Quarta-feira, 11 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Hungria,2018

fronteira húngara

 

 

José Cutileiro

 

 

Fronteiras

 

 

 

Tinha quatorze anos a primeira vez que pisei uma fronteira. Foi numa tarde quente de verão em S. Leonardo-Fronteira, entre Mourão e Villa Nueva del Fresno, muito antes do burgo espanhol ficar conhecido por a PIDE ter assassinado brutalmente o general Humberto Delgado e a sua amante brasileira e os ter mal enterrado num campo próximo. (A segunda, três anos depois, foi numa manhã nevada de inverno, no passe do Kyberg, marcado por lápides de regimentos coloniais ingleses do fim do século XIX e começo do século XX – Churchill, a cavalo, andou à bulha por lá - em caminho montanhoso entre Peshawar, no Paquistão, e Jellalabad no Afeganistão onde iamos pernoitar mas isso é outra história e ficará para outro dia).

 

Nesse tempo, a Espanha era mais pobre do que Portugal e a fronteira, que atravessava a estrada numa linha oblíqua, marcava a diferença. Do nosso lado o piso era alcatrão, do lado espanhol, terra batida. Tínhamos ido de Reguengos até lá de passeio, no carro do Dr. José Pires Gonçalves, médico e medievalista amador competente (em Portugal, cada homem, além de ser o que é é outra coisa, e essa outra coisa é o que ele gostaria de ser, escreveu Ramalho Ortigão) com o Dr. José Sereto, Secretário do Tribunal e poeta satírico de mérito (em Portugal, cada homem …) que de pé, diante do alcatrão e da terra batida, recitou « Fronteira » de Miguel Torga, que eu não conhecia.

 

De um lado terra, doutro lado terra;                                                                                                                  

De um lado gente, doutro lado gente;                                                                                            

Lados e filhos desta mesma serra,                                                                                           

O mesmo céu os olha e os consente.

 

O mesmo beijo aqui; o mesmo beijo além;                                                                                

Uivos iguais de lobo ou de alcateia                                                                                             

E a mesma lua lírica que vem                                                                                                       

Corar meadas duma nova teia.

 

Mas uma força que não tem razão,

Que não tem olhos, que não tem sentido,                                                                                             

Passa e reparte o coração                                                                                                                

Do mais pequeno tojo adormecido.

 

 

Fiquei maravilhado. Desde esse dia e durante muito tempo as fronteiras para mim foram isso. Fronteiras políticas entre estados. Portugal e Espanha, Espanha e França, França e Bélgica, Bélgica e Holanda, Holanda e Alemanha, separações que a União Europeia, dentro dos seus limites, estava a conseguir apagar deixando-nos passar de um estado para outro quase sem dar por isso.

 

Há poucos anos, quando grandes imigrações inesperadas começaram a dar mau viver, o quadro mudou de cores. A ‘força’ que Torga verbera nos seus versos, a repartir o coração do mais pequeno tojo adormecido, tem afinal razão, olhos e sentido. Quem não os tinha era Torga e tantas almas mais ou menos poéticas, como a minha, embevecidas com o génio lírico do transmontano e distraidas do que se passava diante dos nossos olhos.

 

 

publicado por VF às 09:00
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1 comentário:
De Luis Eme a 11 de Abril de 2018 às 10:29
Uma das melhores coisas que acontece, ao olhar por este "retrovisor", é que há sempre algo que fica...

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