a amante e exposto ao público pendurado pelos pés há 73 anos. Seja como for, algumas eleições locais têm realçado ainda mais o poder da Liga e muita gente, incluindo a italiana sagaz com que comecei esta escrita acha que se o país todo voltasse às urnas agora a Liga seria capaz de ter muito mais votos e poder governar sem precisar do 5 Estrelas, contando com apoios da direita da antiga Democracia Cristã. A Itália penderia assim, como aconteceu na Hungria e na Polónia - e parece estar a preparar-se na Áustria, na Eslováquia, na Eslovénia – para uma forma de democracia “musculada”, sistema para o qual alguns comentadores já encontraram nome: democratura.

 

A seguir a 1945, sob hegemonia americana, na Europa do lado de cá da cortina de ferro estabeleceram-se regimes democráticos, aparentemente vigorosos (embora dependessem dos Estados Unidos para sua defesa) e atingiram-se níveis de decência e prosperidade inéditos no mundo. A defesa dos direitos do homem floresceu. O único mal era o comunismo, que ia ser vencido – como foi.

 

Mas o mal não era esse. E o que começou a passar-se depois, está a florescer agora e não se sabe ainda onde irá parar, é uma rejeição dessas décadas de boa-vai-ela e de boas intenções. O ‘outro’ – e milhares de emigrantes por ele - passou a ser o inimigo. A lei do mais forte não perdoa; direitos do homem são luxos de rico. Qualquer dia haverá guerras por perto.

 

Italianos sensatos não querem que este governo caia pois a seguir viria a Liga sozinha. Consigam-no ou não, a Europa vai por mau caminho.

 

 

 

publicado por VF às 12:10
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