Quarta-feira, 23 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Oscar Wilde por Max Beerbohm

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Novos e velhos

 

 

Janus Onyszkiewicz, dissidente polaco virado ministro da defesa no intervalo feliz  entre o fim do comunismo e o regime beato e bruto que está a agarrar a Polónia e a tentar tornar a fazer dela uma penitenciária, disse-me que, nisto de novos e velhos, decidira há muito que todos os que tivessem a sua idade ou menos eram novos e todos os que tivessem mais idade do que ele eram velhos. (Velhos ou velhas; novos ou novas. Para não tornar este escrito uma sucessão de solavancos, tal fica subentendido para todo o texto – salvo evidentemente quando não faça sentido nenhum). À volta da meia-idade que ele tinha na altura esta partilha ajuda a genica de um homem. Uns anos mais tarde, se a cabeça continuar viva, faz dele um velho espirituoso. Mais uns anos ainda e é disparate a evitar por quem não goste que o julguem senil. (Seja como for, há casos impossíveis. Oscar Wilde dizia de Max Beerbohm, escritor e desenhador seu contemporâneo em Oxford, tinham os dois vinte anos, que os Deuses  haviam contemplado Max com ‘o dom da velhice perpétua’, ‘the gift of perpetual old age).

 

Conheci senhor português de mais de 70 anos que chorou de emoção perante tanto progresso científico e técnico quando o sputnik de Yuri Gagarin deu lá em cima um par de voltas à terra e toda a gente cá em baixo soube disso in real time. E um bom meio milénio antes, o navegador Juan Ponce de Leon que, no dia de S. João, morreu à vista de terra a que nenhum europeu chegara antes e que hoje chamamos Florida, entrou na história pelas palavras que então pronunciou: « Gracias te seam mi San Juan bendito, que he mirado algo nuevo ! »

 

Se deste lado da curva de Gauss saltitam velhos vivos da costa, do outro lado dela jazem a espreguiçar-se novos com alma de velho – que podem revelar-se de maneira divertida. Há anos sem fim, estava eu a jantar num restaurante de caça em Hampstead com a minha mulher e casal amigo, todos nós ainda novos (todos portugueses), e falou-se do Brasil, talvez por eu ter estado dias antes em festa londrina de brasileiros e portugueses da qual guardara - e guardo ainda – duas sentenças lapidares. Primeira: uma brasileira disse-me “Vocês si detestam!” (‘Vocês’ eram os portugueses; não só os que estavam ali, todos, em geral). Segunda: tendo eu dito de alguém “É o último dos imbecis”, brasileiro ao meu lado sugeriu “Não diga último; diga penúltimo. Deixe sempre lugar para um cara.” Rimo-nos todos à mesa quando contei dessa festa, o meu amigo sentiu pulsão interior e exclamou: “Gostava de ir ao Brasil!”. Depois parou, calou-se um instante, reflectiu e acrescentou “Não. O que eu gostava era de já ter ido e de ter gostado.”

 

Achei a formulação excelente, contei-a a várias pessoas e agora, meio século depois, de repente, ocorre-me que é sinal de velhice,  confortada por vida bem vivida, mas velhice. Emoção simétrica à de Fernando Pessoa quando se lembra de momento bom da infância e acrescenta: “Era eu feliz então? Não sei. Fui-o outrora agora.”

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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